sábado, 11 de junho de 2016

Aquilo que aprendi.

 
 
 
 
 
         No seu número de Janeiro de 2004, a Esquire publicou «What I’ve Learned», um depoimento de Muhammad Ali que aquela revista recuperou agora, por ocasião da morte do pugilista, e gentilmente cedeu aos seus assinantes.
 
* * *
 
 
Deus não coloca um fardo sobre os ombros de um homem sabendo que este não o consegue carregar.
 
O Parkinson é o meu combate mais duro. Não, não provoca dor. Estou a ser testado para ver se continuarei a rezar, se serei capaz de manter a minha fé. Todos os grandes homens são testados por Deus.
 
O sol está sempre a brilhar nalgum lugar.   
 
Regressei a Louisville depois das Olimpíadas, com a minha reluzente medalha de ouro. Fui a uma cafetaria onde os negros não podiam entrar. Pensei que ia pô-los no lugar. Sentei-me e pedi uma refeição. O campeão olímpico envergando a sua medalha de ouro. «Aqui não servimos negros». Respondi: «está bem, também não costumo comê-los». Puseram-me na rua. Então, fui até ao Rio Ohio e atirei para lá a medalha de ouro.
 
Desde esse dia, as coisas na América mudaram 100 por cento
 
Quando tens razão, ninguém se lembra. Quando estás enganado, ninguém se esquece.
 
O silêncio é de ouro quando não consegues pensar numa boa resposta.
 
Temos só uma vida / Em breve será passado / O que fazemos por Deus / É aquilo que perdurará.
 
Bondade? A minha mãe.
 
Quando a tua mãe morre, é uma dor imensa. Mas com o passar do tempo irás acostumar-te. É a lei da natureza.
 
A minha definição de mal é inimizade.
 
A melhor forma de conseguires que os teus sonhos se realizem é levantares-te.
 
A comédia é uma forma divertida de ser sério. O meu modo de fazer humor é dizer a verdade. Essa é a piada mais divertida do mundo.
 
O campeão mundial de pesos-pesados é capaz de estar com uma mulher.
 
O amor é uma rede que apanha corações como as redes apanham os peixes.
 
Rubble is trouble.
 
Quanto mais ajudamos os outros, mais nos ajudamos a nós próprios.
 
Gosto do Joe.
 
Ver o George regressar e ganhar o título entusiasmou-me. Fez-me também desejar o regresso. Mas, quando chegou a manhã do dia seguinte e era hora de começar a correr, continuei deitado na cama e pensei: «Tudo bem, continuo a ser o Maior».
 
Se sou capaz de me encontrar com alguém? O profeta Maomé.
 
Aquilo em que estás a pensar é aquilo em que te irás tornar.
 
Estou muito orgulhoso da minha família.
 
Goza os teus filhos, mesmo que não se comportem como desejarias.
 
Acender aquela tocha em Atlanta não me pôs nervoso. Ficar defronte das autoridades – isso é que me pôs nervoso.
 
Sabedoria é saberes quando não és capaz de ser sábio.
 
A única coisa que não compreendo é a guerra.
 
         Cismar nos nossos disparates é o maior disparate.
 
Gostava de viver até aos cem anos.
 
Só gostava que as pessoas amassem as outras como me amam a mim. O mundo seria melhor.
 
Muhammad Ali
 
(tradução de António Araújo)
 
    

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Época Balnear.


 


 

Amar e amar,

há vir e voltar.

 
 

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Atenção: se beber álcool não vá a banhos. A água arruína a bebida e pode causar uma paragem de digestão.
 

 

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Tome banho antes e depois de ir à praia. Se não for à praia, tome banho na mesma.



 

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Uma Bola de Praia e uma Bola de Berlim não são a mesma coisa e nenhuma serve para jogar futebol. 

 
Fotografias de Martin Parr
 

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Mais vale água-pé do que um pé na água. A água-pé não tem peixe-aranha.

 

 

Ricardo Álvaro




quinta-feira, 9 de junho de 2016




impulso!

100 discos de jazz para cativar os leigos e vencer os cépticos !

 

 

# 72 - GRANT GREEN

 
Fotografia de Francis Wolff
 
 
Grant Green é tudo o que um artista maldito deveria ser, condição que no jazz é electiva. Em vida nunca recebeu apreço na medida que os seus tardios entusiastas acham ser-lhe devida e, no entanto, teve um itinerário musical nada obscuro, decorrido à luz da Blue Note que lhe deu quase 30 capas e na qual foi guitarrista residente, participando, portanto, em incontáveis sessões. Por azar etário Grant Green foi contemporâneo de alguns dos grandes guitarristas do jazz, num dos seus períodos mais exuberantes, pelo que o esplendor coevo de Kenny Burrell, Wes Montgomery ou George Benson, ter-lhe-á mitigado o brilho. Mas o seu estilo melódico nota-a-nota, sem grande sofisticação harmónica e a sua constante remissão para a singeleza dos blues, numa época em que primavam os rasgos e as rupturas como se tudo estivesse por inventar, em nada lhe facilitaram o reconhecimento. E mesmo quando este veio, muito puxado pelos admiradores, ainda assim só a ele aderiu quem concordou que não era simplória a simplicidade de Grant Green. A estas contrariedades a um pleno reconhecimento acresce que boa parte da discografia de Green, sobretudo a terminal, é assaz negligenciável; o vício da heroína e os concomitantes problemas de saúde – que acabariam com ele aos 43 anos – devoraram-lhe qualquer vintém ganho e obrigaram-no a uma incessante e pouco criteriosa actividade.
           Trazer, então, Grant Green à colação é reiterar que no firmamento do jazz não cabem só constelações, isto é, aqueles músicos prodigiosos que disco após disco desenham uma forma e uma obra coerente, mas também estrelas solitárias, os intérpretes que num relâmpago de inspiração se redimem da fieira de fracassos e da menoridade que doutro modo os sujeita.
 

Idle Moments
1965
Blue Note - 7069
Grant Green (guitarra), Joe Henderson (saxofone tenor), Duke Pearson (piano), Bobby Hutcherson (vibraphone), Bob Cranshaw (contrabaixo), Al Harewood (bateria).
 
 
Se “Idle Moments” é todo ele recomendável, a composição que lhe dá o título é memorável. Como tantas vezes sucede, a mão invisível do acaso intercedeu de maneira decisiva. Cerca da meia-noite do dia 4 de Novembro de 1963 faltava ainda preencher 7 minutos da duração do disco, depois de terem sido gravados os temas “Nomad”, “Jean de Fleur” e “Django.” Todos concordaram em interpretar “Idle Moments”, a composição escrita e proposta pelo pianista Duke Pearson, suficientemente lânguida para não causar sobressaltos. Mas o adiantado da hora trouxe aos músicos aquela combinação de fadiga e adrenalina que, nas mais raras e favoráveis circunstâncias, os torna descontraídos, à beira de um enlevo, tanto como imparáveis. Assim foi que Grant Green se distraiu ou se deixou levar e em vez dos combinados 32 compassos, solou durante 64; sem pestanejar, os acompanhantes seguiram-no e intervieram com igual desenvoltura. No fim “Idle Moments” prolongara-se por 15 minutos que seria crime desarranjar. No dia seguinte regressaram ao estúdio para regravar os restantes temas do disco com durações mais curtas.
Há acontecimentos que fazem História em menos tempo do que “Idle Moments”, porque não haveria então este momento de ter lugar na história do jazz?
 
 
 
José Navarro de Andrade

terça-feira, 7 de junho de 2016

O regresso do Vampiro.

 
 
 


 
A Colecção Vampiro regressou de entre os mortos para trazer de volta um dos catálogos mais divertidos e com um arranjo gráfico que, ainda hoje, é revolucionário.  
 
As colecções do passado
 
Já aqui escrevi sobre a difícil relação que o mercado editorial português parece manter com o seu passado. Estas lacunas na memória editorial têm apartado os publicadores de uma saudável relação e, até mesmo, de uma lógica de continuidade com os grandes catálogos de que algumas editoras dispunham. É inegável que esta ausência de memória nos tem toldado as perspectivas e feito caminhar de costas voltadas para um passado que, muito mais do que mencionado, merece ser lido, tanto melhor quanto mais essa leitura seja feita contra o presente, contra a obsessão infundada pelos novos autores, contra os mais recentes prodígios editoriais ou êxitos de venda importados. Este passado editorial representa uma riquíssima herança para os actuais fazedores de livros, tanto pelos catálogos como pelas colecções em que estes muitas vezes se subdividiam.
As colecções, quando pensadas e estruturadas sob mais critérios que somente o género literário, quando reveladoras de uma atitude estética e de selecção coerente e ponderada, dão às editoras algo que os grandes grupos têm tido uma enorme dificuldade em lograr, uma identidade. A colecção da Relógio d’Água de formato económico e dedicada aos clássicos, bem como as diversas que a Tinta-da-China mantém são disto um excelente exemplo. Contudo, são recentes e, mais que isso, quase nenhuma das grandes colecções do passado sobreviveu até aos dias de hoje sem um sacrifício mais do relevante da sua identidade.
De entre as diversas colecções dignas de menção, talvez a mais icónica tenha sido, pelo menos no que ao aspecto gráfico diz respeito, a célebre Colecção Vampiro, editada pela Livros do Brasil, ainda hoje, e sem grande polémica, a mais reconhecível e meritória colecção no universo da literatura detectivesca. Quem se interessa por livros em Portugal reconhecerá de imediato os volumes da Colecção Vampiro, principalmente daqueles caixotes de exemplares a 1 e 2 euros, seja nos vendedores de fim-de-semana da Rua da Anchieta, nos alfarrabista ou em qualquer pessoa que tenta ganhar uns trocos a esvaziar as estantes herdadas dos pais. O império das vendas por atacado que estes livros representam, ainda hoje disponíveis para venda em alfarrabistas, mostra a enorme popularidade que esta colecção chegou em tempos a ter, tal como demonstra que, actualmente, a grande maioria dos seus volumes não estão particularmente valorizados no mercado dos livros antigos.
 
Antigas e novas andanças do Vampiro
Num gesto tão inesperado quanto saudavelmente conservador – ainda para mais num grupo como a Porto Editora, que incorpora quase cabalmente o mantra do empreendedorismo literário, se é que estas duas palavras podem ser acopladas sem danos cerebrais significativos para quem as pronuncia – decidiu ressuscitar a Colecção Vampiro na mesmíssima Livros do Brasil, actualmente uma das chancelas do conglomerado.
A Vampiro nasceu em 1947, com Poirot Desvenda o Passado de Agatha Christie, ao qual se seguiram cerca de setecentos livros, naquela que é, provavelmente, a mais prolífica colecção editorial portuguesa, e que durou até 2007, altura em que foi posta a dormir, depois de uns últimos anos de escolhas contestáveis e de claros retrocessos no impecável formato de bolso e nas emblemáticas capas que tinham tornado reconhecível a colecção.
Admitindo que muito do sucesso da Colecção Vampiro está relacionado com os gostos da época – vivíamos na época de ouro das novelas detectivescas –, certamente a sua estética única e imediatamente identificável, mesmo por quem ainda nem estava vivo quando o seu catálogo reinava, há-de ter jogado um papel central no fenómeno Vampiro. Isto terá acontecido sobretudo no formato de bolso (105x160), de tons predominantemente negros e onde as excepcionais capas de Cândido Costa Pinto ou Lima de Freitas fascinaram a grande maioria dos seus compradores e leitores, e que as colecções de policiais posteriores a serem editadas em Portugal, como a Xis e a Escaravelho de Ouro, nascidas na década de cinquenta, procuraram emular.
As singulares e tantas vezes desconcertantes capas – mais as de Costa Pinto, membro do Grupo Surrealista de Lisboa e um dos grandes nas artes gráficas nacionais –, chocavam com a simplicidade e, claro, a pobreza dos meios utilizados, não envergonhando as fabulosas revistas e seriados pulp norte-americanos dos anos vinte e trinta, que em parte a inspiraram, como a Weird Tales[1], a Astounding Stories[2] ou a Pocket Books, esta última publicada desde o fim dos anos trinta e com capas semelhantes. Em alguns casos Costa Pinto chega mesmo a mergulhar no profundo do plágio, como acontece com capa de A Mão Decepada, de Joel Townsley Rogers, que copia quase integralmente a capa do mesmo título na Pocket Books, como refere Henrique Valle num texto publicado no Malomil [3].
Sem prejuízo disto, Costa Pinto é, na e para a Vampiro, o autor de algumas das melhores capas da edição em Portugal, como acontece em O Caso das Garras de Veludo ou em O Caso do Olho de Vidro, ambos de Erle Stanley Gardner, em O Santo no Mar Alto, de Leslie Charteris, ou naquela que é, provavelmente, a mais exemplar capa do autor para a Vampiro, em O Assassinato de Roger Ackroyd, de Agatha Christie.
Esta segunda vida da Vampiro é agora reiniciada com S. S. Dine, em Os Crimes do Bispo, e com Ellery Queen, em Vivenda Calamidade, dois dos autores mais reconhecíveis e repetidos de um vasto catálogo de centenas e centenas de obras, juntamente com, só para citar alguns nomes, George Simenon, Raymond Chandler ou Rex Stout, para além dos já referidos Erle Stanley Gardner e Agatha Christie, e com alguns dos investigadores de papel e tinta mais eficazes e implacáveis da história da literatura, como Philip Marlowe, o detective imortalizado por Humphrey Bogart e com mais rápido nas ironias e nas piadas do que com as mãos num revólver, o picuinhas e vaidosíssimo Hercule Poirot, a metediça Jane Marple ou Perry Mason, o causídico que induziu em erro gerações e gerações de aspirantes a advogados no mundo real.
Podendo até questionar as qualidades literárias de uma parte significativa de um catálogo invulgarmente vasto e dedicado a géneros que pela popularidade ou pela marginalidade sempre ficaram um pouco longe do panteão literário, há que reconhecer que, dentro do género detectivesco, a Vampiro conta com um elenco notável e com obras que são, por direito próprio, bons momentos da literatura, como é o caso de O Falcão de Malta, de Dashiell Hammett, um portento entre as novelas policiais. E, não se resumindo ao universo policial, a Vampiro deu também a conhecer alguns autores importantes dentro dos géneros fantástico e pulp, como é o caso de H. P. Lovecraft, cujo Os Mortos também Voltam, publicado pela Vampiro, foi o primeiro livro do grande mestre do horror do século XX a ser editado em português.
 
 
 
 
 
Ficar morto entre os mortos?
No passado dia 23 de maio, quase nas vésperas da abertura oficial da Feira do Livro de Lisboa de 2016, a Porto Editora anunciava da seguinte forma a recuperação da Vampiro, num comunicado publicado no site e onde vinha incluído o seguinte parágrafo:
A merecer a atenção dos leitores estará, certamente, o regresso da emblemática coleção Vampiro, da Livros do Brasil, que se iniciará com dois livros: Os Crimes do Bispo, de S.S. Van Dine (n.º 1) e Vivenda Calamidade, de Ellery Queen (n.º 2). Numerados, em formato de bolso e com um preço acessível – como sempre foi característico desta coleção criada no final dos anos 40 do século passado e que marcou gerações de leitores e a própria história da edição em Portugal.
Dar uma nova vida àquilo que já esteve morto, como tanta literatura de horror testemunha, é sempre perigoso. Mesmo no domínio metafórico da necromancia a que aqui nos circunscrevemos, não nos podemos furtar ao questionamento: que sentido faz recuperar uma colecção a que o eufemismo jornalístico do “morreu de doença prolongada” se pode aplicar na perfeição?
Mantendo ainda a brincadeira e analogia com o horror, o problema do zombie canónico do cinema não é o facto de comer cérebros ou o seu aspecto desconjuntado e andrajoso, mas sim o simples detalhe de que aquilo que regressa é de uma natureza diferente daquilo que partiu. O cerne da questão está, neste momento, e prende-se com o futuro da colecção e com o rumo que a Porto Editora pretenda dar a este catálogo. Se nova será Vampiro uma mera reposição do catálogo anterior ou se conseguirá seleccionar o que de melhor e menos disponível existe entre os seus autores, se será uma espécie de arca de enxoval ou se será capaz de dar continuidade ao catálogo e incluir novos autores que estejam hoje a escrever nestes mesmos géneros, isto é o que verdadeiramente interessa.
 
 
 
 
Estes dois livros editados permitem-nos, contudo, algumas conclusões. O formato de bolso é mantido, embora agora num 110x170, ligeiramente maior que o formato original. O mesmo, contudo, não acontece com as capas que, nesta nova Vampiro, são substituídas, pelo menos a julgar pela pequeníssima amostra disponível. E, tanto no caso de Ellery Queen como de S. S. Dine, infelizmente, substituíram duas das capas mais interessantes da colecção por desenhos sem qualquer ponto de contacto com o charme, o impacto e a graça dos originais.  
Pelo contrário, as traduções, uma Némesis demasiado frequente da Vampiro, mantêm-se. Este era um dos pontos mais críticos do catálogo, com enormes, frequentes e tantas vezes inexplicáveis problemas de tradução, com especial destaque nos títulos, que em português, muitas vezes, só se entendiam mesmo pela pura piada, como é caso do já referido Os Mortos Também Voltam, de H. P. Lovecraft, duplamente bizarro porque traduz para português o complicadíssimo título original The Case of Charles Dexter Ward (só era preciso mudar três palavras) e porque escolhe um título tão apropriado e distintivo para este conto do autor norte-americano que, à primeira vista, tanto poderia ser para este texto como para pelo menos mais uma meia-dúzia de textos de Lovecraft que tratam de pessoas/coisas que regressam da morte, como The Thing in the Doorstep, Herbert West Reanimator, Statement of Randolph Carter ou The Unnamble, isto para não falar do nada consensual À Beira do Abismo, versão portuguesa de The Big Sleep ou do incompreensível O Barco da Morte, a “tradução” para português de Death on the Nile, de Agatha Christie, em que o tradutor estava provavelmente a tentar mostrar ao editor que leu mesmo o livro.
Ambos os livros agora editados mantêm as traduções originais, apenas reformuladas ao acordo ortográfico aplicado pela Porto Editora e oriundas de um tempo em que as pessoas, em português, ainda praguejavam com um “caramba” iam a “sorveterias” e consideravam algumas coisas uma “tolice”. Em abono da verdade, os casos específicos das traduções de Vivenda da Calamidade e Os Crimes do Bispo não apresentam problemas de maior, mas, como se disse, há no catálogo da Vampiro autênticos desastres na arte de transpor um texto para uma outra língua.
 
 
 
 
 
Em suma, pretender republicar acriticamente e sem critérios de selecção o catálogo da Vampiro é absurdo, pelo que se espera que tal ideia não passe, de todo, pelos planos da Porto Editora. Muitos dos seus autores são hoje fósseis de um tempo e de um gosto sem qualquer comunicação com a actualidade. Há obras que merecem ser revisitadas, mas, mesmo dentro dos géneros em que a Vampiro tendeu a limitar-se, há ainda muito inédito por explorar. Esperemos que seja um catálogo com vocação para a continuidade, em vez de um mero museu de parte do kitsch português da segunda metade do século XX.
 
(uma versão mais reduzida deste texto foi publicada no jornal i,
de 2-VI-2016)
 
David Teles Pereira

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Um só mundo.

 
 
 
 
Já se falou muito aqui de crowdfunding na área da fotografia. Depois de Condor, do João Pina, a semana passada tivemos em estúdio a Céline Chaille e o seu maravilhoso álbum imaginário.  
Hoje traz-se, com urgência, o anúncio de um outro projecto de crowdfunding. O prazo está a terminar e – imagine-se!− o Mário Cruz, o nosso mais recente World Press Photo, ainda não recolheu os fundos necessários para concretizar algo que… está ao alcance da sua mão, caro leitor, à distância de um clique… (pois, pedinchice descarada, mas a causa é mais do que justa). 
O Mário esteve a semana passada na Guiné-Bissau, a sensibilizar a sociedade guineense para este problema, que também a afecta. Passou lá o Dia da Criança, enquanto cá, e muito bem, as nossas crianças se divertiam, brincavam e riam. As minhas filhas jantaram pizza.
 


 
 
 
 
No Senegal não é assim. O Mário Cruz quer mostrar que não é assim. Quer mostrar, num livro em inglês e em árabe, que no Senegal existem crianças escravizadas nas daaras, as escolas de aprendizagem do Corão. Não são duas nem três: são cerca de 50 mil crianças. Leu bem: cerca de 50 mil crianças, entre os cinco e os quinze anos de idade. Leu bem: entre os cinco e os quinze anos de idade. Levadas de casas de seus pais, aprisionadas em escolas com grades, passam oito horas por dia a recitar versículos – bem satânicos, neste caso. Muitos dos professores exploram-nas, obrigando-as a trabalhar nos intervalos, quando deviam estar a divertir-se, a brincar e a rir, como as nossas crianças no Dia da Criança.
 
 
 
 
É difícil imaginar o esforço tremendo que o Mário Cruz teve para localizar as crianças-escravas do Senegal e para conseguir fotografá-las. Só por isso, que é tanto e muito, já merecia um prémio. Mas não é um prémio que o Mário quer, nem a vaidade que o mobiliza. Prémios já tem que baste. Agora pretende apenas publicar um livro, um livro que mostre ao mundo – em inglês e em árabe, insiste-se – algo que o mundo teima em não ver. O mundo da escravatura infantil do Senegal. Aqui em baixo, tem a caixa de comentários para louvar ou escarnecer. Podem elogiar ou insultar, não se censura nada. Gozam os senhores leitores de inteira liberdade para dizer o que quiserem. A liberdade que falta a 50 mil crianças no Senegal. Por isso, antes de avançar já para a caixa de comentários, passe por aqui s.f.f. e deixe o seu contributo na caixa do crowdfunding. O Mário agradece e eu também, mas as crianças do Senegal agradecem ainda mais. Elas estão nas suas mãos, literalmente. 
Et voilá o link, com urgência: