segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Elena Ferrante e a Democracia.



 
Nápoles, 1960
Fotografia de Henri Cartier-Bresson

 


1. O nome de Elena Ferrante tornou-se-me familiar há pouco mais de um ano. Chamou-me a atenção para ele uma recensão publicada pela revista  The Economist numa das suas edições de Junho ou julho de 2015 que dava notícia de alguns factos susceptíveis  de despertar a curiosidade dos mais distraídos. O êxito de vendas, recente, súbito e assinalável que os romances da autoria da dita  Ferrante  estavam a ter nos Estados Unidos era coisa por demais interessante, um vez que se resumiam  a uma tetralogia contada em (quatro) livros escritos originariamente em italiano entre 2012 e 2014. O âmbito paroquial das historias que aí se contavam  tornava estranho o grande  interesse que por elas teria o leitor norte-americano: a tetralogia de Ferrante passava-se toda em torno da vida de duas amigas que tinham nascido num bairro pobre de Nápoles ainda durante a segunda guerra mundial, pelo que, pelo menos à primeira vista, se não percebia de imediato que razão explicaria  tanta paixão por parte de leitores/compradores nos EUA. A tudo isto acrescia mais um enigma, visto que ninguém sabia quem seria ao certo a dita Ferrante. O nome corresponderia a um pseudónimo, e quem o usava recusara-se até então a revelar por que meio fosse a sua identidade. Finalmente, pormenor mais picante entre todos.  A obra – Economist dixit – tinha em geral tom feminista. Apesar disso, não se excluía a possibilidade de Elena Ferrante ser, afinal, um homem.
Como não sou menos sensível do que as outras pessoas ao encanto de todos estes mistérios quando acabei de ler a recensão já o nome se me tinha ficado na memória. Por isso, mal ele chegou, meses depois, aos escaparates das livrarias portuguesas, já rodeado de uma certa aura de best-seller que prometia êxito de vendas também deste lado do Atlântico, apressei-me a comprar (também eu) a tetralogia napolitana. Comecei a lê-la e não consegui parar. 
 
 
 
 
 
2. A obra de Ferrante tem riqueza suficiente para que dela se possa falar a propósito de múltiplos temas. Mas, a mim, abalou-me a narrativa do que acontece às duas meninas nascidas no bairro pobre de Nápoles em Agosto de 1944 pelo retrato impiedoso, que nela se contém, das relações de poder que são constituídas numa comunidade humana pobre, isolada e entregue a si própria. No bairro, quem lá nascia dificilmente conseguia ir morar para outro lado, ter um modo de vida diferente do que aquele que tinha sido o dos seus pais ou avós, ou simplesmente furtar-se à tirania constantemente exercida por quem mais podia em relação aos mais frágeis. Isto era assim em todas as dimensões da existência. Por isso, o contrato básico no qual assentava a vida social do bairro era simples porque se resumia a uma única cláusula: obediência  a troco de proteção. Quem não podia devia obediência, por regra incondicional, a quem podia. E, em troca, quem podia assegurava a necessária protecção – face às agressões dos outros ou face aos desvarios do destino – de quem não podia. Todas as relações, fossem elas entre adultos e crianças, homens e mulheres, ricos e pobres, assentavam nesta cláusula básica porque sem ela a ordem do bairro se desmonoraria. A atmosfera geral em que todas elas decorriam era  sempre perpassada pelo medo: medo que as crianças tinham dos adultos, que as mulheres tinham dos homens, que os pobres tinham dos ricos. Muito importante era também a condição social destes últimos. Como, no bairro, a riqueza se concentrava nas mãos de muito poucos (de uma ou duas famílias) que viviam do florescimento de negócios obscuros e sempre marginais ( nunca por nunca se pagavam impostos), ninguém sabia ao certo como é que ela se poderia alcançar por outra via que não fosse a da subserviência de momento aos senhores dos negócios existentes. De modo que a todos parecia que o tempo tinha parado e que a vida estava traçada. Fora do bairro não havia existência; dentro dele, a existência era aquela ou nenhuma outra.
 
 
 
3. A história que Ferrante nos conta é a de uma heroína – uma das duas amigas que estão no centro do enredo –  que consegue, graças a uma férrea disciplina e a um quase desumano comportamento de estudante “marrão”, ultrapassar a barreira da escola primária, ir estudar para outro lugar e assim escapar ao destino do bairro, construindo para si própria uma vida diversa daquela que experimentara no seu universo de infância. Por razões múltiplas e nem todas racionalmente compreensíveis, a sua grande amiga (o seu alter-ego) apesar de genial, vem a sofrer o destino oposto. Nunca chega a sair do lugar onde nasceu e nunca chega a libertar-se dos códigos de comportamento do bairro, aos quais em geral obedece até ao seu desparecimento aos 66 anos.
A narrativa, que acompanha portanto toda a segunda metade do século XX e termina na primeira década  do século XXI (1944 – 2010) é de tal modo rica que resumi-la a uma fábula política seria ridículo. O que a tornou tão popular foi a sua capacidade para falar do que em geral interessa à alma humana: o amor e a traição, a amizade e a rivalidade, a generosidade e o ciúme, a coragem e a vileza. Mas como os problemas de organização da vida colectiva não são menos humanos do que todos estes outros, a tetralogia de Ferrante é também uma fábula política, que nos revela um mundo que, apesar de nos ser contemporâneo, se pauta por normas e práticas que o nosso sentido comum de decência instintivamente repudia. O segredo da popularidade  da obra estará  também na surpresa desta revelação. A tetralogia escrita por Elena Ferrante expõe-nos cruamente um modo de organização da vida colectiva (política) que nos choca e nos causa repugnância porque o não consideramos decente.
 
4. Antes do mais, não consideramos decente que uma comunidade  se organize em torno de uma divisão básica entre quem tudo pode e quem, por nada poder, a tudo obedece. Fomos, pelo contrário, habituados a acreditar que, devendo todos ser tratados por todos com igual consideração e respeito, quem “pode” (quem dirige) fá-lo em mandato dado por todos, no qual o voto de cada um, qualquer que seja a sua condição existencial – seja rico ou pobre, velho ou novo, homem ou mulher – tem exatamente a mesma valia e o mesmo peso do que o voto de qualquer outro. Do mesmo modo, causa-nos repugnância que a segurança de cada um dependa da obediência incondicional a quem “pode” garanti-la. Na vida que consideramos decente, a organização da segurança não é favor que se dispense em troca de obediência; é dever que se exerce, e que se exerce por aqueles a quem demos o nosso voto e dos quais esperamos contas. Causa-nos também repugnância uma ordem colectiva em que não haja possibilidade de discussão sobre o que é, ou não é, uma vida bem vivida, ou em que todos sejam condicionados a viver de acordo com parâmetros únicos não escolhidos;  em que não haja sanção para quem acumula riqueza de forma obscura sem a correspondente contribuição para a comunidade;  em que não haja outro destino possível senão aquele que por azar ou sorte a cada um calhou quando nasceu; ou em que o medo impere na modelação de todas as relações. 
 Habituámo-nos a pensar de acordo com estes padrões gerais de decência porque somos herdeiros de práticas e instituições que foram desenhadas – depois de um longo desenvolvimento histórico  - nos dois lados dos Atlântico, no mundo europeu e no mundo americano, nos finais do século XVIII; e que, depois de terem sido aniquiladas pelos fenómenos totalitários do século XX, voltaram a reafirmar-se, expandindo-se um pouco por todo o globo,  a partir da segunda guerra mundial. Democracia é o nome que em geral lhes atribuímos.
Que a democracia é coisa frágil, imperfeita e sempre difícil de definir (não pretendo que os exemplos de decência que acabei de enumerar sejam dela a definição exaustiva) demonstra-o a história escrita por Ferrante. Nápoles, onde a mesma história se passa, é uma cidade italiana; e ninguém duvidará que a Itália da segunda metade do século XX (durante a qual decorre toda a trama) procurava reger-se por critérios democráticos. Mas nem isso impediu e existência do bairro em que uma outra ordem, diversa e nefasta, imperava.
Voltamos agora, na segunda década do século XXI, a sentir bem as imperfeições da democracia, ou, pelo menos, a compreender quão difícil é garantir que os seus ideais se concretizem.
 As ideias circulam hoje a uma velocidade nunca antes vista. O destino da tetralogia napolitana é disso um bom exemplo: uma obra literária celebrada pelo seu sucesso nos Estados Unidos no verão de 2015 é oferecida ao público português, na sua própria língua, poucos meses depois. Mas a rápida circulação das ideias é acompanhada pela não menos rápida circulação dos dinheiros, dos bens e do convite global ao seu consumo ( como posso ter eu a certeza de que  o mistério  quanto à verdadeira identidade de  Ferrante, tão propalado, não é senão um hábil instrumento de marketing destinado a aumentar as vendas do seu livro?). A globalização das ideias, da informação, da economia, dos hábitos de vida e de consumo traz um “estreitamento” do mundo que, por um lado, nos deixa cheios de esperança. É bom saber-se que cada vez mais pessoas em cada vez mais pontos do globo se revêem nas mesmas obras e apreciam as mesmas coisas. Mas o que aumenta em nós o sentimento de pertença comum a um cada vez mais vasto universo humano, se traz esperança, também traz medo, incerteza, insegurança. Não é preciso explicar por que razão tal acontece. Será ainda possível, nos dias de hoje, que só o afinco no estudo e na escola permita a quem quer que seja escapar – como o permitiu à heroína  da história contada por Ferrante – ao destino fatal de um mundo opressivo? É legítimo que nos perguntemos.  Mas a legitimidade da pergunta não anula a repugnância instintiva que todos sentimos perante os destinos fatais dos mundos opressivos, quaisquer que eles sejam. Por isso, discutir a democracia que hoje temos é a melhor forma de a homenagear.  
 
Maria Lúcia Amaral
 
 
 
 
 

1 comentário:

  1. Nem de propósito, este fim de semana estourou a bomba da suposta descoberta da identidade desta escritora ;)

    ResponderEliminar