terça-feira, 4 de novembro de 2014

Rodrigues dos Santos: a sexualidade das onomatopeias (1)

 
 
 
 
 
 
 
“Estão a passar-se coisas de grande gravidade.”
José Rodrigues dos Santos, Fúria Divina, 2009
 
 
“Tem de haver uma explicação para estes comportamentos.”
José Rodrigues dos Santos, Fúria Divina, 2009
 
 
 
 
Em matéria de sexo, a literatura portuguesa contemporânea tem oscilado entre a disfunção eréctil e a ejaculação precoce. Quanto a esta última, o cretinismo escabroso dos livros de Domingos Amaral constitui um exemplo bastante ilustrativo, e dos mais acabados. Em contrapartida, a obra de José Rodrigues dos Santos parece configurar um caso sério de disfunção eréctil, e com tendência evolutiva para agravamento. Analisado o problema quer do ponto de vista clínico, quer literário, o diagnóstico é unânime. E peremptório: o rapaz acanhou-se.
 



 
Longe, muito longe, vão os tempos da célebre cena da sopa de peixe, levada aos escaparates em Outubro de 2005, no inesquecível romance O Codex 632. Neste episódio, dos mais marcantes da ficção portuguesa pós-25 de Abril, a estudante Lena Lindholm, uma sueca de “seios atrevidos e generosos” e com “nádegas carnudas”, seduz Tomás Noronha, professor da Universidade Nova de Lisboa que naquela época tinha 35 anos e envergava “olhos verdes e cintilantes”.       
Recordemos o incidente:
 
 
Parou de comer e fitou-a com uma expressão insinuante. “Sabe qual é a minha maior fantasia de cozinheira?”
“Hã?”
“Quando um dia for casada e tiver um filho, vou fazer uma sopa de peixe com o leite das minhas mamas.”
Tomás quase se engasgou com a sopa.
“Como?”
“Quero fazer uma sopa de peixe com o leite das minhas mamas”, repetiu ela, como se dissesse a coisa mais natural do mundo. Colocou a mão no seio esquerdo e espremeu-o de modo tal que o mamilo espreitou pela borda do decote. “Gostava de provar?”
Tomás sentiu uma erecção gigantesca a formar-se-lhe nas calças. Incapaz de proferir uma palavra e com a garganta subitamente seca, fez que sim com a cabeça. Lena tirou todo o seio esquerdo para fora do decote de seda azul (…). A sueca ergueu-se e aproximou-se do professor; em pé, ao lado dele, encostou-lhe o seio à boca. Tomás não resistiu. Abraçou-a pela cintura e começou a chupar-lhe o mamilo saliente. 
 
 
Era assim Rodrigues dos Santos na sua fase malandreca. Temos de compreendê-lo nessa etapa púbere do seu percurso ficcional para que possamos alcançar, em toda a tragicidade, o drama imenso que aconteceu depois.
         À conta da sopa de peixe, gozaram-no até mais não. A cena piscícola, como é óbvio, seria totalmente retirada da edição americana  (cf. Codex 632. The Secret of Cristopher Columbus. A Novel, Nova Iorque, 2009, p. 90). Em Portugal, entretanto, tudo a malhar no rapaz, um fartote geral. O país encheu o prato. Muito provavelmente, José até levou nas orelhas ao chegar a casa, cabisbaixo e triste, pela hora do jantar. Além da reprimenda à mesa da cozinha, terá sido certamente censurado pela sua própria consciência de marido extremoso e bom pai de família. Vai daí, encolheu-se. Arrepiou caminho, ganhou juízo, deixou-se de sopas e caldeiradas. Recalcando as suas fantasias gastronómicas, voltou enfim a ser o que mais apreciamos nele, um escritor que dedica todos os livros à família (mulher e filhas) e termina sempre agradecendo o apoio da esposa. Um rapaz atilado, em suma. Aquela jóia de moço que qualquer mãe sonha ter como genro. Diário de um Banana.
 
 
 
 
A Fórmula de Deus, 2006
 
O livro que publicou a seguir, A Fórmula de Deus (2006), acusava já as marcas de algum arrependimento por aquele desvario de juventude, próprio de uma puberdade literária da qual, infelizmente, ainda não se libertou. Quando, na primeira página, escutamos o “estridular laborioso das cigarras” e o “arrulhar meigo de um beija-flor” apercebemo-nos de imediato que a obra vai resultar insípida e sensaborona, delicodoce, até mesmo aparvalhada, na linha do “adejar de asas dos pardais” e do “melódico pipilar dos pássaros” que já tinham destruído a página 73 d’A Filha do Capitão (2004).
A impressão é confirmada mais à frente, quando Tomás vai a Coimbra visitar os pais e, gozando o bucolismo do Parque do Choupalinho, avista ao longe “uma importante comunidade estudantil”, com “rapazes e raparigas de livros debaixo dos braços e a ilusão do futuro a bailar-lhes nos olhos”. Aqui concluímos claramente que o doutor Rodrigues dos Santos é hoje um homem mudado, traumatizado, que escreve timorato, sob o peso esmagador da culpa, e que ainda não digeriu bem a sopa de peixe e seu escândalo. O velho Rodrigues dos Santos, maroto, o Rodrigues dos Santos vintage, teria colocado logo a estudantada coimbrã a lamber-se toda, eles com uma “erecção gigantesca”, elas a correm-lhes a “braguilha para baixo”, tirando-lhes as “calças com um movimento rápido”. Sebentas pelo ar, capas e batinas rasgadas “na sua pressa em sentirem os corpos quentes e ofegantes enlaçados um no outro, húmidos e sedentos de fluidos, em fogo, ardentes de desejo, trepidantes e gulosos”. Mesmo com riscos para a ordem pública e a tranquilidade das populações, tudo se consumaria à grande, com guinchos, “num berreiro libertador de carnes em chamas, por entre urros incontidos e gemidos ofegantes”, para usar palavras do saudoso O Codex 632, (na edição norte-americana, um pavor de castidade, todas estas belas cenas de sexo foram vilmente expurgadas: cf. Codex 632. The Secret of Cristopher Columbus, pp. 116ss).     
Em contraste casto com o magno Codex 632, A Fórmula de Deus arrasta-se penosamente por centenas de páginas sem pinga de sexo. Há livros de Enid Blyton bastante mais animados. A personagem feminina principal d’A Fórmula de Deus é uma iraniana de nome Ariana e “olhos de mel” (expressão usada várias vezes, acompanhada de fofuras como “hipnóticos olhos de mel irradiando ternura”, “olhar hipnotizante” ou “olhos melados”; já agora, também são “cor de mel” e “jóias hipnóticas” os olhos de Amélia em A Vida Num Sopro, 2008, pp. 11-12). Quanto aos atributos físicos de Ariana, tudo muito contido e murchito. Descrições piegas e pudicas, ainda que mantendo a bom nível os padrões habituais de foleirismo: uns “olhos cor de caramelo” (“olhos de um intrigante castanho-amarelado” ou “olhos quentes” que logo arrefecem na página 147, tornando-se um “olhar triste” ou com uma “ponta de tristeza”, na página 355), uns “lábios levemente separados” (ou “lábios sensuais” e “lábios grossos e sensuais”, o que é um avanço), um “tailleur cinzento colado ao corpo” (ou, na página a seguir, um “tailleur pregado ao corpo”, semelhante ao “tailleur cinzento justo que realçava as curvas do corpo” de Constança, n’O Codex 632, p. 507). A “expressão exótica” de Ariana, o seu “rosto perfeito” e as “linhas delicadas do rosto” não compensam, em absoluto, o desconsolo da “tez láctea” e da “testa ebúrnea”. Ariana é uma mulher “bela” e “interessante”, mas daí não passa. De substancial, o que lhe sacamos são um “corpo curvilíneo”, “curvas perfeitas e pernas longas de modelo” ou “formas esguias do corpo alto e esbelto”. Um “vulto gracioso”, uma “graciosa gazela”, por certo, mas, no seu perfeito juízo, quem é que quer levar para a cama uma gazela?
Rodrigues dos Santos, nitidamente, abichornou. E está a jogar à defesa. A primeira vez que Ariana e Tomás se cruzam, no caótico Cairo, ao invés de um vulcânico coup de foudre, assistimos, pasmados, ao galã a confessar que apanhara uma diarreia na antevéspera. Como é evidente, “ela ergueu as sobrancelhas e adoptou uma expressão maliciosa” (além, claro, de o aconselhar a evitar as saladas e a fruta descascada, bem como os “restaurantes baratuchos”, insistindo o idiota: “mas eu apanhei a diarreia a comer no restaurante do hotel, o que pensa você?”). Quer do ponto de vista etéreo do encontro romântico, quer na perspectiva selvática do engate carnal, Tomás Noronha é um completo desastre e, como é evidente, todo este diálogo foi sensatamente suprimido na edição americana do livro (cf. The Einstein Enigma, Nova Iorque, 2010, p. 14) Mais adiante, estando os dois num cenário altamente propício (um hotel de luxo), o rapaz Tomás não arranja melhor do que pedir licença para ir ao WC, surpreendendo-se por aquele estabelecimento hoteleiro dispor de retrete e urinóis, “ao contrário da maior parte dos quartos de banho iranianos, onde o local onde se fazem necessidades é constituído por um imundo buraco aberto no chão”. Note-se que o historiador se encontrava na casa de banho de “um dos melhores hotéis do país”. Que impressão teria Tomás, homem cosmopolita e viajado, da hotelaria iraniana? Julgaria que nas casas de banho dos melhores hotéis de Teerão existem latrinas abertas no pavimento? 
Perante um tontito deste calibre, não admira que Ariana Pakravan passe o tempo a refrear os avanços lúbricos do professor da Nova (“Não posso mostrar intimidade consigo”; “Tenho de me dar ao respeito”; “Vai-se portar bem, não vai?”; “Não me vai embaraçar, pois não?”; “Tomás, eu não posso…”; “Não, não pode ser. É também para o seu bem.”; “Tenho de ter cuidado, sabe? A minha reputação…”; “Não diga disparates”). Como sedutor, Tomás, de facto, é uma desgraça, um caso perdido que vai semeando a palavra “porra!” no papel impresso enquanto tenta ter êxito em duas missões, ambas impossíveis: desvendar a “fórmula de Deus” (em alemão, Die Gottesformel) e convencer Ariana a jantar sopa de peixe. À falta de argumentos, conduz a rapariga para uma discussão sobre Física, matéria em que a doutora Ariana dá cartas. Às tantas, ela arruma-o com a Teoria de Tudo (“Nunca ouviu falar da Teoria de Tudo?”). Encostado às cordas, o Prof. Noronha confessa a sua total ignorância sobre essa Teoria de Tudo, que, por explicar Tudo, é, sem dúvida, uma teoria muito prática. Prossegue o bailareco: “vamos lá a ver, sabe ao menos o que é a Teoria da Relatividade?” Pergunta para queijo. Essa, Tomás sabe. Mas, a certa altura, extenuado, entrega os pontos: “Posso ser distraído, mas não sou estúpido, não é?”. Na linha imediata: “Ariana esboçou uma expressão constrangida.” (que é como quem diz: NS/NR). Com aquela humilhação, o macho ficara “intimidado” e, à maneira latina, desvia para os comes & bebes, pondo termo à conversa astrofísica com um convidativo “Não tem fome?”
 Tem ela fome e temos nós, que a meio do romance ainda não trincámos nada que se visse. No Irão, somos enredados num “rendilhado obscurantista” e a historieta emperra no puritanismo islâmico, ou seja, não ata nem desata. Para ultrapassar esse impasse, Ariana aconselha Tomás a abandonar com urgência o país, passando pela Muralha de Alexandre. Tomás Noronha, professor de História na Universidade Nova de Lisboa, pergunta se a Muralha de Alexandre foi construída por Alexandre, o Grande. Não, não foi. Foi colocada ali só para encher chouriços, por José, o Pequeno. Neste tipo de livros, mandam as mais elementares regras, é essencial que o volume tenha um apreciável número de páginas. Quatrocentas, quatrocentas e picos, no mínimo (A Vida Num Sopro tem 616 páginas, O Anjo Branco supera com 678 páginas). Só assim se justifica o preço, tabelado um pouco acima dos 20 euros, e só assim se esmaga a concorrência. Quem se avia para as férias ou para o Natal compra apenas um livro. É essencial, por conseguinte, que seja um volume obeso, capaz de ocupar longas horas estivais ou que faça vista e boa figura aos olhos do tio Octávio quando este desembrulha o calhamaço em noite de Consoada. Por razões exclusivamente comerciais, estes livros, mesmo sem alma, têm de ganhar corpo; e se, noutros cultores do género, o corpo do livro flui naturalmente da mestria de quem o concebe, José Rodrigues dos Santos encontrou um expediente habilidoso e espertalhão para enchumaçar as suas historietas, carregando baldes e baldes de informação wikipédica para o interior dos romances, que se convertem em lições patéticas e intermináveis, reveladoras da total incompetência narrativa do autor e da imaturidade do seu intelecto criativo.
Trata-se de uma estratégia presente já nas suas primeiras obras. Numa só fala de A Filha do Capitão, em meia-dúzia de linhas, o oficial Brandão arruma a baronesa Agnès com ensinamentos sobre Kant, Nietzsche, Kierkegaard e o nómeno, tudo para concluir que “o real é uno” (p. 223). A senhora baronesa, que vivia entre “quatro paredes castradoras”, acha aquela “ideia interessante” e, uma vez que o real é uno, acabam ambos realmente unidos, após ela ter retribuído a aula de filosofia com uma explicação de três páginas sobre psicanálise, o complexo de Édipo (“uma metáfora”) e a obra de Sigmund Freud (pp. 314-316). Como todas as personagens femininas de Rodrigues dos Santos, a baronesa tinha curvas na cintura e uma protuberância nos “seios firmes”, a par de “lábios húmidos e fofos”, “grossos lábios vermelhos” que, no seu “veludo”, guardavam uma boca “doce” e “acolhedora”. O capitão português, mesmo fardado, era “uma andorinha” e a baronesa francesa, quando despida, era “o céu”; a seguir, ela transforma-se num lago e ele num nenúfar, para, enfim, tombarem ambos na cama, onde a saliva do oficial do Corpo Expedicionário torna erectos os mamilos da aristocrata gaulesa, cujos seios, inevitavelmente, eram “arrebitados” (além de “rosados”). Depois de lhe extrair as calcinhas, penetra-a doucement, tal como lhe fora solicitado, ficando atónito quando a fidalga senhora rodopia e, numa pirueta arriscada, rola para cima dele, acrobacia que o experiente Brandão nunca vira fazer, nem sequer entre as “desavergonhadas meninas” de Braga (p. 322).      
 
 
(The Official Website)
 
 
Para dar credibilidade ao seu comércio, e porque “um comerciante não tem coração” (A Filha do Capitão, p. 115), Rodrigues dos Santos fornece serviços pós-venda, disponibilizando um endereço electrónico para esclarecer dúvidas dos leitores. Mais do que isso, coloca na abertura dos livros a afirmação solene, indiciadora de grande insegurança, de que toda a informação aí disponibilizada é absolutamente fidedigna, todos os dados científicos apresentados são verdadeiros, todas as teorias expostas são defendidas por conceituados académicos (o Professor Karamba?). No final, uma sinopse bibliográfica e um entalanço aos especialistas (historiadores, físicos, climatologistas, teólogos) que passaram os olhos pelo manuscrito, ficando assim encravados através de um agradecimento comprometedor. Na capa de Fúria Divina diz-se que o romance “foi revisto por ex-operacional da Al-Qaeda” e, também na capa, vários livros proclamam que José Rodrigues dos Santos é um “Escritor de Confiança Reader’s Digest”. Não há tijolo que não traga autocolantes com estatísticas astronómicas, “27ª edição – 199.000 exemplares” (O Sétimo Selo) ou “20ª edição – 187.000 exemplares (Fúria Divina). A esmagadora maioria dos leitores aposta em gozar o prato; os outros compram por uma razão singela: contado não se acredita.  
Regressemos ao interior d’A Fórmula de Deus, onde, entretanto, o nonsense está ao rubro. O protagonista masculino, para passar o tempo, veste-se de chador, ficando parecido a uma “abastada e conservadora matrona iraniana” ou a uma “beata que fizera voto de silêncio”. Ultrapassado este momento pueril de travestismo orientalista, Tomás cai em si e verifica que está apaixonado. Retornado a Portugal, sentia saudades de Ariana, das suas “conversas embaladas”, da sua “presença serena”. Com a iraniana de olhos melados, “seria capaz de falar até perder a noção do tempo, até os minutos se fazerem horas, até as palavras se tornarem beijos”. Além disso, fora abalroado por um “voluptuoso desejo”, mas, até ali, e já vamos bem entrados no livro, a páginas duzentas e muitas, a única coisa que conseguira comer fora uma “tangerina já despida” – e em Coimbra, a cidade sincrética, que misturava “a tradição com a inovação”, “o fado com o rock” e “o romantismo com o cubismo” (cubismo em Coimbra?!). 
 O sexo acontece, finalmente, por bandas da página 378 (ou seja, já dispendidos cerca de 16 euros dos 24,73 que custa a obra, enquanto no grandioso Codex por apenas 88 cêntimos tínhamos logo raparigas aos sussurros excitados na página 22). Lá acontece o sexo em A Fórmula de Deus, mas sexo célere e contrafeito, ali surgido certamente por imposição do departamento de marketing. Nas margens de um lago no Tibete, com um frio de rachar, os olhos de Ariana Pakravan sofrem uma súbita transformação, passando de caramelo a dourado. Tomás percebe o sinal e contra-ataca com uma “reacção instintiva de macho protector”. Os lábios dela entreabrem-se, “convidativos”, e Tomás inclina-se, “aproximando-se daquelas pétalas escarlates”. Solta-se o beijo, que percorre várias fases: começa “com brandura”, passa a “infinita ternura”, torna-se “guloso” para enfim se converter num “lamber sôfrego”. Num enquadramento geral, dir-se-á que, em breves instantes, “o carinho passou a desejo” e “o amor tornou-se volúpia”. “A fome tomou conta de ambos”, mas nem ouvimos falar de sopa de peixe ou leite de mamas humanas. Quando muito, temos uma mão a enfiar-se pelo colarinho do pullover e depois a procurar desajeitadamente o cinto, um apertão numa mama, uma pouco higiénica lambidela “na boca com mais saliva” e meia-dúzia de botões desabotoados. Ambos se libertam sofregamente da roupa que os aferrolhava e, “acossado pelo frio que se enroscava às pernas”, Tomás levantou as saias de Ariana e “arrancou-lhe as cuecas”. Mas fê-lo rasgando o tecido “com tão desastrada ansiedade” (também Afonso d’A Filha do Capitão ao puxar as calcinhas de Carolina “foi tão desastrado que até as rasgou ligeiramente” – p. 117). Depois de rasgar as cuecas de Ariana, Tomás alcançou finalmente “a abertura quente e húmida” que, por acaso, estava um “caldo a ferver”. Ela “acariciou-o para experimentar a sua rigidez” e, constatando que estava no ponto, “dirigiu-o para onde lhe fazia falta”. Mete-se de permeio uma flor que, “pulsando de antecipação, desabrochou”. E o rapaz, que faz? “Entrou.” No interior da caverna, “teve a sensação instantânea de ter mergulhado num pote de mel” (em A Filha do Capitão, Afonso mergulhou “num delicioso pote de mel”, ao praticar sexo com Agnès na página 322, e Constança, a esposa de Tomás, não era definitivamente “um pote de mel”, como se conclui na página 46 doutra obra, O Codex 632). É esta capacidade, raríssima, de transformar uma novela erótica para maiores de 18 anos numa historiazinha pateta com colmeias e Winnie the Pooh que faz de José Rodrigues dos Santos um caso de sucesso nacional e até multinacional, apreciado mesmo na Síria, nação-mártir. Para não perturbar o desempenho dos actores e limpar o cenário da cena de sexo no Tibete, saem de palco “as montanhas, o lago, as cores, o frio, a luz”. Mas Rodrigues dos Santos, técnico aderecista, carrega mais e mais tralha para o plateau das filmagens: “o verde e o dourado, o ferro e o veludo, o suor e a lavanda, o chocolate e o mel, o tronco e a rosa, a prosa e a poesia, a voz e a melodia, o ying e o yang”. Tomás e Ariana eram, por esta altura, “dois corpos fundidos”. E nós a ver, também todos fundidos. No clímax, gritaram. Depois de gritarem, o português tem uma epifania imobiliária, apercebendo-se de “aquele corpo era a sua casa” (em A Filha do Capitão Afonso descobre que a boca quente de Agnès “se fizera para fazer a sua casa”). Cai o pano.


 


 
Num balanço final, se retirarmos a cena nas margens álgidas do lago tibetano, dez kebabs no Irão (p. 169) e uma tangerina algarvia já descascada, a única coisa que Tomás Noronha papou em toda A Fórmula de Deus  – 574 páginas – foi uma sandes de atum comprada numa máquina do Departamento de Física da Universidade de Coimbra (p. 534). Existem, em todo o caso, ténues vestígios do Rodrigues dos Santos de outrora, o malandreco. Assim, a “superfície macia e gelatinosa” que cobre os seios da iraniana Ariana em A Fórmula de Deus (p. 379) tem claras semelhanças com a “superfície gelatinosa dos seios fartos” da sueca Lena de O Codex 632 (p. 206) ou com os “seios quentes e gelatinosos” da espanhola Raquel de A Mão do Diabo (p. 327). Mas, à excepção desta gelatina superficial, esfumou-se o desejo, deslassou-se a vontade, perdeu-se a química toda entre o autor prolífico e a sua plateia de fãs. É questão de fazer as contas: com sexo à farta, o portentoso O Codex 632 esmagou o mercado com 211 mil exemplares vendidos; em contrapartida, o mais recente Um Milionário em Lisboa só foi comprado por 87 mil almas, ingénuas ou caridosas. Os números não enganam: JRS, romancista em default.

 
(Continua)
 
 
 
 

16 comentários:

  1. Obrigadaaa!!! (precisava mesmo de me rir hoje :)

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  2. Credo. Como conseguiu ler tudo? Auto-flagelação? Só pode. Ou isso já é matéria que a Academia já perfilhou?

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  3. Que adorável escritor/a surgiria de uma cópula entre dos Santos e Margarida Sei Lá.
    Pode iniciar-se uma petição?

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  4. Eu gosto muito do José Rodrigues dos Santos jornalista, adoro o José Rodrigues dos Santos escritor, simpatizo muito com o josé Rodrigues dos Santos pessoa, mas tenho sentido de humor e consegui rir-me bastante com este texto. Só não percebo como é que alguém acha que precisa de fazer um texto tão grande para negativizar a imagem de um escritor. Será porque o escritor tem força? A questão é que este post não aquece nem arrefece a imagem que alguém tenha do JRS.... Quem já não gostava antes, obvamente que contnua a não gostar, e quem gostava, pode achar o texto de mau gosto, ou, pelo contrário, rir a valer, achar um texto engraçado, mas que não deixa de gostar por causa disto. Sentido de humor é uma coisa, deixar-se influenciar é outra bem diferente ;)

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    1. E quando está frio uma pessoa desabafa do frio, o que não aquece o tempo.
      E quando é Outubro e há enfeites de Natal, toda a gente se queixa que faltam quase seis meses para a consoada, mesmo assim todos os anos o Lidl vende chocolates de Natal em fins de Setembro.
      E quando o Futre fala do chenês dele, toda a gente brinca, toda a gente comenta, porém, ele continua a falar nos cheneses e sabe-se lá de mais o quê.
      É a vida, Sr.ª São. As pessoas gostam de procurar gente com quem se identifiquem. Eu adoro posts destes. A São não percebe por que alguém escreve um texto tão grande para "negativizar" o autor. Isso realmente seria difícil de compreender. Mas está a fazer a associação errada, a meu ver. Anda com a dúvida que inventou. Um texto destes não é escrito para denegrir o autor (e ele já faz um excelente serviço nesse campo). Estes posts servem para acalmar aqui o escaldão, a chatice, a vergonha que é ter escritores destes com tantas vendas. Eu podia estar aqui a sofrer sozinha com a ideia, mas Malomil vem e faz-me rir do mal que me aflige. Tenho amigas a venerar o autor em questão, nem ouso abrir a boca para sussurrar a opinião que tenho dele. São posts destes que me valem. Além disso, é um alívio saber que não se está sozinho contra a corrente. E é bem possível que alguém leia este post e pense: "Realmente... Nunca me tinha apercebido do ridículo, mas vendo isto condensado, sem estar a seguir uma história, parece-me absurdo". Sobre o "deixar-se influenciar", é curioso que fale nisso, muito curioso, tendo em conta o espírito de manada que envolve autores deste desnível.

      (Uma pena o taradão que anda para aqui a comentar coisas como o Anónimo de dia 5, às 9:39. Maior pena ainda é ver o seu comentário publicado.)

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  5. São, deixe-me ver as as suas mamocas, querida...

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  6. Nunca o esquecerei, o meu primeiro contacto com JRS terá sempre um cheiro a sopa de peixe a escorrer directamente de um par de mamas gelatinosas...

    Não admira que venda tanto, é mau a valer, mas grossinho, como a ovelhada gosta, para sentir que valeu o dinheiro.

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    1. e só mais uma coisinha, eu de sopa de peixe pouco percebo, mas aquilo leva leite?!

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  7. Ao menos fazia puré de batata. Puré de batata leva leite.

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  8. Bravo! Ainda bem que a castração política rebenta em crítica literária.

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  9. Ora, mas que grandes censores há lá nos States! E o JRS permite tal ablação erótica nas suas obras? Mas há que reconhecer este mérito: este texto, tão animado e divertido, nunca existiria sem obras com manga lhos desta categoria.

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  10. Fui uma das pessoas que engrossou o nº de leitores do JRS nos seus dois primeiros livros. Concluí, depois de os ler, que era apenas um imitador de Dan Brown...e fraco, tanto no discurso como nos argumentos. Deixei de o ler.

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  11. Leio e aprecio JGS, as suas obras pese embora a inveja escondida sob a capa de uma suposta crítica construtiva têm uma adesão de uma imensidão pública que só por si desmente a negatividade atribuida pelo critico.
    Li Dan Brown e a comparação ainda é mais infeliz pois comparações desta natureza só tem a finalidade de denegrir, nunca de elevar ou beneficiar alguém.
    Acho Dan Brown um excelente escritor que teve a sua fase de ouro mas que actualmente sofre talvez de um desgaste criativo, poderei também atribuir a JRS uma fase parecida mas nunca, jamais, em tempo algum, poderia merecer uma crítica tão severa de alguém que aparentemente se julga com capacidade para tal. Tem que ser alguém com evidentes sintomas de pessoa ilustre e de superioridade com um ego demasiado grande para reconhecer alguém muito superior.

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  12. Leio e aprecio JGS, as suas obras pese embora a inveja escondida sob a capa de uma suposta crítica construtiva têm uma adesão de uma imensidão pública que só por si desmente a negatividade atribuida pelo critico.
    Li Dan Brown e a comparação ainda é mais infeliz pois comparações desta natureza só tem a finalidade de denegrir, nunca de elevar ou beneficiar alguém.
    Acho Dan Brown um excelente escritor que teve a sua fase de ouro mas que actualmente sofre talvez de um desgaste criativo, poderei também atribuir a JRS uma fase parecida mas nunca, jamais, em tempo algum, poderia merecer uma crítica tão severa de alguém que aparentemente se julga com capacidade para tal. Tem que ser alguém com evidentes sintomas de pessoa ilustre e de superioridade com um ego demasiado grande para reconhecer alguém muito superior.

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  13. Rir nunca fez mal a ninguém. Havia até uma rubrica na revista das selecções Riders Digest que se chamava "Rir é o melhor remédio".

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