quarta-feira, 8 de julho de 2026

João Pedro Marques: Trabalhar Cansa (I)

  


 

          Ofereceram-me o último romance de João Pedro Marques (JPM). Estremeci de emoção. Presentaço! Foi um momento muito especial: qual o português que nunca sonhou, um dia, receber um livro de JPM?

          Em segunda mão, ligeiramente usado, profusamente anotado, comprado na loja Re-Read da Pascoal de Melo, Um de Nós Deve Lembrar-se é o décimo romance de JPM (e agora o meu livro de cabeceira). Perguntar-me-á o leitor qual deles prefiro. Eu respondo: os dez! Li-os todos. Li-os sentado, de pé, sem mãos, de costas, deitado no chão, de cuecas, a lavar a loiça do pequeno-almoço e o chão da cozinha, a varrer o corredor, a limpar o pó dos móveis, a escovar os dentes, a barbear as axilas, a tomar banho de água fria, a secar o cabelo, a molhar bolachas Maria no café, a olhar fixamente para a chávena, a subir as persianas, a tomar pingos para a sinusite, a dar comida ao canário, a fazer arranjos de costura. Durante semanas, JPM acompanhou-me como um duplo, foi um companheiro com quem brincar, um fornecedor de entretenimento e um veículo de informações simplificadas.

          Os portugueses consomem romances geralmente maus, de conteúdo desagradável, prejudicial à saúde psicológica, escritos por autores sem alma, sem voo e sem rasgo, feitos de lugares-comuns e estilo inexpressivo. Mas não é preciso falar mal de ninguém para falar bem de JPM. Até porque Portugal é o único país do mundo que tem um romancista como ele.

          JPM não carece de apresentação. É um autor tão comprado e tão lido que se torna desnecessário e dispensável lembrar que fez 77 anos no passado dia 15 de Junho e que nasceu em Lisboa sob o signo de Gémeos (ou seja, com uma personalidade curiosa e comunicativa e uma mente ágil, regido pelo elemento ar e pelo planeta Mercúrio, mas também propenso à indecisão e à dualidade).

          Espírito independente e rebelde, JPM emancipou-se aos 18 anos e, já maior de idade, decidiu mudar-se "de armas e bagagens para casa dos avós, na Avenida do Restelo" (cada um tem o seu método de romper o cordão umbilical com a família; mudar-se para a casa com piscina dos avós no Restelo foi o grito do Ipiranga de JPM). De resto, as semelhanças entre JPM e o avô eram bem maiores que as diferenças: JPM "não era uma pessoa muito sociável" (p. 51), tal como o avô, que era "um homem pouco sociável" (p. 53).

          Como já perceberam, o novo romance de JPM tem muito de autobiográfico – a sua ficção é confessional e, ao mesmo tempo, conceptual – nomeadamente em quase tudo o que diz respeito à personagem João Pedro Simões (por espantosa coincidência, o nome civil do romancista é João Pedro Simões Marques), através do qual ficamos a conhecer as suas "bolhas nas pontas dos dedos de uma mão" (estranha revelação, que tanto tem intrigado os fãs de JPM); a escola onde fez o ensino secundário (Liceu Nacional de Oeiras, actual Escola Secundária Sebastião e Silva), ali recordado para sempre como o "caixa de óculos" (p. 47); a forma como bebia o café, em quatro ou cinco goles; ou a passagem, "sem honra nem proveito", pelo Instituto Superior Técnico (p. 51), onde fez apenas uma cadeira.

          Tímido e filósofo (p. 33), teimoso e persistente, dono e senhor de uma criatividade multiforme e multiangular, o adolescente JPM levava tudo a sério (p. 34) e a sua caneta da sorte era uma Parker. Arrogante e com grandes dotes de eloquência, considerava-se superior aos outros, possuindo um elevado amor-próprio, daqueles que acham que sabem tudo.

     Em bom rigor, João Pedro Marques "tinha um sentido de independência absolutamente selvagem e perdulário que não olhava a consequências na defesa da sua autonomia e liberdade", o que o levou a mergulhar numa vida de aventuras, como ter conduzido um dos primeiros Honda 600 que apareceram em Portugal, "com o qual venceu o Tó Zé Tamagnini numa corrida louca em redor de um quarteirão do bairro" (Um de Nós Deve Lembrar-se, pág. 50).

          Em 1967, como já foi dito, aterrou no curso de Engenharia do Instituto Superior Técnico. A experiência desse primeiro ano, com o futuro romancista passando a maior parte do tempo na conversa, a jogar matraquilhos, em salas de cinema, a fumar, a beber, a ler revistas de automóveis e a "desafiar o mundo" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 51), determinou a sua formação e exprime, de modo particularmente feliz, o espírito de que se tem alimentado a sua imaginação poderosa.

          Hedonista, e dado ao desporto automóvel, abandonou tudo e, depois de muito reflectir, percebeu que a sua vocação era a História na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em 1980, ano em que concluiu a licenciatura, começou a exercer as primeiras profissões, que eram duas: docente de liceu e, às noites, cientista social. Tido e havido como excelente professor, conquistando a estima e a admiração dos alunos e dos colegas, foram vários os anos que devotou ao ensino e à investigação historiográfica.

          Mais tarde, no ano de 1987, decidiu que queria ser o nosso Homero e o nosso Esopo. Autodisciplinado, perfeccionista, detalhista e minucioso, entregou-se a uma carreira académica brilhante, nomeadamente no Centro de Estudos Africanos e Asiáticos, do Instituto de Investigação Científica Tropical. Ofício exaltante e possessivo que o levou a mergulhar no estudo beneditino de todas as fontes (impressas e manuscritas) da sua nova área de estudo: a história da escravatura e do abolicionismo. Durante esse infrene apostolado, queimou as pestanas a reunir, confrontar e compulsar toda a documentação disponível, atacando-a por todos os lados. Horas e horas de pesquisa febril sobre praticamente tudo o que era possível saber do assunto.

          Enrolado como um tapete persa, sobre a mesa de trabalho, JPM devorou todos os livros sobre a escravatura, o abolicionismo e o colonialismo (os exemplares anotados de todas essas obras, pertencentes à sua biblioteca particular, valem hoje muitos milhares de euros). Estendeu a rede da sua curiosidade tão longe quanto podia e, ainda jovem, tomou-se de amores pelo "nomadismo euro-asiático", sobre o qual publicou belos pensamentos (muito bem arquitectados) na revista francesa L'Homme (não, não. Não se trata de uma publicação masculina tipo Men's Health, dedicada ao bem-estar, nutrição, perda de peso e treino físico dos homens, mas sim de uma das mais prestigiadas revistas científicas da antropologia europeia).

          Curiosamente, foi a partir do contacto com esse texto fundamental que me tornei um fanático de JPM: se me perguntarem quais as coisas boas que já me aconteceram na vida, diria que, entre elas, está o ter descoberto JPM (a minha vida adulta começou, praticamente, nesse dia). Depois disso, li e reli os seus ensaios no meu pequeno quarto do bairro da Graça, em Lisboa. Lia também Margarida Rebelo Pinto e Pedro Chagas Freitas, tubarões da cultura portuguesa, génios sem data. Mas foram as reflexões de JPM que mais me marcaram. Tenho encontrado, pela vida fora, muitos autores portugueses, mas JPM é, de longe, a minha melhor descoberta (descoberta tão decisiva, embora a nível individual, como o foram, no seu tempo, as descobertas sobre a lei da gravidade ou sobre a relatividade).

          Da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (Universidade Nova de Lisboa) trouxe JPM um doutoramento pioneiro e inovador (duas características raramente encontradas em simultâneo), que daria origem a um livro cujo título, também inovador – Os Sons do Silêncio – se inspira, remotamente, na canção da dupla norte-americana de folk rock Simon & Garfunkel (The Sounds of Silence).

          Na página da Wikipédia que JPM escreveu para todos nós (e para deleite próprio), o romancista conta dramaticamente a sua carreira e o início da sua vocação de historiador, apresentando, ainda, uma interessantíssima reflexão sobre as "qualidades especiais" que o converteram num excelente e fabuloso investigador académico, não caindo na falsa modéstia daqueles que preferem ocultar as suas virtudes. Segundo ele, foi com Os Sons do Silêncio que JPM "atingiu relevo e notoriedade como historiador, tanto em Portugal como no estrangeiro. Efetivamente, foi autor dos primeiros (e, até à data, únicos) estudos aprofundados sobre a forma como Portugal lidou com o problema da abolição do tráfico de escravos e da escravidão. O seu livro Os Sons do Silêncio. O Portugal de Oitocentos e a Abolição do Tráfico de Escravos foi considerado pela revista Análise Social 'uma pedra angular para a História de Portugal, assim como para a de Angola e do Brasil'. O livro foi traduzido para inglês, publicado em Nova Iorque e Oxford e teve um assinalável impacto entre os maiores historiadores estrangeiros da especialidade porque veio colmatar uma grande e muito lamentada lacuna. De facto, pouco se sabia sobre a forma como Portugal, o pioneiro do tráfico transatlântico de escravos, pusera fim à sua participação nesse comércio. João Pedro Marques preencheu essa lacuna historiográfica e o seu trabalho foi elogiado no estrangeiro por um grande número de historiadores e revistas de História" (Wikipédia).

          Aos olhos do próprio, JPM foi o iniciador dos "estudos aprofundados sobre a forma como Portugal lidou com o problema da abolição do tráfico de escravos e da escravidão" (ainda a Wikipédia). Proeza que, naturalmente, lhe permitiu adquirir a condição de fenómeno, tornando-se no mais português dos historiadores portugueses.

          Mantendo com a sua própria história de vida uma relação quase física, selvagem, ou até mesmo autoerótica, JPM, quando decide fazer uma coisa, fá-la: divorciou-se da vida universitária e dedicou-se às letras (à qual, no fundo, se sentia ligado desde o cordão umbilical). Após 20 anos de glorioso reinado como historiador, JPM comportava todos os sonhos de quem queria entrar na cena artística.

          Percebendo que a escrita de JPM anunciava uma nova época de esplendor do romance português, a Porto Editora, a mais ousada e inovadora casa editorial do nosso país, publicou todas as obras forjadas na sua bigorna literária.

          Desde esse momento, e tal como as galinhas desde que se inventou o ovo, JPM escreveu romances uns atrás dos outros, que vieram prolongar, ou mesmo revolucionar, facetas da sua notável carreira como historiador, não através dos documentos, mas através da ficção. Mas uma ficção que ilumina a realidade.

          De certo modo, JPM sempre foi um historiador em trânsito para se tornar romancista. Nas suas fotografias, publicadas um pouco por todo o lado, JPM veste-se como romancista, tem cara de romancista, olhar de romancista, cabelo de romancista, barba de romancista.

          Nada deixando escapar de essencial sobre a sua especialidade – JPM é um especialista e um especialista percebe de especialidades –, o autor de O Prazer de Guiar não é apenas uma máquina de pensar. É ainda, e sempre, um espírito universal.

          Desenhado para contar histórias, o seu cérebro é fruto de uma evolução de milhares de anos. Especialmente equipado para entender a lógica das narrativas que despertam o interesse de todos, inclusive em pessoas alheias às letras e à literatura, a sua capacidade de dominar o leitor, de o manipular e de o prender aos seus livros, fazendo com que vire as páginas compulsivamente, é equivalente ao poder dos caniches perante os donos, conseguindo que estes façam qualquer coisa por eles.

          Sobre o seu percurso de intelectual público, invulgar e extraordinário, importa acrescentar, contra o que pode parecer, que JPM é um homem dominante, dono de si próprio, sempre controlador, com poses viris (as ruas de Lisboa não são suficientemente largas para ele), exibidas nos melhores redutos machos, como o restaurante 2Good, mas também em ambientes familiares como a pastelaria O Careca ou os gelados Chile, todos ao Restelo.

          Apesar da sua constituição franzina – de estatura baixa, pode ser considerado um belo septuagenário para os que admiram o seu género de beleza –, JPM representa a imagem do escritor como cavaleiro andante, ou aristocrata das Cruzadas. Em 2018, ofereceu os seus préstimos ao jornal Observador e, a partir de então, passou a fazer ali uns bicos, escrevendo crónicas sem cessar, cuidadosamente ponderadas, mas confrontando também, com admirável destemor, a nova praga que infesta o país. Todas elas contra o wokismo – das mais de 160, só abriu duas excepções, uma delas para discorrer sobre a problemática das corridas de automóveis da Fórmula 1 –, porque, segundo ele, não existe melhor tema de reflexão, nem as crises humanitárias, nem as ameaças à paz mundial, nem o aquecimento global, nem a pobreza, nem a desinformação: o wokismo mobiliza-o todo, concentra nele todo o impetuoso amor que um homem sente por um filho único, mas tresmalhado.

          Se há quem não suporte um determinado tipo de perfume, JPM (o qual também é dono, diga-se em prol da verdade, de uma memória extraordinária para perfumes) é alérgico a tudo quanto cheire a correntes "woke", politicamente correctas ou antirracistas. Espirra sempre que uma baforada de políticas identitárias contemporâneas, revisionistas da história de Portugal, chega às suas narinas.

          Não vale a pena. JPM tem uma fobia: o wokismo. No decurso da sua vida, algo aconteceu, que ninguém sabe dizer, para JPM estar imbuído de um ódio feroz para com tudo o que seja woke. No Observador, passa activamente o seu tempo a ajustar velhas contas com o inimigo. Recorre muito a títulos certeiros, com os nomes dos alvos em caixa alta, e lança os argumentos com uma precisão absoluta (o ódio insaciado que o mina, e no qual mergulha por completo, mostra a excelência das velhas virtudes portuguesas).

         Leitor de Jordan Peterson (psicólogo canadiano, papa do pensamento conservador, que JPM cita nas entrevistas), o colunista do Observador é um amante das tradições e das hierarquias. Prefere as coisas boas do passado e despreza as novas, defende que se deveria assimilar o novo ao velho, pondo aquele ao serviço deste (o que não é de estranhar em alguém que saiu de casa dos pais para ir viver para casa dos avós, com piscina).

          Desde que caiu no regaço do jornal Observador, tornou-se um vulto destacado, quase solitário, na luta contra as leituras simplificadoras ou ideologicamente orientadas do passado português. Vi-o uma vez a caminho do Observador, na Rua João Saraiva, em Alvalade. Lá ia ele, a saltitar pelo passeio, de peito cheio como um pombo, vestido segundo as circunstâncias (avistá-lo, como num travelling cinematográfico, produziu uma grande impressão em mim). Tocou à campainha e ficou alguns minutos à porta, agarrando com força o guarda-chuva, como se estivesse à espera numa estação de comboios até que alguém o fosse buscar.

          Com o seu porte clerical, JPM e a força da sua pregação têm agradado muito às caixas de comentários do Observador (dá gosto ler esses textos breves assinados por alguns reformados, onde se dizem coisas lindas).

          Atormentado e obsessivo, corrosivo e implacável, JPM é um mestre em desmanchar os argumentos da esquerda, cortando sempre a direito. Daí a facilidade de gerar algumas antipatias. Mas JPM não tem culpa de nada disso. Não tem culpa, por exemplo, de escrever sobre os seus antagonistas como se estivesse possuído pelo expressionismo alemão.

          Cronista, e dos melhores – género em que já é um grande nome nacional –, JPM é um artista até à medula dos ossos, diria mesmo um Autor Total. Como nas matrioskas, as célebres bonecas russas, as crónicas de JPM contêm, em si, um ficcionista, simpático e interessante, o qual, por sua vez, esconde no seu interior um pequeno historiador em miniatura.

          Uns e outros estão cheios de fios que basta puxar para a meada da ficção, da crónica ou da historiografia vir logo atrás. Na verdade, quando lemos os romances, parece que estamos numa obra de História e quando lemos as crónicas, parece que estamos num romance: nas crónicas de opinião vive-se a ficção e nos romances vive-se um misto de crónica de opinião e de pesquisa histórica. Tornando-se difícil dizer se JPM é melhor historiador, melhor romancista ou melhor cronista, já que as três actividades se combinam intimamente em tudo o que leva a sua assinatura. Dum ou doutro modo, num ou noutro sentido, cada JPM remete para outro JPM e este para outro JPM e assim sucessivamente ad infinitum.

          Aproveitando um fragmento de autobiografia de uma das suas crónicas do Observador, JPM escreveu "sete livros de História, dois dos quais publicados em Inglaterra e nos Estados Unidos, muitos textos científicos, dez romances e 250 artigos de opinião na imprensa, artigos esses que estão, na sua grande maioria, reunidos em três livros" (Combates pela verdade: Portugal e os escravosDescobrimentos e Outras Ideias Politicamente Incorrectas e Reparações e Outras Penitências Históricas, que o autor deu à luz em 2020, 2023 e 2025, respectivamente).

          Bem vistas as coisas, os manuais de História, os textos científicos, os romances e os artigos de opinião unem-se para formar um sistema de vários eixos coordenados, uma espécie de sonho global enfim realizado por esta estrela do nosso firmamento literário, a cujo estudo os futuros especialistas dedicarão anos da sua vida.




          Livros para ler e reler

 

          Nestes tempos que descuidam o culto da boa literatura, fui reler todos os romances de JPM (não há como pegar num livro de JPM para começar bem o dia). Fi-lo de forma selvagem, deixando-me surpreender, entregando-me a uma espécie de libertinagem literária. Uma orgia dos sentidos, digna dos deuses.

          Foram leituras rápidas, breves, fragmentadas e superficiais. Até porque, como JPM sabe, não costumo ler os livros "da primeira à última página", o meu método de leitura é "apressado", prefiro ficar-me por alguns "nacos significativos" (cito por extenso: "uma investigação algo descuidada e apressada, o que não abona a qualidade do seu trabalho. Aliás, George confessou em tempos, numa entrevista ao jornal Sol, que pode não ler os livros 'da primeira à última página', mas ficar-se apenas por 'nacos significativos'. Não é de excluir que nem isso tenha acontecido na leitura deste meu livro e que os tais 'nacos significativos' tenham sido, nesse caso, apenas esparsas migalhas", Observador, 13 de Fevereiro de 2026). Na verdade, já experimentei ficar-me pelos nacos pouco significativos, mas gastava o mesmo tempo e percebia ainda menos o que estava a ler. Outras vezes li na íntegra e não fiquei mais informado por isso.

          Além do mais, e essencialmente, como não tenho um olhar muito informado sobre este tipo de "alta literatura", o meu nível de análise é irremediavelmente primário (ao contrário de JPM, superiormente secundário). De resto, nunca fui um leitor habitual nem um fanático da grande literatura ocidental. Abri uma excepção com os livros de JPM. Porquê? Porque aqueles romances emocionam-me, mexem comigo. Sinto-me habitado pelas suas histórias e pelas suas personagens. Choro quando leio algumas partes comoventes. Solto gargalhadas, porque JPM também é um grande humorista, herdeiro da sátira tolentiniana. Revolto-me nas páginas em que denuncia a violência física e a crueldade mental.

          Eu, em particular (cada um fala por si), fico preso aos romances de JPM. Impregnado deles. Literariamente possuído. Parece que podia viver dentro deles. Consigo ouvir as vozes que ali se justapõem, até mesmo quando os não estou a ler. Por vezes, essas vozes soam-me estranhas, são e não são minhas.

 



          JPM era já autor de Os Dias da Febre (2010) – cuja acção decorre em 1857, em Lisboa, durante uma epidemia de febre-amarela que matou milhares de pessoas – quando explodiu com Uma Fazenda em África (2012), romance que começa em 1848, época em que uma centena de portugueses emigra do Brasil (Pernambuco) para Angola (Moçâmedes), aí fundando uma colónia agrícola. Graças ao sucesso deste livro – Uma Fazenda em África vendeu milhares de exemplares –, o seu nome passou a ter um grande eco no espaço mediático.

          Os romances O Estranho Caso de Sebastião Moncada (2014), Do Outro Lado do Mar (2015) e Até ao Fim da Terra (2023) podem ser inseridos na mesma ordem de ideias. Não só porque decorrem no século XIX, mas também porque neles o autor septuagenário usa a repetição para extrair todas as possibilidades literárias que a linguagem oferece. De certo modo, a repetição é uma forma de trabalhar em profundidade a percepção que temos da linguagem e do tempo, criando uma espécie de ilusão de óptica sobre a própria técnica literária, para assim lhe conferir mais sobriedade e acuidade (a cumplicidade que se cria entre JPM e o leitor advém do uso de uma linguagem reiterativa, com ecos que se repercutem de romance para romance, criando um sistema de referências que ambos partilham, mas isto será explicado mais adiante).

          O Estranho Caso de Sebastião Moncada (2014) gira em torno da investigação do assassinato, numa estalagem da Foz do Douro, dos amantes Sebastião Moncada e Francisca, e tem como pano de fundo o desembarque do exército liberal de D. Pedro nas praias do Mindelo, com o objectivo de ocupar a cidade do Porto.

          Do Outro Lado do Mar (2015) conta a história das andanças do médico Vasco Lacerda: depois de chegar ao Brasil, na Primavera de 1833, é raptado e levado para os sertões de Angola num navio negreiro, tomando aí contacto com o mundo da escravatura, para finalmente regressar à "Terra dos Papagaios" e montar na Baía um consultório para "gente de posição", altura em que se apercebe das profundas injustiças em que assenta a vida naquele território (como o próprio JPM disse numa entrevista ao saudoso Jornal de Letras, Artes e Ideias, em 9 de Outubro de 2015, Do Outro Lado do Mar é um romance que "tem descrições muito fortes").

          O enredo de Até ao Fim da Terra (2023) evolui na época em que as tropas napoleónicas do exército de Massena invadiram Portugal, ocupando e saqueando as povoações da região de Coimbra, enquanto as forças luso-britânicas de Wellington recuavam estrategicamente para as Linhas de Torres Vedras, acompanhadas por milhares de civis que fugiam da guerra.

          JPM publicou ainda dois romances com acção circunscrita ao século XX, Vento de Espanha (2017), durante a guerra civil espanhola, e A Aluna Americana (2019), que recua a Novembro de 1968, depois da queda de Salazar, em plena contestação estudantil ao regime do Estado Novo, e ao início da ilusória Primavera marcelista, cujo protagonista (José Duarte) é um alter-ego de JPM.

          Espírito moderno, JPM não desdenha o futuro, de que é minucioso conhecedor, como se percebe em O Prazer de Guiar (2021), livro com intriga tecida no Portugal do ano de 2032, quando a vida colectiva e individual é automatizada, robotizada, regulamentada, controlada, mas também asséptica, fria, desumana: as máquinas e os computadores substituíram as pessoas, incluindo na condução dos automóveis. Ou seja, a loucura institucionalizada do mundo do futuro através das inovações tecnológicas.

          Em 2025, não cessando de nos surpreender, o fecundo romancista publicou Haiti. Um Romance Tropical, que recua novamente no tempo, agora ao finais do século XVIII, para nos transportar até à antiga colónia francesa do Haiti, durante o período das revoltas de escravos que antecederam a independência daquela bonita ilha do Mar do Caribe, quando ainda não era o sítio ideal para passarmos férias.

          Um de Nós Deve Lembrar-se, o mais recente, não é uma digressão sobre o Alzheimer, mas recorda-nos algo tão simples, e ao mesmo tempo tão essencial: JPM é um escritor arrojado, que se despe e se mostra inteiramente nu. Revisitando a juventude nos finais da década de 1960 e inícios da seguinte, no ambiente social do bairro lisboeta do Restelo, quando os protagonistas ainda são adolescentes (ou a começar a idade adulta) e crescem sob a ameaça do serviço militar obrigatório e da mobilização para a guerra em África, o autor sai em busca do tempo perdido, por influência de um sabor que voltou a perceber num dos croissants tipo brioche d'O Careca.

          De certo modo, e à sua maneira, Um de Nós Deve Lembrar-se é uma vibrante homenagem à série de televisão Conta-me como Foi, que estreou na RTP em 2007. Embora a origem social dos protagonistas não seja exactamente a mesma (família de classe média de um bairro social de Lisboa, na série, jovens do privilegiado bairro do Restelo, no romance), a verdade é que o livro recorda, em muitos aspectos, com o seu caudal de clichés nostálgicos, a série interpretada pelos actores Miguel Guilherme, Rita Blanco e outros.

          Tal como na história do pequeno ecrã, o romance de JPM retrata o ambiente social do país recorrendo a uma série de referências sobre a época em que Salazar "estava incapacitado e com os pés para a cova" e Marcello Caetano "pouco mostrava do imenso que prometera". As suas personagens lêem o jornal República, trabalham numa agência do Banco Fonsecas & Burnay, ouvem Françoise Hardy, Adamo, Beatles, Joan Baez, Donovan, Sylvie Vartin e Jacques Brel, vão ao cinema Vox e às matinés do São Jorge, conduzem automóveis Ford Cortina, bebem Spur Cola e fumam tabaco das marcas Porto e Sintra, vão à Loja das Meias e à Charlot, usam água-de-colónia Monsieur Rochas. As adolescentes, por seu lado, sonham com o concurso "Princesa das Teenagers Portuguesas", promovido pelo jornal Diário de Lisboa, e na Rádio Renascença passa o programa "Em Órbita", tal como na RTP o "Zip-Zip". Pelo meio, JPM aflora questões laterais, como o contraste entre classes sociais, a homossexualidade, a guerra em África ou o conflito de gerações.

          Desde o amanhecer dos tempos, quando o ser humano se converteu num animal contador de histórias, as pessoas evoluíram para reagir aos enredos com heróis e vilãos (a sua sobrevivência dependia disso, sobretudo quando eram caçadoras-recolectores). Tal processo explica, certamente, a preferência de JPM pelas sequências narrativas lineares ("princípio, desenvolvimento e fim", "introdução, desenvolvimento e conclusão" ou "situação de risco, clímax, desenlace e epílogo"), assentes em encadeamentos lógicos ou relações de causalidade (uma coisa leva à outra, que por sua vez provoca a emergência de outra), com heróis de um lado e mauzões do outro (dois mundos condenados a enfrentar-se até à morte, como nos duelos dos western).

          Graças a Deus, esses ventos do Paleolítico continuam a influenciar o método narrativo de JPM (quando acabamos de ler os romances de JPM, é como se tivéssemos recuado dezenas de milhares de anos).

          A necessidade de fazer com que as vidas encaixem umas nas outras, através de relações de causa-efeito (onde os efeitos reforçam a causa), é uma verdade tão antiga quanto o ser humano. Como no trava-línguas "sucessão sucessiva de sucessos sucessivos que se sucedem sucessivamente sem cessar", os romances de JPM têm intriga, têm amor romântico, têm ódio, têm violência, têm mortes, têm inimizades, têm sexo, têm factos históricos, têm pacotes de viagens (ao Brasil, Angola, Espanha, França, Estados Unidos, Rússia).

          Tanto os heróis como os vilões enfrentam obstáculos (lutam contra o ambiente à sua volta, mas também, e sobretudo, contra si próprios) e têm momentos de frustração. Porém, como só os bons descobrem uma saída para os seus problemas, os malvados são, no final, controlados ou eliminados, e os bons impõem-se, sentem-se livres como o ar, vivendo felizes e comendo perdizes.

 

          Memórias de um pinga-amor

 

         A força motriz de todos os livros de JPM é o amor. É ele que move os protagonistas através de cenários complexos, que desembocam em guerras, revoltas, conflitos sociais, violência sistémica, etc.

          Os romances de JPM são, acima de tudo, e antes de mais nada, histórias de amor, grandes histórias de amor que não têm nada a invejar aos grandes mitos amorosos. Mulheres como Elvira, Benedita, Luísa, Isabel estão casadas com maridos violentos e cruéis (Carlos, José Leite, Etelvino) ou pouco estimulantes (Rui de A Aluna Americana). Seguidamente, apaixonam-se por homens bons, atentos aos seus desejos, movidos pela paixão e por causas nobres (Robert, Peter, Mateus, José Duarte); escravas (Sara) obrigadas a partilhar a cama com um negreiro (Taquínio); viúvas (Maria Constança e Lurdes) que se voltam a apaixonar (Bento Calheiros e Custódio).

          Correndo o risco de os tornar menos complexos, ou de cair num simplismo tosco – os enredos de JPM contêm tal densidade de conhecimentos, ideias e informação que dificilmente suportam qualquer espécie de síntese –, vejamos, em voo de pássaro, como é que o autor trata as questões do amor e da maldade:

 

          1. Os Dias da Febre: Carlos Cabral, filho único de um fidalgo da região de Ourém, foi abandonado pela mãe, que fugiu de casa e nunca mais o procurou. Com 13 anos, começou a abusar soezmente (ou à bruta) da criada de casa e, a partir daí, deu-lhe para usar as mulheres de um "modo bestial, sem um gesto de carinho, sem uma palavra terna, como se fosse uma presa de guerra" (p. 12). Depois de cursar estudos superiores em Coimbra, onde ganhou fama de rude e desagradável com as mulheres (Carlos ama nas mulheres, apenas, o que elas têm de vulnerável), juntou-se a uma das unidades militares que defendiam o Porto contra os ataques absolutistas, altura em que conheceu João Lobo de Sabrosa e passou a visitar regularmente a sua casa de família, tendo aí conhecido Elvira, irmã do amigo. Este, porém, suicidar-se-ia por excesso de dívidas. Os primeiros capítulos são a narrativa da ascensão de Carlos no coração da sociedade lisboeta, gangrenada pela escravatura e pelo poder corrupto.

          Tendo herdado uma situação económica confortável após a morte do pai, Carlos começa a partilhar a cama da desconsolada (e arruinada) Branca Lobo de Sabrosa, mãe de João e Elvira. Carlos, porém, estava obcecado pelos "pés pequenos, infantis", e pela "cintura fina" de Elvira. A inesperada morte de Branca, atropelada por um "touro tresmalhado" perto do Campo de Santana, em Lisboa, deixou-lhe o caminho livre: depois de confessar o seu amor, propôs-lhe casamento, ela disse que sim e casaram na Igreja da Estrela, em Setembro de 1840.

          Logo na oitava página, JPM explica que "mesmo nos primeiros anos do casamento, Carlos nunca se interessara verdadeiramente pelos sentimentos de Elvira, nem se preocupava com as suas ansiedades. Era bem possível que nunca se tivesse apercebido da existência dessa dimensão sensível e inquieta da mulher".

          Mais adiante, referindo-se à noite de núpcias de Carlos e Elvira, o narrador diz que aquela "tinha sido pouco terna, para não dizer brutal, e todas as noites subsequentes foram, infelizmente, iguais à primeira", porque "Carlos era um homem seco, que fornicava – era esse o termo – de uma forma mecânica e fria, sem um gesto de ternura ou uma palavra terna" (p. 131). Numa palavra, Carlos "gostava de fazer aquilo com brutalidade" (p. 182), enquanto Elvira gostava de ser conduzida na cama com "meiguice".

          Situação incómoda que leva Elvira a perguntar a si própria "o que poderia tê-la feito casar com aquele homem fechado, egoísta e de quem, vendo bem, nunca gostara", para responder com "o seu enorme sentimento de orfandade [morte dos pais e corte radical com a irmã Francisca], uma causa muito mais poderosa do que quaisquer devaneios juvenis. Fora esse sentimento de desprotecção, de absoluta falta de amparo e de retaguarda, que a atirara para os braços de Carlos Cabral e que tivera um peso determinante na sua decisão de casar com ele" (p. 33).

 

          2. Uma Fazenda em África: José Leite de Vasconcelos (não confundir com o célebre autor de A Barba em Portugal. Estudo de Etnografia Comparativa, tema em que JPM é versado), dono de uma loja de tecidos no Recife (Brasil), pede Benedita em casamento, pouco depois dela ter perdido ambos os pais. Frágil e desamparada, por uma "questão de sobrevivência", Benedita aceita, com a cerimónia a realizar-se no dia em que ela fez 19 anos. Dois meses depois, partem os dois para Angola, na leva de emigrantes portugueses que vão para Angola fundar uma colónia agrícola em Moçâmedes. Quase de imediato, Etelvino sujeita Benedita a maus-tratos, revela-se um tipo rude, agressivo, grosseiro, intratável, abrutalhado, violento. Não apenas com Benedita, mas também com os escravos, aos quais inflige castigos cruéis. Benedita sofre com estoicismo e compreensão, tenta perdoar o marido, que tivera a "caridade evangélica" de tomar conta dela, quando a desgraça abateu sobre a sua vida. Baldadamente, pois José é um homem hediondo e insensível, obsceno e lúbrico, boçal e esponjoso, sem ternura nem imaginação. Até que, subitamente, se apaixona pelo caçador Peter von Sternberg (descendente, por certo, do igualmente célebre realizador de cinema austríaco, autor de O Anjo Azul, filme de repercussão mundial que consolidou a fama da actriz Marlene Dietrich), a personagem Peter von Sternberg, como vinha eu dizendo, lembra muito, vá-se lá saber porquê, o galã Robert Redford de África Minha, o filme de Sydney Pollack. Depois de algumas voltas e reviravoltas, Benedita foge de casa do marido e estabelece uma ligação momentânea (também por uma "questão de sobrevivência") a Bernardino – que, por sua vez, parece directamente saído da série Uma Casa na Pradaria – o fundador da nova colónia em Angola.

 

          3. O Estranho Caso de Sebastião Moncada: Luísa está casada com o juiz Etelvino de Vasconcelos, mas nunca o amou nem suportou. Mais velho do que ela, Etelvino é "um homem cruel e cínico que se ria do sofrimento alheio". Abusador, violento, opressivo e cheio de maldade, a "vida que o marido lhe dava equivalia a uma sepultura" (p. 44). A meio do casamento, morre-lhes o filho bebé e, após longos dias de solidão, um ano depois, Luísa conhece Mateus e apaixona-se por ele à primeira vista. Sendo casada, tinham de esperar pelo passamento de Etelvino, que além de asmático e fumador, tem o corpo flácido.

         

          4. Do Outro Lado do Mar: repete-se o mesmo sistema de forças contrárias – homem violento e cruel vs. mulher bondosa e sofredora – com Sara (escrava mestiça), apaixonada pelo médico português Vasco, a ser obrigada a viver em casa de Tarquínio Torcato (um canalha e um negreiro terrível), como sua criada para todo o serviço.

 

          5. Até ao Fim da Terra: Bento Calheiros, homem desafortunado, mas de bom coração, e melhores sentimentos, alista-se no exército e, de permeio, apaixona-se pela viúva Maria Constança, mãe de uma criança que é raptada e levada para fora do país durante as invasões napoleónicas na Península Ibérica. Para conquistar o amor de Maria Constança, o pobre Bento percorre Portugal, Espanha, França e mais além, acabando por assistir à grande derrota das forças de Napoleão durante a invasão da Rússia Ocidental.

         

          6. A Aluna Americana: Isabel Botelho é casada com Rui Monteiro, médico no Hospital Santa Maria. Embora não seja violento, Rui tem "uma frieza técnica, um distanciamento" (p. 51), não se envolve emocionalmente, fica sempre de fora, a observá-la, enquanto se amam; "não levava em consideração os sentimentos dela" e "estava exclusivamente preocupado consigo próprio e com a sua performance sexual" (p. 52). Por causa disso, o casamento entre os dois, naturalmente, não corre bem. A relação torna-se tensa, discordam sobre tudo e discutem muitíssimo.

 

          7. O Prazer de Guiar: Raquel divorciou-se de João porque "havia nele muita falta de calor humano", porque o marido "era capaz de simular empatia quando queria obter qualquer coisa, podia até ser incrivelmente sedutor, mas parecia não ter verdadeiro amor para dar" (p. 71).

 

          Em geral, as mulheres são lindíssimas – porque, se não fossem belas, nada de mal lhes aconteceria (a beleza não torna a vida mais fácil, complica sempre tudo) –, mas estão presas a relacionamentos falhados e infames, vivem em casa dos maridos (ou companheiros de cama) como prisioneiras. Em Os Dias da Febre, Elvira sente o casamento "como uma amarra que a mantinha atracada num falso ancoradouro" (p. 66); em O Estranho Caso de Sebastião Moncada, o casamento entre Luísa e Etelvino é descrito como uma "sepultura" (p. 44: "aquela vida que o marido lhe dava equivalia a uma sepultura") e como uma "intolerável prisão" (p. 242); em Do Outro Lado do Mar, Sara sente-se em casa de Tarquínio Torcato como "uma prisioneira que ali ficava, isolada, cativa, sem ter, sequer, o apoio ou simpatia dos outros escravos" (p. 184).

          Os maridos ou homens com quem vivem têm corações de chumbo e almas de amianto. Mais próximos do passado feudal que do mundo moderno, são facínoras monstruosos, gostam de ser temidos, sentem um prazer extraordinário em fazer sofrer as mulheres, martirizam-nas, submetem-nas a revoltantes actos de maldade. Intriguistas, pérfidos, cruéis, venais, atormentam-nas, fazem-nas viver entre o desespero e o sofrimento, a revolta e a humilhação. São o mais crapulosos possível. Passam para as mulheres todo o peso da sua malícia e miséria moral. E elas, naturalmente, detestam-nos e desprezam-nos profundamente.

          Grotescos e sombrios, com as suas próprias e mesquinhas almas, tais homens são um compósito das mesquinhezes masculinas. Ao mesmo tempo, encarnam o problema do mal, representam a parte mais escura da alma humana, da nossa comum humanidade.

          No meio disto tudo – é este um ponto essencial, porque todo o universo mental destas protagonistas é dominado pelo amor romântico ao luar –, elas precisam de amantes, belos exemplares masculinos que sejam audazes, estrénuos, impulsivos, perseverantes, mas também de boa índole, comunicativos, afectuosos, cheios de delicadezas, oscilações e contradições. Feitos de nobres e heróicos sentimentos, são atentos e compreensivos, capazes de ouvir e de aconselhar, mas sofrem também momentos de hesitação e de incerteza, por timidez e uma certa fragilidade emocional.

          As protagonistas, em face destes homens pouco vulgares, simultaneamente seguros de si e vulneráveis, apaixonam-se, como é óbvio. Deixam-se levar (quando o verdadeiro amor existe, não continuará por muito tempo oculto e disfarçado). São correspondidas. Cenas de amor ao luar (ou seja, com amor e com luar). Depois na cama. Elas revelam-se umas leoas entre lençóis – puro prazer animal –, eles hipersensíveis e afectuosos. Gozo corpóreo. Febre desenfreada. Felicidade fresca, incomparavelmente divina. Quando estão com eles, elas podem ser o que são (porque a maior parte do tempo não o são), e eles, quando estão com elas, não acham desagradável ser-se extraordinário na companhia delas.

          A partir desse momento, levam vidas duplas, estabelecem relações amorosas clandestinas ou secretas: Elvira Sabrosa com Robert Huntley (Os Dias da Febre), Benedita com Peter von Sternberg (Uma Fazenda em África), Luísa com Mateus Vilaverde (Estranho Caso de Sebastião Moncada); a escrava Sara (dos negros, quase todos, desconhecemos os apelidos) com Vasco Lacerda; Isabel Botelho com José Duarte (primeiros capítulos de A Aluna Americana).

          Marcam encontros discretos em casas, hotéis, quartos de hóspedes. As mulheres, imbatíveis nas questões práticas do amor, sabem tudo o que os homens sabem e muito mais: "As mulheres eram muito mais observadoras do que os homens"; p. 132, Ana Augusta, monja, amante de D. Pedro: "tinha a volúpia de uma prostituta da Babilónia" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 79, 132); as mulheres "têm intuição e conseguem ver o que está dentro das pessoas" (Do Outro Lado do Mar, p. 237); "as mulheres faziam coisas fantásticas aos homens, ou a certos homens", sabem como manejá-los, fazendo-os "ir ao fundo da alma buscar sentimentos que eles tinham andado uma vida inteira a ignorar ou a esconder", Benedita "aprendera depressa que os homens eram facilmente levados nessa senda de aproximações e esquivas, de certezas e adiamentos, e usava-a com uma habilidade insuperável" e "as mulheres "tinham grande espírito de observação e eram óptimas para recolher rumores e informação" (Uma Fazenda em África, págs. 144-145, 386, 396).

 


          Mulheres esponja

 

          Assimilar tudo é outro traço das personagens femininas, a que a psicologia chama "experiência de fluir", um estado de total imersão numa tarefa, em que se perde por completo a noção do templo. Espécie de "mulheres esponja", absorvem tudo: "Benedita reparava em tudo e absorvia tudo" (Uma Fazenda em África, p. 235); "ela, de olhos muito abertos, maravilhada, a absorver tudo", "Isabel viveu intensamente aquela transmigração, absorvendo tudo o que conseguia absorver das terras dos pioneiros de outro tempo" (A Aluna Americana, págs. 71, 80); quando Vasco mostra Lisboa a Sara, ela foi "desabrochando, ao mesmo tempo que ia sorvendo a cidade com olhos muito abertos e deslumbrados. (...) deixando-se hipnotizar por tudo o que via – a luz, o Tejo, as colinas, a gente – e por tudo o que ouvia" (Do Outro Lado do Mar, p. 353).

      As relações humanas profundas são representadas pelos casos de amor extraconjugais entre mulheres desesperadas. O adultério, como em muitos outros grandes romances da literatura ocidental (Madame BovaryO Primo Basílio ou Dom Casmurro), é um tema universalmente consumido pelos leitores de todo o mundo: sem conflito não há drama e sem drama não há crise, e sem crise não há romance, e sem romance não há leitores. No fim de contas, a infidelidade, como uma sonda que deitamos às profundezas da alma, aumenta o nosso conhecimento do ser humano, mostra-nos que as nossas virtudes e defeitos – bondade, egoísmo, generosidade, cobardia, coragem, crueldade, compaixão, etc. – são águas do mesmo rio.

 



          Oficial e cavalheiro

         

          Num mundo cheio de valores falsos e tentações, oscilando entre as exigências da sociedade (como em Charles Dickens) e o triunfo do individualismo radical (como em Ernest Hemingway), entre os mundos exterior e interior (como em Fiódor Dostoiévski), JPM tem consciência de como as determinações sociais e as reivindicações do "eu" podem ser altamente complexas, contraditórias e, simultaneamente, relativas.

          Dilema insuperável, dirão alguns. Não para JPM, que encontrou no culto da grandeza militar a solução para tal contradição. Homens como Mateus Vilaverde, Robert Huntley, Carlos Cabral ou Bento Calheiros são homens ligados ao exército e à vida das armas. Vêmo-lo logo no primeiro livro, Os Dias da Febre, que ocupa um lugar genesíaco no universo romanesco de JPM.

          Huntley, amigo inglês a quem Elvira não punha os olhos desde a infância, nascido numa família com fortes tradições militares, alistou-se na Royal Navy como oficial médico: "Desde muito pequeno que Robert vibrava com as suas façanhas e deambulações, que lhe eram contadas pela mãe ou pelo próprio pai, quando voltava a casa. A presença do pai era pouco frequente, mas sempre inesquecível" (p. 72). Também Carlos Cabral, marido de Elvira, pertencera a uma das unidades militares que defendiam o Porto contra os ataques absolutistas do apoiantes de D. Miguel. A miragem das valentias e glórias bélicas levaram-no a oferecer-se como voluntário para servir sob a suas ordens do almirante Sartoriu (p. 74).

          Também o protagonista de Do Outro Lado do Mar, Vasco Lacerda, começou por entrar na vida militar (atingindo a patente de tenente-médico de Cavalaria 4), para se tornar depois – devido a um desgosto de amor, embarcar para o Brasil, mas, ali chegado, é raptado e levado para o ambiente de um navio transatlântico que trafica escravos de Angola – num médico puramente civil: "dizia a si mesmo que podia recomeçar tudo naquela cidade [Bahia de Todos os Santos], montar um consultório, arranjar uma boa clientela, gente de posição" (p. 81).

          Em O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Mateus Vilaverde foi educado em Trancoso por um tio materno, coronel de milícias – para quem os valores militares se sobrepunham a quaisquer outros (p. 22) –, que o encorajou a ir para Lisboa assentar praça como cadete no Regimento de Cavalaria 1, aquartelado em Alcântara, tinha ele 16 anos.  A par do estofo sentimental e da capacidade para se deixar tocar pela comoção, Mateus tornou-se um amante da ordem e um escravo da lei (p. 23). Liberal, com um mal disfarçado ódio aos miguelistas, as duas "âncoras da sua existência" eram o coração e a lei (ou cumprimento do dever).

          Em Até ao Fim da Terra, desde cedo que em Bento José Calheiros nasceu a vocação para as armas, a vida militar e os rigores da caserna: "na carreira das armas, procurava, no fundo, a superação e a imortalidade através da heroicidade e da façanha nem que isso implicasse o sacrifício supremo" (p. 14).

          Aos processos de socialização, aculturação e legitimação da carreira militar deveram eles, em parte, a crença nos valores guerreiros. A leitura das seguintes passagens, com um forte sabor de infância, sugerem um quadro comovente e não deixam margem a equívocos: "Lembrava-se perfeitamente de se sentar ao seu colo, à lareira, e de o crivar de perguntas para as quais ele encontrava sempre respostas prontas e entusiasmantes. Robert ouvia, fascinado, a descrição dos estandartes e dos uniformes, a imitação do som dos tambores e dos clarins, do estrondo da artilharia e do zunir das balas"; "ansiando por horizontes militares e aventuras semelhantes" (Os Dias da Febre, p. 72); "Jacques punha o petiz sobre os joelhos, contava-lhe histórias de reis e rainhas, e de póneis mágicos que sabiam falar" (Até ao Fim da Terra, p. 90).

          Aquilo que pode ser lido como uma alegoria do mundo do século XIX – ler contos e histórias militares no joelho das crianças – é uma forma de JPM voltar ao mundo do jogo, da inactividade activa (e das experiências traumatizantes), que é a infância: "De súbito, sem pré-aviso, todo o mundo feliz e despreocupado da sua infância ruiu como um castelo de cartas", Mateus "por momentos, lembrou-se da sua [infância], antes da catástrofe" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 22 e 34) ou "Robert fechou os olhos e sentiu-se a regressar aos entusiasmos heróicos, empolgantes, da sua meninice" (Os Dias da Febre, p. 163).

 



          Giroflé, giroflá

 

          Na verdade, há um apreciável surto de crianças em todos os romances de JPM: as mulheres "descortinavam, debaixo da sua dureza e do seu cinismo [de Mateus], uma criança subterrânea e desamparada que as enternecia", Golias Bronco chora "como uma criança assustada", Poleciana "chorava de mansinho, como uma criança", "Ela sentiu-se como uma criança apanhada em falta" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 26, 54, 98, 245).

          Luz Soriano apresenta-se "com o nervosismo juvenil de quem se preparava para terçar armas pela sua dama", outro "com a agilidade de um rapaz" e "o sorriso do seu Peter [Sternberg] era doce, quase como o de um rapazinho", "Peter sorriu e apertou-lhe mais fortemente a mão. Falou da última caçada e ela ouviu-o reverentemente, como se fosse uma criança maravilhada a escutar um mágico contador de histórias" e "Eva fez-lhe festas no cabelo, como se consolasse uma criança travessa" (Uma Fazenda em África, págs. 28, 67, 251, 331, 342).

          José Duarte comporta-se "como se fosse uma daquelas crianças que espreita às fechaduras", José Duarte e Isabel "rindo perdidamente, como crianças", a Isabel "apetecia-lhe voltar a ser criança e chupar qualquer coisa doce", "Os homens eram umas crianças grandes que necessitavam de se gabar" e "Ela ouvia tudo aquilo encantada, como uma criança pequena que escuta um irmão mais velho" (A Aluna Americana, págs. 28, 50, 89, 149, 248); "ele ficou ali, como uma criança abandonada, a tremer" e "começou a chorar como uma criança" (Até ao Fim da Terra, págs. 102, 222); Custódio "partiu a pedalar devagarinho, anunciando, como se fosse uma criança pequena", Custódio sentia-se tão feliz, o seu impulso era "saltar de alegria, como se tivesse dez anos e andasse a subir às árvores, aos ninhos", "este a consolá-la como se consola uma criança", "Ele sentou-se de imediato como se fosse uma criança obediente", "Como uma criança que espreita à fechadura para descobrir a vida insuspeitada dos adultos" (Vento de Espanha, 81, 94, 259, 292, 300); depois de fazer amor, Custódio "deixou que Lurdes lhe afagasse o cabelo como as mães fazem às crianças que vêm pedir perdão após uma enorme diabrura" (Vento de Espanha p. 193); Joséphine "sentiu-se como uma criança pequena a antecipar o efeito que a sua surpresa teria nele" (Haiti, p. 157).

          Por vezes, parecem mais crianças que as próprias crianças: "prendeu-lhe a atenção de criança grande", "Robert mantinha a agilidade de um adolescente", Robert foi "apanhado em flagrante, como uma transparente criança", Elvira "riu, encantada, como uma criança", Robert sobe as escadas "num estado de exaltação e de inebriamento, num riso ininterrupto de fascínio, como um miúdo", Robert e Elvira "voltaram a beijar-se e riram-se, como crianças que achassem graça infinita uma à outra, e que não parassem de se descobrir mutuamente" (Os Dias da Febre, págs. 36, 67, 163, 202, 205, 258); "contendo o espanto, como as crianças pequenas", "como uma criança nervosa que quer sacudir uma inquietação ou apressar uma viagem maçadora", "A sua expressão era de perplexidade, como a de uma criança apanhada a furtar", "com as lágrimas a escorrer pela cara, como uma criança" e "Sara ria risinhos cantantes, pondo as mãos à frente da boca, como uma criança travessa" (Do Outro Lado do Mar, págs. 106, 181, 223, 287, 354).

 

          Pater noster

         

        A atitude infantil não existe isolada ou independentemente da postura paternal. Uma e outra evocam-se e moldam-se reciprocamente. A literatura de JPM é um ponto de encontro entre esses dois perfis. Por um lado, os que assumem uma postura infantil, submissa ou rebelde (às vezes as duas em simultâneo), e carecem de autonomia e autoconfiança. Por outro lado, e pelo contrário, os que gostam de ditar as regras, que criticam, que apontam falhas, que dizem como os outros devem fazer ou agir, que castigam com o seu silêncio ou a sua agressividade verbal e física, etc., em suma, aqueles que assumem uma atitude paternal: "num tom protector, quase paternal", "assentava-lhe as mãos nos ombros, paternal", "pondo-lhe uma mão paternal no ombro" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 66, 140, 188); "ralhou Bernardino, com gravidade zangada mas paternal", "Bernardino passou-lhe o braço, paternal, em redor dos ombros", Bernardino sentia por Benedita "uma estranha mistura de sentimento paternal e de desejo febril", ele olhou-a "com a típica condescendência paternal", Bernardino "pôs um braço em roda dos ombros do recém-chegado, num gesto paternal" (Uma Fazenda em África, págs. 36, 213, 214, 290, 310); "O professor pôs um braço paternal sobre os seus ombros" (A Aluna Americana, p. 265), "pondo um braço paternal sobre os ombros do guarda-livros" (Vento de Espanha, p. 98); "explicou, paternalmente, Alfredo" (Os Dias da Febre, p. 193); "sorrindo de forma paternalista" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 259).

 


          Canção do bandido

 

          Quase todos eles são mulherengos (as mulheres fazem fila à sua porta). Cheios de qualidades, metem-se em aventuras excitantes e perigosas. São doidos por mulheres e pelas suas camas passaram mulheres de todas as espécies, como se fossem uma mistura de George Duroy, o protagonista de Bel-Ami, e de Tomás, o cirurgião e sedutor compulsivo de A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera.

          Em O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Mateus é um "sedutor incorrigível" (p. 95), incapaz de ceder aos apelos das mulheres mais bonitas (Luísa é a excepção que confirma a regra): "como reconheciam os seus camaradas de armas, com inveja – era felicíssimo com as senhoras. Eram elas a procurá-lo", daí "lançar-se naquela vida de sedutor", daí se sentir-se incapaz de "ceder ao canto de sereia das suas belas" (p. 26). O mesmo acontece com D. Pedro, "bem-sucedido com as mulheres", "o seu principal vício – ou seria antes uma virtude? – eram as mulheres. (...) Era bem-sucedido com as mulheres. Às vezes via-se como um fauno inteiramente desprovido de contenção e de pudor"(p. 131), "não podia prescindir de um afago feminino" (p. 132).

          À semelhança de Mateus Vilaverde – "A estranha experiência por que acabara de passar [cena de sexo com Poleciana] ocupou o pensamento de Mateus durante grande parte da manhã. Tudo aquilo lhe parecia incrível e excitante, digno de um Casanova" (p. 98) –, tanto Vasco Lacerda como Gastão de Lemos, em Do Outro Lado do Mar, são "dignos imitadores de Casanova". Igualmente mulherengo, Baltazar Garcez (p. 226).

          Em Uma Fazenda em África, Pascoal é mestre no galanteio, razão pela qual "as mulheres caíam facilmente na sua conversa enleante"; em Um de Nós Deve Lembrar-se, Papi é "o rapaz mais giro do Restelo, cobiçado por todas as meninas da sua idade" (p. 22), é "muito sensível à beleza feminina" (p. 31) e tornou-se conhecido (entre outras coisas) "por gostar tanto de namoradas como de marisco" (p. 22). No mesmo livro, Carlos "tinha reconhecido sucesso nesse departamento [entre as raparigas]" (p. 37-38), era um "Don Juan", sempre "com a atenção focada nas meninas" (p. 38) e Luís Ashley, apesar das suas "proezas de Don Juan", não se gaba delas (p. 86).

         Assim andavam até que um dia, sem se saber ao certo porquê, caem completamente sob o feitiço das protagonistas, não vêem nada mais para além delas, querem mudar de vida.

          Bons conversadores, cheios de lábia, enchem bem as horas de solidão delas: Mateus, Peter, Vasco, Robert e José Duarte são machos torrenciais, grandes contadores de histórias, eloquentes, interessantes, espirituosos. O relato das suas aventuras deixa-as tão fascinadas como se estivessem a ouvir as sagas dos Nibelungos, ou do Preço Certo.

          Conversar, ao cabo e ao resto, é um dos melhores meios de alcançar a intimidade: "Cearam e contaram um ao outro algumas passagens das suas vidas privadas, o que ia introduzindo um tom intimista e deliciosamente impróprio na conversa" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 96); "Benedita contou a Peter os seus pensamentos secretos e as suas fantasias, e ao fazê-lo aumentava o intimismo" (Uma Fazenda em África, p. 271); Robert e Elvira entram "facilmente na intimidade um do outro" graças às conversas, a repetição dos encontros fez nascer entre ambos empatia, a relação aprofundou-se (Os Dias da Febre, p. 227).

          Mateus, habilíssimo narrador, aprecia os efeitos que as suas histórias de vida produzem nas mulheres. Quando Luísa o escuta "o timbre grave" da sua voz, sente-se amolecer "sem remissão" (p. 46); Poleciana segue as "narrativas" e as "histórias da vida policial" de Mateus com "interesse febril" (p. 96); o mesmo Mateus, mais adiante, faz "o possível para desempenhar condignamente o seu papel de raconteur", e enquanto está a falar para um grupo de mulheres, repara "que a senhora loura – D. Matilde de Araújo – não tirava os olhos de si, seguindo religiosamente cada uma das suas palavras" (p. 186).

          Um homem que sabe contar histórias está preparado para a vida e para todas as suas exigências. Em Uma Fazenda em África, tal como no filme África Minha, a capacidade narrativa e descritiva dos amantes é o cimento que une sentimentalmente Peter Sternberg e Benedita: ele contava-lhe "as mais entusiasmadas caçadas, os povos que visitara ou a recente conversa com o soba" e "ela ficava fascinada a ouvi-lo discorrer sobre o desprendimento dos africanos ou sobre outro assunto que lhe ocorresse. (...) gastava horas a conversar com ela. Falava-lhe os tempos na Alemanha, da sua vida em África, dos projectos futuros" (p. 195). Ele, por sua vez, ouve-a "com um olhar atento e compreensivo".

          A conversa de Vasco Lacerda, em Do Outro Lado do Mar, é servida por igual capacidade de efabulação: "aos serões, Vasco retribuía aquela adulação encantando-as com a narrativa de histórias exóticas que lia nos periódicos e que elas seguiam muito atentas, extasiadas" (p. 25).

          Em Os Dias da Febre, Robert "narrou com algum pormenor a sua passagem por África, Brasil e Índia, ao serviço da Royal Navy, e reparou que ela [Elvira] seguia as suas palavras com uma grande atenção" (p. 115). A audácia com que conta as suas histórias, sobretudo a paixão que lhes coloca, explicam o enlevo de Elvira: "Elvira nunca se fartava de o ouvir. Gostava da firmeza com que ele afirmava as coisas, do timbre da sua voz, da graça com que expunhas as ideias. Maravilha-se com a infinidade de histórias que ele tinha para contar, sobre os sítios por onde andara e as pessoas que conhecera. Robert vira o mundo e vira as gentes – vira-as, de facto –, e era um narrador como ela não conhecia outro. Com ele a seu lado ela não tinha um mas vários mundos novos, abertos de par em par, à sua frente. Pela voz de Robert, a Ásia, a África, a América do Sul, desdobravam perante ela todos os seus mistérios e sortilégios. E, depois, havia o mundo interior, o mundo da intimidade e do amor, no qual Robert entrava e se movia com grande à-vontade, como se estivesse em casa própria" (p. 227).

          Também os mais novos, conhecidos pela sensibilidade aos efeitos narcotizantes da leitura em voz alta, estão sujeitos ao poder das histórias contadas nos romances de JPM. Em Até ao Fim da Terra, "Jacques punha o petiz sobre os joelhos, contava-lhe histórias de reis e rainhas, e de póneis mágicos que sabiam falar" (p. 90), e em Vento de Espanha, a tia Alexandrina sentava Lurdes "nos joelhos e contava-lhe histórias de fadas e de princesas" (p. 41).

         


          Beber palavras

 

          Porém, as personagens de JPM não se limitam a ouvi-los, como as ouvintes de uma grande ópera ou de um improvisador de jazz. Também bebem cada palavra que eles despejam da boca como se fosse sumo da Maçã do Paraíso: "Mateus ouvia-a atentamente, bebendo-lhe as palavras" (p. 95) e, mais adiante, enquanto lia uma carta de Francisca para Sebastião Moncada, Mateus "bebeu aquelas linhas, as da carta seguinte e as de todas as outras" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 95, 301); "Bernardino ia bebendo aquelas palavras", o governador Leal "seguia atentamente cada movimento seu, bebendo as suas palavras", quando ouviam Benedita, os homens "bebiam as suas palavras com avidez"  (Uma Fazenda em África, págs. 213, 365, 400).

          Beber as palavras é fazê-las circular dentro de nós, prolongando-as e projectando-as nas nossas entranhas. Elvira, quando escuta as histórias de Robert (em Os Dias da Febre, p. 142), "bebia-lhe os gestos e as palavras" (p. 142); Eugénia (Do Outro Lado do Mar, p. 205), quando ouve Vasco, "parou para melhor beber aquelas palavras inteligentes", "seguia cada um dos seus gestos com olhos fundos, exigentes, e bebia cada uma das suas palavras" (p. 214), o mesmo acontecendo a Vasco perante um bilhete de Eugénia, que lê "três ou quatro vezes para se certificar de que não treslera e para saborear todas as letras e palavras" (p. 233).

          A conciliação entre as palavras e a acção de as beber verifica-se, de igual, em Vento de Espanha – Lurdes, depois de receber uma carta de Custódio, "bebeu aquelas letras dele uma a uma" (p. 131) – e em O Prazer de Guiar: Valentina "bebia, com avidez, tudo o que Xavier contava sobre si próprio" (p. 142).

          Há um momento, que suscita alguma tensão, em que eles confessam que aquilo que sentem por elas não é somente fruto da amizade. Como é suposto nas mulheres, elas começam por oferecer alguma resistência. Quando Robert diz a Elvira que "o que sinto por si não é simples amizade. (...) Mas eu amo-a", aquela explica-lhe: "Mas eu sou casada" (Os Dias da Febre, pp. 198-200).

          Quando Peter revela o seu amor a Benedita, ela diz-lhe: "Peter... Eu sou casada" (Uma Fazenda em África, p. 196). Mais adiante, no mesmo romance, quando Pascoal diz a Eva que a ama, esta responde-lhe: "Sou casada, Pascoal" (p. 341). Em A Aluna Americana, quando José Duarte declara o seu amor a Isabel, esta responde-lhe que "sou casada" (p. 38).

          Ao fim de algum tempo, ficamos a saber que elas começaram por resistir aos avanços deles apenas para não parecerem "fáceis", e que o sentimento que as impele para os amantes é mais forte que todas as precauções mundanas. Porém, antes de cederem, perguntam-se: "O que será feito do meu tradicional juízo?". Uma voz diz-lhes que deviam resistir, mas outra (muito mais forte) reclama carícias, pede beijos e abraços. O tempestuar de dois corpos que se fundem num só.

 

          De profundis

         

     De imediato, os seus ardores femininos adormecidos despertam, exigem ser satisfeitos. A atmosfera erotiza-se. Elas libertam a sua paixão interior, eles a intensidade da sua alma. Ambos vão mais longe, ou querem ir ao fundo: "Cada vez que fazia amor, avançava mais fundo dentro de si e ia ficando maravilhada com o que sentia e descobria. (...) ele acomodava-a e ficavam meia hora ou mais entrelaçados como se fossem ramos da mesma árvore", "beijou-a de uma forma funda e lenta", "Tu queres que eu te deixe entrar em mim até sei lá onde... até ao fundo da alma", "convivemos de mais e talvez demasiado a fundo", "quanto mais fundo vou, mais gosto de ti e... mais fundo vou", "uma cumplicidade tão funda" (Os Dias da Febre, p. 158, 201, 229, 247, 274).

          E outros, e outros, e outros: "Um prazer muito fundo que a envolvia numa névoa suave e trémula", "Naqueles momentos de comunhão parecia que conseguia encontrá-la lá no fundo", "Quero amar-te a fundo, Francisca, até ficar esvaído dentro de ti", "sentimentos que eu tinha enterrados no fundo de mim", "ele beijou-a muito devagar e muito fundo" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 42, 127, 323).

          Ou ainda: "Faziam-nos ir ao fundo da alma buscar sentimentos que eles tinham andado uma vida inteira a ignorar ou a esconder", Benedita imaginando que Peter "a beijava de forma funda e quente", "Benedita entrara tão fundo e tão avassaladoramente em si [Bernardino] que agora a sua ausência era uma indizível tortura", "Sabia perfeitamente que não havia retorno na sua estrada. Fora demasiado longe, demasiado fundo" (Uma Fazenda em África, p. 145, 203, 264, 321).

          A mente de JPM trabalha desta maneira: "Vasco sentia-se o mais poderoso e feliz dos homens. Nunca antes soubera que o amor podia ir tão longe e tão fundo", "Vasco chegou-se perto dela, contendo a respiração, e, tomando-a nos braços, beijou-a muito devagar e tão fundo que ela sentiu que toda a sua pele se arrepiava", "uma satisfação funda" (Do Outro Lado do Mar, p. 35, 238-239, 285); "Só ele (Antoine) chegara suficientemente perto para a conhecer [Joséphine] a fundo e capturar o seu coração" (Antoine a Joséphine) (Haiti, p. 160); "cautelosos avisos para que não se envolvesse tão depressa nem tão a fundo", "Tinham uma proximidade tão grande e iam tão fundo no interior do outro", José Duarte "prosseguiu cada vez com mais força e cada vez mais depressa e mais fundo" (A Aluna Americana, p. 44, 100, 171).

          Eles, em particular, sentem-se estupefactos com a beleza delas: "pareceu-lhe ainda mais bonita do que da última vez que a vira" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 323), "Custódio achou-a ainda mais bonita do que era um ano antes" (Vento de Espanha, p. 193), "[Isabel] a mulher mais insinuante e atraente [Isabel] que [José Duarte] alguma vez vira" (A Aluna Americana, p. 27), "O sol que vinha da janela atrás de si, sobre a sua direita, esculpia-lhe o contorno, num halo de luz, e ele achou-a mais desejável, mais quente e mais bela do que nunca" (Os Dias da Febre, p. 197), "Não sabia muito de Benedita, mas aquela mulher exercia um poderoso fascínio sobre ele desde a primeira vez que a vira" (Uma Fazenda em África, p. 348), Caetana "pareceu-lhe [a Vasco] ainda mais bonita do que da última vez que a vira" (Do Outro Lado do Mar, p. 24); Honoré "achou-a [Adelaide] sublime, ainda mais desejável do que da última vez que estivera com ela" (Haiti, p. 221). Por vezes (poucas), é ao contrário: Elvira achava que Robert "estava ainda mais bonito do que já era" (Os Dias da Febre, p. 117).

          Na verdade, as mulheres que eles amam, sendo as mais belas que lhe fora dado ver na vida, são logicamente diferentes de todas as outras: "A verdade é que Luísa era diferente de todas as mulheres que conhecera até então" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 27); "Isabel era uma mulher diferente das que ele conhecera" (A Aluna Americana, p. 27); "aquele era um amor diferente, mais intenso do que sentira por Kpengla" (Uma Fazenda em África, p. 205); Robert "cedo reparou que Marília não era como as outras mulheres que ele assistia" e "Robert olhou-a com admiração. Ela não era como a maior parte das mulheres que conhecia" (Os Dias da Febre, p. 187, 218).

 

          João Pedro Magnético

 

          Eles e elas sentem-se atraídos por forças invisíveis que actuam à distância, criadas por materiais ferromagnéticos (ferro, níquel ou cobalto) e ímanes (ou magnetes): "O magnetismo que dele emanava" (Até ao Fim da Terra, p. 94); "havia ali um magnetismo qualquer que a intrigava e perturbava", entre Valentina e Xavier "havia uma vibração, um magnetismo, que a puxava para ele" (O Prazer de Guiar, p. 129); "Uma combinação que tornava as coisas perigosas e saborosas, um íman vertiginoso muito difícil de contrariar", "o magnetismo que devia ser o mesmo de sempre porque ela [Elvira] se sentira desvanecida, doce e suave ao pé dele [Robert]", "A sua presença impunha-se como um poderoso íman", "Robert deu por si a sentir-se atraído por um íman para aquela saleta", "ela tinha por aquele homem uma paixão em estado puro e sem pudor e que ele possuía um magnetismo qualquer que lhe atraía o olhar, não permitindo que ela o desviasse nem por um segundo. Um íman que a punha noutra dimensão e que a derretia por dentro, fazendo-a descontrair e fluir para fora dali" (Os Dias da Febre, p. 33, 117, 126, 198, 213); "havia nele como que um magnete que atraía as mulheres"(Do Outro Lado do Mar, p. 9).

          Não apenas entre pessoas: diante da carta militar que mostrava a cidade do Porto, o dedo de D. Pedro move-se "como se fosse atraído por um magneto" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 135); para Peter Sternberg, África era "um magnete que se tornava mais forte a cada dia que passava e que o prendia àquele continente" (Uma Fazenda em África, p. 99).

          O facto de as protagonistas assumirem abertamente o seu amor, é um ataque de JPM às certezas piedosas da existência burguesa e à instituição da monogamia (o normativo é o normal). JPM convoca assim a força acumulada da tradição literária, bem ancorada na literatura ocidental, sintetizada no famoso Retrato de uma Senhora (1881). Expressão de uma busca interior de identidade, o mais importante romance de Henry James centra-se em Isabel Archer e no processo de construção da sua imagem conforme à ideia que ela faz de si, e nos seus próprios termos, ou seja, como mulher livre e activa. É assim que ela, livremente, comete o terrível erro de se casar com o homem errado, um homem que sente um profundo desprezo pela ideia de liberdade. Depois de cometer esse erro, Isabel aprende a aceitar as consequências da sua decisão e obriga-se a suportar a sua dor íntima.

          Para as personagens femininas de JPM, o casamento representa a prisão, ou uma vida de submissão (incluindo para Isabel, em A Aluna Americana) e os casos extramatrimoniais são o exercício da sua liberdade (e os amantes os agentes da sua libertação). Nesse sentido, a infidelidade não é mero um instrumento do seu desejo, serve também para a criação de si próprias. É um meio de alcançar uma forma mais complexa de liberdade, fundada na autoconsciência e na responsabilidade pelos próprios actos.

 

                                                                                                    (Continua)



          Este texto é a pré-publicação de um estudo sobre a obra de João Pedro Marques que será editado muito em breve.

 

                                                                                       João Pedro George

 


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