segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Labirinto de mágoas.

 
 
 
 
O Dr. Daniel Sampaio é um médico respeitado e escutado, com uma vasta carreira clínica e uma obra escrita não menos vasta. Tudo isso  torna ainda mais grave o que disse, no passado domingo, na revista do Público/P2. A propósito dos rankings das escolas, num artigo intitulado «A Mentira dos Rankings», escreveu o seguinte:
 

 
         Entendamo-nos: criticar esta afirmação do Dr. Daniel Sampaio nada tem de ideológico nem implica a defesa dos rankings ou das escolas privadas. Se há aldrabices nos rankings e no ensino privado, nada como denunciá-lo; mas denunciá-lo com factos concretos. Ora, o que impressiona é a leviandade com que se faz uma acusação desta gravidade. E feita por uma pessoa com autoridade, com uma experiência clínica de quatro décadas. Acusar as «escolas privadas», sem mais, sem dizer quais, de discriminarem alunos em função dos seus comportamentos – e, note-se, das suas perturbações mentais – é algo muito grave. Gravíssimo. O Dr. Daniel Sampaio diz ser um facto «indesmentível». Mandava a ética e probidade que tivesse denunciado essa discriminação criminosa, logo quando ela ocorreu; ou, no mínimo, que fosse mais concreto no manto de suspeição que, com inconcebível ligeireza, lança sobre todas as escolas privadas.
         Repito: nada me move a favor do ensino particular ou cooperativo (nota pessoal: todas as minhas filhas frequentam escolas públicas). Mas, insisto: tudo me move contra a forma leviana – que espero ter sido impensada, e não fruto de sectarismo ideológico – com que o Dr. Daniel Sampaio, sem apresentar provas nem denunciar factos, formula uma acusação de enorme gravidade. Exigia-se um esclarecimento do que diz. Ou, em alternativa, um pedido de desculpas. Em 40 anos de prática médica, ao deparar com casos destes, mesmo respeitando o segredo médico, o Dr. Daniel Sampaio, autor d'A Arte da Fuga, não actuou, nada denunciou? Preferiu ocultar, silenciar? E quais são, em concreto, as «escolas privadas» que assim procedem? Mantendo-se a dúvida, a terrível dúvida, resta à Associação dos Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo  intentar uma acção judicial contra o Dr. Daniel Sampaio. Não sei se o irá fazer, desconheço quem são os representantes dessa associação. Em todo o caso, impressionou-me a forma leviana como alguém com tanta experiência, credibilidade e reputação escreve «opinião» num jornal lido por milhares de pessoas. O Dr. Daniel Sampaio pode ter toda a autoridade do mundo como médico psiquiatra. Mas, como colunista, estamos... conversados.
António Araújo  

 

15 comentários:

  1. Lamento informar que é mesmo sectarismo ideológico. Puro e duro.

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  2. Desta vez não posso estar mais em desacordo, quer com o texto, quer com o comentário. Por uma simples razão; já aconteceu com o meu filho. A escola privada em questão transmitiu-me claramente a seguinte mensagem: ou medicava o meu filho ou ele não podia lá continuar. Depois de consultar um pedopsiquiatra e um pediatra do desenvolvimento, tendo ambos confirmado que não era caso para medicação (especialmente o que a escola queria que era o metilfenidato) a escola manteve a sua exigência. Como entendo que quem prescreve medicamentos são os médicos, obviamente tirei-o daquela escola. Comentei com várias pessoas o que se passou e fiquei espantada com a quantidade de casos semelhantes que se sucedem. Desde crianças com dislexia, crianças com perturbações do espectro do autismo, crianças que não têm notas tão elevadas quanto as escolas pretendem, são "convidadas" a procurar escolas que sejam mais adequadas para elas. Isto passa-de há anos. Os rankings tiveram este efeito perverso. Prevendo já uma crítica desde logo direi o seguinte: os pais não fazem queixa porque quem tem de fazer tudo o que as outras pessoas fazem mais levar crianças a várias terapias por semana, com enormes custos, quer pessoais, quer financeiros, não terá a disponibilidade de tempo nem emocional para o fazer. Quando rejeitam os nossos filhos a mágoa, a tristeza e sim a vergonha são tais que apenas queremos encontrar uma escola que os aceite tal como eles são. Nunca consultei o Dr. Daniel Sampaio mas o que ele diz é VERDADE. Se alguém quiser tirar aproveitamento político faça favor e talvez assim mude alguma coisa. Acabam por cair no mesmo erro que apontam ao Dr. Daniel Sampaio, só que ele sabe do que fala, pois trata-se do trabalho dele. O meu nome não é publicado porque hoje em dia seria uma brincadeira descobrir também o nome do meu filho e por enquanto gostava que ele pensasse que este mundo é um pouco melhor do que realmente é.

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  3. António - Eu não sei exactamente o que se passa nos últimos tempos, embora tenha 3 filhos,com grande disparidade de idades, tendo os dois últimos andado a maior parte do tempo num colégio particular. Mas posso garantir-lhe que um aluno que saísse um pouco das normas, quer em termos da conformidade reinante nas escolas privadas (bastava que fosse um pouco endiabrado ou que tivesse um sentido de humor mais apurado) era convidado a sair desse colégio. O Daniel Sampaio deve ter muita razão no que disse. Sei de vários casos de crianças que estiveram a Ritalina. Uma foi mais ou menos expulsa de uma colégio privado. Também conheço um caso contrário, de um miúdo que tem problemas e que o colégio onde andavam os irmãos disse que se deveria experimentar que ele fosse para lá. Eu até disse aos pais, que são muito meus amigos, que a criança devia ia para uma escola especial. O miúdo foi e tudo correu bastante bem, atendendo as circunstâncias.
    Maria Teresa Mónica

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  4. António - Eu não sei exactamente o que se passa nos últimos tempos, embora tenha 3 filhos,com grande disparidade de idades, tendo os dois últimos andado a maior parte do tempo num colégio particular. Mas posso garantir-lhe que um aluno que saísse um pouco das normas, quer em termos da conformidade reinante nas escolas privadas (bastava que fosse um pouco endiabrado ou que tivesse um sentido de humor mais apurado) era convidado a sair desse colégio. O Daniel Sampaio deve ter muita razão no que disse. Sei de vários casos de crianças que estiveram a Ritalina. Uma foi mais ou menos expulsa de uma colégio privado. Também conheço um caso contrário, de um miúdo que tem problemas e que o colégio onde andavam os irmãos disse que se deveria experimentar que ele fosse para lá. Eu até disse aos pais, que são muito meus amigos, que a criança devia ia para uma escola especial. O miúdo foi e tudo correu bastante bem, atendendo as circunstâncias.
    Maria Teresa Mónica

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    1. Teresa, tudo o que diz é verdade, basta a Teresa dizê-lo. Mas pode escrever-se, generalizando de uma forma tão abusiva, que todas as escolas privadas adoptam essa atitude? E não haverá, pelo contrário, escolas privadas vocacionadas para o acolhimento de crianças com necessidades educativas especiais? O que me impressiona e incomoda é a generalização abusiva, a suspeição lançada sem apontar casos concretos, a construção de um alegado «padrão», de uma suposta «regra» (escolas privadas/exclusão dos mais débeis), que não sei se existe. Pelo menos, no artigo em causa não é minimamente demonstrada. Mais: se falamos de casos individuais, posso apresentar dezenas de situações de «inclusão» em colégios privados. Falar de casos particulares não está em causa. O que está em causa é uma afirmação genérica, expressa de um modo tão leviano por quem tem, pelo seu prestígio, particular autoridade nesta matéria.

      Um Bom Natal, com amizade

      António

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    2. Melhor fora que, estando nesse colégio dois irmãos a estudar, tivessem a coragem de recusar um terceiro. Seria cinismo em dose excessiva. Não fizeram mais que a sua obrigação. A meu ver, não lhes pode ser creditado o gesto de "inclusão", mas, antes, o receio de perder os outros dois...

      Nada tenho contra os colégios privados, fiz toda a minha vida escolar até à Faculdade em colégios privados: Eça de Queiroz e D. Nuno Álvares Pereira em Angola, João de Deus no Porto e S. Pedro em Coimbra (apenas estive um ano no Liceu Nacional de Benguela). A todos eles estou grato. A verdade é que nos Colégios privados, falo (só) pela minha experiência, o empenhamento dos professores e da administração era maior e o acompanhamento dos alunos era mais envolvente. Desde logo porque era com a "fama" que grangeavam (não havia rankings...) com o bom aproveitamento dos seus alunos que esses colégio viam aumentar a sua procura. Na escola pública os alunos estão mais entregues a si próprios (o que tem vantagens, mas também desvantagens). Os que são bons e estudiosos são-no em qualquer deles. Os outros (a maioria) é que precisam de maior trabalho e empenhamento.

      Mas, naquela época, era impensável que um Colégio recusasse um aluno ou promovesse a sua saída por ter qualquer tipo de dificuldades de aprendizagem. A ética e a moral prevalecentes naquela época não estavam subordinadas ao lucro. Esta é que é questão de fundo e não os rankings (que são discutíveis, claro, mas que podem melhorar com outras regras).

      Um Bom Natal para todos







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  5. Não é a primeira vez que o nosso simpático e super-esclarecido anfitrião se torna num defensor moral "radicalizado" dos supostamente atingidos por declarações de outros.
    Estou a borrifar-me para a ideologia das pessoas. O que me interessa é saber se o que dizem tem fortes probabilidades de ser correcto. Ora, parece ser o caso e o Dr. Sampaio não é polícia nem inspector escolar.

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  6. Não é a primeira vez que o nosso simpático e super-esclarecido anfitrião se torna num defensor moral "radicalizado" dos supostamente atingidos por declarações de outros.
    Estou a borrifar-me para a ideologia das pessoas. O que me interessa é saber se o que dizem tem fortes probabilidades de ser correcto. Ora, parece ser o caso e o Dr. Sampaio não é polícia nem inspector escolar.

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  7. Gostaria de dar uma opinião que certamente alguns vão considerar incorrecta.
    Discute-se aqui o que fazem os colégios privados quanto a regras internas e regras de admissão.
    Mas não é por serem privados que podem ter as regras que entenderem?
    Olhem em Inglaterra, e há aqui uma respondente que o deve saber, até podem ser expulsos por não levaram calçado o que as leis internas determinam.
    Só vai para lá quem quer ou pode, logo o aceite de regras parece-me normal.

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  8. Expulsão, (ou "exclusão", que é uma palavra mais simpática...) por causa do calçado creio nunca ter acontecido, mas quando um belo dia a mostarda chega ao nariz do Head-Master e os alunos, por vezes ás dezenas, são recambiados para casa por não levarem os sapatos do uniforme, isso acontece regularmente. Até mesmo os progenitores receberem uma carta do referido Head-master por os rebentos se apresentarem na Escola com os sapatos por engraxar, também não é novidade.Isto quer no publico quer no privado.
    Quanto à expulsão própriamente dita ela é regulada por regras apertadas, aplicadas a todos os tipos de ensino, e é passivel de apelo quando tida como sendo uma medida excessiva ou injusta.
    Mas queixas há :

    "It calls on schools to confront “the racism- and class-based discrimination” that persists in some institutions, and blames the results-driven, one-size-fits-all approach to education that makes exclusion inevitable.
    About 3,900 children were permanently excluded from secondary schools in England in 2012-13, the most recent year for which figures are available."

    Surpreendentemente hoje em dia surgem protestos de pais por as penas de exclusão não serem aplicadas nas escolas privadas mais caras e exclusivas com a necessária severidade aos alunos vindos das eufemisticamente chamadas "economias emergentes", os quais pouca queda têm para a disciplina e para estas coisas do British way of life, mas que são um excelente negócio. É a vida...

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  9. Olhe Sr. Fado Alexandrino porque não expulsar alunos porque são judeus, pretos, ciganos,filhos de pais separados, filhos de pais paneleiros, etc, etc. Assim já percebe? Ou tem de vir um head master madá-lo para o raio que o parta? Ou para o Gulag, ou para Treblinka?

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    1. Muito obrigado pela patada.
      Sem saber, o senhor/a refinou a Lei de Godwin.
      E, aproveito para o tentar esclarecer, que não estamos a falar de expulsão nenhuma, mas sim de admissão.
      Consulte um mecânico de automóveis que ele explica-lhe.

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  10. Consulte um neurologista que ele também lhe explica. De psiquiatras nem lhe falo porque para si só malucos é que lá vão. Leu o post? É que estes alunos são "convidados" a sair. Ou seja já lá estão, já foram admitidos. E não é por causa de não vestirem meias do uniforme que os "convidam" a sair é porque têm dificuldades de aprendizagem (basta ligeiras). Percebeu agora? Lei de Godwin? Filho, para ti nem "La Palisse". Continua a mandar postais já que és tão fino... Mas lá que enfiaste a carapuça...

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    1. Muito obrigado.
      Sim li o post, e lá um doutor afirma sem confirmar.
      E depois um anónimo (por acaso até parece o senhor/a) confirma sem afirmar.
      Ora porque é que eu não hei-de usar a mesma liberdade e interpretar da maneira que me apetece?

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  11. O seguinte video foi produzido pelo departamento official Britânico que tem a seu cargo a protecção das crianças e jovens. Sendo em inglês é legendado e de fácil compreensão mesmo para quem tenha da lingua apenas conhecimentos básicos.
    Mostra uma realidade que nos toca a todos e que todos temos o dever moral de enfrentar. Vale por mil palavras.

    https://youtu.be/ycy_zp6PxQU

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