segunda-feira, 5 de outubro de 2026

365 dias.

 



Há um ano iniciei estas pequenas crónicas, um título demasiado pomposo para uns meros desabafos gastronómicos. Alguém já me chamou gastrobully, talvez com razão, a fazer fé no título. Pelo sim, pelo não, faz-me sentido olhar para trás e relembrar os principais mandamentos. Tudo espremido, em poucas linhas descrevem-se as idiossincrasias de um confesso alarve.

Contra os gourmets, está visto e não preciso de me repetir. Não contra ninguém em particular, mas contra o género. Sem espumas, trufas, camas de ervas e outras invenções onde não fazem falta nenhuma. Para não falar de cozinha molecular, azoto líquido ou bolas explosivas.

Cozinha de verdade, no respeito pelas tradições, mas sempre a melhorar com cada geração que toma o testemunho da anterior. Cozinha nacional, uma das melhores do mundo, mas também todas as outras que merecem ser conhecidas: libanesa, indiana, peruana, chinesa ou japonesa, alguns exemplos do melhor de paragens longínquas.

Mas também sou feliz em Espanha, Itália, Grécia ou Turquia. E, sem a vergonha dos europeus mais ocidentais nas suas cozinhas, pelo contrário, pelo-me pela gastronomia alemã, austríaca ou polaca. A França dispensa introduções, mas até da inglesa gosto mais do que os próprios bifes.

Em suma, sou a favor da cozinha verdadeira, de raiz tradicional, da simplicidade, mas com domínio das técnicas culinárias, e da frescura dos melhores ingredientes. Que é como quem diz: sou contra os chefs e o seu endeusamento. Não contra nenhum em particular, só lhes desejo sucesso, mas não estou interessado no que pensam sobre a vida, nem acredito nas receitas que todos aprenderam com as avós e outras histórias da carochinha.

Admiro e respeito os cozinheiros, e mais ainda as cozinheiras que, com mão segura, lideram nos tachos e nas panelas a preservação do nosso património gastronómico.

Logicamente, sou contra as estrelas Michelin, mais apostadas na apresentação do prato e da sala, na inovação e criatividade dos chefs (quem mais?), na decoração, no fardamento e na formalidade do serviço.

Adoro os restaurantes com alma, com uma cara, tantas vezes de segunda ou terceira geração, genuínos, com uma cozinha vibrante, um serviço profissional e especialidades da casa que nos fazem voltar para comer sempre o mesmo, diferente em cada um, como só esse sabe fazer. Quanto aos novos, também gosto de conhecer, mas deixo-os primeiro fazer o tirocínio, depois da primeira leva de foodies e influencers.

E gosto de marisqueiras e cervejarias, marcas de Portugal. E as tascas, claro. Mas cuidado: as gastro-tascas são outra coisa. São uma tendência, com pratos desconstruídos e qualquer coisa em pão brioche.

Sou contra os brunches, os lanches ajantarados e, sobretudo, contra saltar refeições. Com sopa, prato principal e sobremesa — pelo menos fruta.

Sou contra o sous-vide, a air fryer, a Bimby e as panelas arrozeiras. E as placas de indução e as vitrocerâmicas. Quero fogo vivo, em grandes bicos de gás, fornos de noventa centímetros e, se possível, a lenha.

Nada de Teflon ou silicone. Preciso de colheres de pau e de tachos, panelas, frigideiras e utensílios de cozinha de ferro, cobre ou inox. E nas minhas facas japonesas ninguém mexe.

Não dispenso nenhum de todos os talheres a que temos direito: pesados, gordos e maciços. Incluindo os de peixe, que importa não deixar morrer. E a colher, que é para a sopa, nunca para outros usos.

Pratos brancos de cerâmica, portuguesa de preferência, redondos como sempre foram. De entrada, sopa, prato principal e sobremesa, pois claro. Travessas de vários tamanhos e, com sorte, uma terrina sopeira.

Não vejo aqui espaço para bowls, que é como quem diz gamelas. E tudo menos as mini-travessas em que muitos restaurantes nos querem servir a refeição empratada, em vez das tradicionais travessas de inox para o centro da mesa. Isto antes de virarem moda, muito instagramáveis ou tendência no TikTok.

Contra as experiências, a corrida pelo último restaurante em soft opening, os festivais gourmet e os outros, com corners e pop-ups dos “chefs on fire”.

Voltar aos mesmos restaurantes de que se gosta, para comer aquilo que mais nos dá prazer e onde nos sentimos parte da casa, reconhecer velhos clientes e os empregados de mesa: são as únicas experiências que me interessam.

E, com a repetição, chegar ao privilégio de trocar ingredientes ou escolher os acompanhamentos que queremos, mesmo fora da lista.

O contrário da procura por surpresas sensoriais, explosões preparadas em laboratório ou, pasme-se, a refeição servida às escuras e com vendas para valorizar os outros sentidos!

Bom azeite, vinagre de qualidade, pão fresco e com côdea crocante, manteiga fria, boas azeitonas, pickles vários, um bom tomate maduro e firme, umas anchovas gordas e biqueirão de conserva, ventresca de atum ou camarões de espinho…

A lista de coisas simples e boas é infindável e ainda nem tocámos nos pratos principais. Não há que inventar. Há que fazer bem.  Comer pelo prazer de comer, não para se alimentar nem para provar.

E rejeitar sempre as raspas. Sejam de cenoura na salada, ou de lima no abacaxi e nas uvas.

 

                                        José António Nogueira de Brito


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