quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Um mestre da diarística, exultemos o seu regresso, a plenitude do seu olhar.

 



 

          Na adolescência, tive aquele percurso normal dos chamados livros para rapazes, até adaptações de clássicos, fui cumpridor das leituras da disciplina de Português, só mais crescidinho me chamaram à atenção os cadernos de Albert Camus, lera A Peste e O Estrangeiro, esta leitura para mim inquietante, por falta de maturidade e cultura. Foi nesta aproximação à diarística de Camus que senti a importância de uma expressão íntima e solitária sobre muitos outros, comentários de livros, desabafos de perdas, apreciações sobre a vida política, e muito mais; e dei comigo a sentir forte atração por todo este jogo narrativo de dias, semanas e meses, a frontalidade da observação, o escrito amargo ou desolador e, tantas vezes, circunlóquios sobre a morte, as limitações da velhice.

Não sei por que razão, os portugueses são avessos ao diário (sim, eu sei, o Torga e o Vergílio Ferreira, bem esquecidos estão, atenda-se que a diarística está muito sujeita às purgas do tempo) a estes sopros em frente ao espelho, a expressão nua e crua, todo um contexto que pode supor ficção, mas que estruturalmente não é, podem ser flocos autobiográficos, rasgos de previsão, citações de outros, confissões de desalento – tudo somado, a diarística é assumidamente um subgénero e a identidade não lhe falta.

          Tenho profundo apreço pela diarística de Marcello Duarte Mathias, ele goza da excelência de não precisarmos de saber se acaso se banha em águas políticas, pois quando lhe dá para ser contundente não tem contemplações com os harmoniosos da ordem, da autoridade, da pesporrência, da chungaria e da cupidez. Quando o leio, tenho saudade dos cadernos de Albert Camus e de outros escritores franceses exímios na diarística. Mathias terá tido tal berçário, há uma racionalidade cartesiana onde se vai encaixar o humanismo e a sua permanente atenção a quem escreve, pelo mundo fora, ao cinema, até aos nossos tempos ásperos de políticos farronqueiros ou da devastadora superficialidade do discurso político preparado pelos assessores mediáticos.  E estamos chegados ao mais recente livro de Mathias, abarcando diário, ensaios e crónicas, publicações Dom Quixote, 2026.

          Apreciações luminescentes como esta: “O que é escrever? É conferir uma outra verdade à verdade conhecida dos factos. Daí Salman Rushdie escrever sobre o atentado de que foi vítima, sendo essa versão a que para ele conta. O escritor não inventa a realidade, molda-a ao seu gosto e medida, vai direito ao assunto, sem peias.” Naquele dia de 20 de janeiro de 2005, tomada de posse de Donald Trump no Capitólio. Mathias escreve: “Donald Trump ou a vingança póstuma de Jean-Marie Le Pen? Tenho dúvidas. A despeito das suas idiossincrasias, Le Pen era um homem lido, histórica e literariamente culto. Ao invés, Trump é um ignaro, falho de qualquer intuição psicológica, que tudo equaciona em termos empresariais, depósitos, empréstimos, benefícios, lucros, dividendos. Não sai desta nem conhece outro prisma de análise. Narcisista para mais, e vingativo.” Mathias foi um diplomata em diferentes continentes, perfeito conhecedor dos grandes contenciosos, entre eles o perdurável conflito israelo-palestiniano. Escreve em 18 de abril de 2025:

          “A fotografia ganhadora este ano do World Press Photo é a de um menino palestiniano de 9 anos que perdeu ambos os braços durante um ataque israelita na Faixa de Gaza.

          Terrível imagem esta, a da criança amputada, igual aliás a tantas outras, que nos interpela, interroga e, por muito que não queiramos, nos diz respeito. Israel vai agora explicar que esta fotografia é mais uma manobra de antissemitas, tal como já acusou os juízes do Tribunal Internacional da Haia de o serem quando da recente condenação de Netanyahu. A coisa, porém, já não pega. Os excessos em Gaza são tais e de tal ordem que já ultrapassaram tudo o que era imaginável (…) Devo confessá-lo: nunca julguei possível testemunhar tanta demência, tanta cegueira, tanto ódio, assim desenfreado, à solta. Como acabar de vez com um inimigo que não morre? Quantos milhares de mortes serão precisas? Quantas mais deslocações de populações inteiras que já não têm casa em parte alguma? E o bloqueio humanitário? (…) A Direita portuguesa é totalmente pavloviana: só reage a meia dúzia de estímulos e sempre na mesma direção. Não lhe peçam autonomia mental que não tem, pois não pensa por si.”

          Depois desta incursão pelo diário, vejamos o que Mathias nos tem a dizer me ensaios e crónicas. Irá percorrer sobre uma multiplicidade de assuntos, tais como: a diplomacia da geração de 70; sensibilidades católicas na diplomacia portuguesa; comentários a livros de outros com as suas lembranças, fará uma extensa e bem documentada análise de Vida e Obra de Fernando Pessoa, de João Gaspar Simões, enfatiza a sua preparação inglesa, desmultiplica-se em comentários outros sobre Pessoa, são belíssimas páginas; reflete sobre a importância que teve a queda de Salazar, quais as aproximações e afinidades entre obras de correspondência e diários; e parece cismar sobre o português visto por alguns portugueses, um exercício cultural de inventário de um bom punhado de analistas, como eles se encontram e desencontram, ou fazem subsistir a dúvida do que ao escrever, expelimos ceticismo, desânimo, até cargas de bílis. Chegando ao presente, dirá: “Nós, portugueses do século XXI, somos mundialistas, liberais e europeístas. Todos, em tudo.” Mas prossegue a sua apreciação crítica, somos zelosos servidores da disciplina comunitária e seus mais rígidos interpretes, não dá para entender este alinhamento quase pavloviano, como se houvesse que deixar na sombra o Estado-Nação, até porque temos uma sociedade civil ainda incipiente. Neste percurso, tal como pode acontecer na diarística, o escritor esqueceu-se das rugas do tempo, já passámos a pandemia do Covid-19, e a chamada coesão da Aliança Atlântica é por demais problemática.

          Despeço-me desta estupenda leitura recordando o que ele escreve sobre a essência do diário:

          “Pode apresentar formulações diversas: do desabafo íntimo a temas da atualidade política; da insignificância de certos pormenores, incluindo a transcrição de notícias de imprensa, a questões de ordem moral ou metafísica. Porque todo o diário é relato e depoimento, há um tempo companheiro e percurso de viagem.”

          Ficamos à espera de mais, é uma diarística absorvente e uma cultura que não se compadece com subserviências ou jeitos. 


                                                                    Mário Beja Santos








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