Fotografia de António Araújo
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terça-feira, 30 de agosto de 2016
Lisboa, 1936.
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Ralph Fox (1900-1936)
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Jornalista,
escritor, militante do Partido Comunista inglês, biógrafo de Marx e Gengis Cã,
Ralph Winston Fox (1900-1936)
notabilizou-se como combatente na Guerra Civil de Espanha, tendo morrido na
Batalha de Lopera, em finais de 1936. Com tradução de Rui Lopes, prefácio de
José Neves e ilustrações de António Paredes, a Tinta-da-china publicou em 2006 Portugal Now. Um espião comunista no Estado
Novo http://www.bulhosa.pt/livro/portugal-now-um-espiao-comunista-no-estado-novo-ralph-fox/,
livrinho de Ralf Fox em que este conta a sua passagem por Portugal. Um breve
extracto:
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Lisboa, Avenida da Liberdade, 1936
Fotografia de Eduardo Portugal
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Se
alguma vez considerar a hipótese do exílio, voluntário ou involuntário, terá à
escolha muitos sítios piores do que Lisboa.
A cidade é limpa e pitoresca, banhada
por uma luz dourada, suave e encantadora, que apaziguará a tristeza do exílio;
também não há pobreza à vista, o que nos poupa a remorosos quando nos sentamos
à mesa num dos três hotéis confortáveis de Lisboa.
É certo que esta ausência de pobreza é
um mero acidente arquitectónico, pois os pobres, como em qualquer outra cidade,
são a maioria da população, mas encontram-se convenientemente afastados e
arrumados nas ruas íngremes e estreitas que as largas avenidas centrais não
cruzam.
Apesar de tudo, até mesmo a pobreza
parece suportável sob a doce luz de Lisboa, e como a moeda nacional está
alegremente desvalorizada, a vida parece barata – mesmo que não o pareça aos
nativos.
O terceiro factor indispensável ao
ambiente do exílio também aqui se encontra – uma atmosfera cosmopolita.
É verdade que a maioria dos habitantes
são obstinadamente portugueses, mas os exilados são todos espanhóis, os
exportadores de vinho são ingleses, os comboios são alemães, o gás e a
electricidade são franco-belgas; os eléctricos, os telefones, os marcos de
correio e os capacetes dos polícias são também ingleses; por outro lado, a
política do governo é italo-alemã.
Este governo exemplar criou
recentemente uma estância para estrangeiros, situada no topo de uma falésia por
cima de uma faixa atlântica de praia, a uns trinta quilómetros de Lisboa. É
verdade que eles não fizeram o Estoril motivados por sentimento de pura
hospitalidade, mas eis que ele ali está agora, e não vale a pena esconder a
gratidão por isso.
De facto, o Estoril é um local único em
todo o mundo, pois é a única estância de recreio que foi criada directamente
pela crise económica mundial. Eis a razão para este paradoxo. Os portugueses,
tal como os irlandeses, são uma nação de camponeses pobres que depende dos
familiares ricos da América para obter o dinheiro que lhes permite viver. O
orçamento português, tal como o camponês português, sempre dependeu em grande
medida dessas remessas mensais do Brasil. Com a crise, elas começam a diminuir.
Então, o astuto ditador Salazar, que tinha desvalorizado a moeda, indexando-a
depois à libra inglesa – que também já estava desvalorizada –, lembrou-se de
construir o Estoril para atrair turistas estrangeiros.
Há uma esplanada encantadora sobre a
praia, um casino luxuoso, e um belíssimo hotel com um bar muito moderno. Sally,
que tinha sido o primeiro barman
nesse local, afiança a qualidade do bar. Ele contou-me que o primeiro habitante
do Hotel Palace – e, durante duas semanas, o único hóspede – foi Chiappe, o
ex-prefeito da Polícia de Paris. Não sei se Chiappe foi também o primeiro
visitante a jogar no casino, pois Sally só gosta de jogar dados, e com os dados
ele é um mestre.
Além do mais, Sally joga sempre para
ganhar e, tendo em conta que Chiappe é conhecido por ter a mesma fraqueza,
Sally não terá provavelmente demonstrado qualquer interesse por uma tal faceta
do seu hóspede.
O Estoril está ligado a Lisboa por uma
boa estrada e por uma linha de comboio. É o paraíso de um exilado. Os grandes
de Espanha, os condes, marqueses e duques apaixonaram-se pelo Estoril. Enchem o
casino todas as noites, nas suas elegantes roupas inglesas; sentam-se na esplanada
à tarde, apanham banhos de sol (sem as roupas inglesas) de manhã.
(…)
De tempos a tempos, os salões dos
hotéis agitavam-se com a chegada romântica de refugiados estrangeiros ricos.
Lembro-me de um desses casos: uma lânguida senhora espanhola com passaporte
dinamarquês, presenteando um exportador de vinho inglês com a descrição dos
horrores da vida entre os anarquistas de Barcelona. Ela tinha fugido para a
Alemanha, e depois para a Escandinávia. Agora ia regressar a Espanha, para se
juntar ao seu marido, seguro atrás das linhas rebeldes.
Estava tudo preparado para ela. O
cônsul dinamarquês tinha visado o seu passaporte junto dos rebeldes e enviara
telegramas dela para o marido, que se encontrava em Ayamonte, na fronteira de
Espanha. Em Ayamonte, disse o exportador de vinhos, os ingleses estariam pronto
a abençoar pessoalmente a reunião desta família. Não tinha o seu apartamento em
Barcelona sido revistado por brutos que procuravam jóias? Na sua presença, um
cavalheiro sentia-se instintivamente um Pimpinela Escarlate.
Por vezes, nos salões dos hotéis,
ouviam-se conversas de grandes negócios. Pode ouvir-se (como se ouviu uma vez)
um francês que tenta vender munições e um judeu inglês que tenta vender
máscaras de gás, ao mesmo tempo representante de Burgos. Uma vez ouvi alguém a
preparar uma deslocação dos seus negócios de Espanha para Portugal.
Que estava disposto a iniciar a sua produção
em Portugal, dizia ele ao pequeno funcionário do governo português, tímido e servil,
se conseguisse usar petróleo em vez de electricidade. Em breves momentos,
ouviram-se referências a grandes nomes: Shell, Rio Tinto, Rotschild, um banco
inglês.
Tudo isto representa o outro lado da
contra-revolução. Quando lemos acerca do homens e das mulheres que lutam
desesperadamente para serem livres em Espanha, das tropas africanas e dos
legionários estrangeiros, dos massacres de prisioneiros e do bombardeamento de
crianças, não esqueçamos Lisboa, ou o quadro ficará incompleto.
Ralph Fox
segunda-feira, 29 de agosto de 2016
sábado, 27 de agosto de 2016
Lisboa, 1941.
Como
é sabido, o intelectual romeno Mircea Eliade (1907-1986) viveu em Portugal
durante a 2ª Guerra, tendo escrito um «diário» que se encontra publicado entre
nós (cf. Mircea Eliade, Diário Português
[1941-1945], trad. do romeno e notas
de Corneliu Popa, estudo introdutório de Sorin Alexandrescu, Lisboa, Guerra
& Paz Editores, 2007). Entre as primeiras entradas desse «diário», e das
mais expressivas num texto que é, acima de tudo, introspectivo, afigura-se a
relativa à manifestação de apoio a Salazar, no Terreiro do Paço, em Abril de
1941, onde é patente o fascínio de Eliade pelo ditador português.
28
de Abril
Grande
manifestação popular em homenagem a Salazar. Com alguma dificuldade encontro um
lugar na Praça do Comércio, uma hora e meia antes da hora marcada. Tenho um
lugar na varanda do Ministério das Finanças, no segundo andar. Um mar de
cabeças na praça. Imensas crianças e jovens. Há algumas horas que se disparam
salvas com vários tiros de canhões, da terra e do rio. Aqui, na praça, os
estrondos são tremendos. Estremeço: fazem-me lembrar Londres.
Às
seis aparece Salazar na varanda. Ruge toda a massa viva a seus pés. Com alguma
dificuldade, debruçando-me bastante sobre a balaustrada, consigo ver-lhe o
perfil. Veste roupa simples, cinzenta, de passeio – e sorri saudando com a mão,
comedidamente, sem gestos. Quando ele apareceu, do alto começaram a despejar
cestos com pétalas de rosas, cor-de-rosa e amarelas. Observei, mais tarde, enquanto
um jovem falava num palco no meio da praça, como Salazar brincava pensativo com
algumas pétalas que tinham ficado na balaustrada. Depois vi-o falar. Lia com
bastante calor, mas sem qualquer ênfase, levantando de quando em quando os
olhos do papel e olhando a multidão. Levantava a mão esquerda, mole, pensativa.
Uma voz nunca estridente. E, no fim da leitura, quando a praça o ovacionava,
inclinava sorridente a cabeça. Parece que nem sentia a força colectiva
esmagadora a seus pés. De qualquer modo não era prisioneiro dela, nem sequer se
deixava sugestionar por ela.
Mircea Eliade
sexta-feira, 26 de agosto de 2016
URSS, de Henrique de Barros.
«A
convivência entre os sexos não obedecia a pudores de outras eras nem revelava inibições
já vencidas, parecia ser naturalmente cordial, mas pouco tinha daquela licença sem
peias que suscita a reprovação de tanta gente, mesmo sem pretensões a
moralista. Os grupos juvenis que víamos circular revelavam à-vontade,
descontraimento, como é curial dizer-se agora, mas nunca notámos que tomassem
atitudes de ostentação, provocação, ameaça ou desprezo.»
quinta-feira, 25 de agosto de 2016
Crianças e Animais (Contos Infantis).
Raúl
era um pequeno de bom coração; e quando viu que o cãozinho estava ferido,
voltou atrás, pegou nele e levou-o para casa.
−
Ó Raúl, exclamou sua mãe, onde foste buscar esse cão tão sujo?
− Ele veio atrás de mim, replicou o menino.
−
Então leva-o outra vez; não podemos tomar conta dele,
−
Ó mamã, veja como ele tem a pata ferida! Não podemos ficar com ele até que
melhore? Olhe como está a deitar sangue! E creio que ele já não come há muito!
É por isso que está tão magro! Posso dar-lhe de comer?
quarta-feira, 24 de agosto de 2016
segunda-feira, 22 de agosto de 2016
Lisboa, 1960.
Criados
em 1916, os Guide Bleus são a mais
antiga colecção de guias turísticos de França. Não trazendo propriamente
informação nova ou surpreendente, o trecho ora traduzido e publicado interessa
sobretudo porque ilustra uma visão de certo modo estereotipada da cidade – que,
porventura, ainda se mantém –, do mesmo modo que condensa, digamos assim, a
«versão oficial» de Lisboa que as autoridades do Estado Novo tentavam
projectar. À época – mais precisamente, em 1960, data da edição deste Guide Bleu sobre Portugal –, a colecção
era dirigida por Francis Ambrière (1907-1998), escritor galardoado com o Prix
Goncourt pelo seu livro Les Grandes
Vacances (a obra é de 1940 mas, devido à 2ª Guerra, o prémio seria
atribuído retroactivamente, em 1946). No prefácio, Ambrière agradece aos
responsáveis por diversos capítulos – Reinaldo dos Santos, Armand Guibert, etc.
– e às autoridades que auxiliaram a elaboração do guia, com destaque para o
Secretariado Nacional de Informação, reconhecendo ainda o apoio, entre outros,
de Pierre Hourcade (então director do Institut Français de Lisboa), João Couto
(director do Museu de Arte Antiga) e Maria Vaz Pereira (conservadora do Museu de
Artes Decorativas). O capítulo dedicado a Lisboa é muito extenso, tendo sido
apenas traduzida a respectiva introdução.
Lisboa
– cidade com 783.226 habitantes, capital de Portugal, sede de um Patriarcado,
encontra-se situada a 38°42´43´´ de latitude Norte e a 9°7’54’’ de longitude
Oeste de Greenwich, na margem direita do Tejo, no local onde o rio, tendo
desaguado num vasto estuário, se espraia num mar interior chamado Mar da Palha, para depois desembocar no
Oceano, a 6 quilómetros da capital. Lisboa apresenta, assim, ao longo do rio,
uma extensão de 16 quilómetros na horizontal, do Poço do Bispo, a Leste, até
Algés, a Oeste.
Construída
em anfiteatro na encosta de numerosas colinas, das quais algumas têm mais de
100 metros de altitude, chegando a alcançar os 226 metros no pico de Monsanto,
Lisboa é uma das mais belas cidades da Europa.
O
seu relevo acidentado faz com que, por vezes, existam miradouros de onde se tem
uma vista soberba e sempre variada dos diversos bairros e do atoalhado majestoso
do Tejo. Graças à sua atmosfera límpida, à sua luz dourada, todas as linhas são
recortadas e visíveis com absoluta nitidez.
Infelizmente,
os terramotos reduziram a monumentalidade de Lisboa. Perdeu-se, acima de tudo, o
enlace pitoresco dos pinheiros e dos campanários, que no passado apontavam para
os céus. Apesar dos desníveis do solo, a cidade tem ruas largas e bem
alinhadas, praças magníficas, casas altas e bem construídas; de uma
arquitectura extremamente banal, é certo, mas a que os bonitos revestimentos de
faiança esmaltada (azulejos) conferem
uma frescura deliciosa.
O
centro da vida urbana é a Baixa, isto
é, a zona situada entre a gare e a praça do Comércio ou Terreiro do Paço, e que foi edificada,
com uma grandeza e uma rapidez impressionantes, pelo célebre marquês de Pombal,
após o terramoto de 1755. Aí, as ruas são desenhadas a régua e esquadro,
entrecortadas em ângulos rectos que formam um gigantesco tabuleiro de xadrez,
ocupando o vale outrora banhado pelas águas do Tejo. As ruas mais belas e mais
animadas, onde se encontram as melhores lojas, são as do Ouro (oficialmente, rua
Áurea), da Prata e Augusta, abrindo esta para a praça do
Comércio através de um arco triunfal. Na zona oriental (o núcleo primitivo da
cidade), encontra-se a velha Alfama,
um dédalo de ruas estreitas e tortuosas que evoca a Lisboa dos séculos XV e
XVI. Quanto à zona ocidental, o antigo Restelo,
de onde partiram precisamente os navegadores que trouxeram a glória a Portugal,
é o lugar onde se encontram os mais belos monumentos das Descobertas, no
faustoso estilo manuelino: o convento dos Jerónimos e a torre de Belém.
Após
1890, Lisboa cresceu significativamente, estendendo-se para Norte através de
belas e amplas avenidas, e prolongando-se para Oeste na «costa do Sol», a
principal zona turística e estação de veraneio do país, servida por uma grande
estrada marginal que bordeja o Tejo.
O
plano de ordenamento de Lisboa, concebido graças à iniciativa de um grande
ministro, o engenheiro Duarte Pacheco, tomou forma em 1938, quando, graças ao
seu espírito visionário, foi concretizado o projecto da rede viária que
permitiu o nascimento de novos e grandes bairros.
Seja
na zona Oeste (novo bairro da Ajuda), ou a Norte, onde os bairros do Areeiro e
de Alvalade albergam cerca de 50.000 habitantes formando uma nova cidade,
Lisboa cresce vigorosamente, conservando, porém, as características
tradicionais de uma arquitectura leve e vivaz que sempre foram apreciadas pelos
estrangeiros que visitam Portugal.
Um
dos projectos mais marcantes do plano do ministro Duarte Pacheco é já hoje uma
realidade: o parque de Monsanto, com cerca de 1.000 hectares, de onde se tem as
melhores vistas panorâmicas da capital. Entre os principais edifícios desta
fase de crescimento pode citar-se os do Instituto Superior Técnico, da Moeda, o
Instituto Nacional de Estatística, o hospital universitário, e numerosos
edifícios, tais como liceus, escolas técnicas, blocos de habitação, grandes
cinemas (Monumental, São Jorge, Império). Saliente-se ainda o liceu
Charles-Lepierre (1952), construído pela comunidade francesa, e o metropolitano
(duas linhas abertas em 1959).
A
numeração das ruas parte do Tejo ou acompanha o curso do rio, encontrando-se os
números pares à direita e os ímpares à esquerda.
O
traje nacional das gentes do povo
praticamente desapareceu. No entanto, o modo de caminhar e o porte altivo das
vendedoras, sobretudo as do mercado do peixe (varinas), acostumadas a levar à cabeça, num equilíbrio perfeito, cestos
carregados de provisões ou até mesmo cântaros de água, e que gritam uma espécie
de preghiera com uma sonoridade às vezes
estranha, despertarão certamente a curiosidade dos estrangeiros.
Tradução de António Araújo
Vénus Geradora, de A. Cabral.
«O gamo
é um pouco mais pequeno que o veado e, embora haja entre eles muita semelhança,
não se podem ver, nunca andam juntos, evitam-se, não se cruzam nunca e por
conseguinte nunca formam nenhuma raça intermediária. Procuram as fêmeas aos dos
anos, não se lhes ligam em união duradoura, antes as trocam como o veado. A
fêmea do gamo, assim como a corça, tem uma gestação de oito meses.»
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domingo, 21 de agosto de 2016
Batas Brancas, de Evaristo Franco.
«Quando,
no manicómio, o médico quis averiguar o estado mental de Neomira,
participando-lhe a morte do filho, a pobre louca, numa atroz descompostura de
trajos e das maneiras, ouviu a notícia soltando gargalhadas de risos
paroxísticos. Não havia recuperado, ainda, a mínima parcela da sua antiga
sensibilidade moral.»
sábado, 20 de agosto de 2016
sexta-feira, 19 de agosto de 2016
Spínola e as telenovelas.
Durante o segundo exílio do
General Spínola no Brasil, encontrava-me eu aí a fazer pesquisas no campo da literatura
e a fazer conferências e a rever, descobrir e saborear as maravilhas desse
vastíssimo país lusófono.
Praticamente convencido de
que pouco mais lhe restava, na sua qualidade de oficial superior do exército
português, do que enfeitar o seu papel de primeiro presidente de Portugal,
depois da Revolução de 25 de Abril de 1974, e de resistente, após a tomada do
poder pelo Partido Comunista Português e pelos militares esquerdistas e
marxistas, o Genaral Spínola decidiu imprimir os discursos proferidos durante a
sua presidência e as conferências e entrevistas feitas e dadas após ter
abandonado a dita presidência, no dia 28 de Setembro de 1974.
Como durante os primeiros
meses desse segundo exílio, a sua sobrinha Maria Luísa Coelho, que o tinha
secretariado durante o seu curto mandato de Presidente da República Portuguesa,
após o golpe militar de 25 de Abril, não se encontrava disponível para o
secretariar, devido a outras ocupações, coube-me a mim desempenhar informal e
voluntariamente esse cargo. E a quem me perguntar por quê me prontifiquei a
fazer isso simplesmente responderei que, para além da amizade que me ligava a
ele e de acreditar na honestidade do General e no mérito da obra, também eu
estava sinceramente empenhado em dar o meu modesto contributo para o
restabelecimento da democracia em Portugal. Primeiro por saber, por experiência
própria, como cidadão e residente dos Estados Unidos da América, do valor e dos
encantos da democracia, em comparação com os horrores de um regime totalitário
e ditatorial; segundo, por ter presas, em cadeias portuguesas, com o nefando
estatuto de prisioneiros políticos, pessoas que me eram particularmente
queridas e a quem o regime então no poder em Portugal ameaçava executar, indo,
por mais de uma vez, alguns dos seus carcereiros, alta noite, abanar-lhes as
grades das celas e informá-las que no dia seguinte seriam levadas ao paredão e
fuziladas, juntamente com muitos outros dos prisioneiros políticos que com
essas pessoas sofreram as agruras despóticas e bárbaras do cárcere e foram
sujeitas injusta e arbitrariamente a esse tipo de tortura.
E foi essencialmente por
essas duas razões que eu decidi colaborar com o General Spínola, durante a
minha estadia no Brasil, na elaboração do livro que veio a sair a lume, em
Novembro de 1976, com o título de Ao Serviço de Portugal, título,
aliás, que eu sugeri, por nele se reflectir sobretudo a preocupação, por parte
do General, de envidar todos os seus esforços para fazer de Portugal um país
genuinamente democrático, onde todos os portugueses tivessem orgulho de viver.
Por essa altura, eu morava em
Copacabana, na rua Belfort Roxo, e o General Spínola morava no Leme,
separando-nos uma distância de uns dez minutos a pé, pouco mais ou menos.
Aí por volta das oito da
noite, depois da ceia, portanto, chegava eu ao apartamento do General Spínola e
tocava a campainha. Quem me abria a porta era a D. Maria Luisa, sobrinha do
General, como se referiu atrás. Ela a abrir-me a porta e o tio a dizer-lhe:
- Ó Luisinha, serve aí alguma
coisa ao Professor e diz-lhe que tenha a bondade de esperar um pouco, enquanto
eu acabo de ver a telenovela.
E enquanto a D. Maria Luisa e
eu tomávamos um café ou um chá e conversávamos, aquele homem austero, frugal
como um eremita e de uma formação espartana, a toda a prova, não permitia que
ninguém o perturbasse enquanto ele, deliciado e embevecido, assistia piamente à
telenovela brasileira.
Terminada a novela, deixava a
sala de estar e vinha ter connosco a pedir desculpa pelo atraso. E, o que era
mais, assumia o ar de alguém que tivesse estado a fazer alguma coisa menos
apropriada para uma pessoa como ele, ex-comandante e combatente dos matagais e
pauis da Guiné e ex-presidente da República Portuguesa. Mas, uma vez posto à
vontade, começava a dizer, com o fervor de um noviço e com a maior das
convicções, que os brasileiros podiam ter todos os defeitos deste mundo e do
outro – e, no sentir dele, tinham mesmo, a começar pela imoralidade,
emblematizada pelo semi-nudismo que reinava soberano na Praia de Copacabana,
onde ele dava o seu passeio (“footing”) diário (foi por essa altura que as
“garotas de Ipanema” deram estatuto de cidadania ao “topless” e ao “fio dental”),
e a acabar pela hipocrisia endémica –, mas que, em questão de telenovelas,
ninguém no mundo se lhes comparava. E perguntava-me se eu não estava de acordo.
E eu, que nem sequer tinha televisão no meu apartamento, a fim de melhor poder
concentrar-me nas minhas leituras e nas minhas pesquisas, não podia fazer outra
coisa senão manifestar-lhe a minha ignorância no assunto. Que tinha de
experimentar – exortava-me ele. Que essas telenovelas não só eram um bom meio
de entretenimento, mas também, e sobretudo, um excelente veículo de cultura.
Que, de uma maneira geral, se aprendia muito sobre a história, a cultura e a
vida brasileira, vendo as suas excelentes telenovelas.
E o austero homem do
monóculo, com o arroubo de um neo-convertido, fazia o mais rasgado elogio das
telenovelas brasileiras, a única coisa que valia a pena ver no Brasil –
acrescentava.
Dito o que, voltava ao seu
natural e convidava-me para o seu gabinete de trabalho, a fim de prosseguirmos
na escrita do “Intróito” para a sua colectânea de discursos, conferências,
entrevistas e improvisos sobre política, que um dia viria a sair a lume sob o
título de Ao Serviço de Portugal, como se referiu atrás.
Ditadas umas linhas para eu
escrever à máquina, linhas que ele tinha escrito anteriormente à mão, durante o
dia, parava e pedia-me que lhas lesse em voz alta. E eu lia e ele ouvia com a
maior atenção. Feito o quê, ele achava quase sempre que era preciso suprimir
esta palavra, mudar aquela ou acrescentar outra.
Uma vez satisfeito com as
alterações feitas, passávamos adiante, voltávamos a parar, fazia-se novamente a
leitura em voz alta, lutava-se por vezes minutos inteiros com um vocábulo, até
que se completava um parágrafo. E tal como se tinha feito com as frases que
constituíam o período, fazia-se então com todo o parágrafo.
E foi assim, lentamente,
meticulosamente, que ao fim de um número considerável de sessões se chegou ao
fim do “Intróito”. E o que se fez com o “Intróito” foi feito depois com os
discursos, as conferências, as entrevistas e os improvisos, aperfeiçoando e penteando,
com o maior cuidado, o que, na sua maior parte, já tinha sido impresso em jornais
ou em revistas.
Tendo acompanhado o General
durante todo o processo da escrita desse livro, pude confirmar aquilo que já
tinha observado por ocasião da sua estadia nos Estados Unidos, em missão meio
pública, meio secreta, com um passaporte especial: o cuidado e a meticulosidade
que ele punha em todas as palavras que escrevia e que pronunciava. Nunca vi
ninguém que pusesse mais empenho no mínimo pormenor, desde a escolha da matéria
até à organização do discurso; desde a preocupação com a gramática e a sintaxe
até ao esmero com a pontuação.
Como a pontuação, nalgum dos
seus aspectos, é um fenómeno puramente subjectivo, mais de uma vez vi o General
a recusar as minhas sugestões, nesse capítulo. E uma vez em que eu argumentei
com mais vigor a favor da colocação de determinado sinal de pontuação, tive que
ouvir o General Spínola dizer-me que ele, como Oficial de Cavalaria, tinha sido
director da revista dessa especialidade.
Foi por ter observado esse
fenómeno, como testemunha ocular, que por mais de uma vez tive que desmentir
veementemente os que diziam que quem tinha escrito o livro Portugal e o Futuro
havia sido o ex-Governador do ex-Estado de Guanabara, Carlos Lacerda.
Que fique porém bem claro que
esse labor lento e meticuloso na feitura desse livro nunca impediu que o
General Spínola assistisse diariamente, devocionalmente, à telenovela
brasileira da noite, como se se tratasse de um autêntico ritual.
António Cirurgião
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