quinta-feira, 18 de agosto de 2016

O general (Spínola) sem mangas de camisa.



         Foi num dia do mês de Abril de 1976. Estava eu no Rio de Janeiro, por ocasião de um ano sabático, quando recebo uma comunicação do "quartel-general" do nosso movimento revolucionário (MDLP ou Movimento Democrático para a Libertação de Portugal), sediado na residência do Cônsul Honorário de Portugal no Estado de Connecticut, Estados Unidos da América, anunciando, em linguagem cifrada, a chegada ao Brasil, dois dias depois, do Vice-Cônsul, Manuel Fonseca. Que estivesse alerta, que o emissário tinha coisas importantes a comunicar-me. Nada mais. Ponto final. A natureza da missão e todos os seus pormenores ser-me-iam transmitidos pessoalmente, em devido tempo. É que por mais de uma vez tínhamos sido avisados pelos serviços secretos dos Estados Unidos que havia muitos espiões, tanto no Brasil como nos Estados Unidos, a mando do Partido Comunista Português, e que era muito provável que os telefones de alguns de nós estivessem infiltrados por esses espiões.
         Esperei e, tal como me tinha sido comunicado, passados dois dias, por volta das dez da manhã, chegou ao meu apartamento, na Rua Belfort Roxo, em Copacabana, Rio de Janeiro, o Vice-Cônsul.
        Depois de perguntar se ninguém mais estava no apartamento e depois de me pedir segredo absoluto sobre o que me ia dizer, saímos para uma esplanada para tomar um café e conversar, e mais tarde fomos almoçar a um botequim ao lado. Passadas algumas horas, partimos ambos de táxi a caminho de Leblon, em direcção ao apartamento do General Spínola.
         Era pelas três da tarde quando chegámos ao seu apartamento.
      Para surpresa nossa, quem responde ao toque da campainha é o próprio General. Depois de repetirmos a senha e o santo, abre-nos a porta. Eu não podia acreditar no que estava a ver. Quando esperava encontrar uma pessoa decentemente vestida, senão fardada com o seu uniforme de general, eis que vejo um homem em calções e de tronco nu.
        Como que surpreendido, ainda antes de nos apertar a mão, o General dirigiu-se a um quarto e reapareceu, momentos depois, a acabar de apertar os botões de uma camisa, ao mesmo tempo que nos dizia, com visível embaraço, que era esse o seu hábito de trajar por casa, dado o muito calor que fazia no Rio de Janeiro (e dada a falta de ar condicionado no apartamento em que vivia, como pudemos imediatamente observar: facto que o General não referiu, em virtude do seu horror quase epidérmico a qualquer manifestação externa de auto-comiseração).
    Seguidamente, o General mandou-nos sentar, não sem antes nos apresentar a um cavalheiro de porte modesto e extremamente discreto que nesse momento se encontrava com ele no apartamento: o Dr. Luís de Oliveira Dias, que, tal como o General e outros amigos e colaboradores dele, também se encontrava exilado no Brasil. (Convém esclarecer, porém, que esses “amigos e colaboradores” eram cada vez em menor número, ao contrário do que acontecera por ocasião do seu primeiro exílio no Brasil, como também pude observar, por sinal pela primeira vez que estive com o General Spínola no Brasil. Nesse tempo vivia ele num modesto hotel de Copacabana, juntamente com alguns dos seus colaboradores. Aliás, a primeira vez que aí entrei, dei com vários desses colaboradores do General Spínola a comprar pedras semi-preciosas a um caixeiro viajante de Minas Gerais, pedras que eles venderiam em Espanha a bom preço, para, dessa forma, poderem custear as despesas do exílio a que o regime político então vigente em Portugal os forçara.)
      Depois de apresentados os cumprimentos do Professor Veiga Simão, do Dr. Seabra Veiga, do Embaixador Pedro Pinto Corte-Real e do empresário Richard Aldrich, primo de Nelson Rockfeller, ao tempo Vice-Presidente dos Estados Unidos, o Vice-Cônsul e o abaixo-assinado apressaram-se a expor ao General Spínola a natureza da sua missão. Tratava-se simplesmente de perguntar ao General se queria candidatar-se à Presidência da República Portuguesa, nas primeiras eleições oficiais, depois de aprovada a nova Constituição pela Assembleia Constituinte de 1976.
       Depois de nos ouvir com a maior atenção, o General olhou demoradamente para nós e falou-nos mais ou menos assim:
       - Olhem bem para mim. Parece-lhes que eu tenho cara de quem alguma vez poderá rebaixar-se ao ponto de jurar fidelidade a uma Constituição marxista?
       Uma vaga de silêncio embaraçoso estabeleceu-se entre nós.
    Ciente de que havíamos compreendido devidamente as suas palavras, o General limitou-se a perguntar-nos se tínhamos mais alguma coisa, de carácter oficial, para lhe comunicar.
    Sim, tínhamos: uma vez que ele não aceitava candidatar-se à Presidência da República, estaria ele disposto a apoiar a candidatura do "General" Ramalho Eanes? Tinha ele confiança no "General" Ramalho Eanes?
     Após um breve silêncio, o General, à guisa de resposta, fez este comentário, num tom de mal disfarçada amargura:
         - Eu tinha confiança absoluta no Major Carlos Fabião e no General Costa Gomes, e vejam o que me aconteceu e o que me fizeram! E dizer que eu considerava o primeiro como um filho e o segundo como um irmão.
     Ouvidas estas palavras, só nos restou, ao meu amigo Vice-Cônsul e a mim, mudar de assunto.
   Ambos tínhamos compreendido, sem grande ginástica mental, que o General Spínola havia perdido quase completamente a fé nos homens. E nem outra coisa era de esperar de quem tinha sido tantas vezes traído por homens que ele considerava como filhos e irmãos.
   E, a propósito de o General estar em calções e em tronco nu, gostaria de explicar, aos que porventura não saibam, que o Marechal Spínola sofreu grandes privações durante o segundo exílio no Brasil. É que, ao contrário do que lhe acontecera quando aí chegou pela primeira vez, logo a seguir ao 11 de Março, em que não faltou quem pensasse que em breve o General voltaria novamente para Portugal, na qualidade de Presidente da Segunda República, razão por que lhe proporcionaram acomodações decentes, que não luxuosas, na esperança de um dia se verem recompensados a cêntuplo por um, quando ele apareceu pela segunda vez no Brasil, depois de ter sido apanhado com a boca na botija pelo jornalista de Der Spiegel, esses "amigos", duvidando que ele jamais pudesse voltar a ser alguém em Portugal, politicamente falando, não só nada lhe proporcionaram, como começaram a mandar-lhe contas a casa. E foi assim que o Marechal Spínola se viu obrigado a viver num humilde apartamento no Leblon e a alimentar-se, como ele disfarçava, por questão de brio, do que ele chamava rancho, à maneira da tropa: o modestíssimo prato do dia levado de um botequim ao lado do apartamento, num vulgaríssimo prato de alumínio.
   E quando, meses mais tarde, se mudou para um apartamento um pouco mais amplo e decente no Leme, almas boas e caridosas (poucas) foram-lhe mobilando o apartamento, levando-lhe hoje uma cadeira, amanhã uma lâmpada, depois uns pratos ou um aparelho de televisão, para que ele pudesse ter o mínimo de conforto.
   Estive mais de uma vez em cada um desses dois apartamentos e posso garantir que o que digo é a pura verdade. Aliás, pelo que se refere ao apartamento do Leme, fui testemunha ocular, mais de uma vez, desses gestos de caridade referidos no parágrafo anterior, praticados por “amigos certos nas coisas incertas”.
   Chegou o Marechal Spínola a tomar conhecimento dessas contas que alguns dos que lhe tinham dado comida e dormida durante o primeiro exílio lhe mandaram a casa durante o segundo exílio? Sei que no princípio não, graças à amabilidade e à dedicação de um português também exilado e necessitado como ele, o Dr. Luís de Oliveira Dias. Sob o pretexto de o secretariar, esse homem bom e amigo do seu amigo ocultava do General essas contas. Terá conseguido ocultá-las até ao fim? Confesso que não sei.
   Chegou o Marechal Spínola a queixar-se dessas privações? De maneira nenhuma: sobejava-lhe orgulho, dignidade e estoicismo para o fazer.
    Benévolos leitores, um dos homens que mais contribuiu, directa ou indirectamente, para o advento da Segunda República Portuguesa sofreu muito durante o segundo exílio no Brasil, mas sofreu calado e com dignidade exemplar.
António Cirurgião

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Futebol, de Hugo Rocha.

 
 
 
 
 
− Sim, o clube paga-me o hotel e dá-me o preciso p’ra viver, decentemente. Mas prometeu-me um emprego e, afinal, até agora, nada… Por isso, não sei se aceite… − Cipião, no conchego do quarto de Fernanda, a cabeça reclinada no colo da rapariga, satisfazia a curiosidade dela, respondendo a perguntas acerca da sua vida.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Portugal sensacional.

 
 
 
 
 

Cabelos nas paredes.

 
 
 
 
Truman Capote, 1959
 
 
 
 
Cabelos nas paredes. O horror em A Sangue Frio
 
Hair on the walls is the invisible subtitle of Truman Capote’s book, In Cold Blood.
Tom Wolfe
 
 
Uma pornografia da violência?
 
O terror é sobre nós, não apenas porque são nossos os medos, mas também porque nós somos o medo, isto é, a violência primitiva e primordial da qual evoluímos, o lugar negro em que os desejos e os impulsos colidem com a consciência e o autocontrolo. Vampiros, lobisomens, zombies, psicopatas sobrenaturais, são metáforas confortáveis para falar sobre aquilo que os espelhos nos devolvem. Numa frase: os monstros somos nós.
Contudo, mesmo encontrando-se profundamente enraizada na tradição oral e sendo o horror um elemento quase omnipresente desde tempos ancestrais nas formas de expressão artística, a verdade é que a história de terror enquanto género literário só se tornou popular e ganhou verdadeira autonomia face ao folclore em finais do século XVIII. Um dos primeiros passos foi dado por Horace Walpole e o seu Castelo de Otranto, mas, a partir da daqui, o conto de terror foi-se tornando um dos géneros literários mais célebres e, mais do que isso, um dos predilectos do gosto popular. Graças a isto, e principalmente à passagem do horror dos serões góticos para as páginas das revistas populares, primeiro com os penny dreadfuls no Reino Unido e depois com as revistas pulp americanas, o cinema desde cedo abraçou o terror como um dos seus géneros de eleição. 
Curiosamente, durante as primeiras décadas do cinema de horror, graças à estilização e à herança teatral de grande parte dos actores, realizadores e, até, das próprias histórias, o terror surge mais enquanto sugestão do que enquanto prática; e a violência, nos poucos vislumbres que dela temos, é coreografada, simulada e o seu verdeiro impacto está totalmente dependente da empatia com o horror dos protagonistas. Dito de uma forma mais simples, a herança de Poe é ainda tal que o terror é principal e fundamentalmente um terror da mente e não um terror do corpo.  
A partir dos anos cinquenta a história mudou. Ao mesmo tempo que o conto de terror apodrecia com a decadência da revista Weird Tales – em redor da qual se tinham reunidos os melhores escritores de terror da primeira metade do século XX –, o advento do grande horror britânico com a Hammer e, mais ainda, a chegada da cor ao cinema trouxe em pleno a carne para a película de terror. Foi um processo natural de evolução resultante da sexualização explícita do desejo do monstro pelas suas vítimas, que já se intuía no vampiro de Bela Lugosi, por exemplo, mas que a cor e alguma cedência nos costumes tornaram explícita. Contudo, esta opção, evidente na estreia como vampiro de Christopher Lee em O Horror de Drácula, distanciava-se pouco da aura em que se movia no terror antecedente. É na segunda metade dos anos sessenta, com os filmes de Herschell Gordon Lewis, e no início dos setentas, com A Última Casa à Esquerda, de Wes Craven, que nasce o splatter e o corpo representado enquanto objecto de desejo passa agora a conviver com a sua representação enquanto objecto de violência. Importa aqui dizer que, se em alguns filmes de terror desta época – e posteriores – a tortura é repartida pelo corpo dos protagonistas, na grande maioria é a tortura das protagonistas a que é hiperbolizada. Pense-se, por exemplo, no que o póster de Two Thousand Maniacs! indicia acerca do filme.
 
 
 
 
 
 
 
Tendo atingido o estatuto de pura paródia e inconsequência durante os anos oitenta com Holocausto Canibal e com o terror de baixíssimo orçamento, o splatter regressou em força no pós-11 de setembro, agora sob a alçada de um termo tão explícito quanto a sua execução, o torture porn das sagas Hostel, Saw e The Human Centipede ou de filmes como Martyrs (2008), de Pascal Laugier, ou Anticristo (2009), de Lars Von Trier. Foi também o elemento transversal a praticamente todos os renascimentos das grandes sagas de terror dos anos setenta e oitenta, como Texas Chainsaw Massacre (2003), Casa de Cera (2005) e Pesadelo em Elm Street (2010). Mas enquanto nas suas origens o splatter é, maioritariamente, um cinema de terror alternativo e com intenções subversivas, e enquanto a violência das sagas de terror dos anos oitenta tem um elemento cómico inegável trazido pela terrível execução de alguns efeitos e por opções de morte absurdas e desaconselháveis a qualquer psicopata que pretende ser minimamente eficaz, o torture porn não só se tornou a tendência mais reconhecível no terror da primeira década do século XXI, como passou a recorrer à tortura pelo puro prazer da violência, sem qualquer outro propósito ou metáfora capaz de suportar o mais básico teste de inteligência. Esta atitude, em parte por estar mais ligada aos impulsos primitivos do terror, aproxima-se vertiginosamente de uma sexualização total do terror, na qual a tortura deixa de promover o medo para se aproximar do voyeurismo ou, pior, do prazer. Em vez de nos assustar com aquilo que somos, torna-nos exactamente naquilo de que é suposto escaparmos. E a razão que justifica que o cinema de terror actual se esteja a progressivamente a divorciar desta tendência tem muito menos a ver com a consciencialização de estarmos a carregar de erotismo a tortura, e bem mais a ver com o esvaziamento do tabu graças ao confronto constante com a violência crua e real nos meios de comunicação e nas redes sociais.
Tom Wolfe, uma das figuras do New Journalism, publicou em 1967 um artigo para a Esquire no qual observava um fenómeno relativamente semelhante a propósito da forma com as parangonas típicas do jornalismo sensacionalista, marcadas por aquilo que o autor classificou como pornografia da violência, estavam a tomar conta de algum jornalismo mais reputado. Citando Marshall McLuhan, Wolfe faz um diagnóstico que pode ser integralmente transposto quer para o cinema de terror do início do século XXI, quer para as recentes polémicas acerca das imagens de vítimas dos ataques terroristas nas capas dos jornais: as imagens e as letras têm cada vez mais dificuldade em estimular em nós uma reacção e, por isso, o seu grafismo tem-se extremado, como se a ligação entre a violência relatada e o sofrimento real das vítimas dessa violência fosse uma mera abstracção.
Wolfe dá também A Sangue Frio como exemplo dessa tendência para explorar o apelo sádico-sensacionalista das histórias. O argumento é simples, mas realça a intencionalidade da sequência em que Capote apresenta os eventos: uma história em que todo o mistério se esfumou, em que desde o início se sabe quem são os assassinos, já capturados, e em que se mantém sempre viva a promessa de algo inexplicavelmente violento e terrivelmente visual, mas guardado quase até ao último momento.
         Não questionando as conclusões de Tom Wolfe, até porque o título A Sangue Frio torna evidente uma intenção semelhante, importa talvez acrescentar algumas ideias. O que Capote fez, e que se tornou rapidamente uma imagem de marca de grande parte da literatura sobre crimes reais, foi importar uma forma de contar as histórias típica da literatura de terror, principalmente da norte-americana. A criação detalhada de ambientes de terror e paranoia, uma estratégia particularmente feliz nas mãos de Poe, procurava permitir aos leitores não só acompanhar microscopicamente o processo de enlouquecimento dos protagonistas, como, por assim dizer, senti-lo. Seja através da sequência não cronológica em que os eventos nos são apresentados – primeiro o dia do crime, depois o rescaldo, depois a formação da vontade criminosa e, por último, o corredor da morte –, seja através da forma como cada parte é construída com o objectivo de maximizar o terror que caiu sobre a cidade de Holcomb, o objectivo é manter no leitor sempre perante a mesma curiosidade: que violência?
Por outro lado, e apesar do seu lugar secundário na obra, Capote não é estranho ao terror, tendo escrito alguns contos de terror, como Miriam ou Master Misery, para além de ter sido um dos responsáveis pelo argumento de The Innocents, um dos melhores filmes de terror da década de sessenta, que adapta The Turn of the Screw de Henry James.
 
O crime que aconteceu em Holcomb
 
Face ao que atrás se disse, não deixa de ser curioso que devamos A Sangue Frio, a obra-prima de Truman Capote e um livro cuja influência na literatura do século XX é ainda hoje sobejamente menosprezada, a uma notícia que, sem grande debate, caberia na crítica ensaiada por Tom Wolfe.
Na edição de 16 de Novembro do New York Times, Capote encontrou um pequeno artigo acerca de uma abastada família de quatro pessoas – pai, mãe e um casal de filhos adolescentes – que foi encontrada morta a tiro em sua casa, em Holcomb, Kansas. Nem a identidade dos assassinos, nem os detalhes da brutal execução das vítimas, nem tão-pouco o perverso e longo planear do crime eram na altura conhecidos. Ainda assim, Truman Capote decidiu dedicar a esta história os sete anos seguintes, preparando uma detalhadíssima análise do local, do crime, das vítimas, dos criminosos e de praticamente toda a gente com alguma coisa a dizer sobre os eventos. Fê-lo quase sempre acompanhado pela amiga Harper Lee, que um ano depois dos crimes escreveria Mataram a Cotovia, o livro que lhe garantiu, por direito próprio, um lugar na grande literatura americana do século XX.
O sucesso crítico do livro foi extraordinário e o sucesso monetário ainda mais. Muito por isso, o importantíssimo debate teórico que aquele livro deveria ter motivado na sua época foi adiado. Pelo contrário, o debate foi quase sempre poluído por acusações estéreis, maioritariamente movidas por uns poucos autores de true crime, os quais, apercebendo-se do verdadeiro significado e impacto de A Sangue Frio – nomeadamente para a sua carteira –, atacaram o livro com aquilo que, um pouco mais tarde, se tornaria a crítica mais ressoante:  conteúdo ficcionado num livro de não-ficção.
Comecemos por aqui, ficção ou não-ficção é uma questão de etiquetas, um peso que, em A Sangue Frio, não deve impor-se por completo, mesmo que o seu autor, em parte, o tenha feito. A obviedade daquilo que distingue a ficção do facto não se transporta para a fronteira entre ficção e não-ficção porque esta é distinção, no fundo, é apenas uma forma de arrumar estantes nas livrarias e, mais que isso, existem muitos géneros pelo meio a povoar esse espaço entre duas categorias tão rígidas. Isto, parecendo que não, altera tudo. Ao questionarmos a ética da opção tomada por Capote em incluir eventos e situações ficcionadas no meio de uma história verídica, somos imediatamente confrontados com uma hipocrisia e um problema. A hipocrisia é simples e formula-se numa questão: se olharmos para o que hoje são os jornais, a ficção de Capote é assim tão diferente do que deixamos, acriticamente, passar por notícia? E, também, será mesmo mais grave do que isto o que Capote fez?
E, mesmo que assim não fosse, até porque o ataque à hipocrisia tem um valor crítico limitado, sobra-nos o problema: existe uma ética uniforme para a não-ficção? Faz sentido exigirmos a um livro como este a honestidade ideal de uma notícia ou de um texto académico? Não me parece que devamos responder afirmativamente a qualquer uma destas questões. Grande parte do conteúdo ficcionado serve um propósito muito específico, sendo simultaneamente um dos melhores efeitos do livro. Capote intuiu que o quádruplo homicídio da família Clutter envolve duas formas de luta entre bem e mal. Numa dessas lutas, o objectivo é a destruição desse confronto, presente na forma como, a pouco e pouco, nos vai sendo sugerida uma cidade virada contra si própria, em profundo contraste com a descrição do local que, mais ou menos, inaugura o livro. A outra luta explora ao limite o binómio, confrontando os assassinos um contra o outro, o bem contra o mal, Perry Smith contra Dick Hickock (os dois assassinos), realçando a assimetria profunda entre cada uma das partes do duo homicida. Por um lado, um pedófilo e assassino sádico, representado por Dick; por outro, Perry, facilmente irritável, mas de temperamento sensível e artístico.  É na caracterização de Perry, seja no contraste com Dick, seja na sua relação com o casal Meier, que Capote realça com alguns dos eventos cuja veracidade é posta em causa e, mesmo considerando a ficção, isso está entre os melhores momentos de prosa e é a personalidade de Perry, a forma como Capote o viu, talvez o efeito mais perene da obra. A Sangue Frio é não-ficção que abusa dos privilégios da ficção e isso não significa que as fronteiras entre facto e ficção, entre romance e história verídica, não estejam acessíveis ao leitor que por isso se interesse.
 
David Teles Pereira
 

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Lisboa, 1940.

 
 
 
 
Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944)
 
 
 
 
A passagem por Lisboa de Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944) é sobejamente conhecida. A expressão «paraíso triste», com que o autor de Le Petit Prince caracterizou a capital portuguesa, tornou-se um lugar-comum das descrições de Lisboa durante a Segunda Guerra. Essa expressão consta de Lettre à un ottage, obra publicada pouco antes da sua morte em combate.   
         Transcreveu-se a tradução constante da preciosa antologia De Fora para Dentro, realizada por Aníbal Fernandes para as Edições Afrodite e publicada por Fernando Ribeiro de Mello em 1973. Existem outras traduções, como esta.
 
Fotografia de Mário Novais
 
 
Carta a um refém
 
Quando em Dezembro de 1940 atravessei Portugal para ir aos Estados Unidos, Lisboa surgiu-me como se fosse uma espécie de paraíso claro e triste. Naquela época, falava-se muito de invasão iminente e Portugal agarrava-se à ilusão do seu bem-estar. Lisboa, que organizara a mais bela exposição possível, sorria num sorriso um tanto pálido, como o das mães que não têm quaisquer notícias do filho ausente em combate e se esforçam por salvá-lo a poder de confiança: «O meu filho continua vivo porque eu sorrio…» «Vejam como estou feliz, dizia por seu lado Lisboa, como estou feliz, calma, e bem iluminada…» O continente inteiro pesava contra Portugal como se fosse uma montanha selvagem carregada de tribos hostis; Lisboa em festa desafiava a Europa: «Haverá alguém capaz de me tomar por alvo se nem tento esconder-me? Se até sou tão vulnerável!...»
         À noite as cidades da minha terra eram cor de cinza. Vivendo nelas perdera o hábito de toda a claridade e esta capital radiosa causava-me um certo incómodo. Se é escura a vizinhança, os diamantes da montra muito iluminada atraem os que ali vagueiam. Vemo-los circular. Contra Lisboa sentia eu que pesava a noite da Europa habitada por grupos errantes de bombardeiros, como se ao longe tivessem farejado aquele tesouro.
         Mas Portugal ignorava o apetite do monstro. Recusava-se a acreditar nos maus sinais. Portugal falava de arte com uma desesperada confiança. Haveria quem ousasse esmagá-lo ao culto da arte? Pusera à mostra todas as suas maravilhas. Haveria quem ousasse esmagá-lo nas maravilhas? Mostrava os seus grandes homens. À falta de exército e canhões, contra o ferro do invasor erguera todas as sentinelas de pedra, poetas, exploradores, conquistadores. À falta de exército e canhões, todo o passado de Portugal barrava a entrada. Haveria quem ousasse esmagá-lo na herança de um passado glorioso?
         Noite após noite eu errava, assim melancólico, através dos êxitos dessa exposição de extremo bom gosto onde tudo roçava a perfeição, até a música tão discreta e escolhida com imenso tacto a correr nos jardins com suavidade, sem estridências, como um simples murmurejar de fonte. Haveria quem destruísse no mundo esse maravilhoso gosto pela justa medida?
         Mas por baixo do sorriso encontrava Lisboa mais triste que as minhas cidades extintas.
         Conheci (vós também, por certo) dessas famílias um pouco excêntricas que mantêm à mesa o lugar do morto. Negam o irreparável. Não cuido, porém, que tal desafio consolasse. Dos mortos devemos fazer mortos. E no papel de mortos recuperam outra forma de presença. Mas aquelas famílias suspendiam o seu regresso. Faziam deles ausentes eternos, convivas em atraso para toda a eternidade. Trocavam o luto por uma espera sem conteúdo. E essas casas pareciam-me mergulhadas num mal-estar sem perdão e tão abafante como o desgosto. Por Guillaumet consenti pôr luto, Deus meu!, o último amigo que perdi, piloto morto em serviço postal aéreo. Guillaumet não há-de alguma vez ser diferente. Se não voltar a estar presente, também não há-de estar ausente. Sacrifiquei-lhe o lugar à mesa, essa armadilha inútil, e fiz dele um verdadeiro amigo morto.
         Mas Portugal tentava acreditar no bem-estar mantendo-lhe o lugar, conservando os candeeiros e a música. Em Lisboa jogava-se ao bem-estar para que Deus acreditasse nele.
         Em parte, o clima de tristeza devia-o Lisboa à presença de certos refugiados. Não me refiro a proscritos em busca de asilo. Não falo de imigrantes à procura de uma terra a fecundar com o eu esforço. Falo dos que se expatriam para longe da miséria dos seus a fim de manter o dinheiro a bom recato.
         Não consegui alojamento na cidade e fui para o Estoril, a dois passos do casino. Tinha saído de uma guerra densa: o meu grupo aéreo, que durante nove meses não interrompera os voos pela Alemanha, perdera três quartos da equipagem no decurso da única ofensiva alemã. De volta a casa sentira a atmosfera soturna da escravidão e a ameaça da fome. Vivi a noite cerrada das cidades. E veja lá bem como a dois passos o casino do Estoril se povoava de espectros. Cadillacs silenciosos que pareciam dirigir-se a qualquer destino largavam-nos ali, na areia fina do pórtico da entrada. Tinham-se vestido para o jantar como noutros tempos. Exibiam a gravata ou as pérolas. Convidavam-se uns aos outros para refeições de figurantes onde nada havia a dizer.
         Depois jogavam à roleta ou ao bacará, conforme as fortunas. Às vezes ia vê-los. Não sentia indignação nem qualquer sentimento irónico, porém uma angústia vaga. A que nos assalta no jardim zoológico perante os sobreviventes de uma espécie extinta. Instalavam-se em redor das mesas. Apertavam-se de encontro a um croupier austero e esforçavam-se por ter esperança, desespero, medo, inveja e satisfação. Tal como os seres vivos. Jogavam fortunas que talvez naquele minuto já se encontrassem vazias de significado. Usavam dinheiro que talvez já não tivesse valor. Talvez o valor dos seus cofres fosse garantido por fábricas já confiscadas ou, de ameaçadas que estavam pelos torpedos aéreos, em vias de ruína. Atiravam dardos a Sírius. Apegando-se ao passado, esforçavam-se em crer na legitimidade da sua febre como se de há uns tantos meses àquela parte nada houvesse começado a rebentar na terra., na cobertura dos seus cheques, na eternidade das suas convenções. Era irreal. Um verdadeiro baile de bonecas. Porém triste.
         Com certeza não sentiam nada. Eu abandonava-os. Ia respirar à beira-mar. E esse mar do Estoril, mar de cidade ribeirinha, mar domesticado, também a mim me parecia entrar no jogo. Empurrava para o golfo uma onda única e mole, toda luzidia de lua, como se fora um vestido de rabona fora de estação.
 
Antoine de Saint-Exupéry
 
 
 
 
       

domingo, 14 de agosto de 2016

Diaries of

 
 
 
 

 
 
 
         De quando em vez, o Malomil fala aqui de projectos que valem mesmo a pena. Este, então, é do outro mundo, de todo o mundo. A Anabela e o Jorge, que vivem lá fora, decidiram fazer uma das melhores revistas do planeta. Acreditem. Diaries of é uma revista fantástica, fantástica. O último número, dedicado a Cabo Verde, dá-nos um retrato ímpar daquele país. Já publicaram números temáticos sobre a Argentina (por onde tudo começou) e o próximo, a sair em Novembro, é sobre outro destino exótico: Portugal. Esta maravilha existe graças ao Jorge e à Anabela, mas é também um projecto de crowdfunding. Que merece ser apoiado, como alguns projectos desse género e génio de que falei aqui, de quando em vez. A melhor forma de apoio? Comprar a revista, divulgar a sua existência. É o mínimo. Folheiem a Diaries of  e digam se não tenho razão. Uma revista fantástica.
 
Parabéns, Jorge e Anabela, um abraço grato do
 
António Araújo
 
 
 

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Renúncia do Cirurgião aos Circenses.

 
 
 
 
Boxe, Hóquei no Gelo e Touradas
 
Acompanhei nos noticiários de ontem e de hoje (10 e 11 de Março de 2004) o caso do jogador de hóquei no gelo, Tod Bertuzzi, do Clube Canucks de Vancouver, Canadá, que, no decorrer do jogo, realizado no dia 8 de Março, atacou feroz e maligamente Steve Moore, do Clube Avalanche de Denver, Colorado, e lhe fracturou três vértebras do pescoço e lhe pôs o rosto numa pasta de sangue. Retirado do ringue em maca, sem sentidos, Steve Moore ficou para sempre impossibilitado de prosseguir a sua carreira de jogador de hóquei.
         Literalmente apaixonado pelo hóquei no gelo, durante alguns anos, no tempo em que os Whalers tinham como sede a cidade de Hartford, capital do meu estado, Connecticut, deixei de acompanhar o hóquei no gelo pela televisão, pela rádio e pela imprensa, a partir do momento em que os Whalers, sob nome diferente – Huracanes, se bem me lembro –, foram transferidos para Charlotte, no estado de Carolina do Norte. E perante o que acaba de acontecer, no fatídico e sangrento jogo de 8 de Março entre os Canucks de Vancouver e os Avalanche de Denver, prometo-me a mim mesmo continuar a ignorar para sempre o hóquei no gelo, seja por que meio for.
O que fiz para com o hóquei no gelo já o tinha feito para com dois desportos inumanos e extremamente violentos: as touradas, tanto à portuguesa como à espanhola, e o boxe.
 
Pelo que se refere às touradas, costumo contar aos meus amigos, e contei-o muitas vezes aos meus alunos, que durante o ano em que fui professor – que foi aquele em que me estreei nessa profissão de toda a minha vida – na Escola Profissional de Santa Clara, em Vila do Conde, no ano lectivo de 1954-55, participei em todas as touradas dessa temporada na Praça de Touros da Póvoa de Varzim, como contra-mestre de banda dessa Escola Profissional. Costumo contar também que na primeira tourada a que aí assisti, como regente da banda, vi matar um toureiro. Tratava-se de um jovem de 18 anos que se estreava nesse fatídico dia como toureiro profissional. Colhido pelo touro na primeira parte da tourada, foi retirado em braços da arena. Quando se esperava que não voltasse para a segunda parte, ei-lo de regresso à arena, a tourear o primeiro touro. Para mostrar a sua valentia, ajoelhou-se diante do touro e proferiu, alto e bom som, estas palavras textuais: “Sou jovem; tenho 18 anos; mata-me se quiseres.”
E ignorando os gritos implorativos da assistência, que lhe pedia por tudo, em uníssono, que se levantasse, que todos sabiam que ele era destemido e corajoso, ele continua de joelhos, a desafiar o touro. E o touro fez-lhe a vontade. Correu para ele, possesso de cega fúria taurina, colheu-o pela cintura e lançou-o violentamente ao ar. Prostrado no solo, o touro corneou-o e pisou-o sem dó nem piedade, de nada lhe tendo valido a ajuda que os outros toureiros procuraram prestar-lhe. Resultado: o jovem matador foi retirado da arena, em maca, já morto.
Era essa a primeira tourada a que eu assistia. Mas não foi a última. Quando, após sete anos de residência nos Estados Unidos, passei a ir a Portugal com regularidade, a partir do Verão de 1969, fazia questão de assistir pelo menos a uma tourada, sempre na Praça de Touros do Campo Pequeno, em Lisboa, quando essas estadias coincidiam com a temporada das touradas.
Chegou o dia em que me pareceu que o meu filho, o Anthony, já tinha atingido maturidade suficiente para ser iniciado numa das tradições culturais do país de origem de seus pais. E, sendo assim, na noite do dia 11 de Agosto de 1983 levei-o comigo para assistir a uma tourada na Praça de Touros do Campo Pequeno.
Ora sucedeu que, precisamente nessa tourada, um dos cavaleiros, José Varela Crujo, foi colhido pelo touro pelas espáduas e lançado violentamente ao solo. Sem sentidos, foi retirado em maca da arena. Levado imediatamente para o hospital em estado de coma, aí permaneceu nesse estado, durante longos quatro anos e quatro meses, vindo a falecer no dia de Natal de 1987. Às perguntas insistentes do Anthony, nos dias seguintes – se o toureiro tinha ficado bom – eu dizia-lhe que estava a melhorar. Só anos mais tarde lhe vim a dizer a verdade. Entretanto, a partir dessa fatídica tourada, eu jurei nunca mais voltar a entrar numa praça de touros, e orgulhosamente confesso que nunca quebrei essa promessa, e solenemente declaro que nunca virei a quebrá-la.
        
Pelo que se refere ao boxe, várias foram as vezes que a ele assisti pela televisão, mas uma só vez pessoalmente. Foi em 1967. Estava eu como professor de Latim, Espanhol e Francês na Universidade da Nevada, em Reno. Tomo conhecimento, pela imprensa, pela rádio e pela televisão, que vai haver uma luta de boxe entre um luso-americano da Califórnia, a quem chamavam “Portugal´s Golden Boy”, e um jovem americano muito prometedor, cujo nome não recordo (o que sim recordo é que, segundo os meios de comunicação social, o “Rapaz de Ouro de Portugal” contava por vitórias – umas 27 – as lutas de boxe em que tinha participado).
Como nesse tempo eu escrevia, de longe em longe, umas vagas crónicas e as mandava para o Director da ANI (Agência Nacional de Informação), chamado Dutra Faria, que ele depois publicava na imprensa portuguesa, melhor dito, na imprensa do mundo português, desde Braga a Macau, passando pelas províncias ultramarinas portuguesas da África, do Atlântico e do Oriente, vi nesse desafio de boxe uma oportunidade única de poder vir a deliciar os leitores portugueses, meus velhos patrícios, com as proezas épicas de um luso-americano em terras da América. Para melhor preparação, durante a manhã do dia da luta de boxe, dirigi-me ao hotel em que estava hospedado o dito “Portugal´s Golden Boy”, cujo nome não recordo, e falei com ele e com a esposa durante uns trinta minutos.
Chega a hora do desafio, e eis-me de caneta e bloco em punho, sentado junto da jovem esposa do boxeador, no coliseu principal de Reno, à espera de assistir, como jornalista amador, a mais uma vitória retumbante do “Rapaz de Ouro de Portugal.” Coliseu cheio. Grande expectativa. O árbitro dá sinal para o primeiro “round”. E que acontece? Em menos de um minuto, o “Rapaz de Ouro de Portugal” leva um valente soco nos rins e cai redondo no soalho, contorcendo-se com dores. O árbitro fez a contagem e os gestos da praxe e o “Rapaz de Ouro de Portugal”, estatelado no chão, em postura fetal, nem sequer se mexeu. Precisou de ajuda para se levantar. Fora derrotado no primeiro “round”. A esposa pôs a cabeça entre as mãos e começou a soluçar baixinho. O Cirurgião, confuso, triste e envergonhado, sem história triunfal para contar aos seus patrícios distantes D’Aquém e D’Além Mar, abandonou cabisbaixo o coliseu e jurou nunca mais na vida voltar a assistir pessoalmente a uma luta de boxe, nem acompanhá-la pela rádio nem pela televisão. E a verdade é que sempre tem sido fiel a essa promessa e sempre continuará a sê-lo. E outrossim declara que esta é a primeira vez que relata, por escrito, estes três episódios de nefasta memória.
  
António Cirurgião
 
 
PS. Entrada do meu Diário: Manchester, 11 de Março de 2004, 21h e 20m