sexta-feira, 8 de abril de 2022

A Mãe de Brejnev (2ª parte) (publicado em 24/2/2014 - reposição)

 

 
 






Prosseguindo o périplo pela Mão da Pátria (ou Mãe de Brejnev), pedia apenas que vissem o vídeo acima. Dura só 46 segundos e dá uma ideia muito aproximada da estátua de que estamos a falar – e até que ponto, já lá iremos, tudo isto nos pode ajudar a compreender o que nestes meses, dias e horas está a ocorrer na Ucrânia. No momento em que escrevo estas linhas, não se duvide, está a jogar-se ali o futuro da Europa, por muitas e muitas décadas. Quem não quiser ver o vídeo, tem aqui uma galeria de imagens do local onde se situa a Mãe da Pátria, o Complexo Memorial da Grande Guerra Patriótica. Em alternativa, vai infra uma selecção inquestionavelmente excessiva da estátua, concebida no início dos anos setenta por Yevgeny Vuchetich mas só inaugurada em 9 de Maio de 1981, sob a presença tutelar do secretário-geral do PCUS, Leonid Brejnev. Começamos com umas imagens dos planos de edificação, da autoria do arquitecto Vasyl Borodai, para nos fixarmos depois na escultura, que merece ser bem vista. É irreal de gigantesca.
 
 


 
 
 
 



 
 

 
 

O que impressiona e surpreende é que, no desenho, pouco parece ter mudado relativamente à estatuária monumental clássica do realismo soviético, da década de trinta. Em quarenta anos, naquilo que parece ser uma metáfora do regime que serviam, nada evoluiu ou mudou na concepção daquelas figuras tão majestosas e serenas. A estátua de Vuchetich em Berlim, do soldado com uma criança ao colo, foi inaugurada em 1949. Mas, na substância, a traça permanece a mesma nesta Mãe da Pátria, que foi oficialmente aberta ao público em 1981. Existem dois elevadores acessíveis ao público, que levarão os turistas até a uma plataforma situada ao nível de 36 metros. Mas é possível ir mais acima. Do alto, contempla-se Kiev e os seus arredores, a curva do Dniepre. E para quem diz que tudo aquilo, à semelhança de outra obra de Vuchetich, A Mãe-Pátria Chama!, em Volgogrado, pode estar na iminência de ruir, a página oficial do Complexo da Guerra Patriótica é peremptória, garantindo que a estátua é constantemente monitorizada e perfeitamente segura. Curiosamente, o nome de Vuchetich não é citado a propósito da estátua, só se fala de Borodai. Porquê? Resposta aparentemente fácil: porque era ucraniano, nascido em Dnipropetrovsk em 1917, membro da Academia de Artes da Ucrânia, herói da Grande Guerra Patriótica, secretário da Sociedade Artística da Ucrânia, galardoado com o Prémio Lenine. Simplesmente, Vuchetich também era ucraniano (e, por sinal, também de Dnipropetrovsk, à semelhança da recentissimamente reabilitada Yuliya Tymoshenko). A página oficial do Complexo de Guerra Patriótica alude fugazmente ao  nome de Vuchetich quando fala da planificação geral do monumento. Mas a paternidade da estátua é atribuída a Borodai. Vejamos a matriarca a partir dos céus, com fotografias e um vídeo a terminar a excursão:
 




 

 
 
 
 
 
 

Num breve parêntesis sobre a Ucrânia, que está na ordem do dia, devemos recordar que, até há pouco, Kiev possuía um dos MacDonald’s  mais frequentados do mundo: junto à estação de comboios, era o terceiro MacDonald’s mais visitado em todo o planeta, atendendo cerca de dois milhões de pedidos por ano. Para quem gosta destes números, lembre-se também que os ucranianos são dos povos que mais bebem álcool em toda a Terra , ficando apenas atrás dos moldavos, dos russos, dos húngaros e dos checos. Nos processos-crime, a taxa de condenações situa-se também em valores elevados (90%), bastante acima da média europeia, com uns tolerantes 30 a 40%. Quando formalmente se libertou da tutela soviética, existiam na Ucrânia quase 20 milhões de porcos. O número reduziu-se significativamente, e, apesar da fama, um ucraniano consome hoje, em média, 18 quilos de carne de porco por ano, três vezes menos do que um alemão. 
Quanto à estátua Mãe da Pátria, seria de esperar que existissem milhares de recriações e pastiches, mas encontrei pouca coisa, apenas uns postais e as habituais medalhas comemorativas. Existe, todavia, uma escultura que segue de perto a Mãe de Brejnev. Chama-se Sabre de Luz, foi feita em 1992-1994 por Hartmut Skerbisch (1945-2009) e está situada junto ao edifício da Ópera de Graz, na Áustria. É uma obra muito desenxabida, na minha modesta opinião.   
 
 
 



Hartmut Skerbisch, Lichtschwert («Sabre de Luz»)
 


Além de uma performance algo apatetada de um grupo de rapazolas, que fez desaparecer e reaparecer a estátua ao jeito de David Copperfield, em Março de 2011 algumas activistas do Grupo Femen decidiram manifestar-se no seu habitual modo provocatório:


 

 

Parece existir, portanto, alguma indefinição quanto à autoria da estátua. A Wikipedia e outras fontes atribuem-na a Vuchetich. A página oficial do Complexo de Guerra Patriótica pende sem duvidar para o nome de Vasyl Borodai. Aliás, se virmos este vídeo, de onde consta a já insuportável comparação fanfarrona com a Estátua da Liberdade, parece ser essa a versão oficial. Mais ainda: em alguns locais, como aqui, e sobretudo no site de Borodai, reclama-se para este, sem pestanejar, a criação da Mãe da Pátria, chegado-se a exibir o modelo e muitos pormenores da edificação. Ora, isso é natural, uma vez que os trabalhos de construção só se iniciaram após a morte de Vuchetich. Mas, a ser verdade que a estátua foi concebida por Borodai, cai por terra a ideia de que o autor da famosa e esmagadora A Mãe Pátria Chama!, de Volgogrado, é o mesmo de  A Mãe da Pátria, de Kiev. 
 
 





 
 
 
 

Da autoria de Borodai é, indubitavelmente, a estátua aos fundadores de Kiev, que fica nas imediações do Memorial à Grande Guerra Patriótica.

Ladya, assim se chama o monumento. Erguido à glória dos quatro irmãos que, segundo a lenda, fundaram Kiev: Kiy, Sckek e Koriv, juntamente com a sua irmã Lybid. O mito fundador da capital da Ucrânia pode ser lido em vários lugares, como este.
 

 
Vasyl Borodai, Ladya



Os ucranianos têm tal afecto por esta lenda que, em Kiev, possuem duas estátuas que a evocam. A mais recente, na Praça da Independência, situa-se no preciso local onde tanta gente foi morta nos últimos dias.



A estátua dos Fundadores de Kiev, na Praça da Independência,
nos confrontos dos últimos dias

 
Outra, a original, nas imediações da Mãe-Pátria, foi concebida por Vasyl  Borodai, com arquitectura de Nikolay Feshenko. A estátua foi feita algo às pressas, a tempo de ser o ponto alto das comemorações dos 1.500 anos de Kiev, em 1982. De início, pensou-se em algo muito grandioso, talvez mesmo em colocar os founding brothers no cimo de um pedestal de 100 metros de altura. Na altura da verdade, foi-se para um orçamento mais modesto e razoável – e, ainda assim, a estátua foi inaugurada com numerosas imperfeições, com destaque para as figuras serem em cobre e não em bronze, como desejava Borodai. Há uma história comovente em torno desta escultura: a figura feminina, Lybid, foi inspirada na filha do escultor, Galina, também ela artista – pintora –, falecida prematuramente. Borodai homenageou a sua filha figurando-a como Lybid. Numa noite de Fevereiro de 2010, justamente por serem em cobre e terem ganho verdete, as figuras não resistiram ao frio gelado. Apenas uma das estátuas permaneceu intacta: a de Lybid.

 
Vasyl Borodai (1917-2010)
 
Vasyl e Lybid (ou Galina)


A inauguração, em 1982

 
 
Iniciaram-se de imediato os trabalhos de reparação, mas Vasily, na altura com 94 anos, não resistiu. Morreria 55 dias depois do desastre, devastado pela culpa, sem ter podido ver a reinauguração da sua obra, ocorrida em Maio desse ano.
 

A reparação da estátua, 2010
 
Quanto à disputa da paternidade da Mãe Pátria, é questão secundária. Dizem alguns, e talvez com razão, que Borodai concretizou aquilo que tinha sido idealizado pelo génio de Vuchetich. Assim, é possível chegar a acordo, alcançar a paz. Para mais, a aconselhar a harmonia, lembre-se que o local onde fica a tão amada Ladya, de gosto algo duvidoso, é um dos cenários por excelência das fotos casamenteiras dos habitantes de Kiev.
 
 
Borodai é ainda o autor de uma das muitas estátuas do poeta e artista Taras Shevtchenko, o autor da antologia poética Zobzar, o bardo nacional. Considerado o fundador da moderna literatura ucraniana, foi mais do que isso: foi ele que teve o sonho da Ucrânia que hoje, a esta hora, luta pela liberdade. Shevtchenko foi escravo, ou servo, quando criança. Em vida, foi poeta e pintor, figura maior do nacionalismo ucraniano. Quando morreu, foi sepultado em São Petersburgo, mas, por seu expresso desejo, os restos mortais seriam trasladados para os arredores de Kaniv, na sua Ucrânia natal. Não por acaso, as comunidades ucranianas espalhadas pelo mundo continuam a erguer-lhe estátuas por toda a parte. A de Nova Iorque, por sinal das mais esquálidas, é da autoria de Borodai.
É difícil dizer se a maior obra de Borodai é a severa Mãe da Pátria ou a delicada Ladya. Em tamanho, a primeira ganha, sem dúvida. No afecto do povo, vence a segunda. Uma evoca a destruição da guerra, outra o acto de criar uma cidade. Os noivos de Kiev preferem Ladya. E, ao contrário do que parece suceder com A Mãe da Pátria, existem reproduções por todo o lado:
 
 

 
Ladya não é, no entanto, a estátua de Kiev que melhor exprime o triunfo do amor sobre tudo o resto. Termino com história pequenina, falando de uma estátua de Kiev de que poucos falam. Nada tem de belicista; e, na sua simplicidade, é superior a todas as mitologias e ideologias. Esmaga por completo a esmagadora Mãe de Brejenev e tudo quanto lhe está associado, ontem como hoje: a cólera e a guerra, a avidez da terra, aquilo de que é feita a História.   
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Há mais de setenta anos, num campo de concentração, Luigi Pedutto conheceu Mokryna Yurzuk. Ele era italiano, prisioneiro de guerra. Ela era ucraniana, e tinha sido condenada a uma pena de trabalhos forçados, esta ali detida com uma filha pequena, nascida no campo nazi perto da aleia de Sankt Pölten, na  Áustria. Ela trazia-lhe comida, ele costurava sapatos e vestidos para a impressionar. Tinham ambos vinte anos. Apaixonaram-se, como acontece aos melhores mamíferos. Nos tempos de repouso, caminhavam juntos, de mãos dadas, no mais puro dos silêncios: nenhum entendia o que o outro dizia. Quando o campo foi libertado, em 1945, Mokryna foi levada de volta para a Ucrânia. Luigi quis ir atrás dela, mas impediram-no (aqui, aqui, aqui, aqui).
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Passaram anos, passaram décadas, casaram ambos, enviuvaram, legando ao futuro diversos  filhos e netos. Luigi ligou-se à finança, Mokryna trabalhou numa exploração agrícola colectiva na Ucrânia. Dois países, dois destinos: um no capital, outro no colectivismo. Graças a um programa de televisão, reuniram-se em Moscovo, em 2004. Abraçaram-se ao fim de décadas, como talvez nunca o tivessem feito.  
 
 
Luigi e Mokryna, o reencontro em 2004

Kiev, Maio de 2013
 

 
 No ano passado, em Maio, foi erigida uma estátua em Kiev em sua homenagem. Num local romântico, numa ponte do Parque Khreschatyi, onde os pares de namorados fazem entre si juras de amor eterno. Muitas vezes, incumpridas. Neste caso, a jura durou sete décadas. Ela encontrava-se demasiado debilitada para poder viajar, mas os seus familiares disseram que estava feliz por o seu amor servir de exemplo a outros casais. A neta afirmou que a avó lhe contara, vezes sem conta, aquele amor de guerra, mas jamais imaginaria que voltaria a reencontrar o rapaz italiano, que é um hoje um homem feito.
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Com 90 anos, vestido em uniforme de gala do exército italiano, Luigi Pedutto falou na cerimónia, comoveu-se. Lágrimas de quem esperou. «Quando tinha nove anos», afirmou, «o meu professor disse-me uma vez: lembra-te que, por tudo o que de mau passares na vida, serás recompensado». «Sinto que fui recompensado por tudo aquilo que passei».
 
Luigi Pedutto, Kiev, Maio de 2013
 
 
Durante 62 anos, Luigi esperou por ela, guardando uma pequena fotografia e uma medalha com uma mecha do seu cabelo. Um dia, decidiu escrever uma carta para um programa de televisão na Rússia, na esperança de a localizar. Vivia numa pequena aldeia na região de Dnipropetrovsk. Exactamente: a terra natal de Timoshenko e dos dois escultores que ergueram A Mãe da Pátria. Depois de se reencontrarem, pediu-a em casamento. «Quando a pedi em casamento, ela riu-se», diz Pedutto. Mas a senhora já visitou a sua terra natal, Castel San Lorenzo, em Salerno, de que foi feita cidadã honorária. Luigi viaja por vezes até à Ucrânia, levando-lhe azeite e queijo parmesão para preparar spaghetti. Falam num estranho dialecto, que mistura ucraniano, italiano e russo. Pensam um dia visitar juntos a estátua que, em Kiev, imortalizou o seu amor de décadas.   
 
 
 
 Há um movimento na América de que só se aproveita o nome: True Love Waits.  Luigi Pedutto ainda não perdeu a esperança de que, um dia destes, Mokryna Yurzuk aceite casar com ele.
 
 
António Araújo
 
 
 
 

terça-feira, 5 de abril de 2022

A Mãe de Brejnev (1ª parte) (publicado em 23/2/2014 - reposição)

 
 
 
 

 
 
         Só daqui a 20 mil anos será seguro comer vegetais produzidos em Chernobyl. Quem o diz aqui é Igor Gramotkin, o director da central nuclear da Ucrânia que teve de enfrentar a explosão do reactor nº 4. O desastre aconteceu no dia 26 de Abril de 1986, mas os seus efeitos durarão milhares e milhares de anos.
         Quando li estas declarações, lembrei-me logo dos Morangos de Chernobyl, as memórias de Vesna Goldsworthy, um dos muitos livros extraordinários editados pela Pedra da Lua. Apesar do título, não trata da tragédia de Chernobyl, mas começa por lembrar os ventos da Ucrânia que todas as primaveras traziam as chuvas aos viveiros de fruta nas colinas de Belgrado. Só daqui a 20 mil anos haverá morangos em Chernobyl.
         Por um acaso, descobri uma fotografia, desconhecendo-se o seu autor. Uma escola abandonada em Pripyat, nas imediações de Chernobyl. Onde outrora se ouviram os gritos e os risos das crianças, reina agora a desolação fantasmagórica, excepto para os ocasionais turistas do absurdo que visitam o local da tragédia ou para os cerca de duzentos habitantes que, desafiando a proibição das autoridades, regressaram à sua terra, agora infértil. O reactor nº 4 foi enclausurado num sarcófago de betão com 250.000 toneladas. E, como lembram Pierre Christin e o fantástico Enki Bilal n’O Sarcófago, as autoridades soviéticas só divulgaram a amplitude do desastre com vários dias de atraso. Isso fez com que os festejos do 1º de Maio em Kiev, naquele ano de 1986, tivessem tido lugar sob uma gigantesca nuvem radioactiva. Durante anos, os números oficiais apontavam para uns pouco credíveis 31 desaparecidos. Em 1999, um relatório do Ministério da Saúde da Ucrânia registava 4.365 mortos directamente ligados à explosão e 167.653 óbitos posteriores. Sem contar com os 650.000 «liquidadores» envolvidos nos trabalhos de controlo dos danos, que foram dispersos pelo território da ex-URSS e cujo estado de saúde não pode ser aferido.      
         Isto são os números, na sua frieza estatística. Mas há histórias, crudelíssimas, que Svetlana Alexievich recolheu num livro tremendo. Li-o há anos, descubro agora que existe uma versão disponível na Internet. As vítimas falam em discurso directo, página sobre página. Como Nikolai Kalugin, morador em Pripyat. A sua família teve de fugir da cidade três dias após a tragédia. Foram proibidos de utilizar os seus automóveis, provavelmente contaminados pela radioactividade. Nikolai não queria levar quaisquer objectos ou pertences de família. Queria trazer consigo apenas isto: uma porta. «Era o nosso talismã, a relíquia da família», diz. Seguindo uma tradição antiga, que Nikolai nunca entendeu, a mãe dissera-lhe um dia que os mortos da família deveriam repousar sobre aquela porta. Foi nela que, anos antes, o cadáver do pai jazeu antes de trazerem o caixão. A porta tinha marcas gravadas, assinalando o crescimento de Nikolai quando criança, marcando até a sua altura quando foi à tropa. Nikolai fez o mesmo quando os filhos nasceram e cresceram. «A minha vida inteira estava inscrita naquela porta». Tudo fez para a resgatar. Dois anos depois da catástrofe, regressou clandestinamente a Pripyat, retirou a porta da sua antiga casa e transportou-a de mota, de noite, atravessando florestas escuras, com a polícia no seu encalço. Conseguiu escapar: a polícia julgava ser um ladrão, quando na verdade Nikolai só queria recuperar a porta da sua antiga casa, agora vazia e semidestruída. Entretanto, no corpo da sua mulher e da sua filha apareciam e desapareciam subitamente manchas negras, inexplicáveis. Quando chegaram os resultados das análises, os médicos recusaram-se a mostrá-los, ou sequer explicá-los, a Nikolai Kalugin. A filha de Nikolai tinha seis anos e possivelmente frequentara a escola de Pripyat. Sussurrava-lhe ao ouvido, todas as noites, antes de adormecer: «Pai, eu não quero morrer, ainda sou criança». Nikolai colocou o seu corpo sobre a porta da casa da família, antes de trazerem o caixão.
 
Escola em Pripyat, Ucrânia, nos arredores de Chernobyl
 
         Na sala de aula da escola de aula de Pripyat, cobrindo uma parede de alto abaixo, a imagem de uma estátua. Erguida longe dali, em Berlim Leste, no Parque Treptower. É o elemento central do Sowejetisches Ehrenmal (Memorial de Guerra Soviético), inaugurado em 1949 no Parque Tretptower  (não confundir com o memorial do mesmo nome existente no Tiergarten). A estátua, de doze metros de altura, exibe um soldado da URSS, de espada na mão, com uma criança ao colo e uma cruz suástica aos pés, esmagada e fendida. De acordo com as memórias da batalha de Berlim escritas pelo marechal Zukhov, a estátua evoca o heróico salvamento de uma menina alemã de três anos, feito pelo sargento Nikolai Masalov. Debaixo de fogo intenso, Masalov terá ouvido o choro de uma criança, desamparada e só, junto ao cadáver da sua mãe. A narrativa de Zukhov é épica, sendo transcrita na edição em inglês do Pravda numa notícia que  − note-se – não assegura a veracidade da história. Com algumas variantes de pormenor, o heroísmo de Masalov é também referido em alguns livros sobre a batalha de Berlim, como The Race for the Reichstag, de Tony Le Tissier, que pode ser lido aqui.  No entanto, Anthony Beevor, uma fonte muito fiável nestas matérias de história militar, não menciona Masalov no livro que dedicou à queda de Berlim. Mas há quem garanta a veracidade da história, bem como de outros gestos de compaixão, garantindo que pelo menos cinco crianças alemãs foram entregues pelos soviéticos aos orfanatos berlinenses.
 
Yevgeny Vuchetich, Memorial de Guerra Soviético, Treptower Park, Berlim


 
         A estátua de bronze foi construída em Leninegrado e transportada por barco até Berlim. Tornou-se um emblema – porventura, o mais poderoso de todos – da bravura dos soldados soviéticos na libertação da capital do Reich. Pensou-se inicialmente, segundo parece, erigir ali, no coração de Berlim, uma estátua a Estaline, mas no final optou-se pela figura serena e viril de um soldado soviético com uma criança ao colo. A estátua não foge aos cânones da arte pública realista-socialista: é clássica, previsível e esmagadora. Tão monumental quanto monótona, só resgatada do tédio pela desmesura da sua escala. Curiosamente, a minúscula criança abraçada ao militar intrépido faz lembrar a iconografia cristã ocidental. Masalov, o salvador, assemelha-se a São Cristóvão. Como já alguém observou, e bem, a estátua, e o conjunto monumental que a circunda, estavam e estão ali, em Berlim, para recordar a todos os alemães que, se não fosse o Exército Vermelho, talvez ainda vivessem sob o jugo hitleriano. Por simbolismo ou pura necessidade, as pedras que serviram para edificar o monumento foram retiradas dos escombros da Chancelaria do Reich, de acordo com o testemunho de Albert Speer. Os dezasseis sarcófagos aí existentes representam as dezasseis repúblicas da URSS. Por alturas da queda do Muro, o conjunto foi objecto de actos de vandalismo. Em reacção, o Partei des Demokratischen Sozialismus, força política próxima do legado soviético e criada em 1989, convocou uma manifestação de repúdio contra os graffiti que manchavam a memória de tempos gloriosos. A manifestação reuniu mais de 250 mil pessoas. Mas há historiadores que dizem que os actos de vandalismo foram perpetrados por agentes da Stasi, os quais, com a queda do Muro, tinham medo de perder os seus empregos…

 

 
A estátua perdura, tendo sido restaurada em 2003 com capitais capitalistas (o orçamento foi de 3 milhões de dólares), nos termos do famoso acordo «Dois mais Quatro»   que as autoridades oeste-alemãs celebraram em 1990 com as suas congéneres de Leste e com as quatro potências ocupantes de Berlim. É uma das atracções turísticas da cidade e um local de peregrinação de saudosistas dos tempos do comunismo, servindo regularmente de palco a celebrações da memória da guerra e dos soldados que nela morreram. Nesses dias, a praça enche-se de bandeiras vermelhas e cravos também vermelhos, de veteranos cada vez mais raros, muito medalhados ao peito. Numa dessas cerimónias, vi idosos com feições asiáticas, vindos talvez da Mongólia ou doutra república distante. E lembrei-me logo das primeiras páginas do livro de Beevor sobre a queda da capital do Reich, que conta os dias em que os alemães, derrotados e devastados, observaram com espanto e horror colunas de mongóis a desfilar com camelos pelas grandes avenidas da sua cidade. Para muitos, deve ter sido a consumação final do triunfo da barbárie, camelos e tártaros a desfilar triunfantes debaixo das tílias. Depois, houve violações em massa.  
         Em 2000 – e como seria de esperar –, Vladimir Putin visitou o Memorial Soviético com pompa e circunstância, depondo a habitual coroa de flores em homenagem aos que tombaram na defesa da URSS. A cerimónia durou alguns minutos, solenes, mas não contou com a presença do chanceler Schroeder, que mandou o seu chefe de protocolo. Estaria já Schroeder ocupado a tratar da sua ida para a Gazprom? Logo a seguir à cerimónia, o que também não causa espanto, Putin retomou um encontro com mais de vinte dos maiores empresários alemães, para tratarem de negócios e investimentos na Rússia.
 
 
Medalha comemorativa do 20º aniversário da vitória sobrfe os nazis,

 
 
 

 
 
 

Uma réplica, no Hospital de Serpukhov, Rússia
 

 
A estátua foi reproduzida em selos, medalhas, relógios, moedas comemorativas, evocada com abundante frequência. Até em  cartazes, como o que resiste nas imediações de Chernobyl. Erguida em Berlim, é um ícone; exposta numa escola de Pripyat, é uma metáfora. Foi concebida pelo escultor soviético Yevgeny Viktorovich Vuchetich (1908-1974), de ascendência montenegrina, da parte do pai, e francesa, do lado da mãe. Já aqui falámos, entre outros, de Vera Mukhina, escultora muito premiada. Agora falemos de Vuchetich, mais galardoado ainda.
 
 
Yevgeny Vuchetich (1908-1974)
 
O segundo a contar da esquerda, na inauguração do monumento em Berlim, 1949
 
 
 
 
 
Pois bem, Yevgeny Vuchetich recebeu os títulos de Artista do Povo da URSS (1959) e de Herói do Trabalho Socialista (1967). Duas vezes galardoado com a Ordem de Lenine e uma com a Ordem da Guerra Patriótica. Prémio Estaline em 1946, 1947, 1948, 1949 e 1950, Prémio Lenine em 1970. Além da estátua do soldado em Berlim, foi autor de obras tão marcantes como a estátua de Felix Dzerzhinsky na Praça Lubyanka, peça de 1958 derrubada pelo povo nos alvores da perestroika, sendo muito sintomático que há pouco se tenha falado no seu regresso ao local (recuar-se-ia nessa intenção desconcertante: ver aqui).  É dele também a escultura Transformemos Espadas em Arados, escultura de 1957, patente ainda hoje nos jardins da sede das Nações Unidas, em Nova Iorque. A sua obra maior, em todos os sentidos, é a colossal A Mãe-Pátria Chama!, de 1963-1967, erguida na colina de Mamayev Kurgan, nos arredores de Volgogrado. Um dia, gostaria de escrever sobre esta estátua, das maiores do mundo, que os soviéticos costumavam apresentar como uma versão revista e rival, mas muito ampliada, da Estátua da Liberdade. É tão esmagadora que ameaça devorar-se a si própria, como a ambição da Rússia nos nossos dias. De facto, os alicerces e as fundações do colosso acusam desgaste e reclamam renovação radical, sob pena de a estátua ruir (ver também este vídeo, muito esclarecedor). Estamos a falar de um objecto com a altura de 87 metros. Só a espada mede 33 metros e a estrutura tem de suportar 7.900 toneladas de betão armado. Imagine-se o que é a derrocada de um objecto destes.
 
 
A Mãe-Pátria Chama!, 1963-9164
 
 
 
 
Ficamos tão ofuscados pela dimensão desta estátua que, por vezes, a confundimos com outra, igualmente da autoria de Yevgeny Vuchetich. É essa que agora interessa e está na ordem do dia, pois fica em Kiev, capital da Ucrânia. Mãe da Pátria ou Mãe da Terra-Mãe. Integra o complexo do Museu da Grande Guerra Patriótica, de que já mostrámos aqui algumas imagens. É coberta por placas de aço inoxidável, 50x50cm, o que lhe confere um aspecto vanguardista e science-fiction, quase parecido ao estilo Gotham de um dos mais belos edifícios do mundo, o Chrysler Building (quem vá a Nova Iorque, mesmo que não tenha permissão para subir ao Chrysler, não deixe de visitar o átrio. As portas do elevador, folheadas em madeiras exóticas, valem a visita).
 

 
 



As comparações, sempre relativas...
 
A estátua Mãe da Pátria mede 62 metros mas, como fica em cima do Museu, o conjunto perfaz um total de 102 metros de altura, com 560 toneladas de peso. É habitual fazer-se a comparação com a sua congénere de Volgogrado, que leva vantagem em toda a linha. Inclusivamente, na graciosidade das linhas. A Mãe da Pátria, e talvez resida aí o seu encanto, é estática e pesadona, prima pela ausência de movimento e dinamismo. Tem, como se disse, 62 metros de altura, sendo fatiada em 20 secções. A espada tem actualmente 16 metros e pesa 9 toneladas. Foi cortada 3 metros na ponta, dizem alguns, para não ultrapassar a cruz do Mosteiro das Grutas (se preferirmos, o Kiev-Pechersk Lavra), um local com cavernas onde repousam múmias e restos mortais de santos e homens de virtude, que os visitantes beijam com fervor ortodoxo. Na mão esquerda da Mãe da Pátria, um escudo de 13 por 8 metros, de 13 toneladas, com o emblema oficial da União Soviética, como é evidente.  
 
O projecto de Ivan Formin
 
A ideia de edificar na capital da Ucrânia um monumento portentoso e obsequioso à pertença fraternal na União Soviética remonta aos anos cinquenta. Na altura, seguindo o projecto do arquitecto Ivan Formin, pensava-se construir uma escadaria imperial, versão realista-socialista do «bolo-de-noiva» que encontramos em Roma, mas com Lenine em lugar central. Outras versões apontam para o projecto de duas estátuas colossais, de Lenine e Estaline, com 200 metros cada.
 
 
 

 
 
 
Conta-se que, na década de setenta, alguns altos funcionários do Partido e Vuchetich teriam olhado para aquelas colinas e concluíram que era o local indicado para construir o monumento. Tendo em conta que Vuchetich morreu em 1974, a história parece improvável. Mas, tendo em conta que foi ele o autor do desenho, talvez haja alguma verosimilhança nesse relato dos factos. A construção só começaria em 1979, no meio de grande controvérsia. À semelhança do que aconteceu no Hotel Moscovo, de que falámos aqui, houve uma colossal derrapagem orçamental. Quando perguntaram ao responsável pela construção se os custos tinham mesmo ascendido a 9 milhões de rublos, aquele terá dito que essa era uma estimativa muito conservadora. Parece que a obra ficou em 12 milhões de rublos, o que é algo pesado se tivermos em conta que o salário médio de um engenheiro soviético era 100 rublos. Não foi, por certo, com a mão-de-obra que a obra encareceu: nos trabalhos de soldadura das placas trabalharam apenas seis operários (!), que conseguiram cumprir a tarefa num prazo-record de seis meses. Ainda assim, a obra excedeu prazos e orçamentos. Imagine-se o que teria sido se, como chegou a ser pensado originalmente, a estátua fosse revestida a folha de ouro... Hoje em dia, devido aos custos da energia, a tocha existente no complexo, que consumia 400 metros cúbicos de gás por hora, só é acesa em ocasiões especiais. À semelhança da sua irmã de Volgogrado, diz-se que a Mãe-Pátria  de Kiev ameaça ruína, por fraqueza nas fundações. A obra de Volgogrado tem, sem dúvida, problemas estruturais, do mesmo modo que o Operário e a Camponesa, de Vera Mukhina, e a estátua do soldado de Berlim sofreram obras de reparação. Com a Mãe-Pátria de Kiev, num país à beira do colapso financeiro, não sabemos o que acontecerá.
Há quem advogue o desmantelamento da estátua, o que não é nada aconselhável no actual contexto. Lembre-se o que aconteceu em 2009, quando em Kutaisi, na Geórgia, se demoliu o Memorial da Glória, com uma intensa polémica interna e o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia a condenar, irado, o «vandalismo» e o «sacrilégio» cometidos. Lembre-se que, em Maio de 2010, no sul da Ucrânia, foi erguida uma estátua de Estaline, perante uma pequena multidão de umas mil pessoas. Um tribunal proibiu a presença de membros do partido ultranacionalista, o Svoboda, e do partido comunista. Nem isso acalmou os ânimos e evitou a controvérsia. Lembre-se que em Dezembro passado um conjunto de manifestantes atacou a estátua de Lenine em Kiev, que foi deitada abaixo, decapitada e destruída a martelo em protesto contra o alinhamento do Presidente Yanukovich com Moscovo, em detrimento da celebração de uma parceria com a União Europeia (aqui ou aqui). Ainda hoje, nesta dia 23 de Fevereiro de 2014, chegam notícias da destruição de mais estátuas de Lenine na Ucrânia.
 
Ucrânia, Maio de 2010: inauguração de uma estátua de Estaline


Ucrânia, Dezembro de 2013: destruição de uma estátua de Lenine
 
VVVV
 
    VDesde a «Revolução Laranja» de 2004-2005, foram os maiores protestos de rua verificados na Ucrânia, e que se prolongam até agora, com desfecho incerto. Um dos apoiantes da decapitação de Lenine foi Vitali Klitschko, o antigo campeão de boxe doutorado que entrou no ringue da política ucraniana com um estilo muito próprio.   
O conjunto Mãe da Pátria, que parece da década de trinta ou cinquenta, tinha inauguração prevista para 9 de Maio de 1980, o 35º aniversário da vitória sobre os alemães. Os trabalhos atrasaram-se, como sempre, e o complexo só foi inaugurado em 1981, numa cerimónia que contou com a presença de Leonid Brejnev. A partir daí, ficou conhecida na gíria ucraniana como «Mãe de Brejnev». A entrada não é propriamente barata: o equivalente a 5 euros no ingresso e a 20 euros para quem quiser, com o inevitável guia, subir aos pontos de observação, situados aos 36 metros e aos 91 metros (aqui).  
Perto da Mãe da Pátria fica uma outra estátua, que, apesar de um terrível mau-gosto, serve de cenário a muitas fotografias de casamentos. Sobre isso e sobre o amor em Kiev, falaremos amanhã ou depois.
 
 
 
(Continua)  
 
António Araújo
 
 
 
 
 
 
 

segunda-feira, 4 de abril de 2022

A Lisboa do Estado Novo em plena Segunda Guerra Mundial.




A Lisboa do Estado Novo em plena Segunda Guerra Mundial:

Vibrante como um esplêndido thriller, ao nível do grande rigor historiográfico

 



Dez anos depois da primeira edição, este professor catedrático da University College London é republicado em Portugal, trata-se de uma investigação apuradíssima, uma escrita cintilante e altamente acessível, credora de leitura atenta, Lisboa: A Guerra nas Sombras da Cidade da Luz, 1939-1945, por Neill Lochery, Casa das Letras, 2021. O autor defende que Lisboa foi uma encruzilhada fundamental oferecida por um país neutral que acolheu gente de muitas nacionalidades em trânsito para outras paragens, aqui trabalhou um número impressionante de espiões e se constituiu um centro de comércio de minérios raros, por Lisboa passaram celebridades, desde os Duques de Windsor, o traidor britânico Kim Philby, a colecionadora de arte Peggy Guggenheim, os artistas Marc Chagall e Max Ernst, os escritores Graham Greene e Saint Exupéry, mas também oposicionistas do nazi-fascismo sujeitos a severa vigilância e postos a viver na Ericeira ou nas Caldas da Rainha, sobretudo.

É um tempo único de uma cidade em cujo aeroporto aterravam aviões dos Aliados e do Eixo, de onde os hidroaviões partiam para as Américas. A figura central era Salazar, ele considerava que a Segunda Guerra Mundial incorporava duas grandes ameaças para o país: uma potencial invasão alemã ou espanhola e a possibilidade de o país perder o seu Império, quando se tornou inevitável a derrota alemã, Salazar passou a viver obcecado por uma Europa onde os soviéticos tinham um papel determinante político. O ditador certamente não desconhecia que o anterior Primeiro-Ministro britânico, Neville Chamberlain, tentara aplacar a sofreguidão territorial de Hitler oferecendo-lhe Angola. Ao longo  da sua primorosa e aguda investigação, Neill Lochery marca a distinção dos dois períodos em que mudaram as prioridades de Salazar durante a guerra, numa primeira fase, entre 1939 e 1942, dedicou-se a evitar a ameaça de invasão por parte do Eixo e de 1943 até ao termo da guerra teve de lidar com as cada vez maiores exigências dos Aliados, para estes assegurar os Açores como plataforma de tráfego aéreo era primordial. O autor não esquece a importância do volfrâmio, ingrediente vital da máquina de guerra alemã, irá dar enorme controvérsia a sua venda até ser sustada em 1944. E há uma polémica que permanece, não só em torno desse volfrâmio como de outras exportações, como o autor alerta: “Durante a guerra, o ouro era uma forma de pagamento muito mais segura do que o papel-moeda, mas os Aliados punham em causa as origens de uma grande percentagem dele. Afirmavam que esse ouro fora, num primeiro momento, saqueado nos países ocupados pelos alemães e, mais tarde, tirado às vítimas do Holocausto. No final da guerra, os nazis contrabandearam ouro para Lisboa, de onde partia para o Brasil e dali se dispersava para a América do Sul. Alegadamente, a caixa-forte do Banco de Portugal alberga até hoje barras de ouro marcadas com as insígnias nazis. Numa revelação embaraçosa, a Igreja Católica portuguesa foi obrigada a admitir que pagou obras no Santuário de Fátima com barras de ouro nazi que tinha misteriosamente obtido do Banco de Portugal”.

Neill Lochery descreve o burburinho da cidade, havia o fausto da Exposição do Mundo Português que contrastava com o estado da capital-refúgio: “Decadente, pobre e a precisar desesperadamente de se reinventar, Lisboa era, em setembro de 1939, uma espécie de Bela Adormecida descurada. A poucos minutos a pé da elegância dos cafés do Rossio, nem o espetacular céu outonal, de um azul vívido, era capaz de ocultar o facto muitos dos outrora belíssimos edifícios da cidade revelarem agora as consequências de décadas de má manutenção”. E é detalhado na descrição da apresentação da cidade, que à noite era uma cidade barulhenta, com cães a latir e os galos a cantar. “Enquanto as luzes se iam apagando pelo resto da Europa, Lisboa permanecia intensamente iluminada: os anúncios publicitários a cintilar no topo dos edifícios juntavam-se à ofuscante luz branca dos postos de iluminação pública”.

Temos uma narrativa sobre Salazar e o salazarismo, como o regime se foi preparando para a guerra, edificando a estratégia da neutralidade, acolhendo os fugitivos do nazismo e do fascismo, e temos uma observação dada pelo escritor Arthur Koestler, refugiado em lisboa durante 7 semanas, aqui encontrou inspiração para escrever o livro Arrival and Departure: “Lisboa era o gargalo da Europa, a última porta aberta de um campo de concentração, a maior parte da superfície do Continente. Ao observar-se aquela interminável procissão, percebia-se que o catálogo de razões possíveis para se ser perseguido sob a Nova Ordem era muito mais longo do que até um especialista podia imaginar: na verdade, ia do austríaco monárquico a judeu sionista. Nações, religiões e partidos europeus, todos eles estavam representados naquela procissão, incluindo nazis alemães da fação opositora e fascistas italianos caídos em desgraça”. Dá-nos o ponto da situação dos refugiados, o ato heroico de Aristides de Sousa Mendes, a tentativa rocambolesca dos alemães em querer capturar o Duque de Windsor, são mostradas as organizações judaicas que procuravam encaminhar o povo perseguido para a América ou até para a Palestina, temos o quadro movimentado dos espiões e até dos agentes duplos.

A entrada dos Estados Unidos na guerra introduziu um elemento novo, a corrida quase desesperada para comprar volfrâmio por parte dos alemães, a descoberta pela PVDE de uma rede britânica que viera organizar um plano de destruições no caso de haver uma invasão alemã, foi um período de péssimas relações entre britânicos e Salazar, fala-se inclusivamente do voo 777A em que morreu o ator Leslie Howard e Wilfrid Israel, uma figura fundamental no apoio aos judeus. E temos os Açores, cobiçados pelos Aliados, Salazar a demorar a resposta, ainda temia represálias alemãs, foram negociações penosas, Salazar sabia que não podia recusar o apoio que lhe era solicitado.

Assunto inevitável e quase omnipresente é a questão do ouro nazi, a sua proveniência dos bens espoliados aos judeus ou pilhado dos países ocupados. “Em 1943, já era claro que havia ouro roubado aos judeus. Esse ouro provinha de dentes, relógios, anéis e outras joias das vítimas do Holocausto, que eram posteriormente derretidos pela Casa da Moeda Prussiana e, em Frankfurt, pela empresa Degussa. De seguida, o ouro era transformado em barras e recebia o selo oficial do Reichsbank, de modo a aparentar ter uma origem oficial. As barras eram enviadas para o Banco Nacional Suíço, que as comercializava normalmente. Por volta do final da guerra, os alemães esforçaram-se por salvar o ouro encontrado em território alemão e francês. Lisboa era um destino óbvio: ali, poderia ser vendido na bolsa ou contrabandeado para a América do Sul”.

Obra indispensável para conhecer a visão do historiador britânico sobre o desempenho do Estado Novo e a importância de Lisboa durante a Segunda Guerra Mundial.

 


 Mário Beja Santos