segunda-feira, 6 de abril de 2026

Quando o areal de Monte Gordo é história regional com tracejado universal.

 





          Os Filhos de Monte Gordo, por José Carlos Barros, edição da Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2025, é uma monografia de um território e daas suas gentes, iremos acompanhar a sua transformação de povoado piscatório em estância balnear, demarcar-se-ão zonas de habitação, veremos evoluir a zona central destinada a turistas de várias posses, e os pescadores empurrados para uma periferia de casas de adobe e cabanas de colmo – enfim, uma marginalização económica e social que não se confinou a toda a orla algarvia, foi sentença que modelou o Portugal assimétrico em que vivemos.

          É uma monografia de leitura absorvente, uma escrita quase encantatória, um bom desenho histórico da região e momentos há em que o escritor não esconde o seu talento ao sabor da descrição de valor manográfico, assim:

          “Fernando Leonardo sabe o que é pescar nesses tempos de miséria em que as crianças fugiam da escola para esperarem os barcos e comerem os restos do que os pescadores cozinhavam no mar, uma sopa, um guisado, o peixe acabado de escamar. Cozinhavam num tacho de alumínio, num fogareiro à popa do barco, onde não chegava água, aí se guardava também o pão, o sal, o azeite. As lanchas eram de vela latina, pescava-se das cinco da manhã às três da tarde. Não é como agora, dois homens é o suficiente, às vezes um, nesse tempo eram companhas de cinco ou seis homens, quatro ou cinco no mínimo, quatro aos remos, um ao leme, tudo à força dos braços, sem avisos meteorológicos, sem GPS nem sombras, sem guinchos de alar, vinha um temporal e perdiam-se as redes, em havendo nortada não se rompiam avante, içava-se a vela, metia-se um ou dois riços e ia-se bordejando, bordo de mar, bordo de terra, a direito, ia-se à Praia Verde ou Cacela, bordo da terra para lá, bordo de mar para cá, tudo à força de braços, eram outros tempos.”

          Estamos no preciso local que é palco monográfico, antes de haver o Hotel Vasco da Gama, já houvera balbucio de vilegiaturas, a Ourela e o Sertão, tempos de famílias numerosas, aquela aldeia de pescadores sem história antes e depois do terramoto, em que o senhor Marquês de Pombal sonhou com uma povoação que não teve futuro, assim chegamos à confluência entre a pesca e os bens de mar. Iremos saber quem a partir dos finais do século XIX ali vem para as práticas balneares, aparece casario, ali perto em Vila Real de Santo António, há pesca industrial e fábricas de conservas de peixe, a paisagem urbana vai mudando. O autor lembra-nos os efeitos da crise de 1929, devastadores na economia do Algarve, crise de pesca e das conservas, situação crítica da exportação de amêndoa e figo, o desemprego atingiu níveis assustadores, há fome nos lares operários e de pescadores. E dá-nos também o retrato do desenvolvimento do extremo Sotavento.

          E assim chegamos à vocação turística de Monte Gordo, às grandes mudanças da década de 1960, os jovens sonham em fugir ao destino dos bisavós, dos avós, do pai. Em 1956 contruíra-se o parque de campismo, em 1960 o Hotel Vasco da Gama e o Hotel dos Navegadores no ano seguinte, seguem-se outros empreendimentos. Temos aqui mais um texto em que o escritor desafia o investigador:

          “Franzino, temeroso do mar, sem vocação para a pesca, seduzido por este mundo de turistas que chegam e partem, por uma espécie de música de fundo que se ouve em permanência e que chega de espaços indefinidos, pela luz dos lóbis entrevistos à distância por detrás de vidros amplos, João desafia um primo e rumam ao Hotel dos Navegadores, ele com doze anos acabados de fazer, o primo ainda mais novo, parecem adultos a desafiar o destino, a assobiar ao futuro. Conheciam as regras: não se dirigiram à receção, e aí ninguém do Sertão teria serventia, foram diretos às traseiras, à porta de serviço, João à frente do primo, corajoso e trinca-espinhas, criança a mexer nas cartas de rumos, a dirigir-se ao porteiro de turno, a perguntar se não havia trabalho.”

          Mergulhamos depois do Sertão, aqui a vida mexe, multiplicam-se as edificações clandestinas, Monte Gordo tem duas modestas pensões e parque de campismo, isto nas décadas de 1940 e 1950, depois vem a grande viragem e José Carlos Barros faz um enquadramento histórico desta região, um rincão do Sotavento que vem desde a Idade Média, que tem um ponto alto na Restauração, segue-se um período de declínio, tudo nos é explicado em linguagem luminosa, esclarecedora, tão esclarecedora que se percebe à légua a história das pilhagens das nossas águas os nossos irmãos espanhóis.

          É inevitável, tem de se abordar a indústria conserveira e o seu operariado, e depois o relato histórico volta a ser sobrepujado pelo gosto da boa literatura, veja-se um exemplo:

          “As xávegas, ou a arte da Barca, fizeram a fortuna de Monte Gordo na segunda metade do século XVIII, havia então mais de 3 mil homens diretamente envolvidos na pesca com xávegas, e foram responsáveis pelo aumento populacional do aglomerado ao longo do século XIX. O seu declínio, no entanto, começaria ainda nas décadas de 1880 e 1890, com a concorrência de artes mais modernas e produtivas, como os cercos americanos e os galeões a vapor e, mais tarde, as traineiras. Ainda que se tivessem mantido ao longo do tempo, e em determinados períodos com algum significado, na década de 1960 já só ocasionalmente faziam os seus lanços.” E, mais adiante: “A partir de finais da década de 1960, com o turismo a valorizar o pescado, com a motorização e a mecanização das embarcações a possibilitarem um maior raio de ação, maior regularidade das saídas e companhas menos numerosas, os marítimos de Monte Gordo regressam aos tresmalhos.”

          Sim, tudo mudou, o turismo reina impante, o Sertão acabou e há uma simbólica da devoção que marca o termo desta magnífica monografia, tem a ver com a imagem de Nossa Senhora das Dores, estava prantada numa Igreja que sofreu calamidades, quando se procedeu à reconstrução a imagem foi trasladada para Vila de Santo António. Afinal, o património imaterial pesa que se farta, os pescadores que nasceram e viveram no Sertão não serão conhecidos por um particular apego à frequência da Igreja. Contudo:

          “É ver a devoção com que, uma vez por ano, todos os anos, fazendo o próprio rol dos homens a quem é concedida a honra maior de levar o andor, seguem em procissão, todos marítimos, tudo gente do mar, o mais velho ao comando, com a vara das ordens, metálica, a orientar as pausas, os recomeços, o baixar, o erguer de novo, o virar ao mar, aos barcos de buzinas ruidosas, enfeitados com bandeirinhas e papéis crepe, é ver a devoção e o dramatismo triunfal com que se aproximam de novo da Igreja, no regresso, mais de vinte homens com as suas varas de apoio, a passada ensaiada ao ritmo da filarmónica, os movimentos em forma de pendulo a fazerem oscilar o andor, a Santa virada de costas para a entrada do templo, o adro cheio dos fiéis, dos peregrinos, e então a bênção, um lençol de lágrimas, três vivas à Senhora das Dores.” São assim os filhos de Monte Gordo.

          Se um bom romance é uma história bem contada, que dizer da virtuosidade de uma monografia que nos cativa do princípio ao fim? 


                                                                                      Mário Beja Santos