Num alfarrabista de
Lisboa, deparei com uns postais pós-coloniais, que ao princípio me pareceram
banais, mas enfim. Depois vi melhor ULTRAMAR (Empire Travel Club), um arquivo
de 166 retratos de Angola, Moçambique e Guiné tirados por soldados portugueses.
À apreciação dos leitores, sem quaisquer comentários.
quinta-feira, 7 de março de 2019
Ultramar (Empire Travel Club).
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A queda do Muro.
Uma festa disco soviética.
Ano 1989, o da queda do Muro. Pelas razões que este vídeo bem ilustra.
quarta-feira, 6 de março de 2019
Hotel Rwanda (8)
Umuganda
Qualquer visitante no Ruanda fica impressionado com a limpeza das ruas, dos
edifícios, das estradas. É uma obsessão nacional. Até as estradas são varridas!
O plástico é severamente limitado ao ponto de o turista não poder entrar no
país com sacos de plástico provenientes de um free-shop.
O civismo ajuda muito, mas uma das principais razões para essa limpeza é o
Umuganda.
O Umuganda é um programa de trabalho comunitário em que todos têm de
participar, incluindo o Presidente e os membros do Governo. Ocorre no último
sábado de cada mês a partir das 8 horas da manhã. Entre os 18 e 65 anos é
obrigatório.
Cobre actividades de limpeza mas também construção de casas para os mais
necessitados, estradas e infra-estruturas em geral.
Uma das interpretações possíveis sobre este empenho comunitário é que se
trata duma reacção ao caos do genocídio.
terça-feira, 5 de março de 2019
Torga, 1933.
«Coimbra, 1 de Março de 1933 – Continuam
as matanças de gatos, à mocada, cá na república. Uma selvajaria. Só quem
assiste a isto pode avaliar o que é um homem primitivo. Não há Universidade que
nos tire da idade da pedra lascada.»
Miguel Torga,
Diário I, Coimbra, 1941, pág. 10.
Yannis Behrakis (1960-2019).
O
Duarte Vera Jardim, o mais grego dos portugueses, velho amigo de infância,
trouxe-me a notícia triste da morte de Yannis Behrakis, falecido jovem, depois
de uma vida a fotografar as tragédias deste mundo estranho. Prémio Pulitzer, as
fotografias de Behrakis sobre a crise dos refugiados (e não só) ficarão para sempre na nossa memória como imagens
poderosas, poderosíssimas, de gente em fuga para lugar nenhum. Avassalador.
Dia de macacada.
Senhor de Chimpanzé, de Júlio Verne, é
uma opereta um pouco pateta mas mais profunda do que parece. Já falei dela aqui, e o ponto que
interessa é, claro, o da interacção profunda entre humanos e animais. Na peça
de Verne, um homem disfarça-se de macaco para conquistar os favores da filha do
director do museu zoológico de Amesterdão e, previsivelmente, instala-se a
confusão entre o que é símio e o que o não é.
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Consul Peter, 1909
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Com Kafka as coisas são mais sérias,
óbvio. Todos conhecem a metamorfose de um ser humano e insecto, mas é menos sabido
que Kafka escreveu um conto intitulado «Um Relatório para a Academia», em que
um ex-macaco, entretanto evoluído para doutor, apresenta uma sábia comunicação
universitária sobre a sua vida pretérita como mono. A sombra de Darwin parece
evidente. Menos evidente é saber se Kafka se terá inspirado num macaco de feira
para criar o seu chimpanzé, de nome Pedro Vermelho. Um artigo recente do TLS
dedica-se a esmiuçar esta temática, sem chegar a grandes conclusões. Ainda
assim, fala-se abundantemente de um chimpanzé, Consul Peter,
a quem vestiram de humano (uma crueldade…) e que fez vários tours pela Europa, incluindo Praga. E não
é descabido pensar, dizem muitos, que este foi o inspirador de Kafka.
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Pierre Brassau, 1964
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Termina-se com outra história de outro
macaco Peter. «Pierre Brassau», assim se chamava o chimpanzé que, em 1964, serviu
para uma deliciosa partida de um jornalista de um tabloide sueco. O jornalista
convenceu o dono do macaco a dar-lhe tintas e pincéis, o bicho lá sarapintou a
tela e os seus quadros foram exibidos – e aplaudidos – como arte da maior
vanguarda. Um crítico afirmou, julgando tratar-se de um artista humano, que aquelas
pinturas revelavam um autor que «pintava com a delicadeza de um dançarino de
ballet». Uma brincadeira um pouco parva, talvez, mas ilustrativa dos nossos
preconceitos. Aqui fica ela, em dia de Carnaval.
segunda-feira, 4 de março de 2019
Elsa e Marcela.
É assombrosa, a história de Elsa e
Marcela. Duas professoras galegas que, enganando tudo e todos, casaram em 1901.
Depois, descobertas, fugiram para o Porto, onde foram presas. Assombrosa é também
a solidariedade de José Nogueira, o dono do Café Lisbonense, na Invicta, onde Marcela trabalhou,
e que prestou enorme auxílio às mulheres perseguidas. Moveu até uma campanha de
solidariedade que, em poucos dias, conseguiu angariar uma quantia avultada, 77
mil réis, facto que nos deve encher de orgulho, a nós, portugueses. Do Porto,
Elsa e Marcela fugiram para a Argentina, e mais factos assombrosos: Elsa casou
com um dinamarquês. Porquê? Para quê? Tudo explicado e contado no último número
da revista História, do Jornal de
Notícias, num extenso e informadíssimo artigo de Mário Bruno Pastor (também a
reportagem do J.N., de Pedro Olavo Simões, aqui).
O que aí não se refere, e penso ser importante, é que há pouco foi feito um filme sobre
este caso extraordinário, película dirigida por Isabel Coixet e que, segundo
dizem aqui,
já estreou no Netflix. Vou procurar.
domingo, 3 de março de 2019
O mundo como vontade e representação.
Este
vídeo já conta com 445.978 visualizações no YouTube, o que comprova que, sendo
o mundo um lugar estranho, Portugal não deixa, digamos, de ser sensacional.
Leitura (muito) recomendada.
Escrevo
porque há uma mentira qualquer que quero denunciar, um facto qualquer para o
qual quero chamar a atenção, e a minha preocupação inicial é ser ouvido.
A
frase é de George Orwell e talvez ajude a explicar muita coisa da sua obra,
literária e ensaística. Em tempos idos, a Antígona já tinha publicado Por que escrevo e outros ensaios, com
tradução de Desidério Murcho, livro hoje esgotado. Em 2016, a Relógio D’Água
trouxe-nos uma edição muito substancial dos ensaios de Orwell, que abre logo com
o famoso «Matar um Elefante» e termina com um escrito inacabado sobre Evelyn
Waugh. Pelo meio, coisas várias, desde a culinária britânica (que Orwell tenta
louvar, a custo) a preciosas notas sobre o nacionalismo, sempre actuais – ou não
fosse o autor de 1984 uma das
inteligências mais lúcidas do século XX. Um grande livro.
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sábado, 2 de março de 2019
Elefantes (brancos).
Se os centros comerciais são
depressivos, os centros comerciais abandonados são… uma tristeza. Mas há quem
goste. Há quem goste, por exemplo, de centros comerciais quase, quase prestes a
serem abandonados, com uma ou outra loja aberta, tristonha e sozinha. Há quem
goste de ir almoçar ao comatoso Olaias Clube, em nostálgica imersão na década
de 80. Há quem goste de lugares despojados de pessoas e de vida – como o assaz engenhoso
Gastão de Brito e Silva, do Ruin’Arte (um abraço!) ou do mui talentoso André
Ramalho, do fantástico-fantasmagórico Abandonados. O André foi ao Centro
Comercial Sol, em Leiria, e trouxe de lá estas desoladoras e deliciosas imagens.
A Catarina Pires, há dias, trouxe o Babilónia da Amadora até às páginas do
Diário de Notícias. E na América, então, resmas de malls de olhos semicerrados,
agonizantes (aqui). E não digam que isto não tem a ver com elefantes (brancos), porque
tem. E muito.
sexta-feira, 1 de março de 2019
Vaya luna de miel: deliciosamente atroz.
Jesus Franco não é propriamente o Ed
Wood espanhol mas é seguramente um bel realizador de série B. Agora foi descoberto um fragmento de Vaya luna de
miel e basta vermos este pedaço para percebermos o calibre deste artista
enorme – parece que está a gozar, mas não está, aquilo era mesmo um filme para ser
levado a sério. Ou não? De qualquer modo, aqui fica a homenagem sentida e
devida a este portentoso realizador, injustamente esquecido, barbaramente
maltratado pela crítica, pelos costumes e, digamos, pelo bom gosto.
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