domingo, 18 de janeiro de 2026

São Cristóvão pela Europa (342).

 

Anras é um município da parte oriental do Estado austríaco do Tirol. Na minha passagem pelo município pude assistir a uma típica festa tirolesa.

A igreja paroquial foi consagrada em 1762 e é dedicada a Santo Estêvão. O estilo é barroco. Numa das suas paredes exteriores, um fresco representando São Cristóvão sobrevive atrás de um crucifixo.

 





 

Abfalltersbach é um município contíguo. A sua igreja paroquial, consagrada em 1441, é dedicada a Santo André. Possui um fresco de grandes dimensões do nosso Santo de meados do Século XV numa parede exterior. É da autoria de Jakob Sunter.




 

E aqui termina esta digressão por terras italianas e austríacas.

Mas voltei à Áustria ainda em Agosto…

 

 

                                                            Fotografias de 3 de Agosto de 2025

                                                                                                 José Liberato




Carta de Bruxelas.




 






                                                                                Fotografias de João Tiago Proença





Na literatura de entretenimento há por vezes obras admiráveis, domina-as uma certa intemporalidade.

 


 

Na chamada literatura de entretenimento, há obras que ganham foros de popularidade, ultrapassando o chamado ciclo efémero mesmo os best-sellers têm por natureza uma vida curta. Um livro como O Código da Vinci, de Dan Brown, está agora completamente esquecido, enquanto um romance como Rebecca, de Daphne du Maurier, ainda hoje atrai muitos leitores. Numa outra perspetiva, há romances que cabem no formato da literatura de entretenimento e possuem em si uma energia literária que assegura sucessivas edições, década após década, é o caso da literatura de crime e mistério de George Simenon, ainda hoje um dos escritores franceses do século XX mais lidos em todo o mundo.

Jeffrey Archer, como escreve na badana do seu romance Uma Questão de Honra, Bertrand Editora, 2024, tem 300 milhões de exemplares vendidos em 114 países e é publicado em 47 línguas, o mesmo é dizer que é um dos maiores autores de best-sellers do planeta. Qual o magnetismo deste livro? Obviamente que tudo vai arrancar com um problema de cariz mundial, em 1966, o líder soviético informa os seus pares do Kremlin de que o ícone São Jorge e o Dragão, que fora propriedade do Czar, era uma falsificação. A Segurança do Estado recebe ordens para descobrir onde está o original, este encerra um segredo de uma desmedida importância, trata-se de um documento estratégico, mexe com a ordem mundial. Vai ser desencadeada uma caça ao tesouro. E como um bom livro é sempre uma história bem contada, estamos agora na leitura de um testamento, ficamos a saber que um antigo coronel das forças britânicas caído em desgraça deixa nesse testamento uma carta misteriosa ao seu filho. Abre-se a caixa de Pandora.

Caçador e fugitivo vão estar no turbilhão dos acontecimentos. Adam Scott, capitão e filho do dito coronel, vê a sua vida virada do avesso, a sua amada brutalmente assassinada e ele passa ao estatuto de fugitivo, os caçadores são o KGB e a CIA e até será vigiado pelos seus compatriotas britânicos. A intenção de todos é silenciá-lo, o documento dentro do ícone original é uma verdadeira bomba atómica.

Voltando ao passado, ficamos a saber que o coronel acompanhava os presos nazis julgados em Nuremberga. O Marechal Goering, que ele vigiava permanentemente, recebera secretamente uma ampola de cianeto de potássio e suicidara-se, mas tinha deixado uma carta ao cuidado do coronel, este fora exautorado pelas suas autoridades pelo suicídio de uma das figuras proeminentes do III Reich. Aquela carta é o busílis da história.

O camarada Romanov é o agente que iniciou a caçada, foi escolhido pela Segurança do Estado para descobrir o paradeiro do ícone do Czar, põe a trabalhar uma equipa de investigadores, descobre-se que uma pretensa cópia fora oferecida a um Grão-Duque alemão, as investigações chegam a Goering, daqui chega-se ao coronel Scott, isto enquanto Adam procura um tradutor alemão, para saber do conteúdo da carta, vai batendo a várias portas. Há uma encomenda guardada num banco em Zurique, nesta altura o leitor já está completamente capturado, poderá ser uma história da carochinha, mas uma boa perseguição e uma estrutura narrativa bem condimentada entre o que faz o perseguidor e como o perseguido se vai desenvencilhando numa apertada teia, cresce o frémito da leitura com o aparecimento de determinadas figuras, como um competente financeiro soviético que a seu tempo preparará uma tremenda armadilha a Romanov.

Este chega ao banco suíço por onde andara Adam Scott, vem à procura de património seu, que poderá fazer dele um milionário. Estamos perante um elemento novo, Adam Scott, que tem a patente de capitão, é candidato a um lugar no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Romanov revela-se um assassino implacável, mata a sua colaboradora que o acompanhara na missão à Suíça, de regresso a Moscovo teve de explicar que a dita colaboradora desapareceu inesperadamente, a visita ao Banco de Zurique revelara um outro ícone que não o pretendido. A Segurança do Estado tem desconfiança do comportamento do Romanov, agora tem outro agente na sua peugada.

O leitor está mais absorvido do que nunca, Adam Scott é já um fugitivo, surge mais um elemento na história Emmanuel Rosenbaum, um velho também portador de um segredo, viremos a saber que se trata de uma caracterização de Romanov, estamos agora em Genebra. A maratona contra o tempo é sufocante, os britânicos vêm a saber que o ícone São Jorge e o Dragão fora deixado ao pai de Scott por Goering. Em Genebra espalham-se agentes no terreno, russos e suíços, Adam para fugir à vigilância dos seus perseguidores disfarça-se de elemento de uma orquestra filarmónica que anda em digressão pela Europa, chegou a altura de introduzir o elemento amoroso, trata-se de Heidi, esta aceita ajudá-lo, ele entra no autocarro que leva os músicos para outra cidade.

Como o leitor pode imaginar tudo irá acabar bem para Adam Scott, o seu perseguidor Romanov irá ter um fim trágico, o documento do ícone jamais abalará as relações entre os EUA e a União Soviética. Então, porquê o título Uma Questão de Honra? Quando finalmente Adam Scott compreende o que tem na sua posse, fica ainda mais determinado a proteger o documento que possui um segredo avassalador, a sua fuga desesperada pela verdade vai mais além do que é uma questão de vida ou de morte, é uma questão de honra, aquele segredo acabará por reabilitar o nome do seu pai, e aquele ícone que levara à morte de gente foi vendido por 14 mil libras em leilão.

E não digo mais, este thriller de um grande contador de histórias merece a melhor atenção do leitor que queira acompanhar uma caçada ao tesouro em 1966, em plena guerra fria, porque aquele envelope deixado em testamento podia pôr em marcha uma cadeia de acontecimentos, suscetível de alterar o equilíbrio entre as duas superpotências.

Lê-se com agrado, pode-se não acreditar na história bem contada, diga-se em abono da verdade que ela já foi tratada por outros romancistas, mas é um entretenimento desopilante de primeiríssima classe. 


                                                                Mário Beja Santos

 


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

São Cristóvão pela Europa (341).

 

 

 

Nos arredores de Lienz, duas localidades têm imagens de São Cristóvão.

Em Winklern, a Igreja de São Lourenço, reconstruída em 1521 após um incêndio, tem um fresco já desvanecido representando o nosso Santo.

 



Em Dolsach, um edifício possui um grande mural de São Cristóvão.

 


Junto a Assling, a igreja paroquial de Santa Justina ergue-se num esplêndido cenário a mais de 1200 metros de altitude. Foi construída por volta de 1500. Na torre sineira, um enorme fresco do nosso Santo, datado de 1513.

 





Em Tessenberg, a igreja paroquial, consagrada em 1571, tem um fresco de São Cristóvão, infelizmente obstruído pela construção posterior de uma sacristia e a abertura de uma janela. A vista da igreja é extraordinária.

 






 

                                            Fotografias e 2 e 4 de Agosto de 2025

                                                                                    José Liberato




quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Radiografia do país tal qual hoje o vivemos: Ensaios incisivos, todos a dar que pensar.

 



 

Para comemorar os 15 anos da coleção Ensaios da Fundação reúnem-se textos de dezassete autores sobre temas da atualidade nacional. A obra chama-se Livros leves. Opinião de peso. Fundação Francisco Manuel dos Santos. No prefácio, o diretor de publicações António Araújo faz uma breve viagem pelas bibliotecas de difusão de conhecimento que fazem parte da história da cultura portuguesa dos séculos XIX e XX, até chegarmos a estes ensaios que somam 152 títulos, dois milhões de livros nas mãos dos portugueses.

Abre as hostilidades José Manuel Sobral falando da identidade nacional, discorre sobre as muitas metamorfoses por que vivemos concluindo “No mundo cada vez mais globalizado, e onde as migrações assumiram um carácter massivo, a identificação oficial continua a ser feita em termos nacionais, de que decorrem processos de inclusão ou exclusão em termos de direitos de cidadania, o que mostra a sua importância decisiva para os destinos individuais. E se a inserção dos Estados nacionais em organizações internacionais ou mesmo supranacionais, como, no caso português, a União Europeia, lhes retirou soberania, não parece ter afetado a preeminência dada pela população à pertença nacional.”

Tiago Fernandes responde pelo ensaio O regime democrático em Portugal (1974-2025). Mostra as suas reservas aos que agitam que está próxima uma crise demográfica em Portugal, lembrando que o sistema democrático conta com partidos liberais-democráticos robustos capazes de competir com a direita radical. “Embora enfraquecidos, o centro-direita e o centro-esquerda tradicionais não desapareceram, como em muitas outras democracias contemporâneas. E persiste a natureza interclassista do PS e do PSD. Embora o voto nos partidos de direita continue associado a maiores níveis de rendimento e prática religiosa, as bases sociais e apoio dos principais partidos portugueses são ainda socialmente diversas e plurais. Um último recurso para resistir a uma eventual crise democrática e derrotar a extrema-direita, caso esta chegue ao poder máximo do Estado, é a sociedade civil portuguesa, cujas raízes remontam à revolução de 1974-1975. Em Portugal, os símbolos, as canções e os temas expressos em eventos de protesto refletem uma forte memória do momento fundador da democracia, o 25 de abril.”

Luciano Amaral vem abordar a economia portuguesa no século XXI. Dirá que o grande problema social português, ao fim de 50 anos de democracia, é fundamentalmente económico. “O grande escolho no caminho do maior crescimento continua a ser o baixo nível de produtividade da economia. Não é fácil perceber como resolvê-lo. Já se tentou muito, especialmente com as reformas estruturais propostas pela Troika. Mas o impacto no crescimento foi limitado. Talvez porque o principal problema da economia portuguesa se mantém: a baixa intensidade de capital (isto é, a baixa relação entre os instrumentos de produção existentes, como máquinas, infraestruturas ou veículos de transporte e a mão-de-obra) e a fraca produtividade desse mesmo capital.” E convém não esquecer que estamos a enfrentar novas e grandes incertezas e se regressou em força ao protecionismo da economia mundial.

Nuno Garoupa é autor de um dos mais polémicos textos deste livro, sobre O Inconseguimento crónico da Justiça portuguesa. Não esquecendo que os ganhos conjunturais não ocultam a persistência de problemas estruturais e o agravamento de bloqueios, é profundamente crítico com os governos PS e PSD/CDS, diz terem uma visão míope da justiça. “Continuam a apresentar medidas avulsas para descongestionamento ou simplificação processual, como se o problema fosse de gestão corrente e não de bloqueio institucional. Após 30 anos de reformas pontuais, o que se impõe é uma mudança de paradigma. É necessário um programa coerente, sustentado numa visão estratégica de 20 anos, capaz de reestruturar o sistema judicial de forma integrada. Tal mudança exige mecanismos estáveis e institucionais para planear, debater, propor e avaliar reformas estruturais. A proposta de criação de uma comissão permanente e independente para a reforma da justiça permanece ignorada. Curiosamente, a AD recuperou essa proposta no seu programa eleitoral de 2024, mas abandonou-a assim que chegou ao poder. Esta recorrente ausência de continuidade revela um padrão de governação que privilegia promessas eleitorais vazia em detrimento de compromissos institucionais duradouros.” E elenca as diferentes dimensões que vemos abarcadas por uma reforma paradigmática.

Confesso que o texto que mais me impressionou pela sua originalidade é o de Sofia Guedes Vaz intitulado Um alfabeto do ambiente. Pôs-se em viagem, foi percorrer a Estrada Nacional 2 em bicicleta. “Queria construir uma cartografia pessoal do território a partir da perspetiva desse meio de transporte, uma visão lenta, silenciosa, sensorial e próxima do chão. Queria reencontrar a sustentabilidade do país em mim, percorrer um atlas vivo da geografia portuguesa e transformar os 738 Km de Chaves a Faro num percurso de dúvidas e incertezas, mas acima de tudo esperança.” E construiu um alfabeto suscetível de inspirar alguém. A: Amor, dá esperança quando tudo parece falhar. B: Bicicleta, não só pela paz que dá naquele caminhar, mas também porque tem sido o grande responsável por uma revolução suave na mobilidade. C: e se o Consumo fosse um ato de cidadania, porque consumir é um ato político e ético, por inerência um ato de cidadania. D: Descarbonizemos, porque descarbonizar está ligado às florestas, somos um país florestal, no qual mais de 30% do território contém árvores. E: Ecosofia, uma filosofia pessoal vivida em harmonia ecológica. A autora caminha para a letra I: Incêndios e diz-nos que foi de Castro Daire até Viseu poucos dias depois de um grande incêndio. “Foi doloroso ver, sentir e cheirar as paisagens desoladoras e escuras, carbonizadas”, irá depois falar em lixeiras, em plásticos, nos oceanos, na qualidade do ar, nas energias renováveis, não esquecerá as utopias. E despede-se do leitor com amenidade e um olhar num futuro melhor: “T de Tempo, a liberdade de não olhar para o relógio. Tempo para o Outro, Tempo para nos reconectarmos com a comunidade. G de Gratidão, por tudo, pela natureza e por quem me apoiou ao longo desta aventura. E S de Silêncio, claro. Apesar de ter encontrado gente gira, as horas de silêncio foram as mais especiais. Silêncio é para sonharmos com um mundo melhor.” Passei ao crivo algumas citações de ensaios de grande qualidade que abrem pistas para refletirmos sobre o país que somos e como ele poderá vir a ser mais livre, mais justo e mais desenvolvido.

De leitura obrigatória. 


                                                                    Mário Beja Santos

 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

São Cristóvão pela Europa (340).

 

 

 

A última povoação visitada no Estado austríaco da Caríntia foi a de Xaveriberg cuja denominação existe desde 1737 quando foi construída uma capela dedicada a São Francisco Xavier.

Muito perto, existe a pequena igreja de Santa Radegunda. Situada num local isolado à entrada de um desfiladeiro, aqui passava, desde o tempo dos romanos, um trilho de mulas muito perigoso. Daí, o grande fresco de São Cristóvão atribuído a Urban Görtschacher de que já aqui falámos. É de 1510.

A igreja comemorou recentemente os seus 950 anos de existência.

 



 E entramos no Estado do Tirol. Este é separado em duas partes por um corredor cuja largura mínima é de cerca de uma dezena de quilómetros de largura. A parte leste é constituída por um único distrito: o de Lienz.

A cidade de Lienz é a capital do distrito. Está situada na confluência de vários vales

Já a tinha visitado antes. Mas havia ainda outras imagens a descobrir.

Um dos rios que atravessa a cidade é o rio Iser, afluente do citado Drau. Numa ponte sobre este rio existe uma estátua de pedra, muito estilizada, inaugurada em 1974, da autoria do escultor austríaco Gottfried Fuetsch (1909-1989).

 


Mas o monumento principal de Lienz é seguramente o Castelo Bruck. Foi construído na segunda metade do Século XIII pelos Condes de Gorizia. Quando o Conde Leonardo morreu sem descendência em 1550, foi ocupado pelo Imperador Maximiliano I. Foi primeiro residência para senhoras nobres e depois sucessivamente hospital de campanha, quartel, hospedaria: Pertence à cidade desde 1943.

A Capela do Santíssimo Sacramento é um dos pontos mais importantes do castelo. Revestida de frescos pintados pelo mestre austríaco Simon von Taisten, nela avulta uma abside semicircular representando os catorze Santos Auxiliares entre os quais o nosso Santo.

 





 

                                        Fotografias de 2 e 3 de Agosto de 2025

                                                                                José Liberato



quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

São Cristóvão pela Europa (339).

 

 

 

Sempre ao longo do belo Vale de Gail no distrito de Hermagor, Estado austríaco da Caríntia, chegamos a Kirchbach que na I Guerra Mundial foi uma frente de batalha entre a Áustria e a Itália. Aqui se pode ver na fachada de um edifício um relógio de Sol decorado com uma figura de São Cristóvão.

 



O município de Kötschach-Mauthen tem três localidades com imagens dos nosso Santo: Mauthen, Laas e St. Jakob in Lesachtal.

Em Mauthen, a igreja paroquial é dedicada a São Marcos Um belíssimo fresco de São Cristóvão ornamenta a fachada Sul. É do Século XVI e foi descoberto em 1932.

 



Em Laas, a igreja paroquial é dedicada a Santo André e foi construída na primeira metade do Século XVI. O fresco do nosso Santo, no exterior, é da mesma época. Os portais da igreja, em pedra da região, um grés vermelho, são notáveis.






A igreja matriz em St. Jakob in Lesachtal é naturalmente dedicada a São Tiago, é do Século XVI e de estilo gótico tardio. Insere-se também numa paisagem de grande beleza.

O fresco de São Cristóvão no exterior é contemporâneo da igreja e encontra-se um pouco desvanecido

 




 

                                            Fotografias de 3 de Agosto de 2025

                                                                                José Liberato