quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Cartas de Bruxelas (1)

 

                                                                                                            https://www.toli.us/art-projects/



                                                                                                        

                                                                                               O céu da boca

 

 

As descrições do universo concentracionário são unânimes quanto à fome que grassava nos campos e, sobretudo, quanto aos efeitos da fome, da fome que reduz os homens a um tubo digestivo, nas palavras de Léon-E. Halkin (À L’Ombre de la Mort), que é inacreditável em sentido próprio. Para crer nessa fome, ainda segundo Halkin, «é preciso ter conhecido a fome lenta, os reflexos de voracidade, de avareza e de cleptomania, a obsessão com o alimento, a obsessão com o que se come, com tudo o que se relaciona com tudo o que se come, para admitir o complexo da fome, para compreender a miséria sórdida e as suas tentações inconfessáveis.» E como tantos outros, também Halkin sonha com lautas refeições. Em todos os textos da literatura sobre os Lager se encontram testemunhos das intermináveis conversas sobre a confecção de refeições, a descrição minuciosa da preparação dos pratos ou a referência aos comensais e ao respectivo número.

Esclarecem as gramáticas que a catacrese é uma maneira de suprir a falta de um termo específico. Nelas dá-se uma estranha forma de comércio. Não raro, o corpo empresta ao mundo as suas designações e o mundo empresta ao corpo o nome das suas coisas. O braço da cadeira, as bocas da faca, o dente de alho ou a maçã do rosto. Por vezes, a relação é indirecta: o garfo da bicicleta, ou faz-se por intermédio do corpo de um animal: a asa da chávena, a mesa pé de galo. Macrocosmo e microcosmos são unidos apenas por aquele que pode ser todas as coisas: o homem. Lemo-lo com clareza absoluta em Primo Levi (Se Isto é um Homem):

«Mas como se poderia pensar em não ter fome? O Lager é fome, nós próprios somos fome, fome viva.

Do outro lado da rua trabalha uma draga. As tenazes, suspensas pelos cabos, abrem os maxilares dentados, libertam-se por um instante como se hesitassem na escolha, depois atiram-se para a terra argilosa e fofa, e ferram vorazmente, enquanto da cabine de comando sai um sopro satisfeito de fumo branco e denso. Depois voltam a levantar-se, dão meia volta, vomitam para trás o peso com que estão carregadas, e recomeçam. Apoiados às nossas pás, ficamos a olhar fascinados. A cada dentada das tenazes, as bocas entreabrem-se, as maçãs-de-adão dançam para cima e para baixo, miseravelmente visíveis por debaixo da pele mole. Não conseguimos desvincular-nos do espetáculo do repasto da draga.»

A fome viva, o tubo digestivo vivo não tem mais nada como objecto, identifica-se totalmente com o mundo. No paroxismo da fome, a analogia faz-se carne. Não espanta, pois, que a carne ganhe olhos, adquira visão. Outro concentracionário testemunha-o. «O cego levantou-se, e foi para a beira da sua enxerga. Tacteou a caixa onde guarda o pão. Abriu-a e retirou o pedaço que restava. Em seguida sentou-se e tirou a faca do bolso. Eu observava-o. Os seus gestos eram lentos, precisos, tão exactos como se visse o que fazia, como eu próprio via. Dir-se-ia que estava a fazer uma dissecação.» Com a última frase, Robert Antelme (A Espécie Humana) leva a cabo uma torção radical dos conceitos: faz do pão um cadáver. O que dá a vida, na sua ausência total, é já um morto. Talvez por isso o cego possa ver: disseca-se a si mesmo como morto futuro – morto de fome. «Nada. De nenhuma outra coisa a falta chama tanto esta palavra: nada.» Na vida dos homens normais, aqueles que não sabem que tudo é possível, no dizer de David Rousset, outro concentracionário, o pão não se liga ao nada precisamente porque não é tudo. Daí que seja impossível imaginar a situação concentracionária.

No recentemente traduzido, Simone Veil – A Madrugada em Birkenau, Veil, em diálogo com Paul Schaffer, insurge-se:

«SIMONE: […] Hoje, quando as pessoas vão a Birkenau ou Auschwitz, vêem uma série de barracões, observam um certo número de coisas, mas fica-se longe da transmissão de uma experiência. Quando os jovens dizem que «imaginam», não imaginam coisa nenhuma.

É inimaginável.

PAUL: A meu ver, ainda bem que eles não podem imaginar, porque indivíduos que fossem capazes de imaginar tal realidade seriam indivíduos perigosos.»

A incapacidade de imaginar liga-se por um cordão umbilical à linguagem. Movido pela esperança de poder dizer, Primo Levi põe a hipótese de uma linguagem nova, a linguagem do Lager: «Como esta nossa fome não é a sensação de quem saltou uma refeição, o nosso modo de ter frio exigiria assim um nome particular. Nós dizemos «fome», dizemos «cansaço», «medo» e «dor», dizemos «Inverno», mas são coisas diferentes. São palavras livres, criadas e utilizadas por homens livres que viviam, gozando e sofrendo, em suas casas. Se os Lager tivessem durado mais tempo, uma nova, dura, linguagem teria nascido […].» Cedo percebeu que nunca nasceria uma linguagem adequada nem ao Lager nem para falar sobre ele. A ideia de uma tal linguagem evidencia antes a sua impossibilidade. Ocorre quando já não é necessária. Quando o Lager está morto. Como Levi viu tão bem:

«Depois de arranjar a janela partida e depois de o aquecedor começar a difundir calor, pareceu que em cada um a tensão afrouxara, e foi então que Towaroski (um franco-polaco de vinte e três anos, doente de tifo) propôs aos outros doentes que oferecessem cada um uma fatia de pão a nós os três que tivemos o trabalho, e a proposta foi aceite.

Um dia antes, tal acontecimento não teria sido concebível. A lei do Lager dizia: «come o teu pão e, se puderes, o do teu vizinho», e não deixava lugar à gratidão. Isto significava claramente que o Lager estava morto.

Foi este o primeiro gesto humano que aconteceu entre nós. Julgo que se poderia fixar naquele momento o início do processo pelo qual, nós morremos, de Häftling voltámos lentamente a ser homens.»

Voltar a ser humano significa voltar à linguagem dos homens normais, à linguagem que já não é uma simples reacção de um tubo digestivo entre outros: partes extra partes. Na linguagem, evadidos da necessidade natural antinatural, os homens comungam. Por isso, a fome absoluta não é apenas a fome natural, é também a fome de justiça. Antelme disse-o talvez melhor que ninguém. A natureza recomposta não apaga o sucedido, precisamente porque o sucedido não foi um acontecimento causado pelas leis cegas da natureza.

A experiência concentracionária foi considerada pelos concentracionários que sobre ela escreveram um alargamento da perspectiva sobre o mundo, um acréscimo de lucidez.

Talvez possa contribuir para dar uma resposta à pergunta: quem é o teu Próximo? Aquele que tem fome do pão, e do pão da justiça.

O céu da boca.

 

                                                                                          João Tiago Proença







terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Quando dois grão-mestres da literatura se enfrentam a pretexto de uma biografia inexistente.

 


 

Tenho para mim que O Papagaio de Flaubert é a obra-prima absoluta de Julian Barnes (Quetzal Editores, 2019, reedição). Inventa-se um médico reformado e viúvo, Geoffrey Braithwaite, este atravessa o Canal da Mancha rumo a Ruão, a terra natal de Gustave Flaubert, move-o a curiosidade de ver o papagaio embalsamado que teria servido de modelo ao autor da Madame Bovary durante a escrita de uma obra ainda hoje aclamada, Un Coeur Simple. Este papagaio teria permanecido na sua secretária durante algumas semanas até o escritor se ter fartado daquele elemento que o ajudara na escrita.

O médico será um elemento de ligação entre o verdadeiro narrador, que se vai mostrar muito pouco interessado em maravilhar-nos com uma biografia daquele que escreveu o primeiro romance moderno, e a mais estonteante viagem à vida de um homem que além do seu talento genial vê escancarado neste romance as suas doenças, egolatria, manias, tiques, vaidades e medos, chegaremos mesmo a um momento em que o falso biógrafo põe na boca de cena um Flaubert sobreavaliado pela imponência literária, como Barnes o desenha, inigualável:

“Flaubert ensina-nos a olhar para a verdade e não temer as suas consequências; ensina-nos como Montaigne, a dormir na almofada da dúvida; ensina-nos a dissecar as partes constituintes da realidade e a observar que a natureza é sempre uma mistura de géneros; ensina-nos o uso mais exato da língua; ensina-nos a não nos aproximarmos de um livro em busca de pílulas morais ou sociais: a literatura não é uma farmacopeia; ensina a superioridade da Verdade, da Beleza, do Sentimento e do Estilo. E, se estudarmos a sua vida privada, ensina a coragem, o estoicismo, a amizade; a importância da inteligência, do ceticismo e da imaginação; a palermice do patriotismo barato; a virtude de ser capaz de ficar sozinho no quarto; o ódio à hipocrisia; a desconfiança nas teorias; a necessidade de falar com simplicidade.”

Portanto, um papagaio que é um pretexto, um médico reformado que não pesa na estrutura literária, a não ser com aquele papel que tem no teatro o ponto ou o repetidor. O que é denso é lançar o leitor em Ruão, procurar os vestígios de Flaubert, e não são muitos. Ajuda forjar um médico para dizer que Flaubert fora um belo jovem que se tornara num burguês barrigudo e calvo, produto da sífilis e da epilepsia. Médico que vai ao hospital para visitar o papagaio embalsamado, tem o nome de Lulu, é o papagaio de Félicité, a personagem principal do conto Un Coeur Simple, de que vamos saber a história: Félicité é uma criada ignorante que serve a mesma patroa durante meio século, entrega sucessivamente a um noivo boçal, aos filhos da patroa, ao sobrinho e a um velho com cancro no braço, todos irão partir ou esquecê-la, só Lulu, o papagaio, é que é permanente, e quando este morre Félicité manda embalsamá-lo. Feita esta visita tudo podia acabar aqui, pelo contrário, é a primeira estação de uma viagem quase alucinante. O médico inicia as suas pesquisas, procura lugares, dá-nos a cronologia da vida de Flaubert (1821-1880). É hora de conhecer a vida privada, a percetora inglesa que foi sua amante, e que dá muito que falar aos biógrafos de Flaubert, entra no palco alguém que possuiria tais cartas trocadas, afinal já não existem; segue-se o desconcertante bestiário de Flaubert, uma deriva fantástica, talvez com pistas palpitantes para a psicanálise. Chegamos abruptamente ao romance maldito, Madame Bovary, perseguido por obsceno, coisa terrível, uma cena de adultério numa carruagem com cortinas corridas, a viagem de Flaubert ao Egito, a caprichosa relação de Flaubert com Louise Colet, esta mesma terá direitos para falar com o leitor e desancar esse Flaubert que a passou a ignorar; há também uns arremedos de investigação policial, a tentativa de apurar em quem se baseou o escritor de Ruão para cinzelar a figura de Emma Bovary, e é a vez de Barnes falar na primeira pessoa e desancar um biógrafo de Flaubert, tudo por causa das cores dos olhos dessa mulher cujo nome vai ser traduzido em todas as línguas. A propósito ou a despropósito, Barnes rende-se ao génio de Flaubert, mas podemos imaginar os dois numa sala de espelhos, um exemplo: “Acreditava no estilo mais do que ninguém. Trabalhava afincadamente pela beleza, pela sonoridade, pela exatidão; pela perfeição, mas nunca a perfeição como monograma do escritor, como Wilde. O estilo é uma função do tema. O estilo não é imposto ao assunto, decorre dele. O estilo é a verdade para o pensamento. A palavra correta, a frase autêntica, a frase perfeita estão sempre algures por aí; o trabalho do escritor é localizá-las seja por que meio for.”

A dimensão física de Flaubert não é escamoteada: era um gigante, um metro e oitenta, a posteridade mostra-o volumoso, olhar distante, forte bigodaça, calva larga. E, logo de seguida, Barnes muda de agulha, voltamos aos amores do escritor, às viagens, à vida doméstica, ficamos até a saber que Flaubert detestava os caminhos-de-ferro. E há os livros que Flaubert não escreveu e que imaginou, prometeu uma autobiografia, o tratamento de temas vários, na sua extensa correspondência arquitetou mundos e fundos e afinal um leitor de cultura média sabe que o seu nome entrou na avenida dos clássicos graças a Madame Bovary, a Educação Sentimental, a Salammbô e a uma história deliciosa que deixou incompleta Bouvard e Pécuchet.

O monólogo de Louise Colet é um autêntico clímax, sabiamente Barnes dá-lhe uma dimensão teatral, oferece-lhe todos os requisitos para estilhaçar e esventrar Flaubert, é seguramente um dos textos mais espantosos de confidências, não nos dá tréguas, sufocante e irado:

“Alguém – talvez o próprio Gustave – queimará as minhas cartas; as suas (que eu guardei com todo o cuidado, tão contra os meus interesses) sobreviverão para confirmar os preconceitos dos que são demasiado preguiçosos para compreender. Sou uma mulher e também uma escritora que gastou da sua parcela da fama em vida; e nestes dois campos não espero muita piedade ou muita compreensão da posteridade. Se me importo? Com certeza que sim. Mas esta noite não estou vingativa; apenas resignada.”

O falso médico aparece-nos com a lista das principais personagens e situações que ajudam a compreender o enigmático Flaubert: os membros da família, os amigos; os amantes e as amantes, escritores envolvidos. Romance que acaba onde começa, no papagaio embalsamado. E há uma última excentricidade de novela policial: será que Flaubert se suicidou?

Moral da história: a vida verdadeira é a vida que vem nos livros – porque é a única que se pode interrogar.

De leitura obrigatória.



                                                                                                        Mário Beja Santos






segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Entre Oriente e Ocidente (32).

 


 

Termino hoje a série de crónicas e fotografias que dediquei aos Balcãs sob o título de Entre Oriente e Ocidente.

Percorremos uma região marcada pela Via Ignatia (cujo nome lembra o procônsul da Macedónia que a mandou construir, Gnaeus Ignatius), estrada de mais de 1100 quilómetros ligando Durrës, Bitola, Salónica e Constantinopla. Por onde deambulou São Paulo e se espalhou a civilização romana.

Região onde o império otomano dominou durante vários séculos durante os quais o culto cristão continuou a existir desde que a altura das torres das igrejas não ultrapassasse a dos minaretes. Na altura, o império estava presente em três continentes.

Uma região que, durante dezenas de anos, foi toda (com excepção da Grécia) comunista e onde existiu uma das mais duras ditaduras do Século XX, a da Albânia.

Neste momento, a União Europeia tem a tarefa enorme de associar muitos dos países da Região ao processo de desenvolvimento do continente europeu. É um imperativo geopolítico. Se o não fizer, estes Estados serão mais permeáveis à influência russa e aos investimentos chineses que têm como interesse permanente enfraquecer a capacidade da Europa de actuar em conjunto netas paragens.

Depois de termos atravessado paisagens de igrejas bizantinas e minaretes, antigas hospedarias para viajantes, restos do realismo socialista, magníficos vestígios das civilizações antigas, terminamos, por contraste, na nova Skopje, produto do controverso projecto Skopje 2014.

Aqui foram gastas quantias avultadas para reconstruir edifícios, erguer estátuas e memoriais sempre com o objectivo de glorificar o nacionalismo macedónio. Alexandre da Macedónia é a principal figura mas também Madre Teresa de Calcutá, albanesa de família mas nascida em Skopje, tem o seu memorial.

 







  

Queria agradecer aos leitores a paciência com que seguiram estas crónicas e ao António Araújo a benevolência com que as acolheu nas páginas do Malomil.

 

                                                                                Fotografias de 24 de Maio de 2022

 

                                                                                                                  José Liberato


domingo, 8 de janeiro de 2023

Pelas Terras Altas.

 

















                                                                                      Escócia, Dezembro de 2022


                                                                                             Fotografias de António Araújo








Entre Oriente e Ocidente (31).


Skopje é a capital da Macedónia do Norte.

É hoje o resultado de múltiplas influências desde os Romanos aos Otomanos e também da intensidade sísmica da Região, vítima de um violentíssimo terramoto em 1963.

Ainda assim, conserva muralhas, o bazar, mesquitas e ruas antigas que permitem imaginar o que terá sido a cidade antiga.

 








 

 

                                                                                    Fotografias de 24 de Maio de 2022

 

                                                                                                                        José Liberato


Pelas Terras Altas.

 









Edimburgo, Dezembro de 2022

Fotografias de António Araújo






quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Viveu o máximo dos horrores do Holocausto, convida-nos à reconciliação com a vida, sempre com alegria.

 




 

O mínimo que se pode dizer dos apelos que um dos maiores psicoterapeutas do seu tempo aqui nos deixa é que não há vivência de pleno sofrimento onde não se possa vislumbrar o milagre do sentido. Como escreve o bispo auxiliar de Braga no prefácio, “Reconciliar-se com a vida significa buscar o sentido, particularmente na vivência da tríade trágica, da condição humana: culpa, sofrimento e morte. Frankl contrapõe uma tríade salvadora de valores: trabalho/ação, experiência/relação, atitude/oblação”. É uma leitura a que não nos podemos furtar, este Dizer Sim à Vida Apesar de Tudo, por Viktor E. Frankl, Editora Pergaminho, 2021.

Frankl foi o introdutor da logoterapia, o que quer dizer que o impulso primário de qualquer um de nós assenta na vontade de sentido. Como observa ainda o prefaciador da obra: “Este sentido não se inventa, mas descobre-se: numa obra, num amor, numa tarefa a realizar. No fundo, cada um tem de perguntar: o que é que a vida quer de mim? Em última instância, viver significa assumir a responsabilidade de encontrar a resposta correta para os problemas que a vida coloca e cumprir as tarefas que ela continuamente aponta a cada pessoa.”

Note-se que este renomado cientista irá escrever estes textos no regresso da sua vida pelo inferno dos campos de concentração, regressado a Viena de Áustria aguardavam-no as mais temidas notícias, perdera a família no Holocausto. Superou o desespero, a anomia, o fatalismo. Chega a dissecar as razões que levam ao suicídio, casos de perturbação, de descrença no sentido de continuar a viver, e responde que a vida é de certo modo um dever, uma grande e única obrigação, uma alegria que tem de surgir espontaneamente, a felicidade é o resultado do cumprimento daquilo que se chama dever, e que ele ao longo de todos os seus trabalhos procurou definir. E explana: “Não é apenas através dos nossos atos que podemos atribuir sentido à vida. Na medida em que respondemos com a consciência da responsabilidade às questões colocadas por ela, podemos satisfazer os desafios da existência não apenas como atuantes, mas também como pessoas capazes de amar, isto é, entregando-se através do amor ao belo, à grandeza, à bondade.” E, mais adiante: “Damos sentido à vida através de ações, mas também através do amor – e, finalmente, através do sofrimento. Pois é a forma como uma pessoa lida com a limitação das suas possibilidades de vida, enquanto elas afetam o seu agir e a sua capacidade de amar, a forma como se comporta com esta limitação. É na forma como lidamos nas dificuldades que se vê quem somos, e é também isso que nos torna capazes de viver uma vida plena de sentido.”

Frankl surpreende-nos pelo vigor e a sinceridade desta exposição onde são recorrentes as palavras dever, busca de sentido, o valor da vida, a ultrapassagem do sofrimento. É uma narrativa pejada de exemplos e situações, não esquece os campos de concentração e é sempre insistente sobre a realização de sentido, esta, como ele escreve, é possível em três direções principais: a pessoa humana é capaz de atribuir sentido à sua existência, em primeiro lugar, fazendo algo, agindo, criando, concretizando uma obra; em segundo lugar, experienciando algo, a natureza, a arte, amando pessoas; e, em terceiro lugar, atribuindo sentido à vida. No decurso do tempo, continua ele, a pessoa tem de estar preparada para alterar sempre a direção de realização deste sentido, ter em conta exigências momentâneas. Não se esquece de dar exemplos sobre o sofrimento que a doença pode provocar, mas continua a sobreviver o sentido, pode por vezes representar um ganho, e dá testemunhos do que viu no campo de concentração, pessoas que integravam a morte com sentido no todo da vida.

Discorre longamente sobre a eutanásia, condena a possibilidade de o médico tirar a vida, entenda-se o contexto em que Frankl fez tais observações críticas, os nazis condenavam à morte gente com malformações, doentes mentais, doentes incuráveis, entre outros; e, como é de todos sabido, havia médicos nesses campos de concentração a fazer as experiências mais abomináveis, matando as suas cobaias. No nosso tempo, a questão da eutanásia ganhou outra dimensão, é a liberdade que é concedida a quem, por evidência científica, se reconhecer não haver tratamento curável, e decidir livremente morrer. No entanto, lê-se com profundo respeito tudo quanto ele desabona à eutanásia como ela era percecionada há 70 anos. O seu último ensaio, intitulado Experiência da Cruz é marcadamente autobiográfico, ele fala dos sonhos dos prisioneiros, como eles refletiam a essência de sofrimentos e é nestes termos que ele vai abordar a alegria de assumir a responsabilidade: “Há algo na responsabilidade que é insondável: quanto mais tempo e mais profundamente a encaramos, mais consciência tomamos dela até que por fim somos invadidos por uma espécie de vertigem; se nos aprofundarmos na essência da responsabilidade humana, então arrepiamo-nos: há algo de terrível. É terrível saber que: em cada momento sou responsável pelo próximo; que cada decisão, a mais pequena como a maior, é uma decisão para sempre; que em cada momento realizo uma possibilidade, a possibilidade de um momento, ou perco-a.”

O posfácio da obra é assinado pelo genro de Frankl, o professor Franz Vesely. Lembra-nos como Frankl, saído do campo de concentração escrevia em setembro de 1945 a amigos: ”No campo de concentração pensávamos que já se tinha atingido o ponto mais baixo da vida. Nada nos resta agora a não ser talvez chorar um pouco e folhear um pouco o Livro dos Salmos.

É possível que se riam de mim, talvez fiquem zangados comigo. Se não tivesse esta filosofia de vida positiva firme como uma rocha – em que é que me teria tornado nestas semanas ou já naqueles meses que passei num campo de concentração? Mas eu vejo as coisas numa dimensão mais vasta. Eu reconheço cada vez mais que a vida tem um sentido de forma tão infinita, ao ponto de querer que tem de haver um sentido também no sofrimento e até no fracasso.”

No verão de 1946, aquele cientista que tinha perdido a família e que só por uma nesga do acaso sobreviveu, lançou-se a fazer conferências, deixou bem claro que nos campos de concentração pôde observar que, mesmo naquela situação-limite da mais dura privação e da mais profunda degradação, tudo o que ele apreendera e descrevera sistematicamente no seu trabalho como conselheiro juvenil e psiquiatra mantinha a sua validade. Os prisioneiros que ainda puderam reconhecer ou pelo menos esperar um qualquer sentido da vida foram os que mais encontraram a força para continuar a viver ou mesmo para sobreviver.

De leitura obrigatória.



                                                                                                        Mário Beja Santos




terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Entre Oriente e Ocidente (30).

 

 

Mais ainda que Heraclea, Stobi é o mais importante sítio arqueológico da Macedónia do Norte.

Foi a capital da província romana da Macedónia.

O imperador Teodósio teve aqui um palácio do qual subsistem ainda os mosaicos. Esteve na cidade no ano de 388.

Pelo menos a partir de 325, ainda no Império Romano, aqui existiu uma sede episcopal cristã. Uma Basílica cristã do início do Século V exibe um baptistério com vestígios surpreendentes.

Podem ver-se também o teatro romano e as termas.

Na última fotografia, outra das basílicas, os arcos fazendo parte da respectiva biblioteca.

Em consequência da devastação do Rei Ostrogodo Teodorico em 479, de um terramoto fortíssimo em 518 e de uma invasão destruidora de bárbaros eslavos no Século VI, a cidade esteve completamente esquecida até 1924 quando se iniciaram escavações arqueológicas.

 









                                                                Fotografias de 24 de Maio de 2022

 

                                                                                                   José Liberato


segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Entre Oriente e Ocidente (29).

 


 

Heraclea é uma atracção maior da arqueologia macedónia situada junto à cidade de Bitola.

Demóstenes que já aqui citei, inimigo incessante de Filipe II da Macedónia, atribui-lhe a fundação desta cidade estratégica em 352 antes de Cristo. Seria próxima do local onde a dinastia se teria iniciado. O seu nome invoca Hércules, suposto antecessor de Filipe.

Demóstenes diz nas suas Filipíadas que Filipe não só não é helénico, nem alguma coisa próxima, como nem sequer é bárbaro pois vem de uma terra de que nada de bom pode ser dito. Ele é uma praga macedónia vindo de um lugar onde nem sequer se deve comprar um escravo…

A cidade foi ocupada pelos Romanos em 148 antes de Cristo. Por lá passava a já mencionada Via Ignacia unindo os mares Adriático e Egeu. Atingiu um alto nível civilizacional.

A partir dos Séculos IV e V, já no período cristão, foi construída a Grande Basílica com os seus extraordinários mosaicos. Heraclea foi então sede de um importante episcopado mencionado nos concílios primitivos.

 

 





 

 

                                                                                       Fotografias de 24 de Maio de 2022

 

                                                                                                                         José Liberato


Esta noite não se improvisa, o ator sabe que o palco é o maior espetáculo do mundo.

 




 


 

Ser ator em Portugal, por Jacinto Lucas Pires, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2022, é uma viagem/inquérito a seres humanos atraídos pelas artes do palco, haverá depoimentos confessionais tocantes e inevitavelmente esses atores irão falar das relações do teatro com o cinema e a televisão, farão previsões sobre o mundo teatral, haverá de tudo como no teatro: paixão, desapontamento, lágrimas e suspiros.

Jacinto Lucas Pires cria uma magnífica ilusão, faz-nos supor que tem diferentes ofícios, é contrarregra, carpinteiro, anda na luminotécnica ou na cenografia, mas o que acima de tudo o leitor extrai é uma ode triunfal ao ator e ao teatro, pois é enredado numa escrita magnífica, com tal fulgência que até somos levados à convicção que todo o texto é fruto do imaginário, vejam-se parágrafos esparsos, soltos, aparentemente voláteis:

- Cresceu sem saber que ser atriz podia ser uma profissão. Na família, não tem ninguém ligado às artes. Não frequentavam o teatro, nem sequer como público, mas eram incentivados a fazer coisas. Viviam todos perto, avós, tios e primos; eram muito próximos. Viam pouco a televisão, mas tinham grande liberdade para brincar. A vocação para ela está muito ligada a isso: o prazer. O prazer de fazer teatro é análogo ao prazer que a criança tem a brincar.

- Precisavam de uma miúda no espetáculo do pai, que era ator, e a irmã mais velha disse que não. De maneira que foi ela. Tinha catorze anos.

- Logo desde pequeno, o que queria era comunicar. Hoje parece-lhe que isso vinha de uma sensação de incompletude aliada a um qualquer impulso narcísico. Numa pecinha do jardim de infância, os colegas saíram do palco mal acabou a representação, e ele ficou, todo contente, a pedir palmas ao público.

- Estava a ver uma peça, como já tinha visto tantas. Quando o espetáculo acabou, ficou sentado, não se conseguia levantar. Era como se o corpo tivesse percebido antes dele. Já era espetador e leitor de teatro há um bom tempo, e aquela talvez nem fosse das melhores peças que tinha visto, mas, de repente, teve a certeza. Queria ser ator. A ideia apareceu-lhe com uma nitidez impressionante.

O leitor que se prepare para esta catadupa de descobertas vocacionais, umas insólitas, outra não tanto. E da vocação segue-se para a formação, a escola artística. Novos depoimentos de inquiridos ou fruto da imaginação do autor, recorde-se que escreve para o teatro, trabalha com diferentes grupos e encenadores:

- Uma escola artística tem de ser exigente. Deve ensinar-nos a pensar por nós próprios. Pôr-nos a usar a arma da curiosidade. Há escolas que querem fazer dinheiro em vez de fazer atores. Nalguns casos, os alunos acabavam por servir como marionetas de professores que não faziam encenações cá fora e usavam a escola para satisfazer esse gosto. Noutros casos, não; os professores davam espaço aos alunos para contribuírem criativamente e aprenderem a ser atores em vez de bonecos.

- No ensino comum, não há uma educação artística transversal. O teatro que se vai fazendo nalgumas escolas do país depende da paixão, da carolice deste ou daquele professor. O ator defende que a escola ideal deve ter uma companhia ou uma unidade de produção. Deve ter um teatro aberto ao público ou, ainda melhor, fazer parte de um centro cultural.

- É importante perceber que o teatro implica uma aprendizagem de várias técnicas, mas é mais do que a soma de todas elas – porque o teatro, como um todo, constitui um saber. Implica estudo e escuta; e capacidade de diálogo com as diferentes tradições que o formam.

Temos agora o ator em cena, o palco pode parecer o paraíso ou o inferno, antes há que aquecer o corpo e a voz, domesticar os nervos, controlar a espera antes de entrar em cena, ultrapassar o medo de falhar. Antes, há uma convivência num universo que escapa ao senso comum, quem não é do teatro não pode imaginar o que é ensaiar: “Não é possível explicar a sala de ensaios a quem não é do teatro. Se dissermos o que fazemos lá, chamam-nos malucos, é o lugar onde nos despojamos de todo o preconceito, um lugar onde podemos vencer o medo de falhar. Para uns, é um lugar sagrado, onde se tem de tirar os sapatos que se usa no mundo. Para outros, é uma espécie de recreio ou campo de jogo.” E registo, mais adiante: “A vida, às vezes, aparece na sala de ensaios.” Atenção, há a leitura, a discussão do texto, a sua locução impõe ou não movimento, alterações faciais, expressões de fúria, de risota, tiradas sob a forma de monólogos é aqui que o ator se ultrapassa, não é para todos fazer de Rei Lear a arrastar o corpo da sua bem-amada filha Cordélia, num tom plangente, soluçante, que nos contagia, pois aconteceu-me ver um notável Ruy de Carvalho a fazer-me chorar, tal a intensidade da sua representação.

E há os problemas de gestão, os estatutos que regem a carreira (o Estatuto do Trabalhador de Cultura), como criar um futuro para o teatro. E a relação com a televisão e o cinema;

“Na televisão, somos o ator-máquina, a quem só se pede que execute. É o público que pede isso. No teatro, somos o ator-criador, a quem são permitidos caminhos diferentes, inesperados. No cinema, somos o ator-subtração: como é que damos a ver alguma coisa retirando a maior parte do que encontrámos. Na televisão e no cinema, o ator está no fim da cadeia das prioridades. No teatro, não. Porque o teatro depende do ator. O projetor pode estoirar, o cenário pode ruir, mas se o ator se mantiver em cena, o espetáculo continua. O teatro é o ator. Para além disso, mas talvez também por causa disso, o ator é mais responsável pela criação no teatro. Há um fascínio dos atores em relação ao cinema, diz o ator. O teatro vai-se, fica só na memória de quem viu o espetáculo em dado momento. O cinema tem o prestígio daquilo que fica.”

Há o ator e há a companhia, há o problema da idade, a perda de memória, saber domesticar as brancas, os deslizes, um sapato entalado, e o ator até pode estar doente quando representa:

“Estar em cena é muito forte. Quando se faz um espetáculo estando-se doente, parece que tudo passa durante aquele tempo. Podemos ter febre, gastroenterites, coisas assim, mas vamos para cena e esquecemo-nos. O corpo dá-nos uma trégua durante aquele tempo. Só no fim nos volta tudo.

Leitura imperdível, uma obra imaginosa, entre o caleidoscópio e uma sala de espelhos, para conhecer vocações, formações, um meio de vida, os ciclones do palco.



                                                                                                           Mário Beja Santos