Não há discurso político-partidário
que não proclame a predisposição para pôr termo às nossas interioridades, que
não são poucas, estão prantadas na raia, até mesmo nas regiões
ultraperiféricas, explicitam-se por fuga das gentes, falta de serviços, ausência
de industrialização, esquecimento dos planificadores ou mesmo dos investidores,
há interioridades nas Beiras, na zona transmontana, em vastidões como aquela
que vamos falar, pontos da serra algarvia, por ali se passa com um certo
desfastio, às vezes com curiosidade, são itinerários obrigatórios para alcançar
as paragens turísticas. No caso vertente do Barrocal Algarvio multiplicam-se os
estudos, adivinham-se as potencialidades, sonha-se com desenvolvimento,
espera-se pelo Encoberto. A Fundação Francisco Manuel dos Santos encomendou a
um jornalista de alto coturno, Rui Araújo, que andasse por esses montes
escalvados, o produto final que ele nos deu é uma reportagem assombrosa,
chama-se Um tesouro no deserto, Retratos da Fundação, 2025. O autor
começa por nos dizer ao que vem:
“A intenção é emprestar voz a esta
gente esquecida dos montes do Nordeste do Algarve. Escutar as suas memórias. Os
testemunhos. Os silêncios. Pintar nestas páginas a terra e as gentes.” Rui
Araújo é um andarilho com muitas provas dadas, sabe perguntar, sabe
contextualizar, ora vejam:
“DESERTO. Foi ontem! As placas indicam
Alcoutim, IC27 e Deserto. Opto por Deserto, o nome atrai-me. Deve ser um lugar
diferente. Dou com dois idosos sentados diante de uma casa sem janelas, o que
dá para imaginar o que a vida custa. Primeiro encontro. E, irremediavelmente,
as primeiras descrenças.
- Ah, tenho saudades, que a gente saía e
via gente por aí todos, o mesmo que a gente. E, agora, uma pessoa sai e não vê
ninguém… - diz-me dona Adelina.
A solidão imposta é sentida como um
calvário. Diz-se, diz-se. E é capaz de ser mesmo assim. Ela veste blusa e
avental azuis. Ele está de chapéu negro sobre os olhos e de camisa cor de burro
quando foge. Daqueles pares de olhos, apesar dos óculos graduados, irradia
tristeza, apenas tristeza.”
A conversa mete muito desalento, quase que
se ouvem os espetros, há memórias dos tempos com trabalho, a apanha da amêndoa
e do figo. O jornalista volta ao local, veio de moto, contempla um furjal, nome
que alguns algarvios dão aso terrenos vedados por árvores de sequeiro. Ainda na
década de 1990 as terras eram todas cultivadas, havia trigo, aveia, centeio,
azinheiras e muito mais. Agora as ruelas estão desertas. O jornalista segue
para Balurco de Baixo, mete conversa com Francisco José Cavaco Gonçalves, foi
lavrador e trabalhou na Câmara de Alcoutim, a população é de velhos, mesmo os
estrangeiros que por ali habitam. É tudo uma questão dos censos, em cerca de
sessenta anos há quase dez vezes menos pessoas a trabalhar no campo e nem a
pesca escapou à desgraça. Em Alcoutim já só resta um pescador. Nova localidade,
o nome é Soudes, conversa com Agostinho Mestre Pereira, conta a sua vida, até a
vida sentimental lhe foi madrasta. Mas não se esquece de dizer que antigamente
se vivia pior. Pobre é uma palavra recorrente, não foram esquecidas as
lembranças da vida frugal, “os brinquedos que eu tive eram uma roda de cortiça
redonda metida numa câmara-de-ar e correndo atrás daquilo.”
Estamos agora no Torneiro. “Ao cabo de uma
eternidade, aparece diante da moradia branca uma idosa que me mede de alto a
baixo. Digo-lhe, só para me dar ares de erudito, que estou a escrever um livro
sobre a memória dos montes do Algarve. Dona Maria Dias Gomes Afonso manda-me
entrar com um sorriso largo e bonacheirão.” Vai recordar a sua infância, lembra
as festas, a vida difícil, comia-se o que a gente colhia, agora nada se semeia
e não há pessoas, diz que é uma mulher feliz.
Rui Araújo preparou-se a sério para esta
digressão. Estamos agora na Bemposta, invoca-se a documentação atinente, temos
mais conversa, desta vez com o senhor Domingos, nova expressão do desalento.
“Se este monte tinha trinta e tal pessoas e hoje só há um. E vocês vão a esses
montes que há por aí, passa igual. Em todo o concelho. As pessoas que viviam
nesta serra todas viviam do campo. Estes campos que a gente vê aí cheios de
mato não se via um pé de mato nem erva daninha (…) E quando eu abalar daqui isto
é capaz de acabar. As pessoas todas abalaram daqui. Toda a minha família. Nós
éramos dez. só temos já cinco. Já morreram outros cinco. Éramos só dois machos.
Um morreu na Guiné, em 1967.”
É reportagem radioscópica e radiográfica,
vai-se por Ourique, depois Pereiro, Tremelgo de Cima, na Serra do Caldeirão,
mais adiante pinhal, à frente Marim, passa-se para Silgado, que é o primeiro
nome do planalto do Pereirão, inflete-se para Pescueza, convém aqui uma
detença. Estamos na província de Cáceres, é uma vila rústica do século XV que
tem uma particularidade de os velhos não estarem em lares, vivem nas casas onde
ergueram telhados, mas não se façam juízos muito coloridos, pode correr o risco
de desaparecer se não for invertida a dinâmica populacional. O jornalista foi
ver o projeto onde se pretende quebrar a solidão e dar a gente na idade maior
um astro de dignidade.
E temos agora o regresso a Alcoutim,
lembra-se o contrabando e os contrabandistas, de lá para cá levava-se o café. A
conversa de Rui Araújo com Paulo Paulino, o Presidente da Autarquia é de ler
com maior atenção: “Somos o concelho do país com menor densidade populacional.
O tamanho médio da propriedade é muito pequeno. Não existe dimensão para que as
explorações sejam autossuficientes.” Solução que propõe: o emparcelamento.
Refere ao entrevistador que há potencial na região, logo o rio Guadiana, faltam
marinas onde pudessem chegar veleiros, ao potencial turístico, as florestas e a
área pastoril.
Se se começou no Deserto estamos agora no
Tesouro, em fim de viagem, serra do Caldeirão, uma conversa luminosa com a
professora Babi, octogenária, a não perder. De modo que tem todo o sentido a
despedida que Rui Araújo nos faz: “Parti à procura do Deserto e descobri um
inestimável Tesouro nos confins de Portugal. É das pessoas de carne e osso que
gosto. O resto é paisagem. Só paisagem.”
Uma belíssima incursão por um desses dolorosos recantos das nossas interioridades.
Mário Beja Santos

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