sábado, 10 de setembro de 2016

A porta do federalismo colonial.

 
 
 
 
 
 
 
 
A porta do federalismo colonial: manobras dispersas
 

 
A originalidade ou precedência de invocação de uma via federalista como solução para a questão colonial coube na Oposição, por via editorial, a Cunha Leal e a Jorge de Sena e foi sustentada, como programa político com repercussões internacionais, por Henrique Galvão e Humberto Delgado.
Em 1957, aproveitando a abertura proporcionada pela campanha eleitoral para as eleições legislativas (a que a Oposição não concorreria), Cunha Leal criticara frontalmente a concepção situacionista considerando que o princípio da unidade política   «decretada do alto do poder», haveria, a prazo mais ou menos dilatado, de esbarrar contra realidades adversas e inelutáveis. Aconselhava o livre desenvolvimento de cada uma das parcelas do Império, mesmo que dele pudesse resultar a independência, e propugnava uma “confederação de Estados autónomos”[1]. O artigo originou uma polémica envolvendo a União Nacional e o então comodoro Sarmento Rodrigues. Este último, em réplica, criticou Cunha Leal por pôr em causa «a própria essência da nossa existência como Nação», reafirmando que, nas colónias, o objectivo pretendido era «generosamente […] moldar um povo à maneira e semelhança do povo original» e não admitindo, de maneira alguma, «como solução, por mais longínqua que fosse, a ideia de federação ou confederação, se ela significar menor coesão que o sistema actual»[2]. De imediato, Cunha Leal redigiu uma tréplica, apoiando o processo inglês por conduzir a uma estrutura comunitária de Estados independentes[3].
No princípio dos anos sessenta, reflectindo especialmente sobre o conceito de Pátria – e, para tal, desenvolvendo o significado quer da «gesta portuguesa dos Descobrimentos e da Colonização», quer «o avizinhar da tempestade», quer, finalmente, o «valor duvidoso» dos argumentos usados pelo Governo – Cunha Leal elaborou um plano (datado de 3 de Dezembro de 1960) para a defesa dos domínios coloniais, assente na criação de uma Comunidade de Estados, «formados através de um colonialismo bem entendido, que não se envergonhe de si mesmo». Tal futura associação poderia revestir-se de uma das seguintes gradações: 1) a mais íntima, ou seja a integração; 2) a intermédia, ou seja a federação; 3) a mais frouxa, ou seja, a confederação[4]. Em 1961, publicou novas reflexões sobre os problemas euro-africanos, abordando especialmente «a tragédia de Angola» e o problema colonial dos restantes domínios ultramarinos portugueses[5]. Em 1962 – tendo-se adensado e amplificado «as nuvens negras e pressagas, que impendem sobre a Pátria portuguesa» e perante uma orientação governativa imóvel e impermeável a influências exteriores –, Cunha Leal propugnava por uma «autodeterminação preparada, conscientemente», conducente ao estado federal, à independência e, até, à formação de uma Comunidade Luso-Afro-Brasileira – que «venha a representar para nós nos anos vindouros uma tábua de salvação»[6]. Esta defesa de uma solução negociada dos espaços coloniais africanos prosseguiu em mais dois volumes, publicados em 1963 e 1964[7]. Todos mais ou menos clandestinos e apreendidos pela censura.
Por sua vez, Jorge de Sena (intelectual independente) reivindicou a primazia da proposta de uma Comunidade de Estados Portugueses e de uma transição pacífica, que passara a sustentar desde finais dos anos 50. Tal Comunidade – de «formação urgentíssima» e garantida pelo Exército – assentaria, mediante estabelecimento das liberdades e estruturação democrática, por via eleitoral, na agregação de estados soberanos apenas limitados, no exercício da sua soberania, pelos interesses do conjunto (portanto, do tipo Commonwealth). A sugestão, esboçada no texto “Memória sobre o futuro do Ultramar Português”, de 3 de Maio de 1959, inédito, foi posteriormente apresentada, de uma forma bastante desenvolvida, através de 9 pontos prévios e 27 bases para criação e organização de «uma sólida estrutura constitucional», num artigo publicado pelo jornal brasileiro Portugal Democrático (jornal da oposição portuguesa no Brasil e para onde Jorge de Sena tinha emigrado), em Agosto de 1960[8]. Teve vasta repercussão. Em Portugal (onde, todavia, «as oposições não se manifestaram») foi vivamente criticado pelos «acólitos dos grupos dirigentes»; também desagradou aos nacionalistas africanos e originou diversas reações entre a “colónia portuguesa” no Brasil[9]. Em especial, as contradições e antagonismo dos diferentes sectores da Oposição quanto à questão colonial ficaram evidentes com as declarações polémicas de Miguel Urbano Rodrigues, militante do PCP influente no mesmo jornal, que desqualificou a proposta de Jorge de Sena, em termos vigorosos, nomeadamente acusando-a de «ranço neocolonialista, aliás presente na linguagem»[10].
A constituição de um Estado Federal, abrangendo Portugal e as suas colónias, também tinha sido publicamente defendida em 1961 por Henrique Galvão e Humberto Delgado, exilados no Brasil. Humberto Delgado – segundo anunciou no “Plano Colonial da Oposição”, apresentado em nome do Movimento Nacional Independente, que dirigia – e na sequência de uma argumentação desenvolvida em 10 considerandos, propunha a fundação de uma República Federal dos Estados Unidos de Portugal (n.º 11), constituída pela federação de povos sob a protecção da bandeira portuguesa e aos quais seria reconhecido o direito de autodeterminação (n.º 12), exarada numa Constituição da República Federal a aprovar, bem como as Constituições de cada um dos estados individuais, mediante plebiscito (n.º 13)[11]. Por seu lado, Henrique Galvão, além da sua participação na feitura desse Plano Colonial da Oposição, sustentou em variadas e polémicas intervenções políticas, no início dos anos sessenta, sobretudo numa atribulada exposição na ONU, ser «conveniente e perfeitamente adaptável às realidades sociais e económicas, que a preparação para o exercício do direito à autodeterminação se praticasse, desde o início, em regime transitório de Federação ou União de Estados Autónomos, coordenada superiormente pelo Estado federal [...]»[12].
Nem o “Programa para a Democratização da República”, de 1961 (que se limitava a reivindicar um reforço da política de descentralização administrativa), nem a “Exposição entregue a sua Excelência o Senhor Presidente da República em 30 de Agosto de 1962”, subscrita por dezenas de individualidades (sendo os seus primeiros signatários Mendes Cabeçadas, Cunha Leal, Mário Azevedo Gomes e Hélder Ribeiro) que insistia na necessidade de o país modificar a política colonial e aderir ao «princípio basilar da autodeterminação» (até então tema tabu para a oposição não comunista) se pronunciaram sobre a questão.
Devem, no entanto, referir-se duas outras intervenções, estas saídas dos meios do regime.
Primeiro, o livro de Manuel José Homem de Mello, significativamente prefaciado pelo ex-Presidente da República Craveiro Lopes, onde se propunha uma via autonomista, mantendo, provisoriamente, o cargo de Governador-Geral, de nomeação governamental, e prevendo a eleição directa de Assembleias Regionais, às quais seriam atribuídos extensos poderes legislativos e de fiscalização política, «excepto nas matérias que seriam da competência da Comunidade (defesa, negócios estrangeiros, coordenação económica e poucas mais)»[13].
Por seu lado, o Governador-Geral de Angola, Venâncio Deslandes, em carta a Salazar, datada de Luanda, 8 de Fevereiro de 1962, defendera reformas na estrutura administrativa nacional, mediante dois patamares governativos, a criar: a)- um governo e órgãos de soberania nacionais, onde a metrópole e as duas maiores colónias estivessem representadas em pé de igualdade e tivessem as mesmas responsabilidades de decisão; b)- governos regionais para a metrópole e para Angola e Moçambique, que administrassem directamente os respectivos territórios no que fosse do seu exclusivo interesse. Deslandes considerava ainda que só a autonomização das colónias podia afastar o perigo da população branca se conluiar com os nacionalistas africanos, o que poderia ser fatal para o domínio português em Angola[14]. Adriano Moreira, então Ministro do Ultramar e já em divergências várias com o Governador-Geral de Angola, declara que só tomou conhecimento desta carta muito depois do “25 de Abril de 1974”, e que estas diligências de Deslandes teriam sido uma das causas das perplexidades em que Salazar passara a ficar mergulhado[15].
Mas a porta foi definitivamente encerrada na sequência da “falhada” reunião extraordinária do Conselho Ultramarino, em Outubro de 1962 – onde, de resto, a via federal nem sequer chegou a ser apreciada[16]. Apesar de ter sido, no princípio da década de sessenta um ponto comum entre alguns sectores reformistas do regime e a ala não comunista da Oposição, o federalismo colonial teve uma projecção pública bastante limitada e há quem considere não ter sido sequer uma “hesitação”[17].
  
António Duarte Silva
 






[1] Cunha Leal, “Considerações de um abstencionista sobre os problemas nacionais. Licet?”, in Diário de Lisboa, de 23 de Outubro de 1957. Desenvolvidamente, João Madeira, “A Oposição e as eleições presidenciais de 1958”, in Iva Delgado, Carlos Pacheco, Telmo Faria (org.), Humberto Delgado – as eleições de 1958, Lisboa, Vega, 1998, pp. 32/33, e Luís Farinha, Francisco Pinto da Cunha Leal Intelectual e Político : Um estudo biográfico (1888-1970), IHC, FCSH/UNL, Lisboa, 2003, pp. 590 e segs.


[2] Sarmento Rodrigues, “O patriotismo dos Portugueses do Ultramar não sofre que sobre ele se formulem reservas”, in Diário de Lisboa, de 26 de Outubro de 1957.


[3] Cunha Leal, “A tout seigneur tout honneur – Tréplica do Eng. Cunha Leal à réplica do comodoro Sarmento Rodrigues”, in Diário de Lisboa, de 27 de Outubro de 1957.


[4] Cunha Leal, O colonialismo dos anticolonialistas, 3.ª edição, Lisboa, Livraria Petrony, pp. 24/26.


[5] Idem, A Gadanha da morte, Lisboa, Edição do autor, 1961


[6] Idem, A Pátria em Perigo, Lisboa, Edição do Autor, 1962, pp. 11, 19 e 151, respectivamente.


[7] Ver Luís Farinha, Francisco Pinto da Cunha Leal Intelectual e Político : Um estudo biográfico (1888-1970), cit., p. 616.


[8] A organização e apresentação dos vários textos sobre a matéria (em especial a documentação relativa ao artigo em causa, “A Comunidade de Estados Portugueses”, pp. 95 e segs.) é feita por Jorge Fazenda Lourenço in Jorge de Sena, Rever Portugal – Textos Políticos e Afins, Obras Completas, Vol. V, Lisboa, Guimarães/Babel, 2011.


[9] Cfr. Jorge de Sena, “A organização da democracia portuguesa” e “A Comunidade de Estados Portugueses (III))”, ibidem, pp. 19 e 403, respectivamente.


[10]  Miguel Urbano Rodrigues, O tempo e o espaço em que vivi, Tomo I, Porto, Campo das Letras, 2002, p. 191, e Douglas Mansur da Silva, A oposição ao Estado Novo no exílio brasileiro, 1956-1974, Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais, 2006, pp. 97 e segs.


[11] Este “Plano Colonial da Oposição”, encontra-se reproduzido apud Iva Delgado e António de Figueiredo (coord.), Memórias de Humberto Delgado, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1991, pp. 188/189.


[12] Henrique Galvão, Da minha luta contra o salazarismo e o comunismo em Portugal, Lisboa, Arcádia, 1976 (1.ª edição em Portugal; a edição original, no Brasil, data de 1965), p. 154.


[13] Manuel José Homem de Mello, Portugal, o Ultramar e o Futuro, Edição do Autor, 1962, pp. 119 e 120.


[14] Fernando Tavares Pimenta, Angola, os Brancos e a Independência, Porto, Afrontamento, 2008, p. 289.


[15] Adriano Moreira, A Espuma do Tempo – Memórias do Tempo de Vésperas, Coimbra, Almedina, 2008, p. 242.


[16] Ver, a propósito, os “posts”, aqui publicados, O “Memorial” de Marcelo Caetano (1962), de 23 de Fevereiro de 2016, e Adriano Moreira e o Parecer do Conselho Ultramarino (1962), de 5 de Março de 2016.


[17] Isabel Castro Henriques, “Hesitações federalistas em África”, in Ernesto Castro Leal (coord.), O federalismo europeu – história, política e utopia, Lisboa, Colibri, 2011, pp. 182 e segs., não faz qualquer referência ao caso português. Ver, também, Hermínio Martins, “O federalismo no pensamento político português”, in Penélope, n.º 18, Edições Cosmos, 1998, pp. 34/24.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Portugal Sensacional.

 
 
 



Portugal Sensacional.

 
 
 
 
 

Portugal Sensacional.

 
 
 

Portugal Sensacional.

 
 

Portugal Sensacional.

 
 

Portugal Sensacional.

 
 
 


Portugal Sensacional.

 
 

Portugal Sensacional.

 
 

Portugal Sensacional.

 
 

Portugal Sensacional.

 
 
 

José Navarro de Andrade, espectáculo ao vivo.






O rapaz que está na foto não é o José Navarro de Andrade mas dá ares. O Zé é um moço muito cá destas bandas do Malomil: vai para quase dois anos que abrilhantina semanalmente este blogue com as suas notas sobre jazz, na série Impulso!Ainda ontem, mais uma. Escritas num estilo único, precious, assim como o do moço que está na foto supra. E não é que no dia 17 de Setembro o José Navarro, numa parceria Observador/Booktailors, vai dar um curso do (muito) que sabe sobre jazz? Há tempos, saiu entre nós A Baronesa, um livrinho amanteigado da Hannah Rothschild, sobrinha da Nica/Panonica que largou tudo – menos o título e a fortuna… – para seguir os passos cambaleantes do monstruoso Monk. Apenas e tão-só porque ouviu Round Midnight, reza a lenda. Li o livro há pouco, tem a sua graça. Tudo isso e muito mais vai ser explicado por quem sabe, o meu portentoso amigo José Navarro de Andrade. Mais informações sobre o workshop (que raio de nome, Zé!), aqui
 
 
 

quinta-feira, 8 de setembro de 2016





impulso!

100 discos de jazz para cativar os leigos e vencer os cépticos !

 

# 97 - WILLIAM PARKER

 

 

 

Fotografia de Peter Gannushkin
 

 

Muitos anos na crisálida se manteve William Parker, assimilando e acompanhando como se observasse o voto de silêncio de um catecúmeno, para enfim despontar em resplendorosa borboleta na primeira década do séc. XXI. Se aos 40 anos de idade John Coltrane tinha tudo feito e morreu, Parker demorou 48 anos até repentinamente ser um dos músicos mais polinizadores do jazz à sua volta. Um caso raro e excêntrico de frutificação tardia, num género historicamente drástico no qual ou se irrompe de maneira prematura, prestes a abalar os caboucos, ou se resiste à entropia do tempo, adquirindo a veneranda espessura de um patriarca.
Começar a meio foi então a sina de William Parker. Durante décadas habitou nos arrabaldes das vanguardas – atributo que se foi gentrificando e academizando – a levantar pontes entre gerações com uma discrição de engenheiro e, tal como cabe a um contrabaixista, a ser amparo de mãe dos audazes da boca de cena. Fiel ao preclaro Cecil Taylor na segunda metade dos anos 80 ao longo de uma dúzia de registos e um sem número de concertos, com ele Parker instruiu-se muito e aprendeu ainda a ignorar como vácua a polémica acerca da influência da tradição europeia – ou seja o leite da Escola de Dramstadt em que medrou a “música contemporânea” – sobre a música negra americana.
Cheio como um ovo, William Parker partiu a casca na alvorada do novo século e depois de ter sido sombra de muitas luzes, passou a irradiar brilho próprio e voraz, gravando como se não houvesse amanhã. E assim foi que a sua voz musical solevou entre a dos seus companheiros de bandeira Mathew Shipp (mais precoce) e David S. Ware (predecessora) com quem desbravava veredas abandonadas nos sertões do jazz.
 
 
 

 
O’Neal’s Porch
2002
AUM Fidelity - UM 022
William Parker (contrabaixo), Hamid Drake (bateria), Lewis Barnes (trompete), Rob Brown (saxofone alto)
 
Se houve para quem “O’Neal’s Porch” eclodisse qual relâmpago na estrada de Damasco, aos atentos a obra surgiu como aquele momento perfeito de síntese e corolário dos trabalhos anteriores, no mesmo passo em que preconiza novos compósitos, muito pouco experimentados, com os materiais de sempre.
Um dos benefícios da maturidade é privilegiar o que é belo e prazenteiro, em virtude de os desenganos da vida terem sobejamente demonstrado que são qualidades raras e delicadas. Com a veterania também vem alguma urgência: o horizonte começa a fixar-se e, às vezes a fixar-nos. “O’Neal’s Porch” é, assim, uma obra de júbilo e recreio que cita, desmonta, refaz, corta e cola, com o entusiasmo de quem tem um brinquedo novo.
É premissa deste quarteto que todos sigam linhas paralelas o que só dá certo se todos se ouvirem atentamente. A bateria de Hamid Drake bate o ritmo mas não se coíbe de se expandir como num solo – é a sua marca d’água – o que lhe permite fornecer constantemente ideias novas e instantâneas aos sopros. É Drake quem na verdade estimula o contrabaixo de Parker, o qual vai cerzindo e alinhando as costuras desta música, ambos chamando atrás de si o saxofone alto e o trompete respectivamente de Rob Brown e Leiws Barnes. Ou seja: o reverso da ordem natural das coisas. O tema de abertura dobra grade vénia a Ornette Coleman com direito a citação e tudo – quem sai aos seus não degenera.
 
 
 
José Navarro de Andrade




 

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Portugal, 1935.

 
 
 
 
 
 
 
         A estadia em Portugal do belga Paul Descamps, docente das Faculdades de Direito de Coimbra e de Lisboa, deu lugar à publicação, em 1935, do livro Le Portugal. La vie social actuelle (Paris, Firmin-Didot et Cie., Éditeurs), entre outros trabalhos. A obra, em cuja génese Oliveira Salazar teve um papel decisivo, é prefaciada por Serras e Silva e constitui um retrato panorâmico do país, seguindo os cânones da sociologia – ou, melhor dizendo da «sciência social» – da época. Mesclando estatísticas  e gráficos com trechos impressionistas e pouco rigorosos, escrito num estilo algo enfadonho e desinspirado, o livro de Descamps tem, não obstante, um interesse histórico inquestionável. Numa tradução sem preocupações de rigor, seleccionou-se, entre tantos outros possíveis, um breve capítulo dedicado à condição das mulheres nos alvores do Estado Novo.   
 
 

Portugal, 1935, aqui, do excepcional B.I.C. Laranja

 
 
 
         A situação das mulheres
 
 
         As principais regras do Código Civil de 1867 são:
         O pai é o chefe de família; a mãe tem apenas o direito de ser consultada, excepto para o casamento de um filho menor, em que deve dar a sua aprovação. Nesse caso, se não existir acordo entre os pais, cabe ao tribunal decidir.
         A mulher solteira e maior de idade é emancipada e goza de todos os direitos civis.
         A mulher casada, pelo contrário, encontra-se na dependência do marido no que respeita aos seus bens. Seja qual for o regime matrimonial, é o marido que administra todos os bens, não podendo, contudo, alienar os bens imóveis da esposa.
         A mãe só adquire as prerrogativas de chefe de família em caso de ausência, doença, incapacidade psíquica ou morte do pai.
         A lei não estabelece a igualdade dos cônjuges em caso de adultério.
         Após a República, foi instituído o divórcio. Quando foi consagrado, alguns maridos começaram a retirar os filhos às suas esposas para que estas lhes concedessem o divórcio. Desde 1931, as mães podem recorrer aos tribunais para regular estas situações.  
         A República consagrou também o reconhecimento dos filhos adulterinos, mantendo-se esta situação sob sigilo. Desde 1932, porém, o cônjuge pode autorizar o levantamento do sigilo, o que permite que ao filho seja atribuída uma pensão de alimentos.
         Apesar da posição subalterna a que a lei submete as mulheres casadas, as raparigas jovens não aspiram sequer a que o casamento lhes traga mais liberdade. Na verdade, existe uma diferença entre a lei e os costumes e, na verdade, estes impedem-nas de fazerem o que parece mal, e a lista dos tabus sobre «o que é próprio» (comme il faut) é muito longa, ainda que pouco a pouca tenha vindo a diminuir, como é natural.
         Desde logo, uma mulher solteira nunca é verdadeiramente independente, salvo se possuir meios de subsistência suficientes. Em certas regiões, as mulheres do povo trabalham muito a troco de magros salários, dado o excesso de oferta de mão-de-obra. Entre as classes mais altas, a mulher que queira trabalhar ou prosseguir a fundo os seus estudos é geralmente alvo de censura e reprovação. Antigamente, só podiam almejar alguma independência material as que recebessem uma herança razoável. Tratava-se, pois, de uma ínfima minoria, apesar de vigorar a regra da igualdade entre sexos em matéria sucessória.
         No entanto, sobre todas as mulheres recai o tabu da separação dos sexos. Antes da Guerra, até mesmo em Lisboa uma mulher que saísse sozinha à rua era malvista e não passava despercebida. Era um facto que, à sua passagem, os homens mais cavalheirescos se descobriam e lhe dirigiam cumprimentos simpáticos; mas também havia muitos indivíduos grosseiros que se permitam certas familiaridades de mau-gosto. Foi necessário que uma estrangeira se queixasse para que fossem adoptadas algumas medidas protectoras: uma multa de 1.000$00 instaurou a decência nas ruas; no entanto, para evitar formas abusivas de chantagem, a vítima tem de comparecer pessoalmente na esquadra de polícia para apresentar queixa. Porém, seja por timidez, seja pela força do hábito, no imediato muitas mulheres não tiraram partido da nova liberdade de poderem circular sozinhas nas ruas. A situação, no entanto, está a mudar de ano para ano.
         É preciso dizer que as senhoras portuguesas têm uma vida regalada, graças à abundância de empregadas domésticas a bom preço. Algumas delas resvalaram mesmo numa certa indolência.  
         Entre as classes médias, uma mulher solteira só pode alcançar alguma independência com apoio no direito à instrução e no direito ao trabalho. Mas, contrariamente ao que sucedeu noutros países, estes direitos nunca lhes foram negados pela lei. Eram os usos e os costumes que os proscreviam. Existia, desde logo, um preconceito aristocrático contra o trabalho. Existia, depois, o preconceito de género, que reduzia drasticamente os empregos mistos. E, por fim, faltavam escolas femininas de qualidade.
         É necessário ter ainda em conta a alma compassiva de muitos Portugueses, que levava muitos pais de família a impedirem que as suas queridas filhas tivessem contactos com o exterior que as pudessem afligir ou trazer perturbações. Antes da guerra, um pai de família que visse a sua situação económica piorar recusava terminantemente a ideia de que as suas filhas um dia teriam porventura de trabalhar para viver, preferindo fechar os olhos à realidade. Existia, sem dúvida, a alternativa do casamento, mas ela não surge todos os dias. A extinção das ordens religiosas tornou ainda mais difícil a situação das mulheres solteiras. Estas têm sempre, naturalmente, lugar no seio da família; no entanto, a sua integração é cada vez mais penosa, devido ao declínio da organização comunitária.
         No século passado, foi a baixa classe média, a que tinha a vida mais árdua, que começou a fornecer as primeiras professoras primárias. E foi apenas no início do século que se começaram a ver raparigas a trabalhar como lojistas ou empregadas dos P.T.T.
         Em 1900 surgiu a primeira licenciada pela Escola de Medicina de Lisboa e, em 1905, pela Faculdade de Coimbra. Em 1913, apareceu a primeira advogada em Coimbra, havendo também aí uma notária. No entanto, ainda hoje o número de mulheres que exercem medicina ou advocacia é muito reduzido. As pessoas, incluindo as mulheres, resistem a consultá-las.
         Algumas mulheres obtiveram, ainda assim, o doutoramento em Medicina, mas nenhuma o alcançou noutras faculdades, uma vez que as cátedras da universidade não parecem atraí-las. Apenas uma mulher foi chamada a ensinar em Coimbra, mas tratava-se de uma alemã que se tornou portuguesa por via do casamento, e não era doutorada. Falamos da Senhora Carolina Michaëlis de Vasconcelos, filha de um professor alemão, o Sr. Michaëlis, que se casou com o Sr. Joaquim de Vasconcelos. Muito jovem, aprendeu espanhol, árabe, português e foi nomeada intérprete no Tribunal de Berlim. Nascida em 1858, veio a fixar-se no Porto, onde se dedicou aos estudos de paleografia e de literatura. Começou a produzir aos dezasseis anos. Foi a qualidade dos seus trabalhos, marcados por uma profunda erudição, que lhe valeu a oferta de um lugar na Faculdade de Letras de Coimbra. Ensinou aí durante uma dezena de anos, tendo deixado o magistério pouco antes de morrer (1925).
         No século passado existiram numerosas autoras portuguesas, de valor muito desigual, e ainda hoje elas proliferam. A mais eminente de todas, Maria Amália Vaz de Carvalho (1848-1925), filha de um pai pródigo de Lisboa, tinha de escrever para viver, publicando poemas aos vinte anos de idade. Casada com um poeta parnasiano em 1874, viúva em 1883, escreveu numerosos artigos em jornais e revistas, fazendo crónicas e críticas, e publicou algumas obras sobre educação. Pugnava pelo direito das mulheres à instrução, mas sempre foi adversa ao voto feminino. Uma obra importante sobre a Vida do Duque de Palmela, escrita entre 1898 e 1903, guindou-a à Academia das Ciências, em 1912.
         A guerra teve por efeito acelerar algumas mudanças da condição das mulheres; no entanto, como o mesmo aconteceu nos outros países, neste campo a discrepância entre Portugal e as demais nações continua a ser flagrante.
 
Paul Descamps


(tradução de António Araújo)
 
 
    
 

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Portugal, 1942.

 
 
 
Annemarie Schwarzenbach (1908-1942)
 
 
 
Como referimos ontem, Annemarie Schwarzenbach esteve duas vezes em Portugal: uma em 1941, outra em 1942. Na série «Estrangeiros em Portugal», que tem vindo a ser publicada no Malomil, divulga-se agora um texto de Schwarzenbach intitulado «Soalheiro e agreste Portugal», saído no Thurgauer Zeitung, em 11-VII-1942. Foi extraído do livro Annemarie Schwarzenbach em Portugal (1941, 1942), que recolhe os artigos por si publicados aquando das duas visitas que realizou a Portugal. Coordenada por Gonçalo Vilas-Boas (que também assina uma excelente introdução), a colectânea desses textos, traduzidos por Maria Antónia Amarante, foi editada pelo Centro Interuniversitário de Estudos Germanísticos (Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra).
Margens do Douro, 1907
 
 
Soalheiro e agreste Portugal
 
         Dizes-me: canta, canta
         Mas de canções nada sei
         Que a Coimbra nunca fui
         Por lá ainda não passei…
 
 
Quem canta esta melodia popular, tal como qualquer camponês e qualquer criança, conhece o nome da sua respeitável universidade que foi, no passado, um grande centro de saber e da qual se diz hoje que é preciso ir a Coimbra para entender o espírito do novo Portugal e do seu Governo. O Presidente do Conselho português, Oliveira Salazar, foi professor em Coimbra e de lá deu início à sua notável missão. O Cardeal Patriarca de Lisboa ocupou em tempos uma cátedra em Coimbra. Governo de professores ou ditadura de intelectuais foi a designação dada ao regime do Dr. Salazar, e ambos os títulos são honoríficos. Mas o cantor desta melodia popular nunca passou às portas de Coimbra. Até há pouco tempo, nunca ninguém lhe exigiu que aprendesse a ler e a escrever. É pobre e diz que não sabe cantar. E, contudo, canta, e as suas canções são decerto tão antigas como a Universidade de Coimbra. Pouca coisa mudou. A aspereza da Primavera, a aspereza da vida e o amor melancólico de que falam as canções populares, são as mesmas nos dias de hoje e encontram na alma portuguesa o mesmo eco que no passado.
Porque Portugal, esta varanda da Europa, mau grado a sua luz dourada e o seu grande encanto, não é um país ameno. A vida em Portugal, que hoje acolhe e seduz os estrangeiros – porque nesta bela faixa costeira ainda se concentra a variedade quase exuberante e o conforto das formas de viver europeias – tem pouco a ver com as fontes mais profundas de que se alimentou a alma viva do povo português e que ele irá conservar não obstante os múltiplos temporais.
É com temporais, que nas altitudes do extremo Norte transformam a neve em rosas, que varrem, no Sul, os pastos escalvados do Algarve, agitam, no interior, as copas dos pinheiros e no Tejo enfunam as velas nas barcas dos pescadores, que a Primavera se faz anunciar em Portugal. No cimo do montes, os pequenos moinhos de velas esperam pelo vento; nos campos avermelhados, os bois à frente da charrua resistem-lhe com a larga fronte, como se o quisessem aprisionar na lira dos seus chifres arqueados. O sol escalda e dardeja o seu brilho quase metálico sobre as estradas brancas, mercados de rua, enseadas piscatórias, velhas muralhas e portais de quintas nas aldeias e sobre a superfície cintilante do Tejo e do mar. Mas o vento mete-se de permeio e brinca com as massas de nuvens que se acastelam e, num abrir e fechar de olhos, ensombram o céu e a seguir voltam a evaporar-se, convertendo-se em finos véus, através dos quais irrompe o azul, aqui em tons pastel e mate, ali de um brilho diáfano, acolá intenso como um manto de rei.
Esta agitação do céu, este jogo arisco entre a luz e a sombras, a bonança e a tormenta, a mudança brusca de um calor quase africano para um frio húmido e glacial, funcionam como um alerta para que não nos deixemos seduzir – nem pela areia branca e os canteiros de flores abrigados na Costa do Sol, nem pelos sons das guitarras e as vozes suaves e saudosas dos fadistas. Grandes são os contrastes em Portugal. Imediatamente atrás da baía da Riviera, no Estoril, estende-se um campo agreste, fustigado pelo vento, onde reina a urze, as pedras e uma erva rala; onde moços pastores, com uma manta de feltro esfarrapado às costas e os pés envolvidos em palha e serapilheira, guardam ovelhas e porcos. E por detrás da nostalgia dos fados, por detrás da palavra saudades, que significa, a um tempo, melancolia e remorso, dor da distância, ternura e amor que é intraduzível esconde-se uma tristeza séria e profunda, que faz parte da herança dos portugueses. Os viadutos romanos que lhes atravessam os campos, as capelas e as muralhas de fortificações visigóticas, as cidadelas árabes, as torres mouriscas e os sólidos palácios dos seus primeiros reis, que vinham conquistando a partir do Norte e em demanda da cidade de Lisboa, recordam que os portugueses provaram os destinos de múltiplos povos, a torre de Belém, na foz do Tejo, dá testemunho da época grandiosa em que daqui largaram os navegadores nas suas caravelas para dar a conhecer o mundo aos europeus, e os belos palácios evocam esses tempos de grande riqueza e de grande poder. Mas esses destinos eram transitórios e o país, tal como as circunstâncias que enformaram a terra e as gentes, permanecem iguais a si mesmos.
Às vezes, ouve-se dizer que foram a riqueza e o poderio mundial que incutiram maus hábitos à nação portuguesa e a debilitaram; que a perda desse poderio mundial a teria levado à resignação e ao esgotamento. Esta interpretação é precipitada e superficial. Lá fora, os homens do campo nunca tiveram parte em qualquer riqueza que os debilitasse e vivem hoje, tal como antigamente, de parco sustento e trabalho árduo, situação dificilmente comparável à de outro povo europeu; a marca de uma gravidade respeitável, neles gravada por uma existência agreste, associa-se a uma jovialidade profunda e genuína que provém da mesma fonte. Basta assistir a uma tourada portuguesa, que já na época dos reis visigóticos constituía um jogo cavaleiresco da nobreza e um motivo de diversão para o povo, para reencontrar na mestria simultaneamente viril e donairosa dos cavaleiros, no espantoso adestramento dos seus magníficos cavalos, a tradição de uma nação cavaleiresca. Não é um espectáculo sangrento; na versão portuguesa, o touro não é morto e os cavaleiros mais famosos são filhos de famílias antigas que, no campo, criam cavalos e touros. Finalmente, era preciso ter visto na manhã de temporal do 10 de Maio os pequenos veleiros, com três e quatro mastros, dos pescadores de bacalhau, concentrados sobre o Tejo como um rebanho, para receberem a bênção episcopal antes da largada para a Gronelândia; com esta bênção da pátria levam consigo a agrestia dos seus ventos e o travo agreste e grave da sua vida.       
 
Annemarie Schwarzenbach



Os infortúnios da virtude.

 
 
Natural History Museum, Dublin.
Fotografia de António Araújo