sexta-feira, 8 de setembro de 2023

São Cristóvão pela Europa (231).

 

 

O lago de Klopein (Klopeinersee) é um importante centro turístico no distrito austríaco de Völkermarkt. Nos seus arredores, encontramos imagens do nosso Santo em várias aldeias.

 


 

No município de Globasnitz, situa-se a igreja de Santa Ema de Gurk, fundadora da Catedral de Gurk (que mencionarei noutro post) e muito venerada na Região. Santa Ema viveu na primeira metade do Século XI, foi beatificada em 1287 e canonizada em 1938.

A igreja é mencionada desde 1498.

O local, no alto de uma montanha, é objecto de peregrinação:

 



No interior, um belíssimo altar do lado do Evangelho representa São Bartolomeu e São Cristóvão.

 


Em Gösselsdorf, a Igreja de Santo Antão e São Lambert, ostenta um mural do Santo:

 

 


A pequena igreja de São Pancrácio em Srejach dispõe de um fresco representando São Cristóvão:

 


 

Finalmente, a igreja de St. Marxen foi severamente atingida por um temporal 12 dias antes da minha passagem. Mas o mural de São Cristóvão manteve-se firme.

 





                                                    Fotografias de 29 de Julho de 2023

 

                                                                                      José Liberato


quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Recomendações para uma alimentação que dê mais vidas aos anos.




 



 

O mais recente livro da coleção Pela Sua Saúde – Ciência Alimentar, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, intitula-se Alimentos de Hoje, é sua autora Catarina Sousa Guerreiro, 2023.

Com o triunfo da sociedade de consumo a alimentação ganhou foros de globalização, encontramos em qualquer hipermercado alimentos de todas as proveniências. E assiste-se a um paradoxo: existe uma maior disponibilidade que propicia a diversidade alimentar, mas, por outro lado, emergiram padrões alimentares e estilos de vida pouco saudáveis. Existem quilómetros de literatura em que se faz o diagnóstico de que estamos cercados por alimentos altamente energéticos, em que simultaneamente temos um estilo de vida sedentário, isto numa atmosfera em que a atividade física é minimizada.

O que a autora deste ensaio releva é que o moderno conceito de nutrição se apoia no facto de alguns alimentos e/ou ingredientes, para além do seu papel de nutritivo, apresentarem também um efeito fisiológico benéfico para o organismo. O alimento que possui estas características é designado por funcional porque tem um efeito benéfico sobre determinadas funções do organismo, para além dos efeitos nutricionais habituais. O que desenvolve um mercado de alimentos apresentados como miraculosos, que em tempos eram conhecidos por alicamentos, isto é, alimentos com efeito medicamentoso. Tal como nas dietas da moda, há muito boa gente a bater à porta destas lojas ditas de saúde, à procura de um milagre que não pode existir.

E, por isso, selecionou com base em critérios científicos, nutricionais, culturais e de práticas exequíveis 15 alimentos, advertindo que ninguém alcançará um plano nutricionalmente equilibrado apenas com eles, fazem parte de uma matriz que até pode ser designada por dieta mediterrânea onde o valor nutricional é acompanhado com algum efeito fisiológico sobre o organismo.

Logo o azeite virgem extra, é a gordura vegetal que faz bem, ele é um dos grandes responsáveis pelos benefícios que a dieta mediterrânea apresenta em relação às doenças crónicas, como obesidade, doenças degenerativas ou cancro, entre outras. E diz sem hesitação: “Para aqueles que procuram retirar da dieta o melhor benefício para a saúde, aconselho a utilização do azeite virgem extra. Na confeção dos alimentos prefiram-no aos outros óleos e margarinas, utilizando também no pão/tostas como substituto da manteiga.”

Segue-se o iogurte, está entre os alimentos fermentados mais populares do mundo. Pode ser consumido como figura central de refeições como pequeno-almoço ou lanche, pode-se comer a qualquer hora do dia. E a autora chama a atenção que do ponto de vista prático e utilização do consumo, é importante reter que, idealmente, os iogurtes não necessitam de conter muitos outros ingredientes para além das matérias-primas e das culturas microbianas. Em síntese, um alimento versátil, capaz de fazer parte da dieta em diferentes momentos e formas. A escolha recai nos naturais não açucarados.

Temos agora a aveia integral, um grão bastante nutritivo, tem um maior teor proteico do que outros cereais e uma excelente composição da fibra, pelo seu equilíbrio de fibra solúvel e insolúvel. Pode-se optar por farelo de aveia ou pelo floco de aveia integral, misturando-a com leite ou com iogurte e fruta.

Não há surpresa pelo que vem a seguir, o alho e a cebola, não só pelo sabor que conferem aos alimentos, mas pelas suas aplicações terapêuticas. Seguem-se as couves variadas, recorde-se que as cozeduras prolongadas podem levar à difusão de elementos ricos para a água; não se esqueça de variar muito, se hoje consumir verdes e amarelos opte amanhã pelos brancos e pelos roxos. Na sequência vêm as leguminosas, com imensas propriedades, desde o teor proteico, ao vitamínico e de fibra, possibilitando a substituição equilibrada de proteínas da carne/peixe. Uma das formas de as inserir na alimentação é através das suas farinhas, mas convém expressar que nutricionalmente não são tão ricas.

Agora, uma palavra para frutos oleaginosos e sementes, primam pelo seu alto valor energético e baixo teor de água (amêndoas, cajus, nozes, avelãs, pistáchios, nozes-macadâmias). E diz a autora: “As nozes estão associadas a mais uma alegação de saúde autorizada pela Autoridade Europeia de Segurança Alimentar, a qual refere que o consumo diário de 30g de nozes contribui para a melhoria da elasticidade dos vasos sanguíneos.” É recomendado que estes frutos oleaginosos sejam consumidos ao natural, sem adição de açúcar ou de sal. Temos agora os frutos silvestres (framboesas, amoras, mirtilos…), uma excelente fonte de muitos ingredientes (vitaminas, minerais, fibras alimentares). Opte pelos frutos da época. E agora uma palavra para o quivi, e a autora explica porquê: “Numa população em que mais de 20% das pessoas apresentam um trânsito intestinal lento, muito decorrente do baixo aporte de fibra e sedentarismo, e que em simultâneo apresentam excesso de peso, a escolha deste fruto é muitas vezes óbvia”. Além disso, é reconhecido por um alto consumo de fibra, tem um poder antioxidante, anti-inflamatório, anti-hipertensivo, e mais outros antis.

Agora a direção muda para a dimensão proteica, ovos e peixe. No ovo, a autora procura desfazer o mito: “Na mente do consumidor está sempre latente a dúvida acerca do impacto do seu consumo (aproximadamente 400mg de colesterol por ovo) nos níveis de colesterol no sangue. Durante décadas, diversas recomendações, muitas vezes contraditórias, indicavam que deveria existir uma certa alimentação ao seu consumo, muito pela consequência do efeito que iria causar no risco de doença cardiovascular. Sabe-se hoje que os níveis de colesterol alimentar não se relacionam diretamente com os níveis elevados de colesterol total e do LDL. Esta subida deve-se sobretudo ao consumo de gordura trans e de gordura saturada. O ovo continua a ser um produto alimentar de alta qualidade nutricional para adultos, idosos e crianças. O peixe é o maior representante de proteína animal que incorpora os princípios da dieta mediterrânica, juntamente com produtos lácteos. Pode optar-se por conservas de sardinha ou cavala bem como pelas conservas de atum ou bacalhau, podem intercalar-se com peixe fresco ou congelado.

O leitor ainda tem várias surpresas à sua espera nesta seleção alimentar: a curcuma, o café, o chá verde, o chocolate preto. Sendo nutricionista, a autora exemplifica como no nosso dia a dia se pode planear a inclusão dos alimentos que ela selecionou. Tece um elogio à dieta mediterrânica e defende a sua dama que é uma alimentação mais saudável de onde deve estar excluída em cerca de 1/5 do que habitualmente consumimos, no fundo alimentos altamente calóricos, ricos em açúcar, sal e gordura e que, dramática e insidiosamente, tiram vida aos nossos anos, bastaria que adotássemos estilos de vida saudáveis na nossa mesa.

Obra do maior interesse, até pela linguagem utilizada, para futuros profissionais de saúde, pois a nutrição deve fazer obrigatoriamente parte da sua formação.

 

 

Mário Beja Santos

 


Cartas de Bruxelas (3).

 






                                                                             Cruor et sanguis




Tell her everything’s all right. And there aren’t any more guns is the valley. As palavras de Shane perto do final do filme homónimo de 1953, realizado por George Stevens, deixam um gosto de boca utópico. A violência de Shane preludia uma ordem pacífica, doméstica e civilizada. O pistoleiro impõe o rule of law contra o poder o pessoal e arbitrário de um barão do gado; os homesteaders avançam, e o Estado avança com eles. A marca de água do sedentarismo e da lei são os ranchos e a agricultura. No fim dos combates, o último acto de violência suprime-se a si mesmo; à imagem e semelhança de Moisés, Shane não entrará na Terra da Promissão. Quem se tornou culpado de matar, o homicida com as mãos sujas de sangue – cruor era a designação que os romanos davam ao sangue derramado – não pode transpor o limes sagrado da vida. O mal não deixa de ser mal por estar ao serviço do bem; não há lugar para nenhuma transfiguração compensatória. A morte pertence à morte, o sítio onde não vive ninguém. Um vento esgarrão que sopra do inferno afasta Shane da felicidade humana. A promessa cumpre-se apenas para o outro, Joe Starrett, marido e pai, que, corajoso, alicerça a casa na solidão dos espaços vazios e selvagens. Quando o medo se apodera dos restantes homesteaders, dispostos a abandonar o vale, Starrett decide ficar por saber que tem por si o direito. É um homem da vida –– não teme a morte. O princípio que vivifica, que dá alento e alma ao seu corpo e à sua actividade – os romanos chamavam a um tal princípio sanguis – é o seu direito. Mas precisamente por isso está em desvantagem diante dos profissionais da morte – os pistoleiros. Shane será a virtude defensiva sob uma forma autonomizada, virtude essa que só se exerce na prática de um mal. Mas no sacrifício voluntariamente aceite confirma-se e supera-se a lógica do bode expiatório. É Shane que enuncia a fórmula mágica que reduz a nada o sacrifício: A man has to be what he is, Joey. Can't break the mould. I tried it and it didn't work for me. Exigido por outra instância, o sacrifício de si seria a forma suprema da heteronomia, ao brotar da consciência inaugura a história pelo advento da irreversibilidade do tempo em oposição à imanência mítica da repetição: a história, porém, que será a história dos outros. Prevalece assim a lógica sacrificial, violenta, fascinada, no seu optimismo desesperado e desvairado, pelo acto final, pelo equilíbrio adquirido à custa da reificação do bem e do mal, da segregação eterna entre os eleitos e os réprobos.

John Ford anula esta perspectiva em O Homem que matou Liberty Valance, de 1962, cujo guião consiste na adaptação de um texto de Dorothy M. Johnson escrito, paradoxalmente, em 1953. Contrariamente a Shane, no filme de John Ford há, desde o início, um olhar desencantado. O progresso não se liga apenas à lei, vem pelo meio técnico dos caminhos de ferro: Hallie – Churches, high school, shops. Link Appelyard – Well, the railroad done that, desert still the same. O deserto resiste à casa do homem violento, o homem que matou Liberty Valance, que, como Shane, fica excluído da cidade; na sua casa ardida e inacabada crescem cactos, ainda que floresçam. Este é o elemento que o distingue de Liberty Valance. O mal alastra-se até aparecer como a verdade das coisas, lançando o seu manto sobre o mundo. Liberty Valance despedaça o livro da lei, espanca o advogado, Ransom Stoddard, e exerce a violência como se esta fosse a lei: I will teach you law, western law; a tal ponto o faz, que são os cúmplices que travam a sua violência. Stoddard, o instaurador do direito, renuncia à violência I’am staying and I’am not buying a gun either e fala em nome do que lhe é anterior, a statehood. No final, já senador, o olhar para trás de Stoddard parece reencontrar o mal, o excluído, no deserto, Tom Doniphon, o homem que realmente matou Liberty Valance no confronto com Stoddard, permitindo que o homem das leis guardasse desse modo as mãos limpas de sangue – ainda que não aos olhos dos outros. Essa é a razão que origina a ambiguidade que encerra o filme. It was once a wilderness, now it's a garden. Aren't you proud?pergunta Hallie. Talvez a a história tivesse acabado se a wilderness tivesse sido eliminada. Mas a derradeira fala do filme, sintomaticamente do funcionário dos caminhos de ferro, Nothing's too good for the man who shot Liberty Valance, pode suscitar a interpretação que vê na afirmação da mentira um desmentido da vida de Stoddard. Mas pode ser também a ratificação de que o gesto homicida que defende a ordem civilizada continua nela como uma memória querida, com a possibilidade de irromper de novo – ao contrário do que sucede em Shane, o mal está no meio de nós. Na melancolia de Stoddard há, porém, uma consolação. O direito serve para cruor não se transformar em sanguis.


                                                                                                João Tiago Proença






terça-feira, 5 de setembro de 2023

Nice, 2023.


                                                                                                                Fotografia de António Araújo





Nice, 2023.



                                                                                                     Fotografia de António Araújo







 

Nice, Promenade des Anglais.




                                                          Nice, Promenade des Anglais, 2023
                                                             Fotografia de António Araújo










 

Nice, Promenade des Anglais.

 

                                                Nice, Promenade des Anglais, 2023
                                                Fotografia de António Araújo




 



São Cristóvão pela Europa (230).

 

 

Na Áustria, o Estado da Caríntia é um autêntico viveiro de São Cristóvãos. Em cada aldeia, em cada igreja, se encontram imagens do Santo

Já aqui expliquei que nestas montanhas, vales e encostas, a viagem era perigosa no fim da Idade Média por causa da ameaça dos salteadores, mas também dos animais selvagens. Daí a procura pela protecção de São Cristóvão que era sucessivamente avistado durante as caminhadas. E acreditava-se que quem via o Santo não morria nesse dia.

Comecei pelo distrito (bezirk) de Völkermarkt, ao longo do caudaloso rio Drava e do seu afluente Vellach

 

A igreja paroquial de São Leonardo de Abtei, construída no Século XVI em estilo gótico tardio, tem um mural do nosso Santo.

 



 

Tal como a anterior, a aldeia de Glantschach pertence ao município de Gallizien.

A sua igreja de São Tomás também tem o seu mural:

 



A igreja de Santo André de Rückersdorf é mencionada num manuscrito de 1154. Tem um belo mural:

 

 


 

Perto da igreja, uma pequena capela, a que aqui chamam Gedenkkapelle ou capela memorial:

 



A igreja românica de St. Philippen ob Sonegg, mencionada em 1329 e renovada nos Séculos XIV e XVI, exibe um mural representando São Cristóvão.

St. Philippen ob Sonegg e a aldeia anterior, Rückersdorf, pertencem ao município de Siittersdorf.

 



E finalmente a Igreja de Maria Dorn em Eisenkappel, a menos de 10 km da fronteira com a Eslovénia, também com o seu mural:

 


 

                                                            Fotografias de 29 de Julho de 2023.

 

                                                                                                José Liberato




segunda-feira, 4 de setembro de 2023

São Cristóvão pela Europa (229).

 

 

A outra importante região do Nordeste da Itália é a Friuli Venezia Giulia.

Tarvisio situa-se no seu extremo Norte, a 16 km da Eslovénia e a 17 da Áustria. Faz parte da Itália desde 1919 na sequência da I Guerra Mundial.

A paisagem é alpina.

A igreja paroquial é dedicada aos apóstolos São Pedro e São Paulo e a sua aparência actual data de 1445. Na sua fachada, dispondo de três lindos arcos ogivais, avulta um grande fresco representando São Cristóvão. Foi várias vezes restaurado, mantendo-se, mesmo assim, em mau estado:

 

 


 

San Daniele del Friuli situa-se no centro da Região de Friuli Venezia Giulia.

No centro histórico, a igreja de Santo Antão constitui um ponto alto do património artístico da cidade.

Seriamente danificada por um terramoto em 1348, foi reconstruída em 1441 em estilo gótico tardio, sendo a sua fachada em pedra da Ístria. Esteve ligada à actividade de um hospital medieval.

As suas paredes interiores são profusamente decoradas por esplêndidos frescos. São da autoria de Martino da Udine (1467-1547) que os pintou em várias fases entre 1497 e 1522. Localmente, talvez com um pouco de exagero, chamam-lhe a Capela Sistina do Friuli

Entre muitas figuras, o nosso São Cristóvão.

 



 

Finalmente estive em Udine, segunda maior cidade da Região depois de Trieste, de que já aqui tinha tratado da Igreja de São Cristóvão, então fechada.

Agora, com o apoio do Arcipreste de Udine que me proporcionou uma visita ao interior, consigo mostrar mais algumas imagens.

A igreja é usada actualmente pela comunidade católica romena da cidade.

No altar-mor uma estátua em pedra e uma grande tela:

 

 



 

                                                            Fotografias de 3 e 4 de Agosto de 2023

 

                                                                                                    José Liberato




domingo, 3 de setembro de 2023

E nós, calamo-nos?

 



          "Error 404. Sorry, we can't seem to find the page you're looking for. The link you requested might be broken or no longer exists. Why not start at our home page?".

          Esta é a mensagem que a Taylor & Francis colocou há dias na página digital onde constava, para venda, a obra Sexual Misconduct in Academia. Informing An Ethics of Care in the University, publicada pela Routledge, chancela daquele grupo editorial, e coordenada por Erin Pritchard e Delyth Edwards.

          A obra fora suspensa há dois meses, não tendo sido indicados os fundamentos que concorreram para tal decisão. Esta semana, soube-se que a Routledge decidiu eliminar do livro o capítulo 12, intitulado "The walls spoke when no one else would. Autoethnographic notes on sexual-power gatekeeping within avant-garde academia" (pp. 208-223), assinado por Lieselotte Viaene, Catarina Laranjeiro e Myie Nadia Tom.

          Aquilo que começou por ser uma denúncia de abuso sexual e extractivismo académico, tornou-se agora, como facilmente se percebe, um caso gritante e grotesco de censura, um inconcebível ataque às liberdades: à liberdade de expressão e de pensamento, desde logo; e à liberdade científica, pois, não o esqueçamos, o texto censurado não é um artigo de opinião, é um artigo científico, publicado de acordo com os mais exigentes protocolos (v.g., peer-review), por uma das editoras mais prestigiadas na área das ciências sociais.

          Não por acaso, o principal visado no texto das três académicas, Boaventura Sousa Santos (BSS), publicou na Routledge os livros Globalizing Institutions. Case Studies in Regulation and Innovation (2000, com Jane Jenson), Epistemologies of the South. Against Epistemicide (2014), Reinventing Democracy. Grassroots Movements in Portugal (2019, com Arriscado Nunes), Knowledges Born in the Struggle. Constructing the Epistemologies of the Global South (2020, com Maria Paula Meneses), Demodiversity. Toward Post-Abyssal Democracies (2020, com José Mendes), The Pluriverse of Human Rights: The Diversity of Struggles for Dignity (2021, com Bruno Sena Martins), Decolonizing Constitutionalism. Beyond False or Impossible Promises (2023, com Sara Araújo e Orlando Aragón Andrade), From The Pandemic to Utopia. The Future Begins Now (2023).

          Caso para perguntar: a mesma editora de BSS publica artigos com falsidades e difamações?

 

          Recuemos um pouco. No início de Junho, a Routledge recebeu uma carta de cease-and-desist de um obscuro "portuguese lawyer", cuja identidade se desconhece, agindo em nome de alguém cujo nome também nunca foi revelado (porventura um dos alegados assediadores visados no referido capítulo 12). Não se sabe, ninguém dá a cara, ninguém tem a coragem ou a hombridade de assumir que falou com a Routledge – é importante dizer que não foi por iniciativa desta, mas a pedido ou mando de um inquisidor oculto, que a editora actuou.

          O “portuguese lawyer” exigia que a Routledge suspendesse a publicação daquele texto e que adoptasse algumas "formas de mitigação do dano causado à reputação, saúde e trabalho académico" do suposto assediador, bem como da reputação do Centro de Estudos Sociais (CES), da Universidade de Coimbra. Caso a Routledge não respeitasse as suas exigências, avançaria para tribunal.

        Perante isto, a Taylor & Francis e a Routledge decidiram suspender temporariamente o livro, retirando-o do mercado e limitando-se a dizer, na sua página online, que a obra estava "sob revisão": "This content is temporarily unavailable as it's currently under review" ("O conteúdo deste livro está temporariamente indisponível, por se encontrar sob revisão").

          Três meses depois, a 31 de Agosto, a Routledge tomou a decisão final de censurar o capítulo, revertendo os respectivos direitos de publicação para as autoras. Segundo a mensagem da editora, enviada às três autoras do artigo, as duas coordenadoras do livro teriam “aceitado e compreendido a posição da Routledge” ("We have spoken with Erin and Delyth, who understand this decision").

          Ora, isto é falso, descaradamente falso, como se depreende pelo artigo da jornalista Fernando Câncio, no Diário de Notícias de 31 de Agosto – "Editora britânica retira capítulo que acusa Boaventura [de Sousa Santos] em livro sobre assédio sexual" –, onde as coordenadoras, Erin Pritchard e Delyth Edwards, afirmam estar "muito desapontadas com o facto de a Routledge ter tomado a decisão de retirar permanentemente de publicação o capítulo 12 e possivelmente o próprio livro. Isto corresponde a pôr-se do lado dos que estão a tentar silenciar este livro, sem fazer qualquer tentativa de apoiar o livro contra as ameaças legais e, portanto, não defendendo a liberdade académica nem o direito dos sobreviventes de assédio sexual de falarem das suas experiências. Tomar a decisão de retirar permanentemente o capítulo não é mais que uma forma de apoiar o abuso de poder sistemático na academia". Um entendimento bem diferente, portanto, daquele que a editora dava a entender na mensagem enviada às autoras do capítulo 12.

          Percebe-se a atitude das coordenadoras e das autoras do livro. Desde logo, porque nem umas nem outras conhecem os fundamentos da decisão, já que a Routledge, em nenhum momento, as informou das razões que a levaram a censurar aquele capítulo.

De igual modo, a Routledge ainda não revelou o nome do advogado português que escreveu e enviou para Inglaterra a carta de "cease-and-desist", que levou à censura do capítulo, nem revelou a identidade do queixoso.

          Quem pensa que não é importante conhecer o nome do "portuguese lawyer" e do seu mandante, está inteiramente enganado. Ambos têm de dar a cara. Quem são eles?

          Para se poderem defender da denúncia do advogado, as autoras do capítulo precisam de saber os nomes de quem está por trás disto tudo (não será descabido perguntar, também, porque é que a Routledge mantém o anonimato do "portuguese lawyer" e do cliente que contratou os seus serviços).

          É que a Routledge, ao censurar o capítulo 12 – praticando um epistemicídio, como diria BSS –, parece corroborar assim o sentido das queixas de Boaventura de Sousa Santos (BSS), segundo o qual estaria a ser alvo de uma "difamação vergonhosa e vil".

          Isto depois, não esqueçamos, de o próprio BSS já ter admitido "comportamentos inapropriados", típicos de quem, como ele, nascido em 1940, pertence a uma geração em que tais atitudes eram aceites pela sociedade ("Reconheço que em determinados momentos possa ter sido protagonista de alguns desses comportamentos", Expresso, 4 de Junho de 2023); e de a própria Routledge ter publicado há cerca de um mês (Julho) uma obra coordenada por BSS, Decolonizing Constitutionalism, Beyond False orImpossible Promises.

          Uma decisão também, já agora, enquanto decorre no CES um inquérito (liderado pela Comissão Independente do Centro de Estudos Sociais, "para o esclarecimento de eventuais situações de assédio"), cujas conclusões ainda ninguém sabe quais serão.

          E se o inquérito vier a demonstrar que BSS praticou, realmente, alguns daqueles actos graves, descritos no capítulo 12? Como ficará a reputação e o prestígio da Routledge? Não teria sido mais prudente e avisado ter aguardado pelas conclusões do inquérito? Este timing não é estranho? Ou será que a Routledge já sabe que o inquérito não vai dar em nada e, temendo um futuro processo judicial, resolveu antecipar-se?

          Por outro lado, não é estranho que, dos nomes falados na esfera pública – mas nunca citados no artigo, note-se, e a saber, BSS, Bruno Sena Martins e Maria Paula Meneses –, nenhum tenha a coragem e a frontalidade de assumir que se queixou à editora?

          Bruno Sena Martins negou a autoria da acção ("Não desencadeei qualquer acção legal junto da editora"), BSS começou por não responder – andou às voltas, com rodriguinhos e meias palavras – e depois reconheceu que conversou com a Routledge sobre o capítulo 12, mas não assumiu a paternidade da queixa e da diligência junto da sua própria editora.

          Um processo inaudito: nem o nome do advogado se conhece! Quem e o quê se pretende esconder? A má consciência por ter promovido uma censura académica?

          Como quer que seja, uma evidência se impõe: nunca se viu uma coisa assim. Uma editora de um país democrático como Inglaterra, que se rege pelo princípio da liberdade de expressão, decidiu censurar um artigo académico. E, caso se confirme que a diligência do “portuguese lawyer” se deveu a BSS, tem este agora de responder por duas suspeitas graves: a de assédio sexual e a de censura académica.

          A situação é de uma clareza meridiana: a Routledge submeteu o livro ao sistema de arbitragem científica, ou revisão por pares (peer review ou refereeing), o qual deu luz verde à publicação da obra coordenada por Erin Pritchard e Delyth Edwards.

          Goste-se ou não se goste, os especialistas – e a editora aconselhada por estes – consideraram que todos os capítulos tinham qualidade suficiente para serem publicados na "editora académica líder mundial em Humanidades e Ciências Sociais" ("Today Routledge is the world's leading academic publisher in the Humanities and Social Sciences. We publish thousands of books and journals each year. Founded in 1836, we have published many of the greatest thinkers and scholars of the last hundred years, including Adorno, Einstein, Russell, Popper, Wittgenstein, Jung, Bohm, Hayek, McLuhan, Marcuse and Sartre", lê-se no respectivo site).

          Agora, confrontada com as ameaças de um "portuguese lawyer", a editora vem desdizer os especialistas por ela escolhidos, reconhecendo (implicitamente) que o seu sistema de avaliação está avariado? Depois do acordo ou consenso entre os especialistas daquela área, decidiu publicar o capítulo 12 e, depois de publicado, vem agora retirá-lo de publicação?

          É que, conforme lembrou uma das autoras, "o livro foi feito com altos padrões de qualidade. Foi sujeito a várias revisões e avaliações antes de ser publicado. É um livro de alta qualidade. Mas alguém demandou as responsáveis ou a editora porque contém um artigo que denuncia um caso de assédio sexual, e essa pessoa não gostou" (afirmações reproduzidas por Fernanda Câncio, "Acção legal na origem de suspensão de livro que denuncia Boaventura. Autora fala em 'silenciamento'", Diário de Notícias, 13 de Agosto de 2023).

          Repare-se, e insista-se, que o texto assinado por Lieselotte Viaene, Catarina Laranjeiro e Myie Nadia Tom não é um mero artigo de opinião, passou pelos mais exigentes processos de revisão científica de uma das mais exigentes editoras europeias.

          Para que não restem dúvidas, Lieselotte Viaene é antropóloga e professora no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Carlos III, de Madrid, tem um doutoramento em Direito (Ghent University, Bélgica, 2011), artigos publicados em revistas internacionais indexadas, como Journal of Transitional Justice, Critique of Anthropology, International Human Rights Journal, Netherlands Quartely of Human Rights, Antipoda. Revista de Antropologìa y Arquelogìa, teve uma bolsa individual Marie Curie (2016-2018) e trabalhou nas Nações Unidas, no gabinete do Alto Comissário dos Direitos Humanos (2010-2013).

          Por sua vez, Catarina Laranjeiro é investigadora do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (Universidade Nova de Lisboa), é mestre em Antropologia Visual e dos Media, na Freie Universitaet Berlin, doutorada em Pós-Colonialismos e Cidadania Global pelo CES (Universidade de Coimbra), tem artigos na The Internacional History Review e publicou na editora Palgrave Macmillan (Londres).

          Myie Nadia Tom é professora na Universidade do Nebraska (EUA), estudou na Universidade de São Francisco e na Universidade Complutense de Madrid, e publicou artigos na International Review of Education (revista da UNESCO, num número organizado por si), na Comparative Education Review e na University of Wisconsin Press (EUA).

          Erin Pritchard, uma das coordenadoras do livro, é professora na Universidade de Liverpool, doutorada pela Universidade de Newcastle, é editora da revista académica Disability & Society, tem artigos publicados em revistas como The Canadian Journal of Disability Research ou The Scandinavian Journal of Disability Research, e investigação publicada na Bloomsbury Academic ou na Peter Lang.

          Delyth Edwards, a outra coordenadora, foi docente em Sociologia da Infância e da Juventude na Universidade de Liverpool, é actualmente professora na Universidade de Leeds (Inglaterra), na área da Inclusão, Infância e Juventude, fez o doutoramento em Sociologia na Queens University (Belfast), o mestrado em Investigação Sociológica na University of Essex, tem artigos em revistas académicas como Cultural Trends e investigação publicada em editoras como a Sage ou a Springer International Publishing.

          Estes são os currículos das mulheres envolvidas. E o livro, nunca é demais insistir, foi sujeito aos procedimentos de qualidade e rigor científicos da editora do próprio Boaventura de Sousa Santos.

          A exclusão do capítulo significa que a editora não o considera científico? Se é assim, por que razão o publicou? Não o devia ter rejeitado antes?

          E, no meio desta história toda, como ficam os cientistas responsáveis pelo peer-review do livro? A decisão tomada não representará um atropelo à sua dignidade formal e profissional? O mesmo em relação às autoras, cujos indesejáveis danos reputacionais são difíceis de prever. E os processos de publicação e controlo de qualidade científica da Routledge? Não ficam postos em causa? É que, aparentemente, os procedimentos editoriais da líder mundial em Humanidades e Ciências Sociais não primam pelo rigor...

          Que BSS se comporte como um senhor feudal, já não nos surpreende. O mesmo não poderemos dizer de uma editora como a Routledge, cujo acto de censura não honra a sua história (uma história, não é despiciendo relembrar, que começou em 1836 e que inclui a publicação de pensadores e académicos como Adorno, Einstein, Russell, Popper, Wittgenstein, Jung, Bohm, Hayek, McLuhan, Marcuse e Sartre).

          O cúmulo da ironia, ou da hipocrisia, é que a Taylor & Francis, proprietária da Routledge, até se permite (e muito bem!) fornecer conselhos aos seusautores/as vítimas de assédio na academia... 

O texto ora censurado, insiste-se, passou o crivo da revisão científica, foi avalizado pelos académicos escolhidos pela editora. E, já agora, censurado porquê? Por ser difamatório? Por falta de qualidade? Não se sabe, porque a Routledge jamais esclarece. E tem a obrigação de fazê-lo, até para que as lesadas, caso queiram, contestem a decisão tomada, em tribunal ou fora dele. Assim, sem explicação alguma, estamos no reino do arbítrio puro, do tirânico “posso, quero e mando”.

Para quem publica obras sobre a democracia e os direitos humanos, sobre os oprimidos deste mundo, sobre as vítimas de violência, sobre racismo e feminismo, tudo isto é, como disse uma das alegadas vítimas de Boaventura, "um escândalo internacional".

 

          A decisão da Routledge supõe uma grande novidade, de efeitos imprevisíveis, que deveria deixar apreensivos os investigadores académicos de todo mundo quanto à sequência dos acontecimentos futuros.

          Colocada entre dois fogos – por um lado, a denúncia das autoras do capítulo 12 (Lieselotte Viaene, Catarina Laranjeiro e Myie Nadia Tom) e, por outro lado, supõe-se, a queixa de Boaventura de Sousa Santos, um académico com enorme poder internacional, com vários livros publicados na Routledge, muitos deles traduzidos noutros idiomas e em vários países da América do Sul, o que representará, decerto, elevados proveitos para a Routledge) –, a editora escolheu o lado do mais forte.

          O mesmo lado – o de Boaventura de Sousa Santos – que há um ano dizia, a propósito da guerra na Ucrânia, da NATO e dos EUA, que se estava a criar "um novo período de caça às bruxas muito semelhante ao que se viveu nos EUA na década de 50 e que ficou conhecido por Macarthismo". 

          Não tenhamos dúvidas: estamos perante um acto insofismável de censura, que viola o espírito de crítica e de liberdade de pensamento, e que deve ser denunciado sem quartel nem tréguas. Casos como estes não podem ser escamoteados ou relativizados, com base em interesses ideológicos, profissionais ou pessoais. Perante este acto de silenciamento, estranha-se o silêncio dos que se proclamam defensores dos mais fracos e oprimidos. 

          O que se passou neste final de Agosto de 2023 é um dos mais bárbaros e iníquos atentados à liberdade de expressão académica, perpetrado por uma das editoras mais prestigiadas do mundo que se arrogou no direito de censurar um texto que havia publicado – e, pior ainda, fazendo-o com base numa denúncia anónima de um “portuguese lawyer” e sem justificar ou fundamentar o seu acto.

          O poder académico perpetuou, durante anos, situações de assédio sexual e moral e de extractivismo intelectual. Agora, amordaça o pensamento e censura a liberdade. E nós, calamo-nos?

 

João Pedro George