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quinta-feira, 30 de janeiro de 2020
terça-feira, 21 de janeiro de 2020
Essa Gente.
Custou, mas valeu. Tive de vencer a
imensa e antiga inveja que nutro por ele, um tipo que tem e teve tudo na vida,
Chico Buarque de Holanda. Perguntem o que falha nele, o que não teve, desde
mulheres a talento para tudo, fama imensa e um olhar verde, inesquecível. Agora
até o Prémio Camões. Não gostei muito de Estorvo
e agora vou ter de ler O Irmão Alemão.
Tudo por causa de Essa Gente, que,
não sendo um assombro dos assombros, é um belo livro, muito devorável num
domingo chuvoso. Ademais, o livro tem o Rio. A prosa, numa observação óbvia,
faz lembrar Rubem Fonseca, outro passeador de melancolias pelo calçadão em
brasa: homens em crise, geralmente de meia idade, quase sempre solitários,
atormentados por si próprios e pelas fantasias do sexo. Essa Gente é também (ou é sobretudo) Bolsonaro, os latifundiários e pecuaristas em
ascensão hegemónica, e o ponto é dado, muito bem dado, em nota subtil e oblíqua,
sem ostentatações de sociologia política ou apontamentos devastadores sobre o
novo velho Brasil. É claro que toda a amargura soa um pouco encenada, para
fazer «literatura», mas o livro está bem escrito, muito bem escrito, cumprindo
a tradição brasileira: transposição para o papel da linguagem oral prenhe de
coloquialismos e palavões cabeludos. Chico é um arguto observador da vida, dos
detalhes das conversações urbanas de nenhuma urbanidade, e mete tudo isso, e o
seu talento, num livro que, mais por distracção do que para reflexão, vale muito
a pena ser lido, sem dúvida alguma. (já agora, excelente recensão de Cristina Margato, no Expresso).
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sexta-feira, 12 de abril de 2019
Força Estranha.
Devemos desconfiar sempre da Chiado Editora,
mas temos todos os motivos para acreditar em Nelson Motta. Não se percebe bem,
aliás, o que está um autor como ele a fazer ali, naquele catálogo. Mas enfim.
Dele já tinha lido o clássico, Noites
Tropicais. Agora, navegar é preciso, é preciso navegar. Pelas histórias
piramidais que este livro tem, Força Estranha é divertido, travesso, apaixonante, sexual. Só não se percebe o motivo
pelo qual a Chiado Editora decidiu manter no tinteiro os acentos, não estranhem
que diversas palavras de Motta não surjam acentuadas. Coisas…
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segunda-feira, 3 de setembro de 2018
quarta-feira, 20 de junho de 2018
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018
46750.
O João Pina já andou muito. Pelas
cadeias da ditadura portuguesa, pelos desaparecidos da Operação Condor e agora
pelo Rio de Janeiro, favelado e violento. O produto do trabalho dos seus anos cariocas está agora em livro, que pode – e deve!
– comprar até 5 de Março (http://46750book.joao-pina.com/). Sim, é publicidade descarada, pois vale a pena. Sobre
o Rio dos morros há um coffee table book interessante, colorido, apelativo,
Inside the Favelas, de Douglas Mayhew. O
livro do João é diferente, muito diferente. Se me permitem, esmagadoramente
diferente – e melhor.
domingo, 21 de maio de 2017
Clarice entrevista Vinicius.
Entrevista conduzida por Clarice
Lispector, publicada na revista Manchete e republicada em seu livro: Entrevistas. Rio
de Janeiro: Rocco, 2007.
* * *
- Vinicius, acho que vamos
conversar sobre mulheres, poesia e música. Sobre mulheres porque corre a fama
de que você é um grande amante. Sobre poesia porque você é um dos nossos
grandes poetas. Sobre música porque você é o nosso menestrel. Vinicius, você
amou realmente alguém na vida? Telefonei para uma das mulheres que você casou,
e ela disse que você ama tudo, a tudo você se dá inteiro: a crianças, a
mulheres, a amizades. Então me veio a idéia de que você ama o amor, e nele
inclui as mulheres.
Que eu amo o amor é verdade. Mas por
esse amor eu compreendo a soma de tosos ao amores, ou seja, o amor de homem
para mulher, de mulher para homem, o amor de mulher por mulher, o amor de homem
para homem e o amor de ser humano pela comunidade de seus semelhantes. Eu amo
esse amor, mas isso não quer dizer que eu não tenha amado as mulheres que tive.
Tenho a impressão que, àquela que amei realmente, me dei todo.
- Acredito, Vinicius.
Acredito mesmo. Embora eu também acredite que quando um homem e uma mulher se
encontram num amor verdadeiro, a união é sempre renovada, pouco importam as
brigas e os desentendimentos: duas pessoas nunca são permanentemente iguais e
isso pode criar no mesmo par novos amores.
É claro, mas eu ainda acho que o amor
que constrói para a eternidade é o amor paixão, o mais precário, o mais
perigoso, certamente o mais doloroso. Esse amor é o único que tem a dimensão do
infinito.
- Você já amou desse modo?
Eu só tenho amado desse modo.
- Mas você acaba um caso porque
encontra outra mulher, ou porque se cansa da primeira?
Na minha vida tem sido como se uma
mulher me depositasse nos braços de outra. Isso talvez porque esse amor paixão
pela sua própria intensidade não tem condições de sobreviver. Isso acho que
está expresso com felicidade no dístico do meu soneto Fidelidade: que não seja
imortal posto que é chama / mas que seja infinito enquanto dure”.
- Você sabe que você é um ídolo para
a juventude? Será que agora que apareceu o Chico, as mocinhas trocaram de
ídolo, as mocinhas e os mocinhos?
Acho que é diferente. A juventude
procura em mim o pai amigo, que viveu e que tem uma experiência a transmitir.
Chico não. É ídolo mesmo, trata-se de idolatria.
- Você suporta ser ídolo? Eu não
suportaria.
Às vezes fico mal humorado. Mas uma
dessas moças explicou: é que você, Vinícius, vive nas estantes de nossos
livros, nas canções que todo mundo canta, na televisão. Você vive conosco, em
nossa casa.
- Qual é a artista de cinema que você
amaria?
Marilyn Monroe. Foi um dos seres mais
lindos que já nasceram. Se só existisse ela, já justificaria a existência dos
Estados Unidos. Eu casaria com ela e certamente não daria certo porque é
difícil amar uma mulher tão célebre. Só sou ciumento fisicamente, é o ciúme de
bicho, não tem outro.
- Fale-me de sua música.
Não falo de mim como músico, mas como
poeta. Não separo a poesia que está nos livros da que está nas canções.
- Vinicius, você já se sentiu sozinho
na vida? Já sentiu algum desamparo?
Acho que sou um homem bastante
sozinho. Ou pelo menos eu tenho um sentimento muito agudo de solidão.
- Isso explicaria o fato de você amar
tanto, Vinícius.
O fato de querer me comunicar tanto.
- Você sabe que admiro muito seus
poemas, e, mais do que gostar, eu os amo. O que é a poesia para você?
Não sei, eu nunca escrevo poemas
abstratos, talvez seja o modo de tornar a realidade mágica ao meus próprios
olhos. De envolvê-la com esse tecido que dá uma dimensão mais profundo e
consequentemente mais bela.
- Reflita um pouco e me diga qual é a
coisa mais importante do mundo, Vinicius.
Para mim é a mulher, certamente.
- Você quer falar sobre sua música?
Estou escutando.
Dizem, na minha família, que eu
cantei antes de falar. E havia uma cançãozinha que eu repetia e que tinha um
leve tema de sons. Fui criado no mundo da música, minha mãe e minha avó tocavam
piano, eu me lembro de como me machucavam aquelas valsas antigas. Meu pai
também tocava violão, cresci ouvindo música. Depois a poesia fez o resto.
Fizemos um pausa. Ele continuou:
Tenho tanta ternura pela sua mão
queimada...
(Emocionei-me e entendi que este
homem envolve uma mulher de carinho). Vinicius disse, tomando um gole de
uísque:
É curioso, a alegria não é um
sentimento nem uma atmosfera de vida nada criativa. Eu só sei criar na dor e na
tristeza, nem mesmo as coisas que resultam sejam alegres. Não me considero uma
pessoa negativa, quer dizer, eu não deprimo o ser humano. É por isso que acho
que estou vivendo num movimento de equilíbrio infecundo do qual estou tentando
me libertar. O paradigma máximo para mim seria: a calma no seio da paixão. Mas
realmente não sei se é um ideal humanamente atingível.
- Como e que você se deu dentro da
vida diplomática, você que é o antiformal por excelência?
Acontece que detesto tudo o que
oprime o homem, inclusive a gravata. Ora, é notório que o diplomata é um homem
que usa gravata. Dentro da diplomacia fiz bons amigos até hoje. Depois houve
outro fato: as raízes e o sangue falaram mais alto. Acho muito difícil um homem
que não vota ao seu quintal, para chegar ou pelo menos aproximar-se do
conhecimento de si mesmo.
- Como pessoa, Vinicius, o que é que
desejaria alcançar?
Eu desejaria alcançar outra coisa.
Isso de calma no seio da paixão. Mas desejaria alcançar uma tal capacidade de
amar que me pudesse fazer útil aos meus semelhantes.
- Quero lhe pedir uma favor: faça um
poema agora mesmo. Tenho certeza de que não será banal. Se você quiser,
Menestrel, fale o seu poema.
Meu poema é em duas linhas: você
escreve uma palavra em cima e a outra embaixo porque é um verso. É assim:
Clarice
Lispector
Acho lindo o teu nome, Clarice.
Clarice
Lispector
Acho lindo o teu nome, Clarice.
- Você poderia dizer quais as maiores
emoções que já teve. Eu, por exemplo, tive tantas e tantas, boas e péssimas,
que não ousaria falar delas.
Minhas maiores emoções foram ligadas
ao amor. O nascimento de filhos, as primeiras posses e os últimos adeuses.
Mesmo tendo duas experiências de quase morte – desastre de avião e de carro –
mesmo essa experiência de quase morte nem de longe se aproximou dessas emoções
de que te falei.
- Você se sente feliz? Essa,
Vinicius, é uma pergunta idiota, mas que eu gostaria que você respondesse.
Se a felicidade existe, eu só sou
feliz enquanto me queimo e quando a pessoa se queima não é feliz. A própria
felicidade é dolorosa.
Meditamos um pouco, conversamos mais
ainda, Vinícius saiu. Então telefonei para uma das esposas de Vinicius.
- Como é que você se sente casada com
Vinicius?
Ela respondeu com aquela voz que é um
murmúrio de pássaro:
“Muito bem. Ele me dá muito. E mais
importante do que isso, ele ajuda a viver, a conhecer a vida, a gostar das
pessoas”.
Depois conversei com uma mocinha
inteligente:
“A música de Vinícius",
disse ela, “fala muito de amor e a gente se identifica sempre com ela”
- Você teria um “caso” com ele?
Não porque apesar de achar o Vinícius
amorável, eu amo um outro homem. E Vinícius me revela ainda mais que eu amo
aquele homem. A música dele faz a gente gostar ainda mais do amor. E de
“repente”, não mais que de repente”, ele se transforma em outro: e é o nosso
poetinha como o chamamos.
Eis pois alguns segredos de uma
figura humana grande e que vive a todo risco. Porque há grandeza em Vinícius de
Moraes.
sábado, 13 de maio de 2017
Simpósio com os Imortais.
Sei que foi numa quinta-feira de Maio
ou Junho de 1976, mas não sei especificamente a data precisa. Encontrando-me no
Rio de Janeiro em ano sabático, vi-me um dia convidado a assistir à sessão de
chá das quintas-feiras da Academia Brasileira de Letras, a convite do escritor
e académico maranhense Josué Montello, que viria a ser Presidente da Academia
entre 1993 e 1995. O convite deve-se ao facto de eu haver travado conhecimento
com uma filha de Josué Montello, por ocasião de uma comunicação feita por mim
na Universidade Federal Fluminense em Niterói, e de, com ela e o genro do
ilustre académico, ter passado um domingo em Teresópolis, na opulenta casa de
campo de um ricaço construtor luso-brasileiro, vago parente meu, por via materna. Embora quase
semi-analfabeto, esse “vago parente meu” podia dar-se ao luxo de hospedar na
sua vivenda pessoas de alto gabarito, tais como a filha e o genro do “imortal”
Josué Montello, sendo o genro advogado e vereador da Prefeitura do Rio de
Janeiro, a quem aliás o “vago parente meu” tinha doado uma boa parcela de
terreno para eles poderem construir uma casa de campo junto da dele, em
compensação de rotineiras e inócuas facilidades burocráticas com que o jovem
advogado e vereador o tinha mimoseado.
Quando cruzei os umbrais da casa de
Machado de Assis (era assim também chamada pelo facto de o autor de Dom
Casmurro ser um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e o seu
primeiro Presidente, em regime de perpetuidade), já quase todos os imortais
(quarenta, à imitação da prototípica e celebrada Academia Francesa), os membros
correspondentes estrangeiros (vinte, segundo os estatutos) e os convidados
desse dia aí se encontravam. Introduzido imediatamente na Sala de Chá pelo meu
anfitrião, Josué Montello, fui por ele apresentado ao Presidente da Academia
dessa época, Austregésilo de Athayde. Seguidamente, uma após outra, enquanto
tomava o meu chá e circulava na sala, vim a descobrir uma série de rostos
conhecidos, uns pessoalmente – Adriano Moreira, membro estrangeiro da Academia
- e outros de fotografia e de televisão: Marcello Caetano, Hermano Saraiva
(então exilados no Brasil, como Adriano Moreira), Cyro dos Anjos e João Cabral
de Melo Neto, ambos membros da Academia e escritores, naturalmente: romancista
o primeiro e poeta o segundo.
Por meio de Adriano Moreira, que
conhecera nos Estados Unidos e via com alguma frequência no Rio de Janeiro,
onde ele vivia com a família, e de quem me tornara amigo, já sabia que ele
andava de candeias às avessas com os outros dois membros correspondentes
estrangeiros portugueses: Marcello Caetano e Hermano Saraiva. Pelo meu lado, de
bem com todos eles, a todos cumprimentei e com todos troquei algumas
impressões, não podendo esquecer a cortesia e a afabilidade com que Marcello
Caetano e Hermano Saraiva tiveram a gentileza de me tratar, tendo-me o primeiro
dito, para grande ... e agradável surpresa minha, modéstia à parte, que tinha
lido “com gosto e proveito” alguns artigos meus e a minha edição do Cancioneiro
de Dona Cecília de Portugal, publicados na revista Ocidente, de Lisboa, e
tendo-me dito o segundo que estava à espera da publicação da minha tese de
doutoramento sobre Fernão Álvares do Oriente, de que ele tinha lido um excerpto
e a conclusão, publicados no suplemento literário do Diário Novidades,
de Lisboa: que achava interessantíssimas e de grande relevância as referências
de Fernão Álvares a Camões. (Apresso-me a proclamar alto e bom som, entre
parêntesis, que ardentemente espero que essas leituras de Hermano Saraiva em
nada tenham contribuído para ele vir a engendrar aquela coisa fantasista, mal
parida e malfadada que dá pelo nome de Vida Ignorada de Camões. E entre
parêntesis também, e em nome da justiça equitativa, apresso-me a contrabalançar
esta observação com um facto de certa importância: a contribuição de Hermano
Saraiva para levar ao conhecimento das grandes massas do público português
tesouros ignorados da cultura plurissecular portuguesa, através de programas
televisivos bastante apreciados pelo seu carácter popular.)
Nessa tarde de chá na Academia
Brasileira de Letras, Cyro dos Anjos repetiu-me oralmente, muito sensibilizado,
acentuava ele, o que já me tinha dito por carta, em referência a um
artigo meu sobre o seu romance Abdias, que tinha sido publicado
no suplemento literário de um jornal de Moçambique, graças à amabilidade de
Montezuma de Carvalho, juiz em Lourenço Marques, que eu conhecera no Verão de
1972, por ocasião da minha longa visita a Angola e a Moçambique. Aproveitei
também esse breve encontro com o prestigioso jornalista, com o alto funcionário
público, a nível estadual e federal, e com o professor universitário, para lhe
dizer do enorme interesse com que os meus alunos e eu líamos e analisávamos nos
cursos de literatura brasileira o seu romance mais conhecido: O
amanuense Belmiro.
Com João Cabral de Melo Neto, troquei
algumas impressões sobre a sua poesia granítica e, principalmente, sobre o
prazer com que os meus alunos e eu líamos o seu nunca por demais celebrado
poema dramático: Morte e Vida Severina. Tendo-lhe
perguntado quando teríamos novo livro seu, obtive como resposta um lamento
inesperado e meio bizarro. É que, por esse tempo, ele tinha praticamente a musa
em férias, por se ver forçado a pagar um alto preço pelas honras de ser no
Senegal o decano do corpo diplomático, uma vez que esse cargo, que ele
acumulava com o de embaixador na Mauritânia, no Mali e na Guiné-Conakry, lhe
consumia todo o tempo que, noutras circunsâncias e noutros países, seria de
lazer, querendo dizer com isso que se via obrigado a prestar toda a espécie de
serviços, de primeira necessidade, sobretudo aos embaixadores caloiros, a
começar pelo alojamento e a acabar pela procura de produtos alimentícios e de
gasolina para os automóveis.
Com uma simplicidade exemplar e com a
cortesia que distingue os diplomatas brasileiros, justamente orgulhosos por
fazerem parte de uma escola de diplomacia, a do Itamaraty ou Casa de Rui
Barbosa, que pede meças à do Vaticano e à do Palácio das Necessidades, João
Cabral de Melo Neto emocionou-se ao lembrar-lhe as apoteoses acontecidas em teatros de Lisboa, Coimbra e Porto,
por ocasião da representação da sua Morte e Vida Severina. É que no
final da representação tinha sido ovacionado e levado em ombros por actores e
membros da assistência.
Voltando aos três membros
correspondentes portugueses, presentes nessa sessão de chá das quintas-feiras
da Academia Brasileira de Letras, quero frisar apenas uma faceta peculiar da
personalidade de Adriano Moreira que eu já conhecia, mas que fiquei a conhecer
melhor, por me ser dada a oportunidade de testemunhá-la em acto: a presença,
num espaço relativamente exíguo e fechado, de dois adversários políticos com
quem ele estava de relações cortadas, não obstou a que se sentisse e
comportasse com o mesmo à vontade com que se sentiria e comportaria se eles não
estivessem presentes. Era o transmontano a viver ao vivo o seu ideal de
dignidade humana, de autenticidade, de integridade e de estoicismo por que
sempre se tem pautado a sua vida pública e privada.
Ouviu-se um som inefável, muito
provavelmente em conformidade com um ponto do ritual mais vetusto e venerando que a própria Academia. Os imortais
transpuseram solenemente, subtilmente e pensativamente os umbrais misteriosos
do Sancta Sanctorum, para aí
perorarem, ponderarem e pontificarem sobre matérias transcendentais e questões
de lana caprina, enquanto nós, os simples mortais, regressámos à rotina
prosaica e cinzenta dos filisteus.
António Cirurgião
sexta-feira, 19 de agosto de 2016
Spínola e as telenovelas.
Durante o segundo exílio do
General Spínola no Brasil, encontrava-me eu aí a fazer pesquisas no campo da literatura
e a fazer conferências e a rever, descobrir e saborear as maravilhas desse
vastíssimo país lusófono.
Praticamente convencido de
que pouco mais lhe restava, na sua qualidade de oficial superior do exército
português, do que enfeitar o seu papel de primeiro presidente de Portugal,
depois da Revolução de 25 de Abril de 1974, e de resistente, após a tomada do
poder pelo Partido Comunista Português e pelos militares esquerdistas e
marxistas, o Genaral Spínola decidiu imprimir os discursos proferidos durante a
sua presidência e as conferências e entrevistas feitas e dadas após ter
abandonado a dita presidência, no dia 28 de Setembro de 1974.
Como durante os primeiros
meses desse segundo exílio, a sua sobrinha Maria Luísa Coelho, que o tinha
secretariado durante o seu curto mandato de Presidente da República Portuguesa,
após o golpe militar de 25 de Abril, não se encontrava disponível para o
secretariar, devido a outras ocupações, coube-me a mim desempenhar informal e
voluntariamente esse cargo. E a quem me perguntar por quê me prontifiquei a
fazer isso simplesmente responderei que, para além da amizade que me ligava a
ele e de acreditar na honestidade do General e no mérito da obra, também eu
estava sinceramente empenhado em dar o meu modesto contributo para o
restabelecimento da democracia em Portugal. Primeiro por saber, por experiência
própria, como cidadão e residente dos Estados Unidos da América, do valor e dos
encantos da democracia, em comparação com os horrores de um regime totalitário
e ditatorial; segundo, por ter presas, em cadeias portuguesas, com o nefando
estatuto de prisioneiros políticos, pessoas que me eram particularmente
queridas e a quem o regime então no poder em Portugal ameaçava executar, indo,
por mais de uma vez, alguns dos seus carcereiros, alta noite, abanar-lhes as
grades das celas e informá-las que no dia seguinte seriam levadas ao paredão e
fuziladas, juntamente com muitos outros dos prisioneiros políticos que com
essas pessoas sofreram as agruras despóticas e bárbaras do cárcere e foram
sujeitas injusta e arbitrariamente a esse tipo de tortura.
E foi essencialmente por
essas duas razões que eu decidi colaborar com o General Spínola, durante a
minha estadia no Brasil, na elaboração do livro que veio a sair a lume, em
Novembro de 1976, com o título de Ao Serviço de Portugal, título,
aliás, que eu sugeri, por nele se reflectir sobretudo a preocupação, por parte
do General, de envidar todos os seus esforços para fazer de Portugal um país
genuinamente democrático, onde todos os portugueses tivessem orgulho de viver.
Por essa altura, eu morava em
Copacabana, na rua Belfort Roxo, e o General Spínola morava no Leme,
separando-nos uma distância de uns dez minutos a pé, pouco mais ou menos.
Aí por volta das oito da
noite, depois da ceia, portanto, chegava eu ao apartamento do General Spínola e
tocava a campainha. Quem me abria a porta era a D. Maria Luisa, sobrinha do
General, como se referiu atrás. Ela a abrir-me a porta e o tio a dizer-lhe:
- Ó Luisinha, serve aí alguma
coisa ao Professor e diz-lhe que tenha a bondade de esperar um pouco, enquanto
eu acabo de ver a telenovela.
E enquanto a D. Maria Luisa e
eu tomávamos um café ou um chá e conversávamos, aquele homem austero, frugal
como um eremita e de uma formação espartana, a toda a prova, não permitia que
ninguém o perturbasse enquanto ele, deliciado e embevecido, assistia piamente à
telenovela brasileira.
Terminada a novela, deixava a
sala de estar e vinha ter connosco a pedir desculpa pelo atraso. E, o que era
mais, assumia o ar de alguém que tivesse estado a fazer alguma coisa menos
apropriada para uma pessoa como ele, ex-comandante e combatente dos matagais e
pauis da Guiné e ex-presidente da República Portuguesa. Mas, uma vez posto à
vontade, começava a dizer, com o fervor de um noviço e com a maior das
convicções, que os brasileiros podiam ter todos os defeitos deste mundo e do
outro – e, no sentir dele, tinham mesmo, a começar pela imoralidade,
emblematizada pelo semi-nudismo que reinava soberano na Praia de Copacabana,
onde ele dava o seu passeio (“footing”) diário (foi por essa altura que as
“garotas de Ipanema” deram estatuto de cidadania ao “topless” e ao “fio dental”),
e a acabar pela hipocrisia endémica –, mas que, em questão de telenovelas,
ninguém no mundo se lhes comparava. E perguntava-me se eu não estava de acordo.
E eu, que nem sequer tinha televisão no meu apartamento, a fim de melhor poder
concentrar-me nas minhas leituras e nas minhas pesquisas, não podia fazer outra
coisa senão manifestar-lhe a minha ignorância no assunto. Que tinha de
experimentar – exortava-me ele. Que essas telenovelas não só eram um bom meio
de entretenimento, mas também, e sobretudo, um excelente veículo de cultura.
Que, de uma maneira geral, se aprendia muito sobre a história, a cultura e a
vida brasileira, vendo as suas excelentes telenovelas.
E o austero homem do
monóculo, com o arroubo de um neo-convertido, fazia o mais rasgado elogio das
telenovelas brasileiras, a única coisa que valia a pena ver no Brasil –
acrescentava.
Dito o que, voltava ao seu
natural e convidava-me para o seu gabinete de trabalho, a fim de prosseguirmos
na escrita do “Intróito” para a sua colectânea de discursos, conferências,
entrevistas e improvisos sobre política, que um dia viria a sair a lume sob o
título de Ao Serviço de Portugal, como se referiu atrás.
Ditadas umas linhas para eu
escrever à máquina, linhas que ele tinha escrito anteriormente à mão, durante o
dia, parava e pedia-me que lhas lesse em voz alta. E eu lia e ele ouvia com a
maior atenção. Feito o quê, ele achava quase sempre que era preciso suprimir
esta palavra, mudar aquela ou acrescentar outra.
Uma vez satisfeito com as
alterações feitas, passávamos adiante, voltávamos a parar, fazia-se novamente a
leitura em voz alta, lutava-se por vezes minutos inteiros com um vocábulo, até
que se completava um parágrafo. E tal como se tinha feito com as frases que
constituíam o período, fazia-se então com todo o parágrafo.
E foi assim, lentamente,
meticulosamente, que ao fim de um número considerável de sessões se chegou ao
fim do “Intróito”. E o que se fez com o “Intróito” foi feito depois com os
discursos, as conferências, as entrevistas e os improvisos, aperfeiçoando e penteando,
com o maior cuidado, o que, na sua maior parte, já tinha sido impresso em jornais
ou em revistas.
Tendo acompanhado o General
durante todo o processo da escrita desse livro, pude confirmar aquilo que já
tinha observado por ocasião da sua estadia nos Estados Unidos, em missão meio
pública, meio secreta, com um passaporte especial: o cuidado e a meticulosidade
que ele punha em todas as palavras que escrevia e que pronunciava. Nunca vi
ninguém que pusesse mais empenho no mínimo pormenor, desde a escolha da matéria
até à organização do discurso; desde a preocupação com a gramática e a sintaxe
até ao esmero com a pontuação.
Como a pontuação, nalgum dos
seus aspectos, é um fenómeno puramente subjectivo, mais de uma vez vi o General
a recusar as minhas sugestões, nesse capítulo. E uma vez em que eu argumentei
com mais vigor a favor da colocação de determinado sinal de pontuação, tive que
ouvir o General Spínola dizer-me que ele, como Oficial de Cavalaria, tinha sido
director da revista dessa especialidade.
Foi por ter observado esse
fenómeno, como testemunha ocular, que por mais de uma vez tive que desmentir
veementemente os que diziam que quem tinha escrito o livro Portugal e o Futuro
havia sido o ex-Governador do ex-Estado de Guanabara, Carlos Lacerda.
Que fique porém bem claro que
esse labor lento e meticuloso na feitura desse livro nunca impediu que o
General Spínola assistisse diariamente, devocionalmente, à telenovela
brasileira da noite, como se se tratasse de um autêntico ritual.
António Cirurgião
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quinta-feira, 18 de agosto de 2016
O general (Spínola) sem mangas de camisa.
Foi num dia do mês de Abril
de 1976. Estava eu no Rio de Janeiro, por ocasião de um ano sabático, quando
recebo uma comunicação do "quartel-general" do nosso movimento
revolucionário (MDLP ou Movimento Democrático para a Libertação de Portugal),
sediado na residência do Cônsul Honorário de Portugal no Estado de Connecticut,
Estados Unidos da América, anunciando, em linguagem cifrada, a chegada ao
Brasil, dois dias depois, do Vice-Cônsul, Manuel Fonseca. Que estivesse alerta,
que o emissário tinha coisas importantes a comunicar-me. Nada mais. Ponto
final. A natureza da missão e todos os seus pormenores ser-me-iam transmitidos
pessoalmente, em devido tempo. É que por mais de uma vez tínhamos sido avisados
pelos serviços secretos dos Estados Unidos que havia muitos espiões, tanto no
Brasil como nos Estados Unidos, a mando do Partido Comunista Português, e que
era muito provável que os telefones de alguns de nós estivessem infiltrados por
esses espiões.
Esperei
e, tal como me tinha sido comunicado, passados dois dias, por volta das dez da
manhã, chegou ao meu apartamento, na Rua Belfort Roxo, em Copacabana, Rio de
Janeiro, o Vice-Cônsul.
Depois de perguntar se
ninguém mais estava no apartamento e depois de me pedir segredo absoluto sobre
o que me ia dizer, saímos para uma esplanada para tomar um café e conversar, e
mais tarde fomos almoçar a um botequim ao lado. Passadas algumas horas,
partimos ambos de táxi a caminho de Leblon, em direcção ao apartamento do
General Spínola.
Era pelas três da tarde
quando chegámos ao seu apartamento.
Para surpresa nossa, quem
responde ao toque da campainha é o próprio General. Depois de repetirmos a
senha e o santo, abre-nos a porta. Eu não podia acreditar no que estava a ver.
Quando esperava encontrar uma pessoa decentemente vestida, senão fardada com o
seu uniforme de general, eis que vejo um homem em calções e de tronco nu.
Como que surpreendido, ainda
antes de nos apertar a mão, o General dirigiu-se a um quarto e reapareceu,
momentos depois, a acabar de apertar os botões de uma camisa, ao mesmo tempo
que nos dizia, com visível embaraço, que era esse o seu hábito de trajar por
casa, dado o muito calor que fazia no Rio de Janeiro (e dada a falta de ar condicionado
no apartamento em que vivia, como pudemos imediatamente observar: facto que o
General não referiu, em virtude do seu horror quase epidérmico a qualquer
manifestação externa de auto-comiseração).
Seguidamente, o General
mandou-nos sentar, não sem antes nos apresentar a um cavalheiro de porte
modesto e extremamente discreto que nesse momento se encontrava com ele no
apartamento: o Dr. Luís de Oliveira Dias, que, tal como o General e outros
amigos e colaboradores dele, também se encontrava exilado no Brasil. (Convém
esclarecer, porém, que esses “amigos e colaboradores” eram cada vez em menor
número, ao contrário do que acontecera por ocasião do seu primeiro exílio no
Brasil, como também pude observar, por sinal pela primeira vez que estive com o
General Spínola no Brasil. Nesse tempo vivia ele num modesto hotel de
Copacabana, juntamente com alguns dos seus colaboradores. Aliás, a primeira vez
que aí entrei, dei com vários desses colaboradores do General Spínola a comprar
pedras semi-preciosas a um caixeiro viajante de Minas Gerais, pedras que eles
venderiam em Espanha a bom preço, para, dessa forma, poderem custear as
despesas do exílio a que o regime político então vigente em Portugal os forçara.)
Depois de apresentados os
cumprimentos do Professor Veiga Simão, do Dr. Seabra Veiga, do Embaixador Pedro
Pinto Corte-Real e do empresário Richard Aldrich, primo de Nelson Rockfeller,
ao tempo Vice-Presidente dos Estados Unidos, o Vice-Cônsul e o abaixo-assinado
apressaram-se a expor ao General Spínola a natureza da sua missão. Tratava-se
simplesmente de perguntar ao General se queria candidatar-se à Presidência da
República Portuguesa, nas primeiras eleições oficiais, depois de aprovada a
nova Constituição pela Assembleia Constituinte de 1976.
Depois de nos ouvir com a
maior atenção, o General olhou demoradamente para nós e falou-nos mais ou menos
assim:
- Olhem bem para mim.
Parece-lhes que eu tenho cara de quem alguma vez poderá rebaixar-se ao ponto de
jurar fidelidade a uma Constituição marxista?
Uma vaga de silêncio
embaraçoso estabeleceu-se entre nós.
Ciente de que havíamos
compreendido devidamente as suas palavras, o General limitou-se a perguntar-nos
se tínhamos mais alguma coisa, de carácter oficial, para lhe comunicar.
Sim, tínhamos: uma vez que ele não aceitava candidatar-se à Presidência da República, estaria ele disposto a apoiar a candidatura do "General" Ramalho Eanes? Tinha ele confiança no "General" Ramalho Eanes?
Sim, tínhamos: uma vez que ele não aceitava candidatar-se à Presidência da República, estaria ele disposto a apoiar a candidatura do "General" Ramalho Eanes? Tinha ele confiança no "General" Ramalho Eanes?
Após um breve silêncio, o
General, à guisa de resposta, fez este comentário, num tom de mal disfarçada
amargura:
- Eu tinha confiança absoluta
no Major Carlos Fabião e no General Costa Gomes, e vejam o que me aconteceu e o
que me fizeram! E dizer que eu considerava o primeiro como um filho e o segundo
como um irmão.
Ouvidas estas palavras, só
nos restou, ao meu amigo Vice-Cônsul e a mim, mudar de assunto.
Ambos tínhamos compreendido,
sem grande ginástica mental, que o General Spínola havia perdido quase
completamente a fé nos homens. E nem outra coisa era de esperar de quem tinha
sido tantas vezes traído por homens que ele considerava como filhos e irmãos.
E, a propósito de o General
estar em calções e em tronco nu, gostaria de explicar, aos que porventura não
saibam, que o Marechal Spínola sofreu grandes privações durante o segundo
exílio no Brasil. É que, ao contrário do que lhe acontecera quando aí chegou
pela primeira vez, logo a seguir ao 11 de Março, em que não faltou quem
pensasse que em breve o General voltaria novamente para Portugal, na qualidade
de Presidente da Segunda República, razão por que lhe proporcionaram
acomodações decentes, que não luxuosas, na esperança de um dia se verem
recompensados a cêntuplo por um, quando ele apareceu pela segunda vez no
Brasil, depois de ter sido apanhado com a boca na botija pelo jornalista de Der Spiegel,
esses "amigos", duvidando que ele jamais pudesse voltar a ser alguém
em Portugal, politicamente falando, não só nada lhe proporcionaram, como
começaram a mandar-lhe contas a casa. E foi assim que o Marechal Spínola se viu
obrigado a viver num humilde apartamento no Leblon e a alimentar-se, como ele
disfarçava, por questão de brio, do que ele chamava rancho, à maneira da tropa:
o modestíssimo prato do dia levado de um botequim ao lado do apartamento, num
vulgaríssimo prato de alumínio.
E quando, meses mais tarde,
se mudou para um apartamento um pouco mais amplo e decente no Leme, almas boas
e caridosas (poucas) foram-lhe mobilando o apartamento, levando-lhe hoje uma
cadeira, amanhã uma lâmpada, depois uns pratos ou um aparelho de televisão,
para que ele pudesse ter o mínimo de conforto.
Estive mais de uma vez em
cada um desses dois apartamentos e posso garantir que o que digo é a pura
verdade. Aliás, pelo que se refere ao apartamento do Leme, fui testemunha
ocular, mais de uma vez, desses gestos de caridade referidos no parágrafo anterior,
praticados por “amigos certos nas coisas incertas”.
Chegou o Marechal Spínola a
tomar conhecimento dessas contas que alguns dos que lhe tinham dado comida e
dormida durante o primeiro exílio lhe mandaram a casa durante o segundo exílio?
Sei que no princípio não, graças à amabilidade e à dedicação de um português
também exilado e necessitado como ele, o Dr. Luís de Oliveira Dias. Sob o
pretexto de o secretariar, esse homem bom e amigo do seu amigo ocultava do
General essas contas. Terá conseguido ocultá-las até ao fim? Confesso que não
sei.
Chegou o Marechal Spínola a
queixar-se dessas privações? De maneira nenhuma: sobejava-lhe orgulho,
dignidade e estoicismo para o fazer.
Benévolos leitores, um dos
homens que mais contribuiu, directa ou indirectamente, para o advento da
Segunda República Portuguesa sofreu muito durante o segundo exílio no Brasil,
mas sofreu calado e com dignidade exemplar.
António Cirurgião
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