segunda-feira, 14 de março de 2016

Jorge de Sena, Gerald Moser e Rui Patrício.






 

Foi por ocasião do congresso anual da MLA (Modern Languages Association) – e das associações nela filiadas, como a AATSP (American Association of Teachers of Spanish and Portuguese)  –, realizado em fins de Dezembro de 1971, em Chicago. No intervalo de uma das sessões, Jorge de Sena chamou-me à parte para me apresentar um Professor da Pennsylvania State University, o Doutor Gerald Moser. Depois das apresentações, Jorge de Sena disse-me essencialmente o seguinte:
– Cirurgião, quero que saiba que este nosso colega e amigo é o maior especialista da literatura africana de expressão portuguesa e o seu maior benfeitor e divulgador nos Estados Unidos, mas, infelizmente, neste momento é persona non grata em Portugal. E sabe porquê? Unicamente por cumprir o seu dever profissional, como responsável por registar na Hispania (órgão oficial da AATSP) os faits divers do mundo lusófono. Ora, como sucede que o Prof. Gerald Moser informou os leitores da Hispania sobre o facto de o Governo Português, por intermédio do Ministro da Educação, Prof. Inocêncio Galvão Teles, ter dissolvido a Sociedade Portuguesa de Escritores, no dia 21 de Maio de 1965, por ter dado o Grande Prémio de Novela a Luandino Vieira, pelo seu romance Luuanda,  ele, Prof. Moser, passou a ser persona non grata em Portugal, o que quer dizer que está proibido de nele entrar. E quem perde com isso são as letras portuguesas e Portugal. O Cirurgião – continuou Jorge de Sena – que conhece pessoas importantes do Governo Português é que podia servir-se dos seus bons ofícios para que autorizassem este nosso amigo a visitar Portugal, para, dessa forma, poder continuar a informar a América e o mundo que também se faz literatura em Português nas províncias ultramarinas portuguesas.
Eu disse a Jorge de Sena que ia ver o que podia fazer. E, passado pouco tempo, aproveitando do meu bom relacionamento com o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, o Dr. Rui Patrício, a partir da data em que ele, por minha sugestão, tinha sido convidado pelo Chefe do Departamento de Ciência Política da minha universidade – a Universidade de Connecticut – para aí fazer uma conferência, no dia 16 de Novembro de 1970, por sinal sobre a política portuguesa em África, conferência que acabaria por não poder ser proferida por, durante mais de 30 minutos, no salão nobre, súper-lotado, da Student Union (Associação Académica), os membro de várias associações estudantis, de sinal esquerdista radical, terem apupado o Ministro, lhe terem chamado todos os nomes dicionarizados e não dicionarizados, e não terem permitido que discursasse, decidi recorrer a ele, Dr. Rui Patrício, para resolver esse problema. De maneira que, na minha próxima viagem a Portugal, que teve lugar poucos dias depois desse encontro em Chicago, dirigi-me ao Palácio das Necessidades para falar pessoalmente com o Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros do caso Gerald Moser. Depois de cumprimentar o Dr. Luís Navega, Chefe de Gabinete, e de trocar com ele umas breves palavras sobre a famigerada aventura na Universidade de Connecticut, ocorrida no dia 16 de Novembro de 1970, fui recebido pelo Dr. Rui Patrício. Exposto o assunto por alto, o Sr. Ministro, com uma prontidão que me surpreendeu, depositou-me nas mãos dois cartões de visita e pediu-me que desse um deles ao Professor Moser e que lhe dissesse, em nome dele, que lhe escrevesse na primeira oportunidade a informá-lo quando desejava ir a Portugal e o que pretendia aí fazer.
E eu, sem quaisquer delongas, mandei esse cartão de visita ao Prof. Gerald Moser, com a mensagem do Dr. Rui Patrício. E o Prof. Gerald Moser escreveu ao Ministro dos Negócios Estrangeiros e obteve imediatamente autorização para viajar para Portugal, na data que mais lhe conviesse. E a verdade é que, quando essa primeira oportunidade surgiu (o que foi num futuro  muito próximo), o Prof. Gerald Moser, acompanhado da sua esposa, voou para Portugal, tendo à sua espera no aeroporto da Portela o Dr. Manuel Ferreira, “escritor caboverdeano”, como ele próprio se designava e gostava de ser designado, e o maior estudioso português do seu tempo das literaturas africanas de expressão portuguesa: as de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Acrescente-se que foi essa nobre e fecunda paixão pelas literaturas africanas em língua portuguesa que levou Manuel Ferreira a criar e a reger uma cadeira de literatura africana em língua portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, logo após o 25 de Abril.
É desnecessário descrever a enorme satisfação que tive quando me encontrei no Café Paládio com o Prof. Gerald Moser e esposa, acompanhado pelo Prof. Manuel Ferreira  e  esposa, velhos amigos do casal Moser. E mais satisfeito fiquei ainda ao saber que essa viria a ser mais uma das dezasseis viagens de estudos a Portugal feitas por um dos maiores especialistas em literatura africana de expressão portuguesa, nos Estados Unidos.
Através dos anos, tenho referido este facto a vários dos meus colegas e amigos, mas, dada a sua relevância, em meu modesto entender, quero que conste por escrito. Neste sentido, apraz-me informar que há anos, mexendo em velhas pastas, em busca de documentação que o meu colega e amigo George Monteiro me pediu, a fim de escrever sobre Jorge de Sena e as comemorações camonianas de 1972, nos Estados Unidos, encontrei cartas do Prof. Moser a agradecer-me, muito sensibilizado, naquele tom cortês e fidalgo que sempre o distinguiu, esse favor tão especial para ele, tão gratificante para mim e tão benéfico para as letras africanas em língua portuguesa.
E por falar em literatura africana de expressão portuguesa, não posso esquecer que foi graças à recomendação do Prof. Gerald Moser que no Verão de 1972, durante a minha longa visita a Angola e a Moçambique, vim a encontrar-me com o Dr. Carlos Ervedosa, velho amigo do Prof. Moser e também, como ele, especialista em literatura africana de expressão portuguesa, principalmente da literatura angolana. Mas que digo eu? “Literatura angolana”? Qual quê. Carlos Ervedosa contou-me, nesse Verão de 1972, durante um encontro que tivemos em Luanda, que a censura não permitia que nos jornais de Angola, em que ele colaborava, aparecesse a palavra literatura classificada de angolana, moçambicana ou caboverdiana. A censura cortava sempre o adjectivo angolano, moçambicano e caboverdiano, o que dava origem – disse-me Carlos Ervedosa – a frases muito desajeitadas e muito bizarras e caricatas, como, por exemplo, esta: “a literatura encontra-se mais rica com a publicação de mais um livro de poesia do escritor X.” E o leitor ficava sem saber de que literatura se tratava: se da angolana, se da moçambicana, ou se da caboverdiana, dado que, em geral, Carlos Ervedosa fazia recensões de obras literárias publicadas em Angola, Moçambique e Cabo Verde.
Conto estes factos ou “faits divers” para evocar três notáveis estudiosos e divulgadores da literatura africana de expressão portuguesa (Gerald Moser, Manuel Ferreira e Carlos Ervedosa) e sobretudo para mostrar aos incréus de ontem e de hoje que Jorge de Sena, português da diáspora, “O Escritor Prodigioso”, como apropriadamente lhe chamou Joana Pontes num filme com esse título, e com Portugal sempre na mente e no coração, nos lábios e na pena, aproveitava, com o fervor de um noviço, todas as oportunidades para servir os interesses culturais do país que lhe deu o berço: Portugal.
 
António Cirurgião
 
 
 

1 comentário:

  1. Serão realmente precisos tantos "Prof." e "Dr."? Já agora, Eng. Jorge de Sena. Que coisa mais antiquada e absurda!

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