terça-feira, 19 de maio de 2015

De novo, o Espãna.

 
 
 

 
 
         Saiu há não muito, segundo creio, a tradução portuguesa de O Planeta Doente, de Guy Debord. A edição é de 2014 e foi feita pela Letra Livre. Num dos textos desse livro, Debord diz, a dada altura, que «em si mesmo, o velho oceano é indiferente à poluição; mas não a história.» E acrescenta: «Esta só pode ser salva pela abolição do trabalho-mercadoria.»
         Concorde-se ou não com as teses de Guy Debord e dos Situacionistas, aquela frase assenta como uma luva ao filme-documentário Edificio España, de Victor Moreno, uma película de 94 minutos de comprido, que há muito ansiava ver. O filme é de 2012 e foi agora lançado numa colecção do El País. Já é a terceira vez que, depois daqui e daqui, falo do Edifício España, tantas foram as horas que lá passei defronte, a mirar quem entrava e saía. Era muita gente circulante. Por dia, entravam no España cerca de 3.500 pessoas, e observá-las era um bom passatempo para uma pausa em Madrid, enquanto Madrid não voltava à vida, adormecida pelo calor e pela siesta.
 
 
       
  Inaugurado em 1953, o España sempre foi para mim uma espécie de versão laica e urbana do Vale dos Caídos, a catedral madrilena da arquitectura do franquismo triunfante, numa mistura deslumbrante e paquidérmica dos arranha-céus de Manhattan, por um lado, e das sete irmãs  moscovitas, por outro.
 
 
 
    
     O filme não tem história – ou, melhor, a história que tem é exactamente aquela de que fala Debord, a do trabalho-mercadoria. Com 28 andares, ocupados por 200 habitações e 400 escritórios, o España era um colosso. Foi comprado em 2005 por um fundo de investimento, que logo pensou em remodelá-lo (que bem precisava) e dar-lhe um uso diferente. O filme de Moreno acompanha a carnificina do España, feita por centenas de operários das mais diversas nacionalidades. Em certos momentos, diálogos espantosos entre equatorianos católicos e senegaleses polígamos. Noutro passo, o mais pungente da película, um viúvo abandona o apartamento que partilhara durante décadas com a mulher. Logo a seguir, instantes depois, entra a equipa de demolição. Aquilo que o señorito de Madrid mostrara às câmaras com tanto desvelo, a casa de banho ampla e sólida, as divisões solarengas, tudo é devastado à picareta e ao camartelo. Enquanto no belíssimo Ruínas, de Manuel Mozos, vemos casas tombadas e o seu silêncio, no filme de Victor Moreno observamos o trabalho-mercadoria em acção furiosa. Enquanto uns devastavam o interior do España, as promotoras imobiliárias iam mostrando a homens engravatados como iria ser o novo e promissor edifício. Em 2010, porém, o projecto de remodelação seria suspenso, e o filme termina aí (notícias do ano passado dão conta da sua aquisição, claro está, por um magnata chinês). Pelo meio do filme, deparamos com seguranças a contarem lendas que o España tecera, como a dos fantasmas e das vozes estranhas que se ouviam no 14º piso. Noutra cena, um homem mostra um dos painéis do átrio, com Mercúrio e Victoria, os deuses do comércio e do lucro, dizendo tratar-se de uma alegoria do capitalismo.
 
 
 
 
         O que mais impressiona é a sanha do desperdício. Que o España carecia reforma, disso ninguém duvida. O que se estranha é a necessidade de esventrar um prédio daquele tamanho, e a imensa quantidade de detritos que a operação provocou. Noutra das cenas, um camião gigantesco vai depositar o entulho nos arrabaldes de Madrid. No interior do edifício, bastante desinteressante, talvez não houvesse muito a aproveitar. E, diga-se, os promotores foram obrigados a salvaguardar quatro ou cinco apontamentos de maior relevo. Mas havia realmente necessidade de tamanha destruição? O mínimo que se pode dizer, em abono de Espanha e dos espanhóis, é que, ao menos, o exterior do edifício lá está, pujante e esmagador. Em Lisboa, ao invés, a traça delicada da Piscina do Areeiro foi substituída por um cubo pior que romeno, desconhece-se como ficará a Pastelaria Mexicana e os seus interiores e, pasme-se, a Barbearia Campos, no Chiado – sim, no trendy Chiado –, fechou, sendo alvejada de morte. Mesmo se reabrir, nunca terá a forma que teve durante décadas de dandismo. Numa cidade povoada de turistas, de turistas que vêm para ver coisas como a Barbearia Campos, o que se passou é, pura e simplesmente, uma estupidez irrevogável 


7 comentários:

  1. "Em Lisboa, ao invés, a traça delicada da Piscina do Areeiro foi substituída por um cubo pior que romeno." Não posso concordar mais. Quem é o autor?

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    1. Não é o caso do vereador dos Espaços Verdes, Sá Fernandes: "Gosto imenso do projecto."

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  2. Confesso que não percebi se o autor esta a favor da reestruturação do edificio ou não.Quem pagaria as obras que reconhece necessarias ás novas funções?Se o magnata fosse brasileiro seria diferente?Um edificio com cerca de 68 anos .Não é propriamente um monumento nacional creio.

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  3. Caro António,

    Uma sucessão de fotos históricas muito interessantes (alguma das quais já passaram por aqui):

    http://capitalismisfreedom.com/historical-photos-you-have-to-see-to-believe/
    http://capitalismisfreedom.com/rare-historical-photos/

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    1. Muito obrigado, vou já ver!

      Cordialmente,

      António Araújo

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