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terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Essa Gente.

 
 
 



Custou, mas valeu. Tive de vencer a imensa e antiga inveja que nutro por ele, um tipo que tem e teve tudo na vida, Chico Buarque de Holanda. Perguntem o que falha nele, o que não teve, desde mulheres a talento para tudo, fama imensa e um olhar verde, inesquecível. Agora até o Prémio Camões. Não gostei muito de Estorvo e agora vou ter de ler O Irmão Alemão. Tudo por causa de Essa Gente, que, não sendo um assombro dos assombros, é um belo livro, muito devorável num domingo chuvoso. Ademais, o livro tem o Rio. A prosa, numa observação óbvia, faz lembrar Rubem Fonseca, outro passeador de melancolias pelo calçadão em brasa: homens em crise, geralmente de meia idade, quase sempre solitários, atormentados por si próprios e pelas fantasias do sexo. Essa Gente é também (ou é sobretudo) Bolsonaro, os latifundiários e pecuaristas em ascensão hegemónica, e o ponto é dado, muito bem dado, em nota subtil e oblíqua, sem ostentatações de sociologia política ou apontamentos devastadores sobre o novo velho Brasil. É claro que toda a amargura soa um pouco encenada, para fazer «literatura», mas o livro está bem escrito, muito bem escrito, cumprindo a tradição brasileira: transposição para o papel da linguagem oral prenhe de coloquialismos e palavões cabeludos. Chico é um arguto observador da vida, dos detalhes das conversações urbanas de nenhuma urbanidade, e mete tudo isso, e o seu talento, num livro que, mais por distracção do que para reflexão, vale muito a pena ser lido, sem dúvida alguma. (já agora, excelente recensão de Cristina Margato, no Expresso).

 






 
 

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Força Estranha.


 




         Devemos desconfiar sempre da Chiado Editora, mas temos todos os motivos para acreditar em Nelson Motta. Não se percebe bem, aliás, o que está um autor como ele a fazer ali, naquele catálogo. Mas enfim. Dele já tinha lido o clássico, Noites Tropicais. Agora, navegar é preciso, é preciso navegar. Pelas histórias piramidais que este livro tem, Força Estranha é divertido, travesso, apaixonante, sexual. Só não se percebe o motivo pelo qual a Chiado Editora decidiu manter no tinteiro os acentos, não estranhem que diversas palavras de Motta não surjam acentuadas. Coisas…

 

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

46750.

 
 
 
 
         O João Pina já andou muito. Pelas cadeias da ditadura portuguesa, pelos desaparecidos da Operação Condor e agora pelo Rio de Janeiro, favelado e violento. O produto do trabalho dos seus anos  cariocas está agora em livro, que pode – e deve! – comprar até 5 de Março (http://46750book.joao-pina.com/). Sim, é publicidade descarada, pois vale a pena. Sobre o Rio dos morros há um coffee table book interessante, colorido, apelativo, Inside the Favelas,  de Douglas Mayhew. O livro do João é diferente, muito diferente. Se me permitem, esmagadoramente diferente – e melhor.
 

domingo, 21 de maio de 2017

Clarice entrevista Vinicius.

 
 
 
 
 
Entrevista conduzida por Clarice Lispector, publicada na revista Manchete e republicada em seu livro: Entrevistas. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.
 
* * *
 
Vinicius, acho que vamos conversar sobre mulheres, poesia e música. Sobre mulheres porque corre a fama de que você é um grande amante. Sobre poesia porque você é um dos nossos grandes poetas. Sobre música porque você é o nosso menestrel. Vinicius, você amou realmente alguém na vida? Telefonei para uma das mulheres que você casou, e ela disse que você ama tudo, a tudo você se dá inteiro: a crianças, a mulheres, a amizades. Então me veio a idéia de que você ama o amor, e nele inclui as mulheres.
Que eu amo o amor é verdade. Mas por esse amor eu compreendo a soma de tosos ao amores, ou seja, o amor de homem para mulher, de mulher para homem, o amor de mulher por mulher, o amor de homem para homem e o amor de ser humano pela comunidade de seus semelhantes. Eu amo esse amor, mas isso não quer dizer que eu não tenha amado as mulheres que tive. Tenho a impressão que, àquela que amei realmente, me dei todo.
Acredito, Vinicius. Acredito mesmo. Embora eu também acredite que quando um homem e uma mulher se encontram num amor verdadeiro, a união é sempre renovada, pouco importam as brigas e os desentendimentos: duas pessoas nunca são permanentemente iguais e isso pode criar no mesmo par novos amores.
É claro, mas eu ainda acho que o amor que constrói para a eternidade é o amor paixão, o mais precário, o mais perigoso, certamente o mais doloroso. Esse amor é o único que tem a dimensão do infinito.
- Você já amou desse modo?
Eu só tenho amado desse modo.
- Mas você acaba um caso porque encontra outra mulher, ou porque se cansa da primeira?
Na minha vida tem sido como se uma mulher me depositasse nos braços de outra. Isso talvez porque esse amor paixão pela sua própria intensidade não tem condições de sobreviver. Isso acho que está expresso com felicidade no dístico do meu soneto Fidelidade: que não seja imortal posto que é chama / mas que seja infinito enquanto dure”.
- Você sabe que você é um ídolo para a juventude? Será que agora que apareceu o Chico, as mocinhas trocaram de ídolo, as mocinhas e os mocinhos?
Acho que é diferente. A juventude procura em mim o pai amigo, que viveu e que tem uma experiência a transmitir. Chico não. É ídolo mesmo, trata-se de idolatria.
- Você suporta ser ídolo? Eu não suportaria.
Às vezes fico mal humorado. Mas uma dessas moças explicou: é que você, Vinícius, vive nas estantes de nossos livros, nas canções que todo mundo canta, na televisão. Você vive conosco, em nossa casa.
- Qual é a artista de cinema que você amaria?
Marilyn Monroe. Foi um dos seres mais lindos que já nasceram. Se só existisse ela, já justificaria a existência dos Estados Unidos. Eu casaria com ela e certamente não daria certo porque é difícil amar uma mulher tão célebre. Só sou ciumento fisicamente, é o ciúme de bicho, não tem outro.
- Fale-me de sua música.
Não falo de mim como músico, mas como poeta. Não separo a poesia que está nos livros da que está nas canções.
- Vinicius, você já se sentiu sozinho na vida? Já sentiu algum desamparo?
Acho que sou um homem bastante sozinho. Ou pelo menos eu tenho um sentimento muito agudo de solidão.
- Isso explicaria o fato de você amar tanto, Vinícius.
O fato de querer me comunicar tanto.
- Você sabe que admiro muito seus poemas, e, mais do que gostar, eu os amo. O que é a poesia para você?
Não sei, eu nunca escrevo poemas abstratos, talvez seja o modo de tornar a realidade mágica ao meus próprios olhos. De envolvê-la com esse tecido que dá uma dimensão mais profundo e consequentemente mais bela.
- Reflita um pouco e me diga qual é a coisa mais importante do mundo, Vinicius.
Para mim é a mulher, certamente.
- Você quer falar sobre sua música? Estou escutando.
Dizem, na minha família, que eu cantei antes de falar. E havia uma cançãozinha que eu repetia e que tinha um leve tema de sons. Fui criado no mundo da música, minha mãe e minha avó tocavam piano, eu me lembro de como me machucavam aquelas valsas antigas. Meu pai também tocava violão, cresci ouvindo música. Depois a poesia fez o resto.
Fizemos um pausa. Ele continuou:
Tenho tanta ternura pela sua mão queimada...
(Emocionei-me e entendi que este homem envolve uma mulher de carinho). Vinicius disse, tomando um gole de uísque:
É curioso, a alegria não é um sentimento nem uma atmosfera de vida nada criativa. Eu só sei criar na dor e na tristeza, nem mesmo as coisas que resultam sejam alegres. Não me considero uma pessoa negativa, quer dizer, eu não deprimo o ser humano. É por isso que acho que estou vivendo num movimento de equilíbrio infecundo do qual estou tentando me libertar. O paradigma máximo para mim seria: a calma no seio da paixão. Mas realmente não sei se é um ideal humanamente atingível.
- Como e que você se deu dentro da vida diplomática, você que é o antiformal por excelência?
Acontece que detesto tudo o que oprime o homem, inclusive a gravata. Ora, é notório que o diplomata é um homem que usa gravata. Dentro da diplomacia fiz bons amigos até hoje. Depois houve outro fato: as raízes e o sangue falaram mais alto. Acho muito difícil um homem que não vota ao seu quintal, para chegar ou pelo menos aproximar-se do conhecimento de si mesmo.
- Como pessoa, Vinicius, o que é que desejaria alcançar?
Eu desejaria alcançar outra coisa. Isso de calma no seio da paixão. Mas desejaria alcançar uma tal capacidade de amar que me pudesse fazer útil aos meus semelhantes.
- Quero lhe pedir uma favor: faça um poema agora mesmo. Tenho certeza de que não será banal. Se você quiser, Menestrel, fale o seu poema.
Meu poema é em duas linhas: você escreve uma palavra em cima e a outra embaixo porque é um verso. É assim:
                                             
 Clarice
                                              Lispector 

Acho lindo o teu nome, Clarice.
- Você poderia dizer quais as maiores emoções que já teve. Eu, por exemplo, tive tantas e tantas, boas e péssimas, que não ousaria falar delas.
Minhas maiores emoções foram ligadas ao amor. O nascimento de filhos, as primeiras posses e os últimos adeuses. Mesmo tendo duas experiências de quase morte – desastre de avião e de carro – mesmo essa experiência de quase morte nem de longe se aproximou dessas emoções de que te falei.
- Você se sente feliz? Essa, Vinicius, é uma pergunta idiota, mas que eu gostaria que você respondesse.
Se a felicidade existe, eu só sou feliz enquanto me queimo e quando a pessoa se queima não é feliz. A própria felicidade é dolorosa.
Meditamos um pouco, conversamos mais ainda, Vinícius saiu. Então telefonei para uma das esposas de Vinicius.
- Como é que você se sente casada com Vinicius?
Ela respondeu com aquela voz que é um murmúrio de pássaro:
“Muito bem. Ele me dá muito. E mais importante do que isso, ele ajuda a viver, a conhecer a vida, a gostar das pessoas”.
Depois conversei com uma mocinha inteligente:
A música de Vinícius", disse ela, “fala muito de amor e a gente se identifica sempre com ela”
- Você teria um “caso” com ele?
Não porque apesar de achar o Vinícius amorável, eu amo um outro homem. E Vinícius me revela ainda mais que eu amo aquele homem. A música dele faz a gente gostar ainda mais do amor. E de “repente”, não mais que de repente”, ele se transforma em outro: e é o nosso poetinha como o chamamos.
Eis pois alguns segredos de uma figura humana grande e que vive a todo risco. Porque há grandeza em Vinícius de Moraes.
 
 
 

sábado, 13 de maio de 2017

Simpósio com os Imortais.









 

Sei que foi numa quinta-feira de Maio ou Junho de 1976, mas não sei especificamente a data precisa. Encontrando-me no Rio de Janeiro em ano sabático, vi-me um dia convidado a assistir à sessão de chá das quintas-feiras da Academia Brasileira de Letras, a convite do escritor e académico maranhense Josué Montello, que viria a ser Presidente da Academia entre 1993 e 1995. O convite deve-se ao facto de eu haver travado conhecimento com uma filha de Josué Montello, por ocasião de uma comunicação feita por mim na Universidade Federal Fluminense em Niterói, e de, com ela e o genro do ilustre académico, ter passado um domingo em Teresópolis, na opulenta casa de campo de um ricaço construtor luso-brasileiro, vago parente meu,  por via materna. Embora quase semi-analfabeto, esse “vago parente meu” podia dar-se ao luxo de hospedar na sua vivenda pessoas de alto gabarito, tais como a filha e o genro do “imortal” Josué Montello, sendo o genro advogado e vereador da Prefeitura do Rio de Janeiro, a quem aliás o “vago parente meu” tinha doado uma boa parcela de terreno para eles poderem construir uma casa de campo junto da dele, em compensação de rotineiras e inócuas facilidades burocráticas com que o jovem advogado e vereador o tinha mimoseado.
Quando cruzei os umbrais da casa de Machado de Assis (era assim também chamada pelo facto de o autor de Dom Casmurro ser um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e o seu primeiro Presidente, em regime de perpetuidade), já quase todos os imortais (quarenta, à imitação da prototípica e celebrada Academia Francesa), os membros correspondentes estrangeiros (vinte, segundo os estatutos) e os convidados desse dia aí se encontravam. Introduzido imediatamente na Sala de Chá pelo meu anfitrião, Josué Montello, fui por ele apresentado ao Presidente da Academia dessa época, Austregésilo de Athayde. Seguidamente, uma após outra, enquanto tomava o meu chá e circulava na sala, vim a descobrir uma série de rostos conhecidos, uns pessoalmente – Adriano Moreira, membro estrangeiro da Academia - e outros de fotografia e de televisão: Marcello Caetano, Hermano Saraiva (então exilados no Brasil, como Adriano Moreira), Cyro dos Anjos e João Cabral de Melo Neto, ambos membros da Academia e escritores, naturalmente: romancista o primeiro e poeta o segundo.
Por meio de Adriano Moreira, que conhecera nos Estados Unidos e via com alguma frequência no Rio de Janeiro, onde ele vivia com a família, e de quem me tornara amigo, já sabia que ele andava de candeias às avessas com os outros dois membros correspondentes estrangeiros portugueses: Marcello Caetano e Hermano Saraiva. Pelo meu lado, de bem com todos eles, a todos cumprimentei e com todos troquei algumas impressões, não podendo esquecer a cortesia e a afabilidade com que Marcello Caetano e Hermano Saraiva tiveram a gentileza de me tratar, tendo-me o primeiro dito, para grande ... e agradável surpresa minha, modéstia à parte, que tinha lido “com gosto e proveito” alguns artigos meus e a minha edição do Cancioneiro de Dona Cecília de Portugal, publicados na revista Ocidente, de Lisboa, e tendo-me dito o segundo que estava à espera da publicação da minha tese de doutoramento sobre Fernão Álvares do Oriente, de que ele tinha lido um excerpto e a conclusão, publicados no suplemento literário do Diário Novidades, de Lisboa: que achava interessantíssimas e de grande relevância as referências de Fernão Álvares a Camões. (Apresso-me a proclamar alto e bom som, entre parêntesis, que ardentemente espero que essas leituras de Hermano Saraiva em nada tenham contribuído para ele vir a engendrar aquela coisa fantasista, mal parida e malfadada que dá pelo nome de Vida Ignorada de Camões. E entre parêntesis também, e em nome da justiça equitativa, apresso-me a contrabalançar esta observação com um facto de certa importância: a contribuição de Hermano Saraiva para levar ao conhecimento das grandes massas do público português tesouros ignorados da cultura plurissecular portuguesa, através de programas televisivos bastante apreciados pelo seu carácter popular.)
Nessa tarde de chá na Academia Brasileira de Letras, Cyro dos Anjos repetiu-me oralmente, muito sensibilizado, acentuava ele, o que já me tinha  dito por carta, em referência a um artigo meu sobre o seu romance Abdias, que tinha sido publicado no suplemento literário de um jornal de Moçambique, graças à amabilidade de Montezuma de Carvalho, juiz em Lourenço Marques, que eu conhecera no Verão de 1972, por ocasião da minha longa visita a Angola e a Moçambique. Aproveitei também esse breve encontro com o prestigioso jornalista, com o alto funcionário público, a nível estadual e federal, e com o professor universitário, para lhe dizer do enorme interesse com que os meus alunos e eu líamos e analisávamos nos cursos de literatura brasileira o seu romance mais conhecido: O amanuense Belmiro.
 Com João Cabral de Melo Neto, troquei algumas impressões sobre a sua poesia granítica e, principalmente, sobre o prazer com que os meus alunos e eu líamos o seu nunca por demais celebrado poema dramático: Morte e Vida Severina. Tendo-lhe perguntado quando teríamos novo livro seu, obtive como resposta um lamento inesperado e meio bizarro. É que, por esse tempo, ele tinha praticamente a musa em férias, por se ver forçado a pagar um alto preço pelas honras de ser no Senegal o decano do corpo diplomático, uma vez que esse cargo, que ele acumulava com o de embaixador na Mauritânia, no Mali e na Guiné-Conakry, lhe consumia todo o tempo que, noutras circunsâncias e noutros países, seria de lazer, querendo dizer com isso que se via obrigado a prestar toda a espécie de serviços, de primeira necessidade, sobretudo aos embaixadores caloiros, a começar pelo alojamento e a acabar pela procura de produtos alimentícios e de gasolina para os automóveis.  
Com uma simplicidade exemplar e com a cortesia que distingue os diplomatas brasileiros, justamente orgulhosos por fazerem parte de uma escola de diplomacia, a do Itamaraty ou Casa de Rui Barbosa, que pede meças à do Vaticano e à do Palácio das Necessidades, João Cabral de Melo Neto emocionou-se ao lembrar-lhe as apoteoses acontecidas em teatros de Lisboa, Coimbra e Porto, por ocasião da representação da sua Morte e Vida Severina. É que no final da representação tinha sido ovacionado e levado em ombros por actores e membros da assistência.
Voltando aos três membros correspondentes portugueses, presentes nessa sessão de chá das quintas-feiras da Academia Brasileira de Letras, quero frisar apenas uma faceta peculiar da personalidade de Adriano Moreira que eu já conhecia, mas que fiquei a conhecer melhor, por me ser dada a oportunidade de testemunhá-la em acto: a presença, num espaço relativamente exíguo e fechado, de dois adversários políticos com quem ele estava de relações cortadas, não obstou a que se sentisse e comportasse com o mesmo à vontade com que se sentiria e comportaria se eles não estivessem presentes. Era o transmontano a viver ao vivo o seu ideal de dignidade humana, de autenticidade, de integridade e de estoicismo por que sempre se tem pautado a sua vida pública e privada.  
Ouviu-se um som inefável, muito provavelmente em conformidade com um ponto do ritual mais vetusto e venerando que a própria Academia. Os imortais transpuseram solenemente, subtilmente e pensativamente os umbrais misteriosos do Sancta Sanctorum, para aí perorarem, ponderarem e pontificarem sobre matérias transcendentais e questões de lana caprina, enquanto nós, os simples mortais, regressámos à rotina prosaica e cinzenta dos filisteus.   
 
António Cirurgião


sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Spínola e as telenovelas.

 
 
 

 
         Durante o segundo exílio do General Spínola no Brasil, encontrava-me eu aí a fazer pesquisas no campo da literatura e a fazer conferências e a rever, descobrir e saborear as maravilhas desse vastíssimo país lusófono.  
         Praticamente convencido de que pouco mais lhe restava, na sua qualidade de oficial superior do exército português, do que enfeitar o seu papel de primeiro presidente de Portugal, depois da Revolução de 25 de Abril de 1974, e de resistente, após a tomada do poder pelo Partido Comunista Português e pelos militares esquerdistas e marxistas, o Genaral Spínola decidiu imprimir os discursos proferidos durante a sua presidência e as conferências e entrevistas feitas e dadas após ter abandonado a dita presidência, no dia 28 de Setembro de 1974.
         Como durante os primeiros meses desse segundo exílio, a sua sobrinha Maria Luísa Coelho, que o tinha secretariado durante o seu curto mandato de Presidente da República Portuguesa, após o golpe militar de 25 de Abril, não se encontrava disponível para o secretariar, devido a outras ocupações, coube-me a mim desempenhar informal e voluntariamente esse cargo. E a quem me perguntar por quê me prontifiquei a fazer isso simplesmente responderei que, para além da amizade que me ligava a ele e de acreditar na honestidade do General e no mérito da obra, também eu estava sinceramente empenhado em dar o meu modesto contributo para o restabelecimento da democracia em Portugal. Primeiro por saber, por experiência própria, como cidadão e residente dos Estados Unidos da América, do valor e dos encantos da democracia, em comparação com os horrores de um regime totalitário e ditatorial; segundo, por ter presas, em cadeias portuguesas, com o nefando estatuto de prisioneiros políticos, pessoas que me eram particularmente queridas e a quem o regime então no poder em Portugal ameaçava executar, indo, por mais de uma vez, alguns dos seus carcereiros, alta noite, abanar-lhes as grades das celas e informá-las que no dia seguinte seriam levadas ao paredão e fuziladas, juntamente com muitos outros dos prisioneiros políticos que com essas pessoas sofreram as agruras despóticas e bárbaras do cárcere e foram sujeitas injusta e arbitrariamente a esse tipo de tortura.
         E foi essencialmente por essas duas razões que eu decidi colaborar com o General Spínola, durante a minha estadia no Brasil, na elaboração do livro que veio a sair a lume, em Novembro de 1976, com o título de Ao Serviço de Portugal, título, aliás, que eu sugeri, por nele se reflectir sobretudo a preocupação, por parte do General, de envidar todos os seus esforços para fazer de Portugal um país genuinamente democrático, onde todos os portugueses tivessem orgulho de viver.
         Por essa altura, eu morava em Copacabana, na rua Belfort Roxo, e o General Spínola morava no Leme, separando-nos uma distância de uns dez minutos a pé, pouco mais ou menos.
         Aí por volta das oito da noite, depois da ceia, portanto, chegava eu ao apartamento do General Spínola e tocava a campainha. Quem me abria a porta era a D. Maria Luisa, sobrinha do General, como se referiu atrás. Ela a abrir-me a porta e o tio a dizer-lhe:
         - Ó Luisinha, serve aí alguma coisa ao Professor e diz-lhe que tenha a bondade de esperar um pouco, enquanto eu acabo de ver a telenovela.
         E enquanto a D. Maria Luisa e eu tomávamos um café ou um chá e conversávamos, aquele homem austero, frugal como um eremita e de uma formação espartana, a toda a prova, não permitia que ninguém o perturbasse enquanto ele, deliciado e embevecido, assistia piamente à telenovela brasileira.
         Terminada a novela, deixava a sala de estar e vinha ter connosco a pedir desculpa pelo atraso. E, o que era mais, assumia o ar de alguém que tivesse estado a fazer alguma coisa menos apropriada para uma pessoa como ele, ex-comandante e combatente dos matagais e pauis da Guiné e ex-presidente da República Portuguesa. Mas, uma vez posto à vontade, começava a dizer, com o fervor de um noviço e com a maior das convicções, que os brasileiros podiam ter todos os defeitos deste mundo e do outro – e, no sentir dele, tinham mesmo, a começar pela imoralidade, emblematizada pelo semi-nudismo que reinava soberano na Praia de Copacabana, onde ele dava o seu passeio (“footing”) diário (foi por essa altura que as “garotas de Ipanema” deram estatuto de cidadania ao “topless” e ao “fio dental”), e a acabar pela hipocrisia endémica –, mas que, em questão de telenovelas, ninguém no mundo se lhes comparava. E perguntava-me se eu não estava de acordo. E eu, que nem sequer tinha televisão no meu apartamento, a fim de melhor poder concentrar-me nas minhas leituras e nas minhas pesquisas, não podia fazer outra coisa senão manifestar-lhe a minha ignorância no assunto. Que tinha de experimentar – exortava-me ele. Que essas telenovelas não só eram um bom meio de entretenimento, mas também, e sobretudo, um excelente veículo de cultura. Que, de uma maneira geral, se aprendia muito sobre a história, a cultura e a vida brasileira, vendo as suas excelentes telenovelas.
         E o austero homem do monóculo, com o arroubo de um neo-convertido, fazia o mais rasgado elogio das telenovelas brasileiras, a única coisa que valia a pena ver no Brasil – acrescentava.
         Dito o que, voltava ao seu natural e convidava-me para o seu gabinete de trabalho, a fim de prosseguirmos na escrita do “Intróito” para a sua colectânea de discursos, conferências, entrevistas e improvisos sobre política, que um dia viria a sair a lume sob o título de Ao Serviço de Portugal, como se referiu atrás.
         Ditadas umas linhas para eu escrever à máquina, linhas que ele tinha escrito anteriormente à mão, durante o dia, parava e pedia-me que lhas lesse em voz alta. E eu lia e ele ouvia com a maior atenção. Feito o quê, ele achava quase sempre que era preciso suprimir esta palavra, mudar aquela ou acrescentar outra.
         Uma vez satisfeito com as alterações feitas, passávamos adiante, voltávamos a parar, fazia-se novamente a leitura em voz alta, lutava-se por vezes minutos inteiros com um vocábulo, até que se completava um parágrafo. E tal como se tinha feito com as frases que constituíam o período, fazia-se então com todo o parágrafo.
         E foi assim, lentamente, meticulosamente, que ao fim de um número considerável de sessões se chegou ao fim do “Intróito”. E o que se fez com o “Intróito” foi feito depois com os discursos, as conferências, as entrevistas e os improvisos, aperfeiçoando e penteando, com o maior cuidado, o que, na sua maior parte, já tinha sido impresso em jornais ou em revistas.
         Tendo acompanhado o General durante todo o processo da escrita desse livro, pude confirmar aquilo que já tinha observado por ocasião da sua estadia nos Estados Unidos, em missão meio pública, meio secreta, com um passaporte especial: o cuidado e a meticulosidade que ele punha em todas as palavras que escrevia e que pronunciava. Nunca vi ninguém que pusesse mais empenho no mínimo pormenor, desde a escolha da matéria até à organização do discurso; desde a preocupação com a gramática e a sintaxe até ao esmero com a pontuação.
         Como a pontuação, nalgum dos seus aspectos, é um fenómeno puramente subjectivo, mais de uma vez vi o General a recusar as minhas sugestões, nesse capítulo. E uma vez em que eu argumentei com mais vigor a favor da colocação de determinado sinal de pontuação, tive que ouvir o General Spínola dizer-me que ele, como Oficial de Cavalaria, tinha sido director da revista dessa especialidade.
         Foi por ter observado esse fenómeno, como testemunha ocular, que por mais de uma vez tive que desmentir veementemente os que diziam que quem tinha escrito o livro Portugal e o Futuro havia sido o ex-Governador do ex-Estado de Guanabara, Carlos Lacerda.
         Que fique porém bem claro que esse labor lento e meticuloso na feitura desse livro nunca impediu que o General Spínola assistisse diariamente, devocionalmente, à telenovela brasileira da noite, como se se tratasse de um autêntico ritual.            
 
                              
António Cirurgião

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

O general (Spínola) sem mangas de camisa.



         Foi num dia do mês de Abril de 1976. Estava eu no Rio de Janeiro, por ocasião de um ano sabático, quando recebo uma comunicação do "quartel-general" do nosso movimento revolucionário (MDLP ou Movimento Democrático para a Libertação de Portugal), sediado na residência do Cônsul Honorário de Portugal no Estado de Connecticut, Estados Unidos da América, anunciando, em linguagem cifrada, a chegada ao Brasil, dois dias depois, do Vice-Cônsul, Manuel Fonseca. Que estivesse alerta, que o emissário tinha coisas importantes a comunicar-me. Nada mais. Ponto final. A natureza da missão e todos os seus pormenores ser-me-iam transmitidos pessoalmente, em devido tempo. É que por mais de uma vez tínhamos sido avisados pelos serviços secretos dos Estados Unidos que havia muitos espiões, tanto no Brasil como nos Estados Unidos, a mando do Partido Comunista Português, e que era muito provável que os telefones de alguns de nós estivessem infiltrados por esses espiões.
         Esperei e, tal como me tinha sido comunicado, passados dois dias, por volta das dez da manhã, chegou ao meu apartamento, na Rua Belfort Roxo, em Copacabana, Rio de Janeiro, o Vice-Cônsul.
        Depois de perguntar se ninguém mais estava no apartamento e depois de me pedir segredo absoluto sobre o que me ia dizer, saímos para uma esplanada para tomar um café e conversar, e mais tarde fomos almoçar a um botequim ao lado. Passadas algumas horas, partimos ambos de táxi a caminho de Leblon, em direcção ao apartamento do General Spínola.
         Era pelas três da tarde quando chegámos ao seu apartamento.
      Para surpresa nossa, quem responde ao toque da campainha é o próprio General. Depois de repetirmos a senha e o santo, abre-nos a porta. Eu não podia acreditar no que estava a ver. Quando esperava encontrar uma pessoa decentemente vestida, senão fardada com o seu uniforme de general, eis que vejo um homem em calções e de tronco nu.
        Como que surpreendido, ainda antes de nos apertar a mão, o General dirigiu-se a um quarto e reapareceu, momentos depois, a acabar de apertar os botões de uma camisa, ao mesmo tempo que nos dizia, com visível embaraço, que era esse o seu hábito de trajar por casa, dado o muito calor que fazia no Rio de Janeiro (e dada a falta de ar condicionado no apartamento em que vivia, como pudemos imediatamente observar: facto que o General não referiu, em virtude do seu horror quase epidérmico a qualquer manifestação externa de auto-comiseração).
    Seguidamente, o General mandou-nos sentar, não sem antes nos apresentar a um cavalheiro de porte modesto e extremamente discreto que nesse momento se encontrava com ele no apartamento: o Dr. Luís de Oliveira Dias, que, tal como o General e outros amigos e colaboradores dele, também se encontrava exilado no Brasil. (Convém esclarecer, porém, que esses “amigos e colaboradores” eram cada vez em menor número, ao contrário do que acontecera por ocasião do seu primeiro exílio no Brasil, como também pude observar, por sinal pela primeira vez que estive com o General Spínola no Brasil. Nesse tempo vivia ele num modesto hotel de Copacabana, juntamente com alguns dos seus colaboradores. Aliás, a primeira vez que aí entrei, dei com vários desses colaboradores do General Spínola a comprar pedras semi-preciosas a um caixeiro viajante de Minas Gerais, pedras que eles venderiam em Espanha a bom preço, para, dessa forma, poderem custear as despesas do exílio a que o regime político então vigente em Portugal os forçara.)
      Depois de apresentados os cumprimentos do Professor Veiga Simão, do Dr. Seabra Veiga, do Embaixador Pedro Pinto Corte-Real e do empresário Richard Aldrich, primo de Nelson Rockfeller, ao tempo Vice-Presidente dos Estados Unidos, o Vice-Cônsul e o abaixo-assinado apressaram-se a expor ao General Spínola a natureza da sua missão. Tratava-se simplesmente de perguntar ao General se queria candidatar-se à Presidência da República Portuguesa, nas primeiras eleições oficiais, depois de aprovada a nova Constituição pela Assembleia Constituinte de 1976.
       Depois de nos ouvir com a maior atenção, o General olhou demoradamente para nós e falou-nos mais ou menos assim:
       - Olhem bem para mim. Parece-lhes que eu tenho cara de quem alguma vez poderá rebaixar-se ao ponto de jurar fidelidade a uma Constituição marxista?
       Uma vaga de silêncio embaraçoso estabeleceu-se entre nós.
    Ciente de que havíamos compreendido devidamente as suas palavras, o General limitou-se a perguntar-nos se tínhamos mais alguma coisa, de carácter oficial, para lhe comunicar.
    Sim, tínhamos: uma vez que ele não aceitava candidatar-se à Presidência da República, estaria ele disposto a apoiar a candidatura do "General" Ramalho Eanes? Tinha ele confiança no "General" Ramalho Eanes?
     Após um breve silêncio, o General, à guisa de resposta, fez este comentário, num tom de mal disfarçada amargura:
         - Eu tinha confiança absoluta no Major Carlos Fabião e no General Costa Gomes, e vejam o que me aconteceu e o que me fizeram! E dizer que eu considerava o primeiro como um filho e o segundo como um irmão.
     Ouvidas estas palavras, só nos restou, ao meu amigo Vice-Cônsul e a mim, mudar de assunto.
   Ambos tínhamos compreendido, sem grande ginástica mental, que o General Spínola havia perdido quase completamente a fé nos homens. E nem outra coisa era de esperar de quem tinha sido tantas vezes traído por homens que ele considerava como filhos e irmãos.
   E, a propósito de o General estar em calções e em tronco nu, gostaria de explicar, aos que porventura não saibam, que o Marechal Spínola sofreu grandes privações durante o segundo exílio no Brasil. É que, ao contrário do que lhe acontecera quando aí chegou pela primeira vez, logo a seguir ao 11 de Março, em que não faltou quem pensasse que em breve o General voltaria novamente para Portugal, na qualidade de Presidente da Segunda República, razão por que lhe proporcionaram acomodações decentes, que não luxuosas, na esperança de um dia se verem recompensados a cêntuplo por um, quando ele apareceu pela segunda vez no Brasil, depois de ter sido apanhado com a boca na botija pelo jornalista de Der Spiegel, esses "amigos", duvidando que ele jamais pudesse voltar a ser alguém em Portugal, politicamente falando, não só nada lhe proporcionaram, como começaram a mandar-lhe contas a casa. E foi assim que o Marechal Spínola se viu obrigado a viver num humilde apartamento no Leblon e a alimentar-se, como ele disfarçava, por questão de brio, do que ele chamava rancho, à maneira da tropa: o modestíssimo prato do dia levado de um botequim ao lado do apartamento, num vulgaríssimo prato de alumínio.
   E quando, meses mais tarde, se mudou para um apartamento um pouco mais amplo e decente no Leme, almas boas e caridosas (poucas) foram-lhe mobilando o apartamento, levando-lhe hoje uma cadeira, amanhã uma lâmpada, depois uns pratos ou um aparelho de televisão, para que ele pudesse ter o mínimo de conforto.
   Estive mais de uma vez em cada um desses dois apartamentos e posso garantir que o que digo é a pura verdade. Aliás, pelo que se refere ao apartamento do Leme, fui testemunha ocular, mais de uma vez, desses gestos de caridade referidos no parágrafo anterior, praticados por “amigos certos nas coisas incertas”.
   Chegou o Marechal Spínola a tomar conhecimento dessas contas que alguns dos que lhe tinham dado comida e dormida durante o primeiro exílio lhe mandaram a casa durante o segundo exílio? Sei que no princípio não, graças à amabilidade e à dedicação de um português também exilado e necessitado como ele, o Dr. Luís de Oliveira Dias. Sob o pretexto de o secretariar, esse homem bom e amigo do seu amigo ocultava do General essas contas. Terá conseguido ocultá-las até ao fim? Confesso que não sei.
   Chegou o Marechal Spínola a queixar-se dessas privações? De maneira nenhuma: sobejava-lhe orgulho, dignidade e estoicismo para o fazer.
    Benévolos leitores, um dos homens que mais contribuiu, directa ou indirectamente, para o advento da Segunda República Portuguesa sofreu muito durante o segundo exílio no Brasil, mas sofreu calado e com dignidade exemplar.
António Cirurgião