sábado, 4 de junho de 2016

Lisboa, não sejas francesa.

 

 

     

         Deus é um cara gozador, adora brincadeira
 
Lembro-me como se fosse ontem. Manhã anormalmente quente para Setembro em Lisboa, saudou-me um bafo seco e pesado quando saí à rua para me encontrar com o Bernardino. Íamos receber as nossas amigas a Santa Apolónia. Uma austríaca e uma alemã, vinham conhecer Lisboa, destino final do seu inter-rail à Europa – e nós, jovens alfacinhas orgulhosos, fazíamos questão de lhes servir de cicerones num roteiro pelos cantos postaleiros da cidade. O menu de degustação pretendia ser suficientemente ecléctico para agradar a todos os paladares: um amuse-bouche no Campo das Cebolas, uma entrada fria na Sé e um primo piatto no Castelo; Alfama, agridoce, para dar trabalho às papilas; a Mouraria, picante, para saltar a cerveja no Martim Moniz; uma subida ensopada ao Bairro Alto, com São Pedro de Alcântara a digerir; para terminar, a sombra doce do cipreste do Príncipe Real. (Há aqui algures um fado de Carlos do Carmo, ou uma marcha de José Mário Branco, ou um conceito para uma petiscaria. Mas não vou gastar já os cartuchos.)
É maravilhoso o que o turismo faz por uma cidade. Esta Lisboa encantada era também a Lisboa que nós próprios desconhecíamos: tantas vezes palmilhada, só se dignou a exibir-se quando se sentiu olhada com interesse. A vaidosa! E nós, que a compreendemos, fingindo que não era nada connosco, mascarámos o espanto de existir numa espécie de fado imaturo (como quem arregaça as mangas do casaco do pai) e convidámo-las, às nossas amigas, para mais um copinho.
Foi nesta cidade que decidi viver. Não é o facto de nela ter nascido e de nela ter sido criado que retira peso à minha decisão: ao preço das viagens, podia ter escolhido Berlim, Bruxelas ou Bragança. Mas foi para as colinas que desci quando saí de casa da mãe, com a missão de pôr em prática o ideal de cidade que tinha teorizado nas minhas viagens. Depois de um ano e meio em Santos-o-Velho e de uma breve passagem pelo Bairro Alto, mudei-me com a Maria para as portas do Castelo. Da janela daquele terceiro andar víamos os telhados de Alfama, o estuário do Tejo e os candeeiros do Barreiro. Se nos empoleirássemos, a nascente, apanhávamos o zimbório do Panteão.
No entanto, coisa estranha: de dia, infiltrados nas ininterruptas excursões de turistas sexagenários, contávamos pelos dedos das mãos os vizinhos carregando hortaliças, as velhas subindo ao autocarro da manhã, o empregado do café a fumar à porta; à noite, encerrados os portões do monumento mais visitado do país, silêncio na aldeia. Foi a Mouraria, nosso bairro adoptivo, que nos deu aquilo que procurávamos: as compras na mercearia, os almoços na taberna, os rendez-vous fortuitos de sexta-feira, os concertos rotineiros ao sábado, as melancolias domingueiras; do Castelo, estava visto, extinta a freguesia e seus habitantes, sobrava uma marcha popular. Nisto, passaram-se dois anos. Mas já lá vamos.
 
 

 
É querer fazer arroz de cabidela
Importa explicar que sobrevivi ao olho do furacão. Os telejornais dos últimos anos, para celebrarem sazonalmente o boom do turismo da capital, poderiam ter montado o seu observatório estratégico naquele terceiro andar. Não precisámos de ligar a televisão para adivinhar os números: em 2014, Lisboa deu cama a 11 milhões de visitantes (11 milhões dos quais passaram à nossa janela) e foi a cidade europeia que mais viu aumentar o número de turistas que recebeu (quase o dobro do que viram aumentar, em média, os países do Mediterrâneo). Parece que não param de chegar as boas notícias: o turismo faz crescer todos os anos as nossas exportações de bens e serviços, contribui duas vezes mais para o PIB do que a média da Europa ou do mundo e emprega cada vez mais pessoas no sector dos serviços. Em 2015, a moda continuou: só nos primeiros sete meses, o turismo rendeu-nos 28 milhões de euros por dia (cada turista estrangeiro gastou 314 euros na sua estadia), mais 12,4% do que o ano anterior. Dizem as autoridades do turismo em Portugal (e dizem as ribeirinhas retroescavadoras do novo terminal de cruzeiros) que estes números ainda podem, vão e devem aumentar.
Com o país de carrinho, a economia moribunda, o défice descontrolado, a dívida externa impagável e o desemprego omnipresente, parece tolo argumentar contra uma actividade que mata tantos coelhos duma cajadada. Quem é que já se esqueceu de que ainda há pouco tempo se debatia a inevitabilidade da desertificação dos centros das cidades? Quem consegue ficar indiferente aos prédios de cara lavada, aos passeios recauchutados, às esplanadas animadas, às lojas que se atarefam para dar vazão a uma nova freguesia? Quem consegue duvidar dos benefícios de uma indústria que nos enche os bolsos e o orgulho sem pisar a risco a partir do qual se é chamado de xenófobo (ou, pior, de pedante) ao atravessar a rua? Porventura o senhor tem intenções de guisar a galinha dos ovos de ouro?
Por falar em galinhas: num Prós e Contras de há uns meses, discutia-se a questão do aumento do turismo em Lisboa. Dois trípticos apainelados de ilustres (responsáveis pelo sector no país, presidentes de associações de turismo regionais, representantes dos sectores do alojamento e da restauração, arquitectos, construtores e empreendedores de toda a espécie), cordialmente saudando-se de parte a parte, ensaiavam à vez redondíssimas intervenções que me fizeram esquecer, por momentos, que o nome do programa sugeria uma conjunção coordenativa. Foi preciso levantar-se da plateia (a meio do minuto 9) a senhora dona Filipa Gaspar, vendedora de castanhas do Rossio, para que ouvíssemos o único pensamento dissonante da noite. Começava assim: “Eu até acho isso tudo muito bonito”, e continuava, “mas qualquer dia não há lisboetas na Móraria, em Alfama... E os turistas vêm p’ra cá fazer o quê, ver-se uns aos outros?”. A risada geral! A magia da televisão em directo! Os espectadores, os comentadores – até a apresentadora –, todos se deixaram apanhar pelo rasgo de sabedoria popularucha daquela senhora. E eu, sozinho em casa e sem contracções abdominais, perguntava-me se me escapara o sentido de humor, ou se aquilo que via no ecrã era riso nervoso.
Na verdade, antes de lhe terem interrompido o raciocínio para dar a palavra ao empreendedor da cadeira do lado, a vendedora de castanhas do Rossio estava a tentar provar-nos o paradoxo do turismo. O seu discurso, e isto é um supônhamos, continuaria assim:
 
O turismo, aquela actividade que para Guy Debord é simplesmente a “circulação humana considerada como um consumo”, “subproduto da circulação das mercadorias” que não é mais do que a “distracção de ir ver o que se tornou banal”, tem na verdade um objectivo muito concreto e transparente: mercantilizar o território. É uma indústria que trabalha sobre um determinado território, sobre a sua geografia e a sua cultura, para o tornar num bem consumível. O problema reside no facto de este bem consumível nunca chegar a ser mais do que uma versão do território que pretende retratar – e não o território em si mesmo. Promete-se a cidade ao consumidor; dá-se-lhe um modelo da cidade moldado às suas expectativas. É a lei do mercado. Procura-se? Oferece-se.
O resultado disto é que os turistas que visitam uma cidade razoavelmente turistificada não vão encontrar a cidade que procuram, por muito que tentem. Nos restaurantes em que jantam, nas casas de fado em que entram, nas lojas de souvenirs em que compram produtos regionais típicos, nos bares em que dançam, até nas ruas que fotografam – é-lhes vedado o acesso a qualquer tipo de veracidade, porque tudo o que encontram são protótipos, objectos de consumo. Que ali estão para os satisfazer. Que de outro modo não existiriam. A cidade que o turista visita é uma representação de si própria, na qual todos os dias são dias da marmota, maquinalmente repetidos para uma massa amnésica de seres humanos. Entretanto, a cidade verdadeira – aquela que deu o sinal de partida para a sua própria mercantilização –, perdeu-se-lhe o rasto, já não mora ali.
É este o paradoxo do turismo: ele vive da realidade que mata. Portanto, meus queridos, eu até acho isso tudo muito bonito, mas o último a sair que apague a luz.
 




 
A galinha da vizinha é tão galinha como a minha

 
Tomemos Barcelona como exemplo. Crê-se que os seus habitantes aprenderam a lição – ou, pelo menos, uma lição. Assim à distância, é fácil de identificar os Jogos Olímpicos de 1992 como o início de um longo período de investimento coerente e planeado no turismo, nomeadamente através da divulgação para o estrangeiro da imagem de uma cidade com um património cultural riquíssimo, único, imperdível. A mensagem passou tão bem que, decorridos vinte e dois anos de rendas e preços de serviços a disparar, moradores fugindo das suas casas para a periferia, comerciantes homogeneizados e bairros inteiros descaracterizados, Barcelona elegeu para presidente de câmara a única candidata que se propôs a interromper a engrenagem e estancar a sangria, proibindo a construção de novos hotéis e o licenciamento de novos alojamentos turísticos.
E Lisboa? Bom, há que dizê-lo: era inevitável que isto acontecesse. Catarina Portas, puxando a brasa à sua sardinha (mas com um abanico suficientemente largo para avivar o meu lume), fala das circunstâncias que explicam o estado de emergência do comércio tradicional lisboeta, mas que podem anunciar ao mesmo tempo o estado de graça (ou desgraça) do turismo lisboeta. O “tufão”, como lhe chama, resulta da ocorrência simultânea de três condições climatérico-conjunturais, não necessariamente intempéries por si mesmas.
Começa com uma subida gradual do nível médio das águas do mar – ou, metáfora a martelo, do potencial imobiliário da cidade: os edifícios do seu centro histórico estavam (e estão ainda) maioritariamente degradados ou abandonados. Por isso, o mercado imobiliário lisboeta era (mas não será jamais) muito mais barato do que o de outras capitais europeias. Pechinchas para os investidores internacionais – que, sem demoras nem remorsos, sacam da carteira para as comprar, recuperar e vender, fazendo disparar os preços. E isto com a alta estima da câmara municipal, que finalmente descobre a solução para a “reabilitação urbana”.
Depois, o salseiro da nova lei das rendas, que põe fim a regras rígidas que impediam que os senhorios fizessem obras de conservação das suas propriedades, mas que abre a caixa de pandora dos despejos arbitrários dos arrendatários. “Hoje, com a lei em vigor, uma loja centenária pode ser despejada no espaço de poucos meses sem apelo nem agravo caso o proprietário invoque a realização de obras profundas no imóvel”, escreve a lojista, aludindo provavelmente ao número 95 da Rua do Alecrim, onde funciona desde 1916 a loja de cerâmica da Fábrica de Sant’Anna, agora intimada a sair para ali se construir mais um hotel.
Se juntarmos a isto a corrente de ar de uma imprensa internacional rendida às qualidades da cidade (em tudo exactas e verdadeiras, embora à boleia de modas e publicidade agressiva), imprensa essa que “descobriu uma cidade com história, uma situação invejável de praia à porta, charme a rodos a passear pelas ruas antigas semeadas de lojinhas com carácter, vistas deslumbrantes a cada esquina” (Portas dixit), não há como não duvidar da sustentabilidade do processo e da candura dos seus intervenientes.
O tufão, dito isto, parece-me uma metáfora particularmente feliz, porquanto pode ser provocado por causas humanas (cfr. “Aquecimento Global”) – e ninguém me convence de que não estávamos a merecê-lo.
 
 




Hoje há moelas, amanhã não sabemos

 
Aqui como em Barcelona, o turismo pode, quer e vai esvaziar a singularidade da cidade. Para um pescador em crise, tudo o que vier à rede é peixe. E o turismo não se faz de empreendedorismos lingrinhas – faz-se de multinacionais musculadas, mascaradas, sem ligação afectiva ou fiscal aos territórios onde investem. O seu único vínculo é o do cacau. Dá dinheiro? Compro. Até quando? Já cá não estarei para contá-la. Por isso, não só é normal que transformem as cidades onde investem, como é natural que as cidades se deixem transformar a troco de investimento.
É, mais uma vez, o mercado a funcionar. Imaginemos um arrendatário de um apartamento no centro da cidade, pagando há alguns anos uma imodesta renda de 500 euros por um T2. No momento em que é despejado, cercado de dinheiro por todos os lados e convivendo com uma procura de espaços para hotéis e arrendamentos temporários muito maior do que a sua oferta, é empurrado para a periferia porque a inflação não lhe permite encontrar outra renda acessível no seu bairro. E os proprietários, no meio disto? O fenómeno do turismo é de tal modo efervescente que aqueles poucos que resistem a vender o seu imóvel a um fundo de investimento (não há caixa do correio que não derrame berrantes brochuras de agentes imobiliários) acham ainda assim aliciante mudar-se de livre vontade para zonas limítrofes da cidade e arrendar a casa a turistas para receber algum livre de impostos.
O turismo cresce como um vírus – alastrando-se. Começamos com um hotel; no quarteirão do hotel, brotam como metástases os negócios que já sabem que se alimentam dos turistas ali hospedados. A casa de bifanas e sopas ao balcão aumenta a clientela se improvisar uma esplanada com tábuas de queijos e mojitos a seis euros; o minhoto reforma-se mais cedo se abandonar os rojões e servir uma típica paella; o letreiro da ourivesaria dá lugar ao toldo com camisolas da selecção; os pastéis de Belém vencem os folhados de Chaves por 2-1; até a casa de apostas aposta numa jovem de xaile ao ombro para apregoar um fado à entrada. No quarteirão ao lado, por contágio, constrói-se um novo hotel – e o sistema imunitário do bairro correndo atrás do prejuízo (melhor, do lucro), e assim sucessivamente.
Este vírus é, à primeira vista, apenas um incómodo para os lisboetas. Mas será também, e não a longo prazo, um incómodo para a própria indústria do turismo. Se há característica que os turistas que visitam Lisboa procuram, é a sua autenticidade – por outras palavras, a singularidade da sua identidade, única e inimitável. Este é, aliás, um atributo que a maior parte dos turistas valoriza nas suas viagens, e que costuma encontrar nos locais de turismo “alternativo”, longe das metrópoles mais visitadas (como Paris, Roma ou, mais recentemente, Barcelona), mas que em Lisboa tem um peso especial: cá, não temos os museus, os eventos, ou simplesmente a dimensão de outras cidades. O que vendemos é a nossa cultura – heterogénea, complexa, pessoal e intransmissível –, e a preços particularmente baixos.
O problema, portanto, está à vista de todos: neste hiperactivo processo de implantação do turismo no tecido social, cultural e económico de Lisboa, onde é que encontramos uma análise crítica, uma discussão produtiva ou um simples confronto que contribuam para a definição de uma estratégia de desenvolvimento sustentável do turismo? Conseguimos dar ouvidos à voz dissonante da vendedora de castanhas, ou andamos todos atrapalhados a aviar fregueses? Que faremos quando rebentar uma bolha que já representa 6% do PIB e 15% das exportações? Conseguiremos sobreviver ao consumo canibal? Certezas, só temos uma: quando a bolha rebentar, rebenta-nos nas mãos.
 


 


O amendoim e a roda dentada

 
Valerá a pena fazermos uma crítica radical do conceito de turismo, assente no seu paradoxo, hipoteticamente exposto pela vendedora de castanhas do Rossio? Sim, vale sempre a pena. Mas a crítica radical do turismo implica, como se vê, uma crítica radical do capitalismo – e para essa não contem comigo, não porque não a considere aliciante (e, de resto, pertinente), mas porque ocuparia algumas páginas marginais ao objecto desta reflexão. E porque, francamente, não me sinto habilitado a fazê-la. Vamos, portanto, admitir que: um, o turismo em doses moderadas é benéfico para a cidade; dois, o turismo de massas é indesejável mas inevitável. Daqui, procuremos algumas soluções para os seus funestos efeitos.
A solução que envolve menos esforço é a de esperar que o mercado se auto-regule. Mas será mesmo possível que o mercado do turismo, este tumultuoso e informe casal da oferta e da procura de produtos turísticos, se aperceba de que a única forma de salvar a sua relação é dar-lhe um tempo (sempre acautelando o superior interesse da cidade), antes que seja tarde demais? Antes que economistas com background em aconselhamento matrimonial se detenham nesta pergunta retórica, respondo eu que não, não é possível que o mercado do turismo se auto-regule: uma vez que consuma até à extinção as matérias-primas de Lisboa, sobra-lhe o resto do mundo para explorar.
Podemos, se quisermos muito, usar os poderes públicos para regular esta indústria, reordenando as prioridades de investimento e apostando num planeamento urbano que ponha em primeiro lugar a qualidade de vida de quem mora ou trabalha na cidade. No entanto, a heterorregulação tropeça nas rasteiras de duas sinistras e incógnitas entidades: o “dinheiro”, por um lado; a “opinião pública”, por outro. A primeira entidade esgueira os seus tentáculos em cada prédio em ruína; a segunda, desinformada e maniatada pelos tentáculos da primeira, mas seguramente ufanada pelo súbito interesse dos estrangeiros, olha com desconfiança qualquer ingerência das autoridades nos assuntos da cidade.
Talvez o segredo esteja em desencantar uma modalidade de regulação do sector que não accione os sensores de movimento dos alarmes destas entidades. Podemos contrariar o êxodo do centro da cidade com um sistema de quotas que garanta a justa proporção de habitação, turismo e serviços, impedindo a fixação de mais do que uma dada percentagem de alojamentos turísticos por freguesia, quarteirão ou metro quadrado. Podemos dar dinheiro e poderes a programas de desenvolvimento do comércio local e preservação das lojas e actividades que fazem parte do património cultural da cidade (o projecto “Lojas com História” foi apresentado pela câmara há quatro meses, mas desconhece-se a sua acção desde aí). Importam-se que cite de novo Catarina Portas, já que se trata de consultora deste projecto camarário? “Um turista estrangeiro vai à Luvaria Ulisses, no Carmo, e tira uma fotografia. Depois vai à H&M ou outra loja desse género. Se a Luvaria Ulisses não existir, para que vai o turista àquela zona?” A pergunta sugere, e bem, que a estratégia também pode passar por revelar às grandes cadeias internacionais a evidência de que é do seu interesse que as cidades onde conduzem os seus negócios não se descaracterizem por completo. Infelizmente, já percebemos que um amendoim não desalinha as rodas dentadas do capitalismo. (Este provérbio chinês fui eu que inventei.)
Podemos fazer tudo isto, ou nada disto, ou muito mais. Certo é que, cá para mim, ultrapassámos há muito o ponto de rebuçado, e nem lemos com atenção o aviso de quebrar em caso de emergência. Preferencialmente com dinheiros públicos, mas venham daí os dinheiros privados – é altura de interromper as máquinas, remediar os estragos e planear o futuro.
 
 


 


A oitava colina
Lembro-me como se fosse ontem. Subia uma ladeira de escadinhas quando avistei um caricato turista asiático. O sujeito, certamente sabedor de que era o “intruso” no bairro (não porque não se sentisse bem-vindo, mas porque o seu propósito quotidiano era o de explorar um itinerário alheio do qual não pretendia fazer parte, mas apenas recolher a memória), tentou disfarçar o embaraço de ser caçado a fotografar um estendal de furtivas ceroulas brancas, mais a respectiva proprietária que as estendia.
Lembro-me como se fosse ontem, mas foi há dez anos, durante o roteiro que preparei com o Bernardino para as nossas amigas estrangeiras. Hoje, se quiséssemos repetir a delicadeza de anfitriães, precisaríamos da agilidade da primeira juventude para escaparmos ilesos ao fogo cruzado das máquinas fotográficas. Fosse como fosse (e aqui repousa o busílis da tese), hoje, talvez não repetíssemos aquele roteiro. Talvez nos envergonhássemos do que fora feito de Lisboa e evitássemos os trilhos e acepipes que lhe deram a fama.
De Alvalade a Xabregas, há uma colina por inventar. Foi para essa colina que a Maria e eu viemos morar, encerrado um capítulo de dois anos naquela densa colina primordial. Se foi da carta de despejo que recebemos no correio, se foi do teste de gravidez que encontrámos no lavatório, acho que nunca saberemos.

 
Referências falhadas
 
Lisboa, não sejas francesa é uma marcha celebrizada por Amália Rodrigues, com letra de José Galhardo e música de Raúl Ferrão. Fado xenófobo e levemente machista.
“Deus é um cara gozador, adora brincadeira” (“pois, p’ra me jogar no mundo, tinha o mundo inteiro”) é um verso do samba Partido Alto, de Chico Buarque. Sobre uma visão particular do povo brasileiro.
“É querer fazer arroz de cabidela” (“sem frango, nem arroz, nem a panela”) é um verso da canção Vim aqui falar, de Sérgio Godinho. Sobre o falhanço do socialismo no pós-PREC.
As galinhas, as moelas e os amendoins são termos sintomáticos de apetite.
 
 

 
Bibliografia
 
BRAGA, Isabel, “A Baixa de Lisboa está a mudar de rosto”, Junho de 2013, O Corvo
BECKER, Elizabeth, “The Revolt Against Tourism”, Julho de 2015, The New York Times
CARVALHO, Ricardo, “Learning from Barcelona”, Junho de 2014, Público
COLAU, Ada, “Mass tourism can kill a city – just ask Barcelona’s residents”, Setembro de 2014, The Guardian
DUARTE, P., “Notas para uma crítica radical do turismo” I, II, III e IV, Fevereiro de 2014, L’Obéissance est Morte
FERNÁNDEZ, Eduardo Chibás, “Bye Bye Barcelona” (filme), 2014
NOGUEIRA, Regina, “Lisboetas sentem-se cada vez mais acossados pelos turistas”, Junho de 2015, Público
PALMINHA, Joana, “Desenhar uma estratégia para lá do turismo de sempre”, Outubro de 2015, Observador
PINCHA, João Pedro, “Querida, arrendei a casa a turistas (e a cidade nunca mais será a mesma)”, Agosto de 2015, Observador
PORTAS, Catarina, “O tufão”, Janeiro de 2016, Diário de Notícias
SOARES, Marisa, “Porta sim, porta não, a Baixa está entregue aos turistas”, Novembro de 2015, Público
 
João Berhan
 
 
 
 

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Fátima Patriarca (1944-2016).

 
 



Spínola na América.


 
 
 

         Ao organizar o programa do General Spínola, por ocasião da sua visita aos Estados Unidos, durante os meses de Novembro e Dezembro de 1975, uma das minhas preocupações foi fazer tudo ao meu alcance para que a mensagem pública que ele desejava transmitir ao governo e ao povo americanos chegasse ao conhecimento do maior número possível de pessoas (falo da "mensagem pública", porque a privada só deveria chegar aos ouvidos dos interessados, o que nem sempre aconteceu, devido à propensão de alguns dos seus próximos colaboradores e com-conspiradores para a violação dos segredos profissionais).
         Que fazer então para que esse desejo se viesse a converter em realidade? Tentar todos os processos e recorrer a todos os meios para que o General pudesse ser entrevistado nos programas de televisão, de “hard news”, de maior projecção em todos os Estados Unidos, tais como "60 Minutes" da CBS, "Meet the Press" e "Today Show" da NBC e "Issues and Answers" da ABC.
         Infelizmente, foram baldadas todas as tentativas feitas para convencer os responsáveis por estes programas da presumível relevância da causa em questão. Contactados por telefone, a primeira pergunta que os produtores me faziam era se o General Spínola sabia falar Inglês. Ao ouvirem uma resposta negativa a essa pergunta, atinham-se a dizer diplomaticamente que lamentavam muito, mas que não tinham interesse na entrevista. Eu ainda insistia que tínhamos contratado um intérprete de primeira categoria (o que era a pura verdade), mas sem qualquer resultado.
         Entretanto, não me foi muito difícil vir a deduzir paulatinamente que o desconhecimento do Inglês, por parte do General Spínola, não era a única razão para que esses programas das três principais cadeias de televisão privada dos Estados Unidos não nos abrissem as portas. Como era sua obrigação, todos os responsáveis por esses programas televisivos pareciam estar convencidos de que a causa por que o General Spínola dizia lutar − e lutava, na realidade − era uma causa perdida, sobretudo em virtude da bagagem que carregava com ele, de que sobressaía o intrigante e famigerado 11 de Março. 
         Perante a impossibilidade de utilizar esses meios para publicitar a mensagem, recorremos a outros, na certeza de que o óptimo é inimigo do bom e de que algo é melhor que nada. E foi assim que conseguimos programar, entre vários outros eventos públicos, tais como conferências em universidades, uma conferência de imprensa no National Press Club em Washington, D. C., graças aos bons ofícios do meu colega e amigo John Plank, professor de Ciência Política na minha universidade (University of Connecticut) e ex-assessor para assuntos latino-americanos,  no governo de John F. Kennedy.
         A fim de que essa conferência de imprensa viesse a ter o maior êxito possível, tudo foi feito para que todos os membros desse célebre e prestigioso Clube de Imprensa norte-americano tomassem conhecimento da sua realização e − o que era mais importante ainda − para que o General Spínola estivesse devidamente preparado para responder competente e sabiamente às mais variadas perguntas que porventura lhe viessem a ser feitas. E foi com esse objectivo em mente que nos dois dias que precederam essa conferência de imprensa, tivemos várias sessões de preparação.
         Ora sucedeu que, nesse meio tempo, tomou-se conhecimento (se de fontes fidedignas ou não confesso que não o soube então nem nunca vim a sabê-lo)  de que o Comité Internacional do Partido Comunista teria realizado uma reunião secreta, ao mais alto nível, algures em Trás-os-Montes, para programar a tomada do poder, num futuro muito próximo, nos dois países da Península Ibérica: Espanha e Portugal.
         De posse dessa momentosa notícia, o General Spínola convenceu-se que a denúncia dessa conspiração soviética deveria ser o ponto alto da sua conferência de imprensa no National Press Club. Mas para que essa denúncia pudesse ser feita perante os representantes dos principais órgãos de comunicação social do mundo inteiro, alguém teria que fazer essa pergunta. Mas quem? Que jornalista? E se nenhum dos membros encartados desse famoso Clube tivesse ouvido falar dessa famigerada reunião clandestina do Comité Internacional do Partido Comunista? 
 
 
 
 
 
         E foi aqui que o General cometeu mais uma "gaffe" monumental e imperdoável, ao deixar-se levar pela ingenuidade proverbial de um dos seus assessores, o Capitão Marques Ramos, valentíssimo como soldado mas semi-analfabeto em política e relações públicas. Para esse assessor o caso era muito fácil de resolver: fabricava-se um jornalista. E qual não foi o meu espanto quando, durante a hora e tal que estive separado do grupo, por ter andado a meter debaixo das portas dos escritórios dos membros do National Press Club a "news release" em que se anunciava a importantíssima conferência de imprensa do General Spínola, qual não foi o meu espanto − repito − ao ir dar com o General Spínola, o dito assessor e o intérprete, em companhia de um cavalheiro que eu não conhecia de parte nenhuma.
         Chamei imediatamente à parte o Capitão Ramos e perguntei quem era esse sujeito e o que estava ali a fazer.
         Que estivesse descansado; que era um dos nossos; que era o jornalista ideal para fazer ao General Spínola a pergunta mais importante, a pergunta crucial, durante a conferência de imprensa. Que para que tudo corresse perfeitamente, já tinham escrito não só a pergunta, mas também a resposta, a fim de que o General não deixasse escapar o mínimo pormenor, dada a relevância extraordinária do assunto.
         Mas esse senhor era mesmo jornalista? − perguntei eu ao Capitão Ramos, na esperança de que ele se desse conta do erro fatal que estava a cometer.
         Claro que não era jornalista; mas que isso não importava: era um dos nossos; eis quanto bastava: tratava-se do Doutor Manoel da Silveira Cardozo, um senhor muito culto, professor de Ascética ou coisa parecida na Universidade Católica de Washington, D.C. − esclareceu o dito assessor. “Era um dos nossos” − voltou a repetir.
         Mas isso era uma tolice de todo o tamanho − observei eu, fortemente irritado, perante tanta ingenuidade. O resultado seria desastroso. Que o melhor a fazer era dar o dito por não dito e convencer esse senhor, provisoriamente promovido a jornalista, que, para bem da causa, nem sequer comparecesse na sala de imprensa, a fim de evitar um desastre certo. Os jornalistas conheciam-se todos uns aos outros. Ao fim e ao cabo, tratava-se de um CLUBE − rematei eu, em tom maior.
         Mas, infelizmente, os meus argumentos não convenceram o Capitão Ramos, nem, naturalmente, o General Spínola. Esse nem sequer nos ouvia, concentrado como estava em bisler e tresler e editar, em letras garrafais, a resposta à magna pergunta que lhe iria ser feita dentro de momentos.
         Chega a hora da conferência de imprensa, com a presença de um número considerável de jornalistas, para agradável surpresa minha, dado o anúncio tardio dela e dada a escassa publicidade que dela se tinha feito.
         Apresento o General Spínola e apresento o intérprete e vou sentar-me, como me competia, longe do pódio, numa das últimas filas da sala, atrás de todos os jornalistas.
         Feita a primeira pergunta, não me recordo sobre que, a que o General respondeu em termos muito parcos e muito vagos, uma vez que se estava a reservar para o prato forte da conferência de imprensa: a resposta à momentosa pergunta sobre a hipotética e fantasmagórica reunião do Comité Internacional do Partido Comunista, algures em Trás-os-Montes, um cantinho de Portugal que nenhum jornalista do National Press Club conhecia nem tinha obrigação de conhecer, no esquema geral das coisas.
           Eis senão quando, lá pelo meio da sala, ouve-se um pequeno sussurro. Reparo e, para consternação minha, noto que era o Capitão Ramos que, ostensivamente, fazia sinais ao tal Professor Cardozo, promovido nesse fatídico dia a jornalista, para que fizesse ver àqueles ignorantes jornalistas que no meio deles se encontrava alguém devidamente informado e à altura dos acontecimentos. E, de repente, vê-se no ar uma mão muito branca e muito descarnada, como convinha a um professor de Ascética, pedindo licença para falar. E ao sinal afirmativo do monóculo do General Spínola, o professor de Ascética, de rosto macerado, aproxima as suas grossas e fuscas lentes de uma folha de papel e começa a ler, muito candidamente, a pergunta combinada de antemão e laboriosamente cozinhada. 
         Ainda o pseudo-jornalista não tinha chegado ao meio da pergunta, já vários jornalistas, de máquina fotográfica engatilhada, se haviam aproximado do pódio, para fotografar os papéis que o General Spínola começara a manusear, pois, como já sabemos, o General tinha escrito a longa resposta a dar ao pseudo-jornalista.
         Tal como eu suspeitava, foi o "kiss of death." Ao verem que se tratava de jogo feito e jogo sujo, a maioria dos verdadeiros jornalistas saiu da sala de imprensa e foi gastar o tempo em trabalho mais sério.
         E foi assim que o General Spínola perdeu mais uma oportunidade soberana de levar a sua mensagem ao conhecimento não só do grande público americano, mas também do público de outros países.
         Procurar nos meios de comunicação social do dia seguinte notícias sobre a necessidade imperiosa de libertar Portugal das grilhetas e da mordaça com que os militares marxistas e o Partido Comunista Português o tinham agrilhoado e amordaçado era o mesmo que procurar agulha em palheiro. A ascética tinha alcançado uma vitória sobre o jornalismo, graças à leviandade e ao atrevimento da ignorância, por parte do General Spínola e dalguns dos seus egrégios assessores. 
 
António Cirurgião
 
 
 
 

quinta-feira, 2 de junho de 2016




impulso!

100 discos de jazz para cativar os leigos e vencer os cépticos !

  

# 93 - DANILO PEREZ

 


 
 
Sempre para Norte caminhara o jazz até que Dizzy Gillespie, em 1954, desceu abaixo do paralelo 29, a latitude de Nova Orleães, indo ter – era sina e tradição – aonde estava a má vida. Tão bem se deu o jazz no serralho das músicas de Cuba, qual delas mais cálida, coleante e cativante, que nunca mais deixou de visitar essa casa como se fosse sua. Esta paixão, claramente de má nota, fez com que desde 1959 as autoridades cubanas tivessem uma relação muito esquerda com a resiliente presença do jazz na ilha; à uma ele era a reminiscência da ocupação dos yankees, e logo daqueles que até à revolução mais fizeram por corromper Cuba com casinos, music halls e prostíbulos; mas à outra, o jazz não era bem música de gringo. Em suma, um noivado turbulento que ainda hoje prossegue com recaídas passionais e birras ciumentas.
Devem-se estas em boa parte às peripécias de infidelidades que o jazz foi cometendo, ao amancebar-se com outros géneros nados e criados por todo esse viveiro musical que é o Mar das Caraíbas, onde procriou mais Titãs do que Gaia. Assim, além da ínclita e prolífica estirpe de intérpretes cubanos, da República Dominicana afirmou-se o pianista Michel Camilo, do México Arturo O’Farrill e de Porto Rico David Sanchez e Miguel Zenón, os únicos que, por mero atraso geracional, não foram incubados e nutridos por Gillespie. Do alagado Panamá proveio Danilo Perez que na dobra do século ascendeu a um lugar cimeiro e incontestado no jazz latino.
A epifania da globalização seduziu o jazz muito antes de o conceito existir do modo que hoje se discute. Ela terá advindo em consequência directa do seu intestino e ininterrupto desacordo entre uma negritude original e a mestiçagem cosmopolita em que se divulgou. Esta querela não apenas atravessa a música de Danilo Perez, como será mesmo o seu combustível. Sendo, por um lado, insanável a sua dívida com Dizzy Gillepsie, com quem aprendeu a receita dos melhores cocktails à base de bourbon harmónico ou de rum melódico, também, por outro, a fraternização de Perez com Wynton Marsalis, o legendário puritano do início de 80, creditou-lhe tantos dilemas como soluções.
 

Motherland
(2000)
Verve / PolyGram / Universal - 5439042
Danilo Perez (piano), Regina Carter (violin), Chris Potter (saxofones), Diego Urcola (trompete), Kurt Rosenwinkel (guitarra eléctrica), John Patitucci, Carlos Henriquez (contrabaixo), Brian Blade, Antonio Sanchez (bateria), Richard Bona, Luciana Souza, Claudia Acuna (voz), Greg Askew (bata itotele), Aquiles Baez (cuatro, guitarra acústica), Louis Bauzo (bata iya), Richard Byrd (bata konkolo), Luisito Quintero (congas), Ricaurte Villarreal (tambor repicador).
 
Uma visão retrospectiva, como se preconiza às que não iludem o prisma temporal por onde espreitam, seria capaz de equacionar a discografia de Danilo Perez anterior a “Motherland” enquanto um ensaio, já de voz singular mas ainda com programa inseguro, em preparação desta obra.
O plano de “Motherland” é de grande fôlego e não convenceu toda a gente, havendo quem, sem maus propósitos, o indexasse como world music; era ele o de compor uma suite que integrasse as várias latitudes musicais da longitude latino-americana. A sua estrutura harmónica louva-se na matriz tradicional do jazz, a goma que une os diversos idiomas latinos à conversa entre si, sem necessidade de tradução simultânea. Aos intérpretes, portanto, rogava-se que saíssem da sua zona de conforto e terem mais ouvidos do que barriga, ou, assim o afirmou Danilo Perez: “não quero escrever um diccionário – isso inibe a personalidade, (…) quero colocar-me na corda bamba.”
Não foi inteiramente exorcizado em “Motherland” o fantasma do ecletismo e com essa água nem sempre se deitaram fora os bebés do pedantismo e da pomposidade. Porém, o tino e o risco desta aventura, e, sobretudo, a categoria dos intérpretes que nela participam, colocam o disco numa posição invejavelmente modelar do jazz que se apontava à entrada do novo século.
 
 
José Navarro de Andrade