domingo, 17 de abril de 2016

Avante! Grande ciclo de cinema russo!!

 
 

 
 
Programação:
5ªFeira, 21 de Abril
O HOMEM DA CÂMARA DE FILMAR de Dziga Vertov
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
6ªFeira, 22 de Abril
O HOMEM DA CÂMARA DE FILMAR de Dziga Vertov
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
Sábado, 23 de Abril
O COURAÇADO POTEMKINE de Serguei Eisenstein
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
Domingo, 24 de Abril
O COURAÇADO POTEMKINE de Serguei Eisenstein
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
2ªFeira, 25 de Abril
OUTUBRO de Serguei Eisenstein
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21H45
3ªFeira, 26 de Abril
OUTUBRO de Serguei Eisenstein
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21H45
4ªFeira, 27 de Abril
ARSENAL de Aleksandr Dovzhenko
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
5ªFeira, 28 de Abril
ARSENAL de Aleksandr Dovzhenko
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
6ªFeira, 29 de Abril
ALEXANDRE NEVSKY de Serguei Eisenstein
14h , 16h30, 19h, 21h30
Sábado, 30 de Abril
ALEXANDRE NEVSKY de Serguei Eisenstein
14h , 16h30, 19h, 21h30
Domingo, 1 de Maio
IVAN, O TERRÍVEL - PARTE I e Parte II de Serguei Eisenstein
14h, 17h45, 21h30
2ªFeira, 2 de Maio
IVAN, O TERRÍVEL - PARTE I e Parte II de Serguei Eisenstein
14h, 17h45, 21h30
3ªFeira, 3 de Maio
A CASA NA PRAÇA TRÚBNAIA de Boris Barnet
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
4ªFeira, 4 de Maio
A CASA NA PRAÇA TRÚBNAIA de Boris Barnet
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
5ªFeira, 5 de Maio
ASAS de Larisa Shepitko
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
6ªFeira, 6 de Maio
ASAS de Larisa Shepitko
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
Sábado, 7 de Maio
CHUVA DE JULHO de Marlen Khutsiev
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
Domingo, 8 de Maio
CHUVA DE JULHO de Marlen Khutsiev
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
2ªFeira, 9 de Maio
TU E EU de Larisa Shepitko
13h45, 15h45, 17h45, 20h00
A sessão das 20h00 é seguida de Mesa Redonda com Covidados sobre:
CICLO GRANDE CINEMA RUSSO

Apresentação Caixa DVD Andrei Tarkovsky
3ªFeira, 10 de Maio
TU E EU de Larisa Shepitko
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
4ªFeira, 11 de Maio
NOVE DIAS DE UM ANO de Mikhail Romm
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
5ªFeira, 12 de Maio
NOVE DIAS DE UM ANO de Mikhail Romm
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
6ªFeira, 13 de Maio
ASCENSÃO de Larisa Shepitko
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
Sábado, 14 de Maio
ASCENSÃO de Larisa Shepitko
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
Domingo, 15 de Maio
E AINDA ACREDITO de Mikhail Romm, Marlen Khutsiev, Elem Klimov
14h , 16h30, 19h, 21h30
2ªFeira, 16 de Maio
E AINDA ACREDITO de Mikhail Romm, Marlen Khutsiev, Elem Klimov
14h , 16h30, 19h, 21h30
3ªFeira, 17 de Maio
GUERRA E PAZ - 1ª e 2ª Parte de Serguei Bondarchuk
13h, 17h, 21h
4ªFeira, 18 de Maio
GUERRA E PAZ - 3ª e 4ª Parte de Serguei Bondarchuk
14h, 17h45, 21h30
5ªFeira, 19 de Maio
GUERRA E PAZ - 1ª e 2ª Parte de Serguei Bondarchuk
13h, 17h, 21h
6ªFeira, 20 de Maio
GUERRA E PAZ - 3ª e 4ª Parte de Serguei Bondarchuk
14h, 17h45, 21h30
Sábado, 21 de Maio
ADEUS A MATIORA de Elem Klimov
14h , 16h30, 19h, 21h30
Domingo, 22 de Maio
ADEUS A MATIORA de Elem Klimov
14h , 16h30, 19h, 21h30
2ªFeira, 23 de Maio
PEÇA INACABADA PARA PIANO MECÂNICO de Nikita Mikhalkov
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
3ªFeira, 24 de Maio
PEÇA INACABADA PARA PIANO MECÂNICO de Nikita Mikhalkov
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
4ªFeira, 25 de Maio
OLHOS NEGROS de Nikita Mikhalkov
14h , 16h30, 19h, 21h30
5ªFeira, 26 de Maio
OLHOS NEGROS de Nikita Mikhalkov
14h , 16h30, 19h, 21h30
6ªFeira, 27 de Maio
ARSENAL de Aleksandr Dovzhenko
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
Sábado, 28 de Maio
OUTUBRO de Serguei Eisenstein
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21H45
Domingo, 29 de Maio
NOVE DIAS DE UM ANO de Mikhail Romm
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
2ªFeira, 30 de Maio
O HOMEM DA CÂMARA DE FILMAR de Dziga Vertov
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
3ªFeira, 31 de Maio
E AINDA ACREDITO de Mikhail Romm, Marlen Khutsiev, Elem Klimov
14h , 16h30, 19h, 21h30
4ªFeira, 1 de Junho
ASCENSÃO de Larisa Shepitko
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
5ªFeira, 2 de Junho
O COURAÇADO POTEMKINE de Serguei Eisenstein
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
6ªFeira, 3 de Junho
ALEXANDRE NEVSKY de Serguei Eisenstein
14h , 16h30, 19h, 21h30
Sábado, 4 de Junho
ADEUS A MATIORA de Elem Klimov
14h , 16h30, 19h, 21h30
Domingo, 5 de Junho
TU E EU de Larisa Shepitko
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
2ªFeira, 6 de Junho
OLHOS NEGROS de Nikita Mikhalkov
14h , 16h30, 19h, 21h30
3ªFeira, 7 de Junho
PEÇA INACABADA PARA PIANO MECÂNICO de Nikita Mikhalkov
14h , 16h30, 19h, 21h30
4ªFeira, 8 de Junho
O HOMEM DA CÂMARA DE FILMAR de Dziga Vertov
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
5ªFeira, 9 de Junho
CHUVA DE JULHO de Marlen Khutsiev
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
6ªFeira, 10 de Junho
A CASA NA PRAÇA TRÚBNAIA de Boris Barnet
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
Sábado, 11 de Junho
O COURAÇADO POTEMKINE de Serguei Eisenstein
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
Domingo, 12 de Junho
IVAN, O TERRÍVEL - PARTE I e Parte II de Serguei Eisenstein
14h, 17h45, 21h30
2ªFeira, 13 de Junho
GUERRA E PAZ - 1ª e 2ª Parte de Serguei Bondarchuk
13h, 17h, 21h
3ªFeira, 14 de Junho
GUERRA E PAZ - 3ª e 4ª Parte de Serguei Bondarchuk
14h, 17h45, 21h30
4ªFeira, 15 de Junho
ASAS de Larisa Shepitko
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
5ªFeira, 16 de Junho
O TIO VÂNIA de Andrei Konchalovsky
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
6ªFeira, 17 de Junho
O TIO VÂNIA de Andrei Konchalovsky
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
Sábado, 18 de Junho
SIBERÍADA de Andrei Konchalovsky
14h, 17h45, 21h30
Domingo, 19 de Junho
SIBERÍADA de Andrei Konchalovsky
14h, 17h45, 21h30
2ªFeira, 20 de Junho
ALEXANDRE NEVSKY de Serguei Eisenstein
14h , 16h30, 19h, 21h30
3ªFeira, 21 de Junho
ASCENSÃO de Larisa Shepitko
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
4ªFeira, 22 de Junho
CHUVA DE JULHO de Marlen Khutsiev
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
5ªFeira, 23 de Junho
GUERRA E PAZ – INTEGRAL de Serguei Bondarchuk
1ª e 2ª Parte - 15h / 3ª e 4ª Parte - 21h
6ªFeira, 24 de Junho
O COURAÇADO POTEMKINE de Serguei Eisenstein
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
Sábado, 25 de Junho
SIBERÍADA de Andrei Konchalovsky
14h, 17h45, 21h30
Domingo, 26 de Junho
PEÇA INACABADA PARA PIANO MECÂNICO de Nikita Mikhalkov
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
2ªFeira, 27 de Junho
ADEUS A MATIORA de Elem Klimov
14h , 16h30, 19h, 21h30
3ªFeira, 28 de Junho
E AINDA ACREDITO de Mikhail Romm, Marlen Khutsiev, Elem Klimov
14h , 16h30, 19h, 21h30
4ªFeira, 29 de Junho
ASAS de Larisa Shepitko
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
5ªFeira,30 de Junho
A CASA NA PRAÇA TRÚBNAIA de Boris Barnet
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
6ªFeira, 1 de Julho
O COURAÇADO POTEMKINE de Serguei Eisenstein
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
Sábado, 2 de Julho
OUTUBRO de Serguei Eisenstein
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21H45
Domingo, 3 de Julho
O TIO VÂNIA de Andrei Konchalovsky
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
2ªFeira, 4 de Julho
NOVE DIAS DE UM ANO de Mikhail Romm
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
3ªFeira, 5 de Julho
CHUVA DE JULHO de  Marlen Khutsiev
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
4ªFeira, 6 de Julho        
TU E EU de Larisa Shepitko
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
5ªFeira, 7 de Julho
ASCENSÃO de Larisa Shepitko
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
6ªFeira, 8 de Julho
SIBERÍADA de Andrei Konchalovsky
14h, 17h45, 21h30
Sábado, 9 de Julho
GUERRA E PAZ – INTEGRAL de Serguei Bondarchuk
1ª e 2ª Parte - 15h / 3ª e 4ª Parte - 21h
Domingo, 10 de Julho
IVAN, O TERRÍVEL - PARTE I e Parte II de Serguei Eisenstein
14h, 17h45, 21h30
2ªFeira, 11 de Julho
OLHOS NEGROS de Nikita Mikhalkov
14h , 16h30, 19h, 21h30
3ªFeira, 12 de Julho
ARSENAL  de Aleksandr Dovzhenko
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45
4ªFeira, 13 de Julho
O TIO VÂNIA de Andrei Konchalovsky
13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45


Boas novas.





 

         Graças à E-Primatur, os lares portugueses podem contar agora com um novo animal, de boa companhia. A Lassie saiu da casota, ao fim de 75 anos de hibernação. Disse-me o responsável pela E-Primatur – Pedro Bernardo, um dos grandes editores portugueses – que o livro nunca tinha sido editado na íntegra no nosso país. É incrível, não é? Pois cá temos a Lassie, a ladrar toda contente em versão integral e original. E, já agora, passe a publicidade, também pela E-Primatur, Nos Mares do Fim do Mundo, uma edição maravilhosa, ilustrada, com prefácio de quem sabe, Álvaro Garrido. 







sábado, 16 de abril de 2016

O jardineiro perneta e o homem de Himmler.




 
 
Mais de meia década antes de Hannah Arendt, Rebecca West capturou também algo de singular acerca da essência e origem do mal nazi
 
 
Logo desde a publicação de Eichmann em Jerusalém – primeiro nas páginas da New Yorker e, posteriormente, em livro – que a “banalidade do mal” do Obersturmbannführer das SS desenhada nas palavras de Hannah Arendt, tal como a sua visão particular sobre a cooperação de alguns dos líderes das comunidades judias com os Nazis, fez cair sobre a autora uma tempestade tal que só a morte do presidente Kennedy, uns meses depois, lhe veio dar algum espaço para respirar longe dos holofotes da infâmia que os seus detractores sobre ela fizeram incidir.
 
Desde então, a recepção deste ensaio de Arendt tem configurado aquilo a que Amos Elon, com particular acuidade, chamou uma verdadeira guerra civil entre os intelectuais americanos e europeus. Longe esmorecer, esta polémica continua viva, como o demonstra, por exemplo, a ainda recente publicação de Eichmann Before Jerusalem, de Bettina Stangneth, um livro que, com um meticuloso trabalho de pesquisa documental, consegue desferir golpes bem mais significativos na construção do argumentário arendtiano do que o algo parasitário e maioritariamente ineficaz The Eichmann Trial, de Deborah Lipstadt, uma das vozes críticas de Arendt com mais divulgação.
Não querendo entrar, tardiamente, na polémica em redor de Eichmann em Jerusalém, importa realçar que, apesar de tudo, um detalhe da essência do pensamento de Arendt sobre o Holocausto tem, no meio de toda esta convulsão cultural e académica, passado largamente incompreendido, e que encerra uma das principais e mais incisivas críticas que Hannah Arendt parece pretender dirigir ao julgamento de Eichmann e ao decurso do processo. O processo de Eichmann, segundo ela, falhou por completo em mostrar esse executante em concreto da Solução Final como um inimigo da humanidade e não apenas um inimigo dos judeus. E disso foi responsável, em grande medida, o arquitecto invisível desse julgamento-espectáculo, David Ben-Gurion, o “Pai Fundador” do Estado de Israel, ao pretender utilizar esse “momento único”, pela voz do Procurador Hausner (o acusador público no processo), dentro de uma lógica de legitimação do Estado de Israel como imposição redentora da Shoah.
Vem esta referência a propósito da publicação, pela Relógio d’Água, de Estufa com Ciclâmenes, de Rebecca West, que reúne um ensaio tripartido acerca dos julgamentos de Nuremberga, a parte central de The Train of Powder, originalmente publicado também na New Yorker, uns anos antes do arquicélebre ensaio de Arendt, e que, em parte, antecipa algumas das observações da autora, nomeadamente no que toca a caracterização – e, talvez, instrumentalização – profundamente política e simbólica dos julgamentos aos Nazis pelos ignóbeis crimes perpetrados durante o Terceiro Reich.
Contudo, West não se limita a capturar a singular utilização dos julgamentos e da culpa nacional pelos crimes para a construção da identidade germânica no pós-guerra, mas explora também a forma como, apesar de toda essa construção, a capacidade de sacrifício perante o trabalho e a dedicação quase patológica à eficácia que, em parte, veicularam a tanatopolítica nazi foram capazes de lhe sobreviver quase incólumes. No desenvolvimento desta narrativa que a naturalidade germânica de Arendt dificilmente lhe permitiria explorar, West consegue encapsular de forma brilhante esta perplexidade na figura do jardineiro perneta de Nuremberga que, árdua e dedicadamente, vendia cíclames a todo o contingente aliado.
Mais de uma década antes do New Journalism, a prosa de Rebecca West representa um dos momentos mais altos do jornalismo com qualidades literárias, numa sugestão de imagens em que alguns, sem grande exagero, esboçaram já uma comparação com a pintura de Ingres.
 
David Teles Pereira
 
(originalmente publicado no jornal Sol; aqui reproduzido com autorização amiga do David Teles Pereira – um abraço, David!)
 

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Mini-Réplica do Woodstock em Connecticut.



 Aconteceu cerca de um ano depois do famoso e lendário Festival de Rock de Woodstock, realizado entre os dias 15 e 18 de Agosto de 1969. Foi uma mini-réplica do Woodstock no estado de Connecticut, organizado ilegalmente no Powder Ridge Ski Area de Middlefield, de 31 de Julho a 2 de Agosto de 1970.
          Chamo a este Festival de Rock do estado de Connecticut “mini-réplica” do Festival de Rock de Woodstock do estado de Nova Iorque, porque de facto assim foi, não só porque o Festival de Rock de Nova Iorque foi o rei e a bitola por que se pautaram as dezenas de festivais de rock que se propuseram imitá-lo, um pouco por todos os Estados Unidos da América, mas sobretudo porque o Festival de Rock de Connecticut, tendo sido proibido de realizar-se à última hora pelas autoridades municipais, foi um grande fracasso em todos os sentidos. As 30.000 pessoas que, antecipadamente, compraram por vinte dólares os bilhetes que lhes permitiam a participação em todos os programas durante os três dias do festival, vieram a deparar, quando aí chegaram, com falta de comida, com falta de bebida, com falta de acomodações, com falta de condições sanitárias, e, ainda por cima, com a falta do prato forte do festival: a ausência das dezenas de cantores e de conjuntos musicais, previamente contratados pela organização: nada menos de trinta, distribuídos em número igual, durante os três dias do Festival.
Para minimamente fingir que preenchiam essa lacuna impreenchível (dos trinta cantores e conjuntos musicais apenas actuaram durante os três dias do festival a famosa cantora Melanie e o conjunto The Mustard and Family), os organizadores recorreram à boa vontade de medíocres conjuntos locais, que faziam muito ruído e pouca música. Isto para não falar na enorme trovoada que caiu e que levou centenas de míseras tendas pelos ares e fez do recinto do festival um tremendo lamaçal. Foram estes factos que levaram um comentarista a declarar que no Festival de Rock de Power Ridge houve “muito sexo e muitas drogas, mas não houve rock `n’ roll.” 
De regresso de Nova Iorque, onde tinha ido passar o fim de semana para ver, como de costume, uma série de filmes estrangeiros, um musical à Broadway e rever o Metropolitan Museum of Art, decidi abandonar a auto-estrada e meter-me por country roads, a fim de ir ver, por curiosidade, o que estava acontecendo no festival de rock, tão apregoado na rádio do meu Impala.
Passava um pouco das duas da tarde e faltavam ainda quase três quilómetros para chegar à dita Power Ridge Ski Area (palco principal do festival), a qual estava situada no meio de luxuosos bosques, à beira dum lago. Não tendo tomado conhecimento das últimas notícias, notei, para espanto meu, que a polícia tinha fechado a estrada ao trânsito. Estacionado o carro, pego dum pequeno cajado e encaminho-me a pé para o local do festival de rock. Pelo caminho vou encontrando pequenos grupos de jovens de ambos os sexos, mais despidos que vestidos. À medida que vou passando por eles, dou-me conta de que praticamente todos caminham com passo mais lento que o meu e de que vão visivelmente trôpegos e curvados, e observo também que vão bebendo cerveja e outras bebidas alcoólicas e fumando maconha. Gente pacífica e boa, cumprimenta-me e diz-me com a maior naturalidade: − hey, man, would you like a joint? – No, thanks – respondo eu invariavelmente.
E, vestido com os meus trajes de hippie de ocasião (camisa de manga curta e calções azuis), continuo a caminhar em direcção ao cenário do festival. De repente deparo com ele. Era uma enorme clareira, disposta em suave declive, com um amplo palco de madeira erguido no fundo da clareira, rodeada de um espesso arvoredo, a abrir no cimo para um lago de consideráveis dimensões. E essa “enorme clareira” estava transformada num vasto arraial em que se apinhavam dezenas de milhares de pessoas, com predomínio absoluto de jovens de ambos os sexos. Uns em camisa, despeitolados, outros em tronco nu, quase todos de jeans, artificialmente esburacadas e sarapintadas de cores psicadélicas, ou em calções de ganga a esfiar-se; uns mais drogados e alcoolizados que outros; muitos deles – e delas – entorpecidos e mal cheirosos; quase todos sentados ou deitados, sem qualquer manifestação externa de prazer ou de paixão, num estado de apatia e  entorpecimento dos sentidos de causar dó e repulsa, consumiam a música, as bebidas alcoólicas, o fumo da maconha, o LSD e outras drogas e a famigerada “água eléctrica”, confeccionada à base de uma grande variedade de drogas lançadas a esmo para dentro de barris de água, e consumiam também o sono dos drogados.
Com a maior discrição possível e procurando aparentar tanto quanto possível que eu era um hypie autêntico, não pude deixar de ouvir da boca de alguns deles, tal como sucedera durante a caminhada dos três quilómetros, coisas como estas, que tão bem se coadunavam com a ocasião e com o ambiente: − hey, man, try a little: this is heavy stuff. – No, thanks. – Please, call a doctor: my pal is having a bad trip; − Hey, man, sit down and share a joint with us. – Thanks: not now. − Hey, man, have a drink: it makes you relax. – No, thank you very much.
Depois de ter observado, já parado, já a deambular em passo lento, aquele inédito e patético panorama de fauna humana, reduzida ao mais deplorável estado de degradação, encaminho-me para o lago, a fim de aí poder purificar-me da visão tétrica e dos maus odores, a que por longo tempo estivera exposto, e poder respirar ar mais fresco e mais puro e menos contaminado pelo álcool, pela maconha e por outras drogas inomináveis (contaram testemunhas oculares que o festival tinha sido invadido impunemente por mais de setenta traficantes de drogas). E é aí, à beira do lago e no próprio lago, que descubro vários jovens – elas e eles - completamente nus, uns a nadar e outros a tomar banhos de sol e vários desinibidamente abraçados, a celebrar e a brincar ao amor em público, sem quaisquer pruridos de pudor. Diante dos meus olhos deslumbrados, surgia-me assim, em todo o seu esplendor, a Age of Aquarius, simbolizada pelas flowers girls e pela magia do kumbaya, entoado em vozes límpidas, com o acompanhamento de guitarra, por jovens sentados e de mãos dadas, em estado de alegria e de graça. Era como se estivesse perante um rito de passagem: do reino das trevas transitara para o reino da luz. Parafraseando o Camões das redondilhas “Sobre os rios que vão” (que os venerandos manes do Vate me perdoem o atrevimento do símile neste ccontexto), era como se   da “Babilónia infernal” passasse para a “alta torre de Sião.”
Mas, como todas as visões transcendentes, concedidas aos pobres mortais, também essa nascera marcada com o sinal da efemeridade. É que, enquanto contemplava embevecido o espectáculo sancionado e epicamente cantado pela Age of Aquarius, ouço algumas moças, completamente nuas, a lamentar a ausência das câmaras de televisão.
Não fossem esses lamentos, a traduzir certa falta de autenticidade, e à minha memória certamente teria aflorado uma breve visão do paraíso terreal, parecida, mutatis mutandis, com aquela que viria a presenciar anos mais tarde, exactamente em 1974, na abertura do filme italiano Pane e cioccolata. O que no fundo significava que muita dessa gente tinha mais ou menos a mesma convicção revolucionária, no campo dos costumes da tribo de então, que aquele meu colega de doutoramento da Universidade de Wisconsin e aqueles meus alunos da Universidade de Connecticut, no campo do pacifismo, quando faltavam às aulas para protestar, sem qualquer convicção, em puro acto gratuito, contra a guerra do Vietnam. Era interessante, para os efebos e les jeunes filles en fleur do festival de rock praticar um acto de rebeldia, fazer uma pequena irreverência inconsequente, sem quaisquer finalidades ulteriores? Pois vamos a isso, que a polícia não prende e os pais  não vêem.
         Depois de ter passado umas três horas a fazer de hippie – por essa altura usava cabelo um pouco comprido –, dirigi-me ao carro para continuar a viagem de regresso a casa, localizada nesse tempo em Mansfield Apartments, em Storrs. Tinha apenas andado uns metros, quando uma jovem e um jovem me pedem boleia. Obedecendo ao costume do tempo, (o belo e saudoso tempo em que todos, sorrindo, faziam mutuamente o sinal da paz com os dois dedos das mãos e em que ninguém tinha medo de pedir boleia e de dar boleia), abro-lhes a porta e pergunto-lhes para onde desejam ir. Que iam para Mansfield Center, a uns quatro quilómetros de minha casa. Entram no carro e perguntam-me se tinha visto o festival de rock. Que sim, mas apenas durante umas três horas – respondo-lhes eu. − E tinha gostado? – Certamente, pois eu era uma pessoa curiosa e gostava de conhecer coisas novas, diferentes, exóticas. E depois de umas vagas digressões sobre alguns aspectos do malogrado festival de rock, passou-se à discussão do nudismo. E dessa longa conversa recordo a conclusão a que o moço chegou e com que a moça concordou plenamente: que o melhor de tudo, nessa questão do nudismo, era vestir-se de modo a deixar algo para adivinhar, em vez de mostrar logo tudo de uma vez. E a comprovar essa teoria, bastava reparar na maneira como os meus jovens passageiros de ocasião trajavam naquela tarde quente de Verão de 1970, de regresso da “Mini-Réplica do Woodstock em Connecticut.”  
António Cirurgião

quinta-feira, 14 de abril de 2016




 
impulso!

100 discos de jazz para cativar os leigos e vencer os cépticos !




# 75 - CECIL TAYLOR

 
 

 
Cecil Taylor é a outra cabeça da águia bicéfala do free jazz, se da criatura mítica se excluir John Coltrane, que tanto era como não era desta grei, e só figurar a efígie de Ornette Coleman. Fossem eles pintura e Coltrane seria Rothko: superfícies harmónicas de contornos imprecisos; Ornette evocaria Sam Francis: manchas melódicas dispersas pela periferia do campo; e Cecil Taylor igualaria Pollock: rajadas de acordes lançadas de jacto a formarem uma teia ininteligível.
Do triunvirato, Taylor foi o primeiro a dar notícia de que vinha aí algo de drástico, logo em 1956 com o seu primeiro disco “Jazz Advance” (começava então Coltrane a ser senhor de si no Primeiro Grande Quinteto de Miles e tinha Ornette acabado de conhecer Don Cherry) mas foi o último a mobilizar as atenções. Apenas quando teve azo de oficiar no templo da Blue Note, que não falha em atrair um séquito de fiéis devotos, e nele publicou “Unit Structures” e “Matador!”, ambos à uma, em 1966, é que Cecil Taylor ganhou realce, ainda assim mais apreciado e entendido entre os comungantes da música contemporânea do que os do jazz.
Este transvio não foi caso único, mas, provavelmente, há-de ter sido o mais sintomático. Taylor ajudou à dissensão, pois tal como Ellington repudiava o termo “jazz”, que, concordavam ambos, nunca depurara a sua arqueológica conotação como música de bordel e, reiterando o enjeitamento de Ornette, também alegava que “free” era expressão equívoca, por sugerir algo de aleatório em vez de indicar a noção de “alternativo”. A questão era mais profunda do que meramente semântica; a música de Cecil Taylor tinha a marca de Caim: não swingava.
À imagem da pintura, a vitalidade do jazz sempre teve como carburante a escola e a tradição. Escola, não no encolhimento académico que hoje predomina, mas na acepção em que as obras individuais, e as ideias dos indivíduos que as concebem, provêm de uma incessante conversação no seio de uma comunidade de pares, mesmo que, por vezes, a discussão induza alguém a cortar uma orelha. Do mesmo modo, a referência à tradição deve ser arrogada como necessidade e não como carência, pois tanto pode resultar em acatamento, como pode, nos casos mais proveitosos, originar reforma ou remodelação, nunca excluindo a hipótese da insurreição.
 
 

Conquistador!
1966 (2015)
Blue Note - B2-84260
Cecil Taylor (piano), Bill Dixon (trompete), Jimmy Lyons (saxophone alto), Henry Grimes, Alan Silva (contrabaixo), Andrew Cyrille (bateria).
 
 
Cecil Taylor demonstrou este padrão de arreigamento em “Jazz Advance” ao trazer à colação um estreme repertório de jazz como “Bemsha Swing” de Thelonious Monk, “Azure” de Duke Ellington ou “You’de Be So Nice to Come Home To” de Cole Porter. Que tenha decomposto este temas de maneira atonal – e de caminho, à luz da sua interpretação, haja feito de Monk um pianista comedido… – e deslaçado a sua estrutura harmónica, era prenúncio e esquisso do que planeava fazer ao jazz.
“Unit Structures” e “Conquistador!” ainda hoje se contam entre as obras mais “difíceis” do catálogo da Blue Note. Da primeira fica tudo dito no nome; a cada instrumento era dada autonomia harmónica e melódica, dissolvendo o conceito de secção rítmica, em que o contrabaixo e a bateria se restringiam a fazer de metrómano das composições. A música progrediria, então, por “estruturas” ou “energias”. O disco marcava, ainda, o início do emparelhamento do baterista Andrew Cyrille com o saxofonista alto Jimmy Lyons na célula primordial da Unit de Cecil Taylor.
“Conquistador!” leva esta proposta mais longe, embora de maneira menos formalista e mais clássica, se assim se pode dizer. O LP trazia uma liberdade expressiva que Cecil Taylor explorava até ao limite, dedicando a cada lado (cerca de 30 minutos) um tema completo. Além disso, como forma de elidir a cacofonia e de evitar que a soma das partes redundasse num todo inaudível, os elementos do sexteto assumiam à vez a condução musical, recordando a convencional relação do jazz entre colectivo e o solista. “Conquistador!” é uma obra por certo ancorada no jazz, mas bem ao largo; e nesta dinâmica foi Cecil Taylor fazendo o seu caminho das pedras.
 
José Navarro de Andrade
 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 11 de abril de 2016

A Lei da Descolonização: quatro antecedentes.

 


 
(1) Três Plenários do MFA (Junho de 1974)
         Em 5 e 8 de Junho de 1974 realizaram-se nas instalações da Manutenção Militar, em Lisboa, duas reuniões (“Plenários”) com os propósitos genéricos de reestruturar o Movimento das Forças Armadas (MFA) e reforçar os poderes da Comissão Coordenadora do Programa do MFA (CCP). No Plenário de 5 de Junho, o problema ultramarino foi acaloradamente discutido a propósito do mandato de Manuel Monge, designado por Spínola para integrar a delegação portuguesa nas conversações de Londres com o PAIGC. Na reunião de 8 de Junho abordou-se o relacionamento do MFA com as instâncias do poder criadas pelo Programa do MFA e pela Lei n.º 3/74, de 14 de Maio (que viera definir a estrutura constitucional provisória e donde o MFA, enquanto tal, não constava). Porém, também nela o tema mais controverso foi o cessar-fogo no Ultramar, agora apreciado a propósito do recente “encontro de Lusaca”, de 7 de Junho, sobre o qual foram, por escassa maioria, rejeitadas as condições para o efeito exigidas pela FRELIMO.
         Continuou sem resposta a questão de saber a quem pertenciam o poder e a competência para efeitos da programada solução política das guerras no Ultramar – se ao Presidente da República (general António de Spínola, em funções desde 15 de Maio), à Junta de Salvação Nacional (JSN), ao Governo Provisório (liderado pelo Primeiro-Ministro Palma Carlos, empossado a 16 de Maio) ou à CCP (formada pelos sete membros do MFA que haviam passado a fazer parte do Conselho de Estado como representantes das forças armadas desde 31 de Maio). Mesmo a terminologia era indefinida: “descolonização”, “autodeterminação” ou meras “conversações de cessar-fogo”.
         Seguiu-se-lhes o terceiro Plenário, em 13 de Junho, onde a questão africana voltou a estar no centro dos debates. Diferentemente dos anteriores, fora convocado por Spínola, que pretendia um voto de confiança. Fez-se acompanhar pelos ministros Palma Carlos, Sá Carneiro, Vieira de Almeida e Firmino Miguel e por alguns membros da JSN. Pelo MFA compareceram cerca de 200 elementos, representando as unidades do país. O Plenário decorreu num ambiente tenso e foi inconclusivo. De manhã, Vieira de Almeida apresentou um balanço catastrófico da situação; Sá Carneiro, após uma dissertação sobre política nacional e internacional, enunciou as duas únicas vias de solução: ou enveredar imediatamente por uma via socialista ou reforçar os poderes do Presidente da República e adoptar medidas de emergência. De seguida, Spínola pôs à consideração duas hipóteses: ou o Movimento lhe conferia confiança absoluta ou pediria a demissão imediata. Após o intervalo para almoço, abriu-se uma discussão confusa de que terá resultado uma aparente posição de apoio do MFA a Spínola – o qual, ainda no decurso da intervenção em causa,  levantou-se, agradeceu e retirou-se, no que foi secundado pelos restantes membros da JSN. No dia seguinte, perante esta saída inopinada (e os fundados temores de dissolução do MFA e declaração do estado de sítio), realizou-se uma reunião restrita entre o Presidente da República e os membros da CCP e o efeito da saída “triunfal” de Spínola da Manutenção Militar terá sido anulado.
Portanto, além do confronto aberto entre as duas correntes do MFA, este Plenário de 13 de Junho também não atenuou a instabilidade da situação “pré-revolucionária” – que, no princípio de Julho, desembocaria na chamada “crise Palma Carlos”. 
 

 
 
(2) O discurso de Spínola, de 11 de Junho   
         Dois dias antes, na posse dos Governadores-Gerais de Angola e Moçambique, general Silvino Silvério Marques e Dr. Soares de Melo, Spínola insistira na proposta de um cessar-fogo imediato e num longo período prévio à organização de um referendo com várias opções possíveis. Centrou-se na clarificação do conceito de autodeterminação. Entendia que não seria aplicável apenas aos territórios africanos, visto que o “25 de Abril” fora, no fundo, a retomada daquele direito pelo povo português. Tão-pouco se poderia dissociar autodeterminação de independência política «pois que, na sua essência, um povo independente é aquele que, democrática e autodeterminadamente, escolheu e votou as leis por que deseja reger-se». O reconhecimento do direito dos povos à independência política seria pois «redundante», uma vez que se encontrava implícito no conceito de autodeterminação com aceitação das consequências «sejam elas quais forem». A eventual independência imediata seria «uma gritante negação dos ideais democráticos» e o direito das populações dos territórios africanos a autodeterminarem-se conduzia, portanto, a um programa de descolonização com quatro pontos: i) restabelecimento da paz; ii) reconstrução e desenvolvimento acelerados; iii) implantação de amplos esquemas democráticos de participação e de uma acelerada regionalização das estruturas políticas, económicas e sociais; iv) recurso à consulta popular como fórmula final de corporização dos princípios. Para obter o imperativo cessar-fogo prévio, invocava uma “paz dos bravos” e a «legitimidade do ideal em que se fundamentam os objectivos que animaram as partes em luta».
         Spínola entrava num campo estritamente especulativo e, em artigo publicado no Diário de Lisboa, de 23 de Julho de 1974, Eduardo Lourenço veio chamar a atenção para gravidade deste discurso. Primeiro, porque mostrava que a África continuava a ser o centro da política portuguesa. Depois, porque estava a garantir solenemente às minorias brancas portuguesas que a mãe-pátria não as abandonaria. Mas, omitindo a concreta situação revolucionária, a formulação de Spínola esquecia o risco da radicalização do processo de luta pela independência «até ao ponto de tornar impossível essa coexistência que se pretende salvaguardar». Segundo Eduardo Lourenço, impunha-se assentar numa só política africana – nomeadamente, estabelecer que «conceitos tão capitais como autodeterminação e independência têm exactamente o mesmo sentido para os responsáveis da nossa descolonização»  – e, ainda, assentar no que era negociável. Consequentemente, incrédulo e legalista, perguntava se era «possível falar em independência como solução à vista e induzir assim a opinião pública nacional e internacional em miragens, quando na Constituição ainda vigente, a Guiné, Angola e Moçambique são declarados parte integrante do território nacional?». Havia, pois, que rever.
 

 
 
(3) As alterações (constitucionais) Palma Carlos
         As divisões quanto às vias da solução política da guerra, os confrontos entre Spínola e a CCP, a dispersão dos centros de poder, o movimento social interno, as reivindicações relativas à questão colonial iriam levar à queda do I Governo Provisório. A crise agravou-se quando Palma Carlos – que apoiava os eixos fundamentais da política spinolista para África e considerava que uma das causas da inoperância do Governo resultava de o Primeiro-Ministro estar reduzido ao papel de mero coordenador – tentou uma revisão do Programa do MFA e da Lei nº 3/74, de 14 de Maio. Aparentemente, pretendia um “golpe de Estado constitucional”, no que foi impedido pelo Conselho de Estado.
         A iniciativa de Palma Carlos consistiu na entrega em 5 de Julho de dois documentos ao Presidente da República. O Documento 1 fazia “Apreciações ao Programa do MFA” e uma análise política da conjuntura. O Documento 2 continha “A proposta de alterações à lei constitucional”, que se desdobrava em dois articulados: I - “Intervenção directa do povo no processo político”, onde, nomeadamente, se previa a votação por referendo a realizar até 31 de Outubro de 1974 de uma Constituição Provisória (sendo, consequentemente, adiadas as eleições para a Assembleia Constituinte) e, em simultâneo ao referendo constitucional, a eleição por sufrágio universal do Presidente da República; e II – uma relação de várias “Normas constitucionais” com alterações imediatas à Lei n.º 3/74 e o alargamento dos poderes do Primeiro-Ministro.
         Naquele Documento I concluía-se que se não «existissem as guerras poderia ser ensaiado um esquema de autodeterminação semelhante ao praticado pela França aquando da aprovação da Constituição de 1958 [...]. A Constituição, feita com a participação de representantes de todos os territórios portugueses – segundo o duplo princípio do sufrágio universal (one man, one vote) e da correspondência entre o número de habitantes e o de deputados – seria submetida a referendo em cada um deles, entendendo-se que aqueles que a aprovassem continuariam ligados a Portugal e aqueles que a rejeitassem adquiririam automaticamente a independência. As guerras vindas de há mais de dez anos e as próprias negociações com os movimentos emancipalistas tornam, contudo, evidentemente inviável este esquema».
         Assim, a proposta de Constituição Provisória apresentada por Palma Carlos contemplava, quanto aos territórios ultramarinos, dois princípios fundamentais:
                   a)- o princípio do reconhecimento por Portugal, «de acordo com a Carta das Nações Unidas», do direito à autodeterminação «com todas as suas consequências, incluindo a independência, aos territórios portugueses da África e da Ásia» (artigo 2.º, n.º 2);
                   b)- os deputados da futura Assembleia Constituinte – a eleger, nos termos da Constituição Provisória, até 30 de Novembro de 1976 – seriam também eleitos «pelos territórios que, em virtude do exercício do direito à autodeterminação, tiverem optado por qualquer forma de ligação política com Portugal» (artigo 2.º, n.º 6).
Afastava-se, portanto, a solução federativa via referendo constitucional e reconhecia-se expressamente o direito à independência. Essencialmente, o Programa do MFA era abolido, ganhava-se tempo, Spínola passaria a ter uma legitimação directa e própria, tentava-se impor uma descolonização controlada e limitada.
 
(4) As reuniões do Conselho de Estado (de 5 a 9 de Julho)
As propostas de Palma Carlos começaram a ser apreciadas na reunião do Conselho de Estado de 5 de Julho e foram debatidas durante todo esse fim-de-semana pelo que o desfecho da crise só foi consumado na sessão de 8-9 de Julho. Entretanto, a 7 de Julho, realizara-se uma reunião alargada de elementos do MFA, onde, além das divergências entre Spínola e a CCP, foi decidida a posição a assumir no Conselho de Estado.
 Na reunião de 8 de Julho, o Conselho de Estado rejeitou, por maioria, as propostas de referendo e eleição presidencial antecipada, mas aprovou, por unanimidade, o alargamento dos poderes do Primeiro-Ministro (Lei n.º 5/74, de 12 de Julho). Palma Carlos apresentou o imediato pedido de demissão, que reiteraria firmemente quando soube que naquela reunião do Conselho de Estado também havia sido aprovado «um diploma que permitia a descolonização sem consulta prévia às populações indígenas».
No dia seguinte, o Conselho de Estado voltou a debater o problema ultramarino e aprovou a primeira versão da Lei da Descolonização, que não chegou a conhecimento público. Teve, aliás, até à sua publicação em fins de Julho como Lei n.º 7/74, um percurso deveras atribulado (ver, a propósito, o post, de 24 de Agosto de 2015, aqui publicado, Spínola e as três versões da Lei da Descolonização).
 
 
António Duarte Silva