sexta-feira, 10 de julho de 2026

João Pedro Marques: Trabalhar Cansa (III)

 



          Lições de abismo

 

          Como disse o jornalista e romancista John Lanchester, "olhar para a História é olhar para um abismo". Esta citação vem mesmo a calhar, já que as personagens, quando estão demasiado voltadas para dentro de si próprias, cavam abismos (ou poços) que os engolem: Mateus caiu nos "abismos da mais funda tristeza", D. Pedro "sentia-se quase sempre à beira do precipício", Mateus "sentia-se perdido num poço sem fundo" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 120, 203, 276); "Ficou assim por muito tempo, imóvel e calada [Benedita], como que caída num poço muito fundo e muito amargo", "o buraco que subitamente se tinha aberto na sua vida [de Bernardino]" (Uma Fazenda em África, págs. 35, 237); José Duarte "caiu de novo no fundo de um poço do qual só saiu a muito custo e graças à História", "abriu-se um precipício à sua frente", "caído naquele poço de indiferença", "a sua morte abalou-o e empurrou-o ainda mais para o fundo do poço", José Duarte tem medo "de não conseguir sair do fundo do poço a tempo de vencer a sua corrida contra o tempo" (A Aluna Americana, págs. 13, 129, 154, 216, 230); "a vida voltava a cair num poço" (Vento de Espanha, p. 122); "mergulhavam invariavelmente nos abismos da falência"; "abismos do seu alheamento", "abismo de medos" (Os Dias da Febre, págs. 18, 114, 241); "tinham-no deixado suspenso sobre o precipício", "Ao conceber as coisas assim, [Antoine] via-se à beira de um precipício" (Haiti, págs. 19, 104); "a sensação de se encontrar preso no fundo de um poço negro", "os abismos do ressentimento e da perversidade vingativa", "acabado de se debruçar sobre um abismo" (Do Outro Lado do Mar, págs. 131, 271, 363).

 




          O Menino da Lágrima   

 

          JPM rega os seus romances de lágrimas (diz-se, mas não sei se é verdade, que JPM, quando era aluno do Liceu de Oeiras, escreveu uma redacção intitulada "A Lágrima", que foi premiada no jornal da escola):

 

          1. "As lágrimas escorriam-lhe pela cara abaixo", Luísa saiu da sala "para que não se vissem as lágrimas que já lhe corriam pela cara abaixo", "Ao pensar nisso as lágrimas saltaram instantaneamente e ela nada fez para as conter, deixando que lhe escorressem pela cara abaixo", "Limpou os olhos com um gesto enérgico", "perfilado na parada do quartel com as lágrimas a escorrer pela cara", "as lágrimas correram-lhe pelas faces, sufocaram-lhe a voz", "As lágrimas saltaram-lhe dos olhos e correram pela cara abaixo", "vieram-lhe as lágrimas aos olhos", "uma mulher que limpava as lágrimas à ponta do xaile", "Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 54, 67, 155, 156, 159, 161, 195, 208, 237, 287).

 

          2. Benedita "com as lágrimas a escorrerem-lhe pela cara abaixo", "os olhos encheram-se-lhe [de Benedita] de lágrimas", Benedita "derramando torrentes de lágrimas", "as lágrimas que lhe escorriam pela cara abaixo", "os seus olhos encheram-se de lágrimas [Benedita, sempre]", "as lágrimas de raiva corriam-lhe pela cara abaixo", "Os olhos dela [Benedita] encheram-se de lágrimas", "limpando as mãos sujas de terra a um lenço que tirou do bolso das calças", os olhos de Coitadinho Amigo "encheram-se-lhe de lágrimas", "com os olhos afogados em lágrimas", os olhos de Bernardino "encheram-se-lhe de lágrimas", "os olhos de Benedita inundaram-se de lágrimas", "as lágrimas saltaram, rebeldes" (Uma Fazenda em África, págs. 30, 74, 121, 201, 225, 233, 289, 299, 306, 320, 339, 340).

 

          3. "Erupção de lágrimas nos olhos", "As lágrimas começaram a correr-lhe pela cara", "com as lágrimas a correr pela cara", os olhos de Isabel "encheram-se-lhe de lágrimas", "Com as costas da mão direita limpou uma lágrima rebelde que viera toldar-lhe a visão" (A Aluna Americana, págs. 34, 54, 84, 197, 259).

 

          4. "Começou num pranto, limpando os olhos com um pano encardido", "Limpou os olhos húmidos à manga da camisa", Maria Constança "tirou um lenço da manga esquerda para limpar os olhos que, apesar dos seus esforços de contenção, se enchiam de lágrimas", Maria Constança voltou a deixar-se chorar e "depois limpou os olhos com um lenço e dirigiu-se à porta", uma cantineira espanhola "lavada em lágrimas", "Florencia deixou que as lágrimas lhe corressem pela cara", "as lágrimas inundavam os olhos de Florencia", "enquanto limpava a cara com a manga da camisa", "O capitão Calheiros sentiu os olhos a encherem-se de lágrimas e chorou baixinho de raiva e desgosto", Bento Calheiros "limpou os olhos com a manga do capote e olhou à sua volta", Maria Constança "chorou longamente" (Até ao Fim da Terra, págs. 75, 101, 167, 171, 200, 204, 205, 229, 247).

 

          5. "Ao pensar nisso vinham-lhe as lágrimas aos olhos", "A visão daquele pobre corpinho empalado (...), fez-lhe vir as lágrimas aos olhos", "os olhos de Charlotte se encheram de lágrimas", "os olhos dela encheram-se de lágrimas", "não conseguiu evitar que as lágrimas lhe escorressem pela cara", "um soluço veio de repente encher-lhe os olhos de lágrimas e apertar-lhe a garganta", Joséphine "foi com as lágrimas a correr pela cara", "chorou desconsoladamente", "Joséphine não conseguiu conter as lágrimas", "Ainda que tentasse impedi-las, as lágrimas começaram a escorrer-lhe pela cara" (Haiti, págs. 42, 76, 111, 212, 227, 231, 237, 239, 249).

 

          6. "Houve um momento em que as lágrimas lhe correram pela cara abaixo", "vinham-lhe as lágrimas aos olhos", "os olhos encheram-se de lágrimas e a voz morreu-lhe na garganta", "os seus olhos encheram-se de lágrimas", "os olhos encheram-se-lhe de lágrimas", "todos os dias as lágrimas lhe vinham aos olhos", "Os olhos da mulher encheram-se de lágrimas", "os olhos encheram-se-lhe de lágrimas" (Lurdes), "as lágrimas saltaram-lhe dos olhos" (Vento de Espanha, págs. 52, 55, 58, 61, 157, 167, 184, 238, 255).

 

          7. "A garganta apertava-se-lhe e os olhos enchiam-se-lhe infalivelmente de lágrimas", Pedro "deixava que as lágrimas lhe escorressem pela cara", Robert a "chorar convulsivamente", "Os olhos encheram-se de lágrimas e chorou longamente", "Ao seu lado uma mulher chorava convulsivamente", "sentiu a vontade de chorar a subir da garganta aos olhos, (...) puxando pelas lágrimas" (Os Dias da Febre, págs. 8, 43, 160, 285, 305, 314).

 

          8. "Os seus olhos enchiam-se de água quando pensava nisso", "Os seus olhos encheram-se de lágrimas" (na mesma página 317, os olhos de Vasco voltam a encher-se de lágrimas), "No enterro vira-a chorar convulsivamente", "ela chorou, longamente" (Do Outro Lado do Mar, págs. 168, 315, 317, 322).

 

          9. Raquel fica "lavada em lágrimas", a Raquel "as lágrimas toldaram-lhe a visão", "as lágrimas corriam-lhe pela cara", "olhar turvo do choro", "as lágrimas e a aflição mal a deixavam ver a jovem enfermeira", Raquel "sentada no tampo da retrete deixou que as lágrimas corressem livremente", "chorou longamente" (O Prazer de Guiar, págs. 24, 67, 68, 73, 141).

 

          10. Alzira "chorou desoladamente", Pedro "limpou os olhos vermelhos e lacrimejantes com as costas da mão direita", Teresa "não resistira às lágrimas e chorara como uma Madalena", Henrique "não conseguira reter as lágrimas", "sem o autodomínio o choro surgiu convulsivamente", Hernâni "... e sentiu vontade de chorar. (...) e, ao lembrar-se dela vieram-lhe as lágrimas aos olhos. Quando, irritado, as secou com as costas das mãos (...). Chorou, então, francamente, com grossas lágrimas a rolarem-lhe pela cara", "Madalena desfez-se em lágrimas" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 103, 127, 198, 217, 223, 242, 254).

 



          Faquires e Paxás

 

          Sem comparações e metáforas não haveria literatura, nem qualquer tipo, minimamente sofisticado, de expressão oral ou escrita. De certo modo, as palavras só existem em imagens, comparações e metáforas.

          As metáforas e as comparações são os principais mecanismos através dos quais o nosso cérebro é capaz de compreender determinados conceitos abstractos. São ainda recursos capazes de criar estados de ânimo nos leitores, e, como em todas as associações de ideias, umas e outras influenciam poderosamente as nossas percepções sobre o estado de espírito das personagens.

          JPM, mais do que a maioria dos escritores, pensa metaforicamente. Conhece a receita para elaborar uma metáfora potente. E embora consiga inventar metáforas e comparações a cada cinco segundos, a qualidade das suas metáforas e comparações é inegável.

          A magia delas reside no que evocam. Por vezes, através da associação ou comparação entre algo abstrato (impassibilidade, imobilidade, placidez e elevação) e algo concreto (faquir): "uma impassibilidade de faquir" ou "A maior parte deles seguia a representação numa imobilidade de faquir" (Uma Fazenda em África, págs. 65 e 365); "tinham a placidez ou a elevação de um faquir" (A Aluna Americana, p. 270).

          Outras vezes, entre dois elementos concretos: "de pernas cruzadas, como um faquir hindu" (A Aluna Americana, p. 73).

          Para depois avançar com comparações entre dois elementos abstratos: um colega de Carlos, da Universidade de Coimbra, falou-lhe "em surdina", "com o secretismo de quem revela um segredo de Estado" (Os Dias da Febre, p. 17) ou Henrique Lemos falou com Joana "em voz baixa, como se confidenciasse um segredo de Estado" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 73); "com a arrogância de um paxá de três caudas" (Uma Fazenda em África, p. 48) ou "mais ufano do que um paxá de três caudas" (Até ao Fim da Terra, p. 91).



 



          Ondas

 

          Uma das escritoras que exerce uma influência determinante em JPM é a inglesa Virginia Woolf, em particular o seu livro mais experimental, As Ondas, publicado em 1931, formado de solilóquios de meia dúzia de personagens (Bernard, Louis, Neviell, Jinny, Susan e Rhoda): "sentiu uma onda de contentamento a invadi-lo", "sentiu que uma onda de cálido reconhecimento o invadia" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 115, 214); "Bernardino sentiu uma onda de indignação", "Peter sentiu uma onda de admiração", "a onda de indignação que o enchera", Benedita fez crescer em Peter: "uma onda de desejo", "depois veio uma onda de interrogações", "a voz e o corpo de Benedita que lhe chegavam em estranhas ondas de desejo", "Ele observava a movimentação dela ao espelho e sentia outra vaga de desejo a crescer dentro de si" (Uma Fazenda em África, págs. 56, 106, 190, 232, 236, 242, 269); "foi submerso por uma onda de melancolia" (A Aluna Americana, p. 128); "fizera crescer dentro do seu peito uma onda de compaixão", "Constança sentiu-se a ser submersa numa onda de alegria" (Até ao Fim da Terra, págs. 87, 245); "Roberto sentiu uma onda de irritação a crescer dentro de si", "sentiu uma onda de indignação crescer dentro de si", Robert explica a Elvira que "tudo isso vem numa onda de grande raiva", e o rumor das pessoas que crescia "como uma onda a rebentar na praia" (Os Dias da Febre, págs. 70, 188, 249, 265); "Ao pensar nisso, vinha-lhe uma onda de arrependimento e de vergonha" (Vento de Espanha, p. 182); João "foi invadido por uma onda de tristeza" (O Prazer de Guiar, p. 108).

 



          G'anda Boia

 

          A simples composição de uma série de palavras colocadas meticulosamente na ordem adequada, de modo a criar um determinado campo metafórico, é um veículo poderoso da emoção do leitor, uma luz que lhe ilumina as redes neuronais do cérebro. Neste âmbito, são particularmente expressivas as comparações e metáforas ligadas à sobrevivência marítima, com recurso a objectos flutuantes, como as "boias de salvação".       Em A Aluna Americana, "José Duarte agarrou-se ao corpo dela com a sofreguidão e a intensidade de um náufrago que encontra uma boia" (p. 120); "O óbice é que eram, tanto um como o outro [Rui e Manuel], meras boias de salvação [para Isabel]" (p. 191); "Em Setembro, quase no fim do Verão, alguém lhe atirou uma boia de salvação" (p. 216); José Duarte, depois de saber que está com cancro, decide escrever um livro (altura em que se vê a si mesmo "como uma espécie de Mozart já enfermo a escrever febrilmente um requiem encomendado por si próprio") e isso era "a única boia que ainda o mantinha à tona" (p. 230).

 

          Em Até ao Fim da Terra, "o dinheiro de Maria Constança poderia ser uma boia de salvação" (p. 42) e "lançou uma pergunta como quem se agarra a uma última boia de esperança" (p. 106); em O Prazer de Guiar, "era apenas um dos muitos náufragos de tempos e espaços que já não existiam, e que todos os dias procuravam agarrar a boia de salvação salvadora de uma ilusão qualquer" (p. 11) e "isolada [Raquel] num sítio onde não conhecia ninguém era ele [João] a sua única boia de salvação" (p. 70); em Vento de Espanha, "as imagens que Lurdes tinha na cabeça eram um castigo acrescido mas também a sua boia de salvação" (p. 129); em Os Dias da Febre, a silhueta do prédio de três andares onde vivia aparecia-lhe "como uma boia de salvação para o mal e a angústia que o tomavam" (pp. 58-59) e "Carlos seguia atentamente tudo o que se dizia, em busca de uma carta de marear ou de uma boia de salvação naquele mar alteroso" (p. 98); e em Um de Nós Deve Lembrar-se, "Manuel agarrou-se àquela possibilidade como um náufrago a uma boia" (pp. 137-138) e a Luís Ashley tornara-se-lhe "intolerável ter de viver, dia após dia, naquela mágoa lenta e, no entanto, parecia agarrar-se a ela como um náufrago" (p. 160).



          As boias de salvação ocupam, claramente, um lugar de destaque na mente invulgar de JPM, tal como as "jangadas" e os "madeiros", por exemplo, quando n'A Aluna Americana, o narrador explica que, para José Duarte (professor da Faculdade de Letras de Lisboa), a História era "a sua bem testada jangada de náufrago" (p. 131), ou quando o protagonista, encostando a cabeça ao vidro de uma janela, sente que está "a viver um afogamento em que a pessoa se debate sem um madeiro a que se agarrar, e se afunda" (p. 211). A mesma situação vive-se em Uma Fazenda em África: "presa ao seu grito como um náufrago agarrado a um madeiro" (p. 12).

 

          O Tarrafal afectivo

 

          Há quem considere que as metáforas de JPM perderam todo o poder evocativo, e que a sua repetição é uma forma de poupar trabalho. Outros defendem que estas metáforas, como certas borrachas, estão gastas (por excesso de uso) e já perderam a sua força e eficácia.

          O que tais críticos esquecem é que JPM possui uma reserva de criatividade fabulosa, visível em imagens pegajosas, como estas: Etelvino "recostou-se na cadeira e cruzou as mãos sobre a barriga, como um abade satisfeito" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 171), dois escreventes "de dedos entrelaçados sobre as panças, como saciados abades em rica abadia" (Uma Fazenda em África, p. 26), "A sua cara cheia [do cocheiro], quase redonda, transmitia um ar de suavidade própria de um abade satisfeito com a vida" (Do Outro Lado do Mar, p. 178). Dentro de outro estilo, igualmente esfalfado, é a imagem do jovem Golias, o mais alto da família, que "continuou a crescer com a pujança de um pinheiro novo" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 54) ou esta, da qual dificilmente nos recompomos, que torna impossível confundir JPM com qualquer sósia de JPM: o "Tarrafal afectivo em que [Luís] caíra" após a morte de Helena (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 175).

          Senhor de um gosto literário apurado, como se viu, JPM reúne as características de dois tipos diferentes de romancistas. É como um duplex: por um lado, interessa-se pelo enredo, as personagens e a profundidade psicológica, por outro, gosta muito, mesmo muito, de brincar com as palavras.

          Nele, de resto, quando uma metáfora se repete muitas vezes torna-se num símbolo que activa um grande número de neurónios a partir de diferentes partes do cérebro do leitor, conferindo-lhe uma sensação de segurança: há tantas coisas a correr mal no mundo, tanta guerra e tanta violência, em tantas partes do planeta, as pessoas andam tão desanimadas e inquietas, que as comparações e as metáforas de JPM são um ponto de apoio necessário para enfrentar a incerteza, a desordem e o caos promovidos pela esquerda académica, pelos activistas woke e pelos fanáticos do SOS Racismo.

 




          À Deriva

 

          As personagens de JPM sentem-se perdidas e inseguras quanto ao seu rumo de vida. Estão famintas ou sedentas de encontrar um sentido e um propósito para as suas existências. Etelvino, ao perceber que Luísa, a mulher com quem casou, o detestava, sofre "uma ansiedade e uma frustração que lhe valeram muitos dias amargurados e muitas noites em claro, sem saber que rumo dar à sua vida" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 64); "Quando o cigarro começou a queimar-lhe os dedos, atirou-o para o chão e pisou-o, rodando repetidamente a ponta da alpercata para a esquerda e para a direita. Fê-lo com exasperação, como se naquele momento estivesse a pisar as suas decisões erradas e o estúpido rumo que dera à sua vida" (Vento de Espanha, p. 143); Isabel entra "em pânico sem saber que rumo tomar" (A Aluna Americana, p. 64); "uma vida sem rumo" (Haiti, p. 186); Maria Constança relê umas cartas na esperança de "que lhe indicassem um rumo a seguir" (Até ao Fim da Terra, p. 76) e em Um de Nós Deve Lembrar-se, João Pedro Simões "atravessava uma fase de indefinição sem saber que rumo dar à sua vida" (p. 51); Hernâni sente-se "completamente perdido, sem saber que novo rumo tomar" (p. 241); e Jaime "tinha dificuldade em encontrar rumo" (p. 96). Mutatis mutantis, Peter "procurava uma meta qualquer que pudesse dar sentido à sua existência" (Uma Fazenda em África, p. 80).

          O facto de as personagens, tantas vezes, não saberem o que pensar, sentir ou fazer é muitíssimo revelador da filosofia vital de JPM: o reconhecimento da incerteza e da hesitação como primeiro passo indispensável para se chegar à verdade de um ser humano (ou seja, aquilo que ele ignora de si próprio). Vejamos: em O Estranho Caso de Sebastião Moncada, o estalajadeiro Sátiro, "sem saber o que pensar, lançou-se em mexeriquices" (p. 15), Mateus "virou costas ao local sem saber o que pensar" (p. 63) e Golias "coçou a cabeça, sem saber o que concluir" (p. 218); em Uma Fazenda em África, Benedita "não sabia o que pensar daquilo que via" (p. 59) e, mais adiante, "foi tomada por sentimentos contraditórios e não soube o que sentir" (p. 252); em A Aluna Americana, Isabel "não sabia muito bem o que pensar ou sentir" (p. 80); em Até ao Fim da Terra, Januário sente-se atordoado, o que o deixava "sem saber o que fazer" (p. 55); em Os Dias da Febre, Robert está a porta de casa "sem saber ao certo o que pensar e fazer" (p. 74): em Do Outro Lado do Mar, Vasco fica imóvel, "sem saber o que sentir ou o que alegar" (p. 85), enquanto Josué se sente confuso, "sem saber exactamente o que pensar" (p. 136); em O Prazer de Guiar, Valentina "não sabia ao certo o que sentir ou o que pensar" (p. 129).

          A bem dizer, muitos deles têm tanto para dizer, que não sabem bem o que dizer, razão pela qual os livros de JPM são uma constante aproximação àquilo que não pode ser dito. Em Uma Fazenda em África, Benedita, surpreendida com a aparição de Kpengla, fica "sem saber muito bem o que dizer" (p. 146); Costa, ao ouvir aquilo de que o acusavam em tribunal, ficou "sem saber o que dizer" (p. 315); Bernardino, depois de perder as esperanças, percebendo que fora induzido em erro, "ficou sem saber o que dizer" (p. 321); "O médico ficou sem saber o que dizer" (p. 373); Leal "ficou sem saber o que dizer" (p. 383) e "Benedita sorriu sem saber o que dizer" (p. 431).

          Em A Aluna Americana, Isabel ficou "hesitante, sem saber ao certo o que pensar ou o que dizer" (p. 75); em Até ao Fim da Terra, João da Velha "ficou sem saber o que pensar e dizer" (p. 53) e Jacques ficou "sem saber o que dizer" (p. 94); em Haiti, Antoine ficou "sem saber o que dizer" (p. 103), tal como Joséphine, que ficou "sem saber o que e como dizer" (p. 239); finalmente, em Um de Nós Deve Lembrar-se, Dina "ficou sem saber o que dizer e o que pensar" (p. 190).

 


          O Mentalista

 

          Ninguém sabe que vozes tinham as pessoas do século XIX. Ninguém sabe, por exemplo, se D. Pedro e D. Miguel tinham uma voz fina ou forte, uma vozita terna ou de crooner, se carregavam nos "erres", se tinham uma voz profunda, ou áspera e rouca, como uma lixa grossa, se falavam à "sopinha de massa", com a língua interpondo-se entre os dentes. Fiel ao itinerário do rigor histórico, JPM evita descrever as inflexões da voz das personagens, preferindo transmitir a sua programação mental.

          Em O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Luísa "pediu mentalmente perdão pelos seus pecados" (p. 39), D. Pedro "absolveu-se mentalmente" (p. 131), Mateus "resignou-se e agradeceu mentalmente ao novo inquilino" (p. 178), o major Arrobas "desejou-lhe mentalmente toda a sorte do mundo" (p. 209) e Mateus, de novo, "agradeceu mentalmente" (p. 230).

          Em Uma Fazenda em África, Luz Soriano "preparou-se mentalmente" (p. 48), Benedita "agradeceu mentalmente a Bernardino", Benedita "foi fazendo mentalmente o caminho até à aldeia" (p. 198), Benedita "foi-se preparando mentalmente para o encontro com o governador" (p. 258), Bernardino, quando se sentia massacrado com a memória de Benedita, "pensava na fazenda e percorria-a mentalmente, casa a casa, pessoa a pessoa" (p. 265) e Eva "pediu-lhe [ao pai] mentalmente a bênção" (p. 278).

          Em A Aluna Americana, "Ela desejava-lhe mentalmente toda a sorte do mundo" (p. 90), "José Duarte agradeceu mentalmente" (p. 110), o mesmo José Duarte "agradeceu mentalmente a Bóreas, o deus do vento norte" (p. 124).

          Em Até ao Fim da Terra, Bento Calheiros "pediu mentalmente a Deus que os poupasse" (p. 29). Mais adiante, o mesmo Bento Calheiros "pensou em Florencia e comoveu-se enquanto pedia mentalmente a Deus que a protegesse" (p. 232).

          Em O Prazer de Guiar, Valentina "procurava mentalmente algo ou alguém que a pudesse ajudá-la" (p. 81), Raquel, mulher exigente e de poucas palavras, "foi-se preparando mentalmente para a discussão que por aí vinha" e João "repetiu mentalmente essa ideia" (p. 109).

          Em Vento de Espanha, "Custódio passou todo o caminho a ensaiar mentalmente um pedido de namoro" (p. 88), Custódio "agradeceu mentalmente a Lurdes e à praia de Algés" (p. 185) e Custódio "atreveu-se a pedir mentalmente a Deus que lhe perdoasse os pecados" (p. 188).

          Em Haiti, Léger-Felicité decidiu que "era tempo de percorrer mentalmente os últimos meses da sua vida" (p. 174), em Os Dias da Febre, Elvira surpreendeu-se "evocando mentalmente o sossego de Vila Real" (p. 139) e Robert deixou-se ficar "a preparar-se mentalmente para um momento trágico" (p. 278).

          Em Um de Nós Deve Lembrar-se, Manuel "pediu mentalmente ajuda ao seu adorado Brel" (p. 134), Rita "sussurrou, mentalmente, um melancólico 'volto já'" (p. 143), Teresa "desejou-lhe mentalmente boa sorte" (p. 204), Hernâni "acrescentou mentalmente quando cruzou o olhar" (p. 237) e Hernâni "arrependeu-se do seu mau feitio e pediu mentalmente desculpa à ex-namorada" (p. 240).

 

          Por razões desconhecidas

         

          Na verdade, o cérebro tem razões que a própria razão desconhece. Em O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Mateus atraía muitas mulheres "por uma qualquer razão acima da sua capacidade de compreensão" (p. 26) e "sem razão aparente veio-lhe [ao juiz Etelvino] à memória" um velho relatório (p. 328). Em Uma Fazenda em África, o alemão Peter von Sternberg sentia-se perto de Deus "por qualquer razão que não sabia precisar" (p. 130). Na página 80 d'A Aluna Americana, Isabel, "por qualquer obscura razão pensou" uma coisa qualquer, depois, no capítulo 18, à mesma Isabel, "sem saber exactamente por que razão, apeteceu-lhe ouvir Joan of Arc, uma das mais recentes músicas de Leonard Cohen" (p. 258).

          Em Até ao Fim da Terra, Januário verificou que, "por razões insondáveis" (p. 55), os acontecimentos dramáticos se tinham precipitado uns sobre os outros. Em Os Dias da Febre, Elvira, por uma fresta da carruagem, observa os cegos da Calçada de Santana (Lisboa), à espera de esmolas e, "por qualquer razão que não entendia", sente pena deles (p. 8), tal como Robert, mais à frente, "por qualquer razão que não entendia", sente que Lisboa é a cidade onde quer criar raízes (p. 77), e, no capítulo 10, o inglês leva Elvira para o quarto, despe-a e, simultaneamente, pensa, "por qualquer razão que lhe escapava", que o corpo da amante continuava a ser um mistério para si (p. 217).

          Em Haiti, os cultivadores negros ajudam Joséphine "por qualquer razão que ignorava" (p. 226). Em Vento de Espanha, o amor de Lurdes por Custódio "ia crescendo sem que ela percebesse exactamente por que razão" (p. 89). Em O Prazer de Guiar, Raquel "não sabia exactamente por que razão pedira a João que parasse ali" (p. 59) e Valentina, "por qualquer razão que lhe escapava", sentiu alguma coisa (p. 130).

 

          Sabe-se lá porquê

 

          Com certa frequência, os seres humanos desconhecem o como e o porquê das coisas, e as personagens de JPM muito menos: Luísa "sem saber como nem porquê, achou que sempre conhecera aquele homem" e Mateus, "sem saber porquê pensou em Sebastião Moncada" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 45 e 302); Peter acordava todas as manhãs com vontade de se mexer, "sem saber para onde nem porquê", Kpengla, "sem saber exactamente como nem porquê", deixou de dar sentido à guerra" e Benedita "às vezes chorava convulsivamente sem saber exactamente porquê" (Uma Fazenda em África, págs. 77, 171, 429); Isabel "sorria sem saber exactamente porquê" (A Aluna Americana, p. 50); uma noite, Francisco Ortega procurou Florencia no quarto e "sem saber porquê ela cedeu à pressão" (Até ao Fim da Terra, p. 147); "sem que se percebesse bem porquê", a epidemia de febre amarela saltava por cima de várias casas e ia abater-se sobre outras, e Elvira, "sem que soubesse bem como ou porquê", sentia a sua dor atenuar quando pintava paisagens (Os Dias da Febre, págs. 96 e 122); Maria del Carmen, "sem saber bem porquê", disse que sim (Vento de Espanha, p. 246); "Sem saber como nem porquê, Bartolo começou a mover-se mais depressa" (Haiti, p. 57); Quisana, "sem saber porquê, lembrou-se" das sandálias da tia Nupe, enquanto Tarquínio Torcato, "sem saber como nem porquê", sentia que a presença de Sara lhe atenuava e dissolvia a sua profunda solidão, ao passo que o padre Inocêncio, "sem saber exactamente porquê, sentiu de forma confusa que Santa Bárbara e o orixá se tinham tornado numa e na mesma coisa" (Do Outro Lado do Mar, págs. 61, 235, 241); Raquel, "estranhamente, deu por si a cantarolar, sem saber porquê", e Valentina viu-se perante um acontecimento carregado de importantes consequências, "ainda que não soubesse dizer exactamente quais e porquê" (O Prazer de Guiar, págs. 61 e 131); por fim, Isabel Oliveira "apaixonara-se perdidamente por ele [Pedro], achara-o fascinante, não sabia exactamente porquê" (Um de Nós Deve Lembrar-se, 121).

          Exemplos como estes, escrupulosamente coligidos nestes romances, há-os em saldo em todos os livros de JPM, e servem para dar contexto às exigências intelectuais do romancista. Crítico da falsa sabedoria daqueles que acham que sabem tudo, JPM sabe que esse é o tipo mais perigoso de ignorância, ou seja, aquele que se mascara de certeza absoluta. Daí que a postura das suas personagens assente no famoso método socrático: reconhecem que pouco ou nada sabem e, libertando-se dos seus dogmas, abrem-se à insustentável leveza do ser. Em Os Dias da Febre, Carlos vê-se "forçado a reconhecer que havia qualquer coisa que não sabia precisar com exactidão" (p. 30) e Robert sente que há "qualquer coisa de profundamente conhecido e desejável naquela mulher [Elvira] que ele não sabia identificar com precisão" (p. 164). Em Haiti, Toussaint lembrou-se que começou a mudar de opinião no Verão de 1793, "não sabia precisar quando nem porquê" (p. 192). E em Até ao Fim da Terra, Bento tinha "uma dor no peito e um novelo de sentimentos que não sabia identificar com clareza" (p. 19).

          Em boa lógica, estas personagens tendem a ignorar uma enorme quantidade de coisas. Em Uma Fazenda em África, D. Nicolau de Água Rosada, "parecia não saber ao certo o que fazia ali" (p. 221); Peter abriu os braços "como se não soubesse explicar aquele mistério" (p. 233); Benedita surpreendeu-se com as suas próprias frases de aventureira sabida "vindas não sabia de onde e formadas não sabia como" (p. 247); e Peter sempre suspeitara que fora para África porque "andava em busca de qualquer coisa que não sabia explicar nem definir" (p. 405).

          Em A Aluna Americana, Isabel sentiu que "havia dentro de si uma inquietação que não sabia situar em apaziguar" (p. 286), em Até ao Fim da Terra, Bento culpabiliza-se de forma obsessiva, "a tal ponto o fazia que murchou com uma tristeza obscura e escavada cuja profundidade nem ele próprio conhecia" (p. 21), em Os Dias da Febre, Robert apaixonou-se por Catarina "sem saber precisamente como, nem quando" (p. 85), em Vento de Espanha, Custódio sente que na estranha mulher que vivia no fundo do vale havia "qualquer coisa que ele não sabia nomear nem apontar, talvez fosse um prenúncio de morte" (p. 7) e o mesmo Custódio, em terras espanholas, "sem saber como, deu por si com a espingarda na mão" (p. 177), em Do Outro Lado do Mar, Vasco Lacerda, "sem saber bem como, deu por si a bater com os nós dos dedos no tecto da traquitana" (p. 7), e em Haiti, Honoré foi "buscar forças não sabia onde" (p. 227).

          A atmosfera destes livros tem uma discreta vida própria. Neles flutua uma aura hermética, um halo misterioso. De facto, e com efeito, as personagens levam dentro enigmas impenetráveis: "num tom enigmático" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 185); "teimou o professor, enigmático" (Uma Fazenda em África, p. 20); "enigmáticas casas de madeira" (Até ao Fim da Terra, p. 187); "sorriso enigmático", "com ar enigmático", "pensativa e enigmática", "sorriso enigmático", "Emília fez um sorriso enigmático" (Os Dias da Febre, págs. 73, 93, 139, 229, 294); "sorrisinho enigmático", Vasco "sorriu enigmaticamente", "imobilidade enigmática", "Gaspar fez um sorriso enigmático" (Do Outro Lado do Mar, págs. 84, 207, 260, 348).

 



          Há mar e mar

 

          Daí a busca de uma orientação, uma luz, um farol, uma bússola (JPM é uma autoridade viva em instrumentos de auxílio à navegação, diz-se até que o seu apartamento de septuagenário é um autêntico museu de miniaturas de faróis, bússolas, sextantes, boias, sinais de nevoeiro, etc.).

          Os romances de JPM são um caso apaixonante de transposição figurativa entre autor e personagens. Quer dizer, os nacos mais saborosos da sua obra podem ser lidos como fragmentos de autobiografia: Mateus em O Estranho Caso de Sebastião Moncada, que "tinha no cumprimento do dever a bússola orientadora da sua vida" (p. 24) ao mesmo tempo que Sebastião Moncada se tornara, para ele, "um farol na sua conduta e na sua vida" (p. 302); como Benedita em Uma Fazenda em África, que "necessitava desesperadamente de encontrar um destino e uma luz que a guiasse" (p. 214); como Pedro em Os Dias da Febre, que se sente "desterrado e sem bússola" (p. 43), ou Roberto, para quem "uma parte daquele mundo, porém, ficara dentro de si como uma espécie de bússola moral" (p. 82); ou como Valentina, em O Prazer de Guiar, que "ficava sem bússola" quando as regras e regulamentos, a lógica e as equações não existiam (p. 81).

          A ausência de rumo, ou indecisão quando ao sentido de orientação, faz com que anseiem um "bom porto", ou um "porto de abrigo", a que se possam dirigir. Estas expressões, que reaparecem frequentemente nos romances de JPM, representam outra imagem típica deste artista. Em O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Luísa "fechou os olhos, abandonou-se aos beijos e carícias dele [Mateus] e sentiu-se leve e aliviada, como um marinheiro que escapa à tempestade e chega a bom porto" (p. 41); Etelvino "encontrara noutras mulheres a sua satisfação, o seu porto de abrigo" (p. 64); Mateus era, para Luísa, "o seu porto de abrigo, a pessoa em quem mais confiava, a única com quem se sentia bem" (p. 83).

          Passando a Uma Aluna Americana, "José Duarte sentia-se como um navegante que chegara a bom porto" (p. 173); Isabel "habituara-se a pensar que teria sempre nele [José Duarte] um porto de abrigo", tal como se "habituara a sentir que teria sempre nele uma âncora" (p. 260), o mesmo acontecendo exactamente na página 286, pois Isabel "habituara-se a ter em José Duarte um porto de abrigo".

          Em Vento de Espanha, o quinto romance de JPM, a protagonista (Lurdes), depois de começar a namorar com Custódio, sente "pela primeira vez desde há muito tempo que tinha a retaguarda protegida, um amigo, um porto de abrigo" (p. 89). Em Haiti, depois de embarcar no Télémaque, em direcção a França, Joséphine sente que nada nem ninguém lhe conseguiriam quebrar "o ânimo e a esperança de chegar finalmente a bom porto" (p. 243). Em Do Outro Lado do Mar, enquanto tem as mãos de Sara nas suas, Vasco sente "uma paz interior e a sensação de ter chegado finalmente a bom porto" (p. 198), e Gaspar, quando está a trabalhar na fábrica, nunca se esquece que "os seus únicos portos de abrigo eram os domingos e os feriados" (p. 277).

          O imaginário dos ambientes marítimos serve como projecção da alma das personagens e põe em marcha inúmeras associações de ideias, onde JPM alcança o nível da mais alta literatura. Exemplos? Nada mais fácil: n'O Estranho Caso de Sebastião Moncada, quando o narrador nos revela que as "leis e os sentimentos" são "as únicas âncoras da sua [Mateus Vilaverde] existência" (p. 23); em Uma Fazenda em África, quando ficamos a saber que as cartas de Peter para Benedita são as "âncoras que a prendiam à vida" (p. 196); em Vento de Espanha, quando se afirma que, "sem as mulheres, os homens velhos perdiam as âncoras das suas vidas e ficavam como barcos sem leme num mar imenso" (p. 73), e que os ossos do tio Alcides e da tia Alexandrina, na campa do cemitério, juntamente com o filho, eram "as mais fortes âncoras afectivas da sua vida [Lurdes]" (p. 323); em Haiti, quando JPM nos explica que, apesar de não simpatizar com o cunhado, Honoré considerava-o "a sua ligação mais próxima da França e poderia ser a sua âncora" (p. 184); n'A Aluna Americana, Isabel "habituara-se a sentir que teria sempre nele [José Duarte] uma âncora" (p. 260); e em Do Outro Lado do Mar, quando Tarquínio Torcato diz a si próprio que, "longe do navio e do cheiro salgado das ondas, perdia um pouco da sua proa e da sua âncora" (p. 235).

          Mas os livros de JPM são um mundo complexo, um sistema de forças opostas, que englobam uma tendência e o seu contrário, com as personagens lutando contra si próprias: "para remar contra a maré" (A Aluna Americana, p. 126), "sabia que estava a remar contra a maré" (Os Dias da Febre, p. 94), Vasco "sabia que estava a remar contra a maré" (Do Outro Lado do Mar, p. 138), até que Elvira sente "alívio por ter parado de remar contra a maré" (Os Dias da Febre, p. 258) e Lurdes "havia de arranjar forma de lhe [ao companheiro Custódio] pôr a cabeça a remar para o mesmo sítio" (Vento de Espanha, p. 90).

 

          JPM no seu labirinto

 

          Os romances de JPM são ainda uma denúncia do labirinto da experiência social na contemporaneidade: "ela ficou num labirinto" (A Aluna Americana, p. 84) e "a vida era um labirinto" (A Aluna Americana, p. 259), "seria ela capaz de iludir esse Minotauro no seu próprio labirinto?" (Os Dias da Febre, p. 123) e "a senhora do livro fica perdida num labirinto de desgostos e de remorsos" (Os Dias da Febre, p. 238).

 



          Um tecto só para mim

 

          Um pouco egocêntricas, um pouco inseguras, as personagens denotam falta de vitalidade. Olham para o tecto, caladas. Ficam de cara voltada para cima, com a sensação de já não conseguirem espremer nada das palavras. Ali, paradas, esperando, apenas olhando meditativamente para o tecto, com os olhos erguidos na direcção do estuque (como tema de meditação, há coisas mais desagradáveis).

          É muito interessante observar a forma como JPM representa esse tipo de situação: o olhar de Sebastião Moncada "demorou-se nos travejamentos do tecto" (p. 12), D. Pedro "correu os seus grandes olhos castanhos, brilhantes, pelo tecto em busca de uma emoção positiva que o ancorasse ali um pouco mais" (p. 131), Joaquina "invocou a Virgem Maria com os olhos muito abertos, aterrados, pregados no tecto" (p. 143) Mateus Vilaverde, "quando voltou a abrir os olhos, vagarosamente, já havia luz no quarto e ele fixou um tecto desconhecido, cruzado por traves de madeira escura e tosca, e deixou-se pairar durante alguns minutos numa modorra cálida", levando-o a perguntar "que tecto seria aquele que o cobria?" (p. 165), o padre Guilherme repetiu, "de olhos postos no tecto" (p. 251) e o padre Guilherme "pôs os olhos no tecto, desarmado" (p. 252) (O Estranho Caso de Sebastião Moncada).

          Em JPM, as personagens não se mexem na cama, não dizem nada, não lêem nada, não se levantam para ir à casa de banho, não trocam de roupa. Olham fixamente o tecto. Só olham para o tecto. Passam o dia a olhar para o tecto. Com o olhar perdido, talvez de pernas cruzadas (alguns continuam lá deitados até hoje): "Nessa noite Peter ficou alguns minutos deitado na cama a olhar o tecto escuro" (p. 98), "O governador fitou o tecto" (p. 115), Bernardino "limitara-se a ficar deitado no beliche a escutar os estalidos da maneira e a ver as aranhas a passear no travejamento do navio" (p. 264) (Uma Fazenda em África).

          Fixar o tecto parece, em si mesmo, um objectivo de vida: José Duarte "de olhos abertos cravados na escuridão do tecto, apesar de ter tomado dois comprimidos para dormir" (p. 39), e José Duarte, como se estivesse prestes a agarrar-se ao candeeiro do tecto, como Tarzan a uma liana, "permaneceu absolutamente silencioso e imóvel, com os olhos fixos no candeeiro do tecto" (p. 47) (A Aluna Americana); "Maria Constança ergueu os olhos e ficou incrédula, a olhar para o tecto" (p. 174) e "Ficou deitado na cama, de olhos fixos no tecto negro" (p. 241) (Até ao Fim da Terra); Valentina "ficou imóvel, de braços ao longo do corpo, a contemplar o tecto. Não sabia o que pensar de tudo o que lhe estava a acontecer" (O Prazer de Guiar, p. 139); Gervásio "ficou para ali a olhar o tecto com o ar perdido e assustado de quem não sabia qual o caminho a seguir" (p. 61), Custódio "ficou, por momentos, a olhar para o tecto" (p. 109), Custódio "ficou deitado na cama, (...) a olhar fixamente para cima, para o branco escuro e vazio do tecto" (p. 110), Lurdes sentou-se "com o olhar perdido na parede" (p. 200) (Vento de Espanha); Honoré "deitado de costas, (...) olhos fixos no tecto" (Haiti, p. 132), Robert "ficou calado, a olhar para o tecto" (Os Dias da Febre, pp. 246-247), Gaspar "ficou a olhar para o tecto de palha da cabana, a pensar no que aquele sonho tentara dizer-lhe" (Do Outro Lado do Mar, p. 309) e "Papi entreteve-se a observar [...] a sonolenta ventoinha do tecto" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 258).

 

          Autor-Viagra

 

          Em JPM, estamos perante uma ficção voltada para a impotência, uma ficção que vive da distância entre o que se consegue e o que não se consegue. As suas personagens são personagens que vivem da sua própria impotência em se tornarem personagens. Impotência entendida como incapacidade de pôr em prática os seus sonhos num mundo de tigres e chacais, uma sociedade em que o espaço de concorrência é cada vez mais estreito, JPM constrói uma galeria de personagens incapazes de agir e que, por isso mesmo, exprimem uma condição comum do mundo hodierno.

          Por outro lado, o apelo da plenitude e da harmonia nasce da impotência. Poder-se-ia dizer então que, em JPM, a harmonia surge como superação da impotência ou a impotência como exigência de harmonia?

          Tanto a "radicalização da consciência" (torturar as meninges torna-nos mais inclinados à indolência do que à acção), como a "radicalização da dúvida" (levadas ao extremo, a hesitação, a incerteza e a insegurança tornam-nos seres passivos e impotentes faces ao poder corrosivo do pensamento), como acontece em certas obras de Shakespeare (Hamlet), Camus (O Mito de Sísifo) ou Melville (Bartleby, o Escrivão).

          A esta lista de figuras "impotentes" ou "indiferentes" será preciso acrescentar as personagens de O Estranho Caso de Sebastião Moncada (p. 19: "Abriu os braços num misto de impotência e de ignorância"; p. 51: "abrindo os braços numa impotência"; p. 52: Mateus "soltou a mão logo que pôde, abriu uma braços num gesto de impotência"; p. 143: o "veredicto ressoou com um troar de impotência" e "um silêncio assustado e impotente"; Mateus "abriu os braços num gesto de impotência" (p. 202); p. 243: "olhos mudos e impotentes"; p. 293: "explicou Barbacena, com um gesto de impotência"; p. 311: Mateus "fez um gesto de impotência"), de Uma Fazenda em África (p. 88: "fazendo um gesto de desolada impotência"; p. 101: "com um misto de impotência e de pena"; p. 121: "desolado e impotente"; p. 358: "O advogado fez um mortiço gesto de impotência"; p. 226: "Soriano fez um gesto de impotência"; p. 261: "Leal arqueou as sobrancelhas, numa expressão de impotência"; p. 355: "amolecido e impotente"), de Haiti (p. 103: "um gesto largo, de impotência e de raiva"; p. 139: "Sonthonax abriu os braços, numa atitude de impotência"), de Os Dias da Febre (p. 47: "acomodando-se à sua poltrona e à sua impotência"; p. 57: "abrindo os braços numa pose de resignada impotência"), de A Aluna Americana (p. 17: Rui Monteiro, o marido de Isabel, abriu "os braços num gesto de impotência"), de Até ao Fim da Terra (p. 93: "Jacques abriu os braços, numa atitude de impotência"; p. 132: "amargo sentimento de tristeza e de impotência"; p. 198: "impotente e mole como um trapo"; p. 228: Bento Calheiros sentiu-se "impotente e desesperado"), de Vento de Espanha (p. 157: "O alferes abriu os braços, num gesto de cínica impotência"; p. 166: "mãos de indignação e de impotência"; p. 171: "as mãos tremiam-lhe de ansiedade e de impotência"; p. 204: "abriu os braços de impotência e impaciência") e de Um de Nós Deve Lembrar-se (p. 21: Luís "abriu os braços num gesto de resignação"; p. 163: Helena "abriu os braços num gesto de impotência ou de indiferença").

 

          Até à eternidade

 

          Nas aulas do liceu aprendia-se, quando líamos Eurico, o Presbítero, de Herculano, o que era a noção de "tempo subjectivo". Muito mais do que no século VIII (e nas invasões árabes), a professora centrava-se na vivência psicológica das personagens, em particular na célebre frase de Eurico: "Sabes tu, Hermengarda, o que é passar dez anos amarrado ao próprio cadáver?".

          O tempo é uma grande narrativa criada pelo cérebro de cada ser humano. O cérebro reconstrói o passado e imagina o futuro, cria texturas temporais e dota-as de um sentido de coexistência de vários tempos no mesmo tempo. A expressão "25.ª hora" (a hora em que é demasiado tarde para se ser salvo, segundo C. Virgil Gheorghiu) corporiza essa ideia de uma alucinação dentro de outra alucinação, dentro de outra alucinação, e por aí fora.

          Dentro dos romances de JPM, a expansão do universo tanto acelera como parece filmada em câmara lenta, enquanto o mundo muda à sua volta, o tempo no interior dos livros de JPM avança com dificuldade, arrasta-se com a lentidão de um caracol que vai deixando a sua baba no espírito dos leitores.

          De resto, nos romances de JPM nota-se uma ausência de tempo, as personagens vêem-se de repente num estado intemporal e imutável, onde o conceito de "passagem" deixa de existir. Em O Estranho Caso de Sebastião Moncada, "Os dias eternizavam-se, custavam a passar" (p. 82); "Passado um minuto, que lhe pareceu uma eternidade" (p. 145), "O percurso até ao Arsenal pareceu-lhe uma eternidade" (p. 242), "Esteve ali uma eternidade, ou assim lhe pareceu" (p. 261), "aquele pesadelo durou dois ou três minutos, que pareceram séculos" (p. 284).

          Em Uma Fazenda em África, as personagens voltam a perder a noção do preço do tempo: "o seu perpétuo sentimento de abandono" (p. 24), o cheiro acre dos corpos "ficava eternamente a pairar" (p. 54), "a eterna dança da sobrevivência" (p. 83), "uma amizade eterna" (p. 140), os dias iriam ser verdadeiras eternidades" (p. 244), as frases sussurradas entre si "pareceram-lhe uma insuportável eternidade" (p. 291), "passaram-se dez minutos que lhe pareceram uma eternidade" (p. 294), "Ao fim de três dias de detenção que lhe pareceram uma torturante eternidade" (p. 417).

          Em A Aluna Americana, "estiveram assim segundos que pareceram a José Duarte uma eternidade" (p. 178), "aquela vila [Ericeira] era eterna" (p. 223), em O Prazer de Guiar, "Demorou uma eternidade a fazer o luto" (p. 97), em Vento de Espanha, "correram durante uma eternidade" (p. 101), "isso demorava uma eternidade" (p. 293), em Haiti, "demoraram uma eternidade a chegar" (p. 185), em Do Outro Lado do Mar, "arrastavam-se numa eternidade erma" (p. 11). Mas, sobretudo, em Os Dias da Febre, o boato "podia levar eternidades a passar" (p. 94), "Os dias seguintes demoraram eternidades a passar" (p. 125), "demorou uma eternidade até chegar junto a ela" (p. 205), "Uma eternidade? – riu-se ela. – Passaram-se apenas alguns dias" (p. 259), "a viagem de burro demorou uma eternidade – ou assim lhe pareceu" (p. 265), "Passados vinte minutos – que lhe pareceram uma dilacerante eternidade" (p. 277).

          No húmus literário e retórico de JPM, tudo é eterno: "o eterno Don Partridge" (p. 266), "do seu eterno casaquinho cinzento" (p. 222), "quero ser uma eterna adolescente", diz Isabel (p. 158) (A Aluna Americana); Raquel diz que João é um "eterno adolescente" (O Prazer de Guiar, p. 113); a "tua eterna Francisca" (p. 128), o "eterno arauto" (p. 183), "a tua eterna Luísa" (p. 195) (O Estranho Caso de Sebastião Moncada); "a eterna babá" (p. 155); p. 174: "o seu eterno sorriso" (p. 174); p. 251: "eterna Elvira" (p. 251); "o eterno problema de ter um crânio com excesso de sexo" (p. 166), "o coração nunca se mantinha eternamente desocupado" (p. 195), "a eterna vida de faz de conta" (p. 279) (Um de Nós Deve Lembrar-se).

          Eterno ou infinito: "infinito cuidado" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 16); "sentiu uma pena infinita" (p. 43), "com infinita ternura" (p. 91), "aflição infinita" (p. 95), "um tempo infindo" (p. 152), "o seu peito dilatava-se e a sua imaginação perdia-se no infinito" (p. 217), "uma tristeza infinita" (p. 278) (Uma Fazenda em África); "orgulho infinito" (p. 120), "infinita paciência" (p. 238), "uma saudade infinita" (p. 314) (Os Dias da Febre); "paciência infinita" (Do Outro Lado do Mar, p. 168); "infinita bondade" (Vento de Espanha, p. 208). Ou, o que revela uma importante evolução técnica: um "infindável pesadelo" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 26).

 



          Bichos de conta (ou Porquinhos-de-Santo-António)

 

          A percepção distorcida do tempo, em que este abranda drasticamente, tornando-se pesado, estagnado ou bloqueado é outra característica de quem sofre de depressão profunda. Tal "encolhimento", ou "retraimento envergonhado", é um mecanismo de defesa inconsciente, funciona como uma resposta psicomotora contra o sofrimento e a ansiedade.

          A metáfora do bicho-de-conta (ou da posição fetal) é tão bem escolhida que basta lê-la para nos escolhermos ou dobrarmos sobre nós próprios. Vejamos alguns exemplos, que se sobrepõem, de maneira incoercível, às personagens: Isabel "sentou-se num dos degraus da entrada e chorou convulsivamente, dobrada sobre si própria como um bicho-de-conta" (p. 88), um rapazinho "todo encolhido em posição fetal" (p. 188) (A Aluna Americana); uma menina "encaracolara-se no chão junto ao altar, como se fosse um bicho-de-conta" (p. 102), um mulato "dobrou-se sobre si próprio" (p. 196) (Haiti); "estava tão alheado, tão enrolado dentro de si próprio" (p. 176), um homem "berrava dobrado sobre si próprio" (p. 171), Lurdes "deitada de lado, dobrada sobre si própria como um bicho-de-conta" (p. 266), um sem-abrigo dormia "dobrado sobre si próprio" (p. 297) (Vento de Espanha); Pedro "deitava-se de lado, encolhido como um feto" (p. 43), um cocheiro "dobrado sobre si próprio" (p. 183) (Os Dias da Febre); uma criada "dobrada sobre si própria" (p. 327) (O Estranho Caso de Sebastião Moncada); uma negra "dobrou-se sobre si própria" (p. 51), o companheiro do escravo que conduz a carroça onde viaja Vasco Lacerda "estava dobrado sobre si próprio" (p. 194) (Do Outro Lado do Mar); XYZ estava "dobrado sobre si próprio" (p. 229), "curvado sobre si próprio" (p. 269) (Um de Nós Deve Lembrar-se).

 

          Uma cadeira no Técnico

 

          Os pacientes com depressão grave tendem a movimentar-se de forma rígida, artificial ou mecânica (este fenómeno é denominado pelos especialista como "retardamento psicomotor): quando Mateus conversa com Otília, uma prostituta, "as perguntas saíam-lhe da boca de uma forma mecânica" (p. 62), um homem "repetia de forma mecânica", "respondeu Mateus, mecanicamente" (p. 244) (O Estranho Caso de Sebastião Moncada); Joaquim Baptista Moreira, cônsul em Pernambuco, "respondeu mecanicamente" (p. 20), Benedita "respondeu mecanicamente" a Bernardino" (p. 51), Benedita "pegou maquinalmente na chávena" (p. 192), Benedita "obedeceu mecanicamente" (p. 207), "os dedos iam fazendo mecanicamente o seu trabalho de limpeza" (p. 216) (Uma Fazendo em África); José Duarte fumou o cigarro até ao filtro e "apagou-o de forma mecânica no cinzeiro" (A Aluna Americana, p. 122); Massena "preencheu o cabeçalho da carta de maneira quase mecânica" (p. 9), o capitão Bento Calheiros "pôs o sabre entre os joelhos e pegou na pedra de amolar para lhe afiar a lâmina de aço. Fê-lo mecanicamente" (p. 24), João da Velha benzeu-se "de uma forma mecânica" (p. 50), a velha "repetia mecanicamente" (p. 132) (Até ao Fim da Terra); Lurdes levantou-se "de forma resignada, quase mecânica" (p. 53), "executar os gestos requeridos de uma forma mecânica" (p. 161) (Vento de Espanha); "digitou mecanicamente o endereço de destino" (O Prazer de Guiar, p. 9); "respondeu o outro maquinalmente" (p. 26), "perguntou Carlos, mecanicamente" (p. 33), "apregoou a voz mecânica" [de um cauteleiro] (p. 58), "disse Robert, mecanicamente (p. 251) (Os Dias da Febre); "ele entrou mecanicamente" (p. 213), Gaspar deixava "que os braços e mãos continuassem a fazer o seu serviço, mecanicamente" (p. 277) (Do Outro Lado do Mar); "sentada na cama, Ema folheou mecanicamente o jornal" (p. 14), "a frieza mecânica daquelas senhoras" (p. 172), Dina disse a Luís que lhe telefonaria, mas fê-lo "de uma forma inteiramente mecânica" (p. 191), (Um de Nós Deve Lembrar-se).

 



          Olh'ó robot

 

          As personagens que sofrem de depressão grave ou profunda quase nunca se assustam com os ruídos, quase nunca sorriem, quase nunca mudam de postura, os olhos tendem a fixar-se no vazio (vide "patologia do tecto"). Comportarem-se como robôs ou como autómatos é uma das comparações e descrições mais frequentes, e inscrevem JPM na tradição da literatura do absurdo ou mesmo de Franz Kafka.

          Exteriormente, parecem funcionais, mas interiormente sentem-se vazios, embotados, desligados ou distanciados de tudo: "Leal obedeceu como um autómato" (Uma Fazenda em África, p. 402); "foi como um autómato pelo corredor até ao carro" (p. 39), José senta-se junto à cama da irmã, no hospital, "como se fosse um autómato" (p. 106) (A Aluna Americana); Custódio "foi como um autómato até à parada" (p. 176) e Vorobiov "foi como um autómato pelo apertado corredor" (p. 235) (Vento de Espanha).





          Estátuas     

 

         Vistas de ângulos diferentes ou apenas em diferentes circunstâncias, as personagens de JPM parecem petrificadas ou aparecem especadas e impassíveis como estátuas: Bernardino "ficou imóvel, como uma estátua" (p. 62), "imóveis como estátuas derrubadas" (p. 167), "com um gesto de mãos que esculpia estátuas" (p. 228), "Pascoal imobilizou-se como se uma pedra tivesse tombado bruscamente no seu coração" (p. 340) (Uma Fazenda em África); "Laforêt, porém, permanecia estático, como se fosse de pedra" (Até ao Fim da Terra, p. 196); Custódio Moreira passou longas horas "numa imobilidade de estátua" (Vento de Espanha, p. 7); velha negra "estava imóvel como uma estátua" (p. 56); p. 132: Honoré "como uma estátua jacente" (p. 132) (Haiti); João Lobo de Sabrosa com "os olhos fixos e vazados, como os olhos das estátuas" (Os Dias da Febre, p. 34); "numa impassibilidade de mármore" (Do Outro Lado do Mar, p. 157).

 


          Velocidades estonteantes

 

          Como o mundo de JPM assenta num jogo de forças contrárias, ou numa espécie de loucura circular, as personagens oscilam entre posições opostas, com a lentidão e a rapidez sucedendo-se intermitentemente. Em súbitos mas significativos momentos, elas podem alcançar tranquilamente uma velocidade "estonteante": "gatinhou numa velocidade alucinante e desesperada", Bernardino devorava "o presunto com uma velocidade estonteante", tudo na vida de Benedita "mudara a uma velocidade estonteante", "o leão correu a uma velocidade estonteante", Bernardino imaginava-se com uma roda grande de ralar mandioca, "daquelas com rodetes dentados de ferro, movidas por mulas e que rodavam em velocidades estonteantes" (Uma Fazenda em África, págs. 12, 19, 55, 112, 178, respectivamente), "percorreu a marginal até Paço de Arcos numa velocidade estonteante" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 188).

          Inquietante: "As coisas complicavam-se a uma velocidade inquietante" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 244) ou até mesmo vertiginosa: "Um elefante macho aproximou-se de Peter Sternberg "a uma velocidade vertiginosa" (Uma Fazenda em África, p. 87) e Custódio "devorou as letras e as linhas a uma velocidade vertiginosa" (Vento de Espanha, p. 109).

          A velocidade de um tiro pode ser considerada estonteante, sobretudo para quem olha do lado de lá da mira da pistola ou da espingarda: Kpengla "respondeu com a prontidão de um tiro" e "o cavaleiro já entrava como uma bala no terreiro" (Uma Fazendo em África, págs. 162 e 373); "o cão entrou na pequena clareira como uma bala" (Do Outro Lado do Mar, p. 291).

 

          Seta despedida

 

          Quando comparadas com as armas de fogo, as setas ou as flechas são muito mais lentas. As imagens que se seguem – imagens fortes – dão um sentido de movimento e fazem o imaginário trabalhar: "O cavalo do governador corria como uma seta" (Uma Fazenda em África, p. 372); "ele ergueu-se de dentes cerrados (...) e saiu como uma seta" e Custódio "avançou como uma flecha para o patrão" (Vento de Espanha, págs. 49 e 112), "rápido como uma seta, Gaspar puxou o braço atrás para lhe vibrar uma catanada" (Do Outro Lado do Mar, p. 307); "O Porsche vermelho passou por ele como uma seta" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 35).

 

          Raios & trovões

 

          Estonteantes ou vertiginosas, como uma bala ou como uma seta, o certo é que estas personagens, antes depressivas e catatónicas, surgem-nos agora pletóricas de vida, tomadas por um frenesi constante, atingindo velocidades inimagináveis, como nas correntes futuristas, que exaltavam o primado da rapidez das máquinas, para de caminho exaltarem as forças vitais do ser humano: Celestino "mais rápido do que um raio puxou de uma arma" e Mateus "sentiu um choque como se tivesse sido atingido por um raio" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 220 e 315); "alguns outros, rápidos como raios", "a preta escapou-se, veloz como um raio", "o marido, rápido como um raio" e Bernardino "sentou-se na cama como se tivesse sido fulminado por um raio" (Uma Fazenda em África, págs. 120, 145, 206 e 237); "Rápido como um raio" (A Aluna Americana, p. 178); Januário Moderno, "rápido como um raio" (Até ao Fim da Terra, p. 51); "Tudo se passou com a velocidade de um raio" (Haiti, p. 198); "Ela parou por instantes como se tivesse sido atingida por um raio" (Os Dias da Febre, p. 249).

          O raio e o relâmpago são o mesmo fenómeno atmosférico, pelo que não se pode dizer que um é mais rápido do que o outro: os dois viajam à velocidade de (aproximadamente), 400 mil quilómetros por hora (cerca de 30 por cento da velocidade da luz). Em rigor, trata-se de partes diferentes de uma mesma descarga eléctrica, sendo que o raio é o caminho físico por onde a electricidade viaja e o relâmpago o clarão luminoso provocado pela própria descarga: "Fizera tenção de estar em cima dos pretos com a velocidade do relâmpago e a inclemência de um Gengis Khan" (Uma Fazenda em África, p. 324); "Houve até uma noite, numa festa ao ar livre, em casa de amigos, em que [José Duarte e Isabel] fizeram amor-relâmpago num recanto escuro do grande jardim" (A Aluna Americana, pág. 93); "rápida como um relâmpago" e "rápido como um relâmpago" (Vento de Espanha, p. 47 e pp. 100-101); "percebeu, com a velocidade de um relâmpago" (Haiti, p. 69); "rápido como um relâmpago, o outro bandido sacou de uma navalha" (Do Outro Lado do Mar, p. 21); "O nudista passou como um relâmpago em frente da Mercedes" e "entrou como um foguete pelo jardim do amigo" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 187).

 

          Éteres

 

          No século XIX, muitos cientistas acreditavam na existência de um suporte material – o "éter" – que fazia com que a luz se propagasse no espaço. Apesar de tal teoria ter sido inteiramente rejeitada, graças à experiência de Michelson-Morley (que demonstrou que a luz se propaga no vácuo), JPM, cuja paixão pelas ciências ocultas, a magia e a alquimia era até agora desconhecida, utiliza a palavra para designar a substância perfeita que preenche o universo acima do planeta Terra, ou seja, o quinto elemento (depois da terra, da água, do ar e do fogo): "Luísa esteve assim alguns segundos, sorrindo, como que suspensa no éter"; p. 176: "nas longas tardes acamado, elevava-se aos éteres metafísicos" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 42, 176); "A alma subira-lhe até aos píncaros, até aos éteres"; "como se tivesse sido transportado para um éter de prazer" (Uma Fazenda em África, p. 67), "As perguntas ficavam suspensas no éter da sua imobilidade" (O Prazer de Guiar, p. 133), "a solução dos males e injustiças do mundo não estava nos éteres do Céu", "Ela ficou a vogar (...) num éter de prazer" (Vento de Espanha, págs. 76, 290); "permitiu-se vogar nos éteres" (Haiti, p. 141).

 






          Molas que amolam

 

          Mas o "maravilhoso" da vida quotidiana também se faz de pequenos impulsos, mesmo se difíceis de controlar, como se o corpo estivesse submetido a uma força propulsiva: "O padre Guilherme inteiriçou-se como se tivesse sido fustigado por um chicote" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 73); "como se fossem accionadas por uma mesma mola, as vinte ou trinta pessoas que se encontravam na rua puseram-se em marcha" (Uma Fazenda em África, p. 398); "José Tolentino inclinou-se para a frente como se tivesse sido impulsionado por uma mola", "Quando essa clausura terminou ela distendeu-se como uma mola", "ele moveu-se depressa, como se fosse impulsionado por uma mola" e "Isabel ergueu-se como se fosse impelida por uma mola" (A Aluna Americana, respectivamente págs. 142, 155, 177 e 258).

          Como se alguém, com um comando à distância, carregasse num botão que impulsiona todas as personagens: "Ergueu-se, como que impulsionado por uma mola"; p. 245: Constança "pôs a talagarça de parte e levantou-se como se fosse impelida por uma mola" (Até ao Fim da Terra, págs. 30 e 245); "Saltou da cama como se fosse impulsionado por uma mola" (O Prazer de Guiar, p. 40); Custódio "ergueu-se, ameaçador, como se fosse impulsionado por uma mola" (Vento de Espanha, pág. 112); "Sentou-se de súbito como se tivesse sido impelido por uma mola" (Haiti, p. 71); "Marília, que ouvira tudo em silêncio, falou logo de seguida, como se fosse impulsionada por uma mola" (Os Dias da Febre, p. 283); e Guida "levantou-se depressa, como que impelida por uma mola" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 146).

                                                                                

                                                                                            (Continua) 


          Este texto é a pré-publicação de um estudo sobre a obra de João Pedro Marques que será editado muito em breve.

                                                         

                                                                    João Pedro George

 

 

 

 

 

 

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