sábado, 19 de setembro de 2015

Histórias de uma mítica queda.

 
 
 
A 7 de Setembro de 1968, a rádio e os jornais vespertinos noticiaram a operação a que Salazar fora submetido na madrugada desse dia, transcrevendo o primeiro boletim médico: "Em consequência de uma queda na sua residência de verão, no Estoril, o Sr. Presidente do Conselho apresentou sintomas que levaram o seu médico assistente a recorrer à colaboração de dois colegas neurocirurgiões. S. Ex.ª foi operado esta noite de um hematoma, sob anestesia local, encontrando-se bem".
As palavras foram sopesadas, para tranquilizar. A referência inicial à queda sugeria que se tratava só de um acidente e não de uma doença, que soaria mal, especialmente num homem de 80 anos. O pormenor da anestesia local atenuava a aparente gravidade da intervenção cirúrgica. Houve cortes censórios, também. O presidente Tomás impôs "operado esta noite" em vez de "operado esta madrugada", que lhe parecia demasiado dramático. Falava-se de um hematoma, mas não se disse que era intracraniano, por ordem do subsecretário de Estado da Presidência, Paulo Rodrigues, para "não alarmar".
 


Residência de verão de Salazar, protegida por tripla muralha estrelada.

(Forte de Santo António do Estoril, vista actual de satélite.)

 


No dia seguinte, os matutinos começaram a desenvolver a notícia, tanto quanto a censura o permitia. O oficioso Diário de Notícias julgava saber que o chefe do governo tinha sido vítima de uma queda "quando se encontrava a repousar numa cadeira na sua residência de verão (...) devido a ter-se soltado uma peça da cadeira de lona em que se sentava". Não era revelada a fonte de tal informação nem a data do acidente.

Sabe-se hoje que ninguém presenciou a famosa queda, pois apenas outra pessoa se encontrava naquele aposento do Forte com Salazar, o seu calista Augusto Hilário, que no momento ensaboava as mãos num lavatório, de costas para o governante, segundo revelou vinte anos depois à jornalista Helena Sanches Osório.

Acerca da cadeira, envolvida na história desde a primeira reportagem do Diário de Notícias, soube-se depois que era uma cadeira tipo "realizador de cinema". Ao longo dos anos, diversas versões surgiram sobre o modo como se terá dado o acidente e sobre o papel da cadeira no sucedido. Segundo uns, Salazar estaria já sentado na cadeira e esta ter-se-á desconjuntado debaixo dele (versão inicial do Diário de Notícias, depois muitas vezes repetida, inclusive pelo médico assistente, Eduardo Coelho). Segundo outros, a queda do chefe do governo aconteceu ao sentar-se, ou por falta de pontaria do sentante, embrenhado na leitura do jornal, ou pela forma imprudente como costumava sentar-se, deixando-se cair desamparado (acutilante testemunho do presidente Américo Tomás), ou ainda porque a cadeira não se acharia "bem encartada" (Franco Nogueira, baseando-se num alegado relato do próprio Salazar). O que não faz dúvida, de acordo com todas as versões, é que Salazar, segundo ele mesmo declarou, bateu com a nuca no chão (tijoleira para uns, pedra para outros).

Há ainda uma nublosa história posta a correr pelo inevitável Fernando Dacosta no livro Máscaras de Salazar (1997), segundo a qual a queda fatídica ter-se-ia dado a 3 de Agosto, na presença do barbeiro de Salazar, Manuel Marques, que Dacosta entrevistou. O governante, afinal, não teria caído da cadeira, nem juntamente com ela, mas sim directamente no chão, ao lado da dita, como nos filmes cómicos. Não se deve pôr simplesmente de lado este tardio testemunho do barbeiro, pois Salazar pode ter caído duas vezes, ou mais, naquele verão de 1968. Diga-se que o barbeiro citado por Dacosta é designado por Salazar na sua agenda como "cabeleireiro". Cortava-lhe o cabelo pontualmente de quinze em quinze dias, sempre ao domingo de manhã. Segundo a agenda de 1968, o cabeleireiro apareceu nos domingos de 12 e 26 de Maio, 9 e 23 de Junho, 7 e 21 de Julho, 18 de Agosto e 1 de Setembro. Falhou apenas a 4 de Agosto, um domingo em que calharia o corte quinzenal, mas que não ficou registado no diário nesse dia, nem nos dias anteriores, nem nos seguintes. Ou Salazar se esqueceu de registar o corte de cabelo daquele domingo, o que não é totalmente impossível, ou passou 28 dias sem o cortar, e neste caso a história do barbeiro (ou de Dacosta) mete água. Mas é imaginável que a data de 3 de Agosto, um sábado, avançada por Dacosta tenha sido bebida noutra fonte, que não o barbeiro. Certo é que o cabeleireiro ia sempre ao domingo, nunca em outros dias da semana.

Foi a cadeira que foi julgada culpada por D. Maria, a irascível governanta do governante, que dois dias depois do acidente a terá partido e deitado ao mar – isto segundo Dacosta, que a entrevistou repetidamente. Como Dacosta sustenta que a cadeira não foi vista nem achada no acidente, não se entende a reacção de D. Maria por ele relatada. A explosão de mau génio da governanta foi obviamente precipitada, que noutras circunstâncias poderia até configurar uma destruição de prova. A histórica peça de mobiliário, se ainda existisse hoje, atrairia certamente visitantes a qualquer museu. Num leilão, renderia bom dinheiro.

A data da queda de Salazar nunca foi estabelecida com razoável certeza. Franco Nogueira, na sua biografia de Salazar, conjecturou 3 de Agosto. O médico assistente Eduardo Coelho, no livro Salazar: O Fim e a Morte, não indicou uma data precisa. Helena Sanches Osório, que entrevistou o calista em 1988, inclinou-se para 5 de Agosto. Paulo Otero, em Os Últimos Meses de Salazar, preferiu 4 de Agosto. Fernando Dacosta parece atribuir ao barbeiro Marques a data de 3 de Agosto. Nenhuma destas datas está provada documentalmente. Diga-se que a data precisa não tem, em si mesma, qualquer importância transcendente, excepto a de constituir para muita gente, por uma razão ou por outra, uma efeméride memorável. As consequências da queda não foram imediatamente sensíveis e Salazar continuou a trabalhar normalmente após o acidente, que apenas lhe deixou dores no corpo. Compulsando a sua agenda no mês de Agosto de 1968, verifica-se que prosseguiu ao mesmo ritmo a despachar, ler telegramas, fazer telefonemas, dar audiências, ler jornais, etc. Até fez uma remodelação do governo no dia 19 de Agosto, metendo sete novos ministros.

Em 2014, o jornalista Miguel Pinheiro, no livro A Noite Mais Longa, revelou um documento inédito do Arquivo Salazar que, na sua opinião, esclarece definitivamente a data do acidente – 1 de Agosto de 1968. Trata-se de uma carta do calista Augusto Hilário para Salazar, claramente datada desse dia.






 
 
Arquivo Salazar, CP-138, Cx. 995, fl.287.


 

Exmo. Sr. Presidente:

Impressionadíssimo e preocupado, foi como hoje saí aí do forte. Peço a Deus, Sr. Presidente, que nenhuma consequência tenha havido com tão tremenda queda. Assim, com os mais respeitosos cumprimentos, faço votos de muito boa saúde, pedindo-lhe desculpa de lhe escrever.

Lx 1/8/1968            

Augusto V. Hilário

 

A carta de Hilário foi lida a Salazar no dia seguinte por um seu secretário que, assim, também ficou informado da queda secreta. Salazar respondeu a Hilário só a 6 de Agosto, depois de ter sido examinado pelo seu médico assistente Eduardo Coelho, que não lhe detectou alterações suspeitas. Diz o cartão de resposta ao calista: "Parece não ter havido consequências da queda, além das dores pelo corpo. Muito obrigado".

A carta de Hilário, se ele não se enganou a datá-la, é taxativa: a "tremenda queda" foi a 1 de Agosto. Miguel Pinheiro, em geral bem documentado, decidiu, porém, menosprezar outro facto seu conhecido, que contradiz a data de 1 de Agosto. Na agenda, com efeito, Salazar registou pelo seu punho, no dia 2 de Agosto às nove e meia da manhã: "Hilário" – ou seja, a visita do calista, que só se repetirá a 4 de Setembro. Miguel Pinheiro evacuou a contradição com o curioso argumento de que os diários de Salazar não são inteiramente fiáveis (p. 227).


 
 
Página da agenda de Salazar do dia 2 de Agosto de 1968, com o registo da visita matinal de Hilário.


 

Pondo, pois, de lado as meras conjecturas de Franco Nogueira, Helena Sanches Osório e Paulo Otero, temos que:

– segundo o barbeiro (ou Dacosta?), Salazar deu uma queda no dia 3 de Agosto;

– segundo o calista Hilário, Salazar deu uma "tremenda queda" no dia 1 de Agosto;

– segundo a agenda de Salazar, o calista Hilário tratou-lhe dos pés no dia 2 de Agosto, mas o cabeleireiro Marques não compareceu nas quatro semanas de 21 de Julho a 18 de Agosto.

 

Não há mais nenhum documento realmente fidedigno, escrito em cima do acontecimento, para além dos dois últimos referidos, ou seja, a carta do calista e a agenda de Salazar – que são contraditórios. Não resta dúvida de que a visita de Hilário no princípio de Agosto, independentemente da data precisa, coincide com uma "tremenda queda" de Salazar. Mas poderia Salazar ter-se enganado ao registar a visita do calista no dia 2 de Agosto e não a 1, como a carta de Hilário atesta? É duvidoso. Salazar registava post factum os acontecimentos do dia numa folha da agenda com a data no topo da página. Fazia esse registo todos os dias, ordenando os factos em sequência horária, das 8-9h até às 23-24h. É bastante plausível que fosse fazendo esse registo no decurso da jornada, finalizando-o ao fim da noite, pois acrescentava sempre as visitas, as leituras de jornais e as conversas telefónicas havidas depois do jantar na sua residência. Não se entende porque haveria de colocar na página do dia 2 a hipotética visita do calista acontecida na véspera. Parece mais plausível que Hilário se tenha enganado ao datar a sua carta a Salazar, escrevendo 1 em lugar de 2 de Agosto.

       Tudo o que atrás fica dito parecerá sumamente ocioso a quem tenha em mente que a queda da cadeira (ou sobre a cadeira, ou ao lado da cadeira) em princípios de Agosto de 1968 não foi a verdadeira causa da invalidez permanente do ditador Salazar, acarretando o seu fim político, mas sim a doença que culminou no acidente vascular cerebral de 16 de Setembro, quando estava quase recuperado da operação do hematoma, este sim resultante de uma queda.

Os médicos que trataram ou observaram Salazar, incluindo o americano Houston Merritt, foram unânimes em que o AVC fatal de 16 de Setembro não resultou nem do hematoma nem da operação que o removeu. Mas alguma relação deveria haver entre esses termos, porque um dos sintomas que antecedem um AVC é a perda do equilíbrio, que pode ocasionar quedas. A referida unanimidade dos médicos é de sublinhar, porque se guerrearam de forma insólita, primeiro privadamente, depois na praça pública, a propósito dos méritos e deméritos de cada. Posteriormente, autores como Costa Brochado, Franco Nogueira e outros observaram que já antes da queda Salazar mostrava sinais preocupantes de decadência psíquica e física. Costa Brochado, assíduo visitante de Salazar e D. Maria, falou até de uma queda anterior, em que Salazar teria batido violentamente com a cabeça numa banheira, e de "sucessivos delíquios" que o presidente do Conselho vinha tendo, "escondidos do público cuidadosamente por sua ordem".

A história da cadeira foi mitificada, talvez porque as pessoas gostam de ver a mão do Destino a actuar através de coisas prosaicas como uma cadeira de lona. A queda de um ditador de uma cadeira é uma boa história, muito "gráfica", que além disso se presta a variações metafóricas sobre a cadeira do poder ou a queda do poder, enquanto um AVC é algo de invisível, fugidio e desengraçado.

Resta na memória colectiva que Salazar deu uma queda, foi operado por causa dela, ocorreram "complicações" e só saiu do hospital meses depois, diminuído e acabado, à espera da morte. Por mais que se diga, há-de sempre voltar-se à "queda na residência de verão" de que falava o primeiro boletim médico, a 7 de Setembro de1968. Não há nada a fazer.

 

José Barreto

 

 

Obras consultadas: Franco Nogueira, Salazar, t.VI, 1985; Costa Brochado, Memórias de Costa Brochado, 1987; Helena Sanches Osório, "O dia em que o regime caiu", O Independente, 5.VIII.1988; Eduardo Coelho, Salazar: O Fim e a Morte, 1995; Fernando Dacosta, Máscaras de Salazar, 1997 (2010); Paulo Rodrigues, Salazar: Memórias para um Perfil, 2000; Paulo Otero, Os Últimos Meses de Salazar, 2008; Miguel Pinheiro, A Noite Mais Longa, 2014.

 

2 comentários:

  1. Boa noite:

    Queira ter a gentileza de consultar o meu artigo sobre a matéria e publicada o semanário "O Diabo" de 21 de Julho passado.

    Att.

    Fernando de Castro Brandão

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  2. Só hoje, meses depois do seu comentário, é que pude ler o seu artigo. Temos, afinal, a mesma opinião sobre a data da queda, tendo cada um chegado por si próprio a essa conclusão.
    Com os meus melhores cumprimentos,
    José Barreto

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