quinta-feira, 12 de novembro de 2015



impulso!

100 discos de jazz para cativar os leigos e vencer os cépticos !

 

 

# 98 - MARIA SCHNEIDER

 
 

 
Tudo em Maria Schneider é diferente e a principal diferença será não o parecer. A sua pose desafectada e delicada atenua uma interrogação que devia de imediato interpelar: como veio ter ao jazz uma mulher (o jazz tem pretensões de barba rija), com apelido e compleição germânicos típicos do Minnesota, nascida e criada numa comunidade rural de 3600 almas, a um canto da imensa pradaria do Norte?
Claro que foi por acaso, porque o talento sem sorte não desponta. Após a licenciatura e a graduação académica em composição clássica, com as cargas habituais de Chopin e Ravel, mas já com uns condimentos de Art Tatum, Maria Schneider mudou-se para Nova Iorque – é o costume… – onde arranjou emprego como copista, trabalhando à peça no arranjo de secções instrumentais em composições para orquestra. Gil Evans comissionou-lhe tantas partituras que praticamente a tomou como pupila.
Desde logo Maria Schneider percebeu que a sua vocação iria condená-la à penúria. As big bands de jazz na verdade eximiram-se ao destino dos dinossáurios, mas em vez da extinção tornaram-se mais episódicas, actuando em clubes como antigamente, com muito pouca disponibilidade orçamental para as delongas dos estúdios de gravação. Foram anos em que Maria Schneider ganhava quinze dólares por espectáculo, distribuindo vinte cinco a cada um dos músicos. Mas a gota que fez transbordar o copo da sua paciência foi a edição de “Allegresse” no ano 2000, a obra que lhe firmou os créditos, a terceira produzida pela etiqueta independente alemã Enja. Ao cabo da carreira comercial do disco a autora viu-se crivada de dívidas. Como aos desventurados por vezes só lhes resta o caminho da revolução, Maria Schneider fez-se à luta.
Com um amigo que sabia fazer contas, apurou que se tomasse em mãos a comercialização dos discos bastar-lhe-ia uma fracção das vendas feitas através do circuito comercial para começar a ter lucro. A prova dos nove seria a montagem financeira dos projectos. Para isso Maria Schneider arquitectou um modelo em que os entusiastas e crentes na sua música pagariam à cabeça a produção das obras, assegurando alguns privilégios além do mero recebimento do disco, como, por exemplo, poderem assistir às gravações, conversarem com a compositora, terem acesso preferencial aos seus concertos. Nestes pilares fundou a etiqueta ArtistShare, pioneira do crowdfunding.
O resultado do empreendimento foi fulgurante. A primeira criação de Maria Schneider publicada e distribuído pela ArtistShare, “Concert in the Garden”, embolsou o Grammy de 2004, após ovação de pé da crítica; nunca antes o troféu fora concedido a quem virara as costas ao retalho de porta aberta, vendendo exclusivamente pela internet.
Tais inovações, que não são menores, foram coroadas pela mais importante delas, sem a qual malograriam – a expressiva concepção orquestral de Maria Schneider. E, mais uma vez, ela remontou contra a corrente dominante, com a graciosidade de quem desliza a favor da preia-mar. Com a preponderância dos neo-clássicos dos anos 80 (Marsalis e seus comparsas), que deixaram de exigir ao ouvinte que partilhasse com eles o esforço musical, nem mesmo neles o gene do exibicionismo era recessivo, não obstante os votos de humilde vassalagem à tradição. Compreende-se: se a exposição pública é naturalmente imodesta, a perícia ainda o é menos, sobretudo num género musical tão filiado na bravata como o jazz. Isto para reiterar que uma orquestra que se diz de jazz jamais prescinde do timbre pujante dos metais, destemendo alguma estridência, mesmo que por devoção à contemporaneidade tenha alijado o swing.
 

Sky Blue
2007
ArtistShare
Steve Wilson (saxofone alto, soprano, clarinete, flauta), Charles Pillow (saxofone alto, clarinete, piccolo, flaita, flauta alto, flauta baixo), Rich Perry (saxofone tenor, flauta), Donny McCaslin (saxofone tenor, clarinete), Scott Robinson (saxofone barítono, clarinete, clarinete baixo), Tony Kadleck (trompete, fluegelhorn), Laurie Fink (trompete, fluegelhorn), Ingrid Jensen (trompete, fluegelhorn), Keith O’Quinn (trombone), Ryan Keberle (trombone), Marshal Gilkes (trombone), Geroge Flynn (trombone baixo), Ben Monder (guitarra), Frank Kimbrough (piano), Jay Anderson (contrabaixo), Clarence Penn (bateria), Gary Versace (acordeão), Luciana Souza (voz), Gonzalo Grau (cajon), John Wikan (cajon).
 
Pois são nada assim as orquestrações de Maria Schneider. Nelas a sonoridade alastra numa tessitura de finíssimos fios de seda onde cada instrumento parece ter um desvelo particular e um desenvolvimento específico, embora esteja integrado numa bateria de 19 elementos, todos de sopro para além da secção rítmica acrescentada de guitarra. O conjunto evoluciona de tal forma límpida e concorde que deixa no ar a questão: ou Maria Schneider escolheu os intérpretes exactos para as suas composições, ou escreveu-as a pensar neles individualmente.
Depois do triunfo de “Concert in the Park” o que faltava alcançar? Maria Schneider respondeu com “Sky Blue” decantando e depurando os princípios enunciados na obra anterior. No centro de “Sky Blue” floresce uma peça de 21 minutos denominada “Cerulean Skies”. Começa por recriar o canto dos pássaros sem o reproduzir, escapando ao embuste da imitação e da paródia; depois vai subindo de asas abertas em arcos musicais; poisa num instante de sossego e volta a levantar-se nos ares. Ouvi-la de olhos fechados produz o efeito de se flutuar no céu; o que é a música senão uma vibração atmosférica?
 
 
 
 
José Navarro de Andrade




 

5 comentários:

  1. Grande texto, coloquei o Allegresse.
    Haja um pouco dela nestes dias sombrios.

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  2. Tive a sorte de assistir a actuação da orquestra em Guimarães no sabado passado.Nunca tinha ouvido mas pensei que fosse mais uma daquelas orquestras mais cerebrais que musicais .Fantástico.Comovente.Altíssima qualidade da musica e dos musicos.Sempre que puder repetirei.Ainda não li as criticas da especialidade sobre o dito.

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    1. Tem mais sorte que eu, que nunca a ouvi ao vivo. Inveja...

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  3. Afinal a critica que li não é bem da minha opinião.Mantenho a minha mas não vou atirar em ninguém porisso.Como disse alguém há muito tempo a propósito da morte de um escritor.Disse:Isso é levar longe demais a crítica literaria...

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