sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Como ascendem e morrem as civilizações, entre os desígnios da Natureza e o poder das armas.

 



 

Uma História de Extremos – Do colapso da Idade do Bronze aos quase acidentes nucleares, por Dan Carlin, Temas e Debates – Círculo de Leitores, 2022, é um ensaio com uma abordagem peculiar sobre mentalidades, o poder das armas, o que ainda pouco se sabe sobre colapsos de civilizações, até ao nosso tempo em que pontifica o termonuclear, quem o usar desencadeará o Armagedão, que não subsistam dúvidas.

Mesmo vivendo em tempos que assentam em evidências científicas e rigor historiográfico, continuam a existir perguntas irrespondíveis. Cada degrau em que evoluíram as civilizações corresponderam a saltos tecnológicos, foi assim com o sílex (pedreneira), os metais, os sucessivos armamentos bélicos até se chegar ao equilíbrio pelo terror – etapas cada vez mais velozes, há 20 anos ninguém falava na inteligência artificial e em 1970 era impensável a digitalização. O poder das armas foi marcado pela subjugação de povos, aniquilamentos, destruição de património construído. Também não se pode acompanhar as etapas da civilização sem o processo cultural concomitante. “Bater nas crianças foi uma forma comum de disciplina desde os primeiros dias da história da humanidade até tempos relativamente recentes.” A literatura está pejada de exemplos de castigos corporais, chicotes, palmatórias, tudo o mais que se sabe. “Uma prática comum durante muita da história da humanidade era dar às crianças aguardente ou ópio para aliviar a dor de dentes ou as ajudar a dormir. Ainda na década de 1960, não era invulgar que um médico prescrevesse medicação para as crianças dormirem, ou que os pais esfregassem uísque nas suas gengivas.” Como no passado era a coisa mais natural do mundo os pais levarem as crianças às execuções públicas. O que nos leva a refletir sobre aquilo que chamamos progresso, e é neste quadro de interpelações que o autor nos põe a refletir sobre o colapso da Idade do Bronze, uma transformação comparável à queda do Império Romano do Ocidente. Por que se deu o colapso é mistério insondável, os investigadores especulam se ouve fomes, alterações da natureza, pestes, invasões. E podemos transferir este enigma do porquê do colapso para as civilizações do Crescente Fértil ou o fim da civilização egípcia. É facto que se falava no Crescente Fértil onde hoje estão desertos, mas podemos extrapolar para os celeiros do Norte de África hoje transformados em campos de areia ou terras infecundas. É aliciante o modo como Dan Carlin põe todos estes suspeitos alinhados, a verdade é que não há documentos como aqueles que ficaram para dar uma explicação elucidativa da queda do Império Romano do Ocidente.

O autor veio um pouco atrás nesta Antiguidade Oriental, nas civilizações banhadas pelo Mediterrâneo, fala no declínio da Assíria e a destruição da Babilónia, sabe-se no caso da Assíria que os elamitas (que ocupavam o que é agora o Irão Ocidental) organizaram uma força que atacou Assíria, fizeram um tipo de coligação como as que existem hoje e destruíram Nínive. Inevitavelmente, o autor dirige a sua atenção para Roma e estabelece uma ponte para os séculos seguintes, com a chegada dos merovíngios e dos francos até Carlos Magno que um Papa sagrou no dia de Natal de 800, renascia a ideia de império com o Sacro Império Romano do Ocidente, lançava-se o pilar da civilização medieval associada ao cristianismo.

Mas há fatores espúrios que fazem vergar as civilizações, recorda-se a Peste Negra, que dizimou aos milhões. Roma parecia um poder absoluto até que foi contestada, grassava a corrupção, o clero desmanda-se em abusos e em excessos, assim nasce o protestantismo, recrudescem as intolerâncias no campo religioso, mas o autor regressa às pestes e epidemias para nos dizer aquilo que já confirmámos em 2020: não estamos a salvo de uma inesperada pandemia, ela poderá percorrer o mundo inteiro mesmo antes dos especialistas perceberem que existe um problema e que precisa de um antídoto.

Duas bombas atómicas lançadas no Japão, em agosto de 1945, abriram as portas à era nuclear, a partir daí passou-se a falar na bomba de hidrogénio, na bomba de neutrões e o arsenal termonuclear hoje existente, a ser usado, fragmentará em pedacinhos este planeta. Dan Carlin vai fazendo referência à evolução das armas mortíferas, como aquelas que ceifaram vidas nos combates da Primeira Guerra Mundial. Qualquer relato das pessoas que escaparam às bombas de Hiroxima e Nagasaki põe-nos os cabelos de pé, desde seres vivos a soltar-se-lhe a pele àqueles que vão sufocando na atmosfera tóxica dentro do alcatrão derretido. É verdade que temos estado quase à beira de entrar numa guerra termonuclear, basta pensar na crise dos mísseis em Cuba, em 1962, isto para já não falar no bloqueio de Berlin, em 1949, em que apenas os norte-americanos podiam ter usado armas atómicas. Hoje o clube nuclear tem tendência a aumentar, não está circunscrito aos EUA, Rússia e China, França e Reino Unido, alargou-se à Índia e ao Paquistão, Israel e Coreia do Norte.

Vivemos, pois, num equilíbrio de terror e o mais irónico de tudo é que pessoas que preparam o caminho para esta realidade esperavam que os seus esforços conduzissem a melhores desfechos. O autor recorda Alfred Nobel, negociante de armas e inventor da dinamite, que acreditava que “no dia em que dois corpos militares se conseguirem aniquilar mutuamente num segundo, todas as nações civilizadas por certo recuarão de horror e desmobilizarão as suas tropas”. E há depois a contabilidade sobre o lançamento das bombas atómicas sobre o Japão que custaram mais de 200 mil vidas japonesas, mas que, alega-se, salvaram potencialmente as vidas de 1 milhão de soldados que podiam ter perecido, se tivesse sido necessária uma invasão terrestre do Japão. As regras do jogo bélico são complexas e mesmo contraditórias. O que é ponto assente é que pelos nossos padrões atuais a ética da Guerra Total não tem qualquer viabilidade, isto a despeito de alguma gritaria que se ouve a dirigentes de Moscovo.

Uma das virtualidades do nosso tempo é termos de viver com várias espécies de ameaças à humanidade e, por ironia, até se pode encontrar utilidade numa dessas bombas desenvolvidas para matar milhões, se, hipótese de ficção científica, um asteroide que estivesse talvez em milhões de anos em rota para colidir com a Terra e matar toda a civilização acabasse por ser desviado do seu curso no último minuto por uso oportuno de uma arma nuclear.

Há perguntas irrespondíveis, mas Dan Carlin formula-as com enorme pertinência nesta curiosíssima narrativa que dá pelo nome de Uma História de Extremos, onde se deixa bem claro que este planeta, provado está, sempre esteve à beira da condenação. Uma narrativa de qualidade cuja leitura se recomenda.


Mário Beja Santos





quarta-feira, 26 de julho de 2023

Prova de Vida (1) - Eládio Clímaco.

 



                                                                                                                     Ilustração de Vítor Higgs 



https://www.dn.pt/cultura/prova-de-vida-1---eladio-climaco-16661157.html











A obesidade não é só uma questão de peso, aqui tem a oportunidade para saber mais.

 



 

A coleção Pela Sua Saúde – Ciência Alimentar, recentemente criada ou constituída pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, não se destina, em rigor, a um público não iniciado, será seguramente muito útil como ferramenta de estudo para quem se prepara para ser profissional de saúde, a linguagem usada por estes autores só é simples para estes iniciados. Atenda-se ao que o autor deste livro intitulado Obesidade: Uma Questão de Peso?, por José Camolas, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2023, enuncia como objeto do seu trabalho:

“Tratando-se de uma doença metabólica crónica, a obesidade é também fator de risco para outras patologias, tais como: diabetes, doença cardiovascular, doenças respiratórias, alguns tipos de cancro e depressão, entre outras. A obesidade afeta negativamente a qualidade de vida e está fortemente associada á redução do número de anos vividos com saúde e ao aumento da mortalidade evitável.” O reconhecimento da obesidade como doença é bastante recente. Como também observa o autor, foi apenas no início deste século que a OMS propôs a sua caracterização como doença crónica, reconhecimento que ainda não é consensual. É estimável que a prevalência da obesidade mereça a caracterização de altamente preocupante. “Em Portugal, mais de metade da população adulta e um terço das crianças apresentará peso em excesso”, tenho sérias dificuldades em aceitar estes números, ando nas ruas e não vejo tal flagelo. O autor recorda que os mecanismos envolvidos pelo agravamentos e consequências da obesidade são múltiplos e complexos, tal como adianta que os fatores que favorecem o ganho de peso variam individualmente. Prevenir e tratar a obesidade abarca diferentes níveis de atuação, desde uma cultura adequada a uma alimentação saudável passando pelas respostas clínicas ajustadas. Um desafio da maior amplitude, como ele adianta: “A luta contra a obesidade incorpora, em pleno, o desafio de integrar a saúde em todas as políticas. Assim, além das medidas de âmbito da saúde, ao nível da prevenção e da agilização do acesso ao tratamento adequado, são indispensáveis ações no âmbito da regulamentação, da tributação dos alimentos prejudiciais à saúde, do apoio social e da facilitação do acesso à alimentação adequada.

Entrando propriamente no ensaio, dá-nos o peso dos números para dizer, que tudo conjugado, estamos a falar de uma epidemia e questiona o que é que é determinante na obesidade, e logo nos dá uma dilucidação: “Obesidade e excesso de peso não são sinónimos, pelo que a variável peso, considerada isoladamente, é um indicador impreciso dos impactos negativos da doença. O peso ideal é um conceito relativamente desatualizado, o sucesso no tratamento da obesidade também não se deverá restringir à monitorização da perda de peso. A definição de obesidade proposta pela OMS está centrada na massa gorda corporal e, mais concretamente, na sua proporção e no seu potencial impacto negativo na saúde.” E faz-se uma abordagem do que é o índice de massa corporal e a sua relação às comorbilidades da obesidade, para concluir que o que pesa na obesidade não é o mesmo que pesa na balança. O que pesa na obesidade é a disfunção do tecido adiposo, o respetivo impacto nos outros tecidos do organismo e os seus reflexos na saúde e na qualidade de vidas das pessoas com obesidade.

E a narrativa toma o pulso ao fator da genética, também para concluir que a obesidade poderá constituir a expressão de um desajuste entre o genoma humano e o ambiente. E toma em consideração o peso da fome e da vontade de comer, como o peso do ambiente, daqui chega ao peso da força e da vontade para nos dizer que “parece aceitável a premissa de que a maioria dos seres humanos, por força do seu património genético, estará mais predisposta para ganhar do que para perder peso. As mudanças contextuais, particularmente as observadas nas últimas décadas, parecem mais promotoras de consumos alimentares desadequados e de hábitos sedentários facilitadoras de comportamentos promotores e protetores da saúde”, e daí chegar-se a outra conclusão: “O sucesso na prevenção e no tratamento da obesidade requer efetivamente força (para implementar ações modeladores do acesso e da oferta” e vontade (de promover escolhas alimentares adequadas). Tanto uma como a outra são determinantes para a criação de ambientes resilientes que promovam e suportem hábitos adequados.”

Tem agora a palavra o peso da nutrição. Passa em revista indicadores relacionados com o bem-estar e a saúde psicológica, a natureza das intervenções nutricionais, com destaque para as abordagens nutricionais de obesidade, que são elencadas, havendo razões para muita prudência, como ele adverte, falando de uma situação: “Os jejuns intermitentes têm ganho algum protagonismo, pelo que se justificam algumas considerações. Primeira, para assinalar que a investigação disponível indica que os resultados obtidos com esta abordagem, no contexto da obesidade, não são superiores aos obtidos com outros tipos de dietas restritivas. Segunda, para dar nota de que existem vários protocolos de jejum intermitente. No nosso país, o mais habitual será a opção pela pausa alimentar, que determina um período de jejum (12-18 horas) e um intervalo restrito para a ingestão de alimentos (6-12 horas). A este respeito, justifica-se assinalar que a opção de estender o jejum para a manhã, quebrando a pausa para o almoço, parece ser uma opção menos favorável, em termos metabólicos, do que iniciar esse jejum à tarde e terminá-lo com o pequeno-almoço.”

O autor refere também as estratégias nutricionais, mas releva a importância de que a intervenção em obesidade não deverá focar-se especificamente na perda de peso, mas sim na otimização geral da saúde do indivíduo, e culmina assim o seu trabalho:

“A intervenção nutricional surge na primeira linha e é a única abordagem que será transversal a todas as situações de excesso de peso – por exemplo, a cirurgia bariátrica não é adequada a todos os níveis de obesidade e os fármacos têm indicações e contraindicações específicas. Neste sentido, os nutricionistas têm a responsabilidade de proporcionar uma abordagem que permita à pessoa que vive com obesidade sentir-se compreendida, sendo parte ativa no seu plano de tratamento, contribuindo para a construção de expetativas apropriadas e para a valorização adequada das mudanças e resultados que têm mais peso na sua saúde.”

Este ensaio que é do maior interesse para todos os estudantes do ensino universitário na área da saúde. 


                                                                                                    Mário Beja Santos





 


domingo, 16 de julho de 2023

São Cristóvão pela Europa (224).

 

 

O Museu Nacional de Arte Antiga organizou conjuntamente com a Diocese de Barcelona, uma notável exposição intitulada Barcelona Gótica. Obras do Museu Diocesano e da Catedral de Barcelona.

É composta por pintura essencialmente sobre madeira e aborda em especial a relação de Portugal com a Catalunha em especial a partir do casamento do Rei D. Dinis com a Rainha Santa Isabel.

Entre as notáveis peças exibidas avulta um tríptico da descida da Cruz da autoria de Bernat Martorell (1400-1452) que pertenceu à Colecção do poeta Guerra Junqueiro.

Trata-se de um tríptico destinado ao uso pessoal. Como já aqui referi, estes trípticos eram frequentemente deslocados, acompanhando os seus proprietários nas suas viagens. Daí a lógica da presença de São Cristóvão no conjunto de Santos representados.

Santa Madalena, Santa Catarina e Santo Antão acompanham o nosso Santo.


 

 

                                                                        Fotografias de 15 de Julho de 2023

 

                                                                                                          José Liberato





quinta-feira, 13 de julho de 2023

O cão que faz ão ão.

 







O cão que faz ão ão / É bom amigo como os que são / É bom amigo, bom companheiro / Que o diga o seu dono, assim damos a palavra a Manuel Alegre

 



A literatura começou com os poemas homéricos e há um momento de rara beleza naquele tropel de crueldades da guerra de Troia e das vicissitudes a que foi sujeito Ulisses que é o seu regresso a Ítaca e o encontro com o seu cão, seguramente muito velhinho, que o reconhece e morre. Algo de profundamente tocante terá de haver num livro que fez 20 anos e conheceu 30 edições, em que o protagonista é um cão investido de várias funções, morto mas jamais desaparecido, recordado com uma simplicidade de escrita, toda ela depurada, a elegia de um animal que entrou lá em casa e ancorou na família, daí o feliz achado de Clara Rocha no prefácio de culminar as suas observações invocando um poema de Manuel Alegre em que o cão é o reflexo ou a imagem onde os membros do clã se reveem, é a linhagem da presença-ausência, de quem não é servil, e postula a irreverência, a par da incomensurável fidelidade.

Sou do tempo em que sabíamos de cor o poema de Afonso Lopes Vieira cujas linhas iniciais usurpei para este sincero paraninfo para a edição especial de 20 anos, aos belos desenhos de Bárbara Assis Pacheco e à luminosidade com que Clara Rocha prefacia a obra. Quando pela primeira li este Cão Como Nós, recordei um serão caseiro, a minha mãe a ler os Bichos, de Miguel Torga, à minha avó enferma, esta insistia sempre em duas histórias, vá-se lá saber porquê: Nero, o cão, e Madalena, a mulher que vai parir nas fragas. Ora este cão de nome Kurika era um irreverente para o dono, finório e com ademanes de fidalguia, o luto do dono, inevitavelmente emerge dos seus dotes poéticos, o cão é sonhado, imaginado o seu reaparecimento, imagina-se que raspa as portas, quer entrar em casa, o dono grita-lhe “fica!” e tira-se uma conclusão:

“E ele ficava mesmo, nem que tivesse que o empurrar para baixo até ele se deitar, sempre contrafeito, olhando-me de esguelha, jamais convencido de que entre humanos e cães há uma diferença e que essa diferença é favorável aos primeiros. Era um cão rebelde, teimoso, de certo modo subversivo. Às vezes insuportável.

- Como nós – diriam depois os meus filhos.”

Cão vigilante, companheiro dos filhos, já se viu que arisco ao dono, a desafiá-lo, manda a verdade que se diga que não era expedito nem esforçado na caça, isto é, caçava de modo independente, o dono afaga-o em memória quando ele aparecia com um coelho ou uma perdiz na boca:

“- Cão bonito – dizia-lhe eu, fazendo-lhe festas ou apertando-lhe o nariz para ele largar a presa. Nessas alturas ele portava-se como um cão propriamente dito, dava corridas e pulos de contentamento. O que me fez chegar à conclusão de que tudo seria diferente se ele tivesse podido ser, como era por certo a sua vocação, um cão de caça.”

E o autor acaba por nos contar um pormenor íntimo, embevece-se e deixa o leitor embevecido: “Queria sempre estar connosco a sós. Ladrava ao carteiro, ao eletricista, a quem quer que não fosse da casa. Cão exclusivista. Mas também ator. Quando havia visitar mudava de tática. Com total perversidade, ele, que nunca prestava vassalagem a ninguém, escolhia uma vítima, aproximava-se devagar e encostava a cabeça a pedir-lhe festas, expressão de mágoa e súplica, como quem diz: Já que eles mas não fazem, faça-mas você. Teatro, puro teatro. Mas havia quem se deixasse levar. Uma amiga da casa chegou a dizer: “O cão anda triste, deve estar cheiro de carências. E ele enroscado na sala, a olhar de soslaio para nós, com ar de gozo.”

Aqui e acolá pintalga-se uma atmosférica poética, já no prefácio Clara Rocha recorda os traços autobiográficos na obra de Manuel Alegre e, portanto, faz todo o sentido esta confidência que parece uma página de diário: “Há momentos em que parto para não sei onde. Navegação espiritual. Ou dispersão na terra abstrata, a única que se vê quando não se vê. São as grandes caçadas dentro de mim mesmo, a busca da magia perdida, uma palavra cintilante, uma perdiz imaginária, um sopro, um ritmo, uma espécie de bafo. Como o teu. Às vezes sinto-o, outras não. Mas sei que estás aí, algures, enroscado na minha própria solidão.

Estamos agora quando me ocorre uma analogia com Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez, o animal envelhece, o dono adoça as expressões exultantes, parece ter carga premonitória, dá pelas ausências. Tinha paixões, houve discussões em meio familiar, o dono rotulou-o de tarado sexual, a filha corrigiu: “Está apaixonado.” Paixão ou cio, a coisa medrava, apareciam novos cães, as parecenças não mereciam discussão. Uma vez desapareceu, quem o desencantou foi até à GNR, enquanto a família soprava de pânico, voltou e parecia amuado. Os comportamentos do Kurika levantavam comentários familiares e analogias com os humanos. O poeta teve um problema de coração e ficou a crença que o cão começou a olhá-lo de outro modo, o poeta gostava e até alguém se atreveu lá em casa a dizer que o cão resmungava como o dono, a verdade é que a coisa mudou: “Dei por mim a conversar com o cão, sempre que estávamos sós. Digo bem: conversar. Se ele nunca chegava, como pretendia, à enunciação, não tenho dúvida que compreendia a humana fala.” Chegou a hora do sofrimento, o primeiro ataque, alguém de novo se atreveu a fazer comparações com o poeta, uma força da natureza, um verdadeiro resistente.

Aquele veio de vida cede, o cão está desorientado, é levado para a clínica, é a despedida, é tornado emocionante: “A minha mulher chorava e eu até um beijo dei ao cão. Respirava cada vez com maior dificuldade. Mas de certo modo estava em paz. Já não resistia. Estava a entregar-se. Eu acho que a nós, mais do que à morte.”

O cão rebelde, caprichoso, desobediente, o tal cão da família onde o poema de Manuel Alegre Cão Como Nós tateia uma linhagem comum, partiu. Inevitavelmente, um halo poético evola-se, incandescente:

“Eu gostava que o espírito dele permanecesse aqui connosco. Foi talvez por isso que escrevi este livro. Hoje sei algumas das coisas que ele sabia. Assim como depois do meu pai morrer o cão continuava a deitar-se aos pés dele, tenho a certeza de que estou a escrever com ele deitado ao meu lado esquerdo, como sempre fazia quando eu me sentava no escritório. Estou a escrever o livro e quase sinto a respiração dele. Agora que acabei, posso fazer-lhe uma festa e dizer-lhe:

- Cão bonito.”

30 edições só é possível neste país quando a palavra viva serve para iluminar o amor que podemos dedicar a um animal. E voltando a uma subtileza de Clara Rocha e a sua chamada de atenção para o título da obra tão sugestivo, o tal espírito de linhagem e aliança, modelado num retrato de família, “escrito ao rés do vivido e com grau mínimo de ocultação ficcional.”

Mais 30 edições nos próximos 20 anos, são os meus votos, meu caro Manuel Alegre.

 

Mário Beja Santos





 

terça-feira, 4 de julho de 2023

São Cristóvão pela Europa (223).

 


 

A outra cidade portuguesa ainda não tratada nestas crónicas é Braga.

A igreja de São João da Ponte, é o centro das festividades da cidade por ocasião do dia de São João:

 


No altar-mor, uma imagem de São Cristóvão certamente em homenagem aos peregrinos que acorrem ao local:




A igreja situa-se na margem do Rio Este.

No leito do rio, em plena representação da sua iconografia, encontra-se para as Festas de São João uma imagem do Santo:

 



 

Mais inesperado é encontrar uma imagem de São Cristóvão no exterior de uma loja do chinês.

Evidentemente que há uma explicação.

Este edifício data do início da massificação do automóvel em Braga nos anos de 50 do Século XX.

Foi construído de raiz como garagem da FORD. Era simultaneamente bomba de gasolina, oficina e stand de venda de automóveis.

Agradeço à Arquitecta Fátima Pereira a ajuda na cidade de Braga para a elaboração deste texto.


 




                                                            Fotografias de 19 de Junho de 2023

 

                                                                                                José Liberato






quinta-feira, 29 de junho de 2023

São Cristóvão pela Europa (222).

 



 

Nestas andanças em busca de imagens de São Cristóvão, por vezes nos confins da Europa, às vezes não prestamos a devida atenção a imagens que estão muito mais próximas.

Este post é dedicado à cidade do Porto. O próximo será sobre outra importante cidade portuguesa.

A Igreja de São Francisco do Porto é um dos monumentos mais importantes da cidade. Foi construída a partir de 1233 após doação de um terreno pelo Rei D. Sancho II aos frades mendicantes seguidores de São Francisco de Assis na altura da rápida expansão da ordem.

O estilo adoptado foi o gótico. No Século XVIII, a igreja foi transfigurada ao gosto barroco. Trata-se de um dos exemplares mais espectaculares de utilização de talha dourada em Portugal. E quando se diz dourada não se trata de uma figura de estilo. Foi mesmo feita com ouro.

Um convento foi erigido. Veio a ser uma vítima do cerco do Porto em Agosto de 1833. Ruiu na sequência de um incêndio.

À esquerda a Igreja de São Francisco neoclássica:

 



Num dos notáveis altares em honra de Nossa Senhora, uma imagem de São Cristóvão:

 



 

Outra igreja famosa do Porto á dos Carmelitas Descalços, outrora servindo o respectivo convento.

De estilo maneirista e barroco, está encostada a outra importante igreja da cidade, a dos Terceiros do Carmo.

A igreja foi concluída em 1622 durante o período filipino. Em 1809 foi quartel-general de Soult na segunda invasão francesa.

 



 

A sacristia está repleta de imagens em pequenos nichos.

Uma delas representa o nosso Santo:

 



 

                                                                Fotografias de 16 e 17 de Maio de 2023

 

                                                                                                            José Liberato






quarta-feira, 28 de junho de 2023

Ex-comandante Marat, do exército secreto de Putin, o Grupo Wagner.

 




 

Puro acaso do destino, a publicação em Portugal das memórias do ex-comandante Marat ganhou notoriedade com os recentes acontecimentos da rebelião de um chefe de grupo que pareceu que iria avançar sobre Moscovo, os acontecimentos ainda estão muito confusos mas o ex-comandante Marat, bravo combatente de um exército privado ao serviço da lógica política e económica de Putin e dos seus oligarcas, desvenda um segredo bem escondido dessa força mercenária de elite que finalmente Putin confirma a existência, o Grupo Wagner é pago a peso de ouro tanto por Moscovo como pelos ditadores que interessa a Putin apoiar.

          Eu, Marat, Ex-comandante do Grupo Wagner, prefácio de José Milhazes, Casa das Letras, 2023, traz revelações sensacionais, conta as manipulações e agitação perpetrada em território ucraniano, descreve as lutas do Grupo Wagner em território sírio, acima de tudo.

José Milhazes recorda que se trata da primeira obra escrita por um mercenário russo, combatente de uma empresa militar privada que até à recente declaração pública de Putin não existia oficialmente. A Wagner tem sido utilizada em manobras muito sujas, onde os russos não querem mostrar onde metem as mãos, para implementar a sua política externa expansionista servem-se dos mercenários: no Leste da Ucrânia, na Síria, Líbia, Sudão, República Centro-Africana, Mali e Moçambique. Marat Gabidullin não edulcora o seu currículo: prestou serviço militar nas tropas paraquedistas, enredou-se com gente mafiosa, este preso por assassinato, viveu a praga do alcoolismo; sem emprego, aceitou fazer parte de um grupo armado, foi combater para a Síria, no comando já estava Evgueni Prigojin, a figura de quem se fala nos média e redes sociais de todo o mundo, político com cadastro criminoso longo, também com uma pesada pena de prisão, multimilionário, já confessou ter contribuído para intoxicar a campanha presidencial norte-americana de 2016 (ele detém uma rede de empresas no campo da comunicação social); envolveu-se com os seus mercenários nas regiões ucranianas de Donetsk e Luhansk, desde 2017 tem a cabeça a prémio nos EUA.

          Também o editor francês dá as suas explicações para esta importante publicação: “O que ele oferece é um relato único e extremamente atual das forças militares do seu país. As ações dos Wagner foram sempre ao serviço exclusivo do Kremlin, quer no Donbass, na Crimeia, na República Centro-Africana, no Mali e na Síria. Ele não tem palavras suficientemente duras para descrever a indignidade do comportamento das tropas russas e dos Falcões do Deserto às ordens de Bashar al-Assad, denunciando-lhes a corrupção, a busca perpétua por honras, o desejo constante de se pouparem ao trabalho sujo. Ele revela um sentimento perante a total falta de consideração por parte das autoridades russas no tocante a estes mercenários.”

          À cabeça do Grupo Wagner encontram-se dois homens, o fundador, Dimitri Outkine (Wagner), antigo membro do serviço militar russo de informações, criou um grupo de intervenção rápida para levar a cabo operações precisas na região separatista de Donbass, em guerra com as autoridades pró-europeias de Kiev. Este grupo de mercenários assumiu para si o nome do seu líder, Wagner, uma homenagem ao compositor alemão (Dimitri Outkine é um grande admirador do III Reich e Adolf Hitler). Se se pode falar de ideário do grupo, a matriz é o nacionalismo, são antissemitas e xenófobos, defendem a pureza étnica e a segregação racial, grande parte destes elementos têm visões de extrema-direita. A outra figura chave é Evgueni Prigojin, já se disse que ele tirou partido do caos pós-soviético, é um dos homens mais poderosos da Rússia, comprovadamente envolveu-se em operações de destabilização tanto no ciberespaço como no Médio Oriente e África.

O Grupo Wagner é um meio para que Putin e os oligarcas ganhem dinheiro e estendam tentáculos imperiais. Na Síria, onde Marat lutou, a missão era reconquistar o controlo dos campos de petróleo e gás que haviam caído nas mãos de exército sírio livre ou do Estado Islâmico; em troca, a Wagner recebia uma comissão de 25% sobre as receitas do ouro negro ou do gás, tudo ao abrigo de um acordo assinado em finais de 2016 em Moscovo; a República Centro-Africana, é o setor mineiro (ouro e diamantes) que cai sobre o seu controlo, a Wagner tem mão de ferro sobre as autoridades aduaneiras, e também no Mali a Wagner é paga através das receitas do setor mineiro. Até aos recentes acontecimentos de rebelião de Evgueni Prigojin era difícil imaginar o Kremlin e o Ministério da Defesa assumirem a existência do Grupo Wagner, tal aconteceu e não vale a pena estar a fazer profecias sobre o futuro do Grupo Wagner.

Marat descreve o seu alistamento, fala das verbas recebidas, descreve a missão em 2015 a Luhansk e não teve ilusões de que a Rússia se estava a intrometer na vida de um país estrangeiro: “A República Popular de Luhansk era uma pequena sociedade de pessoas tomadas como reféns por um bando de bárbaros analfabetos, a quem fora dado acesso a armas.” Sentiu-se tomado por problemas de consciência, felizmente para ele foi transferido para Moscovo, doravante todo o seu relator é sobre a luta sem quartel na Síria, apercebe-se do cinismo das diplomacias, caso da Turquia, que estava determinada a tirar partido da guerra na Síria, fornecia armas e munições, conselheiros militares profissionais aos insurgentes do Exército Sírio Livre, estamos a falar da mesma Turquia que agora aparece como mediadora entre a Rússia e a Ucrânia. Cedo Marat se apercebeu que os sírios não apreciavam dar o corpo ao manifesto, quem ia à frente era gente do Grupo Wagner, são descrições avassaladoras onde não falta o horror e a crueldade, os tais Falcões revelaram-se ineptos e cobardes, Marat di-lo abertamente.

É um detalhado reportório de derrotas e vitórias, muitos camaradas mortos e feridos, Palmyra foi conquistada, perdida e reconquistada, Marat é muçulmano, e o valor religioso tocou-lhe muito, dirige-se para uma mesquita depois dos combates e tece o seguinte comentário: “O interior estava devastado: uma espessa camada de gesso mesclada com fragmentos de pedra e pedaços de vidro cobriam o chão, as paredes haviam sido desfiguradas pelos estilhaços e as janelas, pretas da fuligem, estavam abertas como as feridas. Porém, toda aquela destruição não afetou a majestosa beleza do edifício religioso. Uma vez lá dentro, a angústia apoderou-se de mim. Sim, apesar de tudo, sentia-me muçulmano. A guerra mutilou aquela mesquita e isso deixou-me doente. De repente, naquele lugar sagrado, percebi claramente, de forma inesperada e pungente, toda a miséria e vulgaridade do que acontecia na Síria, onde as partes em confronto lutavam selvaticamente umas contra as outras para obterem uma fatia de bolo.”

Este relato é uma gesta sobre a força de combate que Marat era comandante. Recebeu a Ordem da Coragem, dada em segredo, o povo russo não podia saber da existência do Grupo Wagner, a descrição que ele faz sobre a reconquista de Palmyra é admirável, mais uma vez refere que aquele exército sírio não tinha vontade de lutar, era liderado por diletantes altivos e gananciosos, quem teve que dar o corpo ao manifesto foi a Wagner.

Ao despedir-se não esconde o seu ressentimento como a Rússia utiliza os mercenários. “Dizem-nos que os soldados da fortuna são um fenómeno ocidental, e que o mercenarismo é um produto da hidra capitalista. Os nossos políticos mantêm um silencia envergonhado sobre a existência de empresas militares privadas. Os propagandistas estão a doutrina intensivamente os russos com a ideia de uma política externa exclusiva à Rússia, e evitando qualquer resposta direta sobre o uso de mercenários.”

De leitura obrigatória para quem procure entender o que se passa na Ucrânia e a política expansionista russa.


                                                                                 Mário Beja Santos 


 


quinta-feira, 22 de junho de 2023

Abusos sexuais na Igreja em Portugal: o palco e os bastidores.

 




 

 

Clérigos e barregãs é uma história muito antiga, de um modo geral objeto de imensa tolerância, os senhores padres em Cabo Verde chegavam a ter dúzias de filhos e nas nossas paróquias da chamada interioridade eram muito comuns os vigários que vivam paredes meias com uma alegada irmã, e proliferavam os afilhados ou crianças ditas protegidas por não se saber do pai e da mãe, assim constava, a solicitude do senhor padre é que era importante. E já não vem à baila os Papas e os cardeais da Cúria que tinham bastardos, muitos deles bem tratados.

Dos anos 1970 para os anos 1980, esta estabilidade afetiva camuflada explodiu noutra dimensão, a pedofilia e, em menor grau, o padre pai de filhos. O dossiê ganhou volume e intensidade mediática, assentou-se a câmara na Igreja Católica, presume-se por razões do celibato dos padres e o encobrimento das vítimas, uma conspiração de silêncio que, como é hoje bem visível, gerou e continua a gerar uma enorme convulsão na Igreja Católica.

Em Nome do Pai, abusos sexuais na Igreja em Portugal, por Sónia Simões, Oficina do Livro, 2023, é uma reportagem em derredor de acontecimentos contemporâneos, mas onde o passado não foi esquecido. A escandaleira soou nos EUA, ao tempo de João Paulo II, e o Papa Francisco recebeu um farto processo onde Bento XVI igualmente tinha agido. A intensidade das denúncias levou a que o Papa Francisco convocasse, em fevereiro de 2019, uma reunião que não tinha precedentes, compareceram os presidentes das conferências episcopais do mundo com um ponto único na ordem de trabalhos: agir resolutamente para que nenhum dos crimes sexuais fosse doravante encoberto. Sónia Simões deixa bem claro que o alto clero português tem agido ao retardador, é uma história um tanto escandalosa, processos sinuosos de encobrimentos, até declarações públicas contrárias ao decidido em Roma.

Está ainda por esclarecer o que levou este alto clero a fingir quje escapava às obrigações da transparência, isto quando já 34 bispos chilenos tinham renunciado, houvera a investigação na Pensilvânia, soubera-se que um cardeal norte-americano era acusado, Irlanda, França, entre outros, as igrejas nacionais agiram celeremente, enquanto aqui se empatava. A autora, jornalista experimentada neste dossiê, desenvolve a sua narrativa a partir da história de Mariana, então uma jovem que cedera às promessas de um padre vinte anos mais velho e de quem teve um filho, fica bem claro quem e como andou neste jogo do empata. E que havia instruções para agir, havia, desde 2009 exisita um documento interno da Santa Sé com indicações expressas do que fazer, no caso de um padre que tenha um filho.

A grande surpresa veio com o relatório da Comissão Independente, os números eram demasiado violentos e indiciavam o encobrimento do alto clero, fazia-se o chamamento às vítimas abusadas, os traumas, os sentimentos de culpa, vergonha, nojo, revolta, perda de fé, até suicídio. É um desbobinar de histórias, avulta a pedofilia, houve pais que se dirigiram aos bispos, a solução adotada era transferir o padre.

Vamos então aos números. “A Comissão Independente cruzou 217 estudos sobre a generalidade dos abusos sexuais de crianças, elaborados entre 1980 e 2008, para perceber a incidência por género, deste tipo de crime na sociedade. E a conclusão é avassaladora. As estimativas feitas a partir de 331 amostras num total de quase 10 milhões de participantes revelam que 18 em cada 100 raparigas foi abusada sexualmente, assim como 8 em cada 100 rapazes foram igualmente vítimas. O abusador é, na maior parte das vezes, alguém que é próximo da vítima e em quem esta confia. Cenário propício a que, em grande parte dos casos, os crimes não acontecem apenas uma vez, mas perdurem no tempo, aproveitando o agressor para ir quebrando barreiras e escalar no tipo de abusos.”

A maior parte destes crimes não chegam às autoridades e, como é evidente, os crimes sexuais contra menores ocorridos no meio eclesiástico é uma fração deste tipo de crime em toda a sociedade. Só que os tempos mudaram, o encobrimento é cada vez menos possível, as vítimas sentem-se impelidas a denunciar os abusos sofridos e os números falam por si. “Em 2021, ano em que foram denunciados 828 crimes de abusos contra menores, a Polícia Judiciária – com competência exclusiva na investigação deste tipo de criminalidade –, deteve 270 suspeitos. Nesse ano, foram concluídos 351 julgamentos de abusadores sexuais e, em 397 arguidos, 293 foram condenados.” Como observa a autora, nos crimes em contexto religioso a incidência recai sobre o sexo masculino, a maioria das vítimas são rapazes. E aqui a autora disserta sobre as prerrogativas de poder que o padre abusador pensa que detém, no meio social e junto da vítima, como igualmente aborda o chamado problema da cura do abusador. A comissão francesa centrou uma boa parte da sua pesquisa no estudo do abusador. “Mais de metade dos padres entrevistados declararam ser homossexuais e alguns assumiram manter relações ativas com adultos da mesma idade. Uma das explicações mais comum para os abusos foi a necessidade de afeto ou intimidade com outras pessoas. Apontam-se culpar à própria Igreja ou mesmo à época que se vivia – uma característica dos abusadores em geral que raramente se sentem responsáveis pelos seus atos.”

Sónia Simões analisa detalhadamente o caso do padre José Anastácio Alves, de que houve conhecimento público quando se tentou entregar na Procuradoria-Geral da República, um longo historial abafado ou menorizado. E dá-nos conta da assembleia plenária da Conferência Episcopal Portuguesa, realizada em Fátima em 2019, era tempo efervescente e mandaria a lógica que o abuso de menores na Igreja fosse no mínimo objeto de debate. A reunião de Roma exigia um tratamento de choque. Tudo começou com a criação da Comissão de Proteção de Menores do Patriarcado de Lisboa, o alto clero procurou resistir aos propósitos da Comissão, só que o Papa Francisco voltou à carga, exigiu a nível universal, “procedimentos tendentes a prevenir e contrastar estes crimes que atraiçoam a confiança dos fiéis.” Após hesitações, formou-se a Comissão Independente. Descrevem-se ainda os casos que chegaram ao Ministério Público, a autora passa em revista como noutros países se estudam estes abusos, é um levantamento que nos faz pensar, era impossível a partir dos resultados da Comissão Independente não agir. Está em funcionamento o Grupo VITA – grupo de acompanhamento das situações de abuso sexual de crianças. Em abril deste ano a Igreja emite comunicado: “Entrámos agora numa nova fase. Estamos empenhados em prosseguir um caminho de reparação e prevenção para que seja possível garantir o devido apoio às vítimas e implementar uma cultura de cuidado e proteção dos menores e adultos vulneráveis.” E a autora termina o seu trabalho dizendo: “Passaram quatro anos desde o encontro em Roma e ainda estamos aqui.” Obra de inegável interesse para procurar estudar o que são os bastidores da Igreja Católica em Portugal.


                                                                                                Mário Beja Santos