segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Lisboa, 1940.

 
 
 
 
Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944)
 
 
 
 
A passagem por Lisboa de Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944) é sobejamente conhecida. A expressão «paraíso triste», com que o autor de Le Petit Prince caracterizou a capital portuguesa, tornou-se um lugar-comum das descrições de Lisboa durante a Segunda Guerra. Essa expressão consta de Lettre à un ottage, obra publicada pouco antes da sua morte em combate.   
         Transcreveu-se a tradução constante da preciosa antologia De Fora para Dentro, realizada por Aníbal Fernandes para as Edições Afrodite e publicada por Fernando Ribeiro de Mello em 1973. Existem outras traduções, como esta.
 
Fotografia de Mário Novais
 
 
Carta a um refém
 
Quando em Dezembro de 1940 atravessei Portugal para ir aos Estados Unidos, Lisboa surgiu-me como se fosse uma espécie de paraíso claro e triste. Naquela época, falava-se muito de invasão iminente e Portugal agarrava-se à ilusão do seu bem-estar. Lisboa, que organizara a mais bela exposição possível, sorria num sorriso um tanto pálido, como o das mães que não têm quaisquer notícias do filho ausente em combate e se esforçam por salvá-lo a poder de confiança: «O meu filho continua vivo porque eu sorrio…» «Vejam como estou feliz, dizia por seu lado Lisboa, como estou feliz, calma, e bem iluminada…» O continente inteiro pesava contra Portugal como se fosse uma montanha selvagem carregada de tribos hostis; Lisboa em festa desafiava a Europa: «Haverá alguém capaz de me tomar por alvo se nem tento esconder-me? Se até sou tão vulnerável!...»
         À noite as cidades da minha terra eram cor de cinza. Vivendo nelas perdera o hábito de toda a claridade e esta capital radiosa causava-me um certo incómodo. Se é escura a vizinhança, os diamantes da montra muito iluminada atraem os que ali vagueiam. Vemo-los circular. Contra Lisboa sentia eu que pesava a noite da Europa habitada por grupos errantes de bombardeiros, como se ao longe tivessem farejado aquele tesouro.
         Mas Portugal ignorava o apetite do monstro. Recusava-se a acreditar nos maus sinais. Portugal falava de arte com uma desesperada confiança. Haveria quem ousasse esmagá-lo ao culto da arte? Pusera à mostra todas as suas maravilhas. Haveria quem ousasse esmagá-lo nas maravilhas? Mostrava os seus grandes homens. À falta de exército e canhões, contra o ferro do invasor erguera todas as sentinelas de pedra, poetas, exploradores, conquistadores. À falta de exército e canhões, todo o passado de Portugal barrava a entrada. Haveria quem ousasse esmagá-lo na herança de um passado glorioso?
         Noite após noite eu errava, assim melancólico, através dos êxitos dessa exposição de extremo bom gosto onde tudo roçava a perfeição, até a música tão discreta e escolhida com imenso tacto a correr nos jardins com suavidade, sem estridências, como um simples murmurejar de fonte. Haveria quem destruísse no mundo esse maravilhoso gosto pela justa medida?
         Mas por baixo do sorriso encontrava Lisboa mais triste que as minhas cidades extintas.
         Conheci (vós também, por certo) dessas famílias um pouco excêntricas que mantêm à mesa o lugar do morto. Negam o irreparável. Não cuido, porém, que tal desafio consolasse. Dos mortos devemos fazer mortos. E no papel de mortos recuperam outra forma de presença. Mas aquelas famílias suspendiam o seu regresso. Faziam deles ausentes eternos, convivas em atraso para toda a eternidade. Trocavam o luto por uma espera sem conteúdo. E essas casas pareciam-me mergulhadas num mal-estar sem perdão e tão abafante como o desgosto. Por Guillaumet consenti pôr luto, Deus meu!, o último amigo que perdi, piloto morto em serviço postal aéreo. Guillaumet não há-de alguma vez ser diferente. Se não voltar a estar presente, também não há-de estar ausente. Sacrifiquei-lhe o lugar à mesa, essa armadilha inútil, e fiz dele um verdadeiro amigo morto.
         Mas Portugal tentava acreditar no bem-estar mantendo-lhe o lugar, conservando os candeeiros e a música. Em Lisboa jogava-se ao bem-estar para que Deus acreditasse nele.
         Em parte, o clima de tristeza devia-o Lisboa à presença de certos refugiados. Não me refiro a proscritos em busca de asilo. Não falo de imigrantes à procura de uma terra a fecundar com o eu esforço. Falo dos que se expatriam para longe da miséria dos seus a fim de manter o dinheiro a bom recato.
         Não consegui alojamento na cidade e fui para o Estoril, a dois passos do casino. Tinha saído de uma guerra densa: o meu grupo aéreo, que durante nove meses não interrompera os voos pela Alemanha, perdera três quartos da equipagem no decurso da única ofensiva alemã. De volta a casa sentira a atmosfera soturna da escravidão e a ameaça da fome. Vivi a noite cerrada das cidades. E veja lá bem como a dois passos o casino do Estoril se povoava de espectros. Cadillacs silenciosos que pareciam dirigir-se a qualquer destino largavam-nos ali, na areia fina do pórtico da entrada. Tinham-se vestido para o jantar como noutros tempos. Exibiam a gravata ou as pérolas. Convidavam-se uns aos outros para refeições de figurantes onde nada havia a dizer.
         Depois jogavam à roleta ou ao bacará, conforme as fortunas. Às vezes ia vê-los. Não sentia indignação nem qualquer sentimento irónico, porém uma angústia vaga. A que nos assalta no jardim zoológico perante os sobreviventes de uma espécie extinta. Instalavam-se em redor das mesas. Apertavam-se de encontro a um croupier austero e esforçavam-se por ter esperança, desespero, medo, inveja e satisfação. Tal como os seres vivos. Jogavam fortunas que talvez naquele minuto já se encontrassem vazias de significado. Usavam dinheiro que talvez já não tivesse valor. Talvez o valor dos seus cofres fosse garantido por fábricas já confiscadas ou, de ameaçadas que estavam pelos torpedos aéreos, em vias de ruína. Atiravam dardos a Sírius. Apegando-se ao passado, esforçavam-se em crer na legitimidade da sua febre como se de há uns tantos meses àquela parte nada houvesse começado a rebentar na terra., na cobertura dos seus cheques, na eternidade das suas convenções. Era irreal. Um verdadeiro baile de bonecas. Porém triste.
         Com certeza não sentiam nada. Eu abandonava-os. Ia respirar à beira-mar. E esse mar do Estoril, mar de cidade ribeirinha, mar domesticado, também a mim me parecia entrar no jogo. Empurrava para o golfo uma onda única e mole, toda luzidia de lua, como se fora um vestido de rabona fora de estação.
 
Antoine de Saint-Exupéry
 
 
 
 
       

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