quinta-feira, 20 de julho de 2017

Quantos são? Quantos são?



 
Cova da Moura
 
Quantos são? Quantos são?
16 DE JULHO DE 2017 00:17
João Taborda da Gama
 
 
Cem por cento da polícia é boa e dois terços dos criminosos são negros – isto era a conclusão a que eu chegaria sobre a criminalidade em Portugal baseado na minha experiência. Só que eu sou branco, e rico, e as conclusões não podem resultar da nossa vidinha. E em rigor ninguém faz ideia se os negros cometem mais crimes nem se há racismo policial em Portugal porque ninguém sabe quantos negros, brancos, asiáticos, há em Portugal.
Cresci no Lumiar, andei em escolas públicas no Lumiar, e tive uma educação sem trela no meio da rua e dos anos oitenta, rodeado de bairros de lata e a droga começava a entrar. Havia tentativas de assalto, à porta da escola, nas traseiras dos prédios, nas paragens do autocarro, na "mata" (hoje a Quinta das Conchas e dos Lilases), nas inúmeras arcadas, passagens e túneis com que a arquitetura dos anos setenta e oitenta nos brindou (ah, Jane Jacobs, se eles te tivessem lido). Dinheiro, relógios, blusões, ténis, carteiras (uma carteira Dunas era um bem raro). As histórias eram diárias. A maior parte das vezes aplicava-se a prevenção: correr e só parar em casa, mudar de passeio, mas sobretudo correr, correr muito. Por vezes, poucas, o confronto. Em algumas, menos ainda, ser assaltado, no meu caso duas. A primeira, um Swatch com uma navalha, um branco franzino, passa para cá o relógio senão.... Passados uns anos, tinha 13 ou 14 ou 15, fui cercado por um grupo de negros, encostado a uma parede com uma navalha enquanto era revistado, se gritares corto-te a piça e não te chibes a ninguém, fiquei sem cinco contos, que levava para o barbeiro, que a minha mãe não tinha mais pequeno, quero esse troco todo quando chegares, não chegou nada.

Da vez dos cinco contos fiz queixa à polícia, orgulhoso do buraco nos jeans feito com a ponta da naifa (ponta e mola), e passei uma noite no carro da polícia a fazer rondas pelos bairros (uma rapariga veio queixar-se da violência do marido e eles disseram, agora temos este rapaz aqui, mas a gente já cá volta para tratar dele e lhe ensinar umas coisas); passado um tempo, fui chamado a reconhecer um dos assaltantes na esquadra, depois o primeiro julgamento na Boa Hora, em que fui metido numa sala com os familiares do dito e tive de desaparecer dali antes de me fazerem o que estavam a dizer que me iam fazer, e por ter faltado ao julgamento, um segundo julgamento em que fui para o tribunal detido pela polícia por ter faltado ao primeiro, passando uma manhã na esquadra de Telheiras, e sendo transportado num daqueles Fiats da PSP com uma prostituta que ia ser julgada por uma coisa qualquer (neste segundo julgamento, já não misturaram as testemunhas com o público). E que grande manhã, a ouvir histórias, a pedir para ver as armas, a ouvir as conversas. E também por isto sempre gostei de polícias, mesmo quando levei aquela bastonada a sair do Benfica-Sporting sobre a qual escrevi neste jornal (Cabeça Limpa).
O que se passou na Cova da Moura é bárbaro. Claro que falta julgar e apurar tudo ao mais ínfimo pormenor, mas não é preciso ser um especialista em processo penal para percebermos que esta acusação não teria saído de ânimo leve, que o Estado tem sempre, e bem, mais cuidado em julgar-se a si próprio. E isso é a primeira lição positiva: que o Estado policiou os seus, que o Estado vai julgar os seus. Mas o que é preciso saber, perceber, pelo menos tentar, é se são casos isolados ou se são estruturais. Ou seja, saber se a violência policial contra negros existe de uma forma diferente daquela que existe contra brancos, se é mais ou menos. Vendo este caso, diríamos que sim, e a reportagem da Fernanda Câncio ontem aqui no DN, impressionante, aponta para racismo e abusos, um excesso de pedidos de identificação e paragens para revistar. Uma versão lusa do "stop and frisk", que nos Estados Unidos tem sido descontinuada por cada vez mais se provar que não reduz a criminalidade e que é usada desproporcionalmente contra jovens negros (aliás, foi inventada para isso).
A consequência da violência policial racista que se lê na reportagem da Fernanda Câncio está com muita força no Killing in the Name, dos Rage against the Machine – quem mata alegadamente em nome da lei, quem violenta só porque tem um crachá, deixa de ser obedecido. E, sem obediência, não há autoridade.
Ninguém duvida de que há racismo em Portugal de vários tipos, mas também daquela pior espécie que é o racista que não crê ser. E isto não é apenas aquele racismo contemporizador de perguntar a todos os africanos nas universidades portuguesas se vão ser ministros quando voltarem para o país deles. É um denial institucional, uma amnésia de Estado, que se crê tão pouco racista que se recusa a saber que percentagem da população não é branca. Dizem que é por uma questão de proteção de dados, por uma questão de proteção da dignidade dos próprios, uma idiotia completa que impede qualquer estudo rigoroso sobre o racismo e a discriminação. Como é que eu posso saber se os negros são discriminados nas entrevistas de emprego, na violência policial, nas condenações em pena de prisão, nos rendimentos sociais, se eu não sei quantos negros há em Portugal?
É desejável estarmos sempre do lado da polícia contra os ladrões, é desejável tentar compreender o que é ser polícia e ser morador na Cova da Moura, mas nunca desculpabilizar o crime que lá existe, o dos moradores e o da polícia. Não, uma mão não lava a outra, ambas estão sujas e ambas têm de ser limpas, na justa medida da sujidade. Nem mais, nem menos. Mas comecemos por saber quantos são. Ou melhor, quantos somos.
 
João Taborda da Gama
 
(publicado originalmente no Diário de Notícias; republicado no Malomil com permissão do autor, a quem agradecemos – obrigado, João!)

terça-feira, 18 de julho de 2017

Mono-manias.

 
 
 
King Kong, 1933
 
 

Emmanuel Fremiet, Ourang-outan étranglant un Sauvahge de Bornéo, 1896
Paris, Galérie de Paléontologie et d'Anatomie Comparée
Fotografia de António Araújo
 
 
 
 
No Jardin des Plantes, em Paris – ou, mais precisamente à entrada da Galerie de Paléontologie et d’Anatomie comparée –, uma estátua enorme e bizarra. Um orangotango estrangula um «selvagem» do Bornéu. Em mármore, a escultura foi feita por Emmanuel Frémiet (ou Fremiet) (1824-1910), célebre pela primeira estátua equestre e douradinha de Joana d’Arc, em Paris, e pelo monumento a Ferdinand de Lesseps, no Suez. Tem também um famoso olifante que está hoje aparcado à frente do Museu d'Orsay e sobre o qual, com calma e vagar, talvez nos venhamos a debruçar um dia destes.  
 
Emmanuel Fremiet, Joana d'Arc, 1874
 
 


Tendo-se dedicado ao desenho e à escultura de animais, a estátua do orangotango e do desafortunado indígena do Bornéu, datada de 1895 (atenção: o ano de publicação de On the Origin of Species by Means of Natural Selection), resultou de uma encomenda do Museu de História Natural de Paris, onde hoje está patente, como se disse, na sua Galeria de Paleontologia e Anatomia Comparada. Aliás, após ter sido feito Cavaleiro da Legião de Honra, em 1878, e membro da Academia de Belas-Artes, em 1882, Frémiet terminou a sua carreira como professor de desenho zoológico no Museu de História Natural. No Jardin des Plantes existe outra estátua da sua autoria, Le Dénicheur d'oursons, que  também evoca a luta dos homens e das feras, mostrando um caçador numa refrega corpo a corpo com um urso possante.
 
Emmanuel Frémiet (1824-1910), fotografado por Nadar
 
 

                                                                           Emmanuel Fremiet, Le Dénicheur d'oursons, 1850
Paris, Jardin des Plantes
Fotografia de António Araújo
 
 
O que é interessante na estátua do orangotango, além da sua brutalidade em movimento, é o facto de ela ter nascido da observação minuciosa, feita por Frémiet, de um orangotango macho e adulto, de nome Maurice, apresentado em 1895 no Jardim d’Aclimation de Paris. Mais ainda: diz-se que Frémiet se inspirou numa obra do grande naturalista britânico Alfred Russsel Wallace (1823-1913), que mostra uma imagem de um combate entre um orangotango e um dayak. Possivelmente, será esta, em baixo, devendo notar-se que Russel Wallace foi um naturalista muito importante, ainda que algo injustiçado pela História (ver aqui) e que, recentemente, esta sua obra The Malay Archipelago foi debatida na Universidade de Coimbra. A relevância do estudo de Wallace sobre os orangotangos ainda hoje dá pretexto para notícias no Telegraph, como esta.
 

 

Orangotango atacado por dayaks, 1869,
Ilustração do livro de A. R. Wallace

 
 
 
         Além do livro de Wallace, diz-se que Frémiet pode ter sido influenciado pela famosa novela de Poe, «Os Crimes da Rua Morgue», saída em França em 1856 com o título Double Assassinat dans la Rue Morgue. Tradução: Charles Baudelaire. Um dado curioso; enquanto crítico de arte, Baudelaire escreverá um artigo intitulado «Salon de 1859» na Revue française em que era muito severo relativamente à escultura gorilesca de Frémiet... dizia, entre o mais, que Frémiet não escolhera um tigre, um crocodilo ou outra besta porque, no fundo, não queria retratar um ser humano a ser devorado por uma fera, mas sim um caso de violação sexual animal.



Baudelaire, c. 1863, tradutor de Poe

 
         O que é facto é que Frémiet trabalhava há muito no reino da macacada. Um notabilíssimo ensaio sobre tudo isso, com muitos gorilas e tudo, pode e deve ser lido aqui, num site oficial australiano.  Em 1849, a chegada a Paris, pela primeira vez, de um esqueleto completo de uma gorila fêmea levou o escultor a fazer uma composição exposta no Salon des Artistes Français, em 1859, em que se mostrava uma gorila fêmea a transportar uma humana fêmea. A escultura chocou o público e seria destruída pouco depois por uns operários de má-fé.

 
Emmanuel Fremiet, Gorille enlevant une négresse, 1859
 
 
         Entretanto, em 1852, o Dr. Franquet, um médico naval, e o capitão Penaud, comandante do Eldorado, tinham trazido para o Museu de História Natural, directamente do Gabão e devidamente acondicionado num barril de álcool, o cadáver de um gorila macho. Além de inspiração para Gorille enlevant une Négresse, serviu de modelo a Frémiet para uma segunda versão da sua obra, desta feita intitulada Gorille enlevant une Femme.  
 
 

 
Emmanuel Fremiet, Gorille enlevant une femme, 1887,
Musée des Beaux Arts de Nantes
 
King-Kong, 1933
 
 
         A escultura de Frémiet foi bem recebida pelo público e pela crítica e valeu ao artista uma medalha de honra. Ainda assim, nunca foi exibida no pudico Museu de História Natural da Cidade-Luz. No entanto. Houve uns espertalhões que perceberam o potencial da coisa, até, porventura, pelas suas veladas, veladíssima, conotações eróticas (já aqui se falou, no Malomil, de Ingagi). Pois logo começaram a circular, incluindo nos Estados Unidos, versões em escala reduzida da escultura de Emmanuel Frémiet. Há quem diga, e até jure a pés juntos, que foi ela o modelo inspirador de King-Kong, que explodiu nos écrans em 1933. E quem somos nós para duvidar?
 
 
António Araújo
 
 

 


 

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Paris, de França.

 
 
Versalhes
Fotografia de Joana Araújo

Paris, de França.

 
 
Versalhes
Fotografia de António Araújo

 

Paris, de França.

 
 
Versalhes
Fotografia de António Araújo

Paris, de França.

 
 
Fotografia de António Araújo

Paris, de França.

 
 
Fotografia de António Araújo

Paris, de França.

 
 
Fotografia de António Araújo

Paris, de França.

 
 
Fotografia de António Araújo

Paris, de França.

 

Fotografia de António Araújo

Paris, de França.

 
 
Fotografia de António Araújo

Paris, de França.

 
 
Fotografia de António Araújo

Paris, de França.

 
 
 
 
Fotografia de António Araújo

Paris, de França.

 
 
Fotografia de António Araújo

Paris, de França.

 
 
Fotografia de António Araújo

Paris, de França.

 
 
Fotografia de António Araújo

Paris, de França.

 
 
Fotografia de António Araújo

Paris, de França.

 
 
Fotografia de António Araújo

Paris, de França.

 
 
Fotografia de António Araújo

Paris, de França.

 
´
Fotografia de António Araújo

Paris, de França.

 
 
Fotografia de António Araújo

domingo, 16 de julho de 2017

Paris, de França.

 
 
Fotografia de António Araújo

Paris, de França.

 
 
Fotografia de António Araújo

Paris, de França.

 
 
Fotografia de António Araújo

Paris, de França.

 
 
Fotografia de António Araújo

Paris, de França.

 
 
Fotografia de António Araújo

Paris, de França.

 
 
Fotografia de António Araújo