domingo, 8 de março de 2026

São Cristóvão pela Europa (350).

 

 

 

Terminadas as digressões pelo Centro da Europa, voltemos ao nosso querido Portugal. E ao Norte.

 

Em Gondomar, a Igreja Paroquial é dedicada a São Cosme e São Damião, os dois santos gémeos e médicos. A igreja é barroca, construída na primeira metade do Século XVIII. A torre sineira permite uma passagem.

Numa remodelação infeliz no início do Século XX desapareceram paredes inteiras de azulejaria. Subsiste um belo painel representando São Cristóvão.

 




 Na freguesia de Antas, concelho de Esposende, existe uma pequena ermida de São Cristóvão. Originalmente dedicada a Nossa Senhora da Portela, não se conhece como passou a ser de São Cristóvão. Se hoje está longe dos olhares dos passantes, anteriormente podia ser facilmente avistada de quem se dirigia da Póvoa de Varzim para Viana do Castelo.

Segundo o historiador Penteado Neiva, que teve a gentileza de me acompanhar na visita (juntamente com os Presidentes da Câmara e da Assembleia Municipais), esta deve ser a mesma capela da Senhora da Portela fundada em 1553 pelo proprietário da quinta da Portela, o abade de Santa Leocádia de Geraz do Lima.

Ao longo dos anos, discutiu-se a manutenção do edifício, a falta de recursos para a realizar, a conveniência de a deslocar para outro lugar. Mas sempre resistiu. Está na posse da mesma família desde 1887.

No interior, uma imagem de São Cristóvão de madeira policromada de autor desconhecido e do Século XIX. Tem duas características diferenciadoras. Em primeiro lugar, a sua dimensão de 68 centímetros não corresponde ao padrão gigantesco habitual. Por outro lado, o Menino Jesus assenta no braço direito do Santo e não no ombro.

 



No concelho de Vizela situa-se o santuário de São Bento das Pêras, local de peregrinação e de belas vistas.

No interior da Igreja principal, já do Século XX, uma imagem do nosso Santo.

 




                                                                Fotografias de 31 de Janeiro de 2026,

                                                                                                     José Liberato


Frederick Brennan (1994-2026): um estranho numa terra estranha.

 




                                                                    No Público

https://www.publico.pt/2026/03/08/mundo/cronica/fredrick-brennan-19942026-estranho-terra-estranha-2166870

 



quinta-feira, 5 de março de 2026

Autópsia da formação e dos tormentos de guerra de um oficial dos Comandos, em Angola.

 





          Num tempo em que a literatura da guerra colonial se foca em memórias, em quadros de expiação de filhos de antigos combatentes que visitam os locais por onde andaram os pais, não deixa de surpreender O Elogio da Dureza, volume I de uma trilogia intitulada A Vida Aventureira de um Homem de Letras, por Rui de Azevedo Teixeira, Guerra e Paz Editores, 2024. Não vale a pena iludir a chamada ficção da literatura de guerra, romance, novela, conto, tem sempre fumos autobiográficos. O autor é doutor em letras, tem obra de académico e de ensaísta e procura neste seu primeiro volume da trilogia descrever a preparação de um alferes dos Comandos, expõe com crueza um drama familiar, era dado como perfilhado, sentia a ferida da discriminação, ainda por cima a relação com o padrasto era quase nula; fala-nos da sua mocidade e das muitas leituras, com relevo para Camões, Hemingway, Simenon, à testa de muitos outros nomes. Andou por Coimbra, frequentava certamente um curso de Filologia Germânica, citações a jeito de tais línguas aparecerão no romance. Impelido pelo fascínio da força, encaminhou-se para a guerra, vai descrever como nunca ninguém descreveu a preparação de um Comando, entremeia também como páginas de um diário que ele apresenta como diário incerto.

          Sobrepõe-se os tempos no romance, antes de conhecermos o que foi a sua preparação para a guerra, vemo-lo de regresso, um tanto à deriva, é convidado a entrar no PREC, o alvo são os esquerdistas e os comunistas. E entramos brutalmente no universo infernal da preparação, feito em Angola, no Centro de Instrução de Comandos. O teste da sede, o arranque do curso estava dado – brutalidade com o máximo de disciplina, formandos quase enlouquecidos a beber a própria urina, as humilhações, as eliminações de quem não suportava a dureza de tais provas, os crosses e as marchas forçadas, as flexões, numa barra fixa, até à exaustão, os tratamentos degradantes, a leitura em voz alta do correio enviado aos formandos, aquilo que hoje podemos chamar de violação de correspondência.

           E virá um momento de dúvida neste jovem que se ofereceu para os Comandos, ele vai passar uns dias a Luanda e segue-se um episódio marcante assim descrito:

          “De um golpe, numa única lição prática, percebeu a essência do colonialismo. Uma parte dessa essência.

Paulo descia e o homem preto subia. Ambos pelo mesmo passeio estreito. O preto tinha cerca de cinquenta anos, cabelo grisalho, fato coçado. Um ar sério, digno, de pequeno funcionário. Três ou quatro metros antes de se cruzarem, o homem olhou para Paulo, baixou os olhos, encurvou as costas e, automaticamente desceu do passeio para Paulo poder passar à vontade. Baralhou-se a cabeça ao cadete. Caiu-lhe muito mal que um homem preto de meia-idade se tivesse curvado, diminuindo-se perante um jovem branco, perante si. Pela idade, podia ser seu pai. Nenhum dos textos que tinha lido sobre o colonialismo teve em Paulo o mesmo impacto que esta cena muda numa rua de Luanda.”

Vamos conhecer a vida daquele grupo de cadetes, os sofrimentos a que eles serão sujeitos nas últimas semanas da sua formação, segue-se o juramento dos Comandos. Voltamos ao PREC e passamos para a guerra do Leste de Angola, Paulo está no Luso, seguem-se operações, caso da Empurra Tudo, na zona do Luma Cassai, no lusco-fusco o grupo da tropa especial entra num acampamento, vamos ter o horror da guerra, uma faca de mato na barriga de um velho, girando lá dentro como o corno de um touro numa corrida, não faltam tiros de misericórdia para os guerrilheiros agonizantes. Entre operações, Paulo refastela-se, companhias femininas não lhe faltam, e depois temos as operações, os mortos e os feridos, não faltam interrogatórios com sofrimento descomunal. Há também as perdas de camaradas. E depois Paulo é afastado do Leste, vem preparar novas gentes, vai guardar grandes saudades das Terras do Fim do Mundo.

Neste entremeado do durante-antes-depois, Paulo já está a acabar o seu bacharelado, vemo-lo agora no centro de instrução dos Comandos, faz um curso de milhas e armadilhas, é convidado para participar na operação pantufada, no Mayombe, deixa-nos uma bela descrição:

“Sob intensa chuva e trovoada agressiva, os Comandos entraram ao fim da manhã na opulência vegetal de Mayombe. Os estouros metálicos dos trovões davam-se mesmo por cima das copas das árvores majestosas, o que tornava os comandos momentaneamente surdos. A espessa massa vegetal, de cheiro intenso e meio adocicado, e o sobe e desce dos morros da floresta tornavam a progressão muito mais difícil do que avançar pelas planuras do Leste. Mayombe, o verde vibrante e ubíquo. Verde no chão, verde a meia altura e, no alto, um céu de folhas verdes. Só o acinzentado das árvores muito direitas, altas e elegantes escapava ao verde.”

    E assim chegamos ao 25 de abril. Paulo é professor em Vila Figueira, cria amizades, gosta da estúrdia com um aristocrata real. Vai depois ensinar na ilha da Madeira, está a acabar a licenciatura, conhece Iza Maria Possolo d’Ornellas, haverá um casamento, ele dirá ser “sublime, sólido, sagrado”. A expiação em que vivera como filho de pai incógnito e perfilhado pelo padrasto irá ser cabalmente esclarecida por Iza, afinal Paulo era filho do padrasto, ele não esconde a sua revolta, aqueles pais nunca tiveram em conta o sofrimento do filho, decidiu nunca mais voltar a falar com os pais. Assim termina o volume primeiro desta aventura de um homem de letras. António Cândido Franco diz tratar-se de “Curioso e comovente percurso do lobo solitário, personagem viva e única que evolui diante do leitor de forma memorável… Um milagre que transforma a dureza em pureza.” Esperamos vir a seguir as outras obras da trilogia. 


                                                                                                        Mário Beja Santos  

 




segunda-feira, 2 de março de 2026

São Cristóvão pela Europa (349).

 

 

 

Termino hoje o relato da minha digressão pela Áustria durante o último Verão.

A abadia beneditina de São Lambrecht é um dos mais importantes mosteiros da Áustria. Foi fundada em 1076 e a basílica românica consagrada em 1160.

As suas vastas instalações foram confiscadas pelas autoridades nazis em 1938. Quatro anos depois aqui foram instalados campos de concentração.

Pela sua dimensão e qualidade destaca-se, no seu interior, um fresco representando São Cristóvão, datado de 1360. As suas pernas foram obliteradas com a pintura de frescos sobre o ciclo da Paixão.

 



 

Voltei à Igreja Paroquial da Natividade de Maria em Schöder, já aqui mencionado no Malomil, para descobrir um fresco espantoso. Se no fresco de São Lambrecht faltam as pernas, neste só subsistem mesmo as pernas,,,

 



Finalmente, a cerca de 1800 metros de altitude, no Sölkpass, uma passagem entre as montanhas desde tempos imemoriais, foi construída uma pequena capela. No seu interior, um vitral do nosso Santo.

 




                                                         Fotografias de 29 de Agosto de 2025

                                                                                               José Liberato