quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Livre.

 





Nascida na Albânia de Estaline e espetadora de um regime em ruínas:

Um relato épico sobre o custo da liberdade, uma peça para a História

  

 

          Confesso que beneficiei de ter lido previamente outra obra maravilhosa de Lea Ypi, Indignidade, Uma Vida Reimaginada, Casa das Letras 2026, esta em volta de uma investigação no Arquivo dos Serviços Secretos Albaneses, uma busca para compreender a avó, e então a Albânia surge como o lugar que envolve o leitor num tempo feroz. Livre, Como Me Tornei Adulta No Fim Da História, também Casa das Letras 2024, é marcado por uma narrativa quer mágica quer comovente de uma menina de onze anos educada no socialismo albanês, tudo se inicia quando ela se agarra a uma estátua de pedra de Estaline, decapitada pelos protestos dos estudantes, naquele momento em que a utopia prometida entra em convulsão, e depois em estilhas, um povo em fuga, um sistema financeiro em colapso, tudo cabe nestas memórias prodigiosas em que a autora se questiona vezes sem conta sobre o custo da liberdade.

          Para aquela menina de onze anos, Estaline sorria com os olhos, aparece despretensioso aquela estátua mutilada que a menina observa no pequeno jardim perto do Palácio da Cultura, ela se sentia tão segura, tão abrigada por aquele regime que profetizava o fim do socialismo e o princípio do comunismo. “O socialismo dava-nos liberdade. Os manifestantes estavam enganados. Ninguém estava à procura de liberdade. Já eram todos livres, assim como eu, simplesmente ao exercerem essa liberdade, ou defendendo-a.” Em estado de choque, corre para casa, vamos ser inseridos numa atmosfera familiar, dela guardo reminiscências quando li o magnífico livro Indignidade, uma comovente elegia à sua avó. Esta vai reaparecer novamente, e sempre em termos luminescentes:

          “Ela nasceu em 1918, sobrinha de um paxá, segunda filha de uma família de destacados governadores provinciais do Império Otomano. Quando tinha 13 anos era a única rapariga do Liceu Francês de Salónica. Quando tinha 15, saboreou o primeiro whisky e fumou o primeiro charuto. Quando tinha 18, recebeu uma medalha de ouro por ser a melhor da escola. Quando tinha 19, visitou a Albânia pela primeira vez. Quando tinha 20, tornou-se conselheira do Primeiro-Ministro, sendo a primeira mulher a trabalhar na Administração Pública. Quando tinha 21, conheceu o meu avô, no casamento do rei Zog. Quando tinha 23, casou-se com o meu avô. Ele era socialista, mas não revolucionário. Ela era vagamente progressista. Ambos provinham de famílias conservadoras de renome, e que se haviam espalhado pelo Império Otomano ao longo de gerações (…) Quando tinha 28, o meu avô foi preso, acusado de promover agitação e de fazer propaganda, e condenado, primeiro à forca e depois à prisão perpétua, mais tarde comutava para 15 anos na cadeia. Quando fez 40 anos muitos dos seus parentes tinham sido executados ou haviam cometido suicídio, e os que sobreviveram dividiam-se entre o manicómio, o exílio e a prisão.”

          São fundamentalmente os pais e a avó que ocupam o espaço primordial da narrativa, Lea será educada sobre a gesta heroica da luta contra as forças italianas e alemãs, a defesa da liberdade, a intransigência da independência, a luta permanente contra os revisionistas jugoslavos e soviéticos e, mais tarde, os vira-casacas chineses. A partir de 1990, no rescaldo dos acontecimentos do Muro de Berlim e das mudanças que se estavam a operar em toda a Europa do Leste, o sopro da mudança chegava à Albânia, havia discussões acesas em casa de Lea, no ambiente dos amigos.

          A autora evoca o que lia e o que se era inculcado no meio escolar e familiar, como as crianças viam os turistas e os seus estranhos costumes. É uma narrativa que nos deslumbra no quadro mental em que vivia aquele país, as conversas encriptadas para nunca mencionar o nome das prisões, e assim chegamos ao fim da História, depois do 1º de maio de 1990, a Albânia foi declarada oficialmente um Estado multipartidário, já tinham passado quase 12 meses desde que Ceausescu fora fuzilado na Roménia, tinha começado a guerra do Golfo, aparecia o maior partido de oposição; foi então que a avó lhe contou toda a sua vida, isto enquanto ia desaparecendo o socialismo e o ideal comunista, agora só sobrava a palavra liberdade.

          Estamos na autora dos novos tempos, atos eleitorais, governos instáveis e impotentes, tiros nas ruas, greves, era como se estivesse a viver em terapia de choque. “A nossa economia planificada era vista como sendo equivalente à loucura. A cura consistia numa política monetária transformadora: equilibrar orçamentos, liberalizar preços, eliminar subsídios governamentais, privatizar o setor público e abrir economia ao comércio externo.”

          Virá, entretanto, uma carta de Atenas a anunciar que havia bens que pertenciam à família da avó, irão à Grécia, onde Lea não se sentirá feliz, anseia rapidamente voltar a casa. Há multidões em fuga na Albânia, os barcos atravessam o Adriático, as autoridades italianas recambiam praticamente todos. Sucedem-se as falências em cadeia, aparecem sociedades financeiras com os chamados empréstimos piramidais, muita gente perdoará tudo. O pai encontrará emprego, irá mesmo ter uma malograda experiência política, a mãe será ativista na oposição, a relação dos pais conhecerá uma gradual deterioração, a mãe partirá para Itália, o pai será finalmente um quadro com valor reconhecido.

          É neste país estilhaçado que se ouve em permanência a necessidade de reformas estruturais, as assimetrias na Albânia agudizam-se. Lea conhecerá a sua paixoneta, não haverá reciprocidade. Haverá um momento em que ela decidirá estudar noutros pontos da Europa. Dá-nos conta de notas do seu diário em 1997, a Albânia está em perfeito transe. Lea pondera no início da sua adultez quanto custa a liberdade, as escolas fechadas, tinham chegado forças de manutenção da paz, havia ajudas internacionais, ela decidiu ir estudar Filosofia, mais discussões acesas em casa, irá licenciar-se em Roma, aqui vai começar a sua carreira académica que a vai levar à London School of Economics. Rememora o que viveu e as mudanças que sonha: “A minha família equiparava o socialismo à negação: a negação do que quiseram ser, do direito a cometer erros e a aprender com eles. Eu equiparava o liberalismo às promessas deixadas por cumprir, à destruição da solidariedade, ao direito de herdar privilégios e de olhar para outro lado perante a injustiça. Voltei à casa de partida. Lutar contra o cinismo e a apatia face à política transforma-se naquilo a que se poderá chamar um dever moral; para mim, é mais uma dívida que tenho para com todos os que sacrificaram tudo o que tinham. O meu mundo está tão distante da liberdade quanto aquele de que os meus pais tentaram escapar. Escrevi a minha história para explicar, para reconciliar, e para continuar a luta.” Uma obra-prima.

 

 

Mário Beja Santos


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