sexta-feira, 21 de abril de 2017

Senhores editores, de que estais à espera?

 
 
 
       Nunca agradecerei o suficiente ao Rui Passos Rocha (obrigado, obrigado, obrigado!) ter-me dado a conhecer este livro. Black Like Me, de John Howard Griffin. Antes de mais, o autor. John Howard Griffin (1920-1980) teve uma vida única, espantosa. Com apenas quinze anos já rumava a França, para estudar no Lycée Descartes, em Tours. Não sabia uma palavra de francês, mas o medo foi uma palavra que, pelos vistos, nunca se atravessou no seu caminho. Depois, seguiu-se a Universidade, também Tours, graças a uma bolsa. Médico, envolveu-se na resistência aos ocupantes nazis, tendo ajudado muitas e muitas crianças a fugir de uma morte certa. Em 1940, escapou de França e alistou-se no Exército Americano. Devido às suas extraordinárias capacidades linguísticas, foi colocado no teatro de guerra do Pacífico, onde viveu cerca de um ano numa aldeia remota das Ilhas Salomão, sem nenhum branco por perto. Aí assistiu às atrocidades dos japoneses, tendo sido destacado para Molotai em 1945. Mesmo no final da guerra, um ataque aéreo japonês lança uma bomba sobre a posição onde Griffin se encontrava. Começou a perder a visão – os médicos declararam que iria ficar cego no prazo de 18 meses, o que veio a acontecer. Mas Griffin, é bom sabê-lo, nunca foi homem de desistências. Em 1946 – ou seja, pouco depois do final da guerra – já está a caminho de Paris, para estudar música com Nadia Boulanger e Robert Casadeus.
 
 
 
       Tendo percebido que não poderia ser compositor, refugia-se na Abadia de Solesmes, o epicentro monacal da aprendizagem do canto gregoriano. Em 1947, uma epifania. Converte-se ao catolicismo e, pouco depois, fica completamente cego. Regressa então a casa de seus pais, no Texas. Desistiu, entregou os pontos? Nada disso. Escreveu um Handbook for Darkness (1949), guia prático para os que perderam o dom da vista, ou nunca o tiveram. Começa a escrever um diário e, de caminho, um romance de 600 páginas, redigido em sete semanas (!). É em 1951 que se dá a sua conversão definitiva ao catolicismo, feita enquanto estudava teologia, filosofia e canto gregoriano com o auxílio de gravações áudio. Em 1957, milagrosamente, recupera a visão. Dois anos depois, Griffin, que não sabia estar parado, inicia o projecto-livro Black Like Me. Em que consistiu? Fazer-se passar por negro. Mais: ser negro. Para isso, graças ao apoio de um dermatologista, começa a ingerir comprimidos contra o vitiligo e a sujeitar-se a radiações de luz solar artificial. Aos poucos, a sua pele escureceu, até Griffin se tornar negro. Começa aí a sua jornada em Nova Orleães, narrada pari passu no livro Black Like Me – as perturbações iniciais quanto à sua identidade, as confusões e os equívocos próprios de quem toda a vida fora branco, a aprendizagem do racismo, na pele e nos hábitos (ir a casas-de-banho para negros, não fazer alaridos nos autocarros, adoptar uma postura servil e obediente). A aventura terminou na Primavera de 1961. Griffin regressou ao Texas e publicou o seu livro – que, como é óbvio, gerou uma tremenda comoção nos espíritos mais bondosos, levando-os a perceber o que era a condição dos negros no Deep South, mas também reacções violentas, ameaças, ataques. Griffin chegou a ser fisicamente agredido, mas nem isso o demoveu de combater ao lado de Luther King e de outros contra a segregação racial. Deu mais de 1.200 palestras e o livro é um clássico imperdível, magistral, magnífico e trepidante – e muito obrigado ao Rui Passos Rocha, mil vezes obrigado, por me ter resgatado da minha ignorância quanto a uma obra que, senhores editores, de que estais à espera?
 
 
António Araújo

 




 


1 comentário:

  1. Muito interessante. Ja agora, refira-se que a abadia de Solesmes é um dos cenarios das ultimas obras de J. K. Huysmans, nomeadamente de "En route" (1895) e de "L'oblat" (1903), titulos que, salvo erro, ainda aguardam tradução para português.

    Boas

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