Enquanto durar o verão, o almoço é peixe, de preferência junto ao mar. Em
Cascais, o Entráguas continua a cumprir, com nota artística, pelo menos na arte
da frigideira. E é isso que interessa para um belo linguado à maneira. Como
quem diz au meunière.
Um parêntesis para homenagear o moleiro que acrescentou à solha acabada
de pescar aquilo que tinha no moinho: farinha, pois. Inventou assim um prato
que viria a ter o seu nome. Ou o da sua mulher, la meunière, que era
quem o cozinhava.
O prato ganhou fama, já na corte de Luís XIV, e tornou-se símbolo da alta
cozinha. Primeiro em França, donde saltou o Canal da Mancha, dando-nos a Dover
sole, e depois para o mundo. Por cá, enquanto esperamos pela reabertura do
Tavares, o Pabe ou, mais recentemente, o Brilhante, ilustram bem a longevidade
do prato na boa restauração de tradição francesa.
Alain Ducasse, quem mais cristalizou a receita, respeitando a sua
simplicidade: peixe fresco, plano e delgado, sal e pimenta, farinha em
quantidade quase invisível, fritura em manteiga, trabalhada depois em beurre
noisette, cortada pelo sumo de limão e refrescada com salsa picada.
Qualidade do peixe e domínio da frigideira. Não é preciso mais nada. Bom, umas
batatinhas ao vapor também ajudam, sobretudo para absorver o molho.
Só que o que parece realmente simples não é. Farinha a mais,
arriscando-se um panado. Manteiga que não chega ao ponto de avelã ou, pior,
queimada. Limão a mais ou cedo de mais. Para não falar de batatas fritas
carregadas de sal, arrozes caldosos ou apurados, açordas e outros
acompanhamentos fortes, todos eles com a irresistível vontade de aparecer mais
do que o convidado principal.
Depois temos os chefs que acham que têm de reinventar tudo, ou pelo menos
dar-lhe um toque de sofisticação: alcaparras, vinho branco, natas, chalotas,
ervas frescas ou espumas de qualquer coisa. Tudo pode ser bom, seguramente. Mas
já não é au meunière.
Longe destes desvarios, admite-se uma variação. O peixe. Sempre plano:
solha ou linguado, talvez até uma asa de raia. Mas inteiro ou em filetes?
A ortodoxia manda o peixe inteiro, com pele e espinha, e de tamanho
médio, não vá a fritura secá-lo antes de a manteiga atingir o ponto. Um
linguado sobre cozinhado, seco, é um peixe morto duas vezes.
Só que um comensal sozinho, que não este cronista, pode achar que um
peixe inteiro de 500 gramas — o tamanho ideal — é muita coisa. Entram então os
filetes. Está bem. Mas cuidado: para além da garantia de frescura, ganha
capital importância o tempo de fritura. Sem pele (uma pena), há de ser reduzido
ao mínimo essencial para dourar de cada lado. Inclina-se a frigideira, rega-se
repetidamente o peixe com a manteiga espumante, ajudando a criar a superfície
dourada. Depois retiram-se os filetes e constrói-se na frigideira a beurre
noisette final, acrescentando o limão e a salsa no momento certo.
Simplicidade e boa técnica. Duas qualidades de um bom cozinheiro. Mas,
para os chefs emergentes, parece que não chegam.
Acham sempre que têm de fazer o linguado “à minha maneira”. É de xutos. E
pontapés.
José António Nogueira de Brito

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