segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Portugal, 1958.




Alentejo, década de 1940
Fotografia de Artur Pastor


 
 

Huldine Violet Beamish não foi propriamente uma escritora popular ou conceituada. Além de um livro sobre cãezinhos, deixou-nos Cavaliers of Portugal (1969), sobre toureio, e The Hills of Alentejo. Publicado em 1958 pela editora Geoffrey Bles, de Londres, The Hills of Alentejo nunca foi, ao que sei, traduzido para português. A obra conta o quotidiano de uma grande herdade alentejana, propriedade de uma família inglesa que durante a 2ª Guerra se refugiou no seu país. Situada nas proximidades de Portalegre, a herdade, «Relva», fora comprada pelos Robinson, comerciantes do Yorkshire que importavam cortiça do Alentejo. Ao longo de diversos capítulos, é descrito o dia-a-dia na vida no campo (ao que parece, alguns capítulos foram originalmente publicados, sob outra forma, na Country Life). Fala-se da matança do porco, das matas de castanheiros, da horta e da caça às lebras. O estilo revela um paternalismo que, por vezes, assume contornos, digamos assim, «coloniais», não escamoteando a óbvia diferença de classes e de estatutos entre os proprietários e os seus trabalhadores. O camponês alentejano é alvo de um olhar «etnográfico», sendo visto como um bon sauvage com as suas manhas e costumes, graças e historietas. Huldine Beamish louva a sua hercúlea força de trabalho – muito provavelmente, sem se aperceber de que aí residia a prosperidade de uma exploração agrícola de onde as máquinas e o progresso estavam ausentes. Sem ombrear, de forma alguma, com Através dos Campos, de José da Silva Picão, ou com Ricos e Pobres no Alentejo, de José Cutileiro, The Hills of Alentejo bem merecia ser traduzido entre nós, até como registo histórico de um passado que já passou.
  
Alentejo, década de 1940
Fotografia de Artur Pastor
 
 
Possidónio e os outros
 
 
 
A pessoa mais importante de Relva é Possidónio, o regedor [bailiff], que se encontra ligado à família Robinson há mais de quarenta anos. Trabalhou na fábrica de cortiça, conduziu camiões, depois tornou-se motorista particular, mas as suas responsabilidades abrangem os mais variados domínios, sendo uma pessoa da máxima confiança.
Quando a família partiu para Inglaterra em 1941, a administração da propriedade de Relva ficou ao cuidado do advogado local, tendo Possidónio assumido funções como regedor principal. É espantoso constatar que um homem que passou a maior parte da sua existência numa pequena cidade, nada sabendo da vida do campo ou de agricultura, foi capaz de desempenhar as suas tarefas com tanto sucesso. Periodicamente, enviava relatórios sobre o decurso da lavoura, acompanhava as sementeiras e as colheitas, cumpria as ordens que lhe eram dadas, fazendo, em suma, um trabalho verdadeiramente notável. Como é evidente, durante os vários anos da guerra nem tudo decorreu na perfeição, mas quando a família regressou, em 1945, Relva encontrava-se muito melhor do que alguém poderia supor. 
Possidónio provém de Careiras, uma aldeia aninhada nas colinas situadas a alguns quilómetros de distância, não longe de Espanha. Tem um belo porte, denotando, porventura, a marca de uma linhagem romana ou mourisca que, em regra, confere personalidade a um rosto. E, sem dúvida, ninguém poderá ter um nome mais romano do que ele! É bem formado e muito confiável, e quando necessário, seja de dia ou de noite, está sempre no sítio certo na altura certa. A sua actual residência em Portalegre faz parte da grande casa que outrora pertenceu aos Robinson, e que permaneceu na sua posse quando a casa foi vendida.
Contudo, muito mais do que permanecer no conforto da sua casa na cidade, Puss gosta é de estar na Relva, dormindo nos armazéns onde se guardam as batatas, as colmeias e outros artigos. Ao nascer do dia, faz tocar o grande sino da herdade cinco vezes para que todos se juntem para o início de mais uma jornada de trabalho. Passa a maior parte do dia a supervisionar o labor nos campos, e volta a tocar o sino quando o sol se põe, por trás da mata dos castanheiros. Puss actua também como medianeiro entre os seus patrões e os empregados pois, sendo um deles, e conhecendo-os tão bem, é o mais apto para aquela tarefa. É também muito útil quando se suscitam questões relacionadas com usos, costumes ou tradições, tendo numerosos contactos na cidade e em todo o distrito; com a mesma facilidade, consegue rapidamente encontrar um criador de coelhos, um afinador de pianos ou um vendedor de gado.  
Puss arranja bilhetes para as touradas, lugares nos comboios, e centenas de outras pequenas coisas que tornam a vida mais fácil. Nunca discute com ninguém e tem um grande sentido de humor. Entre nós, tratamo-lo por Majesty; por um lado, para que não saiba que estamos a falar dele (ainda que eu tenha a certeza que ele tem ideia disso!) e, por outro lado, porque, na verdade, aquele nome ajusta-se-lhe na perfeição. Não sabendo falar inglês nem sendo capaz de o entender, interroguei-me sobre se teria aprendido alguns rudimentos dessa língua ao fim de tantos anos de convívio com uma família britânica; apercebi-me, no entanto, que, mal se começa a falar inglês, ele deixa de prestar atenção e nada ouve do que se diz. Nenhum dos empregados de Relva fala ou domina a língua inglesa, sendo algo estranho – mas, com frequência, muito útil – que falemos inglês na sua presença.
Uma outra pessoa importante é o guarda. Em todas as propriedades de Portugal que tenham coutadas de caça é obrigatório contratar um guarda oficial. Ainda que seja remunerado pelos donos da propriedade, encontra-se sob a alçada dos serviços florestais do Estado, e tem de obedecer às suas directivas e regulamentos. A escolha de um guarda tem de ser aprovada pelas autoridades oficiais, o que exige qualidades de carácter e um certo nível de instrução. O guarda tem de envergar uniforme, possuir documentos que o identifiquem e uma espingarda. Detém algumas prerrogativas legais, podendo, por exemplo, capturar qualquer animal bravio ou extraviado que se encontre na propriedade. Pode, de igual modo, aplicar multas em resultado de diversas infracções, pelo que tem de conhecer as regras aplicáveis aos coutos de caça, bem como os montantes das coimas.
O guarda de Relva é, em termos relativos, um recém-chegado, mas já deu provas do seu valor em inúmeras ocasiões. Quando necessário, faz vigilância nocturna; durante a estação da castanha, em Dezembro, já apanhou várias pessoas a furtar castanhas das árvores. Nesse caso, a lei dá-lhe o poder de apreender as castanhas e os sacos que as transportavam. A mata de castanheiros encontra-se situada entre uma estrada e uma aldeia, tornado o trabalho do guarda particularmente exigente durante a época da castanha.
O guarda, que tem uma jovem mulher e dois filhos, vive numa pequena casa não muito afastada dos edifícios principais. Nenhum dos seus antecessores mostrou grande interesse em melhorar ou sequer cuidar do pequeno jardim adjacente à casa. O actual guarda não só já plantou algumas árvores jovens como está a criar um pequeno porco e algumas galinhas, o que sugere que pretende fixar-se ali para o resto da vida. É um jovem extremamente sério, o que nos leva a suspeitar ser desprovido de sentido de humor. A sua posição é ingrata, pois representa a lei e a ordem – com frequência, um guarda pouco popular é sinónimo de um bom guarda. Por muito amigável que tente ser junto dos trabalhadores da herdade, é obrigado a reportar qualquer irregularidade de que tenha conhecimento, o que lhe vale ser alvo de inimizades e maledicências. Por exemplo, há uns tempos foi acusado de abusar de uma das raparigas da horta, ainda que tudo não tenha passado de uma invenção dela, num acto impensado.  
Saldanha vive na cidade; está ao serviço da família há muitos anos, e a dada altura chegou a trabalhar na casa como mordomo. Ainda que seja extremamente educado para com a família, não se livra da fama de ter mau feitio e uma língua afiada. De tempos a tempos, chegam aos ouvidos da casa algumas histórias sobre ele. Mas é um trabalhador muito útil, que, envergando jardineiras e um boné de pala, transporta o leite para as imediações de Portalegre, onde o vende a clientes habituais, prestando contas, impecáveis, todas as semanas. Actua igualmente como uma espécie de oficial de ligação entre a cidade e Relva, trazendo notícias bizarras de acontecimentos estranho. De vez em quando, chega a percorrer a pé oito quilómetros até à casa para trazer a informação sobre a indesculpável rudeza de alguém, ou porque julga ter direito a receber alguns produtos da horta ou um punhado de azeitonas. Saldanha é uma peça valiosa na máquina de Relva, especialmente agora que o leite começa a ter um papel cada vez mais importante no dia-a-dia das gentes do povo.
Os trabalhadores mais velhos de Relva são geralmente brindados com um “Ti” a anteceder os seus nomes de baptismo. Trata-se de uma abreviatura da palavra Tio, que à letra significa tio, e por vezes as mulheres mais velhas são também chamadas “Ti”, pois Tia significa tia.
No Portugal rural, a questão dos nomes é muito complexa, e nunca chegamos a entendê-la por completo. Parece que não existem apelidos. Como é óbvio, de um ponto de vista legal ou oficial há apelidos, registados algures em documentos escritos. Na prática, porém, usa-se apenas os primeiros nomes, e indivíduos com nomes vulgares como José, João ou Joaquim são apelidados com uma palavra que o distinga, como Manuel da Vinha Grande ou José das Azeitonas. Actualmente, trabalham na herdade três Joões. Chamam-lhes João das Maravilhas (ou dos Milagres), João Bonito e João Lindo – é só escolher!
Ti Joaquim era o hortelão, responsável por dez hectares de uma horta e de um pomar. O seu ajudante era António Pataco, que o substituía quando aquele estava doente ou tinha de se ausentar.     
As pessoas deram-lhes alcunhas, mas, por mais que tentasse descobrir, nunca consegui saber ao certo qual a sua origem e o seu significado. Apenas sei que provinham de uns versos brejeiros e que os dois visados, quando os ouviam, ficavam muito agastados. Pataco era Ti André e Joaquim era Rosinha, o Pequena Rosa.
Não havia ninguém que se parecesse menos com uma pequena rosa do que Joaquim, com um rosto de pele curtida, a perna estropiada, barba de semanas a crescer-lhe na cara. Costumávamos chamar-lhe Grumbletubs, dada a sua propensão para resmungar [grumbling], à semelhança, aliás, dos da sua índole. Na juventude, Grumbltubs foi soldado e mineiro e não tinha a destreza de mãos dos seus companheiros da herdade. Compensava essa falha com um conhecimento apurado do seu ofício, e recordava várias vezes a semeadura daquelas terras, uma tarefa nada fácil, tendo em conta a variedade dos produtos cultivados e a dimensão da propriedade.  
O seu ajudante, Ti André, não guarda memória de nada, o que é uma pena, pois era ele que fazia todo o comércio com o exterior quando levava o leite à cidade ao raiar da manhã. Trazia telegramas e mensagens importantes, de que invariavelmente se esquecia no bolso. As ordens que lhe eram dadas verbalmente voavam como um bando de andorinhas. Não tinha vergonha alguma e até se ria destas coisas. O riso de Ti André era digno de se admirar, pois quando se ria o seu rosto adquiria milhares de formas.
No entanto, tinha várias coisas a seu favor. Era capaz de cavar como qualquer outro e, tendo aprendido o ofício da cestaria, todos os cestos de Relva foram feitos por ele. Era também um padeiro razoável, à semelhança de muitos dos homens que por aqui trabalham. O pão é feito de trigo produzido na herdade, sendo depois cozido num grande forno que existe no pátio. Ti André também nunca falhava ao vir à casa buscar o leite, ainda de noite, às primeiras horas da manhã, para o transportar à cidade num carroça puxada por mulas.
Tinha algumas pretensões em matéria de instrução. Aos sábados, quando prestava contas, apresentava-se com um caderno pejado de hieróglifos estranhíssimos, que ninguém era capaz de entender – nem sequer o próprio, provavelmente, pois dizia as contas de cabeça; mas para ele andar em público com um caderno debaixo do braço era um sinal de distinção. Na sua juventude, gerou uma vasta prole, falando com alguns dos filhos, mas com outros não. Com o filho mais velho, que também trabalhava em Relva, nunca trocou uma palavra sequer.
Um dia, o velho homem chegou da cidade em prantos e lamentos. Julgámos que a sua mulher, também avançada na idade e doente, se encontrava às portas da morte. Mas não, era a sua mãe que agonizava, e todos os seus filhos e filhas disputavam acaloradamente a herança – como acontece aos herdeiros em todo o mundo –, no pânico de não ficarem com a melhor parte.
Ti André era conhecido pelas suas manhas. Um dia, ele e o Rosinha andavam a ensacar batatas e Ti André encheu um saco com batatas criteriosamente escolhidas. No fim da jornada, pediu para comprar o saco para a sua casa, e perguntou o preço. Infelizmente, o Rosinha, que provavelmente estava de mal-humorado, exigiu uma quantia elevada e Ti André teve de pagar um preço extra pelo saco que havia escolhido. Todos riram alto e bom som da esperteza do velhote, sendo ele o que mais riu, pois sempre teve grande sentido de humor.            
O Rosinha levou toda a vida muito mais a sério, julgo que por ter sido constantemente atormentado pelo reumatismo e pelas dores. Num Natal, recebeu de presente um par de galochas de borracha, cortadas na parte dos pés, que muitas pessoas usam como calças quando o tempo está húmido. «Olhem, o Rosinha anda de meias pretas!!», troçou alguém. O certo é que as galochas desapareceram durante quase um ano, só voltando a ser usadas no Outono seguinte, quando a maioria do pessoal da herdade já se tinha ido embora.
Noutra ocasião, a esposa do Rosinha – chamo-lhe «esposa» por cortesia – herdou uma pequena soma, equivalente a umas 120 libras, o que deu motivo para várias brincadeiras e piadas. Estávamos sempre a pedir-lhe dinheiro emprestado para poder pagar os salários aos sábados. Numa segunda-feira de manhã, chegou à casa todo orgulhoso, com uma corrente e um relógio novos, que por estas bandas são o maior sinal de opulência. Cerca de uma semana depois, tendo sabido que a sua mulher comprara um relógio de pulso para ela, ficou furioso – para que é que a velha precisa de um relógio de pulso? Estúpida da velha! Que cruel para a velha senhora, pensei eu, tendo em conta que a herança era dela. Mas, neste país, os homens guiam-se pela máxima: «o que é meu, é meu; o que é teu, é nosso».
Ti André morreu repentinamente há cerca de um ano, o que permitiu reformar o seu amigo, o Rosinha, que já estava inapto para o trabalho e mal conseguia andar. No entanto, ainda se sente a falta de ambos na horta e no pomar, os dois perdendo-se com ninharias, cavando, semeando, plantando couves e sentando-se a descansar ao sol quando julgavam que a costa estava livre.
Maria Helena, a filha mais nova de António Amant [sic], o carreteiro, tem um rosto pequeno e bonito, uma bela figura, e a força de um leão. Está sempre ocupada a cortar e a apanhar folhas de couve para os porcos. É também ela que lhes prepara a comida, levando-lha s duas vezes por dia, de manhã e à noite. É aí que se nota a sua força extraordinária, pois consegue carregar duas gamelas com comida para os porcos quando um homem teria dificuldade em transportar apenas uma gamela. Maria Helena lava as vasilhas de leite duas vezes por dia, primeiro com água fria e enxaguando-as depois com água e limão. Lava as verduras antes de irem para a casa e faz qualquer serviço que lhe peçam, seja nas imediações da casa, seja no jardim. Quando o pessoal doméstico escasseia por algum motivo, vem trabalhar para a casa, lavando os vegetais na cozinha, fazendo limpezas ou outras tarefas parecidas.  
Um dos trabalhadores habituais da herdade, José Meira, propôs-se este ano fazer as colheitas em regime de empreitada, ou seja, realizar o trabalho por uma quantia previamente estipulada por mútuo acordo, com base num cálculo do número de horas necessárias para o serviço. Por norma, todo o pessoal da herdade é empregue nas colheitas, uma actividade crucial, mas achámos que devíamos experimentar a ideia de José – o que suscitou algum mal-estar entre os outros trabalhadores, pois as colheitas são uma tarefa muito disputada.
Note-se, contudo, que o trabalho em empreitada é muito praticado. O homem que é chamado observa o terreno, faz a estimativa do número de dias de trabalho que tem de despender e depois sugere um valor global, sabendo de antemão que todo o tempo e dinheiro que conseguir poupar reverterão a seu favor. Por exemplo, se for capaz de fazer em cinco dias um trabalho planeado para sete, ficará para si com dois dias de lucro. Financeiramente, é compensador, mas implica um esforço suplementar e muito árduo.  
A ideia inicial de José era trabalhar ele próprio, a sua mulher (a quem, por mais estranho que pareça, paga um salário), o seu irmão e outra mulher. Empunhando as suas foices (a gadanha não é muito usada por estes lados), começaram pelos campos de cevada, uma colheita que veio a revelar-se tão ou mais dura do que as outras. Nos primeiros dias, estavam animados e tudo corria pelo melhor, e o grupo conseguiu apanhar uma enorme quantidade de cevada a um ritmo extraordinário. Paravam apenas para uma breve refeição ao meio do dia, e para jantar, já de noite, muito depois do sol se pôr. Durante as seis semanas de colheita, não é exagero dizer que trabalharam uma média de catorze a dezasseis horas por dia.            
Ao fim de cerca de uma semana, a mulher desistiu e o irmão de José Meira desapareceu. Julgo que a mulher achou aquele ritmo insuportável, e que o irmão de José tinha a sua própria colheita para fazer. José Meira continuou como pôde, empregando gente estranha de vez em quando, incluindo até o seu velho pai. A mulher labutava o dia inteiro. Levavam-lhe a comida, as panelas, os dois filhos pequenos; dormiam no restolho, por vezes perto de um castanheiro, outras num lugar mais confortável, rodeados por feixes de palha. Geralmente, José começava a trabalhar às quatro e meia da manhã e, com um breve intervalo para descansar, comer ou dormir, continuava até às onze e meia ou à meia-noite – «até que a lua tenha a altura de um homem no cimo de um monte».
Como é óbvio, todo o trabalho extra que fizesse era lucro que contava a seu favor. É extraordinário ver até onde as pessoas podem ir quando estão a trabalhar em benefício próprio. Mas o ritmo abrandou. Quando acabaram o centeio e tiveram de enfrentar um campo de trigo cujos fardos pesavam imenso, sentiram certamente o peso da pressão a abater-se sobre eles. Nunca o mostraram e, quando por eles passávamos ao entardecer e estavam a trabalhar, não deixavam de dizer uma graça qualquer. Sempre que nos aproximamos dos que trabalham no campo, estes adoram parar o que estão a fazer para uns minutos de conversa. Contudo, tal não sucedia com o nosso José, nem com a sua mulher. Continuavam a trabalhar enquanto falavam, sem pararem sequer um segundo.
A colheita de trigo mostrou ser muito maior e mais pesada do que aquilo que julgavam e, no final das seis semanas de colheitas, quando ele trabalhava apenas com a ajuda da mulher, demos-lhe um ajudante. Acabaram a empreitada enquanto o trigo estava a ser carregado em medas. Recebeu também uma compensação financeira, pois a estimativa que fizera era-lhe claramente desfavorável. José começara a trabalhar com um par de calças impecável mas, no final da empreitada, parece que houvera uma briga entre o trigo e as calças, tendo estas últimas um aspecto completamente indecente!  
Na última noite, quando o trigo já estava convenientemente amontoado em medas, em vez de ir directo a casa e atirar-se à cama para dormir dias a fio, José foi tratar da sua colheita de milho, perto dali, carregando depois do pôr-do-sol um fardo suficientemente pesado para ser transportado por uma mula. Disse que queria começar a semear o seu milho logo na manhã seguinte, ao raiar do dia. E perguntou se alguém já tinha feito contrato connosco para a apanha das ervas, pois ele e a mulher estavam dispostos a realizar esse trabalho numa empreitada idêntica à anterior.
 Tudo isto é muito elucidativo, especialmente para quem já tenha observado a atitude e o comportamento dos camponeses doutros lugares. O caso de José Meira não é excepcional; o seu feito demonstra apenas o esforço colossal que esta gente das montanhas é capaz de fazer, algo que muitos europeus esqueceram há vários anos – em larga medida, devido à sua grande amiga, a máquina. Do princípio ao fim, José trabalhou nas colheitas como só «os homens para lá do monte» (perto de Espanha) são capazes de trabalhar. Nada desperdiçava ou deixava para trás, nem sequer uma palha ou um grão, apanhando tudo como se fosse seu. Não era um Hércules, pelo contrário; baixo e magro, parecia ser feito de ferro. Não foi a força dos músculos mas a alma e a energia que conseguiram que um trabalho daqueles fosse feito.
 Não é a primeira vez que teço os maiores louvores aos camponeses portugueses, e estou certa de que não será a última.     
 
Huldine V. Beamish
 
(tradução de António Araújo)
 
        

2 comentários:

  1. Fiquei muito curiosa, vou ler esse The Hills of Alentejo. Obrigada.

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