Na adolescência, tive aquele percurso
normal dos chamados livros para rapazes, até adaptações de clássicos, fui
cumpridor das leituras da disciplina de Português, só mais crescidinho me
chamaram à atenção os cadernos de Albert Camus, lera A Peste e O Estrangeiro,
esta leitura para mim inquietante, por falta de maturidade e cultura. Foi nesta
aproximação à diarística de Camus que senti a importância de uma expressão
íntima e solitária sobre muitos outros, comentários de livros, desabafos de
perdas, apreciações sobre a vida política, e muito mais; e dei comigo a sentir
forte atração por todo este jogo narrativo de dias, semanas e meses, a
frontalidade da observação, o escrito amargo ou desolador e, tantas vezes,
circunlóquios sobre a morte, as limitações da velhice.
Não sei por que razão, os portugueses são
avessos ao diário (sim, eu sei, o Torga e o Vergílio Ferreira, bem esquecidos
estão, atenda-se que a diarística está muito sujeita às purgas do tempo) a
estes sopros em frente ao espelho, a expressão nua e crua, todo um contexto que
pode supor ficção, mas que estruturalmente não é, podem ser flocos
autobiográficos, rasgos de previsão, citações de outros, confissões de
desalento – tudo somado, a diarística é assumidamente um subgénero e a
identidade não lhe falta.
Tenho profundo apreço pela diarística
de Marcello Duarte Mathias, ele goza da excelência de não precisarmos de saber
se acaso se banha em águas políticas, pois quando lhe dá para ser contundente
não tem contemplações com os harmoniosos da ordem, da autoridade, da
pesporrência, da chungaria e da cupidez. Quando o leio, tenho saudade dos
cadernos de Albert Camus e de outros escritores franceses exímios na
diarística. Mathias terá tido tal berçário, há uma racionalidade cartesiana
onde se vai encaixar o humanismo e a sua permanente atenção a quem escreve,
pelo mundo fora, ao cinema, até aos nossos tempos ásperos de políticos
farronqueiros ou da devastadora superficialidade do discurso político preparado
pelos assessores mediáticos. E estamos
chegados ao mais recente livro de Mathias, abarcando diário, ensaios e crónicas,
publicações Dom Quixote, 2026.
Apreciações luminescentes como esta:
“O que é escrever? É conferir uma outra verdade à verdade conhecida dos factos.
Daí Salman Rushdie escrever sobre o atentado de que foi vítima, sendo essa
versão a que para ele conta. O escritor não inventa a realidade, molda-a ao seu
gosto e medida, vai direito ao assunto, sem peias.” Naquele dia de 20 de
janeiro de 2005, tomada de posse de Donald Trump no Capitólio. Mathias escreve:
“Donald Trump ou a vingança póstuma de Jean-Marie Le Pen? Tenho dúvidas. A
despeito das suas idiossincrasias, Le Pen era um homem lido, histórica e
literariamente culto. Ao invés, Trump é um ignaro, falho de qualquer intuição
psicológica, que tudo equaciona em termos empresariais, depósitos, empréstimos,
benefícios, lucros, dividendos. Não sai desta nem conhece outro prisma de
análise. Narcisista para mais, e vingativo.” Mathias foi um diplomata em
diferentes continentes, perfeito conhecedor dos grandes contenciosos, entre
eles o perdurável conflito israelo-palestiniano. Escreve em 18 de abril de
2025:
“A fotografia ganhadora este ano do
World Press Photo é a de um menino palestiniano de 9 anos que perdeu ambos os
braços durante um ataque israelita na Faixa de Gaza.
Terrível imagem esta, a da criança
amputada, igual aliás a tantas outras, que nos interpela, interroga e, por
muito que não queiramos, nos diz respeito. Israel vai agora explicar que esta
fotografia é mais uma manobra de antissemitas, tal como já acusou os juízes do
Tribunal Internacional da Haia de o serem quando da recente condenação de
Netanyahu. A coisa, porém, já não pega. Os excessos em Gaza são tais e de tal
ordem que já ultrapassaram tudo o que era imaginável (…) Devo confessá-lo:
nunca julguei possível testemunhar tanta demência, tanta cegueira, tanto ódio,
assim desenfreado, à solta. Como acabar de vez com um inimigo que não morre?
Quantos milhares de mortes serão precisas? Quantas mais deslocações de
populações inteiras que já não têm casa em parte alguma? E o bloqueio
humanitário? (…) A Direita portuguesa é totalmente pavloviana: só reage a meia
dúzia de estímulos e sempre na mesma direção. Não lhe peçam autonomia mental
que não tem, pois não pensa por si.”
Depois desta incursão pelo diário,
vejamos o que Mathias nos tem a dizer me ensaios e crónicas. Irá percorrer
sobre uma multiplicidade de assuntos, tais como: a diplomacia da geração de 70;
sensibilidades católicas na diplomacia portuguesa; comentários a livros de
outros com as suas lembranças, fará uma extensa e bem documentada análise de Vida
e Obra de Fernando Pessoa, de João Gaspar Simões, enfatiza a sua preparação
inglesa, desmultiplica-se em comentários outros sobre Pessoa, são belíssimas
páginas; reflete sobre a importância que teve a queda de Salazar, quais as
aproximações e afinidades entre obras de correspondência e diários; e parece
cismar sobre o português visto por alguns portugueses, um exercício cultural de
inventário de um bom punhado de analistas, como eles se encontram e
desencontram, ou fazem subsistir a dúvida do que ao escrever, expelimos
ceticismo, desânimo, até cargas de bílis. Chegando ao presente, dirá: “Nós,
portugueses do século XXI, somos mundialistas, liberais e europeístas. Todos,
em tudo.” Mas prossegue a sua apreciação crítica, somos zelosos servidores da
disciplina comunitária e seus mais rígidos interpretes, não dá para entender
este alinhamento quase pavloviano, como se houvesse que deixar na sombra o
Estado-Nação, até porque temos uma sociedade civil ainda incipiente. Neste
percurso, tal como pode acontecer na diarística, o escritor esqueceu-se das
rugas do tempo, já passámos a pandemia do Covid-19, e a chamada coesão da
Aliança Atlântica é por demais problemática.
Despeço-me desta estupenda leitura
recordando o que ele escreve sobre a essência do diário:
“Pode apresentar formulações diversas:
do desabafo íntimo a temas da atualidade política; da insignificância de certos
pormenores, incluindo a transcrição de notícias de imprensa, a questões de
ordem moral ou metafísica. Porque todo o diário é relato e depoimento, há um
tempo companheiro e percurso de viagem.”
Ficamos à espera de mais, é uma diarística absorvente e uma cultura que não se compadece com subserviências ou jeitos.
Mário Beja Santos

Sem comentários:
Enviar um comentário