terça-feira, 6 de outubro de 2026

Conversas de maré cheia, há para ali gente que nos ilumina a vida.

 





 

          Por variadíssimas razões, não já confessáveis, este livro com cinquenta conversas abre janelas para a compreensão do nosso tempo, isto graças à batuta do jornalista Bernardo Mendonça e ao seu escol de entrevistados, à versatilidade das abordagens, e talvez o ponto mais esplendente onde se insere a leitura destas muito mais de quinhentas páginas, é que estes entrevistados ajudam-nos a perceber um pouco mais sobre nós e os outros, a entender a complexidade do nosso tempo, e, no seu todo, a ganharmos mais respeito sobre o antes, o durante e o que vem aí, nas nossas vidas e nos desafios socioeconómico e culturais que temos de enfrentar. A Beleza das Pequenas Coisas, por Bernardo Mendoça, Oficina do Livro, 2024, é uma surpreendente coletânea onde gente a mais díspar vem depor que não devemos temer a empatia, a solidariedade, a vida com projetos, seja qual for a idade que temos.

          A organização da escrita do jornalista, que partiu de um podcast, teve as suas exigências, como ele escreve: “Neste desafio de transformar estas entrevistas conversadas em texto, procurei manter a dinâmica original de cada momento, e sua oralidade, expressões – sotaques até – fazendo algumas escolhas na edição, mas sem deixar para trás as faíscas luminosas que representam o brilho e a verdade de cada instante.” O livro pode ser apreciado do meio para o princípio, ou do fim para o meio, irão entrar em cena, escritores, artistas, cineastas, políticos, cientistas e investigadores, atores e encenadores, jornalistas, juristas, todos eles revelarão o que encontraram nos seus percursos e foram desafiados a falar da beleza das pequenas coisas, o que pensam da felicidade, se a vida tem sido boa para eles. Como é óbvio, para cada um a sua verdade. O escritor Valter Hugo Mãe interpelado sobre as pequenas coisas que tem gosto em dedicar tempo e atenção, dirá: “Quando volto para casa, para as Caxinas – vejo as mesmas figuras, tenho amigos que vêm de muito longe e muito interesse em saber dos outros, essas coisas dizem-me respeito, interessam-me, sinto uma pertença. Tenho sempre a sensação de que o que acontece fora das Caxinas pertence a um certo mundo de fantasia, como se não fosse a realidade.”

          A poetisa e historiadora angolana Ana Paula Tavares, que já não é criança, perguntada sobre o que a idade lhe ensinou, responde: “Muitas coisas, mas tinha grandes expetativas. Pensava que, quando fosse velha, ia dormir menos. Não, continuo a dormir muito bem e preciso daquelas horas todas de sono, embora acorde sempre bem-disposta. A velhice tem-me ensinado a lentidão. Talvez não tenha sido à toa que Milan Kundera escreveu A Lentidão, não é? Tem sido difícil, porque eu era uma pessoa muito ativa, intensa. Tinha sempre muitas coisas que fazer. Agora demoro a fechar uma porta, a atar as sapatilhas. Mas ser mais lento ajuda a ser mais perfeito, a ter mais atenção.”

          A atriz e escritora Ana Zanatti, também perguntada sobre o que a idade lhe ensinou, declara: “Sobretudo, a não perder a jovialidade. Veja certas pessoas agarradas ao passado, a pensarem que no passado é que era bom. Gosto de viver o presente e de ter fé no futuro. Ter vontade de espreitar o amanhã, sempre.”

          O sociólogo António Barreto, interpelado sobre o que Portugal tem de mais extraordinário na sua identidade, é pronto na resposta: “Sou muito alérgico às ideias de carácter nacional, da maneira de ser de um povo. Felizmente que em Portugal há caracteres, no plural. Quando me dizem que os portugueses são tristes, digo logo o nome de um português alegre para compensar. Para mim, o que é realmente importante é a história, a memória e a cultura. Quando me pedem para dizer algo elogioso sobre Portugal, não falo na maneira de ser, que não sei qual é, mas no que se fez. Nunca deixará de me surpreender que um povo tão pequeno, num canto do continente europeu, com alguma pobreza fundamental, de terras, de recursos naturais, com maus terrenos agrícolas, que este povo tenha, ao longo de sete ou oito séculos, persistido em existir e persistido na sua independência e identidade própria, na sua língua e cultura.” Este mesmo pensador perguntado sobre o que mais lhe irrita também é pronto a responder: “O predomínio da subserviência. Subserviência diante de políticos, poderosos, ricos, padres, chefes, diante de toda a gente que tem algum poder; um estrangeiro, um motorista.”

          A escritora Dulce Maria Cardoso questionada sobre as pequenas coisas do dia-a-dia a que atribui interesse e dedica tempo e atenção, também não demora na resposta: “Cuidar das minhas plantas tem-me feito aprender muito. É um antídoto sobre a pressa. Por muito que queiras um botão da roseira, tens de esperar, tratar da roseira, adubar, estar atento às pragas. Ajuda a pôr-te no teu lugar, porque podes fazer tudo e vem uma tempestade e estraga o arranjo. O teu trabalho é só mais um elemento entre tantos.”

          O filósofo Eduardo Lourenço, entrevistado quando tinha 93 anos, e perguntado sobre o papel de Portugal no nosso tempo, teve, como era o seu timbre, uma resposta que nos põe a pensar: “Somos aquilo que somos, e isso continua a ser importante praticamente a todos os níveis. Não sei se com razão ou sem ela, está sempre muito presente. Todo o nosso imaginário está vinculado a essas coisas. Nunca fizemos nada no mundo tão extraordinário. Uma coisa que contribuímos para fazer de expressão maior, são os nossos ex-países colonizados, a começar pelo Brasil. Aí fizemos uma coisa que não tem precedentes em parte nenhuma. Levámos o Brasil para o Brasil. O pré-Brasil para o Brasil. Levámos Portugal quase inteiro, simbolicamente: o rei, a corte, a nossa cultura. Nunca nenhum país foi favorecido à sua nascença com uma oferta tão grandiosa como essa. Mas o Brasil era a parte mais extraordinária também. O Brasil contribuiu para a possibilidade de nos tornarmos independentes, depois de 1640.

          E há depoimentos bem humildes, de gente maravilhada daa sua aprendizagem, caso da psicóloga e sexóloga Gabriela Moita quando interpelada sobre o que tinha aprendido que não sabia há décadas: “A própria noção de identidade. Isto aprendi com o que li, com a diversidade, mas também com a minha vida. A identidade é um conceito estranho, mas procurado, e é preciso percebê-lo. O que é que nos torna a pessoa que somos em cada momento, e esta pessoa que somos, o que tem a ver com a pessoa que fomos e com a pessoa que vamos ser? Não sei. Às vezes podemos ser outra, completamente diferente, e podemos ter desejado um caminho, e fomos por ali porque foi importante naquela altura, e depois ir por outro.”

          Uma extraordinária coletânea de personalidades de muitos misteres, depondo de si e sobre os outros, a nenhum deles falta a inquietação da beleza das pequenas coisas.

          De leitura obrigatória.  


                                                        Mário Beja Santos 


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