quinta-feira, 28 de abril de 2016

Nascer, Viver, Morrer.

 
 
Nascer:
prova
cega.
 
*
 
Viver:
prova
devida.
 
 
*
Morrer:
prova
desforço.
 
 
 
Ricardo Álvaro
 
 

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Milagre do té de coca en La Paz, na Bolívia.








Em Julho e Agosto de 1976, depois de quase sete meses passados no Brasil, sobretudo no Rio de Janeiro, durante um ano sabático, resolvi visitar a Bolívia, o Peru, o Equador e a Colômbia, antes de regressar aos Estados Unidos. Horas depois de ter saído da cidade do Rio de Janeiro, situada ao nível do mar, dou comigo em La Paz, a mais de três mil e quinhentos metros de altitude.

Totalmente ignorante sobre o que fosse o “soroche” ou mal das alturas (também conhecido por mal das montanhas, doença das alturas e hipobaropatia), não encontrava explicação para o meu terrível e contínuo mal-estar: dificuldade de respiração, dor de cabeça, enjoos, falta de apetite, enorme cansaço, quase impossibilidade de dormir. Algo a ver com o coração? Mas eu era relativamente jovem e nunca tinha sofrido do coração.

          Com a escassez do tempo e com mil e uma coisas para ver, a minha primeira reacção perante esse deplorável estado foi dizer-me a mim mesmo que não tinha vagar para estar doente. E literalmente fraco, quase sem comer, lá me ia arrastando como podia pelas ruas da amargura de La Paz (oficialmente chamada Nuestra Señora de la Paz), a ver o que era digno de ser visto, segundo os guias turísticos e o meu instinto de animal curioso.

            E foi nessas tristes condições – de me fazerem ter pena de mim mesmo – que eu, durante uma semana, aproximadamente, entrei mais de uma vez na imponente Catedral de San Francisco, deambulei como sonâmbulo pelo Paseo del Prado, a apreciar os belos jardins e os imponentes monumentos a Cristóbal Colón e a Simón Bolívar, e pela zona de Miraflores, a apreciar as casas senhoriais e as vivendas onde vivia a alta burguesia e a classe rica de La Paz; que passei horas infindas a fazer compras de vista e de facto pela secção dos mercados ao ar livre, que se estendiam por ruas sem conta, nas zonas mais altas e mais pobres da cidade, onde se vendia um pouco de tudo, desde toda a espécie de legumes e de frutas, de peixe e de carne, de pão e de massas, de pratos prontos a comer, alguns servidos em folhas sujas de jornais, e de bebidas prontas a beber, algumas servidas em copos lavados durante horas seguidas no mesmo balde de água, até toda a espécie de roupa pronta a vestir, de que sobressaíam as camisolas (chamadas chompas) e os ponchos de alpaca e de lama, de variadas cores, e peles desses dois emblemáticos ruminantes andinos, até tendas em que se vendia toda a espécie de ingredientes para fazer feitiços, onde se viam, com certo arrepio e algum asco, entranhas e órgãos ressequidos de toda a casta de animais, de répteis e de aves, e tendas enormes em que se vendiam folhas de coca.

            E foi também nessas tristes condições – de sofrente do soroche – que passei um dia inteiro a saborear os encantos da celebração religiosa e cívica mais célebre de La Paz – a Festa de Nossa Senhora da Assunção, no dia 15 de Agosto – em que vão de mãos dadas, num sincretismo religioso impressionante, sobretudo na colorida, ruidosa e interminável procissão, os rituais da Igreja Católica e os rituais de religiões de tradição incaica, com destaque para uma cerimónia de verdadeira acção de graças pelas colheitas de toda a ordem, manifestada pela exibição dos frutos do solo e do subsolo, em artísticos carros alegóricos, em que são reis o milho e o cobre. 

           Aí pelo terceiro dia, ao sentar-me, triste como a noite, à mesa de um restaurante para cear, vejo-me mais uma vez impossibilitado de comer os pratos que me iam pondo à frente, limitando-me, sem o mínimo apetite, a debicar aqui e ali, com um esforço sobre-humano.

          Quase sem querer, reparo que um casal, sentado numa mesa ao lado da minha, me ia observando, com ar de quem sabe do meu problema e de quem aparenta ter genuína pena de mim. A determinado momento, o cavalheiro, muito bem vestido e numa atitude muito cortês, perguntou-me há quantos dias eu tinha chegado a La Paz e donde viera. Depois de lhe responder que tinha chegado do Rio de Janeiro há três dias, ele disse-me que não me afligisse: que geralmente acontecia assim a todos os que chegavam a La Paz nas minhas circunstâncias, e que, infelizmente, só havia um remédio: o tempo. Mas, mesmo assim, aconselhava-me a beber muitos líquidos e a passar por uma farmácia nesse mesmo dia e a dizer ao farmacêutico o que lhe dissera a ele - de onde viera e há quanto tempo chegara a La Paz, e o estado em que me encontrava, no capítulo da saúde -, que ele saberia muito bem o que me devia receitar. Mas, repetia ele, essa doença só a curava o tempo.

          E antes de regressar ao hotel passei por uma farmácia e comprei o remédio que o farmacêutico me receitou. Mas, para tristeza minha, o efeito foi praticamente nulo. Mais uma noite mal passada e mais uma noite quase impossibilitado de fechar os olhos. E mais um dia de turismo, vivido no meio de um horrível mal-estar. Com uma dificuldade enorme de andar, ia-me valendo dos táxis colectivos, que neste meio tempo descobrira, para cobrir distâncias que, em circunstâncias normais, percorreria a pé em breves minutos.

           Como nessa noite, tal como acontecera nas noites anteriores, não conseguia pregar olho, resolvi sair do quarto e dirigir-me à sala de estar do hotel, para tentar fugir da minha dor. Eu a sentar-me triste e dolentemente num sofá e uma senhora bastante idosa, de pura raça índia, a aproximar-se de mim e a dizer-me em tom maternal: “pobrecito, más una noche sin dormir! Pero no puede ser así. Espere un ratito que voy a darle algo que va a hacerle dormir.”

           Proferidas essas carinhosas palavras, a boa senhora saiu e, passados momentos, voltou com uma chávena na mão a fumegar. “Tome este té de coca y después vuelva a su cuarto y va a ver como va a dormir. Y mañana y todas las noches que esté aquí en este hotel con nosotros venga a verme antes de acostarse, que yo no quiero que Vd. sufra más

           E eu assim fiz. E pela primeira vez, desde que chegara a La Paz, consegui dormir quase como um santo. E o mesmo aconteceu nas três noites seguintes, antes de partir de autocarro a caminho de Cuzco, no Peru. Quer isto dizer que o soroche ou mal das alturas tinha desaparecido completamente com o “té de coca”? Não: foi diminuindo pouco a pouco, mas, completamente, só veio a desaparecer no meu terceiro dia passado em Cuzco, depois de haver bebido a água sagrada dos Incas, numa fonte lendária, localizada nos subúrbios de Cuzco, realizando-se assim a profecia da senhora que fez de guia e de motorista numa excursão a umas ruínas incaicas, cerca dessa fabulosa cidade que tantas saudades me deixou.

         Foi esse abençoado “té de coca”, de que me despedi para sempre, após o milagre operado pela água sagrada dos Incas, que me fez compreender, mais tarde, a posteriori, os salutares benefícios do hábito cultivado pelos camponeses e pelos mineiros da Bolívia e de outros países andinos: logo de madrugada, depois de um saudável e farto pequeno almoço, antes de saírem para o trabalho, metiam uma folha de coca na boca e aí a mantinham, até regressarem a casa, ao fim de um longo dia de trabalho nas minas ou nos campos de lavoura. Com essa folha de coca na boca, não sentiam fome nem sede nem cansaço. Chegados a casa, cuspiam a folha de coca, lavavam a boca, comiam uma bela ceia e dormiam em santa paz.

          Dentro desta ordem de ideias, quando achava que a ocasião era propícia, para fins éticos, moralizadores e didácticos, falava aos meus amigos, colegas e alunos da minha experiência pessoal, por ocasião da minha longa viagem pelos países andinos, em Julho e Agosto de 1976, com o intuito de os fazer compreender que o que poderia ser noutros países pernicioso para a saúde – a folha de coca – era nesses países andinos um produto de primeira necessidade, com provados e irrefutáveis benefícios.



António Cirurgião



terça-feira, 26 de abril de 2016

Fátima Patriarca (1944-2016).




Costa da Caparica
Fotografia de Anna Fabbrini



      
      Maria de Fátima da Silva Patriarca nasceu no Monte do Sol Posto, no Couço, concelho de Coruche, em 19 de Janeiro de 1944, e morreu em Lisboa, no Hospital da CUF, na manhã do dia 11 de Março de 2016.
A sua família era natural de Manteigas, nas faldas da Serra da Estrela, e Fátima Patriarca nasceu naquela freguesia rural ribatejana por uma circunstância fortuita: o seu pai, que estudara no Seminário da Congregação dos Espiritanos, trabalhava no Monte do Sol Posto como contabilista da casa agrícola dos Ribeiro Telles e professor dos filhos dos trabalhadores da herdade. A mãe, que não frequentara a escola, empregara-se desde muito nova numa das muitas fábricas de lanifícios de Manteigas, até migrar com o marido para o Ribatejo. A mais velha de três irmãos, manteve sempre uma profunda ligação às raízes serranas da sua família. Evocava com emoção o inconformismo da sua mãe, Ana Cruz Silva, que tudo fez para que prosseguisse os estudos, tendo um papel determinante no seu destino de investigadora. Recordava igualmente a figura do seu pai – Joaquim Craveiro Patriarca, um homem austero e conservador – como modelo exemplar de dignidade e rigor ético, valores que Maria de Fátima Patriarca cultivou com afincado escrúpulo em todos os instantes da sua vida.   
         No final dos anos quarenta – mais precisamente, em 1949 – a família partiu para Benguela, em Angola, onde Fátima Patriarca passou a infância e os primeiros tempos de juventude. Aí fez a escola primária e, aos 14 anos, concluiu o curso comercial no Colégio Nun’Álvares, onde mais tarde terminou também o liceu, após o que, graças a uma bolsa do Governo-Geral de Angola, veio estudar Germânicas na Universidade de Lisboa. Tendo ingressado na Faculdade de Letras em plena crise académica de 1961, foi aluna do padre Manuel Antunes, de Luís Filipe Lindley Cintra, de Jacinto do Prado Coelho, de David Mourão-Ferreira, mas duas reprovações inesperadas – a Inglês e a Alemão – deram-lhe pretexto para abandonar um curso que não a motivava, indo ao encontro do seu interesse pelos problemas sociais. Assim, transferiu-se em 1963 para o Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa, onde se diplomou, com 17 valores, em 1967. Em Novembro desse ano, participou nas acções de socorro e apoio às vítimas das cheias que devastaram diversas localidades da Grande Lisboa, provocando centenas de mortos. Maria de Fátima Patriarca, que fora dirigente diocesana da Juventude Universitária Católica e da Juventude Católica Portuguesa, tinha sido destacada para as zonas sinistradas de Algés e da Póvoa de Santo Adrião pelos Serviços Sociais da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Recordaria para sempre o cenário dantesco com que se deparou nesses dias, um momento decisivo na formação cívica e política de muitos jovens da sua geração.
Entre 1968 e 1973, foi técnica de Serviço Social na Direcção-Geral de Previdência e Habitações Económicas do Ministério das Corporações e Previdência Social. Era então ministro José João Gonçalves de Proença que, curiosamente, Fátima Patriarca entrevistará muitos anos depois, no âmbito das investigações que desenvolveu sobre a política social do marcelismo. A actividade como técnica de serviço social permitiu-lhe enriquecer o seu já profundo – e directo – conhecimento da realidade do país, sendo um factor determinante da sua carreira académica e da obra que produziu enquanto historiadora dos conflitos e movimentos sociais do século XX português.
Tendo decidido ir para Paris em 1969, Fátima Patriarca foi, entre 1970 e 1972, bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian, equiparada ao Instituto de Alta Cultura. Nessa qualidade, frequentou o 1º e o 2º ano do Troisième Cycle em Sociologia, na École Pratique des Hautes Études, VIe Section, onde obteve o Diplôme d’Études Approfondies en Sciences Sociales (DEASS). A permanência em Paris e a rede de sociabilidades que aí construiu representaram um natural, mais do que óbvio, alargamento de horizontes. Foi então que assistiu ao seminário de Alain Touraine, influência fundamental nos trabalhos de uma historiadora do período contemporâneo que, curiosamente, tinha como fonte de inspiração um livro sobre a Idade Média: Les rois thaumaturges, de Marc Bloch. O seu universo de referências, na verdade, sempre esteve mais próximo da cultura académica francesa e italiana do que da anglo-saxónica, sem que, todavia, Fátima Patriarca jamais exibisse a passagem pelo estrangeiro como uma marca distintiva da sua trajectória intelectual ou biográfica. Aí participou em grupos e movimentos que floresceram naquela época, com destaque para o Mouvement de Libération des Femmes (MLF).    


Válega, anos 1970
fotografia de Ricardo Lima


Após regressar de França em finais de 1972, reassumiu funções na Direcção-Geral de Previdência e Habitações Económicas e, em simultâneo, colaborou no Grupo de Sociologia do Gabinete Técnico de Habitação da Câmara Municipal de Lisboa. Em 1973, com a integração daquela Direcção-Geral no Fundo de Fomento da Habitação, transitou para o Centro de Documentação e Informação deste organismo, onde permaneceu até 1975. Manteve sempre, de resto, uma ligação profunda a arquivos e centros de documentação, sendo essa uma das características mais salientes – e admiráveis – do seu trabalho no campo das ciências sociais e, em particular, do seu labor historiográfico.     
Nas evocações póstumas de intelectuais e académicos é comum dizer-se que, nas suas obras, conseguiram aliar teoria e prática, ou vice-versa. Maria de Fátima Patriarca fê-lo como poucos, mas nunca usou a sua experiência profissional e o seu conhecimento vivido da realidade social portuguesa como mais-valia científica para fundamentar as ideias que apresentou nos livros e artigos que publicava espaçadamente, com a moderação dos tímidos – ou o rigor dos sábios. Mais do que na sua carreira pretérita, as teses que defendeu apoiavam-se num exaustivo, quase insano, trabalho de levantamento de fontes primárias, pertencendo Fátima Patriarca à primeira geração de historiadores que acederam à vasta documentação do Estado Novo, consultando os arquivos do salazarismo quando estes ainda se encontravam depositados no Forte de Caxias, à guarda de militares.  
Quando, em 1974/1975, colaborou, no Gabinete de Investigações Sociais (GIS), na investigação sobre «Conflitos de trabalho após o 25 de Abril», sob responsabilidade de Maria de Lourdes Lima dos Santos, Marinús Pires de Lima e Victor Matias Ferreira, Fátima Patriarca possuía já alguma experiência docente, pois leccionara entre 1969 e 1970 no Instituto Superior de Serviço Social (ministrando aulas práticas de Serviço Social de Comunidades, no Bairro de Santa Cruz em Benfica), funções que retomaria em 1974/1975 (sendo responsável pela disciplina de Sociologia do Trabalho). Neste ano de 1975 foi assistente do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, sendo igualmente em 1975 que, equiparada a Técnica de 1ª classe, ingressou no Gabinete de Investigações Sociais, em regime de tempo parcial. Em finais de 1976, assumiu funções no GIS em regime de tempo completo. A partir daí, inicia em pleno o seu percurso como investigadora no domínio das ciências sociais, encerrando-se um ciclo de vida até então pontuado pelo trabalho como técnica de Serviço Social e por uma passagem pelo ensino que, além de breve, não terá sido especialmente relevante para a sua obra posterior. Com efeito, não é como docente mas como investigadora que Fátima Patriarca se afirmou no campo das ciências sociais em Portugal, sob o decisivo impulso, que sempre recordará com enorme admiração e respeito, de Adérito Sedas Nunes.
Em 1980, licencia-se em Sociologia no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, com a classificação final de 18 valores. A sua área de especialização – a Sociologia Industrial – levara-a a contactar directamente o meio fabril português, acompanhando de perto a laboração de empresas como a Lisnave, a Sidul, a Sorefame, a Setenave e, sobretudo, a Mague. Com a institucionalização do GIS e a sua integração na Universidade de Lisboa, passa a Assistente de Investigação no Instituto de Ciências Sociais (ICS), em regime de dedicação exclusiva. Entre 1989 e 1991, primeiro sob orientação de Maria Filomena Mónica e Manuel de Lucena e, depois, de Adérito Sedas Nunes, desenvolve o projecto de investigação «O processo de instauração do corporativismo, no domínio das relações entre o capital e o trabalho (1930-1947)», o qual culmina na sua dissertação, entregue em Outubro de 1990, mas que, devido à doença e posterior morte de Sedas Nunes, só viria a ser defendida, em provas públicas, em Janeiro de 1992.  
Antes desse trabalho de grande fôlego, Maria de Fátima Patriarca estivera envolvida noutros projectos: entre 1975 e 1978, em co-autoria com Marinús Pires de Lima e José David Miranda, «A acção operária nas empresas após o 25 de Abril – significado do movimento conflitual e grevista»; em 1978, num trabalho financiado pela Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica e intitulado «O trabalho e a acção operária na indústria metalomecânica pesada»; e, entre 1983 e 1986, «Sindicatos, contratação colectiva e greve: o caso dos metalúrgicos portugueses (1968-1972)», o qual, após um longo e aturado labor de investigação nos arquivos, sofreu uma alteração estrutural, com vista ao seu alargamento a outros grupos sociais, sendo, do mesmo passo, restringido quanto ao seu âmbito temporal, passando a concentrar-se no período do marcelismo. Mesmo após a sua jubilação, continuaria a trabalhar nesse projecto, a que dera o título «Sindicatos e lutas sociais nos últimos anos do regime corporativo». Não tendo chegado a concluí-lo, publicou, ainda assim, textos essenciais sobre o Estado social no consulado marcelista, que avançam a tese – surpreendente e originalíssima – de que muito do que seria a legislação social do governo de Marcelo Caetano já se encontrava na forja no tempo do seu antecessor. «O Estado social: a caixa de Pandora», publicado em 2004 na obra colectiva Marcelo Caetano – A Transição Falhada, coordenada por Fernando Rosas, é um dos mais importantes trabalhos alguma vez vindos a lume sobre a «questão social» nos derradeiros anos do Estado Novo.
 Em Janeiro de 1992, perante um júri composto por Manuel Villaverde Cabral, Francisco Pereira de Moura, João Freire, Fernando Rosas, Maria Filomena Mónica e Manuel Braga da Cruz, concluiu as provas da carreira de investigação no ICS, com a classificação «Aprovada com distinção e louvor». Para o efeito, apresentou a dissertação «Processo de Implantação e Lógica e Dinâmica de Funcionamento do Corporativismo em Portugal – os Primeiros Anos do Salazarismo», volumoso trabalho de 741 páginas, mais tarde publicado em livro, em dois tomos, com o título A Questão Social no Salazarismo, 1930-1947 (Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1995). A obra, não por acaso, é dedicada a Adérito Sedas Nunes, a quem a investigadora agradece «uma total liberdade e uma crítica implacável, condições indispensáveis ao trabalho e maturidade intelectuais». Além desse agradecimento, Fátima Patriarca manifesta a sua gratidão a diversos colegas: Ana Nunes de Almeida, António Costa Pinto, Edgar Rocha, João Martins Pereira, José Carlos Ferreira de Almeida, Luís Filipe Salgado de Matos, Manuel Braga da Cruz e Valentim Alexandre. Destaca, porém, dois nomes: Maria Filomena Mónica, com quem colaborou durante anos sobre as «questões operárias», e Manuel de Lucena, que apelida de «pioneiro nos estudos sobre o corporativismo», e ao qual agradece o estímulo e, em particular, as críticas e as sugestões nascidas de uma «leitura atenta e rigorosa» da versão original do texto, traço que é fácil reconhecer por todos quantos beneficiaram da argúcia do olhar e do entusiasmo juvenil com que Manuel de Lucena generosamente lia escritos alheios.     
 Além da dissertação, prestou provas complementares, tendo apresentado então o trabalho «Projecto de investigação: Sindicatos e Luta Social no Regime Corporativo – dos anos 50 a 1974». Tratava-se de um projecto que desenvolvera especialmente entre 1986 e 1989 e que, como atrás se disse, prosseguiu mesmo após a sua jubilação, ocorrida em Outubro de 2005. Ao jubilar-se, Fátima Patriarca concluía uma carreira previsivelmente consistente, que a fizera percorrer, com provas dadas, todos os passos de um exigente caminho: ingressara em 1992 no quadro do ICS como Investigadora Auxiliar, passando em 1999, e após concurso público, a Investigadora Principal daquele Instituto.
         Sem desvios ou dispersões, Maria de Fátima Patriarca concentrou praticamente toda a sua actividade no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Foi aí que, em conjunto com Maria Filomena Mónica, criou em 1979 o Arquivo Histórico das Classes Trabalhadoras, mais tarde designado Arquivo de História Social do ICS. No GIS e, depois, no ICS, exerceu diversas funções: vogal eleita do Conselho de Gestão do GIS (1979-1980); vogal eleita do Conselho Científico do GIS (1982-1987); membro do Conselho de Redacção do Boletim de Estudos Operários, publicação bianual do ICS (1982-1987); representante eleita dos investigadores do ICS à Assembleia Constituinte da Universidade de Lisboa (1989); responsável científica pelo Arquivo de História Social do ICS, cargo que desempenhou durante quinze anos, de 1990 a 2005; membro do Grupo de Trabalho «Instalações do ICS» (1992-2000); membro eleito da Comissão Permanente do Conselho Científico do ICS (1993-1999); membro do Conselho de Redacção da revista Análise Social e da Imprensa de Ciências Sociais (1999-2003); presidente da Assembleia de Representantes do ICS (2001-2004).
         A constância da presença no ICS, aliada ao reconhecimento dos seus méritos como cientista social e da integridade do seu carácter, fizeram com que fosse chamada a desenvolver trabalhos ou a emitir parecer sobre questões relacionadas com o ensino superior e a investigação científica. Entre 1991 e 1993, participou na pesquisa dirigida por José Mariano Gago sob o título «Papel das Investigações Científicas e Tecnológicas e do Ensino Superior no Planeamento Estratégico de Lisboa». Logo a seguir, entre 1993 e 1994, foi membro do «Grupo de Trabalho – Inquéritos», no quadro da avaliação da Universidade de Lisboa. Sendo muito vasta a sua acção nestes domínios, seria fastidioso recordar cada um dos momentos em que Fátima Patriarca neles teve intervenção a título pessoal ou institucional, bastando recordar a sua participação, em 2004 – e a convite de António Barreto –, no Painel de Avaliação de Projectos de Investigação apresentados à Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e ao Ministério da Segurança Social. 
         É certo que, como atrás se referiu, a sua obra como investigadora se destaca em face da actividade docente. No entanto, além da investigação propriamente dita, Fátima Patriarca ministrou cursos e palestras, organizou conferências e, sobretudo, mobilizou e integrou várias equipas de cientistas sociais. Neste contexto, entre 1974 e 1976 leccionou no ISCTE o «Seminário sobre a sociedade portuguesa – Área de conflitos de trabalho». Em paralelo, de 1975 a 1983 iria, em conjunto com Marinús Pires e Lima e Maria Filomena Mónica, promover a realização de palestras e seminários de investigadores estrangeiros, trazendo a Portugal nomes como Alain Touraine, Michelle Perrot, Claude Durand, Jean-Daniel Reynaud ou Patrick Friedenson, docentes em instituições francesas, ou seja, situados na órbita francófila de que sempre foi próxima. A proximidade afectuosa era, aliás, um dos traços mais marcantes do seu carácter: sem distinguir origens sociais ou atributos de classe, desdenhando diferenças de idade ou divergências de ideias e de opiniões, Maria de Fátima Patriarca relacionava-se de igual para igual com todos os seus semelhantes, do funcionário da empresa de segurança da Torre do Tombo – o Senhor Francisco – ao director dessa instituição vetusta – Silvestre Lacerda, um dos seus grandes amigos. Na «Torre», como lhe chamava, era capaz de despender uma tarde inteira a ajudar uma qualquer investigadora estrangeira, que mal conhecia, a decifrar a caligrafia agreste do doutor Oliveira Salazar. Abundam exemplos da sua generosidade sem limites, que distribuía seja entre os seus pares, seja entre os investigadores mais novos, com quem sempre manteve uma relação de igualdade e respeito mútuo, sem quaisquer laivos de sobranceria distante ou pretensões de patronnage intelectual. Interrompia as suas caminhadas no areal de Porto Santo para ir aos Correios da povoação colocar num envelope, com destino a Lisboa, as páginas da tese que um aluno de mestrado, jovem e de boina basca, lhe pedira para ler enquanto gozava férias. A este espírito generoso aliava uma humildade extrema, que raiava o absurdo para todos quantos reconheciam nela um dos nomes pioneiros da historiografia portuguesa contemporânea, autora de textos de uma solidez inquebrantável, porque apoiados em fontes documentais lidas e interpretadas com total independência e absoluto rigor. Não surpreende, por isso, que fosse regularmente convidada a proferir conferências ou leccionar aulas em seminários de pós-graduação ou cursos de mestrado. Nos mais variados lugares – Escola Nacional de Saúde Pública, Centro de Estudos de História Contemporânea do ISCTE, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Instituto de Ciências Sociais – e a convite de diversas personalidades: José Carlos Ferreira de Almeida, Karin Wall, Miriam Halpern Pereira, Fernando Rosas, Ana Nunes de Almeida, Valentim Alexandre, Maria de Fátima Bonifácio, António Costa Pinto. Foi, todavia, em colaboração com Maria Filomena Mónica que mais frequentemente trabalhou, seja nas iniciativas atrás citadas, seja na organização, em 1981, do colóquio «O Movimento Operário em Portugal» e da exposição que, pela mesma altura, se realizou na Biblioteca Nacional sobre o acervo documental de Pinto Quartin, seja, enfim, na coordenação do seminário «Fontes e arquivos com importância para o estudo do movimento operário», de 1984.
         A sua inexplicável modéstia fazia-a, porém, afastar-se do primeiro plano, recusando liminarmente o protagonismo mediático que, dada a área em que se especializara – os conflitos laborais –, facilmente lhe teria sido concedido. Aos holofotes televisivos ou a colunas de opinião nos jornais sempre preferiu o discretíssimo recato do trabalho feito em redor de papéis velhos, delidos pelo tempo; para escrever um artigo na Análise Social, sobre o trabalho operário na metalomecânica pesada, realizou cerca de cem entrevistas e examinou todo o arquivo de uma grande fábrica de Alverca. Do seu currículo constam apenas duas deslocações ao estrangeiro: em 1981, a França; em 1983, à Alemanha, onde proferiu uma intervenção sobre as reivindicações dos metalúrgicos portugueses num colóquio realizado em Bad Homburg. Este facto, aparentemente de somenos, atesta a singularidade ímpar de Maria de Fátima Patriarca no panorama das ciências sociais portuguesas. Estudara em Paris, lia apaixonadamente textos de autores estrangeiros na língua original (como os livros de Renzo de Felice ou Emilio Gentile), participou em inúmeros encontros científicos e académicos, mas não cultivava a «internacionalização» universitária com o frenesi dos nossos dias. A contemporaneidade, aliás, causava-lhe alguma inquietude, quando não doloroso tormento. O ruído e as multidões incomodavam-na sobremaneira, mais do que tudo o resto. Desengane-se, porém, quem tomar a sua repulsa pelo turismo académico como sintoma de provincianismo. Fátima Patriarca era capaz de ir ao estrangeiro – e até bem longe. Em 2004 foi aos Estados Unidos e em 2008 deslocou-se a Quioto, no Japão, no culto de outro dos seus interesses, as artes marciais ou Budo. Foi co-fundadora da Saya No Uchi – Associação de Budo, que, sob os auspícios de João Tinoco, muito justamente a homenageou numa cerimónia realizada poucos dias depois da sua morte. 


Fotografia de Sofia Macedo
    
   
     Além do Budo, cultivava outras artes, igualmente marciais. Entre elas, a maior de todas, a amizade. Por leal amizade, tomou entre mãos e chamou a si tarefas que a obrigaram a abandonar a sua «zona de conforto», como agora se diz, mergulhando a fundo, por exemplo, na coordenação científica da exposição «1936 – Tarrafal – Guerra Civil de Espanha», inaugurada na Torre do Tombo em Outubro de 2006. Antes disso, e durante dois anos, entre 2001 e 2003, recolhera apoios financeiros e institucionais para a elaboração, a que procedeu, de um fac-símile do Álbum Fontoura, composto por 549 fotografias daquela antiga colónia portuguesa e depositado no Arquivo de História Social do ICS, o qual foi oferecido, em versão fac-similada, aos Arquivos de Timor. Mais tarde, a amizade de décadas com Manuel de Lucena levá-la-ia, sob coordenação deste e em colaboração com Rita Almeida de Carvalho, a acompanhar a transcrição e disponibilização online de fontes escritas e orais preciosas sobre a descolonização portuguesa. Não seria este o último gesto de amizade que teria para com Manuel de Lucena, cuja morte inesperada a abalou profundamente. Dedicou-se, com alguns colegas, à organização da obra colectiva Estados, Regimes e Revoluções. Estudos em Homenagem a Manuel de Lucena (2012), para a qual contribuiu com um texto sobre «A batalha de Pomigliano d’Arco», que só aparentemente representa um desvio em relação ao núcleo essencial dos seus interesses.
         Estes sempre se centraram em Portugal, sem dúvida. E, mais precisamente, nos movimentos e conflitos sociais portugueses do século XX. Porventura sem se aperceber disso, Fátima Patriarca foi tecendo, ao longo dos anos, uma delicada teia que, no final, acaba por cobrir uma parte significativa desse século, desde os alvores do corporativismo salazarista até ao período subsequente ao 25 de Abril de 1974. O seu trabalho sobre o marcelismo teria sido, muito provavelmente, o fecho da abóboda de um edifício que abrange um amplo espectro temporal, movendo-se Fátima Patriarca com admirável à-vontade em etapas muito distintas da nossa História contemporânea. Quando ainda se encontrava a trabalhar nesse projecto de grande alcance sobre os tempos do marcelismo, os seus interesses sofrem uma súbita inflexão, levando-a até ao 18 de Janeiro de 1934, num livro de que adiante se falará. Por ora, interessa tão-só salientar que a coerência da sua obra decorre, acima de tudo, do seu interesse pelo mundo do trabalho e em especial pelos seus protagonistas, gente com rosto e com nome. Assumia, sem complexos, a humildade das suas origens. Pertencendo a uma elite restrita, a dos intelectuais de prestígio inquestionado, Fátima Patriarca sentia-se próxima do povo, irmanada com os que com ela partilhavam a mesma e uma só condição, a humana. Possuía um genuíno interesse pelos outros, a quem acompanhava nas suas dúvidas, nos seus anseios, nas dificuldades quotidianas. Tomava os problemas alheios como se fossem seus e, quando solicitada por familiares ou amigos, aconselhava-os suavemente, com lúcida sensatez, delicadeza, prudência. Aparentemente frágil, era de uma solidez granítica. Corajosa, independente, nunca hesitou em afirmar, com áspera mas leal frontalidade, os seus princípios e convicções.
         Ao longo da sua carreira, publicou dois livros. Um, já citado, sobre a questão social no salazarismo. O outro chama-se Sindicatos contra Salazar. A Revolta do 18 de Janeiro de 1934, e foi dado à estampa pela Imprensa de Ciências Sociais em 2000. Além disso, cerca de uma vintena de artigos de revista, textos breves, entradas de dicionários. Tratou com desvelo um dos mais importantes documentos que se conhecem sobre a génese do Estado Novo: o «Diário» do chefe de gabinete de Salazar, Antero Leal Marques, que, graças à generosidade da família, deu entrada no Arquivo de História Social e daí saiu impecavelmente transcrito, anotado e apresentado por Fátima Patriarca nas páginas da Análise Social. Realizou o seu último trabalho – a revisão científica de Cronologias de Portugal Contemporâneo (1960-2015) – com paciência beneditina, de forma tremendamente séria, com a minúcia e o perfeccionismo que decorriam do profundo sentido de responsabilidade que colocava em tudo quanto fez em vida, na academia e fora dela.
Ao evocar a sua obra, num texto notável lido por ocasião da oportuna homenagem que em 2015 o ICS prestou aos seus historiadores, Álvaro Garrido observou, muito acertadamente, sobre Fátima Patriarca: «Publicou sempre textos amadurecidos e só publicou quando entendeu que tinha coisas importantes a dizer porque entendeu submeter resultados de investigação ao escrutínio dos pares.»
Como também sublinhou Álvaro Garrido, Sindicatos contra Salazar. A Revolta do 18 de Janeiro de 1934 é uma «obra sofisticada, de grande maturidade e de culto pela micro-história à Carlo Ginzburg.» A autora, aliás, menciona Ginzburg logo nas primeiras páginas, que ilustram exemplarmente a sua honestidade intelectual. Intrigada pelo 18 de Janeiro como um dos mitos fundadores da imagem revolucionária do proletariado português, Fátima Patriarca enfrenta-o como um mistério da memória, deslinda-o com a exasperante minúcia de um médico legista ou de um detective de romance. Alerta para os perigos de promiscuidade entre o trabalho de construção da memória e o da produção historiográfica – lição que bem merecia ser escutada por muitos dos seus colegas de ofício. Depois, com característica humildade, e o seu eterno receio de magoar os outros, escreve: «Terei sido aparentemente impiedosa em relação a alguns colegas e amigos. Nada de pessoal me move contra eles, e tudo é reversível contra mim. O que está em jogo são as próprias regras da investigação, que envolvem não só a exigência de rigor, como o pôr em causa verdades estabelecidas. E também, de certo modo, o ir contra a corrente que manda que os investigadores sejam corporativamente cúmplices e se citem, quase por sistema, no registo de confirmação, o que exclui a saudável polémica.»
         Avessa aos desconcertos do mundo, Fátima Patriarca nunca buscou a polémica, ainda que neste seu livro haja desmantelado, pedra a pedra, mitos quase sacrais e crenças bem arreigadas sobre o «soviete da Marinha Grande». O livro não despertou querelas, por uma razão simples: ninguém seria capaz de contrariar – ou igualar – as conclusões da investigação levada a cabo por Maria de Fátima da Silva Patriarca. A dado passo da Introdução, a autora fornece-nos uma pálida imagem do que foi a dimensão do seu esforço: além de uma cronologia ao minuto de tudo o que se passou em Portugal no dia 18 de Janeiro de 1934, a pesquisa envolveu a elaboração de um ficheiro onomástico de perto de 400 pessoas referenciadas pela imprensa. Com o livro praticamente terminado, abriu à consulta pública o arquivo da PIDE-DGS. «A primeira reacção foi esquecer tão inoportuna abertura. Mas era temerário ignorar tão importante fundo documental e mais difícil ainda justificar a displicência. Não tive outro remédio senão meter mãos à obra. (…) Depois de algum tempo de espera, seguiram-se onze meses na Torre do Tombo em que me senti um misto de perdigueiro e de copista. De perdigueiro, porque, através dos processos pedidos, fui encontrando pistas que me conduziram a outros tão ou mais importantes do que aqueles que inicialmente tinha requisitado. De copista, porque a documentação policial, formada em grande medida pelos autos das declarações dos presos, não era compatível com uma simples consulta dos autos e o clássico tomar notas numa sala de leitura. Estes exigiam, pela sua própria natureza, a transcrição integral, que teve de ser feita à mão.»
         O comum dos mortais terá dificuldade em perceber como é que uma investigadora prestigiada e em idade adulta, à beira da jubilação e sem mais provas a dar, passou meses a fio farejando pistas e copiando fichas policiais dos anos 1930. Era esse o encanto de Fátima Patriarca, o seu indecifrável fascínio. Lançou-se àquela empreitada por puro deleite, pelo supremo gozo de descobrir a limpidez da verdade entre as brumas de uma memória ensombrada pelas mistificações da propaganda. Não proclamou a «sua» verdade como última ou absoluta, mas tão-só como a conclusão a que chegara após um trabalho árduo, a que muito poucos seriam capazes de se entregar com idêntica paixão. Imaginar o prazer que teve em cada minuto passado na Torre do Tombo serve-nos de lenitivo para a sua perda. Adivinhamos o seu entusiasmo sempre que descobria um nome perdido numa ficha da polícia ou um pequeníssimo facto escondido num recorte de jornal. A forma como se entregou a essa tarefa só é explicável – uma vez mais – por um profundo amor aos outros. Por vezes, dialogar com ela sobre este e outros temas não era fácil, pois tratava os operários da Marinha Grande, mortos há dezenas de anos, com familiaridade íntima. Conhecia-os pelos nomes, um a um, sabia o que fizeram, minuto a minuto, no dia 18 de Janeiro de 1934. Falava deles como se fossem seus vizinhos na Rua Ribeiro Sanches, ou clientes habituais do restaurante Caldo Verde, onde almoçava regularmente, servida por dois amigos, a Gilberta e o Jorge. Achava mais do que natural que o seu interlocutor soubesse quem era Tomás Guerreiro, um barbeiro de Sines, ou João Gomes Jacinto, pedreiro de Coimbra, ambos presos em Janeiro de 1934. Não admira pois que, quando chegou o momento de designar os que participaram no movimento, não hesitasse em chamá-los pelos nomes. Fê-lo – diz na Introdução do livro – por uma razão política mas sobretudo ética. «Escamotear ou iludir a identificação destes dirigentes e militantes, que tiveram rosto, nome, paixões, ódios, que combateram, que sofreram – e alguns até morreram durante o período de encarceramento –, reduzindo-os a assépticos e anódinos pseudónimos, era como se estivesse a traí-los de uma outra maneira».
         Escrevendo no dia da sua morte, num texto publicado no Observador, a sua grande amiga Maria de Fátima Bonifácio disse, sagazmente, que «muita gente tem dificuldade em convencer os outros; a maior dificuldade da Fátima Patriarca era convencer-se a si mesma.» A humildade extrema era, sem dúvida, um dos traços mais vincados do seu carácter. Mas, paradoxalmente ou não, foi dessa humildade – ou talvez insegurança – que nasceu a enorme solidez da sua obra, de uma consistência a toda a prova. Nada ousava dizer – e, menos ainda, escrever – sem a certeza absoluta de que as suas afirmações eram apoiadas em dados certos, indesmentíveis. Tinha, aliás, a consciência plena de que, trabalhando com arquivos, estes nem sempre são fiáveis. Deixou essa advertência bem expressa num dos seus raros escritos sobre a metodologia da História – ou, mais precisamente, sobre as cautelas ter na consulta dos arquivos policiais. Daí a sua preocupação obsessiva em confirmar nomes e datas, cruzar fontes esparsas, garantir a fidedignidade das informações reunidas. A sua insegurança revelou-se, afinal, a maior qualidade de uma historiadora incapaz de distorcer os factos em favor de teses preconcebidas ou orientações político-ideológicas. Eis um exemplo acabado de como fazer das fraquezas forças, seguindo os ensinamentos dos grandes mestres do aikido. Nunca nos devemos esquecer de que, para ela, a dedicação ao Budo era tão importante como o culto que rendia a Clio. Entregou-se, durante quase 50 anos, à prática das artes marciais. Convém lembrá-lo, aos mais incautos: falamos de uma socióloga industrial e de uma historiadora da classe operária que era cinto negro, terceiro dan, de aikido, e primeiro dan de iaido (sabre). Também aqui tinha um enorme gozo em ajudar os outros, ensinando-lhes os rudimentos de uma arte exigentíssima, explicando-lhes a posição certa para alcançar o correcto equilíbrio do corpo e do espírito. Que o digam o António e a Maria do Mar, os mais jovens e queridos dos seus discípulos.   

Costa da Caparica/Fonte da Telha, Março de 2016
Fotografia de Pedro Reis
      

   Deixou-se para último aquilo que é primeiro. Estas linhas foram escritas porque alguém me fez chegar às mãos o curriculum vitae de Maria de Fátima da Silva Patriarca, nascida no Couço em 1944, falecida em Lisboa na manhã de 11 de Março de 2016. Como os operários rebeldes da Marinha Grande, esse alguém tem um rosto e um nome: Jorge Almeida Fernandes, jornalista. Casaram em 1965, na Igreja de São João de Brito, Lisboa. Estiveram juntos, portanto, mais de cinco décadas. Num sábado de tempo incerto, lançou-lhe as cinzas ao mar – e, com elas, um pouco de todos nós.


António Araújo



(uma versão mais reduzida deste texto irá brevemente ser publicada na revista Análise Social, num texto escrito a convite de José Manuel Sobral, a quem agradeço esse gesto – mais um! – de grande e generosa amizade)






segunda-feira, 25 de abril de 2016

O Monstro do Esparguete Voador.

 
 


FSM. Flying Spaghetti Monster. Quando a Leonor me disse que havia uma religião assim, eu nem queria acreditar. Mas agora acredito. Não acredito no Monstro do Esparguete Voador, mas acredito que existe mesmo um culto que acredita numa divindade chamada Flying Spaghetti Monster. Os seus seguidores são aos milhares por todo o mundo. E não se assumem como parodiantes dos cultos «tradicionais», digamos assim. Pelo contrário, têm convicções profundas e arreigadas. Consideram, por exemplo, que o Monstro do Esparguete Voador criou o Universo quando estava alcoolizado. Acredita que os piratas eram seres angelicais e puríssimos, e que foi a civilização cristã ocidental que dolosamente os retratou como malfeitores, uma injustiça histórica que urge ser reparada. Os seguidores do Monstro do Esparguete Voador acreditam ainda na vida após a morte: o paraíso será um vulcão de cerveja e uma fábrica de stripteasers ou prostitutas; no inferno também haverá uma fábrica de prostitutas, com a nuance, sempre desagradável, de estas estarem infectadas por doenças sexualmente transmissíveis. Ao contrário doutros «cultos», como o do Unicórnio Cor-de-Rosa Invisível, os membros desta igreja levam-se a sério. E são reconhecidos oficialmente como religião nos Países Baixos, na Polónia, na Nova Zelândia. Há quem ache piada a esta «subversão», quem veja humor e originalidade nesta sátira à crença alheia. Por mim, não acho gracinha nenhuma a esta patetice pegada. Não passa de um sintoma doentio daquilo que aqui já dissemos, vezes sem conta: o mundo é um lugar estranho.