segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Pseudo-iniciação na maconha no Festival da Primavera.




         Muito sucintamente, vou referir um episódio relacionado com a minha pseudo-iniciação na maconha. Deve ter sido por Abril de 1973. Não sei bem por quê, um dia vejo-me convidado a ir passar o Festival da Primavera a Fall River, Massachusetts. Sei que o principal fundador e organizador desse festival foi um jovem americano, professor de cultura portuguesa no Bristol Community College, localizado em Fall River, jovem a viver com extraordinário fervor - que deveria fazer a inveja (santa inveja!) de muitos luso-americanos - tudo quanto soasse ou soubesse a Portugal, desde a culinária à música, desde o folclore ao fado. Esse jovem, digno de admiração e louvor, chamava-se Sandy Fraze e estava casado com uma luso-americana, chamada Nancy Freitas, professora de Português no dito Community College.
Recordo-me que, por ocasião desse Festival, me vi hospedado em casa dum jovem casal luso-americano, residente em Somerset, vila separada de Fall River por uma longa e majestosa ponte. E recordo-me também que do grupo dos convidados para um jantar de festa em casa dos meus gentis anfitriões faziam também parte três casais de professores luso-americanos, um do ensino superior, como eu, e dois do ensino secundário.
Da parte da tarde de sábado, enquanto as mulheres cozinhavam um opíparo banquete à portuguesa em casa dos anfitriões, nós os homens fomos comprar uma vasta variedade de vinhos de mesa portugueses – uma dúzia de vinhos diferentes, pelo menos – para fazermos uma prova de vinhos. Durante o jantar fomos provando cerimoniosamente os diferentes vinhos, fazendo de conta que éramos verdadeiros enólogos e connoisseurs. Fomos provando e fomos classificando. Naturalmente, só o dono de casa sabia a marca do vinho que íamos bebendo. E que aconteceu no fim? – Que o vinho que colheu a maioria dos votos tinha sido o mais barato, recém-chegado ao mercado americano, por sinal. Constou-me que dias mais tarde, quando os donos das lojas de bebidas vieram a tomar conhecimento do resultado dessa nossa atrevida e bizarra prova de vinhos portugueses, esse vinho de mesa, classificado em primeiro lugar, subiu imediatamente de fama e, logicamente, subiu também de preço.
         Terminada a ceia, o anfitrião convidou-nos para a sala de estar. Com música de fundo apropriada, com luzes convenientemente amortecidas e a bruxulear, a imitar as de uma discoteca, sentados todos no tapete, noto que vai passando de mão em mão e de lábios em lábios uma coisa parecida com um cigarro. Quando chega a mim, agradeço e passo-o para a mão da pessoa que se segue, dizendo, com toda a naturalidade e sinceridade, que nunca na vida tinha fumado, o que era a inteira verdade (se exceptuar os cigarros feitos de folha seca de batata, no meu tempo de adolescente, fumados no meio dos batatais, em companhia do meu irmão mais velho e dos meus primos e amigos). E três vezes chegou a mim o dito cujo e três vezes passou adiante, sem que eu o levasse aos lábios. Não senhor, isso não podia ser – foi dizendo um após outro, e uma após outra. Que para tudo havia excepções: que tinha de experimentar. E as insistências foram tantas, que eu acabei por ceder. E à terceira vez que eu dei a minha chupadela da praxe, ouço dois dos meus amigos a cochichar: “the guy is naturally high.” Na minha ingenuidade, interpelei-os e perguntei o que queriam dizer com isso. E sorrindo primeiro e gargalhando depois, lá me foram dizendo que estavam a fumar maconha. E que estranhavam que ela não produzisse qualquer efeito em mim. (A posteriori, vim a concluir que eles, em virtude da escassez da luz e do estado eufórico em que flutuavam, não se terão dado conta de que eu, tal como Bill Clinton em Oxford, não inalara o fumo da maconha.)
Através dos anos, para mostrar que eu não precisava de qualquer estimulante para estar animado e para entrar numa espécie de levitação, quando a ocasião era propícia, contei este episódio a muita gente, inclusive a alunos meus, em plena sala de aula, quando me chamavam a atenção para o facto de eu apresentar com frequência um ar meio eufórico, sem recurso a qualquer estimulante. Ao fim e ao cabo, era tudo questão de genes e de astrologia, especificamente do signo do zodíaco sob que se nascia, e de personalidade, dizia eu a fingir de entendido em ciências em que era menos que noviço.
E por falar de personalidade, ocorre-me referir o que me aconteceu aí por Fevereiro de 1984, quando eu estava a convalescer dos quatro ataques cardíacos sofridos no dia 14 de Dezembro de 1983. Os meus amigos e vizinhos em Manchester, a Nila e o Joe Marrone (a Nila, peruana, era minha colega na Universidade de Connecticut, e o Joe, americano, era um advogado de alto gabarito, já reformado), movidos por um grande espírito de bondade e do mais genuino altruismo, empenharam-se em dar-me todo o apoio possível para eu superar mais essa dura prova da minha vida. Dado que o Joe sofria do coração há bastante mais tempo que eu, sobretudo por iniciativa da Nila, que vivia intensamente e apaixonadamente o problema de saúde do marido, ambos tinham uma vasta informação sobre o tipo de tratamentos a seguir e de dieta a abservar, matérias em que a minha perícia era inexistente. E foi assim que me vi convidado a jantar com eles por mais de uma vez, a fim de me iniciarem nesses tratamentos e nessas dietas. Ora sucedeu que um belo dia convidaram também para jantar um casal amigo, cujo marido tinha feito uma operação ao coração havia relativamente pouco tempo. Nesse jantar esse senhor disse-me que era membro da Mended Hearts Association of America (Associação Americana de Corações Remendados), cuja sucursal local, com sede no Hartford Hospital, em Hartford, capital do meu estado, se reunia mensalmente. Que mesmo que eu não preenchesse os requisitos necessários para ser membro dessa associação, só tinha a beneficiar com a participação nalgumas dessas reuniões. Que ele, na qualidade de membro, podia convidar-me a acompanhá-lo. E eu aceitei prazenteiramente o convite para a primeira ocasião que surgisse e que ele julgasse apropriada.
Duas coisas interessantes aconteceram nessa reunião que julgo conveniente registar, pelo que, em meu modesto entender, têm de peculiar, e de hilariante, sobretudo a primeira delas. Vamos a elas, portanto. Aberta a sessão pelo presidente da Associação, o primeiro ponto, fora da ordem do dia, para me servir de terminologia parlamentar, consistiu em pedir aos membros que tinham levado convidados que fizessem favor de os apresentar. Quando chegou a minha vez, fui assim apresentado pelo meu anfitrião:
- I have the honor and the privilege to introduce to you my friend Tony Cirurgião. He cannot become a member of our association, since he does not have yet a mended heart, but he can learn something useful from us. Last December 14th he had a massive heart attack and had to be revived four times: two in the emergency room and two in the intensive care unit. (Traduzo para Português: “Tenho a honra e o privilégio de vos apresentar o meu amigo Tony Cirurgião. Ele não pode ser membro da nossa associação, uma vez que ainda não tem o coração remendado, mas pode aprender algo de útil conosco. No dia 14 de Dezembro teve um ataque cardíaco maciço e teve de ser reanimado quatro vezes: duas na sala de urgência e duas na unidade de cuidados intensivos”.)
Ele a acabar de proferir estas palavras e eu a ser aplaudido por todos os presentes. Não estivesse numa América em que se sublinham com generosas e estrondosas salvas de palmas o aplaudível e o inaplaudível e imaginar-me-ia a assistir a uma cena surrealista de um filme fellinesco  ou buñuelesco.
A segunda coisa que aconteceu nessa reunião foi a prelecção académica de uma jovem psicóloga que acabara de especializar-se num ramo pioneiro dessa ciência na Universidade de Michigan, em Ann Harbor: o estudo qualitativo e quantitativo da personalidade, ou algo parecido. Não recordo praticamente nada da palestra, mas o que sim recordo perfeitamente foi o que a precedeu, à guisa de preâmbulo: a realização de um teste apropriado para definir a personalidade de cada um de nós. Corrigido rapidamente, por revestir a forma de resposta múltipla, a jovem professora veio a concluir que o único examinando que tinha uma personalidade A + era eu. O que quer dizer que eu ficava a compreender cientificamente que podia atingir um estado eufórico sem o recurso a qualquer espécie de estimulante artificial.   
 
                                   António Cirurgião
 

 


 

Canção de embalear.

 
 

 
         Já se falou aqui desta colecção esplêndida da Bloomsbury, de onde li recentemente um livro, sonoramente esplêndido. Whale Song, de Margret Grebowicz, trata, como é fácil perceber, dos ruídos e das canções das baleias lá no fundo do mar fundo. Os sons das baleias começaram a ser captados pelos humanos terrestres devido ao aperfeiçoamento do sonar e de outras tecnologias de guerra submarina, aquando da 2ª Guerra Mundial, uma guerra que, não desfazendo das outras guerras, foi terrestre, aérea e marítima, ou seja, muito completa e variada no que tange aos teatros de operações. Os sons das baleias começaram a ser chamados canções não por causa de Roberto Carlos e da sua inolvidável canção cetácea mas porque:
− à uma, têm padrões repetidos e uma sequência rítmica, como o cantar dos passarinhos;
− à outra, as baleias têm cordas vocais (e corpos descomunais).  
         A primeira vez que foi gravada uma voz de uma baleia foi nos anos 1950 (ouvir barulhinhos esquisitos, como aconteceu ao telemóvel do Dr. Pinto Monteiro, isso já ocorria desde a 2ª Guerra, aqui estamos a falar de gravação, registo, recording). E foi nos anos 1950 numa estação de captação de sons, ultra-secreta, que a U.S. Navy tinha nas Bermudas, onde parece não se estar mal – que o diga Frank Warlington, o engenheiro que trabalhava para a Marinha dos USA e que gravou as baleias, fartinho que estava de gravar e rebobinar o som mais metálica dos submarinos soviéticos. E não é que se tratava do som de uma Megaptera novaenliae? As Megaptera novaeangliae cantam durante 10 a 20 minutos, quase um concerto inteiro. E, tirando os humanos, as baleias de um modo geral são o ser vivo que tem a mais complexa rede de comunicações planetária. As Megaptera novaeangliae têm vários nomes: baleia-jubarte, baleia.corcunda e, claro está, baleia-cantora. É mamífero, é da ordem dos cetartiodactylos, da sobordem dos cetáceos e da infraordem dos misticetos. Tanta coisa para descrever um bacamarte de gente, um bichinho que chega a pesar 40 toneladas e a medir-me 16 metros.
 

 
         Regressemos ao senhor engenheiro. Frank Warlington, da ordem dos humanos, levou as fitas para uma festinha na base naval, daquelas com música country onde, à falta de mulher, os marujos dançam com marujos, numa marujagem pegada. E foram eles os primeiros humanos, ademais marujos, que ouviram uma gravação de som de baleia na História da Humanidade. Gostaram, apreciaram muito, e voltaram a dançar a polca lá uns com os outros, pois estávamos então na Guerra Fria. O engº Warlington, em saber o que fazer às bobinas, que lhe estavam a atravancar o cubículo onde ouvia submarinos, deu-as a um moço que andava pela região atrás daquelas baleias-corcunda, que ele há gostos para tudo. Melhor dito, eram dois moços, Roger Payne e Scott McVay e estavam ambos no encalço das corcundas canoras.
 
 

 
 
 
 
         O Rogério das Dores, conhecido na América como Roger Payne, produziu em 1970, a partir das gravações do engenheiro Warlington, o LP Songs of the Humpback Whale. Quem viveu intensamente essa década, como o signatário, sabe bem que andava tudo maluco com coisas destas, o disco das baleias ou o Fernão Capelo Gaivota. O disco foi um estrondo, sendo bastante atómico no lançamento da campanha Save the Whales. Quando a Christine Stevens, uma amiga grande de toda a bicharada aquática, apareceu para depor no Congresso aquando das audições para aprovar o Marine Mammal Protection Act, não disse palavra – só pôs a tocar o disco das baleias. Não muito depois, a Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente, reunidinha em Estocolmo, dava os primeiros passos no sentido de acabar com a pesca das baleias no planeta. Em 1975, o Greenpeace, muito novito, pôs a tocar o Songs na sua primeira acção praticada no alto mar. O pessoal activista do Greenpeace enfrentou um navio baleeiro soviético e pôs-se o disco a tocar muito alto, no mar alto, graças a altifalantes megafónicos. Toma, russos! Em Janeiro de 1979, a National Geographic colocou o disco na edição desse mês e ano da sua revista. Dez milhões de cópias, a maior prensagem de um disco já alguma vez feita na História da Humanidade Terrestre. 10 milhões, ouviram bem. Outro feito importante para a Humanidade Terrestre, que diz muito ao amigo Rui Passos Rocha (bem-vindo ao Plantas Tristes), foi o Voyager Golden Record, liderado por Carl Sagan e uma cena também muito anos 70, quando um dos grandes veículos culturais era a Reader’s Digest, saudosas tardes de estio. O Senhor Sagan decidiu incluir uns minutinhos de baleias no famoso disco de oiro onde se encontravam inscritos tesouros da Humanidade, aquilo que de mais importante existia em 1977 no Planeta Terra e que foi colocado na sonda Voyager rumo ao espaço, que é escuro e infinito, posto que polvilhado de estrelas, muitas delas já mortas quando as vemos, que é coisa que nunca deixará de me espantar.
 
 


 
      Daqui a uns 40.000 anos, é o tempo que estimam lá pela NASA, alguém poderá encontrar a Voyager, pôr o disco a tocar e ter uma sensação parecida à dos marujos da polca nas Bermudas. No disco do Sagan, o som das baleias aparece ao lado da palavra «Olá», numa escabrosa acção de publicidade de uma famosa e gostosa marca geladeira, sendo a palavra «Olá» declinada em 60 línguas diferentes, lidas por 60 delegados das Nações Unidas (a ONU, à semelhança da Reader’s Digest, Neil Diamond, Fernão Capelo Gaivota, etc., é também uma cena muito anos 70). Depois aparece o Chuck Berry no disco da Voyagerm, que Carl Sagan define, vejam lá, como uma espécie de canção de baleias lançada espaço adentro. A música das baleias-corcunda também surge no Star Trek IV, de 1986, mas não vou cantar mais sobre isso pois é tempo de terminar.
 
 

         Termino: o que me deixa confuso nesta vida? Muita coisa. Mas das coisas que mais espécie me faz é a seguinte: a gente vai ao YouTube e as Songs of the Humpbcak Whale, que tiveram tanta fama e 10 milhões de cópias, só merecem umas modestíssimas e acanhadas 4.465 visualizações. Será que o people se esqueceu das baleias? Será que toda a gente ainda guarda e ouve em casa, num aparelho vintage, o vinyl de 1970, do Dr. Roger Payne? É incríbel, Decibel, como se diria em Guimarães, terra linda muito linda. Pois qualquer porcaria de um adolescente a arrotar ou da Floribela e do Djaló tem-me para cima de 50 mil pessoas a visualizar e, em todo o mundo, no Planeta Azul inteiro, a música estrondosa do cetáceo-marreco só me tem uns 4.465 audições, dos quais 4.238 foram feitas por mim? Mas que é isto, caraças, senhores? Pouca vergonha. Inspirai-vos, pois, nas canções das baleias que cruzavam oceanos. Sim, o REI Roberto Carlos, vestido de marujinho, com um toquezito Tom of Finland, tem 7.607.615 visualizações – sete milhões e seiscentos mil pessoas já ouviram aquilo (o Roberto), sem se aperceberem de que para ouvir aquilo teve de haver isto (o Dr. Roger). E tudo isto foi dito e escrito, aqui por mim, no dia 6 de Novembro de 2017, para agradecer a generosidade da Graça e do Marcos, que espero conhecer um dia. Como espero que oiçam o Roberto, um prodígio de kitsch que eu ADORO. Como espero que daqui a 40 mil anos alguém me leia este texto nos confins do espaço adentro. Como espero que todos os que o leiam, aqui nesta Terra, em Guimarães ou no espaço estelar, apreciem a inofensiva loucura e o infindo amor à vida e ao mundo que nele está. E que aqui vai para vós, Graça e Marcos. Em cada linha, em cada sílaba. Para vós, Graça e Marcos,
 
do António  
 
 

domingo, 5 de novembro de 2017

Oiça, António Ferro!, por Artur Inez.

 
 

Canasta, por F. Flog.

 
 
 
 
 

Tu e o Teu Bebé, por Guilhermina Lopes.

 
 

Um negro no país das loiras, de Hernâni Anjos.

 
 
 
 
O facto de eu ir perguntar por Karen ao balcão de entrada, depois de em vão ter passeado os olhos ansiosos por toda a salara do rés-do-chão, onde nem sequer vira também a sua grande amiga Ebba, fora simplesmente uma prova mais da existência desse curioso e familiar fenómeno psicológico que há muito e vulgarizou sob o nome algo convencional de «descargo de consciência».

Minha Mãe parteira oficiosa de Soutelinho da Raia.

 
 
Soutelinho da Raia
 
Sempre que tomo conhecimento do nascimento de uma criança, penso logo em minha mãe, pelo facto de ela ter sido a única parteira da minha aldeia, Soutelinho da Raia, de umas quatrocentas e cinquenta almas, naquele tempo, durante várias décadas.
Já eu vivia nos Estados Unidos quando soube desse facto em pormenor. É que essas coisas eram tabu, no tempo de eu menino e adolescente.
          Quando chegava o dia ou a noite do nascimento de uma criança, os pais mandavam os filhos para casa de algum parente e eles só regressavam à casa paterna, quando havia menino novo ou menina nova.
E quanto ao exercício de parteira por parte de minha mãe, a primeira vez  que tomei conhecimento dele, estava eu de férias grandes do seminário (as únicas que os salesianos nos concediam durante os quatro anos de aspirantado, pois, a partir do noviciado, nunca mais havia férias com a família, no meu tempo de seminarista), quando um dia, pela manhã, chega minha mãe a casa e começa a fazer uma grande barrela. E é nesse momento que ouço a minha cunhada Matilde perguntar à minha mãe:
- Então é menino ou menina?
Agora os "pormenores" a que se aludiu atrás.
Tinha minha mãe 16 anos quando um dia a sua Tia Hipólita bateu à porta de minha avó Gracinda e lhe disse que lhe queria levar a filha (única) para a assistir num parto. Que ela já começava a sentir-se cansada e que queria ensinar à sobrinha a arte de parteira: que essa profissão tinha estado sempre na família e ela queria que assim continuasse a ser.
E, com o beneplácito da minha avó, minha mãe foi com ela e, depois da necessária aprendizagem, passou a ser a parteira da terra durante os muitos anos que viveu em Soutelinho da Raia.
E rematava minha mãe, ao contar essa história, que as suas mãos tinham aparado muito bebé e que, graças a Deus, só perdera um. Que depois de horas e horas de tentativas o bebé não aparecia.
          Visto o quê, montaram a parturiente a cavalo de um burro, aparelhado com umas andas, a caminho de Chaves, numa tempestuosa noite de inverno,  a mais de duas horas de distância. Vão bater à porta da clínica do Dr. Alcino, se me não engano. O Dr. Alcino estava no café do costume e, também como de costume, estava bêbedo como um cágado. Com muito esforço, lá o arrastaram como puderam até à clínica, mas, infelizmente – acrescentava minha mãe muito comovida -, quando chegou já era tarde.
Claro que minha mãe não recebia qualquer honorário pelo exercício da profissão de parteira. Antes pelo contrário. Como era frequente darem à luz criadas de servir oriundas de terras longínquas, sem quaisquer relacionamentos, quantas delas “sine patre, sine matre, sine generatione”, minha mãe não só lhes “aparava” os filhos e lhes dava o enxoval, mas oferecia-se-lhes para madrinha de baptismo, sempre que necessário, sendo padrinhos, em muitos desses casos, um dos santos da Corte do Céu, desde Santo António a São José, desde Santa Ana a Santa Isabel, colhendo São Sebastião as preferências de minha mãe, por ela ser a zeladora do altar em que ele era venerado na Igreja Matriz de Soutelinho da Raia, por sinal uma bela igreja barroca onde recentemente foram descobertos cinco painéis de frescos, datados do século XVIII, reproduzindo quatro deles cenas da vida religiosa e o quinto uma cena de contrabando, a testemunhar o estatuto de Soutelinho da Raia como “povo promíscuo”, desde a Idade Média até ao tratado de Lisboa de 1864 entre a Espanha e Portugal e, a partir dessa data, o de aldeia raiana.
E esta é a história sobre a maneira como minha saudosa mãe Delfina foi feita parteira de Soutelinho da Raia e lá exerceu briosa e competentemente essa nobre profissão, durante os muitos anos que aí viveu.
 
António Cirurgião
 
 
 
 

Mais Incursionistas Alemães.

 
 




sábado, 4 de novembro de 2017

Incursionistas Alemães.

 
 
 

A Marcação do logar na vida, de O. S. Marden.

 
 
 
 
Incutir alentos novos na mocidade, estimular-lhe as boas qualidades, criar-lhe ideias de independência e vontade própria – diz o autor – é o espírito deste livro. Demos expansão a esse espírito.
 
 
O Traductor
 
 

Tristezas e Alegrias do Senhor Zacarias, por José de Oliveira Cosme.

 
 
 
 
Cosme – Ora viva o sr. Zacarias!... Então, que novidades me dá?
Zacarias – Abriu a «Feira do Livro», sr. Cosme.
Cosme – Bem sei. Ainda não tive oportunidade de visitá-la, mas não deixarei de o fazer, logo que possa.
Zacarias – Faz muito bem, sr. Cosme. É uma iniciativa digna de louvor, que deve ser acarinhada pelo público amador das letras.
Cosme – Apoiado, sr. Zacarias. Pelo que vejo o meu amigo compra muitos livros…

De como minha Mãe entrou para a escola.


Soutelinho da Raia
 
Nada e criada em Soutelinho da Raia, uma aldeia e sede de freguesia do Concelho de Chaves, minha mãe, atingida a idade escolar, que julgo ser então aos sete anos, viu-se impossibilitada de entrar para a escola, dado que a legislação que vigorava nesse tempo, a segunda década do século XX, não permitia o ensino misto nas aldeias, não sei se em todas, se apenas nas mais pequenas, como era o caso de Soutelinho da Raia, que só dispusessem de uma professora e, portanto, de uma única sala de aula (Soutelinho teria, por essa altura, umas quatrocentas e cinquenta almas).
Vamos por partes. Em Soutelinho não havia edifício escolar propriamente dito. No tempo em que minha mãe frequentou a escola, e em que, mais tarde, os meus irmãos e eu a frequentamos também, entre a segunda década do século XX e os princípios da década de 50, a tal sala de aula a que me refiro atrás ficava no primeiro andar de uma casa arrendada ao Tio Domingos Pires, vulgarmente conhecido por Domingos Tapado, um dos ricaços da aldeia. Informo também que esse edifício ficava em frente da casa de meus pais, do outro lado da rua, portanto, o que quer dizer que, para pena nossa, nem os meus irmãos nem eu podíamos dar-nos ao luxo de fazer a gazeta da praxe, sem que os pais soubessem.
Dito o quê, passemos a referir a maneira como minha mãe conseguiu frequentar uma escola reservada, por lei, só a rapazes. Filha única, morgadinha, a viver ao lado da escola, minha mãe sentiu um grande desejo de aprender oficialmente a ler, contar e escrever, como então soía dizer-se. Digo “oficialmente”, pois, na realidade, ela, com a ajuda do pai e de uma senhora amiga da família, professora da escola primária de Seara Velha, aldeia da freguesia de Calvão, a uns catorze ou quinze ou quilómetros de Soutelinho, ia aprendendo privadamente essas coisas. (Esclarece-se, entre parêntesis, que essa professora da escola primária de Seara Velha era a mãe do escritor Reis Ventura que em 1934 ganhou, em paridade com Fernando Pessoa, o prémio de poesia Antero de Quental do SPN (Secretariado de Propaganda Nacional), com o livro A Romaria, publicado nesse ano, com o pseudónimo de Vasco Reis).
Pela vida fora, minha mãe lembrava-nos, com justificado orgulho, que tinha aprendido as primeiras letras com a mãe do escritor Reis Ventura. E, por ironia do destino, após a independência de Angola, em 1975, sendo eu professor de Espanhol e Português na Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos, recebo um dia uma carta de um senhor chamado Manuel Joaquim Reis Ventura, na qual me pedia o favor de lhe proporcionar a emigração para os Estados Unidos, invocando a velha amizade que o ligava a minha mãe. É que Reis Ventura fora viver para Angola nos anos 30, depois de ter abandonado a ordem franciscana e a vida sacerdotal.
Feita esta longa digressão, chegou o momento de reiterar que o desejo de minha mãe de frequentar a escola da sua terra natal foi tão intenso, que se encheu de coragem e foi bater à porta da professora oficial, a Dona Marquinhas, que morava perto de nós, numa casa enorme, quase senhorial, juntamente com a sua irmã mais nova, a Dona Aninhas, viúva, e com os dois filhos desta irmã - o Rubens e o Fernandinho -, e pediu-lhe que a deixasse entrar para a escola. Segundo minha mãe nos contava muitas vezes, a Dona Marquinhas respondeu-lhe mais ou menos nestes termos:
- Ó minha menina, quem me dera a mim poder satisfazer o teu pedido!
          Mas a verdade é que isso está proibido por lei. Se te deixasse entrar para a sala de aula e viesse o inspector escolar, como às vezes acontece, fazer uma inspecção, mandava fechar imeditamente a escola. E o resultado era ficarem todos os alunos impossibilitados de poder frequentá-la: tu e os rapazes que andam nela. E tu não queres que isso aconteça, pois não, minha filha?
         Esclarecida, mas não convencida, minha mãe despediu-se da Dona Marquinhas e voltou muito triste para casa.
         Porém, no dia seguinte a Dona Marquinhas mandou chamar a minha mãe a casa, por uma criada, e falou-lhe mais ou menos assim:
         - Olha minha filha, pensei muito no pedido que me fizeste ontem e cheguei à seguinte conclusão: como sabes, eu tenho uma braseira debaixo da minha secretária, para me aquecer. E como sabes também, para a braseira não se apagar, é preciso mexer as brasas de vez em quando. Ora como é preciso que alguém me mexa as brasas da braseira, tu sentas-te muito quietinha num banquinho junto da minha secretária e mexes as brasas quando for necessário. E se vier o inspector, eu explico-lhe – o que é verdade – que tu não és uma aluna da escola, mas a filha de uma vizinha minha – o que é verdade também – que me ajuda a manter a braseira sempre acesa.
       E a partir desse mesmo dia, minha mãe – menininha – passou a ser a única rapariga daquela aldeia arraiana a frequentar a escola, só destinada ao sexo masculino, segundo a lei.
         Mas a história não acaba aqui. Contava-nos minha mãe que, por casualidade – bendita casualidade! (apetece dizer) –, ainda antes do final desse ano lectivo saiu uma lei do Estado que criava as escolas mistas nas pequenas aldeias de Portugal. E mais contava minha mãe também (facto que era muito fácil de comprovar numa aldeia tão pequena, em que toda a gente se conhecia e em que as portas de casa raramente se fechavam à chave) que, por muitos anos, ela não só foi a primeira rapariga de Soutelinho da Raia a frequentar a escola, mas foi também a única com a quarta classe. Daí vir eu a compreender, mais tarde, a razão por que minha mãe lia e escrevia tanta carta a tanta gente da terra que tinha filhos na tropa e família nas colónias, no Brasil e na América, e por que ela, a pesar de ser mãe de cinco filhos, acompanhava tantas pessoas ao Porto, quando se tratava de arranjar os papéis para embarcar para essas terras longínquas, e a razão por que minha mãe acompanhava tantas pessoas de Soutelinho da Raia a Verín, na Galiza, ou a Chaves, sede do concelho, quando necessitavam de consultar médicos.
 
 
António Cirurgião


 
PS.  Tratando-se de uma questão importante, como é o da educação, no tempo da primeira República, fiz várias diligências para determinar a data precisa em que o governo promulgou a lei que autorizava a criação de escolas mistas nas aldeias do Portugal profundo, em que se vivia como no tempo dos afonsinos, no tempo de minha mãe menina. como era o caso de Soutelinho da Raia, um dos três “coutos promíscuos” existentes entre Espanha e Portugal, até à celebração do Tratado de Lisboa, de 1864, mas todas as tentativas foram em balde. Semianalfabeto em cibernética, e a viver do outro lado do Atlântico, ainda pedi a duas pessoas conhecidas, a trabalhar actualmente no Ministério da Educação, que vissem se me podiam fazer esse favor, mas até à data ainda não tive qualquer resposta. Se houver uma alma generosa que me possa dar esse esclarecimento, ficar-lhe-ei muito grato. 


 

 

 

 

 

 

 

 

Acidentes Rodoviários, por António Alves Ramos.

 
 



Puericultura, pelo Dr. Oliveira Martins (do Instituto Maternal)

 
 

Filmes caseiros.

 
 
 





quinta-feira, 2 de novembro de 2017

São Cristóvão pela Europa (32)

 
 
 
 
Museu das Belas-Artes, Valenciennes, França. 4 de Agosto de 2013
Escultura de Pierre Schleiff (1601-1641).
 
Jacobus de Voragine (1230-1298), arcebispo de Génova, escreveu e compilou a Legenda Aurea, Lenda dourada, contendo mil hagiografias dos Santos mais conhecidos da Idade Média.
No texto dedicado ao nosso santo, diz que São Cristóvão traz Cristo de quatro maneiras: nos seus ombros, transportando-O e conduzindo-O, no seu corpo ao tornar-se mais ágil, no seu espírito por devoção, na sua boca pela confissão e predicação.
 
José Liberato

Um dia, uma fotografia.

 
 

 
 
 
 

Um dia, uma fotografia.