domingo, 9 de outubro de 2016

Portugal, 1930.

 
 
 
Hermann von Keyserling (1880-1946)
 
        
Não é fácil datar o ensaio que o conde Hermann von Keyserling (1880-1946) dedicou a Portugal, e que viria a ser incluído em apêndice ao seu livro Análise Espectral da Europa, que traduzimos a partir da segunda edição francesa (Paris, Éditions Stock, 1947). Naquele prefácio, Keyserling manifesta o seu reconhecimento a diversos intelectuais do seu tempo, como Max Scheler, Carl Gustav Jung, André Maurois, Coudenhove-Calergi, Salvador de Madariaga, Miguel de Unamumo, Ortega y Gasset, Victoria Ocampo. Desta listagem é possível entrever o modo de aproximação filosófica do autor de livros como A Vida Íntima ou Do Sofrimento e da Plenitude. Na verdade, Hermann Alexander von Keyserling cultivava uma filosofia naturalista, anti-positivista, de inspiração neo-kantiana e laivos místicos, tendo fundado em 1919 a Escola de Sabedoria, ou Sociedade de Filosofia Livre, em Darmstaad; procurou, nesta e noutras obras (v.g., dedicadas à América do Sul), captar o «espírito» dos povos, elaborando uma «psicologia das nações» que hoje temos por risível mas que exerceu profunda influência na sua época. Basta referir que foi o criador da expressão Führerprinzip, ainda que a mesma – importa dizê-lo – não visasse enaltecer Hitler ou os nacionais-socialistas, que posteriormente se apropriam dela para cunhar um dos mais conhecidos chavões do nazismo. O texto de Keyserling tem hoje o (escasso) valor de uma curiosidade histórica, mas durante muitos anos, incluindo no pós-guerra, foi sendo citado por autores portugueses, que nele viram uma síntese certeira do «carácter nacional». Esteve entre nós em 1930, onde proferiu conferências em Lisboa e no Porto, a que assistiram Joaquim de Carvalho, Leonardo Coimbra, Sant'Anna Dionísio e, muito provavelmente, Fernando Pessoa. Este último escreveu-lhe uma carta, publicada e comentada por Pedro Teixeira da Mota num livro de 1988 (ver este texto de Pedro Teixeira da Mota); e, sobre Keyserling e Portugal, Ute Gahnings e Américo Monteiro publicaram Hermann Graf Keyserling: a Escola da Sabedoria, Keyserling e Portugal (CIEG/Coimbra, 2003) [infelizmente, não foi possível consultar estas duas obras]. Não é improvável que Salazar ou um dos seus próximos o tivessem lido, em tradução francesa – a mesma que aqui utilizamos. O estilo do autor e a incompetência do tradutor dificultam a apreensão de certas passagens, mas o ensaio de Keyserling, além da pertinência de uma ou outra das observações que formula, merece indubitavelmente ser divulgado, ainda que desta forma algo tosca e destituída de rigor.
 

Fotografia de Duarte Belo
2005

 
 
 
PORTUGAL
 
Folheando um dia as Tradiciones Peruanas de Ricardo Palmas, o meu olhar recaiu sobre a seguinte passagem: «É um facto incontestável que mesmo nos céus se aprecia a lisonja. O cristão que almeje receber os favores da glória eterna deve, antes de mais, aplaudir o canto dos serafins com um entusiasmo ainda maior do que é habitual nos teatros. Se porventura se cruzar com São José, não deve deixar de beijar ostensivamente o bordão florido que aquele traz na mão. Perante todos os santos, deve fazer uma genuflexão do modo mais respeitoso, pronunciando as palavras adequadas à ocasião: “beijo os pés de Vossa Graça”». Lima encontrava-se – e ainda se encontra, actualmente – no universo espanhol, o centro por excelência dos ademanes de corte. No entanto, ao ler aquele trecho, que vai ao ponto de descrever as regras de etiqueta e o modo como nos devemos comportar perante a Mãe de Deus e perante Deus-Pai, foi Portugal que logo me acorreu ao espírito. Em nenhum outro lugar fui tão brindado com tantas frases corteses; em nenhum outro lugar senti tanta necessidade, para não parecer mal-educado, de pronunciar tantos superlativos. Até nas ocasiões mais informais foi raro não ter de atribuir a outrem o título de Excelência.
O uso do superlativo em Portugal tem um significado muito diferente do que em Itália, apesar das suas aparentes semelhanças. Em Itália, o superlativo constitui, em derradeira análise, uma forma de expressão de um homem arrebatado pela paixão, mas débil na substância; aí, o superlativo existe em si mesmo, sem pressupor uma comparação ou uma apreciação positiva. O Português, ao invés, é o latino mais provido de sentimentos e de sensações. Se utiliza superlativos excessivos, também recorre, em compensação, a diminutivos não menos excessivos, a tal ponto que cheguei a encontrar, na letra de uma canção, a expressão «morte mortinha». Como é natural, isto permite estabelecer uma escala sentimental de grande amplitude. Entre os dois extremos, encontramos todas as modalidades concebíveis de experiências e de expressões. Contudo, o Português ressente-se da ausência de cambiantes pois é destituído do sentido das proporções. Vivendo num estado de alma sempre fugaz e transitório, incapaz de se elevar a um nível superior que o faça compreender a relatividade das coisas, destituído de sentido de humor, parece ser completamente unilateral. Ainda assim, não é simples ou transparente; à primeira vista, só excepcionalmente parece ser sincero, mostrando-se quase sempre ensombrado por zonas de penumbra e por segundas intenções.     
Desde a primeira hora de contacto mais próximo com os Portugueses, inquietei-me com uma complexidade que ignorava. Quase de imediato, fui surpreendido por outro disparate (no sentido espanhol da palavra) que revela bem até que ponto toda e qualquer situação portuguesa constitui uma equação irresolúvel. Tenho por hábito procurar uma imagem concreta e perfeitamente típica, na sua singularidade única, que seja capaz de ilustrar uma personalidade no seu todo. No que se refere aos Portugueses, descobri-a na seguinte história. Quando o terrível duque de Alba entrou em Portugal em 1580, à frente de um exército que à época era o mais poderoso da Europa, fez parar as suas tropas à entrada de uma ponte. Na ponte encontrava-se um pequeno português, com um ar absolutamente insignificante. De chapéu na mão, dirigiu-se ao duque de Alba e disse-lhe cortesmente para não parar a marcha por sua causa: «Passai, passai, que vos não farei mal». Através deste gesto, certamente tomado com toda a seriedade e a maior sinceridade, exprimia-se o orgulho de… um anão. Tudo aquilo que é especificamente português ostenta o timbre de um sentimento muito parecido com este.
 
***
 
A descoberta de uma relação causal jamais permitirá alcançar a essência das coisas, pois é inquestionável que a priori o princípio da razão necessária e suficiente detém um valor superior. Um ser vivo encontrar-se-á numa posição bastante debilitada se a sua existência tiver por fito exclusivo corroborar o princípio da causalidade. Raramente encontrei um episódio tão divertido como aquele que é contado nesta história verídica: tendo Albert Einstein acabado de explicar a uma audiência social-democrata a relatividade do princípio da causalidade, um camarada exclamou: «Mas, caro senhor, o que acontecerá à doutrina marxista se lhe retirarmos a causalidade?» Contudo, algumas relações causais podem facilitar a compreensão das contradições do carácter português, mesmo que, verdadeiramente, nada consigam explicar; aquelas contradições existem desde há muito, pelo que a causalidade, na melhor das hipóteses, terá servido de denominador comum, nada mais. Após 1662, termo da breve união entre Espanha e Portugal, este último país nunca mais quis saber daquele. Ora, faça o que fizer, Portugal é parte integrante da Península Ibérica, não apenas do ponto de vista geográfico mas sobretudo, e antes de mais, do ponto de vista espiritual. Pertence à Península Ibérica em primeiro lugar, e só depois à Europa. Se, desde os alvores da Idade Média, Portugal conquistou a independência política, isso em nada alterou a afirmação da sua essencial hispanidade; aquela independência foi tão-só a expressão mais acabada do regionalismo e do particularismo que caracterizam tudo quanto é hispânico. Em 1662, Portugal fez mais do que se separar novamente de Espanha: afastou-se dela e renegou-a. Com isso, desferiu um golpe profundo nas suas raízes, ferida que jamais sarou. Do ponto de vista político, teve, a partir de então, de se submeter à Inglaterra. A soberba assaz hispânica do Português nunca aceitou esta fatalidade. Desde aí, o Português converteu-se, essencialmente, num povo amargo e melancólico, que tenta compensar o seu profundo descontentamento através de gestos grandiosos. Em 1799, John Offley, negociante de vinhos estabelecido em Portugal, dizia a Farington: «Os Portugueses têm um orgulho que raia o ridículo. Consideram-se protectores de Inglaterra, a qual não passa de uma ilha que, julgam eles, não pode ser comparada a uma potência continental». No que me toca, um professor português – que em tudo o mais mostrou ser uma pessoa muito razoável – disse-me que considerava ter chegado o tempo de o português ser ensinado em todo o mundo, tornando-se a língua universal dos povos. Quem estilhaçar ou reprimir os elementos mais profundos de si mesmo perderá o equilíbrio interior e, doravante, viverá permanentemente na alternância brusca de pontos extremos, mas inconsequentes; eis algo que, noutras circunstâncias, seria uma manifestação de uma unidade plena de força. O que acaba de ser dito explica boa parte das formas através quais se exprime actualmente o «disparate» português. No entanto, do mesmo modo que ninguém se torna louco apenas devido a uma causa externa, sem que haja uma predisposição interior para que tal suceda, o «disparate» português sempre existiu desde que a nação se consolidou enquanto tal. A apreensão deste facto é uma das coisas mais interessantes e significativas de que me apercebi na minha análise da geração e da filiação dos povos. Em Portugal, o hispanismo projectou-se externamente através do seu contra-tipo. Daí encontrar-se no extremo oposto ao do seu elemento matricial, personificado em Castela.   
 
 ***
 
O fenómeno ocorre quer em Portugal, quer em Castela: observado sob o ponto de vista do espírito, do estilo, há algo claramente definido, mesmo que o não seja por natureza. Consegue notar-se uma diferença imperceptível entre o português e o galego, que fala praticamente a mesma língua e que partilha o mesmo espírito lírico. E, da mesma forma que a paisagem planáltica não «explica» Castela, o «clima atlântico» não «explica» Portugal. Pelo contrário, Portugal desafia a actual teoria da influência decisiva do meio envolvente. Nada contrasta mais com o céu radioso, com a vasta paleta de cores, com este mar profundo e imenso, com esta paisagem bafejada pelos ventos do que o carácter ensimesmado e crispado dos habitantes deste país. Na verdade, se a alma rural continua a ser idílica, em Portugal a simplicidade desaparece à medida que ascendemos aos patamares mais elevados de desenvolvimento intelectual e social. Nunca conseguiremos compreender Portugal se não analisarmos o seu contraste espiritual com Espanha.
É por isso – e não por motivos de ordem física ou natural – que podemos notar, seja em Portugal, seja em Castela, uma inclinação para extremos opostos, fenómeno que teria decerto maravilhado um Heraclito ou um Hegel. Algumas características bastam para demonstrar, sem margem para dúvida, esta inclinação para a divergência recíproca. No castelhano, simplicidade e magnificência; no português, complexidade e, se não mesquinhez, pelo menos tendência para a pequenez: os trabalhos de filigrana de ouro com que os pescadores do Porto ocupam os invernos, após terem afrontado o Oceano, são típicos da sua nação. Na sua essência, o castelhano é «inteiro»; o português, também na sua essência, é «fragmentado». O castelhano é seguro de si e, logo, aristocrata. Ao português falta segurança, o que o leva a ser arrogante ou a desdenhar os valores superiores, pelo que acaba por ser plebeu. O castelhano é monófono: apenas a sua língua exprime exactamente o que ele é. De todos os europeus, o português é o povo que melhor fala o maior número de línguas. Se observarmos em profundidade estes contrastes fundamentais (a que poderíamos juntar outros, aos que atrás já enunciámos), e se os analisarmos até às suas raízes, eles configuram-se como uma tentativa de diferenciação contra integração, mas realizada em termos tais que aquela diferenciação acaba por ser levada ao limite da decomposição. Por exemplo, não é correcto dizer-se que o português é doce enquanto o castelhano é agreste – também o galego é doce; nem que é o português é romântico, ao passo que o castelhano é realista – há românticos em toda a península; o traço mais distintivo reside no facto de a simplicidade espanhola, baseada na integração, em Portugal ter-se transformado em em multiplicidade. A riqueza da hispanidade, concentrada na integração castelhana, decompôs-se aqui em todos os seus elementos constitutivos. No entanto, a potencial integração não deixa de ser a forma primordial e mais profunda do Português, sendo esta a razão pela qual Portugal, nas suas épocas de maior grandeza e nas suas personalidades mais marcantes, não foi mais do que um hispânico com características peculiares.
Deste modo, em Portugal convivem lado a lado os elementos mais diversos e contraditórios, fazendo-o, todavia, em comunhão profunda. Em vão procuraremos um tipo físico uniforme: figuras com um ar escandinavo são tão autóctones como os negróides. Também não existem almas simples: cada qual alberga em si mesmo a tese e a antítese. Assim, «o» Português é o romântico mais extravagante mas também, por outro lado, o positivista mais exangue e indigente, sendo em simultâneo poeta e mercador de excelência. É, em simultâneo, doce e brutal, rude e selvagem, benévolo mas capaz das desatenções mais gritantes, refinado e vulgar. Tudo isto avulta em particular no domínio social, em que este povo, estruturalmente plebeu, produz excepcionalmente os mais requintados aristocratas do mundo contemporâneo. Daí o primeiro traço característico, comum a todos os Portugueses: a sua natureza explosiva. Comprimidas ou esticadas, mas sem contacto entre si, forças contrárias convivem proximamente, como nos explosivos. Não há, assim, a possibilidade de se libertarem totalmente que não seja através de uma explosão. Deste modo, todos os grandes feitos e gestos portugueses foram autênticos fenómenos explosivos: Vasco da Gama, Marco Polo e Magalhães lançaram-se sobre o planeta como balas de canhão. Ao invés, a impossibilidade de detonar essa explosão conduz necessariamente à crispação; as deflagrações meramente parciais – ou seja, não totais –  desbaratam forças, não produzindo quaisquer resultados. É isso que explica os intermináveis choros e lamentos dos portugueses; quando é decretado luto oficial, tais prantos assumem a forma de ataques enviesados. Nesta perspectiva, compreende-se facilmente porque é que Portugal, possuindo o sentido real das formas, cultivou tudo quanto é decoração, a ponto de a tornar numa autêntica maquilhagem. Se procurarmos descortinar a sua intenção profunda e real, o carácter desmedido da cortesia portuguesa, o abuso dos dourados nas igrejas, a importação do estilo oriental e mesmo o estilo manuelino visam acima de tudo encobrir, esconder. Porém, em face desta síntese falhada, a impressão geral que domina é a do inacabado, o que, por sua vez, desperta uma sensação de fealdade. Havendo crispação, o efeito será sempre o da pequenez, mesmo quando ela não exista na realidade. Não por acaso, a maior parte dos estrangeiros vêem na mulher portuguesa o arquétipo da mulher feia, pequena, tisnada, com um grande nariz – mesmo que aqui existam muitas outras mulheres, e essas belas, autenticamente portuguesas. Entre os homens, é também a raça mesclada de sangue africano ou asiático que aparenta ser a mais tipicamente portuguesa. Portugal não podia ser grande – e, efectivamente, não o foi – sem que o entrecruzar de contingências externas e internas tornasse possível uma explosão nacional. A granada que não explode jaz no chão, pequena, obscura, aparentemente inofensiva…
Isto leva-me à segunda característica fundamental do português, a mais importante e, ao mesmo tempo, o traço principal da situação portuguesa, resultante da confluência de vários elementos opostos. Todos os habitantes da Península Ibérica são continentais. No que se refere aos Espanhóis, a sua colonização não é comparável à dos Países Baixos ou da Inglaterra: grupos isolados de fidalgos atravessaram os mares e aventuraram-se por desertos adentro, como os Beduínos, e dessa empresa resultou fortuitamente um império. Os Portugueses, de igual modo, não são originariamente um povo de navegadores. Têm raízes fundas e fortes à sua terra, como um jardineiro francês. No entanto, para sobreviver viram-se na contingência de partir. Como bem disse Eugenio d’Ors, Portugal é uma varanda debruçada sobre o infinito. Por isso, criaram um império colonial como soldados que bombardeiam um navio do alto de terra firme. Por mais vastas que tenham sido as suas possessões ultramarinas, nunca se identificaram com elas a ponto de se tornarem, eles próprios, grandes. Actualmente, e apesar do seu orgulho, falam do Brasil – que, de facto, é uma terra vasta e generosa – como os pais pobres e obscuros falam de um filho que subiu na vida. Nunca demonstraram a fibra dos povos imperiais, sendo apenas a sua «capacidade» que revelaram por toda a parte, sobretudo no que aquela «capacidade» tem de pequeno e de mesquinho. Contrariamente a Espanha, Portugal nunca foi capaz de projectar uma força de atracção moral.
Esta discrepância entre possibilidade, esforço desenvolvido e sucesso efectivo, ou seja, um estado que impede o êxito quando este era teoricamente alcançável, levou este povo – que, por instinto, é intrinsecamente conservador – a colocar a tónica não nas suas realizações mas na nostalgia (à semelhança do que fizeram os Alemães, numa situação diversa mas ainda assim análoga). Os Portugueses não são «toujours gais», como diz a canção; são o segundo povo mais nostálgico da Europa. A Sehnsucht alemã (nostalgia) tem correspondência com a saudade portuguesa. Como todos os sentimentos que exprimem algo de único, a expressão é intraduzível. Não equivale inteiramente à «Sehnsucht» alemã. Em alemão, a expressão mais real do sentimento de saudade – uma expressão que, todavia, é bastante vaga! – diz que ela contém em si toda a sentimentalidade possível. Contudo, mesmo esta tradução induz em erro, uma vez que tal sentimentalidade não se desvanece, não constitui uma realidade flutuante, manifestando-se tipicamente, pelo contrário, através de explosões desmesuradas ou, pelo menos, através de uma extravagância sentimental que, à vista dos não-portugueses, destrói qualquer forma de beleza. É a esta luz que devemos ler a pequena obra-prima de Júlio Dantas, A Ceia dos Cardeais, que contrasta o amor português ao amor espanhol e francês. Naturalmente, segundo Dantas apenas os Portugueses sabem amar. Contudo, eles próprios são incapazes de explicar a ideia de «saudade». Os mais argutos responderão a todas as questões que se lhes coloquem sobre o tema recorrendo aos antigos versos:
         Esta palavra saudade
         Aquele que a inventou
         A primeira vez que a disse
         Com certeza chorou.
 
Um provérbio brasileiro dá-nos outro exemplo desta inclinação sentimental:
         Desgraça pouca, é bobagem.
 
Os Portugueses são, inquestionavelmente, a nação europeia que tem sentimentos mais bizarros.
 
***
 
Estas páginas são suficientes, julgo eu, para mostrar, de forma espectral, a originalidade da linhagem portuguesa. Não conheço outro povo comparável. A comparação com os Gregos, quer os antigos quer os modernos, é a única que me acorre ao espírito. Mas devo rejeitá-la, porque, se pensarmos bem, os Helénicos nunca tiveram uma natureza explosiva e a o seu acento tónico incide sobre o elemento intelectual e não, como sucede aos Portugueses, sobre o elemento emocional.
Nestas circunstâncias, qual poderá ser a importância futura de Portugal, do ponto de vista europeu? Indubitavelmente, este povo jamais voltará a ter importância política; neste campo, terá de colocar todas as suas esperanças na nação-filha, o Brasil. Tendo em conta os tormentos e a complexidade – e, em consequência, o seu carácter problemático – da alma portuguesa, tentou atribuir-se-lhe alguma relevância actual; e, para o efeito, invocou-se precisamente aquela natureza problemática. É também dessa forma que, nos casos similares da Alemanha e da Noruega, se funda alguma relevância efectiva das nações. Mas a «relevância do carácter problemático» só pode ser alcançada por seres voltados para dentro, que na sua essência vivem intuitivamente a sua vida através de uma experiência contemplativa interior; ora, os Portugueses, de uma forma ainda mais intensa do que todos os outros povos Latinos, só conseguem expressar-se de uma forma exterior. Neste aspecto, são realmente próximos dos Gregos antigos, muito mais do que todos os povos do nosso tempo, sobretudo dos que actualmente designamos pela palavra «latino». Do mesmo modo que os Gregos se voltaram para a beleza concretizada, próxima, para dominar o caos circundante, o português, para escapar aos abalos da «saudade», refugia-se na forma, na forma objectivamente fixada. Receando ser esse o traço mais concludente da sua «saudade», opta por entregar-se ao positivismo mais básico e ao formalismo mais superficial, ao invés de, por meio do intelecto, se consciencializar da indissolubilidade daquele problema. Daí que este povo, extremamente dotado, mostre uma aversão extrema pelas questões filosóficas, preferindo o historicismo e o filologismo formalistas, e evidenciando uma propensão arquivística no modo como apreende a História. Daí, também, o naturalismo das suas realizações artísticas mais representativas. Isso não revela necessariamente um carácter básico ou superficial mas antes, e isso sim, um grande temor da profundidade. Nestas condições psicológicas, compreende-se que apenas uma arte «objectivante» possa conduzir à libertação. É o que acontece em Portugal: é lá que existe a música popular mais viva da Europa, a mais reveladora do espírito nacional e, ao mesmo tempo, a mais clássica.
Ter conhecido esta música foi um dos acontecimentos mais significativos da minha vida. E Francisco Lacerda, o nobre músico que infatigavelmente recolheu e reanimou o tesouro musical do seu país, merecerá sempre o meu profundo reconhecimento por me ter proporcionado esta experiência interior. Atente-se, desde logo, em alguns apontamentos que extraí do texto manuscrito de uma conferência feita por Lacerda em Sevilha: «A canção popular portuguesa é notável, acima de tudo, pela sua simplicidade e pela sobriedade das suas linhas e figurações ornamentais. Aparenta ser quase esquemática: só muito raramente um cromatismo ou um ornamento supérfluo vêm deformar a sua linearidade simples e contida, mas deliberada. Essencialmente simétrica, a melodia encerra-se, de uma forma bem ordenada, numa estreita quadratura de oito ou seis medidas e num ambitus vocal que só muito raramente ultrapassa a oitava. À excepção de certos Bailes de roda e das Chulas e dos Viras, o compasso da canção portuguesa é, de um modo geral, muito lento, grave e colocado. O povo português ainda não desenvolveu o gosto e o sentido da harmonização, pelo que as suas maravilhosas criações concentram-se e concretizam-se em torno da melodia, do ritmo e, acima de tudo, das palavras – como se vê na forma poética e no alcance, por vezes profundo, das Trovas. No que respeita à sua dimensão poético-literária, o número de Trovas já recolhidas é quase inconcebível. Um só dos cancioneiros portugueses reúne mais de dez mil Trovas e Cantigas. A riqueza, a variedade, a multiplicidade do lirismo popular português são verdadeiramente extraordinárias». ([1])
Estas afirmações são literalmente verdadeiras. Mas de onde provém o formidável poder de atracção desta música popular? Provém da circunstância de ser através dela que a alma amargurada deste povo se liberta dos seus tormentos. Ora, qualquer forma de libertação através da objectivação torna-se um modelo para toda a humanidade: os homens libertam-se pela simplicidade clássica e aí encontram a sua beatitude. Na Europa, não conheço nada de comparável ao texto das quadras portuguesas, extremamente concentrado quanto ao seu conteúdo e de uma forma dotada de um relevo tão nítido que fica imediatamente inscrito no nosso espírito. Somente o lirismo japonês clássico se lhe assemelha – e os Japoneses são, também eles, um povo complicado, tenaz e explosivo. Em suma, é a concentração na arte que conduz à integração da alma. De igual modo, a melodia equilibrada, ampla e severa, liberta a alma da sua agitação e da sua crispação.
         Trata-se, indubitavelmente, de uma forma extraordinária de arte popular, sendo, ao mesmo tempo, arte clássica. Esta arte tem um significado europeu muito particular, pois encarna o espírito de uma civilização, que quanto ao mais já morreu. Faz parte daquilo que a Europa produziu de mais notável: a civilização provençal. É difícil avaliar a influência provençal em Portugal; o que pode dizer-se, sem margem para dúvida, é que o «sentido» da cultura tipicamente portuguesa é o mesmo da cultura provençal, ainda que os pontos de convergência surjam onde a influência directa é menos perceptível. Ora, qual a característica espiritual mais marcante na Provença? O culto exclusivo da beleza, em oposição à metafísica. Mais até do que a da Hélade clássica, a cultura provençal era uma cultura exclusivamente centrada na sensualidade (dos cinco sentidos). Justamente por isso, os primeiros impulsos civilizadores dos herdeiros nórdicos do Império Romano vieram da Provença – somente um culto extremo da forma conseguiria domesticar aqueles bárbaros recalcitrantes.
         Inquestionavelmente, Portugal não é a antiga Provença. Mas uma boa parte daquilo que o espírito da Provença tinha de melhor perpetua-se hoje, e de um modo muito vivo, em todo o povo português. Para a Europa, isso é um bem precioso.   
 
Hermann von Keyserling
 
(tradução de António Araújo)
 






([1]) Para o leitor que pretenda uma resenha bem seleccionada, recomendaria as Mil Trovas (Livraria Aillaud e Bertrand, 73, rua Garrett, Lisboa), editadas e prefaciadas por Agostinho de Campos. O livro de M. Rodrigues Lapa, Das origens da poesia lírica na Idade Média (Seara Nova, Lisboa) constitui uma boa introdução histórica. Se alguém se interessar um pouco mais por este país tão curioso, deve ler o clássico História de Portugal, de Oliveira Martins (Parceria António Maria Pereira, rua Augusta, 14, Lisboa). A história da civilização ibérica, do mesmo autor (que pode ser lida em inglês, A history of iberian civilisation, Oxford University Press), aborda Portugal num âmbito mais vasto, o mesmo ocorrendo com o capítulo particularmente notável da igualmente notável e recente obra de referência sobre Espanha, da autoria de Salvador de Madariaga. Quem pretender estudar a maravilhosa música portuguesa, que actualmente não é acessível no estrangeiro, ainda que mereça ser conhecida em todo o mundo, deve começar por contactar directamente o maestro Francisco de Lacerda, Chalet Utilia, Estoril, Portugal. Seria muito importante que alguém o ajudasse na edição do seu Cancioneiro.


8 comentários:

  1. Respostas
    1. Muito obrigado, já corrigi, as minhas desculpas

      Cordialmente

      António Araújo

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  2. Respostas
    1. Muito obrigado pelas suas palavras tão generosas.

      Cordialmente,

      António Araújo

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  3. Um amigo alertou-me para o seu texto, sabendo ele que me dediquei durante algum tempo a estudar este episódio (apenas para ficar a conhecê-lo; há pessoas que se interessam por certas coisas sem ser para fazer uma tese qualquer). Pensei até que um dia poderia escrever uma síntese interpretativa do assunto, que tem mais, na minha modesta opinião, que se lhe diga do que o seu texto deixa entrever. Como juntei alguma bibliografia (incluindo aquela a que não teve acesso) ponho-me à sua inteira disposição para lha facultar ou ter uma conversa sobre o assunto.
    Cordialmente
    Jorge Colaço

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    1. Caro Jorge Colaço,

      muito agradeço a sua mensagem. Tenho o maior interesse em ver e divulgar o seu texto, pelo que agradecia que me contactasse para o endereço deste blogue: malomil.brindes@gmail.com

      Cordialmente,

      António Araújo

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  4. Porque julgaria o Conde que só deixámos de ser Castelhanos em 1662 ou que Marco Polo era Português...?

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