sexta-feira, 1 de setembro de 2017

O relógio da História.

 
 
Yevgeny Khaldei, Erguer da Bandeira no Reichstag
2 de Maio de 1945


         Nem vale a pena dizer, mas já agora digo, que esta é uma das mais famosas fotografias do século XX. Tem vários nomes, como «Erguer da Bandeira no Reichstag» e foi captada em 2 de Maio de 1945, quando as tropas soviéticas assinalaram ao mundo a conquista da capital do Reich. Já agora, uma espreitadela aqui, que vale muito a pena. E aqui, também curiosíssimo.

 
 
 
 

 


 
         Na imagem, soldados do Exército Vermelho, um sargento geórgio, Meliton Varlamis dez Kantaria (bem, vamos abreviar para Meliton Kantaria), para sempre heroicizado como o homem que ergueu a bandeira no topo do Reichstag. Até há estátuas do intrépido combatente, que morreu em 1993. O outro é um russo, Mikhail Yegorov (mais precisamente, Mikhail Alekseevich Yegorov, multiplamente condecorado como Herói da União Soviética, Ordem de Lenine, Ordem da Bandeira Vermelha, Ordem da Guerra Patriótica (2ª classe, adultos), Ordem da Estrela Vermelha, Ordem da Glória (3ª classe, do antigamente), Medalha «Combatente da Guerra Patriótica» (1ª classe), Medalha do Jubileu por Serviços Militares por Ocasião do 100º Aniversário do Nascimento de Vladimir Ilich Lenine, Medalha pela Vitória Sobre a Alemanha na Grande Guerra Patriótica de 1941-1945, Medalha do Jubileu pelo 20º Aniversário da Vitória na Grande Guerra Patriótica de 1941-1945, Medalha do Jubileu pelo 30º Aniversário da Vitória na Grande Guerra Patriótica de 1941-1945, Medalha pela Captura de Berlim, Medalha do Jubileu pelos 50 Anos das Forças Armadas da URSS. Como se vê, na União Soviética, um país igualitário, havia muita medalha para distinguir uns mais iguais do que outros (e perdoem o cliché orwelliano). Com tanta medalha, carregadinho delas, Yegorov morreu em 1975. Já Kantaria, também muito medalhado, foi viver para a Abecásia, mas teve de se mudar para Moscovo, onde morreu, pois as tropas russas entraram à força bruta pela Abecásia adentro, arrasando, entre muita coisa, a casinha do herói da URSS. Ironias da História...
 
Estátua de Meliton Kantaria, em Jvari, na Geórgia
 
A casa do herói Meliton Kantaria, em Ochamchire, Abecásia, destruída pelos ocupantes... russos (!)

 
         A tonta da Wikipedia nuns lados diz que eram dois soldados a erguer a bandeira, noutros lados fala em três combatentes, noutro ainda refere que foram quatro os meninos de chumbo que escalaram a cúpula do Reichstag,   que estava toda partidinha aos bocados, ou quase que. Para contar a história, é indiferente o número dos militares, adiante; quem quiser saber mais, é mergulhar aqui.
 

Khaldei, a fotografar os julgamentos de Nuremberga
 
O fotógrafo é Yevgeny Khaldei (calma: Yevgeny Anan’evich Khaldei), de ascendência judaica, que mais tarde seria repórter da TASS. Como é óbvio, recebeu também um camião de medalhas e condecorações patrióticas, que nos escusamos de enumerar, até porque são muitas. Como muitas foram as manipulações fotográficas que Khaldei fez ao longo da carreira, sem quaisquer problemas de consciência, até porque – importa dizê-lo – na época essas coisas não eram vistas com os olhos dos nossos tempos, mais éticos e exigentes quanto à autenticidade da realidade fotografada. Khaldei fez carreira em grande, sendo autor de retratos oficiais de Estaline, Gorbachev, Yelstine, entre outras alimárias possantes.
 
 
Isto está aqui para quem se interessa muito por filatelia do Azerbaijão
 
A história da fotografia está contada há muito (até há selos do Azerbaijão com a imagem, imagine-se!) e não adianta esmiuçá-la: hábil na arte do décor e dos adereços, Khaldei levou consigo uma bandeira king size, feita por um tio, que se entusiasmara com outra foto icónica, a dos americanos a levantar a Stars and Stripes em Iwo Jima, captada por Joe Rosenthal. Pois se os americanos tinham feito uma imagem gloriosa e retumbante, que até deu um filme do Clint Eastwood, os soviéticos queriam à viva força mostrar a sua raça vermelha – e daí a fotografia da bandeira no Reichstag. Esta competição imagética era o prenúncio da Guerra Fria, a prova provada de que o conflito tépido entre EUA e URSS começou muito antes de resolverem aquela grande embrulhada com os nazis.
 
Joe Rosenthal, Raising the Flag at Iwo Jima,
Fevereiro de 1945
 
 
O Reichstag era um edifício simbólico do nazismo e Estaline queria à viva força que fosse tomado antes de 1 de Maio, para celebrar o triunfo sobre Hitler no Dia do Trabalhador. As coisas complicaram-se, o marechal Zukhov informou Moscovo, a 30 de Abril, que já havia conquistado o Reichstage mas, foi-se a ver, e no 1º de Maio ainda não tinham tomado o simbólico prédio, que é grande. A bandeirinha só seria afixada, como dissemos, no dia 2 de Maio.
Há muitas histórias à volta da cena, a ponto de se dizer que quem colocou a bandeira foi um ucraniano de dezoito anitos, Alexei Kovalyov, mas que a polícia política, a NKVD, o mandou estar caladinho e dar os créditos a outros. Também havia um tal de Abdulkhakim Ismailov (1916-2010), do Daguestão, segundo referiu o fotógrafo. Para o caso, não importa. Foram ao telhado do edifício, Khaldei tirou a fotografia, que a dia 13 de Maio, na Cova da Iria, seria publicada na revista Ogonyok (ou Oronëk?)











Existem outras imagens da cena (ver acima), mas, como sempre sucede, só uma pôde ser eleita como «icónica» − e foi a de Khaldei, que trabalhou para isso.
 
A imagem original (ampliada)
 
O fumo artificialmente enegrecido, ao fundo

 
 
Para já, começou por juntar uns fuminhos, ou enegrecer os que lá existiam ao fundo da cena, para adensar a atmosfera de guerra total e dar um apontamento épico à coisa. A imagem, com a bandeira da foice e martelo, seria usada como símbolo do triunfo do comunismo sobre o nazismo, o que é um facto histórico: quem libertou Berlim foram os soviéticos, à custa de milhões de mortos. Sobre a Batalha de Berlim podemos ler o que conta Anthony Beevor mas, para perceber a dimensão do erro geopolítico dos Aliados ocidentais, ao deixarem o campo livre à URSS para conquistar a capital do Reich, há umas passagens interessantes e muito informativos no calhamaço da Anne Applebaum A Cortina de Ferro. O Fim da Europa de Leste (trad. portuguesa, Civilização Editora, 2013).
 
A imagem original, com relógios nos dois pulsos
 
 
 
A imagem manipulada e censurada, já sem o relógio no pulso direito
  

 


Por muito que possa parecer uma heresia, deve dizer-se que, apesar do vermelho da bandeira e da foice/martelo, a imagem, bem vista e analisada, representa, sem dúvida, a vitória militar da União Soviética. Mas não pode, de modo algum, ser usada como símbolo do triunfo da ideologia comunista nem da doutrina e das promessas messiânicas que lhe estão associadas. Pelo contrário – e mesmo sem contar com as honrarias medalhísticas ou as sinistras intervenções da NKVD e outras conspiratas –, a imagem, por paradoxal que possa parecer, é, isso sim, uma vitória retumbante de alguns princípios do capitalismo e da economia de mercado. Discordam? Ora vamos lá ver: a fotografia foi manipulada e maquilhada para limpar da imagem o relógio que o soldado heróico trazia ao pulso direito. No original, um relógio em cada pulso, na imagem manipulada, apenas um relógio no pulso esquerdo. E não, não eram relógios fornecidos pelo Exército Vermelho. Eram relógios roubados na Alemanha, em Berlim, em Budapeste, na Polónia, em qualquer lugar por onde passassem as tropas de Estaline. Sobre essa questão relojoeira, vejamos o que diz Anne Applebaum, descrevendo o avanço dos soviéticos:
«Os relógios de pulso pareciam ter um significado quase mítico para os soldados russos que sempre que podiam se passeavam com meia dúzia deles no braço ao mesmo tempo. Uma fotografia icónica de um soldado russo a hastear a bandeira soviética no cimo do Reichstag de Berlim teve de ser retocada para remover os relógios de pulso do braço do jovem herói [aqui, Applebaum baseia-se no livro de Alexander Nakhimovsky e Alice Nakhimovsky, Witness to History. The Photographs of Yevgeny Khaldei, Nova Iorque, 1997]. Em Budapeste, a obsessão com eles ficou como parte do folclore local e pode ter contribuído para moldar a percepção local do Exército Vermelho. Uns meses depois da guerra, um cinema de Budapeste mostrou um jornal cinematográfico sobre a conferência de Ialta. Quando o Presidente Roosevelt levantou o braço enquanto falava com Estaline vários membros da assistência gritaram: “Cuidado com o relógio!” O mesmo foi verdade na Polónia, onde durante muitos anos as crianças polacas “brincavam” aos soldados soviéticos gritando “Davai chasyi” – “Dá-me o teu relógio!” Uma série infantil da televisão polaca, muito apreciada em fins dos anos 60, incluía uma cena de guerra com soldados russos e polacos, acampados em edifícios alemães abandonados, que tinham juntado uma vasta colecção de relógios roubados».
Depois de vasculhar o Youtube, encontrei uns episódio da belíssima série polaca, intitulada, como sabem, Cseterej pancerni i pies (sim, que isto do Malomil dá muito trabalho). Mas não apanhei, por ora, as imagens das brincadeiras com relógios roubados, constantes do episódio nº 13, transmitido em 1969. Se algum leitor do Malomil que tenha interesse em séries infantis polacas dos anos 1960 por acaso me facultar o episódio número 13 do Cseterej pancerni i pies, transmitido em 1969, em versão completa e de preferência com boa definição, agradecia penhoradíssimo. Certamente haverá muitos leitores do Malomil que estudam e acompanham de perto a filmografia infantil polaca da década de 1960, pelo que lhes deixamos este apelo, lancinante.
 

 
 
 

Uma coisa curiosa no avanço dos russos foi a seguinte: à medida que iam até à Polónia e à Alemanha, descobriram que, afinal, o que lhes tinha dito a propaganda soviética desde os bancos de escola era falso. Não, o Ocidente não era a miséria que julgavam. Pelo contrário, os camponeses polacos, mesmo após a devastação da guerra, tinham quintas, uma ou duas vacas, criação de galinhas e porcos, couves-galegas. O Kremlin ficou aterrado com os relatórios que os comissários políticos lhe enviavam da frente de combate. O Oeste era muito melhor do que a Rússia dos sovietes, com belas casas, avenidas majestosas – e relógios de pulso. Daí que Estaline tenha engendrado uma manobra canhestra de desinformação, dizendo que tudo aquilo que os soldaditos viam não passava de uma fachada, de uma encenação, ou do resultado da pilhagem que, anos a fio, tinha sido perpetrada à Mãe-Rússia. Os soldaditos não ligaram muito, pois estavam mais interessados em sacar relógios, quantos mais melhor. Esta obsessão relojoeira exprime (1) por um lado, o fascínio embasbacado pelos bens e produtos do Ocidente, que na Rússia não eram de acesso fácil; (2) por outro lado – e mais decisivamente –, o desejo ávido de posse, o sentimento de propriedade privada, de apropriação, o que, convenhamos, é típico do capitalismo e da economia de mercado, nos antípodas dos princípios socialistas soviéticos. Assim, apesar de ostentar a bandeira vermelha com a foice e o martelo, o que a fotografia revela, antes de expurgada pela censura, é um soldado com relógios no pulso, relógios de que se apropriou e fez seus, para levar para casa, para deixar aos filhos, juntamente com as medalhas e condecorações de guerra que lhe colocaram ao peito na Praça Vermelha. Um triunfo do comunismo sobre o nazismo, sem dúvida. Uma vitória do comunismo sobre o capitalismo, isso é mais problemático…

E agora, como acontece muito pelas bandas deste blogue, as habituais recriações e os muitos pastiches da célebre fotografia martelada de Eugénio Khaldei ou doutras da bandeira no Reichstag:      







 


 


 






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