quinta-feira, 30 de abril de 2015

Em defesa de Cosme Vieira.

 
 
Cosme Vieira, o Cohn-Bendit da Cedofeita
 
 
         O doutor Francisco Louçã pôs-se a malhar no deputado Duarte Marques e eu acho que está mal. Estou à vontade para dizê-lo porque já uma vez brinquei aqui, sem maldade, com uma crónica do deputado Duarte Marques um pouco carregadita de vírgulas. O facto de o deputado Duarte Marques ter citado uma frase do professor Cosme Vieira não faz dele responsável por tudo o que este académico tem dito no seu blogue, intitulado Económico-Financeiro, nomeadamente em matéria de «pretalhada» (sic). O parlamentar laranja não disse nada sobre «pretalhada» e o doutor Louçã sabe-o bem, mas embrulha e manipula, chegando ao ponto de chamar ao professor Cosme «amigo» do deputado Marques.
         Depois, o Professor Louçã desatou a malhar no Professor Cosme Vieira, da Faculdade de Economia do Porto, o que também acho que está mal. Até hoje, ninguém sabia quem era o engenheiro de minas Pedro Cosme Vieira, agora transformado em celebridade nacional. Nascido no Bairro da Sé, no ano de 1965, o Pedro Cosme é um iconoclasta, um subversivo, e pessoas como o doutor Louçã deviam mesmo era gostar dele e da sua atitude sous les pavés la plage. Por exemplo, Pedro transgride as regras bolorentas  da Academia  e faz publicar, na página oficial da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, as fotografias mais marcantes da sua trajectória biográfica. Três bonitas imagens da comunhão solene, no Verão Quente (Agosto de 1975), e outra, a cores, tirada dois anos depois, naquele Agosto de 1977:
 
A comunhão do Cosme


Com um companheiro de luta, na rodagem de Aniki-Bóbó

Cosme, de cofres cheios, reparte o Bolo Orçamental

Cosme a Cores (Agosto de 77)
 
         Como todos os visionários, o Professor Cosme, além de Economia e «pretalhada», já divulgou um ou até mesmo vários papers sobre reactores nucleares. Publicou também sobre domesticação de animais e, na listagem das suas obras, consta um apontamento intrigante sobre os seus estudos inéditos: «Falhados (foram aceites há muito tempo mas que nunca mais foram publicados)»
Na Academia, e como acontece a todos os que ousam ir contra o sistema e as regras instituídas, o Professor Cosme é um incompreendido, uma vítima quer da biopolítica (Foucault) quer dos mecanismos de produção da distinction (Bourdieu). Há uns tempos, sempre nadando em contracorrente, candidatou-se ao cargo de director da sua Faculdade, tendo inclusivamente criado um blogue de campanha (Cosme gerou outros blogues; o melhor de todos chama-se Eurating.The European Rating Agency e foi criado em Julho de 2011, dele só constando o «Editorial», com os dizeres camarários: «To be build»).
 
O Programa Eleitoral Cósmico (em 124 slides de medidas concretas)
 
 
No seu programa eleitoral, o Candidato Cosme propunha-se «descongelar as carreiras» e «expandir as instalações» da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, 6000 metros para nascente («metade para salas, metade para gabinetes»). Na contagem dos votos, os funcionários da FEP pronunciaram-se assim: 28 foram para o Varejão, 11 para a Ana Paula e 0 para o Pedro Cosme. Seguindo-se o Conselho de Representantes, a votação resultou em 8 votos no Varejão e 7 na Ana Paula. O nosso Cosme bisou a votação a zero. Humilhado, cabisbaixo? Nada disso: «tive uma grande vitória pois expus as ideias que já me atormentavam há 20 anos (a das instalações) e as pessoas ouviram-nas com atenção. No final ainda disseram que as achavam interessantes.» E tanto assim era que, nas projecções que fez, algumas com «informação bayseiana», Cosme esperava ter 4% dos votos, contra 20% da Ana Paula Africano e uns esmagadores 76% para o Zé Varejão. No final, ganhou o Varejão, e o Cosme arrecadou, contas feitas, 0% dos sufrágios bayesianos.
         Como sucede amiúde aos escritores malditos, Cosme publicou um livro «directo» e «corajoso» que, vá-se lá saber porquê, «ninguém quis prefaciar». Saiu com a chancela da editora Vogais e chama-se Acabou-se a Festa. Subtítulo: Soluções Ousadas para Reerguer Portugal. Entre elas, a saída de Portugal do euro e o regresso ao escudo. Cosme é cómico, mas não é o único.
 

A opus Cosme, único livro editado em Portugal no séc. XXI sem prefácio abrilhantador
e sem o layout messiânico capas-com-carinhas
 
         Poderia dizer-se que o Cosme é uma fraude pegada e até fazer escândalo por o Jornal de Notícias (aqui) ou o Dinheiro Vivo o terem entrevistado (aqui). Se se tratava de um louco, de um furioso racista, agora quem apanha nas orelhas é o parlamentar Marques? E, já agora, depois de Nicolau Santos ter levado o saudoso Artur Baptista da Silva ao seu programa da SIC-Notícias, ter escrito no Expresso «Ouçam este homem», lá diz a Bíblia: quem não tiver pecado que atire a primeira pedra.

       Aliás, melhor do que a fraude-Baptista (o que, convenhamos, é difícil), só a reacção de Boaventura Sousa Santos quando o escândalo-Baptista rebentou. Disse Boaventura que o facto de as pessoas cidadãs se terem deixado enganar pelo falso funcionário ONU era plenamente justificável devido «à polarização muito grande do debate entre os que apoiam as políticas do Governo e os que as contestam e consideram que elas estão a resultar na destruição do Estado social». Nicolau Santos mostrou-se mais conciso: «fui mesmo embarretado».

 
Baptista, o Grande Artista: como este, já não se fabrica 

         É claro que este professor Cosme diz mais, muito mais, da Faculdade de Economia do Porto (e da universidade portuguesa em geral) do que dele próprio. O que escreve no seu blogue, sobre a «pretalhada» e outros mimos, só é prova de irreverência e mal-estar civilizacional. Cosme é um inconformista, rebelde indignado, explorando as franjas, ludibriando a margem. Existe também nos seus escritos um belíssimo momento freudiano/Bates Motel, já notado pelo doutor Louçã. A dada altura, Cosme diz, qual matricida impiedoso, na linha do letal Palito: «a minha mãe, totalmente caquética da cabeça»... As barbaridades que nos deixa sobre a SIDA ou a matança da «pretalhada» só a ele dizem respeito. Insiste-se: não é intelectualmente honesto o doutor Louçã vir associar o deputado Marques ao professor Cosme só porque aquele citou uma frase do docente da Invicta que nada tinha a ver com as  alarvidades que este regularmente expele. Em abono da verdade, diga-se que,  à conta dessas alarvidades, que publica no seu blogue misturadas com fotos de gajas boas, Cosme já teve três «processos de averiguação» na Faculdade. Alega, em sua débil defesa, «o Louçã é um esquerdista e os esquerdistas estão em grande maioria nas universidades». Os esquerdistas, talvez; o bom senso é que não: Pedro Cosme da Costa Vieira é professor auxiliar com agregação da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, doutorado em 2001, agregado em 2007. E, para quem quiser apoiar a infância desvalida,  Cosme até indica o seu NIF, que é o: 501 413 197.
         Contudo, Cosme é importante. A sua relevância, no plano cosmológico mas também antropológico, e até filosófico, desvenda-se num livro de Giorgio Agamben recentemente traduzido entre nós, O Aberto. O Homem e o Animal. O ponto a reter para a compreensão cósmica prende-se com a leitura de Hegel feita por Kojève, em divergência com Georges Bataille. Neste debate, o Professor Cosme desempenha um papel essencial, ainda que involuntário, na demonstração inequívoca da tese de Kojève sobre a transição para um mundo pós-histórico em que «o Homem continua vivo como animal que se encontra de acordo com a Natureza e com o Ser dado. O que desaparece é o Homem propriamente dito, ou seja, a Acção que nega o dado e o Erro ou, em geral, o Sujeito oposto ao objecto». Quando estaciona o seu automóvel frente ao nº 80 da Rua Dr. Roberto Frias, indo perpetrar mais uma aulita na Faculdade de Economia da capital do trabalho, o Professor Cosme Vieira manifesta-se como encarnação ambulante do aniquilamento do Homem propriamente dito, sendo um sintoma, em carne e osso, do desvanecimento contemporâneo da oposição entre Sujeito e Objecto. Neste «epílogo» dos tempos, Cosme exprime a «negatividade humana», ou seja, o momento em que os homens voltam a ser animais. O docente portuense devolve-nos à animalidade grotesca, primordial. E a Faculdade de Economia do Porto, por sua vez, é o espaço em que se desenrola este fim hegeliano da História, razão pela qual bem merece  ser ampliada em 6000 metros quadrados a nascente (na modalidade olímpica «metade para salas, metade para gabinetes»). Em O Aberto, Agamben refere-se também à distinção, introduzida por Bichat, entre a «vida animal» e a «vida orgânica». Cosme Vieira é um exemplo doutorado e agregado da hegemonia da vida orgânica. Ainda que escreva palavras (e com erros ortográficos),  não produz argumentos, apenas segrega excreções. Apesar de habitar num andar mobilado na cidade do Porto, a sua vivência resume-se à de l’animal existant au-dedans, para usar os termos de Bichat. Mais do que um académico e professor de meninos, Pedro Cosme Vieira limita a sua existência à «repetição de uma série de funções, por assim dizer, cegas e desprovidas de consciência», como observa Agamben. O sangue circula nas veias, o oxigénio atravessa as narinas, assimila alimentos pela boca e, após a absorção da carga nutritiva, alivia os resíduos. Para além desses movimentos, nada existe, nada há. Mesmo que, sob a capa de um simulacro braudillardiano, Cosme Vieira se comporte razoavelmente em sociedade e até consiga interagir com os outros, aparentando ser um Homo sapiens nascido em 1965. Pedro Cosme, l’animal existant au-dedans. Em vez de lhe mover um processo disciplinar, a Universidade do Porto deveria preservá-lo para sempre. Conserve-se o Cosme. Agora, que foi descoberto e logo esmagado, como uma barata fétida, a sua massa inerte merece repouso. Em formol.
 
António Araújo
 
 
 

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