segunda-feira, 18 de abril de 2016

Evocação de Eusébio.

 
 
 
 
Fotografia de Amadeu Ferrari

 


 
Manchester, Connecticut, USA, 5 de Janeiro de 2014
 
Faleceu hoje, pelas três e meia da manhã, hora de Portugal, com 74 anos de idade, o maior futebolista português de todos os tempos e um dos maiores futebolistas do mundo: Eusébio da Silva Ferreira, conhecido simplesmente como Eusébio, e carinhosamente alcunhado de Pantera Negra.
 
A razão de evocar neste meu Diário a memória do Eusébio deve-se ao facto de ter confraternizado com ele numa inesquecível passagem de ano. A data precisa desse acontecimento, tão vivo na minha memória, confesso que a não lembro. Sei unicamente que foi nos anos noventa, quando me encontrava a passar as férias de Natal em Portugal, meu país de origem, no meu condomínio do Estoril.
 
Era a festa de Fim do Ano e eu, aborrecido de estar em casa sozinho, decidi ir abrandar a onda de melancolia que me invadira ao Casino do Estoril, a cinco minutos a pé do meu condomínio.
 
Como vivi dois anos da minha vida na cidade de Reno, no Estado da Nevada, na qualidade de professor de Espanhol, Francês e Latim da Universidade da Nevada, onde tive ocasião de ver, ao vivo, os melhores cantores, comediantes, pianistas, bailarinas, orquestras ligeiras, bandas, conjuntos de jazz e espectáculos de variedades de toda a cor e feitio, nunca mais tive o mínimo interesse em assistir a espectáculos dessa natureza em qualquer casino deste mundo ou do outro. E, sendo assim, entrado no Casino do Estoril, dirigi-me imediatamente para a sala de jogos e sentei-me a uma mesa de black jack em que as apostas eram as mais baixas possíveis, pois o meu capital era o de um mero professor universitário e o meu interesse era puramente distrair-me durante as horas dessa noite de Fim de Ano, a custo mínimo, sabendo como sabia, por experiência própria, vivida e sofrida, que a casa ganha quase sempre, aprendizagem feita nos casinos de Reno.
 
Pouco tempo tinha passado quando vejo sentar-se a essa mesa de back jack dos jogadores pobres o Eusébio. A vender alegria e bom humor, de copo na mão, começou por cumprimentar efusivamente o dealer e todos os jogadores. Sabendo eu que, quando lhe faltaram as pernas e as energias para continuar a representar as cores do Benfica e da Selecção Portuguesa, ele tinha passado vários anos a jogar em equipas de futebol americanas, fiz questão de me apresentar a ele em termos formais, por nunca o ter visto senão na televisão, dado não ser do meu feitio assistir pessoalmente a eventos desportivos. E ciente, como não podia deixar de ser, do que ele era e representava no mundo do futebol, sempre que um estrangeiro se sentava à nossa mesa de jogo ou por ela passava para contemplar o espectáculo – e vários foram os que o fizeram pela noite fora –, eu apresssava-me a apresentar-lhes o Eusébio como o melhor futebolista português de todos os tempos e um dos melhores do mundo, e o Eusébio, com a simplicidade de uma criança e com um sorriso contagiante, apertava fortemente e feliz a mão a todos esses novos admiradores.  
 
Como praticamente aconteceu com todos os que optámos por celebrar a passagem de ano sentados a uma mesa de black jack, também o Eusébio perdia mais que ganhava. Jamais poderei esquecer que, com a sua boa disposição nata e com o seu estatuto de vedeta e celebridade, a que justamente tinha todo o direito, sempre que perdia duas ou três vezes seguidas, o que sucedia com mais frequência que a desejável, tomava a liberdade de brincar com o dealer, chamando-lhe os nomes mais coloridos, condimentados com uma grande gargalhada, de que todos nos fazíamos eco.  
E foi nessa atmosfera de festa e de sã alegria que o lendário Eusébio nos proporcionou, com o seu óptimo feitio e com o seu genuíno bom humor, que eu tive a dita de celebrar a festa de Fim de Ano, sentado a uma mesa de black jack, no Casino do Estoril, num Ano do Senhor que lamento não poder precisar.
 
 
Fotografia de Amadeu Ferrari
 
Eusébio amigo, neste momento em que evoco, com saudades, a tua  memória nas páginas do meu Diário e te desejo o eterno repouso no seio do Senhor, atrevo-me a rogar-te que não te esqueças de ensinar aos anjos e aos santos da Corte do Céu os rendilhados primorosos, incomparáveis e mágicos do teu futebol e os teus chutos fulminantes e de os contaminares com o teu sorriso espontâneo e contagiante e com as tuas gargalhadas de eterna criança.
 
António Cirurgião
 

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