Em
Estado Novo
Sonhar
com o amor, viver e encontrar um grande amor, ser-se mutuamente desejado,
driblar os obstáculos que nascem do ódio da sociedade aos espíritos livres, que
vão para onde querem e quando bem lhes apetece (o ódio como uma espécie de
contraposição dialéctica radical do amor e da liberdade), o gosto pela vida, pela renovação da vida: Jacques Laforêt quer
"começar uma nova vida" (Até ao Fim da Terra, p. 91),
Bernardino procura uma "nova vida" (Uma Fazenda em Áfrical,
p. 36), Isabel busca "uma nova vida" (A Aluna Americana,
p. 88) e Custódio "uma vida nova" (Vento de Espanha, p.
18).
A paixão é transformadora. Adora a novidade, as mudanças imprevistas,
os desejos inconfessáveis, a promessa de novas aventuras: "tinham
desenterrado dele [Mateus] um novo homem", "uma
inteligência nova", "forjara nele um homem novo", "o nascer de uma nova esperança"
(O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 176, 177, 319, 285);
"A luz da tarde entrava-lhe pelo gabinete e pintava-lhe o horizonte de uma
esperança nova", "Entrara-lhe uma alma nova e trazia nos
olhos a claridade de uma esperança renovada", "um deslumbramento que
lhe restaurasse a alma, uma força que entrasse neles como arado em terra húmida
e fizesse germinar dentro de cada um as plantas novas e autênticas que
fizera germinar em si", "o chefe dos colonos levava uma alma nova"
(Uma Fazenda em África, págs. 28, 75, 77, 129); Isabel "sentia-se começar
de novo e cheia de esperança" (A Aluna Americana, p. 80);
"o aparecimento e a proximidade de Bento tinham feito acordar qualquer
coisa dentro de si [Maria Constança], e a presença dele, mesmo distante,
iluminava-lhe a existência com um novo significado" (Até ao Fim
da Terra, p. 172).
O
amor não é apenas uma novidade. É uma revolução. Uma etapa de descoberta de
outra dimensão: "Quando se amaram pela primeira vez ela sentiu-se sair do
seu próprio corpo para entrar numa outra dimensão, que nunca imaginara
possível" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 45); o prazer
que Luís sentia ao ver Helena "arranjar-se ao espelho, do duche, (...)
tinha uma dimensão nova e única para si" (Um de Nós Deve
Lembrar-se, p. 83); "um íman que a punha noutra dimensão"
(Os Dias da Febre, p. 213).
Ou
mesmo um novo mundo, tal é a força do amor: Bernardino abriu-lhe [a Benedita]
"as portas para o novo mundo" (Uma Fazenda em África,
p. 244); "aquela experiência abriu-lhe um novo mundo dentro de si
própria" (A Aluna Americana, p. 73); "como se fosse a noite de
um novo mundo ou de uma nova vida" (Do Outro Lado do Mar,
p. 293); a "descoberta de um novo mundo" (Um de Nós Deve
Lembrar-se, p. 68).
Às
vezes, menos do que as que gostaria, é um capítulo novo que se abre:
"Seria mais um capítulo da sua vida [de José Duarte] que se
encerraria", José Duarte, quando se apaixonou por Isabel, soube "que
se ia abrir um novo capítulo na sua vida" (A Aluna Americana,
págs. 16, 43). Ou se encerra: "ela ajeitou-se melhor no lugar e olhou para
a frente, sabendo que tinha acabado de encerrar um capítulo da sua
vida" (Vento de Espanha, p. 329); a João "vinha-lhe a sensação
muito dolorosa de ter encerrado precipitadamente um importante
capítulo da sua vida" (O Prazer de Guiar, p. 107).
Uma
página que se vira: "José Duarte não se limitava a ser um mero virar de
página (A Aluna Americana, p. 91). Talvez uma folha em branco:
"a sua vida tinha recomeçado numa folha em branco" (A Aluna
Americana, p. 72).
Ou
até mesmo etapa que se supera: o Marquês de Alorna "sabia que ia entrar
numa nova e dolorosa etapa da sua existência" (Até ao Fim da
Terra, p. 156); Ema "estava no limiar de uma nova etapa da sua
vida" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 23).
Novos
mundos ao mundo
Como
quem cruza fronteiras – Peter apaixona-se por Benedita e foi "como se
tivesse atravessado uma fronteira para lá da qual não havia retorno
possível" (Uma Fazenda em África, p. 206) – e chegassem a um novo
país: "Para Elvira, chegar ao local onde nascera foi o mesmo que chegar
a um país novo" (Os Dias da Febre, p. 121).
Descobrissem
novos continentes, como se tivessem descoberto sítios que não sabiam ter dentro
de si: José Duarte agarrava Isabel "tão extasiado como um navegador que
descobria um novo continente" (A Aluna Americana, p. 40),
João "sentia-se como se tivesse passado para outro continente sem
sair do mesmo país" (O Prazer de Guiar, p. 107); Adelaide, a mulher
"que lhe [a Sonthonax] revelara um continente desconhecido" (Haiti,
p. 149). E outros territórios, com várias regiões de perigo e incerteza:
"Caetana tinha-lhe mostrado um território novo" (Do Outro
Lado do Mar, p. 37); Benedita "tinha consciência de que estava a ultrapassar
uma fronteira e a abrir-se a terras desconhecidas e perigosas"
(Uma Fazenda em África, pp. 197-198).
E
até um novo planeta: "no novo planeta em que vivia desde que
escapara de Portugal" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 68). Ou uma
vasta galáxia: depois de conversar com o senhor Allison, Ema
"entrou em casa como se tivesse vindo a flutuar de outra galáxia"
(Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 63).
João
Pedro Michelin
O
novo enche o vazio, dá-lhe uma alma nova, é uma coisa quase sensual. Como
Machado de Assis, algumas frases de JPM servem para insuflar as personagens de
um original vigor estético: Mateus deixava que Luísa o "insuflasse
de vida" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 48); "insuflar-lhe
algum calor pelas coisas coloniais", "com o peito insuflado
pela importância", "o vento que insuflava um pouco as dunas da
praia", a visão de Márcia em Peter: "insuflava-lhe a
imaginação", "insuflado pelo orgulho", "Quis insuflar-lhe
ânimo" (Uma Fazenda em África, págs. 28, 38, 82, 91, 231, 286);
"o coração de José Duarte insuflou-se instantaneamente" (A
Aluna Americana, p. 40); "sentiu-se insuflado de um sentimento
de pertença" (Vento de Espanha, p. 153); "insuflado
pelo espírito do tempo" (Do Outro Lado do Mar, p. 15); Susana
Campilho "insuflou-lhe uma capacidade para extrair de cada dia todo
e qualquer miligrama que ele tivesse para lhe dar" (O Prazer de Guiar,
p. 102); "insuflados pelo vinho verde", "insuflado
pela lonjura e pela imaginação" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs.
127, 193).
Como
nas festas que precedem os desastres, depois de semanas ou meses de febre
desenfreada, com uma intensidade inusual, que deixam o leitor absorto naqueles
quadros de volúpia, elas arrependem-se, debatem-se no mundo bíblico da vergonha
e da culpa (a nossa civilização baseia-se na ideia de culpa religiosa
autopunitiva, e o sentimento de culpa é um privilégio burguês). Num misto de
catarse, autossacrifício e necessidade de redenção, põem tudo em causa e
decidem separar-se.
O
deambulatório
Segue-se
o desgosto deles, a conduta errática, desorientada, sem norte, caminhando sem
rumo nem direcção fixa. Vogam pelas ruas, afogam-se em trabalho, partem em
viagem, alistam-se para combater na guerra. Qualquer coisa que os faça esquecer
a mulher amada. É a chamada fase deambulatória: depois de Benedita abandonar
Bernardino, este "andou como um sonâmbulo em direcção ao Bairro Alto"
e "Benedita entrara tão fundo e tão avassaladoramente em si que agora a
sua ausência era uma indizível tortura. Os dias arrastavam-se exasperantemente
devagar, numa tristeza de bradar aos céus, sem apetites nem gosto pela vida.
Bernardino andava olheirento, sofrido, perdia peso a olhos vistos" (Uma
Fazenda em África, págs. 238, 264).
Em
O Estranho Caso de Sebastião Moncada, a separação de Luísa significa
para Mateus dias de tortura, pesadelos, noites em claro, sono agitado,
olheiras, perda de vontade de comer, emagrecimento, dificuldade em respirar,
enfim, sente que se lhe esvai a vontade de viver. Mas depois "defendia-se,
reagia o melhor que podia, trabalhando na reorganização de um rudimento de
polícia, no Porto" (p. 149).
Para
Peter Sternberg, em Uma Fazenda em África, a ausência de Benedita
"tornou-se um enorme peso na sua vida"; para José Duarte, em A
Aluna Americana, "o que se passava lá fora deixou de lhe interessar,
como se se tivesse encerrado num convento interior", "o seu refúgio
voltou a ser a História. Quando não tinha aulas encerrava-se nas
bibliotecas", por vezes põe-se a "deambular por entre os passantes e
os pedintes que infestavam Lisboa" (p. 108), obrigou-se a fazer exercício
físico, corre todos os dias, vai duas ou três vezes por semana nadar. Mas
"a vida exterior passava-lhe ao lado", "nada lhe
interessava", "a vida académica interessava-lhe ainda menos"
(131).
Em
Os Dias da Febre, depois de lhe morrer a primeira mulher, Catarina,
Robert Huntley "ficou esmagado pelo desgosto", deixa praticamente de
viver, move-se por obrigação, como um condenado, sem interesse pelas coisas em
redor. Começa por encerrar-se em casa, "como um empestado", mas
depois passa horas a andar a cavalo ou em tarefas agrícolas; deixou de viver;
movia-se por obrigação, como um condenado, sem interesse pelas coisas (p. 160).
Mais adiante, quando a relação com Elvira parece ter atingido o clímax, a amante
deixa-lhe uma carta dizendo que não é capaz de prosseguir, que se vai afastar
dele (p. 251). Depois de ler as palavras dela, Robert "guardou a carta no
bolso, apagou a lareira e o braseiro e de seguida, com o guarda-chuva na mão
direita, saiu para a rua e foi andando, por entre os aguaceiros, absorto nos
seus pensamentos e no seu desgosto. Até então, os dias sem Elvira tinham sido
dias de saudade e carência, atenuadas por um ou outro bilhete e pela
expectativa de um próximo encontro. Agora, que a sua ausência iria ser
definitiva, a sensação de perda era dilacerante, e as implicações dessa perda
incomensuráveis. Tudo em seu redor lhe parecia descolorido e sem esperança.
Apesar disso, e de a chuva ter parado, Robert caminhou estupidamente depressa,
como se tivesse um rendez-vouz com a solidão", e o trabalho
hospitalar, progressivamente descurado, torna-se um suplício, um catre onde
cumpria pena, uma corrente de ferro que o prendia ao dever (p. 256).
Em
Vento de Espanha, Custódio "deambulou quase meia hora pela Baixa,
sem destino e sem vontade de pegar ao trabalho. Não lhe apetecia ver ninguém,
nem falar com ninguém, queria perder-se na multidão", "queria morrer,
queria ser esquecido, queria ficar só com o seu pesar" (Vento de
Espanha, p. 111).
Quando
Caetana rompe com Vasco, em Do Outro Lado do Mar, "os primeiros
dias sem ela foram uma autêntica descida aos infernos. Não dormia e mal comia.
As coisas que dantes lhe davam prazer já não lhe interessavam e a própria
medicina tornara-se uma rotina enfadonha e penosa. Os doentes falavam, expunham
as suas queixas e maleitas, e ele simulava prestar-lhes atenção mas na verdade
não os ouvia" (pp. 37-38).
Para
preencherem o vazio, alistam-se na guerra, como em O Estranho Caso de
Sebastião Moncada: Mateus, após dedicar muito do seu tempo às investigações
policiais em curso, o narrador explica que, "ainda assim, tudo isso junto
não bastava para preencher o vazio que Luísa deixara na sua vida". Então,
numa noite de insónia, toma uma decisão: "Havia uma guerra em seu redor e
ele queria participar nela. Queria expor-se em prol de uma causa [a causa
liberal, contra os absolutistas], mesmo que isso implicasse risco de morte, e
queria fazê-lo como soldado, de arma na mão. (...) decidiu oferecer-se como
voluntário" (p. 149). E em Vento de Espanha, para fugir de Lisboa,
esquecer Lurdes e o seu desgosto, Custódio alista-se na Legião Estrangeira e
vai para Marrocos (Ceuta).
Ou
então viajam: para se afastar de Benedita, Peter Sternberg, o herói de Uma
Fazenda em África, parte numa expedição científica, que o fará atravessar
África, de Benguela a Quelimane. Vasco, o protagonista de Do Outro Lado do
Mar, refugia-se "durante uns tempos entre os frades de Santo António
da Convalescença" (p. 37), esperando encontrar aí alguma paz espiritual.
Debalde. A clausura não ajudava, antes pelo contrário. Lançou-se então ao
trabalho, com afinco, mas esse esforço também não resultou. Pensava
constantemente em Caetana, na sua traição, na sua insensibilidade, mas também –
ai de si – no seu sorriso e no seu corpo. E esses pensamentos contrários,
inimigos entre si, repetiam-se num ciclo sempre igual. Carregou-se de olheiras,
emagreceu. No meio da sua enorme dor percebeu que tinha de sair de Lisboa. As
ruas, as casas, a atmosfera da cidade, traziam-na constantemente à sua
lembrança e faziam-lhe chegar a pele quente dela, a sua voz, os seus gestos, a
sua cara afogueada quando faziam amor. Não, não era possível permanecer ali.
Mudar-se-ia para a província, na esperança de que o ar dos campos e a
simplicidade das suas gentes lhe apaziguassem o coração". Então, como
forma de terapia e "para esquecer Caetana, iria ser agricultor e médico de
aldeia" (pp. 37-38).
Outros
recorrem a prostitutas ou deitam-se em camas de ocasião, com mulheres
desinteressantes: quando a solidão se torna insuportável, Robert tenta
interessar-se por outras mulheres, uma enfermeira, mas nunca fora capaz de se
envolver a sério, "nunca fora capaz de vibrar", procurou
"companhias momentâneas, ainda que não encontrasse grande conforto nesses
contactos fugazes, e acabara por se resignar a uma vida de monge, certo de que
nunca mais voltaria a amar" (Os Dias da Febre, p. 167).
Apaixonado
por Benedita, quando esta sai de Moçamedes e vai para o Bumbo (por decisão do
marido José Leite), Bernardino sente que lhe falta Benedita e chega "a
cortejar uma tal Deolinda, uma mulher pequena que viera com o velho Costa em
Novembro de 1850 e que enviuvara quase logo, mas o idílio nunca lhe despertou
interesse suficiente e cedo o abandonou. A triste verdade é que nenhuma das
mulheres solteiras ou viúvas que viviam em Moçâmedes lhe agradava" (p.
183).
Mais
adiante, Bernardino "procurou de novo uma mulher branca que lhe fizesse
esquecer Benedita. Voltou a tentar a sua sorte com Deolinda, a mulher pequena
que cortejara alguns tempos antes. (...) Mas não durou porque ele se desagradou
quase de imediato", estranhou o seu modo de fazer sexo, colando os lábios
à sua orelha e repetindo: 'Dá-me a tua pila, querido! Mete-me a tua pila! Quero
sentir-te'" (Uma Fazenda em África, p. 267).
Em
A Aluna Americana, José Duarte procura contactos fugazes com mulheres
pagas, ligações de pegar e largar, e torna-se frequentador da discoteca
Hipopótamo (pp. 125-126); e Vasco, em Do Outro Lado do Mar, tenta
"ligar-se a outras mulheres mas nenhuma lhe interessava verdadeiramente,
nem mesmo Angélica, a filha do provedor de Saúde, que voltou a ver e a namorar.
Ocasionalmente, revisitava a sua vida de estroina nos botequins e casas
mal-afamadas de Lisboa. (...) baixava à cidade à procura de mulheres e do riso que
tinham estimulado as peregrinações da sua juventude. Mas eram visitas em
sucesso e sem graça, pois tinha o corpo distante e o espírito ausente" (p.
40). Para Esteban, em Vento de Espanha, "Maria del Carmen era a
única mulher que lhe interessava, as outras eram meros passatempos que pouco ou
nada significavam e preenchiam" (p. 147).
Dormem
com outras, mas é no corpo da amada, com as suas curvas maravilhosamente
proporcionadas (e nos seus devidos lugares), que eles pensam: na Rua das
Taipas, Bernardino contratou a primeira mulher que se desencostou da esquina
para lhe oferecer os seus serviços" (Uma Fazenda em África, p. 238)
e "Caminhara em vão. Ela estava em toda a parte para onde se virava, e
desde que se afastara dela nada fazia sentido" (Uma Fazenda em África,
p. 405). Peter, no mesmo romance, "das últimas vezes que apertara a bela
preta nos seus braços era em Benedita que pensava" (p. 304).
As
amantes surgem do nada, introduzem-se nos seus pensamentos: Robert não consegue
deixar de pensar em Elvira (Os Dias da Febre) e Isabel não sai da cabeça
de José Duarte, "continuava a estar por todo o lado, em cada esquina de
cada rua, em cada cantinho do seu cérebro, e ele via-a nos sítios mais
insólitos" (p. 137). Quando Vasco e Sara se separam, em Do Outro Lado
do Mar, a amante "aparecia-lhe frequentemente no espírito", e
Peter "não via Benedita havia mais de um mês e no entanto ela estava mais
presente do que nunca" (Uma Fazenda em África, p. 395).
Entretanto,
depois de todos os arrependimentos e incompreensões (era a si próprias que se
torturavam, resistindo aos encantos deles), elas também foram fazendo o seu
caminho, adaptam-se, reconstroem-se, decidem voltar para os amantes e
reconciliam-se com o mundo debaixo dos lençóis (tranquilizai-vos!, as cenas de
sexo não tardam). Elas mais serenas e dignas, eles mais sábios (altura em que a
voz da sabedoria de JPM se exprime pela boca deles).
Mulherzinhas
Guionista
e realizador desta sequência – aproximação, declaração de amor, recusa,
aceitação, ruptura, reconciliação –, JPM satisfaz cabalmente os leitores,
levando-os a sentir a máxima empatia pelos seus protagonistas. Belisca-os de
curiosidade, guia-os através da ilusão da complexidade para que eles percebam a
simplicidade subjacente, e encaminha-os numa área que lhes é grata: o processo
de purificação com o fogo da dor e do amor.
Ao
contrário dos enredos orientados para o mercado de massas, em que os
acontecimentos que acarretam mudanças são evidentes e fáceis de entender,
sucedendo-se com agilidade, na alta literatura, como é o caso dos romances de
JPM, a sucessão de acontecimentos é mais lenta e ambígua, exigindo aos leitores
um grande esforço de reflexão para poder descodificar as conexões por si
mesmos. Indubitavelmente, as histórias de JPM não são espectáculos de
marionetas. Pelo contrário, o ritmo da narrativa é levado a cabo por
personagens com consciência, com vontade e vida própria, e é o seu
comportamento que dita o enredo. Na verdade, estão constantemente em processo
de transformação à medida que as circunstâncias vão mudando.
Implicitamente,
tanto eles como elas pergunta-se: no clima pouco estimulante em que vivem, que
hipóteses têm os desejos autênticos de se afirmar? Onde o lugar para a audácia,
o risco, a aventura, a revolta contra as normas e os códigos de um meio constrangedor,
ou mesmo repressivo? O que vem comprovar, uma vez mais, a crítica de JPM aos
pilares da ordem, por não permitir a adequação entre as relações das pessoas e
a plenitude do seu desejo (ou do amor na sua plenitude física). De certo modo,
a sua obra é uma terrível denúncia, um grito de autenticidade numa sociedade
inautêntica.
Reivindica
a verdade do teu desejo, reivindica-a e assume-a, será talvez a máxima favorita
de JPM. Ou então: ousa vencer os tabus. Porque JPM, contrariamente ao vosso
melhor julgamento, tem um lado feminista, que o leva a reinventar e reelaborar
o discurso da feminilidade.
No
caso delas, o amor ajuda-as a contornar o ambiente violento e opressivo do
casamento, mas, por outro lado, também anda de braço dado com a tragédia,
arrasta-as para situações de maior sofrimento (causadas pelos ciúmes e a ânsia
de vingança dos maridos quando descobrem que estão a ser enganados). O suspense
que nos leva a folhear compulsivamente os romances de JPM, a ler por vezes duas
páginas simultaneamente, uma com cada olho, é a necessidade de sabermos como é
que elas vão escapar das suas relações tóxicas e se, no final, o amor vence em
toda a linha, com os amantes juntos e felizes para sempre.
Fazendo-as
oscilar entre o desespero e a salvação, os amores proibidos apresentam-se-lhes
como um desafio à moralidade convencional, mas também à subjectividade das
personagens femininas. Como acomodar a liberdade individual e as exigências do
corpo (em mulheres que não estavam habituadas a sentir o desejo erótico como
uma ordem que se sobrepunha à sua força de vontade, interferindo com todas as
leis do respeito e da decência), com os bons costumes e as exigências da
sociedade?
Sendo
a sexualidade uma força que a comunidade tenta quase sempre conter, este dilema
é estrutural, mais do que pessoal, daí que as mulheres infiéis, casadas com
homens tenebrosos, sintam a sua consciência mais pesada que a Torre Eiffel ou a
Catedral de Milão. Hesitam entre soluções pragmáticas (encontros com os
amantes, em locais secretos, deixando-se levar, sem pudor
nem vergonha, pelo voo amoroso) e obediência aos preceitos da moral e do
decoro (respeitando assim as regras da sociedade burguesa). Embora as soluções
mais pragmáticas possam, às vezes, consubstanciar-se na afirmação de princípios
morais...
Em
O Estranho Caso de Sebastião Moncada, a voz autoral omnisciente, que
conhece a mente de todas as personagens e adopta, não raro, os seus pontos de
vista, pergunta, a propósito da infidelidade de Luísa: "onde estava o seu
comportamento de recato e protecção contra os olhares alheios. Por que razão
não tinha pudor ao pé daquele homem? Por que motivo tinha tanto prazer em
obedecer-lhe, em antecipar-lhe os desejos, em cheirá-lo, em satisfazê-lo de mil
maneiras, como uma mulher amoral e perdida? Não sabia. Ao pé dele a sua
natureza jorrava com um vigor novo e inesperado, as suas palavras e os seus
gestos adquiriam vida própria e escapavam ao seu controlo, enlaçando-se nas
palavras e nos gestos dele" (p. 41).
Em
Uma Fazenda em África, ele "observava-a com tal insistência e
despudor que ela se sentiu incomodada" (p. 75); em Até ao Fim da Terra,
Constança "abraçou-o e beijou-o ternamente, indiferente às regras do
decoro e reserva" (p. 239); em Os Dias da Febre, a primeira mulher
de Robert, antes de se entregar àquele corpo masculino, sente "embaraço e
pudor" (p. 158); e em Do Outro Lado do Mar, Eugénia, "naquele
momento, não se preocupava com as estipulações do decoro e da
conveniência" (p. 205).
A
vergonha e o pudor estabelece uma diferença nítida entre a sexualidade das
brancas e a das negras. Àquelas, não lhes parece próprio entregarem-se de
imediato às fúrias momentâneas da paixão carnal, só depois de ultrapassarem um
primeiro momento de pejo e decoro (por medo de verem arruinada a reputação de
mulheres castas) é que se deixam levar pelo ímpeto dos seus instintos.
O
pudor, os pruridos morais e o bom nome são um luxo dos brancos (o fetichismo da
virtude e do recato femininos foi sempre uma característica distintiva da vida
burguesa), ao passo que a disponibilidade sexual (sem quaisquer hesitações de
ordem moral) é uma categoria dos negros. A este propósito dá-nos JPM um
eloquente exemplo: "Uma noite, na escuridão do compartimento, Sara subiu a
escada do beliche e veio procurá-lo à cama de cima. (...) Estava nua e tinha a
pele tão quente, tão macia e convidativa, que Vasco correspondeu
instantaneamente. Mas, depois, veio-lhe uma hesitação, um embaraço, um
escrúpulo de homem moral e civilizado, que se sobrepôs à premência do seu
desejo animal e que o impediu de avançar". De seguida, Vasco explica a
Sara que "deve haver humanidade e respeito pelos outros", ao que ela
responde: "não entendo, doutor" (Do Outro Lado do Mar, pp.
139-140).
Ébano
e marfim
As
negras costumam ser retratadas através da sua suposta natureza primitiva e
animalesca, e do seu apetite sexual insaciável e descontrolado, o que tende a
ocorrer logo no primeiro momento em que seduzem o homem branco. Nelas, quase
nunca existe pudor, decoro ou vergonha.
A
diferença única entre umas e outras é que as europeias (com a sua pele
"imaculadamente branca", como as heroínas vitorianas) usam um falso
verniz chamado pudor ou recato, meros disfarces das suas pulsões sexuais, ao
passo que as negras o manifestam em "voz alta", francamente. Dito de
outro modo: nas negras, a desenvoltura erótica é natural e inconsciente, nas
brancas é consciente e propositada. Todas são obviamente sexualizadas, mas
naquelas essa sexualização é inata e racial, nestas é uma transgressão que abre
uma brecha na muralha dos bons costumes (algo que nunca acontece, ou muito
raramente, nas mulheres negras).
Isto
torna-se evidente na concepção marquiana das mulheres como, em parte,
ameaçadoras e, em parte, tentadoras ("por um motivo qualquer misterioso
não consigo resistir-te", diz Elvira em Os Dias da Febre, p. 230).
Com toda a ousadia da desobediência ao politicamente correcto, JPM
hipersexualiza todas as mulheres, trata-as por igual. Historicamente, geograficamente, socialmente, culturalmente.
Embora possa parecer uma simplificação
ad hoc, JPM, autor muito mais original, muito mais complexo e muito mais
rico do que se pensa, estabelece a seguinte distinção: as mulheres brancas,
quando atraem os homens, fazem-no por deliberação consciente. Veja-se a cena do
encontro, em Angola, entre Benedita e o governador Leal, neste belo parágrafo
de Uma Fazenda em África: "Depois de se ter sentado e apresentado, Benedita
respirou fundo e viu os olhos apreciativos do capitão seguirem o movimento do
seu busto, tentando adivinhá-lo. Ela achou que no fim de contas talvez houvesse
algum fundamento nos rumores que corriam a respeito dele, o que não impediu
que, imperceptivelmente, se tivesse posto um pouco de lado para que a curva dos
seus seios fosse mais desenhada e evidente" (p. 261). Na página seguinte,
"Benedita desencostou-se do cadeirão e inclinou-se ligeiramente para a
frente. Ao fazê-lo, o decote arredondou-se um pouco mais, deixando ver a
curvatura dos seios, e Leal achou que naquela posição a explicação dela era
ainda mais convincente" (p. 262).
Isabel,
a protagonista de A Aluna Americana, "aprendeu que o seu corpo
tinha um duplo poder sobre os homens: endurecia-lhes os pénis e amolecia-lhes
os cérebros. Sob o comando dos seus dedos ou da sua boca, ficavam a tal ponto
impregnados de testosterona que deixavam de raciocinar e iam por onde ela os
levasse" (p. 63).
Em
Do Outro Lado do Mar, quando Vasco se aproxima de Eugénia, esta
"puxou o vestido para baixo para que o redondo do peito ficasse mais
evidente e oferecido" (p. 203). Indiferente às "estipulações do
decoro e da conveniência, queria apenas ser vista e admirada. Por isso tomou a
dianteira, meneando as ancas com entusiasmo, e levantou um pouco a saia de
forma a facilitar a passagem dos degraus e a revelar os tornozelos bem
torneados" (p. 205); mais adiante, Eugénia "levaria o vestido verde
porque era o mais decotado" (p. 285).
No
mesmo compasso, em Os Dias da Febre, Elvira "dava-se conta de que a
sua sensualidade era uma arma poderosa e que era estimulante fazer experiências
com ela para aprender a usá-la e, mais do que isso, doseá-la" (p. 123).
No
fundo, as mulheres são todas iguais. Nós sabemos isto, JPM sabe isto e as suas
personagens (apesar de não saberem que são personagens dos romances de JPM)
também o sabem. Os homens, naturalmente, são tentados pela mulheres e a
tentação aparece na forma de mulheres lúbricas, com as suas carnes oferecidas.
Nunca JPM teve tanta razão (e teve-a várias vezes): Mateus viaja numa carruagem
com uma passageira cujo "peito redondo vibrava convidativamente ao alcance
da sua mão" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 301); as
pernas de Benedita, "autoritárias e convidativas" (Uma Fazenda em
África, p. 242); José Duarte "via-lhe os olhos brilhantes,
convidativos, cheios de promessas" (A Aluna Americana, p. 112);
"o convidativo sorriso de Caetana", a "pele tão quente [de
Sara], tão macia e convidativa" (Do Outro Lado do Mar, págs. 12,
139).
Trópico
de Câncer
Por
outro lado, entre as negras não existe preocupação com a manutenção das
conveniência ou da imagem de respeitabilidade pública, tão-pouco se notam
grandes pruridos morais na sua linguagem do corpo e da sexualidade. Com as
brancas, não é tanto assim: Benedita "sabia que tinha de resistir a essa
vertigem. (...) não era uma preta do Bumbo mas uma mulher branca e católica.
Que iriam as pessoas pensar de si?" (Uma Fazenda em África, p.
197). As brancas, por norma, quando se entregam aos amantes, fazem-no com a
consciência de que estão a fazer algo que jamais pensaram fazer (com excepção,
talvez, de Poleciana, a viúva de Sebastião Moncada).
As
negras, ao invés, quase nunca questionam ou põem em causa os seus instintos.
Porque, como se sabe, e todos concordarão sem dificuldade, os países quentes
favorecem as paixões da carne, e a experiência libidinal dos negros, com
ulteriores fins sexuais, é desembaraçada de constrangimentos sociais: em Do
Outro Lado do Mar, Dona Inácia diz, pela voz do narrador, que "as
escravas comportavam-se muitas vezes como cadelas no cio, sem pudor, sem
segredo, sem resguardo" (p. 107). Em Haiti, "as mulatas tinham
uma voluptuosidade que as tornava mais desejáveis do que quaisquer outras
mulheres e Adelaide era superlativa no que ao desejo dizia respeito" (p.
12) e "A mulata tinha uma inclinação natural para a música e dançava com
uma leveza, uma graça e uma elegância muito peculiares que a tornavam
irresistível" (p. 13). Em Os Dias da Febre, Robert explica que,
"quando estive na Serra Leoa, dei-me conta de que as mulheres africanas
faziam amor de uma forma límpida e sem reservas" (p. 88).
De
resto, e com certa razão, JPM nunca coloca uma criança branca a seduzir um
adulto, como acontece no romance Do
Outro Lado do Mar, na
cena em que o padre Inocêncio é seduzido por uma "pretinha",
"quase criança" (as palavras são do narrador omnisciente), sendo esta
a sua única presença em todo o livro:
"Inesperadamente, uma pretinha muito bonita veio junto
da sua cadeira de espaldar. Apertava os peitos, oferecendo-lhos. Ele não queria
vê-la mas a verdade é que não tirava os olhos das mãos dela, espremendo as
maminhas pontiagudas, nem das suas ancas, que se remexiam ao ritmo dos
tambores. Num gesto inesperado a pretinha pegou-lhe numa das mãos e passou-as
pelos mamilos. Ele ainda quis resistir mas algo dentro de si quebrou. Muito
contra a sua vontade, a sua virilidade reprimida fez-se sentir, reagiu, enrijeceu,
ardendo como um ferro em brasa pedindo satisfação.
–
Como te chama, pretinha? – perguntou, a custo, no meio da sua enorme
perturbação.
–
Martinha, siô padre.
E
Inocêncio, sem saber o que fazia, ouviu-se a si mesmo a dizer:
–
Vem comigo, Martinha. Leva-me a casa.
Ela
obedeceu, pegou-lhe na mão e seguiu alegremente a seu lado, saltitando e
meneando as ancas. E tanto as meneou, e tão perto dele o fez, que o padre não
conseguiu conter-se. Ainda não tinham saído totalmente do alcance luminoso das
fogueiras quando a abraçou por trás e lhe apertou os peitos quentes e macios. A
pretinha não opôs qualquer resistência. Pelo contrário, chegou-se a ele,
empurrando os quadris para trás, oferecendo-se como se fosse uma fêmea
experiente. Encorajado, excitado, enlouquecido de desejo e esquecido dos seus
votos, Inocêncio levantou-lhe o saiote, sentiu-lhe o calor húmido e macio entre
as pernas e, com as mãos inábeis e nervosas, procurou avidamente o bom
caminho" (p. 243).
A
cena é interrompida e continua mais adiante, na página 246, já a Martinha (mera
figurante) desapareceu da história. Durante duas páginas, o narrador dedica-se
a analisar os remorsos do padre, conservando-se indiferente à subjectividade da
Martinha:
"Na
manhã seguinte o padre Inocêncio acordou angustiado. (...) Virou-se na cama
para não encarar a figura martirizada do Santo Cristo que, da parede, o
observava e culpabilizava. (...) Não queria ver o corpo crucificado de Jesus
nem o que quer que fosse. Mas logo o Demo, sentindo o terreno livre, sabendo-o
desavindo com o Senhor, lhe meteu pela cabeça adentro as imagens e as boas
sensações da noite anterior. E quanto mais fechava os olhos, aterrado, mas
nítidas lhe apareciam as coxas frementes e convidativas das pretas, as suas
saias levantadas, os seus gestos lascivos a exigirem carícias bárbaras e
indecorosas. Torceu-se na cama para expulsar de si aquelas imagens, mas sem
resultado. O toque macio dos peitos da pretinha ainda estava nas suas mãos, o
cheiro adocicado dela entranhara-se-lhe no nariz, os seus débeis gemidos de
surpresa e de prazer não lhe saíam dos ouvidos. (...) Estava condenado!
Morreria de luxúria e de remorso. Chorou lágrimas amargas, sinceras, dobrado
pelo arrependimento. Depois, arriscando olhar de soslaio para o crucifixo
iluminado pela luz do dia, viu que ele resplandecia numa calma aceitação".
Os
críticos de JPM dirão que tais afirmações não têm o mínimo de credibilidade
científica. Erro. Erro grave. Tudo o que JPM escreve possui o máximo de
exactidão e rigor factual. JPM só trabalha sobre factos históricos reais.
Vejamos o que o historiador João Paulo Oliveira e Costa, professor de História na Universidade Nova de Lisboa,
indiscutível autoridade em temas do foro sexual, declarou à Piauí, uma
das revistas mais prestigiadas e qualificadas do Brasil: "Para ele [Oliveira e
Costa], nem é comprovado que as mulheres indígenas tenham sido estupradas por
colonos portugueses: 'O nosso pensamento europeu tem uma visão muito
catastrófica do sexo. Na maior parte das civilizações, o sexo não tem os
problemas que tem para nós', diz. 'Para ser violação, era preciso que as
pessoas não gostassem e que não estivessem disponíveis, e a maior parte das
pessoas na África, na América e na Ásia estava muito mais disponível do que nós
imaginamos com o nosso pensamento judaico-cristão sobre o sexo'" (em João
Sundfeld, "Verdade lusotropical. Os livros didáticos de Portugal e a
dificuldade de lidar com o passado colonizador", Piauí, n.º 231,
Dezembro de 2025).
Por estas e por outras, porque a
esquerda tem falsificado a história do colonialismo e da escravatura, JPM
entrega-se por inteiro à missão de rever e corrigir "erros e
ignorâncias". Daí ter saltado sobre a cultura erudita (do historiador
académico) para a chegar à cultura popular (do romancista maroto), escrevendo
romances sobre esses temas, mostrando que muitos portugueses não eram tão
indesejáveis como se julga, que o colonialismo desperta os piores instintos,
mas que muitos brancos não eram completamente insensíveis ao nosso monstro
colonial.
Após anos e anos de convívio com a escravatura, incorporada
durante séculos na nossa maneira de ser e de viver, JPM decidiu emprestar os
seus preciosos conhecimentos à criação artística nacional. Do que talvez não
estaria à espera era de ver o romancista a ultrapassar o historiador, algo que
JPM já assumiu sem pruridos: o próprio confessou à jornalista Daniela Marques
(na referida entrevista) que os seus romances são "mais cativantes,
apelativos, coloridos, próximos das emoções e das pessoas". O suficiente
para JPM acreditar (com inteira razão) que está a realizar uma grande obra
literária.
O Anjo Branco
Uma
maneira de corrigir as visões limitadas e limitativas da história da
escravatura passa por mostrar que muitos brancos sentiam "pena" dos
negros, senão mesmo "uma grande ternura pela gente preta" (Do
Outro Lado do Mar, p. 127). Neste romance, Vasco "dedica-se de alma e
coração à saúde dos escravos" e "Vasco teve pena daquela pobre
gente" (Do Outro Lado do Mar, págs. 137, 195).
Os
ideais e sentimentos de humanidade dominam a consciência de vários colonos
brancos. Se muitos os tratam com brutalidade e crueldade, muitos são também os
que tratam os negros com sensibilidade e delicadeza. Esta é, aliás, outra
dicotomia que atravessa os romances de JPM em ambiente colonial: brancos maus versus
brancos bondosos.
Os
brancos maus querem civilizar os negros pelo trabalho e pelo castigo,
espancando-os, deixando-se levar pelos seus impulsos incontroláveis, numa
mistura de fúria e loucura. Os brancos bondosos tentam convencê-los a moderar
os seus instintos, a crueldade do chicote e de outras formas tortura (por vezes
culminam na liquidação física dos escravos), ou dedicam-se a causas
humanitárias e de caridade. Extremamente preocupadas com os outros, cheias de
vontade de corrigir os males do mundo, intolerantes com as injustiças, sentem a
dor dos escravos e dos miseráveis. E entregam-se, por isso, a várias
actividades de beneficência, humanitaristas ou filantrópicas: é a desumanização
dos escravos que humaniza as personagens principais.
Isso
faz com que os negros sintam gratidão pelos brancos bondosos. Por exemplo,
Gaspar sente um enorme "sentimento de gratidão" por Vasco –
"sentiu que aquele homem era, de alguma forma, a reencarnação do espírito
do seu pai, vinda do fundo das nuvens para o amparar", "o médico
branco era um homem generoso e corajoso –, um branco de "coração grande e
mão aberta" (Do Outro Lado do Mar, p. 265). Por isso, já
perto do final, Gaspar entra na saleta da Fazenda Bolina e, prestes a matar o
homem que está com Sara, a escrava mulata, detém-se, "petrificado de
surpresa. À sua frente, ligeiramente curvado para aparar o golpe, estava o
médico branco" (p. 307), e diz depois: "Peço desculpa! Pensei...
(...) Enganei-me. Agora vou embora, doutor. Adeus, senhora. Desculpem o susto
que vos preguei" (p. 308). O mesmo acontece em Haiti: ao sexto dia
de uma revolta de escravos, depois de saber da morte da mulher, Honoré de
Beauregard decide regressar a Cap-Français (actual Cabo Haitiano) e, no
caminho, cai numa vala, magoa-se na queda e, dada a fundura do buraco, não
consegue sair dali. Começando a gritar em socorro, vários negros armados com
fuzis e catanas aproximam-se, um dos quais diz "Deixem-no ficar para
morrer à fome", enquanto outro (Congo, o gigante negro) exclama "Não.
Quero matá-lo já aqui!".
Honoré
vê-o então empunhar a catana e, quando julgava que estava condenado a morrer,
Toussaint, líder da insurreição, ordena: "Pára, Congo. Esse é um branco
bom". Acto seguido, Congo declara: "Não há brancos bons".
Responde Toussaint: "Há assim. Eu conheço esse branco. Não trata mal os
seus negros. Tirem-no da cova" (pp. 83-84). A bondade e altruísmo dos branco sente-se em Elvira (Os
Dias da Febre): coração sensível e compassivo, é voluntária em casas de
asilo da infância desvalida (p. 133); em Benedita (Uma Fazenda em África)
"veio-lhe, então, a ideia de começar uma escola, já que não podia
fazer mais por aquela gente" (p. 194); em Joséphine (Haiti), que,
generosa, benevolente e doce, pede ao pai que trate os escravos com humanidade,
proibindo o uso do chicote, e diz-lhe que vai fazer "uma escola na
arrecadação velha. Quero ensinar os mais pequenos [filhos dos escravos] a
ler, escrever e contar" (p. 158); em Catarina (Os Dias da Febre),
mulher sensível ao sofrimento alheio ("o espectáculo dos escravos a serem
punidos era algo que a incomodava enormemente", conforme se explica na p.
151), desenvolve várias actividades de beneficência e, "sem que o pai
soubesse, começou a ensinar escravos a ler" (p. 152).
Os
maus procuram não se misturar demasiado com os costumes locais, ao contrário
dos bons. Isto é evidente em Uma Fazenda em África. Em Bernardino,
"que estava cada vez mais africanizado" (p. 130) e, sobretudo,
em Peter Sternberg. Ansiando trocar "os plácidos bosques e
planícies alemães pelas ferozes savanas de África" (p. 79) pelos
"espaços sem fim e pelo constante embate do desconhecido" (p 92),
Peter descobre em Moçâmedes um "paraíso selvagem e solitário" (p.
241). É ali, no sertão angolano, naquele "inesperado Jardim do Éden",
que se sente "verdadeiramente livre". Torna-se caçador em Moçâmedes
(leia-se: fornecedor do tráfico de marfim) e começa a viver à moda africana
(leia-se: africaniza-se), por exemplo, "arranjando uma mulher local
para pôr alguma ordem na sua vida" (p. 89).
Mais
adiante, o narrador explica que Peter, "quanto mais conhecia os africanos,
mais os valorizava. A comiseração e o desdém que os civilizados tinham pelos
selvagens – que ele também tivera quando primeiro viera para África – ia-se
gastando dia após dia, dando lugar à simpatia e à identificação" (p. 95)
ou "Peter achava que os africanos eram pessoas exactamente como as outras
e que deviam ser deixadas aos seus próprios ritmos e rumos" (p. 329).
Como
disse antes, Peter é a versão teutónica da personagem de África Minha,
interpretada no cinema pelo actor Robert Redford. Como no filme (mais do que no
romance de Karen Blixen, adaptado à 7.ª arte por Sydney Pollack), Benedita, a
proprietária de "uma fazenda em África" (como no romance a própria
escritora dinamarquesa), apaixonada pelo alemão, põe em causa a independência
de Peter (p. 270).
A
analogia com África Minha é inevitável. Como Karen Blixen a Denys Finch
Hatton (aventureiro e caçador profissional, trabalhando como guia de safaris e
de caça grossa), a Benedita de Uma Fazenda em África recrimina Peter
Sternberg o facto de permanecer tão pouco tempo em casa, partindo quase se
imediato para as caçadas: "Ainda há pouco tempo chegaste e já estás
novamente de partida" (p. 272) ou "Vais e vens a teu gosto e eu estou
sempre aqui, à tua espera".
Benedita,
como Karen Blixen, não aceita a vida de caçador de Peter, quer retê-lo.
Deseja-o "em permanência junto de si", ele, por seu lado, "teme
essa proximidade que se assemelhava a uma clausura" (p. 376). Peter ama a
sua vida errante, quando Benedita o pressiona a ficar, sente-o como uma ameaça
à sua liberdade: "ele sentia-se sufocar e ansiava pelos espaços
selvagens" (p. 377) e "gostava de se sentir sozinho no meio de vastas
regiões ainda inexploradas, longe dos interesses e das coisas da vida civilizada"
(p. 406). Peter passa duas ou três semanas em casa de Benedita e parte de novo
para caçar elefantes, leões, búfalos, pacaças. Sem a caça, Peter estaria
demasiado perto dela, não suportaria tanta proximidade (p. 302).
Peter,
Bernardino e Vasco não são os únicos brancos que se africanizam. Em Os Dias
da Febre ocorre o mesmo fenómeno, quando o narrador relata as breves
passagens de Pedro e Robert Huntley pelos ambientes coloniais africanos: "Pedro
ficou imediatamente conquistado pelos métodos africanos", "Pedro
entrou imediatamente em empatia com o estilo africano das coisas" (p.
38), "Enquanto alguns se recusavam a tocar nas comidas africanas, com medo
de que contivessem veneno, ele deleitou-se a descobrir as produções do país e a
sua estranha culinária", "Pedro tinha uma curiosidade inesgotável por
coisas exóticas ou invulgares", e Robert, colocado na Serra Leoa, "está
a tornar-se nativo" (p. 84). Aliás, a sua chegada ao continente
africano, lembra os sonhos uterinos, como quem acabou de regressar do passado
amniótico: "A África era, de certa maneira, o retorno a essa infância: um
enorme sótão com dezenas de baús por abrir" (p. 39).
Para
se furtarem às malhas de um casamento infeliz, acontece que as protagonistas
tentam fugir dos maridos cruéis, cuja vigilância é cada vez mais apertada.
Estes, que já esperavam que elas fugissem, vão atrás delas e apanham-nas. Em O
Estranho Caso de Sebastião Moncada, Luísa tenta pôr-se ao fresco várias
vezes (p. 270), numa delas disfarçada de camponesa, mas depois descoberta,
"não importava. Adiante arranjaria maneira de tentar de novo, quando a
ocasião se proporcionasse" (p. 157); Eva, em Uma Fazenda em África,
tenta também fugir (p. 311) e Sara, em Do Outro Lado do Mar, "nos
primeiros tempos, tentara fugir, mas fora apanhada" (p. 185).
Em
Haiti, o português Melchior Salazar – homem duro, de elevada estatura e
excesso de peso, forte como um touro, que castiga severamente os escravos –
rapta Joséphine (que casara com a sua "verdadeira paixão", Antoine de
Tilly, um quarteron – filho de uma relação entre um branco e uma mestiça
–, mas lá pelo meio do livro perde-o e fica viúva) e leva-a para a sua
plantação (p. 211). Apaixonado por ela, Joséphine desperta-lhe os mais loucos
desejos carnais, mas ela nega-se. Para escapar às suas garras, porque "não
aguentava ficar nem mais um minuto naquela casa, junto àquele homem", foge
descalça, com os sapatos na mão e o filho adormecido no colo. Sem levar comida
nem roupa, mete-se a caminho de Cap Français (p. 216) e volta a ser capturada.
Cortante e irónico, diz-lhe Salazar: "Vieste dar um passeio, não foi? Vejo
que estás cheia de energia e já sei o destino que te vou dar" (p. 217).
Quando
os conflitos atingem um cume intransponível, os maus clamam vingança. Por
exemplo, em O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Etelvino diz que
"aquele bandido [Mateus] havia de pagá-las até ao fim e com língua de
palmo" (p. 57), e em Do Outro Lado do Mar, Bento Garcez declara
que "aquele médico [Vasco Lacerda] estava marcado e era garantido que
pagaria o seu atrevimento com língua de palmo" (p. 230) e
"Gaspar teria de pagar com língua de palmo" (p. 257). Mas JPM,
como bom historiador, e como ser-no-mundo, sabe ligar os percursos individuais
às dinâmicas institucionais e às acções colectivas, situando-as nos seus
contextos socio-históricos: "Mais uma despesa para o desgraçado Portugal pagar
com língua de palmo" (Uma Fazenda em África, p. 228).
Há
um momento em que forças exteriores avassaladoras – por exemplo, as revoltas
sangrentas de escravos, as doenças individuais, as epidemias e as guerras –
parecem encurralar e isolar as personagens, ameaçando destruir os laços
afectivos. Esses mecanismos narrativos permitem ao narrador aprofundar e
indagar os problemas pessoais, situando-os no contexto social, histórico e
psicológico (nos romances históricos, o contexto importa bastante e muda
constantemente).
A
redenção dos heróis só surge quando eles são capazes de abdicar dos seus
privilégios e enfrentam os perigos da guerra, da doença ou do mar, fazendo
sacrifícios pessoais dolorosos. Tudo em nome do amor, da justiça, da liberdade
e da integridade dos seres humanos (e da pessoa amada, em particular): Mateus
"iria revolver céu e terra até encontrar Luísa" e
"atravessei céu e terra para te voltar a ver" (Mateus imaginando-se a
falar com Luísa) (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 175, 302);
José Duarte "moveu céu e terra para saber o número dela e a
morada" (A Aluna Americana, p. 32); Jolicoeur "correria
Céu e Terra para encontrar Coralie" (Haiti, p. 75).
Os
romances de JPM são como máquinas ambulantes que funcionam por inércia, como o
corpo de uma galinha sem cabeça. Ao mesmo tempo, conseguem conduzir o leitor ao
essencial: o sentido da vida como produto ou efeito do amor (a mentira dos
amantes é a verdade essencial e a verdade essencial é o amor). O amor é a única
linguagem comum. Para além de todas as diferenças, é o amor que nos permite
abrir uma brecha na solidão que nos cerca.
Cadáveres
esquisitos
Todos
os seres humanos são prisioneiros da morte, esse acontecimento total que tem
sobre muitos artistas um efeito tonificante. O mesmo ocorre com John Keats e
JPM, para quem a morte é um excitante da sua energia criadora (ambos sentem um
apego quase amoroso à morte). Por isso, porque lhe confere uma importância de
carácter geral, morre-se muito nos seus romances (como em O Tempo
Reencontrado, de Proust, os livros de JPM são enormes cemitérios).
Aqui
morre-se e sofre-se muito. Os romances de JPM estão cheios de vida, porque, não
menos importante, estão cheios de mortes. A violência é real, o medo é real, a
morte é real. As próprias personagens têm medo de que nada mais seja tão real.
Tantos são os desastres e desgraças, tal é a concentração humana de agonia,
sofrimento e violência.
JPM,
como ficcionista, é o protótipo do
assassino implacável. A morte insinua-se a cada página destes romances.
Como se JPM contemplasse sempre a morte, mantendo com ela uma relação de grande
proximidade (como acontece com todos os grandes filósofos, que JPM também é). Uma
Fazenda em África começa logo com a morte dos pais de Benedita,
assassinados no meio de uma revolta popular dos brasileiros contra os
portugueses (numa "manifestação antiportuguesa"). O mesmo acontece
aos pais de Elvira, em Os Dias da Febre; de Lurdes, em Vento de
Espanha (cuja mãe morre no Brasil vítima de doença); de Mateus Vilaverde,
em O Estranho Caso de Sebastião Moncada (falecidos, juntamente com os
seus irmãos, no desastre da Ponta das Barcas); e de Jacques Laforêt (a mãe
morre-lhe quando tem sete anos, levada pelas febres).
Em
A Aluna Americana, é a primeira mulher de José Duarte que morre: Teresa,
uma mulher "bonita, fiel, reservada, culta, maternal", que
"escolhera mais com a cabeça do que com o coração", personificava
para ele "o mundo estável e conhecido", "fora ela que lhe
equilibrara a existência e que formara a quilha que dera rumo e estabilidade
aos seus afectos" (p. 12).
O
mesmo acontece com o inglês Robert Huntley, que perde a primeira mulher,
Catarina, em Os Dias da Febre. Morre de parto e a filha de ambos também
(a menina nasce morta e Catarina não lhe sobrevive, revela-se na página 160).
João
Lobo de Sabrosa, irmão de Elvira e amigo de Carlos, suicida-se por dívidas ao
jogo (Os Dias da Febre), tal como o pai de Honoré, o barão
Jacques-Fernand de Beauregard, um francês da Provença: as dívidas ao jogo levam
a família à insolvência e ao seu suicídio, com uma bala na cabeça (Haiti).
Em Vento de Espanha, Joaquim, irmão de Custódio, suicida-se,
"jogando-se a um poço" (p. 17), e o primeiro marido de Lurdes, em Vento
de Espanha, igualmente se suicida.
Em
Vento de Espanha, os cadáveres entram em cena logo na primeira página,
sem que o leitor tivesse tempo de encomendar uma coroa de flores: o filho de
Custódio (camponês beirão) morre logo no início (p. 9), a irmã mais nova morre
num incêndio (quando ele tinha 14 anos), o mesmo acontecendo ao irmão, Joaquim,
e à mãe, Maria Aparecida (quando ele tinha 19 anos), e o pai perde-se pelo
Brasil (tal como o pai de Lurdes, que depois de emigrar para o Brasil nunca
mais dá sinal de si). Na realidade, a vida de Custódio é um nunca acabar de
lutos: o pai, a irmã, a mãe, o irmão, a mulher, o filho (p. 11). Tal como a
vida de Honoré, em Haiti, também ela carregada de lutos: depois de
enriquecer, manda chamar a mãe e a irmã solteira para viverem com ele naquela
porção da ilha de Hispaniola. Pouco depois, as duas seriam atingidas pelas
febres daquelas terras e morrem; depois, é a vez do filho mais velho morrer
numa queda de cavalo, e nem o mais novo escapa à má sorte da família (morre no
parto, que quase também mata a sua mulher Henriette, mas que a deixa infértil,
acabando ela, também, por morrer mais adiante).
Em
O Estranho Caso de Sebastião Moncada, o filho de meses de Luísa e
Etelvino morre de sarampo ("a doença roubou-lhe [a Luísa] a única parcela
de felicidade que existia no seu casamento e na sua vida"). Na verdade,
JPM é perito em tragédias familiares: em Até ao Fim da Terra, a mulher
de Jacques Laforêt não sobrevive a um parto complicado e o filho (o pequeno
Jean), que lhe sobrevive, acaba por morrer aos três anos, na sequência da queda
num poço (pp. 89-90); Bento Calheiros mata acidentalmente o pequeno Narciso
(pp. 17-18). Muitos outros morrem neste romances, como Braz (p. 40), Quitéria
(p. 52) e Januário Moderno (nome verdadeiro Carlos Francisco Alarcão
Nepomuceno), militar de cavalaria filho de um fidalgo do Minho (pp. 102-103).
Pouco
antes do fim, JPM mata os protagonistas: José Duarte morre de cancro (A
Aluna Americana), Bento Calheiros morre também de doença (Até ao Fim da
Terra), Custódio é morto pelos fascistas espanhóis (Vento de Espanha),
Robert morre num duelo e o marido de Elvira é assassinado (Os Dias da Febre).
Não sem antes engravidarem as amantes.
Querido,
estou grávida
Em
Aluna Americana, pouco antes de José Duarte morrer, Isabel descobre que
está grávida dele, "de dois meses! Vais ser pai, meu amor" (p.
283); em Até ao fim da terra, antes de Bento Calheiros morrer de doença,
Constança informa-o de que está grávida (p. 242); em Vento de Espanha,
Custódio morre, mas deixa a Lurdes "uma vida em testamento, uma prova
física do seu amor tão breve. Tinha a certeza de que era menino. Trazia um
pequeno Custódio dentro de si" (p. 289); em Haiti, depois de
Antoine de Tilly morrer, Joséphine, quando se vê em apuros, "não temia por
ela, mas pelas vidas de Nicolas e da filha – estava certa de que era uma
filha – que já trazia na barriga" (p. 216).
Violações
A
grande literatura alimenta-se da dor, do desespero, da angústia e da ansiedade.
Mas também é ela (a grande literatura) que dá às coisas o seu peso, que nos dá
a plena consciência de que não nos podemos conformar com o peso da dor, do
desespero, da angústia e da ansiedade.
Todo
o romance é uma casa da dor e as personagens dos romances de JPM sofrem muito
num mundo de sofrimento e violência e as suas vidas estão unidas pelo
sofrimento e a violência. As mortes e as cenas de violência – da violência como
espectáculo, como agulhas que nos entram na pele – enchem de desgosto as
personagens (e o leitor). As suas descrições literárias do sofrimento humano
comovem-me (só de pensá-lo sinto um ardor de lágrimas nos olhos). Não seria
humano se não me comovesse.
Vítimas
das dinâmicas patriarcais de ciúme, posse e vontade de domínio, elas são as
maiores sofredoras. JPM aproveita a sua influência como figura pública para
denunciar a sociedade como sistema montado para justificar o abuso e a violação
das mulheres.
Benedita
é violada pelo marido na noite de núpcias (Uma Fazenda em África, p. 35)
e, depois, pelo governador Leal. "Como Benedita se debatia furiosamente,
[Leal] puxou-lhe as mãos para trás das costas, imobilizou-a, e depois, com a
outra mão, levantou-lhe a saia, baixou-lhe as calças e entrou nela, a fundo. A
voz dele soou alterada, com um timbre metálico". Leal sente prazer na
resistência que Benedita lhe oferecia, "gostava de ouvir aquela respiração
ofegante, animal, que ela fazia enquanto ele a forçava e lhe tapava a
boca" (pp. 386-387). Porém, Benedita acaba por aceitar a violação, pois
esta fizera parte "dos riscos assumidos quando se aproximara daquele
homem. Num certo sentido, fora o elevadíssimo custo dos muitos favores que ele
lhe fizera e da enleante e continuada sedução a que ela o sujeitara" (p.
426).
As
mulheres são vítimas das normas e dos costumes, sentem-se momentaneamente
constrangidas a permanecer fiéis aos maridos, mesmo sendo abusadas e traídas
por eles. Os homens também são vítimas, mas do seu próprio egoísmo, egotismo e
apetites sexuais.
Em
Vento de Espanha, "quando o homem grande que lhe abrira a porta
daquele horrível cárcere e a levara ao comedor a meteu num quarto, lhe
tapou a boca com uma mão enquanto lhe apertava os seios com a outra. De
seguida, arrastou-a para uma cama, derrubou-a sobre ela, ergueu-lhe
desajeitadamente a saia e, esmagando-a com um corpo tão pesado que mal lhe
permitia respirar, violou-a" (p. 255).
Mona
é violada em A Aluna Americana (p. 264) e Joséphine, em Haiti, é
violada por Melchior: "À uma da manhã, entrou nu no quarto onde ela dormia
com o filho, acercou-se da cama, destapou-a, subiu-lhe a camisa de noite,
afastou-lhe as pernas à força e, tapando-lhe a boca para que não gritasse,
penetrou-a com raiva. (...) nas noites seguintes voltou, com a regularidade de
um relógio e a voracidade de um bárbaro" (pp. 214-215). Em Até ao Fim
da Terra, "um soldado, deitado sobre ela, levantara-lhe o vestido e
tentava introduzir-se entre as suas pernas enquanto lhe tapava a boca com uma
das mãos, para a impedir de gritar" (p. 212).
Jardim
dos Suplícios
JPM
faz da vida das suas personagens um suplício. Nestes capítulo, o escritor não
faz qualquer concessão à moda: "Os primeiros dias em Lamego tinham sido um
suplício" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 157);
"o suplício parecia não ter fim", José Leite quis "que
parassem aquele suplício", tentar não adormecer foi para Eva "um
verdadeiro suplício", "um suplício inútil" (Uma
Fazenda em África, págs. 291, 309, 343, 425); "cinco dias de
suplício" (A Aluna Americana, p. 107), "cada dia estava a
ser um suplício" (Até ao Fim da Terra, p. 165),
"tornou-se um suplício insuportável", "Os três meses de
recruta estavam quase no fim e tinham sido um suplício", "aquilo
fora um suplício", "sujeitar ao suplício a que Maria
del Carmen havia sido sujeita" (Vento de Espanha, págs. 62, 126,
209, 263), "num suplício de ansiedade" e "Honoré tentou
não pensar no suplício" (Haiti, págs. 97, 232), "Os
primeiros de viagem tinham sido um autêntico suplício", "o
maior suplício", "a noite foi um suplício" e
"terminava o suplício da viagem" (Do Outro Lado do Mar,
págs. 77, 95, 131, 153), "O trabalho hospitalar, que já antes andava um
pouco descurado, tinha-se tornado um suplício" (Os Dias da Febre,
p. 256), o calor de Junho "era um suplício"; p. 140: as
festas, para Rita, "constituíam um verdadeiro suplício" (Um
de Nós Deve Lembrar-se, págs. 59, 140).
Entra
Tântalo
Como se fossem
inquebrantáveis, ou tivessem uma dureza ilimitada, os suplícios que têm de
suportar transportam-nos para a mitologia grega: "Outras vezes aquele suplício
de Tântalo parecia-lhe injusto" (O Estranho Caso de Sebastião
Moncada, p. 45); "a sua presença ali nos Cavaleiros era uma tentação, um
suplício de Tântalo" (Uma Fazenda em África, p. 145); "em que ele não podia tocar,
como se estivesse a viver num permanente suplício de Tântalo" (Até
ao Fim da Terra, p. 135); "Isso é um suplício de tântalo – queixou-se
Polverel" (Haiti, p. 139); Sara em relação a Torcato,
torturava-o, "como lhe aplicasse o suplício de Tântalo" (Do
Outro Lado do Mar, p. 271); a piscina vazia em casa dos avós era "um verdadeiro
suplício de Tântalo" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 53).
Amargos
de boca
Os
extremos a que podem chegar as descrições do sofrimento deixam-nos a boca
colada às páginas: "o amargo sabor da derrota na boca" (O
Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 287); "com um travo amargo
na boca", a viagem "deixou-lhe um travo amargo na boca" (A
Aluna Americana, págs. 107, 239); "Tinha um sabor amargo na
boca"; "tinha um travo amargo na boca" por não ter
participado na Batalha do Buçaco (Até ao Fim da Terra, p. 19);
deixavam-lhe "um sabor amargo na boca" (Haiti, p. 44);
Vasco "ainda lhe sentia o travo amargo na boca", algo deixou
em Torcato "um sabor amargo na boca", quando olhava para trás,
Gaspar "ficava com um sabor amargo na boca", Bento Garcez "tinha um sabor amargo
na boca", "esse receio veio com um travo amargo", para
Vasco, "aquele desfecho (...) deixava-lhe um travo amargo na
boca" (Do Outro Lado do Mar, págs. 84, 167, 252, 269, 305, 358).
Problemas
gástricos
Provavelmente
devido às contracções em estômagos vazios: "que
lhe apertava [a Peter] o estômago num nó de medo", "um vago
medo apertou-lhe o estômago", "Benedita sentiu um aperto na
barriga", "punha-se-lhe um nó no estômago",
"Pascoal sentiu o estômago colado às costas de puro medo",
Pascoal "com um enorme aperto no estômago mas sem tempo para
pensar", "Bernardino sentia um aperto no estômago" (Uma
Fazenda em África, págs. 105, 184, 208, 253, 273, 286, 410); Valentina
"sentiu uma espécie de náusea e de aperto no estômago" (O
Prazer de Guiar, p. 136); "sentiu um aperto no estômago" (Vento
de Espanha, p. 264); Antoine com "uma náusea no estômago"
(Haiti, p. 104); Pedro "sentiu um aperto no estômago" (Os
Dias da Febre, p. 48), "O medo apertava-lhe o estômago,
secava-lhe a boca" (Do Outro Lado do Mar, p. 341); "o
aperto no estômago", "José Duarte sentia o estômago apertado",
"um aperto no estômago", a leitura do romance foi "um
aperto no estômago" (A Aluna Americana, págs. 61, 143, 178,
281); "Robert tinha um buraco no estômago, a boca seca pelo
medo" (Os Dias da Febre, p. 75); "com um inaguentável aperto
no estômago", "a barriga apertada por uma tenaz", um
medo "que lhe torcia o estômago" (O Estranho Caso de
Sebastião Moncada, págs. 153, 233, 263).
In
pectore
De
dentro do estômago, JPM sobe ao tórax. Como sentissem a presença do autor
dentro e à volta de si próprias, as personagens sentem imensas coisas no peito
(ou desempenham o papel de quem sente imensas coisas no peito): Mateus
"uma irritação surda a crescer-lhe no peito", Mateus: "crescia
no seu peito uma inquietação e uma incerteza insuportáveis",
"remorsos que lhe mordiam o peito", "uma dúvida
angustiante queimava-lhe o peito" (O Estranho Caso de Sebastião
Moncada, págs. 51, 103, 224, 288); Benedita sentia "um medo ofegante oprimia-lhe
o peito e apertava-lhe a garganta", "com o peito sacudido
por longos soluços", "Havia no seu peito [de Benedita] um
emaranhado de ansiedades e curiosidades, de esperanças e de receios, que não a
deixava perceber com clareza", "o peito carregou-se-lhe [a
Peter] de uma opressão densa que lhe dificultava a respiração", "era
a sua ausência que lhe caía como uma tonelada sobre o peito,
cortando-lhe a respiração", o ministro "tinha um peso no peito",
Bernardino sente "uma angústia fina subia-lhe invariavelmente pelo
peito", Eva "ficou com o sabor de uma tristeza infinita a
apertar-lhe o peito e a amargar-lhe a boca", "às vezes desejava-a
tanto que o peito lhe ardia por dentro" (Uma Fazenda em África,
págs. 9, 22, 59, 104, 205, 231, 266, 278, 377); "fizera crescer dentro
do seu peito uma onda de compaixão", "apertava-se-lhe o peito
pela sua perda" (Até ao Fim da
Terra, págs. 87, 204); "Essa hipótese pôs-lhe um aperto no peito",
"a angústia que lhe esmagava o peito" (João), "Sentia uma
comoção a apertar-lhe o peito e a garganta" (O Prazer de Guiar,
págs. 71, 110, 214); "a irritação e a desilusão que lhe enchiam o peito",
"borbulhar de raiva, de angústia e, sobretudo, de urgência que lhe constrangia
o peito", "sentiu um ardor no peito", "o simples
facto de se aproximar da lembrança de Isabel lhe punha um peso no peito"
(A Aluna Americana, págs. 104, 126, 197, 225); "uma revolta a
crescer-lhe no peito, como um soluço que lhe apertava a garganta",
"Tinha um peso no peito que lhe dificultava a respiração e o
estômago apertado de arrependimentos e de angústias" (Vento de Espanha,
págs. 10, 108); "tinha uma opressão no peito", "já sem
aquele peso em cima do peito" (Haiti, págs. 23, 242);
Robert, quando se despede de Tanguy, na Serra Leoa, "sentiu um enorme
peso no peito" e "Marília sentiu um aperto no peito"
(Os Dias da Febre, págs. 84, 300); Vasco "sentiu um grande
aperto no peito", "Vasco sentiu um aperto no peito",
"a sentir a exasperação a subir no peito" (Do Outro Lado do
Mar, págs. 85, 195, 164); Henrique sente "uma certa opressão no
peito", "a angustiante sensação de clausura que lhe oprimia o
peito e lhe acelerava o ritmo cardíaco", Henrique chegou com "um
peso esmagador no peito", "Henrique ficou calado, com os olhos a
brilhar de lágrimas e um grande aperto no peito", "com as
lágrimas a correrem pela cara e o peito já aliviado" (Um de Nós
Deve Lembrar-se, págs. 77, 214, 217, 226).
Sacher-masoch
Os
instrumentos de tortura de que JPM dispõe são ilimitados, desde as garras às
lâminas e tenazes, passando pelos espinhos, farpas e ferros em brase: uma
saudade que "lhe apertava o peito como uma garra" e "um doloroso
espinho", "como se houvesse sempre uma qualquer farpa ou
sei lá o quê espetado no meu corpo" (A Aluna Americana, págs. 84,
164); "o espectro da fome caía sobre famílias inteiras como uma garra
impiedosa e escura"; "avançando a partir daí, como uma garra
que se fecha sobre a presa"; "a dor era uma verdadeira tenaz";
"A dor daquela surpresa espetara-se-lhe na alma como um espinho"
(Uma Fazenda em África, págs. 133, 153, 213, 308, 311); "A pergunta
doía-lhe como a ponta de uma faca a cravar-se lentamente no peito",
"a dor pela morte da mulher e do filho regressava em força e apertava-lhe
o peito como uma garra", "Uma garra de pavor
apertava-lhe a barriga, como uma tenaz", "essa premonição de
exílio perpétuo doía-lhe como um espinho cravado bem fundo na
carne" (Até ao Fim da Terra, págs. 62, 91, 101, 156); "ficou a
saber, com uma dor intensa que era como se tivesse uma faca cravada no
coração, que ele já não vivia ali", "é um espinho que eu
trago aqui, no coração" (Vento de Espanha, págs. 120, 137);
"aquele compromisso a que chegara vinha atormentá-lo e ficava a doer-lhe
como um espinho cravado no corpo", o desprezo de Sara
"cravava-se na sua carne [de Torcato] como uma garra", "o
coração [de Vasco] desfazia-se em bocados, rasgava-se por dentro, como se as
garras de um bicho horrendo o dilacerassem" (Do Outro Lado do Mar,
págs. 221, 236, 322); os filhos de João, quando pensava neles, "eram ambos
um espinho doloroso na sua memória" (O Prazer de Guiar, p.
108), "a friagem da noite trespassava-lhe os ossos como uma lâmina"
(O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 257).
Chimarrão
Mas
acima de tudo, e antes de mais nada, o ruído do martelo a enterrar um ferro no
peito: "a sua morte doía-lhe como um ferro cravado no peito" (O
Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 151); "como se houvesse um
gosto em remexer com um ferro em brasa na sua carne viva", "A
visão da cabeça de Adadine, (...) não lhe saía do pensamento e queimava-lhe as
entranhas como um ferro em brasa", "Aquela ingratidão
cravava-se-lhe no peito como um ferro em brasa" (Uma Fazenda em
África, págs. 22, 171, 266); "A pergunta ficou a queimá-lo como um
ferro em brasa" (A Aluna Americana, p. 257); "O olhar
sofrido daquelas populações rurais incomodava-o, acusava-o, queimava-o como um
ferro em brasa" (Até ao Fim da Terra, p. 131); Lurdes sentia
uma "mão de ferro que lhe apertava, de desgosto, o coração",
"que lhe queimava as entranhas. Era o ferro em brasa da
injustiça" (Vento de Espanha, págs. 119, 256); "O coração
batia-lhe [a Vasco] aceleradamente e o desejo queimava-o como um ferro em
brasa", Gaspar "era um homem marcado com um ferro em brasa
por dentro do corpo", "Caetana estava na sua cabeça e no seu coração,
como um ferrete", o desprezo de Sara em Torcato "cravava-se na
sua carne como uma garra. Pior do que isso: queimava-o como um ferro em
brasa" (Do Outro Lado do Mar, págs. 11, 66, 82, 236); "uma
data que marcou a ferro quente na memória" (Haiti, p. 112);
"Helena começou a esfumar-se do seu mundo e isso era como se um ferro
em brasa lhe tivesse entrado profundamente no peito", "o
ferrão que envenenava a sua existência" (Um de Nós Deve Lembrar-se,
págs. 161, 226); "o discurso daquela gente atazanava-lhe as entranhas como
um ferro em brasa" (Os Dias da Febre, p. 175).
Maravilhoso
coração
Penetrando
no peito, o coração começa a bater como se fosse rebentar: "tinha o
coração em tropel", "o coração batia apressadamente"
(A Aluna Americana, págs. 128, 143); "Os olhos ardiam-lhe, o peito
ardia-lhe, o coração disparara num tropel alucinante, as mãos
transpiravam" e "o coração caiu-lhe aos pés" (Os Dias
da Febre, p. 274); "Hernâni sentiu um aperto no coração" (Um
de Nós Deve Lembrar-se, p. 240); Sátiro da Costa, o estalajadeiro, está
"com o coração em sobressalto", "coração aos pulos
na antecipação do momento", quando Luísa conheceu Mateus "o
coração bateu-lhe mais fortemente no peito", "o seu coração ia
rasgar-se", "o coração a sair pela boca, de tanto bater
apavorado", "sentiu um aperto no coração", "o
espectáculo das desgraças alheias incomodava-o, oprimia-lhe o coração",
Mateus "apressou-se, com o coração a bater aceleradamente",
"tinha o coração a bater desenfreadamente", "Mateus
sentiu o coração saltar-lhe de alegria no peito", "sentiu o
aguilhão do ciúme a cravar-se cruelmente no coração", "com o
coração num sobressalto" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada,
p. 10, 40, 45, 81, 153, 157, 160, 253, 261, 333, 336); "A ideia de que
aquele homem iria estar em breve dentro de si secava-lhe a garganta e
deixava-lhe o coração a bater pancadas inquietas e angustiadas",
"O coração de Peter saltava pela boca, de puro medo e de absoluta
exaltação", Benedita "tinha o coração a bater desenfreadamente",
"Benedita pasmava e sentia o coração a bater cada vez mais depressa",
Benedita "com o peito a galopar", Pascoal Pluma "correu
atrás deles com um aperto no coração", "com o coração a
bater precipitadamente", "com o coração a bater de ansiedade",
"com o coração apertado", Benedita ficou "a ouvir o
bater desenfreado do seu coração", Bernardino "sentiu um baque
no coração" (Uma Fazenda em África, p. 33, 86, 198, 224, 285,
289, 309, 319, 338, 412); José Duarte "com o coração em sobressalto",
"com o coração a bater desenfreadamente", "Ele sentiu o
coração dar um salto" (A Aluna Americana, págs. 37, 40, 41);
"sentiu um baque no coração", "Maria Constança sentia um
aperto no coração", "o coração apertado", "Maria
Constança ouviu aquilo com o coração a saltar da boca", "com o
coração a galopar de ansiedade", "com o peito a galopar de
ansiedade", Maria Constança "com o coração aos pulos"
(Até ao Fim da Terra, págs. 28, 62, 67, 74, 173, 238, 246); "o
coração a bater num descompasso de ansiedade e de esperança",
"Lurdes sentiu um baque no coração", "Ela sentiu um
baque no coração" (Vento de Espanha, págs. 8, 63, 73); Antoine
"com o coração nas mãos", "com muita ansiedade, com o
coração nas mãos", "com o coração a galopar de
inquietação", "de coração apertado", "com o
coração aos saltos" (Haiti, págs. 64, 166, 216, 232, 238);
"com o coração a sair pela boca", "com o coração a
bater depressa", "com o coração a saltar da boca",
"com o coração a galopar no peito", com "o coração a
bater desenfreadamente" (Os Dias da Febre, págs. 69, 201, 264,
267, 287); "O coração batia-lhe apressadamente", "com o peito
sobressaltado", "com o coração a saltar pela boca",
"com o coração a saltar de curiosidade", "com o
coração muito apressado", "com o coração num sobressalto",
"O coração batia apressadamente", "O coração batia-lhe
aceleradamente", "O coração batia-lhe apressadamente"
(Do Outro Lado do Mar, págs. 7, 40, 41, 44, 50, 161, 196, 290, 338);
"sentiu o coração dar um pulo de contentamento", "o
coração a bater aceleradamente" (O Prazer de Guiar, págs. 52,
110); "com o coração a galope", "com o coração nas
mãos", "com o coração aos pulos", "de coração
nas mãos", "com o coração nas mãos" (Um de Nós
Deve Lembrar-se, p. 99, 102, 264, 270).
JPM
sabe que o ritmo é essencial, por isso o seu ritmo é rápido. Não é um ritmo
forçado, corre a par com as emoções das personagens: "com o coração à
desfilada", "o seu cérebro continuava à desfilada" (Até
ao Fim da Terra, págs. 167, 178); Sonothax: "não conseguiu dormir,
pois tinha o cérebro à desfilada" (Haiti, p. 179); "O
cérebro não parava de alinhar ideias, à desfilada" (Do Outro
Lado do Mar, p. 309); "com o coração à desfilada e as lágrimas
nos olhos" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 190).
Tamborzinho
JPM
tem ouvidos musicais, o que se traduz na extrema facilidade em converter
em sons as emoções. Mas sons cadenciados de tambores, fruto talvez do stress,
da ansiedade, do consumo exagerado de cafeína, cansaço ou problemas na tiroide
ou nas válvulas: "o seu coração batia como um tambor" (O
Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 303), "ouvia o pulsar das
artérias como se ouve o bater do tambor" (Até ao Fim da Terra,
p. 62), "Por entre o som das pancadas do seu coração, que batia como um
tambor", Valentina "ouvia o seu alarmado coração a bater como um
tambor" (O Prazer de Guiar, págs. 68, 119); "o coração
batia como um tambor" (Vento de Espanha, p. 250); "com
o coração a bater como um tambor de guerra", "O seu coração
batia como um tambor" (Do Outro Lado do Mar, págs. 59, 341).
As
arritmias e palpitações costumam estar directamente associadas à ansiedade,
gerando-se um círculo vicioso em que a mente afecta o coração e o coração
assusta a mente: "como se isso o ajudasse a aliviar a ansiedade";
p. 220: "tudo aquilo aumentava a sua ansiedade" (Haiti,
págs. 63, 220); "a ansiedade escalava" (O Prazer de Guiar,
p. 66); "uma súbita ansiedade"; 311: "a ansiedade
que o consumia" e "tremer de inquietação" (Uma Fazenda em
África, págs. 165, 311); "foi tomada por uma enorme ansiedade"
(Os Dias da Febre, p. 209).
O
Crescente Fértil
Aqui,
tudo cresce mais do que o normal: "uma irritação surda a crescer-lhe no
peito", "numa ansiedade crescente", "com força e
veemência crescentes", "o seu nervosismo crescia",
"tensão crescente", "um ruído crescente" (O
Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 51, 112, 137, 152, 209, 219);
"inquietação crescente", "sentia uma inquietação interior
que ia crescendo", "À medida que as horas passavam iam crescendo
em Peter os sentimentos de enfado e de inquietação", "um desassossego
crescente", "o orgulho ia crescendo dentro de si com a
pujança do milho novo", "com uma aflição crescente",
"a irritação crescente", "sentiu o desejo a crescer
dentro de si", "com crescente alívio", "num nervoso crescente"
(Uma Fazenda em África, págs. 49, 91, 105, 115, 151, 170, 189, 263, 333,
355); "foi invadido por uma ansiedade crescente", "sentiu
a indignação a crescer dentro de si" (A Aluna Americana,
págs. 101, 142); "fora crescendo em si a leve sensação" (O
Prazer de Guiar, p. 130); "uma ameaça crescente no ar",
"um crescente desejo", "a angústia e a mágoa cresciam
imparavelmente dentro de si", "fizera crescer dentro do seu
peito uma onda de compaixão", "crescia no seu peito uma
amargura", "um crescente sentimento de culpa", "uma crescente
inquietação e tristeza", "dentro do seu peito ia crescendo a
admiração" (Até ao Fim da Terra, págs. 11, 32, 62, 87, 98, 104,
187, 196); "uma revolta a crescer-lhe no peito", "sentia
uma náusea a crescer dentro de si", "sentia uma crescente
aversão pelos seus camaradas" (Vento de Espanha, págs. 10, 161);
"com uma intimidade crescente", "sentia uma apreensão crescente",
"sentia a sua irritação a crescer", "crescente
intimidade", "a crescente irritação", "ia sentindo a
ansiedade a crescer dentro de si" (Os Dias da Febre, págs.
27, 102, 106, 217, 247, 276); "um crescente sentimento de
impunidade", "revolvia-se numa inquietação crescente",
"ia crescendo no seu peito uma revolta enorme", "um
desconforto a crescer dentro de si", "ela vivia numa
inquietação crescente", "fora crescendo dentro de si
uma lenta mágoa" (Do Outro Lado do Mar, págs. 34, 140, 229, 254,
271, 358); "tinha um peso crescente no peito" (Haiti,
p. 42); "numa tensão silenciosa, mas crescente", "com uma
clareza crescente" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 40,
188).
Gargântua
funda
JPM
também sabe que a dor (como o prazer) é frequentemente exprimida com um ruído
particular da garganta: "uma mão enorme, cruel, que lhe apertava a
garganta e a aprisionava naquela casa, naquele vazio" (O Estranho
Caso de Sebastião Moncada, p. 157); "com a garganta apertada",
"Pascoal percebeu, com um aperto na garganta" (Uma Fazenda
em África, p. 170, 287); "isso punha-lhe um nó no estômago e um sabor
amargo na boca", "a memória dos tempos que tinham estado
juntos era uma mão cruel a apertar-lhe a garganta e o coração,
trazendo-lhe uma indizível angústia" (Do Outro Lado do Mar, págs.
14, 39); "sentindo a garganta apertar-se num espasmo de
horror", "garganta apertada pelo desgosto" (Até ao Fim
da Terra, págs. 63, 167); "com um nó na garganta" (Os
Dias da Febre, p. 302); "foi com um nó na garganta que Raquel
chegou a essa conclusão", "acordou assustadíssima, com um aperto na
garganta", "sentiu um aperto na garganta" (O
Prazer de Guiar, págs. 73, 132, 133); "sentiu um aperto na garganta",
"Tinha um nó na garganta e uma amarga dúvida no peito",
"apesar da amargura lhe apertar a garganta" (Haiti,
págs. 61, 132, 230); "tinha um nó na garganta e as lágrimas já lhe
corriam pela cara", "de lágrimas nos olhos e um aperto na garganta",
"sentiu um aperto na garganta" (Um de Nós Deve Lembrar-se,
págs. 20, 44, 117).
O
peso da régua
Chegamos
a sentir o esforço e o peso da forte carga simbólica que acompanha os romances
de JPM: "Sentiu que um peso o esmagava contra a terra" (Vento
de Espanha, p. 216); "É um grande peso que me tira de
cima" (Os Dias da Febre, p. 292); "enquanto a sege rolava, de
solavanco em solavanco, pensou em Melchior e em como ele lhe tirara um bom
peso dos ombros", "sentindo que um peso lhe saía de
cima" (Haiti, págs. 24, 228); "com um peso no peito e
lágrimas nos olhos", "Nesse dia Papi sentiu que um peso lhe
saía de cima" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 102, 277);
"enorme responsabilidade que lhe pesava sobre os ombros",
"Vasco sentiu o alívio de quem acabava de tirar um peso de cima de
si" (Do Outro Lado do Mar, págs. 259, 326); "como se o peso
daquela tragédia o esmagasse e lhe tolhesse a marcha", "aquela
paisagem lenta e silenciosa que lhe pesava como chumbo",
"como se um peso de anos lhe tivesse saído de cima" (O
Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 288, 298, 328); "a única
coisa de que tinha a certeza é que sentia um peso a sair-lhe de cima",
"as pálpebras carregaram-se-lhe de toneladas de chumbo", pedia
a Deus que "lhe tirasse aquele enorme peso da consciência",
"aquela hospitalidade pesava-lhe toneladas", "O calor do
sol caía sobre ele com o seu peso de chumbo" (Uma Fazenda
em África, págs. 59, 98, 357, 393, 416); "Um peso de
toneladas que me saiu de cima", "Era um peso de
toneladas que lhe saía de cima", "como se um peso lhe
tivesse saído de cima" (A Aluna Americana, págs. 42, 115, 287);
"Sentia o peso do mundo sobre os ombros", Bento, pela primeira
vez desde que saíra de Lisboa sentiu um peso no peito e teve a certeza de que
aquela missão o levava numa viagem ao inferno", "como se um peso
lhe houvesse saído de cima", "permanecia ali parado a sentir um
enorme peso no peito", Calheiros mostrara-se como era "e, ao
conseguir fazê-lo, fora um enorme peso que lhe saíra de cima" (Até
ao Fim da Terra, págs. 75, 134, 193, 229, 236).
Uma
das maneiras de enfrentar estas situações é espalmando uma mão (ou ambas):
"pondo uma mão espalmada sobre o peito", Bento "espalmou
a mão direita sobre o coração" (Até ao Fim da Terra, págs. 121,
228), "espalmando a mão sobre a testa", "duas mãos
espalmadas sobre o coração", "exclamou Elvira, espalmando a
mão direita na cara" (Os Dias da Febre, p. 114, 183, 197);
"pondo uma mão espalmada sobre o peito" (Do Outro Lado do
Mar, p. 292); "espalmando a mão bem aberta sobre o
coração" (Uma Fazenda em África, p. 138).
Dormir,
dizia Roland Barthes, é a suspensão da nossa imagem. É o repouso não dos outros
nem de nós próprios, mas de nós próprios vistos, pensados e exigidos pelos
outros. Como as personagens de JPM vivem num estado de permanente ansiedade,
como se apenas a tensão as conseguisse manter vivas, quase nunca elas têm
direito a essa calma repousante. A sua angústia moral e metafísica, ou
consciência crítica, está na origem de uma espécie de epidemia ou praga da
insónia (JPM pisca aqui o olho a Cem Anos de Solidão, de García
Marquez).
Insónias
em carvão
Tal
como nos dias de hoje, em que é cada vez maior o número de pessoas que sofrem
de insónias, a estas personagens custa-lhes muito adormecer:
1.
O Estranho Caso de Sebastião Moncada: "uma ansiedade e uma
frustração que lhe valeram muitos dias amargurados e muitas noites em claro,
sem saber que rumo dar à sua vida", "Havia já duas noites que
Luísa não dormia", Mateus "apagou a vela, mas teve enorme
dificuldade em adormecer", o morgado Gonçalo Henriques "lutava
com o travesseiro para adormecer", "Os dias seguiam-se uns aos
outros numa tortura ininterrupta, as noites passavam-se quase em claro,
ou entrecortadas de terríveis pesadelos, num sono agitado e superficial.
[Mateus] Perdera a vontade de comer, emagrecia e andava olheirento",
"Apesar do cansaço não conseguiu adormecer de imediato",
"Nessa noite [Mateus] quase não pregou olho", Mateus
"deitou-se numa cama livre no quarto do oficial de dia, mas não
conseguiu dormir, apesar do cansaço", o Duque da Terceira
"deitou-se cedo, (...) mas dormiu mal" (págs. 64, 81, 129,
146, 148, 178, 195, 288, 305).
2.
Uma Fazenda em África: "À noite, (...) teve dificuldade em
adormecer. Virava-se de um lado para o outro da cama, mas o cérebro não
havia meio de desligar"; "as suas noites [Benedita] eram angustiantes
e terríveis. Tinha quase sempre pesadelos aterradores que a faziam acordar a
meio da noite, na escuridão silenciosa, em paroxismos de pavor",
"nas primeiras noites [Benedita] teve dificuldade em adormecer,
apesar do enorme cansaço que sentia", Benedita "nessa noite não
dormiu", "nas primeiras noites de viagem Bernardino não tinha
sequer conseguido dormir", passou "noites de insónia absoluta",
Peter "deitou-se cedo mas dormiu mal, um sono agitado, cortado por
pesadelos", "José Costa "dormiu mal", Costa "nessa
noite não dormiu", o alferes "endireitou as costas, massacradas
por mais uma noite mal dormida na cama de lona", "Nessa noite custou-lhe
[a José Leite] a adormecer, a magicar nas voltas da vida e na melhor forma
de deitar mão a tudo" (págs. 28, 29, 50, 198, 264, 304, 314, 316, 322,
335).
3.
A Aluna Americana: José Duarte, "às três da manhã, como não
conseguisse pregar olho"; p. 107: "Como não conseguisse dormir,
às duas da manhã levantou-se"; p. 109: "Ficara com insónia e
enxaqueca desde que se afastara de Isabel e vivera o último mês e meio
encharcado em Valium e Melhoral"; p. 131: José
Duarte, a sofrer de amor, ficou até às três da manhã a ouvir a Rádio Voz da
América, "para entreter a insónia" (págs. 39, 107, 109, 131).
4.
Até ao Fim da Terra: Depois do enterro, Bento "não dormiu",
"Maria Constança não pregou olho toda a noite", Maria
Constança "durante dois dias não dormiu", "Havia noites
em que lhe custava a adormecer e crescia no seu peito uma amargura", o
capitão Calheiros "dormia mal, de noite, atormentado pela insónia",
"Napoleão Bonaparte encostou a cabeça ao estofo almofadado e fechou os
olhos para tentar dormir um pouco. Debalde. Como tantas vezes sucedera
na sua vida, não conseguia parar e desligar", Napoleão "dormiu
mal" e "deitado, sem pregar olho", Napoleão "de
noite dormiu muitíssimo mal", Florencia "nessa noite dormiu
em permanente sobressalto, com um olho aberto e outro fechado" (págs.
19, 67, 77, 98, 103, 178, 193, 202, 207).
5.
O Prazer de Guiar: "Custou-lhe [a João] a adormecer, devido
à expectativa", "custou-lhe [a Raquel] adormecer, com milhares de
ideias e de inquietações a dispararem no seu cérebro", João "nessa
noite teve dificuldade em dormir", João, "já na cama teve
dificuldade em conciliar o sono" (págs. 40, 74, 105, 149).
6.
Vento de Espanha: a Custódio: "custava-lhe a pegar no sono",
"ganhou olheiras", Custódio "mexeu-se e remexeu-se na cama, mas o
desassossego impedia-o de dormir", Gervásio "nessa noite não
conseguiu dormir, de tanta volta que deu à cabeça para decidir o que
fazer", "De noite não durmo" [Gervásio], "Vinha-lhe,
então, com frequência, uma tristeza tão funda, tão desvalida e angustiada que
se punha a tremer incontroladamente e era incapaz de adormecer",
"perdeu o apetite e o peso, mal conseguia dormir", "Passou
a noite em claro, virando-se a revirando-se, mexendo-se de um lado para o
outro", Custódio "dormiu pouco, nessa noite, torturado pelos
seus demónios", "Custódio Moreira mexia-se e remexia-se na tarimba mas
o sono não vinha", Lurdes "não conseguia dormir. (...) as
ideias fúnebres e assustadoras regressavam constantemente" (págs. 26, 28,
34, 49, 56, 61, 62, 108, 118, 176, 262).
7.
Haiti: "mesmo exausto, Tanguy não conseguia pregar olho",
"apesar de se remexer de um lado para o outro, o sono não vinha",
"não obstante o corpo quebrado pelo cansaço, enorme dificuldade em
adormecer", "Antoine passou a noite em branco, apesar do
cansaço físico", Jean-François "não conseguia conciliar o sono",
"a lembrança das noites em que a puxava contra o seu corpo e a invadia
suavemente eram chagas que não o deixavam dormir", Honoré "não
conseguiu pregar olho", "Martial não pregou olho toda a noite",
Sonothax "não conseguiu dormir, pois tinha o cérebro à desfilada",
Honoré "não pregou olho. Cansado de estar na cama a dar voltas à
cabeça", Honoré "nessa noite não dormiu", "Nessa
noite voltou a chorar e a não conseguiu conciliar o sono" (págs.
75, 76, 94, 97, 104, 110, 112, 137, 171, 179, 185, 232, 249).
8.
Os Dias da Febre: "À noite ficava longas horas deitado na sua cama,
sem conseguir pregar olho e com uma indizível angústia a atravancar-lhe
a garganta", Elvira fica "horas deitada na cama a pensar ou a rezar, sem
conseguir adormecer", Catarina, "nessa noite, no seu quarto, não
conseguiu adormecer", "Nessa noite não dormiu. Ficou horas
deitado às voltas na cama e com um aperto no peito", Robert "passou
a maior parte da noite em branco" (págs. 42, 121, 156, 200).
9.
Do Outro Lado do Mar: "Deitado há meia hora sem conseguir
adormecer, apesar do cansaço que lhe moía o corpo", a crueldade "estragava-lhe
o sono", Gaspar "deitou-se, exausto, na sua esteira, mas
custou-lhe a adormecer. O cérebro não parava de alinhar ideias, à
desfilada" (págs. 129, 134, 309).
10.
Um de Nós Deve Lembrar-se: Ema está "com a mente acelerada e muita
dificuldade em adormecer", Pedro Baptista "sempre tivera
dificuldade em adormecer", Rita "não conseguia dormir",
Luís, "nessa noite não dormiu, e o mesmo aconteceu nas duas
seguintes, tal o seu sofrimento" (págs. 68, 123, 141, 160).
Actualmente,
há vários truques que ajudam a dormir: certos ruídos brancos de alguns motores
ou o movimento rítmico do automóvel. No século XIX, os profissionais de saúde
aconselhavam passeios de carruagem: "Embalado pelo oscilar da carruagem,
(...) Mateus encostou-se ao estofo lateral e deixou-se adormecer" (O
Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 302); "adormecidos ambos,
embalados nas lentas oscilações do veículo" (Até ao Fim da Terra,
p. 33); "Fechou os olhos e deixou-se embalar pelo balanço da carruagem"
(Os Dias da Febre, p. 65). As principais contraindicações e riscos
associados eram: "Mateus acordou com um solavanco da carruagem",
"A carruagem estacou com uma chiadeira de freios e Mateus, que dormia
com a cabeça encostada ao estofo do revestimento interior, acordou,
sobressaltado" (estavam próximos do Campo Grande) (O Estranho Caso
de Sebastião Moncada, págs. 303, 312); "um solavanco da carruagem
fê-lo reabrir os olhos" (Até ao Fim da Terra, p. 179).
Riscos
e desvantagens que seriam ultrapassados no século XX, com a chegada do
eléctrico e do automóvel: "No trajecto para o cemitério, encostou a
cabeça ao vidro da janela e deixou que a trepidação do carro eléctrico lhe
embalasse as ideias", "com o embalo do carro e o calor que já
se fazia sentir, adormeceu" e "deixou tombar a cabeça para a
direita, contra o vidro da janela", "embalado pelo gingar dos
rodados nos carris, deixou-se dormir" (Vento de Espanha, págs.
65, 177, 235).
(Continua)
Este texto é a pré-publicação de um estudo sobre a obra de
João Pedro Marques que será editado muito em breve.
João Pedro George



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