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sexta-feira, 4 de maio de 2018

Notas sobre A Grande Onda - 57

 





57.
 
Têm sido estabelecidos diversos paralelismos entre a xilogravura A Grande Onda e a obra fotográfica de Syoin Kajii (por exemplo, na revista IdN - International designers Network, vol. 12, nº 4, 2005, pp. 106-107), ainda que este último não tenha assumido, segundo se crê, a influência directa de Katushika Hokusai no seu trabalho.
 
Nascido em Niigata, no Japão, em 1976,  formado pela Universidade Koyasan e especializado em budismo esotérico, em 1999, Syoin Kajii é um monge budista que se dedicou à fotografia do mar – e das suas ondas, em particular –, aguardando pacientemente pela rebentação de cada vaga para captá-la no instante decisivo, tal como Hokusai.
 
 

 
 
Syoin Kajii. série NAMI, 2004
 
 
Entre os seus trabalhos, pode destacar-se a série NAMI, série fotográfica realizada nas costas da ilha de Sado, no Japão, sobre a qual, entrevistado no site Lensculture, diz não ter tido consciência de uma influência das xilogravuras do «mundo flutuante» no seu labor: «I’ve never consciously photographed waves with reference to the wood block prints, nor intended to work as a continuation of the tradition. The temple I live in now on Sado Island commands a bird’s eye view of the sea naturally, and while overlooking the view everyday, I found fatherly strongness and motherly tenderness in the sea, and it fostered me to photograph NAMI.» A série, galardoada em o 1º Prémio FOIL em 2004, foi reunida em livro, aqui, tendo o autor publicado mais dois livros Kawa e Harnin, aqui.
 

 
 
A obra fotográfica de Syoin Kajii, quer na série NAMI, quer noutras, é importante a um outro nível. As suas imagens de ondas revoltas demonstram aquilo que Julyan H.E. Cartwright e Hisami Nakamura sustentam no seu artigo «What kind of wave is Hokusai’s Great Wave off Kanagawa?», isto é, que a configuração dada por Hokusai à grande onda não é tão abstracta como se pode julgar, antes evidenciando uma particular adesão à realidade das vagas que rebentam com a espuma sob a forma de garras ou de tentáculos.  
 
Agradece-se o incentivo dado por Julian Cartwright à publicação destas Notas sobre A Grande Onda.
 
 

sábado, 28 de abril de 2018

Eppur si muove.

 









 
Estamos na Roménia comunista, ano 1987. Não foi assim há tanto tempo, goodbye Ceaucescu. Na cidade de Alba Iulia, 08:35 da manhã, numa quarta-feira vulgar, dia 27 de Maio. Quiseram construir o Boulevard Transilvânia, está certíssimo. O problema é que no lugar do boulevard estava lá, qual empecilho betonado, um bloco de apartamentos de 100 metros por comprido e 7.600 toneladas de peso. Que fazer?, perguntou Lenine. Pois muda-se o bloco betoneiro, respondeu Ceaucescu. Assim se quis, assim se fez. Em seis horinhas de esforço, mudou-se a peça. As oitenta famílias residentes nem tiveram que retirar os haveres de seus lares, e saíram à rua com a roupa que tinham no corpo para assistir ao deslizamento do condomínio. O prédio lá foi de carrinho, sem mortos nem feridos. Ceaucescu levou a cabo um grandioso plano de remodelação urbana em toda a Roménia. Este método Lego saía mais barato de que deitar abaixo e construir de novo. Desta vez correu bem. Outras, não.
 

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Vida ou Teatro?

 


























 
 
Se fosse viva, Charlotte Salomon teria cem anos. Mas não tem, nem está viva. Aos 22 anos, fugiu de Berlim para a casa dos seus avós, no Sul de França. Com o eclodir da 2ª Guerra, a sua avó suicidou-se. Para evitar enlouquecer (ou, ao invés, mergulhando nos abismos da loucura negra), Charlotte pintou, pintou furiosamente centenas de guaches, recriando a sua vida como se fosse uma peça de teatro em forma de pintura. Chamou-lhe Vida ou Teatro? O seu pai descobriu os guaches depois da 2ª Guerra. Charlotte tinha sido entretanto enviada para Auschwitz. Onde morreu. Agora, em Amesterdão, o Museu Judaico exibe pela primeira vez a colecção completa de guaches de Charlotte (que pode ser vista aqui). Oitocentos guaches. Todo o mundo é um palco, talvez. O pano caiu sobre a existência de Charlotte Solomon tinha esta apenas 22 anos. Vida, teatro, morte?