sábado, 11 de julho de 2026

 

         




          Penso rápido

 

          A celeridade ou prontidão com que as personagens de JPM fazem as coisas ou se deslocam daqui para ali não é incompatível com momentos de reflexão mais férteis. Sobretudo quando são acompanhados de gestos que ajudam a pensar quando é preciso pensar: o Padre Guilherme, "coçando pensativamente a cabeça" (p. 74), Mateus "sentou-se, pensativo, num pilar de amarração" (p. 121); "Mateus afastou-se pensativo" (p. 144), "D. Pedro hesitou e cofiou, pensativamente, a barba" (p. 206), o Duque da Terceira "ficou pensativamente a puxar os pêlos do bigode" (p. 304), o Duque da Terceira "passou uma mão pensativa pela face" (p. 304), o Duque da Terceira, "com gestos calmos, acendeu um charuto e ficou pensativamente a olhar para o rio" [Tejo] (p. 309), Etelvino de Vasconcelos "voltou pensativo para dentro do café" (p. 311), Mateus "ia pensativo, a digerir aquelas novidades" (p. 313), "Mateus ficou pensativo" (p. 322), "pensou um pouco, coçando o queixo" (p. 334) (O Estranho Caso de Sebastião Moncada).

          Benedita "ficou a olhar as águas, imersa nos seus pensamentos" (p. 44), "O alemão fez um ligeiro compasso de espera como se estivesse a pensar" (p. 115), "sentaram-se pensativos" (p. 350), "O chefe ficou pensativo" (p. 421) (Uma Fazenda em África); Rui caminha por Portobello Road (Londres) "em passo lento, pensativo" (A Aluna Americana, p. 201); "o general passou a mão pelas suíças grisalhas como se esse gesto o ajudasse a pensar" (p. 118), "afastava-se, pensativo" (p. 183), "Napoleão ficou parado, a pensar" (p. 194); "Bento fora toda a viagem pensativo" (p. 240) (Até ao Fim da Terra), Robert "ficou imóvel e pensativo" (p. 250) e Elvira "ficou por alguns minutos sentada, pensativa" (p. 313) (Os Dias da Febre), Tarquínio Torcato "reclinou-se para trás na cadeira, pensativo" (p. 88), Damião Costa "ergueu uma mão pensativa e coçou a cabeça" (p. 105), "Bento ficou pensativo" (p. 267), o rei Atanásio "balançava-se, pensativo, na sua cadeira" (p. 297) e Vasco "regressou, pensativo, à Toca do Tatu" (p. 308) (Do Outro Lado do Mar), Custódio "fumava e pensava" (p. 188), Maria del Carmen "encostou a cabeça, pensativa, ao vidro da janela do autocarro" (p. 242) (Vento de Espanha), "o Professor José Hermano Saraiva bebia pensativamente o seu café, sentado a uma das mesas" (p. 40) e Nelson Fernandes está "sentado a uma mesa, de pensativa cabeça apoiada na mão esquerda" (p. 49) (Um de Nós Deve Lembrar-se).

          Em certos momentos, JPM aproxima-se do Livro do Desassossego, de Bernardo Soares (Fernando Pessoa), cujo núcleo (o núcleo do seu núcleo obsessivo) gira em torno da relação significativa entre o fumo do cigarro e a capacidade do narrador medir a extensão e a profundidade da sua existência. Como quem diz, no seu recolhimento pensativo: "Fumo, logo existo". Ou "estou vivo para poder fumar". Porque o conforto do fumo do cigarro funciona, ora como matriz espiritual, que permite cartografar os trabalhos da subjectividade, ora como um tubo de escape poético, porque nele confluem inúmeras sensações, ora como um véu ou biombo que enquadra o transe poético do artista, em processo de dissolução íntima.

          Repare-se nesta citação, que se justifica a si própria: "Mateus sentou-se, pensativo, num pilar de amarração", e "enrolou laboriosamente um cigarro, que acendeu, e ali esteve que tempos, fumando e sentindo, melancólico, que a existência se lhe escapava em fumo" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 121).




          Irreverente e politicamente incorrecto, JPM descreve algumas personagens como fumadores compulsivos e ansiosos, de cujos pulmões se podia extrair carvão: "Ela esmagou o resto do cigarro no cinzeiro, como se a pergunta a irritasse" e "Isabel esmagou o cigarro no cinzeiro como se estivesse a esmagá-lo a ele" (A Aluna Americana, págs. 26 e 243); "disse Carlos, esmagando o charuto com força, para esmagar a irritação que aqueles dois lhe causavam" (Os Dias da Febre, p. 63); "Quando o cigarro começou a queimar-lhe os dedos, atirou-o para o chão e pisou-o, rodando repetidamente a ponta da alpercata para a esquerda e para a direita. Fê-lo com exasperação, como se naquele momento estivesse a pisar as suas decisões erradas e o estúpido rumo que dera à sua vida" (Vento de Espanha, p. 143).

 



          Varre, varre, vassourinha

 

          JPM é um escritor plástico. Combina o material e o abstracto. Abarca, e mantém unido, aquilo que as convenções e as regulamentações tendem a desagregar e a contrastar: o espírito e o mundo, a natureza subjectiva e a natureza objectiva. JPM observa os mundos exterior e interior com igual atenção, mantendo um equilíbrio que lembra os romances do século XIX.

          Os narradores tendem para a subjectivação do material, e vice-versa. Voltados para o real, o concreto, o objectivo, nunca esquecem o universo mental, a relação entre o visível e o invisível. Em JPM, tudo isto se implica mutuamente. Quando des-subjectivamos o subjectivo e des-objectivamos o objectivo, atingimos a materialidade do abstracto e a imaterialidade do concreto. Ou, melhor, a espiritualização da matéria e a materialização do espírito.

          Para se ter uma ideia do que acabamos de dizer, é preciso citar algumas frases – frases completa e plenamente construídas, senão mesmo excelentemente conseguidas – que jogam com muitos elementos do imaginário do leitor médio, por via da transferência de significado de um domínio físico (limpar o lixo com a vassoura) para o domínio psicológico (eliminar sentimentos, impulsos, motivações): Eufrásia "varreu a decepção do rosto e limpando as mãos ao avental", "Tentou varrer esses pensamentos da mente" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 19, 152); Bernardino "varreu esses sentimentalismos", "Peter sentiu uma onda de admiração varrê-lo dos pés à cabeça", Peter, magoado, "quis varrê-la rapidamente da cabeça e do coração", "uma onda de tristeza varreu-lhe a expressão" (Uma Fazenda em África, págs. 43, 106, 205, 341); "varreu radicalmente as fantasias pela janela", "olhos varridos de tristeza" (A Aluna Americana, págs. 229, 282); "lá nas lonjuras do mundo, iria ser possível varrer para sempre" as mágoas", Gaspar "varreu Clementina do seu pensamento" (Do Outro Lado do Mar, págs. 41, 71); "a inquietação varreu-se da sua cabeça" (Até ao Fim da Terra, p. 195); Elvira "foi varrida por um desgosto dilacerante", "assim que entrou no quarto das criadas, varreu o desejo" (Os Dias da Febre, págs. 131, 197); Henrique Lemos tentou "varrer aquela notícia do pensamento", Manuel "procurou varrer tudo aquilo do espírito", "foi varrendo a divisão com os olhos" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 72, 133, 258).

 

          Zeugmas

 

          A fusão, na mesma frase, entre as realidades concreta e psicológica, ou entre materialidade objectiva e percepção subjectiva, é uma das grandes marcas estilísticas de Eça de Queirós e de JPM. Através de recursos estilísticos como a dupla adjectivação e as imagens sinestésicas, da conjunção do zeugma (uma variante da elipse) com o cruzamento irónico, ou paralelismo sintático, do concreto com o abstracto, JPM é um ás a combinar dois elementos de naturezas completamente opostas. Os exemplos abundam, alguns deles fora da nossa imaginação:

 

          1. O Estranho Caso de Sebastião Moncada: p. 318: "deixando-se levar pelas mulas e pelos seus pensamentos".

 

          2. Vento de Espanha: pp. 94-95: "A vida dentro das paredes caiadas da casinha onde ela vivia era cheia e intensa, as sensações fortes, quentes e boas, como a castanha assada e o caldo-verde"; p. 113: "quatro homens dividiam uma travessa de dobrada com grão e opiniões sobre uma coisa chamada Legião Estrangeira"; p. 199: "refugiou-se atrás do pargo assado e de uma das suas frases feitas"; p. 232: "arejar as ideias e o pó dos dias".

 

          3. Até ao Fim da Terra: p. 159: a roupa "causava-lhe uma desagradável sensação de sujidade na pele. Em pior estado ia a sua alma"; p. 188: "O ponteiro vai avançando no mostrador do relógio e também avança nas almas".

 

          4. Uma Fazenda em África: p. 145: "sacudiu energicamente as roupas para afastar o pó e a melancolia"; p. 201: "Benedita bebeu mais um gole de chá para ajudar a engolir a mandioca e o seu sofrimento";

 

          5. Do Outro Lado do Mar: p. 83: "Voltou a encostar-se ao balcão para descansar as costas e as ideias".

 

          6. A Aluna Americana: p. 93: "Dias depois sobre a pedra de mármore da bancada da cozinha, por entre gemidos e vapores de refogado".

 





          O Mundo de Sofia

 

          Tudo isto aproxima JPM da filosofia (JPM é um historiador, é um intelectual, é um escritor, é um artista e, ninguém duvide, é um filósofo). Aquilo que mais o preocupa é o sentido da vida e o sentido da vida é o que o mantém obcecado.

          É humano procurar o sentido das coisas, tal como é humano sentir vontade de defecar: não valemos nada, não somos nada, não temos direito a nada. Cada um de nós está à beira da obsolescência ou do esquecimento.

          As obras de JPM são autênticos tratados filosóficos, são livros analíticos e teóricos. Mas, acima de tudo, são também terapêuticos: as suas personagens querem encontrar uma orientação, uma verdade espiritual e prática ao mesmo tempo: "Deitar-se a seu lado, sentir o seu calor, fazer-lhe festas, penetrá-la devagarinho e deixar-se ficar dentro dela, tudo isso dava sentido à sua vida", "precisava de um sentido para a sua existência" (A Aluna Americana, págs. 107, 186).

          Os narradores de JPM, que estão além, ou mesmo aquém, do Bem e do Mal, ajudam-nos a valorizar o verdadeiro significado do humano, lembra as experiências e reflexões de Hans Castorp, n'A Montanha Mágica, e de Leopold Bloom, em Ulisses. Tal como estes são viagens fascinantes à mente de Thomas Mann e de James Joyce, também aqui viajamos através dos olhos de JPM, mas para o interior da sua cabeça.

          Para criticar a superficialidade contemporânea, JPM passa do antropológico ao ontológico: o sentido da vida e do ser. A precisão das suas observações sobre o mundo e a vida mostram que, para ele, a literatura e filosofia mantêm uma ligação umbilical e simbiótica.

          Na esteira de autores como Albert Camus, Jean-Paul Sartre ou Vergílio Ferreira, para os quais o romance só subia a alturas inéditas quando coincidia com uma excepcional capacidade filosófica do escritor, os livros de JPM são uma espécie de Curso de Filosofia Positiva: Sátiro encolhe "os ombros numa perplexidade filosófica" (p. 34), "A voz do estalajadeiro despertou-o dessas considerações filosóficas" (p. 215) (O Estranho Caso de Sebastião Moncada); o piloto, um velho seco, que "falava de uma forma tão filosófica" (p. 91), um homem mais velho que, "às vezes interrompia as canções para cofiar a barba rala, com ar filosófico" (p. 194) (Do Outro Lado do Mar); o governador "concluiu, filosófico" (Haiti, p. 151); o cônsul Joaquim Moreira sentou-se "enquanto ia cofiando seraficamente a pêra aguçada, como se estivesse a reflectir (p. 15), "E, alisando o bigode, filosofou" (p. 51), "A carta concluía, filosoficamente" (p. 109), "O alferes filosofou" (p. 322) (Uma Fazenda em África); "filosofou o leitor, repuxando a barba rala" (p. 26), "interrogou-se o alfaiate, com ar filosófico" (p. 101), "exclamou Afonso, revoltado mas filosófico" (p. 171), Elvira "era inteligente e filosófica" (p. 218) (Os Dias da Febre); a letra da canção "Ícaro" (onde se percebe que a bagagem literária de JPM é influenciada pelas canções de Paulo Gonzo, tal como n'A Aluna Americana o é de João Pedro Pais, nomeadamente a canção "Ninguém é de ninguém": na página 80, Doug diz "Ninguém é de ninguém", e na página 115, Isabel diz também que "Ninguém é de ninguém"), escrita por João Pedro Simões, era "mais profunda e filosófica" (p. 110), o motorista António dá "conselhos paternais ou filosóficos" a Guida (p. 148), "Ela fez uma ligeira pausa antes de responder e depois disse, filosoficamente" (p. 235) (Um de Nós Deve Lembrar-se).

          Para se ser filósofo é preciso ter a cara semeada de pêlos, para os poder alisar, puxar, repuxar ou coçar. Dizem os franceses que os homens com pendor reflexivo tendem a deixar crescer a barba – será uma barba metafórica? Ou uma barba literal? – ou a retorcer o bigode (como se estivessem a afiar um lápis).

          Como as personagens de JPM mastigam lentamente os pensamentos pensados, tendem a agarrar-se à barba (ou barbicha). Nestes livros, vá que não vá, há sempre uma barba, um bigode, uma pêra ou mesmo umas suíças para cofiar: "D. Pedro hesitou e cofiou, pensativamente, a barba" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 206);  o governador de Santo Domingo "cofiou a sua bem aparada pêra branca" e governador "cofiava a barbicha" (Haiti, págs. 149, 151); José Ferreira Pinto Basto "cofiou a barba em busca de inspiração", "Jervis de Atouguia empertigou-se, cofiou a pêra castelhana" e o governador Leal "cofiava a pêra num gesto sedutor" (Uma Fazenda em África, págs. 216, 229, 379).

          Inspiração é coisa que não falta em JPM, nunca é um acaso ou uma circunstância pontual: "O padre Inocêncio olhou para o céu para procurar inspiração" (Do Outro Lado do Mar, p. 209); "permaneceu outros cinco minutos a observar o firmamento através de uma luneta telescópica, como se buscasse ânimo ou inspiração nas estrelas" (Haiti, p. 176).

          Depois das barbas, a bem dizer, os bigodes: D. Pedro "alisou os bigodes", "bigodes ruivos que [o conde de Vila Flor] repuxava sempre que se sentia inquieto" e "O duque assentiu com a cabeça, dispensou o tenente e ficou pensativamente a puxar os pêlos do bigode" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 131, 150, 304); Bernardino "alisando os bigodes com a mão esquerda" e "Assumindo uma pose um pouco teatral enquanto cofiava os grandes bigodes" (Uma Fazenda em África, págs. 64, 333); o russo "cofiou os bigodes" (Vento de Espanha, p. 162).

          No século XIX, muitos homens tinham, nas laterais do rosto, suíças. Grandes, impositivas: o piloto que conversa com Vasco "coçava as grandes suíças brancas que lhe escorriam pela face até ao queixo" (Do Outro Lado do Mar, p. 92); "coçando as suíças" (Os Dias da Febre, p. 102), "concluiu o governador em tom espirituoso, cofiando as suíças ruivas" (Uma Fazenda em África, p. 86).

 


          Stop Piolhos (100 ml)

 

          Nestes livros, pensar é uma das mais belas faculdades, mas também faz comichão no couro cabeludo (talvez por causa dos impulsos eléctricos e químicos entre os neurónios), levando as personagens a coçar a cabeça com um ar engraçado (este pormenor pode parecer desconcertante, no meio de uma série de outras coisas mais significativas, mas não o é. Pelo contrário, ajuda a explicar certos rituais tipicamente marquianos).

          Assim em Uma Fazenda em África: "coçando a calva luzidia" (p. 50), Bernardino: "considerou, coçando desconsoladamente a cabeça" (p. 112), "Costa coçou a cabeça" (p. 141). Mas também em Os Dias da Febre (p. 42: "disse Vidal, coçando a cabeça, com preocupação"), em Vento de Espanha (p. 22: "coçando a calva como se revolvesse a memória") ou em Do Outro Lado do Mar (p. 111: Damião Costa "passou uma e outra vez a mão pela cabeça, como se estivesse a ponderar").

 




          Janela discreta

         

          Muitas vezes, quando se põem a pensar, de modo a unirem o pensado ao ver, levantam-se e aproximam-se da janela. Em JPM, ir à janela é muito mais do que ir à janela, é aprender a ver: Etelvino de Vasconcelos está "virado para a janela, onde a chuva continuava a bater, escorrendo pelos vidros", Luísa "olhou pela janela e viu que ainda era manhã", "D. Miguel olhou por uma das janelas do seu gabinete não tanto porque a beleza do pôr-do-sol lhe atraísse o olhar, mas porque sentia a necessidade de se evadir daquelas salas sorumbáticas", "ficou por alguns momentos silencioso a observar as paisagens distantes", "Aproximou-se da janela e olhou para os montes distantes", Luísa "olhou pela janela para a humidade desolada do Outono de Lamego em que o verde dos campos e o cinzento do céu quase se confundiam", D. Miguel "foi até à janela que dava para poente e respirou fundo", "regressou à janela. A sua necessidade de evasão não parava de aumentar", Etelvino: "ficou absorto a olhar para a janela que escurecia com a entrada da noite" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 57, 82, 85, 86-87, 156, 173, 238, 240, 328); "Ficou por momentos a olhar os pombos que poisavam no parapeito da janela", Benedita "gostava de passar longos períodos a contemplar o azul do mar, como costumava fazer nas janelas do quarto dos pais", Benedita "ficou absorta a olhar para o vazio", "a sonhar riquezas e a olhar para além da janela e da claridade que iluminava a tarde, lá fora", "Joaquim Baptista Moreira deixou-se ficar parado à janela", Benedita "abriu a janela e sorveu o ar fresco da manhã às golfadas", "O governador Leal estava à janela do palácio governamental, de olhar perdido na baía" (Uma Fazenda em África, p. 28, 30, 192, 217, 222, 250, 388); "Custódio Moreira (...) levantou-se na cadeira e olhou, pela janela do escritório, para o que se passava lá fora", Lurdes descansava "junto à janela, observando o trânsito lá fora", Custódio "foi até à janela do quarto, olhar lá para fora, para os telhados de Lisboa", "Estava uma manhã mole e quente, pintada num céu imaculadamente azul, e ele [Esteban Zanelli] espreguiçou-se enquanto olhava distraidamente para os telhados de Lisboa" (Vento de Espanha, págs. 30, 71, 109, 208).

          A paisagem do outro lado das janelas parece-lhes lugares onde acontecem coisas maravilhosas: Carlos "foi até à janela virada para nascente e viu os telhados de Santarém batidos pela intensa luz da manhã", "Pensava na doença de Auzenda enquanto ia olhando o sossego da rua a partir da janela da sua saleta", Elvira "olhou por momentos para a chuva que escorria pelo vidro da janela", "Elvira olhou pela janela virada para nascente e angustiou-se ainda mais com o negrume daquele céu em estrelas" (Os Dias da Febre, p. 22, 141, 199, 285).

          Intermináveis momentos passam-se à janela: o major Teles "ficou a contemplar a chuva que batia com força nos vidros das janelas. (...) Ficou a olhar lá para fora durante um interminável meio minuto", Maria Constança "foi até à janela olhar para a rua" e, mais adiante, a mesma Maria Constança "ergueu-se e foi até à janela do quarto que dava para a rua" (Até ao Fim da Terra, págs. 117, 165, 171); "em longos minutos de contemplação, da sua própria janela", "estava tão feliz que se deixou ficar à janela do quarto, sonhadora" (Do Outro Lado do Mar, p. 167, 240); "Era nisso que pensava quando se levantou da secretária e foi até à janela contemplar a esplêndida vista da baía e o mar que brilhava ao luar. (...) Dirigiu-se, de seguida, à janela virada a leste, onde permaneceu outros cinco minutos a observar o firmamento através de uma luneta telescópica, como se buscasse ânimo ou inspiração nas estrelas" (Haiti, p. 176).

          Enfim, a janela é uma imagem recorrente e a prova de que dá grande prazer ao espírito ler este autor: "O governador Leal estava à janela do palácio governamental, de olhar pedido na baía, contemplando não sabia exactamente o quê" (Uma Fazenda em África, p. 388) e "Era nisso que pensava quando se levantou da secretária e foi até à janela contemplar a esplêndida vista da baía" (Haiti, p. 176).

 



          Uma fera enjaulada

 

          A inquietação leva-os a passear de um lado para o outro, da mesa para a janela e da janela para a mesa, "numa agitação de animais enjaulados": Etelvino "enquanto andava de um lado para o outro", Mateus "vivia num permanente desassossego que o fazia andar de um lado para o outro", D. Miguel interrogou "andando de um lado para o outro", Mateus: "ergueu-se e andou de um lado para o outro", Etelvino "andando de lá para cá" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 106, 121, 293, 322, 335); "Um homem pequeno andava nervosamente de um lado para o outro", Ribeiro dos Santos percorria a sala "incessantemente de um lado para o outro como se o movimento o ajudasse a preencher aqueles grandes espaços vazios", "José Leite andava de um lado para o outro, ansioso por partir", "José Leite começou a andar de um lado para o outro, como um animal enjaulado", "como o surdo rosnar de uma fera enjaulada", "Começou a andar nervosamente de um lado para o outro", Peter levantou-se "e pôs-se a andar de um lado para o outro, com o copo na mão, como uma fera enjaulada", "O velho Costa andava de um lado para o outro" (Uma Fazenda em África, p. 50, 79, 143, 307, 355, 357, 381, 398).

          De modo a enfrentarem os seus medos e os seus fantasmas, passam horas nisto: "andava de um lado para o outro, sem conseguir sossegar" (Até ao Fim da Terra, p. 183); Vicente Ogé "andava de um lado para o outro" e Joséphine "a andar de um lado para o outro no quarto" (Haiti, págs. 18, 215); Vidal "andava nervosamente de um lado para o outro no seu gabinete" (Os Dias da Febre, p. 47); Tarquínio Torcato "andava de um lado para o outro, como uma fera enjaulada" e "andando nervosamente de um lado para o outro no seu quarto" (Do Outro Lado do Mar, págs. 281, 314).

 

          É assim mesmo

 

          Para quem ainda o não leu e o quer ler, é importante dizer que os romances de JPM não são de leitura fácil. Porque JPM é um pesquisador da profundidade da existência, da verdade imanente de todas as coisas, das essências íntimas intangíveis. Os seus livros têm um valor de lição filosófica, o que faz dele um escritor emblemático e com mensagem. Em certo sentido, JPM é uma especialista a construir teorias e explicações complexas sobre o sentido da vida.

          Sátiro "disse a si próprio que a vida era assim mesmo, feita de imprevistos, e havia que saber navegar com todas as marés. Queríamos ir para ali e o vento empurrava-nos para outro lado, mas a verdade é que havia um outro lado, e enquanto outro lado existisse, não podia queixar-se" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 265); Damião Costa "disse a si próprio que a vida era mesmo assim" (Do Outro Lado do Mar, p. 113).

          No fundo, JPM acha que a vida é assim e eu estou com ele: "a vida era assim mesmo" (Uma Fazenda em África, p. 428); Isabel "pensou que havia que ter paciência porque a vida era mesmo assim" (Aluna Americana, p. 259). Ou, o que vem a dar no mesmo: "a vida é difícil para todos" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 77) ou a "vida era uma estrada e era preciso segui-la" (O Prazer de Guiar, p. 113).

          Bem vistas as coisas, a vida é muitas coisas ao mesmo tempo: "a vida era verdadeiramente uma caixa de surpresas" (Até ao Fim da Terra, p. 55); "A vida dava muitas voltas e era uma caixinha de surpresas" (p. 93) e, segundo Custódio, "a vida era uma caixa de surpresas e o Diabo brincava com as pessoas" (p. 204) (Vento de Espanha).

          JPM fala em forma de máximas. Cada uma é como uma pérola que JPM expulsa generosamente de dentro de si e atira ao leitor, para iluminar a sua alma, como o sol depois de uma tempestade. Se duvidam, leiam Uma Fazenda em África: "Percebia com cada vez mais nitidez que a vida era cheia de encontros e despedidas, que tão depressa alegravam como magoavam o coração, e que pouco se podia fazer contra esse rumo das coisas" (p. 243) e "a vida era um desencontro, uma procura frustrada do que se amava" (p. 428).

          A sorte e o azar são os maiores romancistas do mundo, eis outra lição – indesmentível e piramidal – com que JPM nos mimoseia: "A sorte e o azar desempenhavam um papel central na vida de toda a gente" (Uma Fazenda em África, p. 288); Ema dava-se conta "de que a vida era um profundo mistério, uma roleta, em que a sorte (...) podia mudar de oito para oitenta ali ao virar da esquina" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 69); "No fundo, a sua vida sempre fora uma longa dança com a sorte e ele soubera dançar" (Do Outro Lado do Mar, p. 102).

          Quando JPM contempla as voltas que a vida dá, o resultado não varia muito. É isso negativo? Um defeito? Um sinal de preguiça? Longe disso. JPM sabe, por demais o sabe, que a verdade é mais importante que a variedade. É consciente de que o seu cérebro simplifica demasiado o mundo que o rodeia, de modo a elaborar uma narrativa que permita aos leitores sentir que controlam o enredo: "A vida tinha muitos caminhos, uns traziam, outros levavam" (Uma Fazenda em África, p. 264); "A vida tem muitos caminhos, uns trazem, outros levam" (Aluna Americana, p. 209); "Todos temos um caminho. O doutor tem um caminho e os navios também" (Do Outro Lado do Mar, p. 93) e o barqueiro para Vasco: "A navegação é como a vida. Todos temos um caminho. O senhor [Vasco] tem um caminho e os navios também", diz o barqueiro para Vasco, também em Do Outro Lado do Mar, p. 350).

 



          Heróis do Mar

 

          Mas JPM é um historiador que tem a História gravada na pele, nas mãos, na cara, nas camadas de músculos e nervos que geram as expressões do rosto e moldam o imaginário. Um imaginário português, bem verdadeiramente português, pois o namoro de JPM com o imaginário das travessias marítimas não é trivial, antes uma fonte de constante renovação do seu corpus literário: Custódio "sentiu-se um Vasco da Gama acabado de chegar à Índia" (Vento de Espanha, p. 20); quando Nuno "aterrou em Heathrow sentiu-se como Vasco da Gama a chegar a Calecut" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 171); Sátiro sentiu-se "como um Colombo que descobrira a América" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 60); Isabel, em Londres, "foi bebendo as ruas e encantos de Londres com a avidez de um Colombo que descobre Índias" (A Aluna Americana, p. 154). Todos eles grandes viajantes, como aquele que foi enviado à Índia e à Etiópia por D. João II, para obter informes sobre o Preste João e as rotas do comércio das especiarias, tendo estado em Goa, Ormuz e Calecute, percorrendo seguidamente a costa oriental de África: "Sentia-se um bandeirante, um descobridor, um rasgador de sertões, um viajante ousado, um Pêro da Covilhã" (Uma Fazenda em África, p. 129).

          Há ainda várias referências ao navegador português Gil Eanes, famoso por ter sido o primeiro a dobrar o Cabo Bojador (em 1434): em Um de Nós Deve Lembrar-se (sucessivamente págs. 72 e 134), Henrique "passara, há dias, o seu Cabo do Bojador" e Manuel pediu ajuda "ao seu adorado Jacques Brel, um homem de grande sensibilidade, para que o ajudasse a vencer aquele Bojador" (as personagens Manuel e Helena são fãs daquele cantor belga: para aquele, é o "seu adorado", para esta, que a dada altura se põe a cantarolar "uma canção de Jacques Brel", o belga é o seu cantor favorito", p. 165; em A Aluna Americana, na página 107, José Duarte "pôs-se a ouvir discos do Jacques Brel, o seu habitual consolo para os tempos em que estava deprimido").

          O ter conseguido passar o Bojador foi um acontecimento que ficou para a História por ter acabado com o mito de que aquela porção de terra que se estende para dentro do Atlântico seria o "fim do mundo" e, por isso, um local intransponível, de onde podiam surgir monstros ou figuras grotescas, de aparência e dimensão diferentes: "O mar, que dava o pão, podia ser um monstro tenebrosos", "O mar era um monstro cruel e traiçoeiro" (Uma Fazenda em África, p. 275).

          Celebrar as conquistas e a heroicidade dos homens dos Descobrimentos – sim, devemos ter orgulho nesta palavra que designa "aquilo que os navegadores portugueses fizeram nos séculos XV e (parte do) XVI, abrindo novas rotas oceânicas, encontrando e ligando terras e povos que até então Portugal, a Europa e, em certos casos, todo o Velho Mundo pura e simplesmente desconheciam" (JPM, "Não foi Salazar que inventou os Descobrimentos", Observador, 8 de Abril de 2026) – é um dos objectivo que guiam os romances de JPM: "com a expressão impenetrável e dura de um conquistador" (Uma Fazenda em África, p. 325), com a confiança "de quem vai conquistar o mundo" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 120), "a sua jovem alma de Velho do Restelo falou muito mais alto que a de todos os descobridores que o habitavam", "Como um meticuloso cartógrafo do século XVI ia fazendo um mapa das terras descobertas, ou melhor, o mapa da costa", "sabia que mais para dentro do continente, era Terra Incognita, uma espécie de África povoada de mistérios e ainda à espera do seu Livingstone", "José Duarte respirou fundo como se tivesse chegado à Terra Prometida" (A Aluna Americana, págs. 12, 49 e 112).

          JPM tem uma verdadeira paixão por tudo quanto diz respeito a barcos: "Nunca nada é garantido e temos sempre de estar a navegar para corrigir a rota. Acho que, no fundo, viver é corrigir a rota. Mas tu não sabes isso porque o teu barco está parado" e "A vida é como as correntes marítimas, sabes? Se não remarmos no mesmo sentido, os barcos afastam-se uns dos outros" (A Aluna Americana. págs. 198 e 205). Talvez por isso, "a sua vida [de Mateus] se tornara um permanente e complicado mapa de viagem e de descoberta interior" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 297) e, "no fundo, o mundo era como o convés de um navio, e exigia as mesmas qualidades" (Do Outro Lado do Mar, p. 165).

          JPM, "um homem que gosta de ser homem diante de si mesmo" (Uma Fazenda em África, p. 169), empresta aos heróis-narradores reflexões filosoficamente muito pertinentes, longamente meditadas, sobre o mundo: "O mundo era feito assim" (Os Dias da Febre, p. 46); "A única certeza é que o mundo era um sítio incerto e cruel" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 63); "Para ele [Bernardino] o mundo abarrotava de desigualdades e de injustiças contra as quais era forçoso lutar com denodo e a crença de um Quixote" (p. 18), "Num mundo que lhe parecia cada vez mais ameaçador, absurdo e aleatório ela sentia-se como uma palha soprada pelo vento, sem um braço que a amparasse" e "as vaidades do mundo, onde nada é duradouro" (p. 54) (Uma Fazenda em África); "neste miserável mundo nunca sabemos o que desejar, pois a realização dos nossos desejos é, por vezes, uma infelicidade" (Haiti, p. 242).

          A vida é demasiado confusa, e a nossa escala insignificante face à natureza do universo, para julgarmos que conseguimos entendê-las sem entender JPM: "Muitas vezes quando julgamos que estamos a atar um fio, estamos a atar outro" (Até ao Fim da Terra, p. 213). Na verdade, este escritor fornece-nos várias chaves que permitem perscrutar o enigma da fragilidade das coisas humanas: Tilly percebeu que "tudo na vida humana era frágil e dependente do acaso, da sorte e do azar" (Haiti, p. 104), "De súbito dava-se conta de como tudo era frágil e incerto" (A Aluna Americana, p. 174), "Era estranho como a sensibilidade dos tempos mudava as coisas... e como as pessoas eram minúsculas e irrelevantes à escala do universo" (Uma Fazenda em África, p. 204).

 

          Atracção pelo estranho

 

          Costuma-se dizer que eliminar o que é estranho e diferente é uma mecanismo que permite normalizar a vida social. JPM segue o caminho inverso, é um homem que prefere ver o mundo com os binóculos ao contrário. Sente, no mais fundo de si próprio, uma "Atracção Fatal" pelo estranho e o inquietante, como se ele próprio fosse um misto de Glenn Close e Michael Douglas (no filme homónimo de 1987, realizado por Adrian Lyne). Deixo-vos, apenas e só, uma amostra estatística, colhida ao acaso (como convém):

 

          1. Uma Fazenda em África: "Que estranhas eram as rodas da Fortuna!" (p. 28), "uma estranha e inoportuna inquietação" (p. 32), "Portugal era um país estranho" (p. 46), "Tudo era estranho" (p. 50), "uma estranha vibração" (p. 57), : "sentimento de estranheza" (p. 72), a preta que olhava para Benedita "era uma mulher estranha" (p. 75), "Aquela estranha culinária" (p. 81), "pairava um cheiro estranho" (p. 105), "um estranho silêncio" (p. 116), "a estranha preta" (p. 145), uma "impressão estranha" (p. 157), uma "estranha mistura" (p. 214), "estranha ansiedade" (p. 225), "uma estranha vibração" (p. 232), "em estranhas ondas de desejo" (p. 242), "estranho poder" (p. 247), "estranho nome" (p. 253), "um calor estranho" (p. 262), "estranha lacuna" (p. 318), "estranhamente generoso" (p. 348), "estranha passividade" (p. 367), "estranha palidez" (p. 401), "maneiras estranhas" (p. 418), "um estranho mistério" (p. 426).

 

          2. O Estranho Caso de Sebastião Moncada: "estranhos olhos" (p. 91), Mateus "uma estranha mistura" (p. 93), "estranha experiência" (p. 98), "estranho brilho no olhar" (p. 187), "estranha lagoa" (p. 208), "o mundo era um lugar estranho" (p. 319).

 

          3. Os Dias da Febre: "estranha culinária" (p. 39), uma "estranha sensação" (p. 84), uma "estranha sensação" (p. 141), "a religião é uma coisa estranha" (p. 173), "uma sensação muito estranha" (p. 230), "estranhas coincidências" (p. 317), "um estranho novelo" (p. 318).

 

          4. Vento de Espanha: "como se uma força estranha o dirigisse" (p. 52), "Marrocos era um país estranho" (p. 144).

 

          5. Do Outro Lado do Mar: "vago sentimento de estranheza" (p. 81), "sentiu um estranho arrepio" (p. 155), "numa terra estranha" (p. 172), "uma força estranha no olhar" (p. 302), "línguas estranhas" (p. 337).

 

          6. Até ao Fim da Terra: "uma estranha sensação" (p. 19), um "ambiente estranho" (p. 156), "um estranho país" (p. 187), "estranha inquietação" (p. 195).

 

          7. Um de Nós Deve Lembrar-se: "estranhamente atraída pelo abismo", "uma terra estranha", "estranhos hieróglifos", "as pessoas são estranhas", "uma estranha voz dentro de si", "um barulho estranho", "dolorosamente estranho", "um estranho pudor", "fazia estranhos sons", "acho-a muito estranha", "o mundo era um lugar estranho", "era um fenómeno estranho", um "estranho sentimento", "um estranho sorriso", "um estranho convite", o "estranho nervoso em que fervia", "um estranho sorriso".

         

          Vendo bem, como explica Um de Nós Deve Lembrar, "as pessoas são estranhas e as relações humanas difíceis" (p. 53) e as relações humanas eram um jogo complicado" (p. 57). Como solucionar este problema, só pela rama aqui tocado? A sugestão de JPM, embora possa parecer simples, é profundamente subtil: "As coisas e as pessoas deviam ser arrumadas nas devidas prateleiras para serem identificáveis" (A Aluna Americana, p. 241).

          A literatura de JPM é uma estrutura organizadora de imagens e metáforas ("o voo apavorado do pássaro em busca de uma saída apareceu-lhe como uma confusa metáfora da sua vida", O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 71), mas também de símbolos e fórmulas representativas que resumem as facetas, faces e estados de um mesmo poliedro. A sua capacidade de articulação e de síntese é absolutamente notável. Numa só frase, JPM consegue reduzir a complexidade íntima da vida numa única expressão ou consideração, que abre um caminho que nos permite chegar ao universal.

 

          Orgias e sinfonias

 

          De repente, JPM sente-se poeta: "numa orgia de anedotas e gargalhadas", "uma trovoada de tiros para o ar", "uma orgia de luz e som, de clarões e explosões", "numa sinfonia de suspiros" (Uma Fazenda em África, págs. 72, 105, 262, 429). Noutros livros, uma nota de humor insinua-se: "uma sinfonia de cláxones", "uma sinfonia de cláxones" (A Aluna Americana, págs. 49, 199); "orgia de sangue" (Vento de Espanha, p. 241); "orgia saqueadora" (Até ao Fim da Terra, p. 213); "uma autêntica orgia de divertimento aquático", "uma impaciente sinfonia de buzinas de automóveis" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 55, 229).

 

          Resumos Europa-América

 

          Entender JPM é entender toda a História de Portugal: "Estava ali resumida a força de um povo e a história épica dos descobrimentos portugueses. Estavam ali os anónimos sucessores de Gil Eanes e de Bartolomeu Dias e ele lamentava não ser um Camões ou um João de Barros para os poder contar" e "pareceu-lhe que aquela brancura fria e erma representava a sua vida" (Uma Fazenda em África, p. 124, 35).

          E toda a História do Ocidente: Teresa "personificava o mundo estável e conhecido"; José Duarte, segundo Isabel, "era a personificação daquilo que os Americanos designavam por sex appeal"; "Manuel era a personificação dessa resignação" (A Aluna Americana, págs. 12, 27, 160); "naquela família estava personificada toda a tristeza de ser pobre numa cidade", "Acabara de ver a personificação do fascismo" e "ele era o arquétipo do fascista" (p. 302) (Vento de Espanha, págs. 29-30, 218, 302); Cap Français, a maior cidade de Saint-Domingue, "era o símbolo da implantação das Luzes no Novo Mundo" e "adoptara aquele pássaro [papagaio] como símbolo da escravidão" (Haiti, págs. 168, 201); "Ao ouvir os versos daquela cantiga, Vasco percebeu que estava neles, de uma forma resumida e simbólica, todo o drama da ausência de liberdade", "Vasco percebeu que era ali, naquela multidão parada, talvez ainda mais do que na ponta do chicote, que estava bem vincado todo o horror da escravatura", Sara considera que Tarquínio Tocato "personificava, em simultâneo, o remorso e o perdão", "reparou na palmeira com os ramos curvados pela força do vento e, por qualquer razão, sentiu que ela representava Vasco Lacerda" (Do Outro Lado do Mar, págs. 222, 261, 270, 303); "aquele namorado simbolizava o Portugalzinho de que estava farta" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 21).

 



          Sons do silêncio

 

          JPM está sempre à procura da frase definitiva. Procura dizer tudo o que há para dizer através da muda aprovação do silêncio: "silêncio expectante, prenunciador de novidades", "misterioso silêncio", "silêncio morno", "profundo silêncio", "silêncio incomodado e impotente", "silêncios opressivos", "silêncio meditativo", "num silêncio imóvel e tolhido", "silêncio expectante", "silêncio expectante", "silêncio imóvel", "silêncio expectante e hostil", "silêncio expectante apenas quebrado pelo hino", "num silêncio assustado e impotente", "silêncio indiferente", "imenso silêncio", "embaraçado silêncio", "silêncio tenso e rancoroso", "um silêncio grave, compungido", "um silêncio simétrico e expectante", o bispo e o seu cabido aguardavam D. Miguel "em respeitoso silêncio", "Os dois homens ficaram a olhar-se longamente, em pesado silêncio", "enigmático silêncio", "angustiado silêncio", "o silêncio expectante de Mateus", "desconsolado silêncio" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 10, 14, 16, 17, 43, 65, 79, 82, 89, 94, 97, 108, 109, 143, 158, 178, 206, 208, 225, 233, 239, 250, 263, 286, 299).

          O silêncio não é apenas a ausência de ruído. Tem a sua própria realidade e esta é tão forte e intensa que consegue sobrepor-se às outras realidades. Mesmo a ausência de ruído não é "não existência", mas outro tipo de presença. Bem vistas as coisas, o silêncio (Os Sons do Silêncio, de Simon & Garfunkel, e Os Sons do Silêncio. O Portugal de Oitocentos e a Abolição do Tráfico de Escravos, de JPM) é o ponto de unidade de toda a obra de JPM: "silêncio escuro e arrepiante", "silêncio sepulcral que cobria o cemitério", "silêncio denso, opressivo", "silêncio austero", "respeitoso silêncio", "silêncio natural e espesso", "em absoluto silêncio", "o silêncio era tão profundo", "um silêncio incómodo", "silêncio supersticioso", "silêncio pesado, incómodo", "silêncio carregado de pesadas ameaças", "silêncio embaraçado", "No baleeiro fizera-se um silêncio sepulcral", "silêncio sofrido, destroçado", "um profundo silêncio", "silêncio expectante", "fizera-se um silêncio sepulcral", "silêncio reverente e religioso", "ouviu-o em silêncio reverente", "pesado silêncio", "silêncio desolado" (Uma Fazenda em África, 11, 20, 22, 25, 43, 82, 86, 90, 137, 167, 188, 206, 233, 287, 311, 360, 365, 374, 400, 409, 411, 421).

          Como nos exercícios espiritual de Inácio de Loyola, JPM aprofunda a sua relação com o silêncio, a sua obra inclui um forte compromisso com o silêncio: "silêncio sepulcral"; "um penoso silêncio"; "silêncio sepulcral"; "um silêncio espesso e profundo" (A Aluna Americana, págs. 150, 210, 246, 258); "silêncio tenso e expectante", "pesado silêncio", "silêncio opressivo", "pesado silêncio"; "respeitoso silêncio"; "penoso silêncio", "silêncio surpreendido", "um inquieto silêncio", "silêncio sepulcral" (Até ao Fim da Terra, págs. 38, 57, 106, 107, 173, 174, 190, 194, 241); "estranho e profundo silêncio", "nervoso silêncio" e "um silêncio sepulcral", "um silêncio expectante", "uma pesado silêncio", "silêncio pesaroso", "pesaroso silêncio" (Haiti, págs. 22, 104, 142, 206, 248, 250); "silêncio emocionado", "reverente silêncio", "silêncio embaraçado", "absoluto silêncio" (Os Dias da Febre, págs. 9, 71, 117, 285); "silêncio expectante", "silêncio expectante", "silêncio maravilhado e reverente", "pesado silêncio", "silêncio misterioso", "angustiante silêncio", "pesado silêncio", "silêncio expectante, angustiado", "um silêncio sepulcral", "silêncio grave", "silêncio embaraçado" (Do Outro Lado do Mar, págs. 19, 28, 74, 94, 129, 133, 143, 261, 320, 333, 364); "um silêncio embaraçado", "silêncio balsâmico", "silêncio absoluto", "um silêncio denso, pungente", um "silêncio profundo" (Vento de Espanha, págs. 38, 112, 169, 229, 293); "embaraçoso silêncio" (O Prazer de Guiar, p. 32); "fez-se um silêncio sepulcral", "impaciente silêncio", "em absoluto silêncio", "silêncio expectante" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 44, 71, 153, 218).

 

          Broncoscopia

         

          Mas JPM gosta de colocar as personagens em situações extremas ou opostas. Com ele não há posição intermédia, ou silêncio. Os gritos são suficientemente altos para fazer tremer os candeeiros: o anspeçada "gritou a plenos pulmões" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 270); Bernardino "gritou a plenos pulmões", "cantavam a plenos pulmões", Bernardino "gritou a plenos pulmões", "Benedita ergueu-se e gritou a plenos pulmões", "gritou a plenos pulmões" (Uma Fazenda em África, págs. 44, 209, 317, 355, 422); "a vida que respirava a plenos pulmões" (A Aluna Americana, p. 224); "gritou a plenos pulmões" (Até ao Fim da Terra, p. 30); "ela deu por si a cantá-la a plenos pulmões" (O Prazer de Guiar, p. 137); "respirou a plenos pulmões", "inalou o fumo a plenos pulmões", "gritar a plenos pulmões", "gritava-lhe a plenos pulmões" (Vento de Espanha, págs. 20, 142, 171, 182); um cavaleiro que "gritava a plenos pulmões", "gritou a plenos pulmões", "gritando a plenos pulmões" (Haiti, págs. 65, 83, 171); "a respirar a maresia a plenos pulmões" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 260).

 

          Aristóteles, Moisés, João Pedro Marques

 

          Como facilmente se percebe, JPM nutriu-se das mais variadas tradições greco-latinas. Tal como nestas, JPM é fiel ao princípio de que a literatura deve descrever tipos gerais de personalidade, destinos, modos de viver, histórias arquetípicas, etc. (o que faz dele um clássico moderno).

           Prova disso mesmo encontramo-la nas abundantes referências a uma Afrodite, a um Vulcano, a uma Circe, a um Ulisses, a uma Penélope, a um Júlio César e por aí fora, até àquele que abre caminho entre as águas ou por terra, em direcção à terra prometida: Moisés.

          Nomes com que JPM ornamenta o discurso para denunciar as graves lacunas do país na divulgação das doutrinas e ideias da Antiguidade, fortalecidas no Renascimento, mas totalmente esquecidas ou ignoradas em Portugal (por isso é que eu costumo dizer que os romances de JPM também nos fazem aprender, que quem lê JPM aprende sempre qualquer coisa).

          Exemplos da aproximação de JPM ao calcanhar do mundo – desde a Antiguidade Clássica greco-romana aos temas bíblicos – não faltam. Aqui, JPM joga pelo seguro:

 

          Afrodite: "um sacrifício em honra de Afrodite" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 47); "Uma encarnação de Afrodite, descida do Olimpo para o encantar ou para o torturar" (Os Dias da Febre, p. 197).

 

          Apolo: "aquele Apolo germânico" (A Aluna Americana, p. 244).

 

          Aquiles: Benedita lembrou-se "da primeira vez que o [Peter] vira, à distância, iluminado pelos archotes, após ter morto os leões, como se fosse um bravo Aquiles ou outro belo herói da Antiguidade" (Uma Fazenda em África, p. 332); o Tenente Narciso Sá Nogueira era "um camarada de armas versado em história antiga, comparara-o ao lendário Aquiles" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 110).

 

          Deusas e deuses: "como se viesse de longe fazer oferendas a uma deusa" e "à luz dos archotes, aquele caçador [Peter Sternberg], muito direito no alto da plataforma e com um grande sorriso iluminado pela luz bruxuleante e amarelada, pareceu-lhe um belo deus pagão rodeado de adoradores" (Uma Fazenda em África, págs. 90, 116); "no exacto dia em que fora ao mercado e vira pela primeira vez aquela deusa" (Haiti, p. 149); O cabelo de Caetana "dava-lhe uma aura de deusa grega" (Do Outro Lado do Mar. p. 31); Mateus refere-se a Poleciana como "aquela deusa, exigente e ousada, antecipando o inesperado prazer que ela lhe daria" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 97); Joana Freitas tem uma "aura de deusa inacessível" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 87).

 

          Diocleciano: "como os sete irmãos dormentes do tempo de Diocleciano" (Uma Fazenda em África, p. 190).

 

          Júlio César: o Duque da Terceira "imaginou que deveria ter sido assim que Júlio César se sentia quando passou o Rubicão" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 305); "sentia-se como um Júlio César cercado de punhais", Bernardino "sorria e acenava às pessoas, sentindo-se heróico e ufano como um general romano num desfile triunfal", "Algures naqueles últimos meses tinha passado várias fronteiras dentro de si e Lisboa tinha sido o seu Rubicão" (Uma Fazenda em África, págs. 64, 117, 253).

 

          Marco Aurélio: "com o estoicismo de um Marco Aurélio" (A Aluna Americana, p. 77).

 

          Moisés: Bernardino queria fundar uma colónia em Angola e "sabia que lá no fundo de si tinha o estofo de um Moisés capaz de conduzir o seu povo através do mar até à Terra Prometida", "um Moisés disposto a guiar aquela gente e a insuflar-lhe uma alma", "ganhou o calor furioso de um Moisés que acabava de quebrar violentamente as Tábuas da Lei" (Uma Fazenda em África, págs. 18, 63, 65); "A mão esquerda da recém-aparecida apertava firmemente o cabo de uma vassoura, como se fosse o poderoso e autoritário cajado de um Moisés" (O Prazer de Guiar, p. 85); "a cara de Gaspar transmitia uma força invulgar e assumia o terrível aspecto de uma das figuras vingadoras do Antigo Testamento. Era um Moisés, de olhos irados, envolto no fumo que vinha da fogueira" (Do Outro Lado do Mar, p. 346).

 

          Nero: "sentiu-se como um Nero perante Roma a arder" (Haiti, p. 167); Baptista Moreira "sentia-se um Tibério, um Nero, um homem poderoso cheio de volúpias e perversões" (Uma Fazenda em África, p. 247).

 


          Noé: "cheirava o ar como um Noé precocemente cansado do dilúvio"; p. 207: "era um sacrifício visitar diariamente a sua arca de Noé" [a vida campestre] (Os Dias da Febre, páginas 35, 207); "aquela espécie de Arca de Noé" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 313).

 

          Penélope e Ulisses: Mateus "sentiu-se como um Ulisses a fraquejar face aos encantos de uma bela Circe" [Poleciana], "Sou uma Penélope sem remissão e tu és a minha paixão, o meu Ulisses, lá longe, na guerra" [Luísa para Mateus], "Ao ouvir aquela ordem Mateus alarmou-se e desesperou. Sentiu-se uma espécie de Ulisses que nunca chegava ao fim da sua odisseia" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 96, 194, 296); Benedita "faria e desfaria a tapeçaria as vezes que fossem precisas, como uma Penélope à espera do seu Ulisses" (Uma Fazenda em África, p. 429); Isabel diz a José Duarte que "se deixasse isto prosseguir no grau de proximidade que nós tínhamos iria ficar uma espécie de Penélope e eu quero é ser um Ulisses", "Não quero viver no Palácio de Penélope" (A Aluna Americana, págs. 113, 118); Robert diz a Elvira que "não te quero hipotecada a ninguém ou encerrada num palácio de Penélope" (Os Dias da Febre, p. 314).

 

          Sansão: Raquel para João: "Dantes era um Sansão" (O Prazer de Guiar, p. 146); "A presença dela [Benedita] exercia sobre si [Bernardino] uma atracção dissolvente, tirava-lhe a ira e a força, e ele tornava-se débil e quase inerte como um Sansão" (Uma Fazenda em África, p. 289).

 

          Séneca: Bernardino: "era um voluntarioso, um estóico que bebera em Séneca" (Uma Fazenda em África, p. 18); "Desejava ter o estoicismo de Séneca" (A Aluna Americana, p. 239).

 

          Vulcano: Eleutério, ferreiro de Valongo, "trabalhava com a energia de um Vulcano" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 69).

 

          Zeus: "Por muito Moisés que se sentisse, um governador autoritário, um Zeus inflexível e soberbo descido do Olimpo" e Benedita "pareceu a Leal uma majestosa deusa no meio da tempestade, uma esplêndida encarnação de Palas Atenas, nascida da cabeça de Zeus, o deus dos trovões" (Uma Fazenda em África, p. 69, 263).

 



          O busto de Napoleão

 

          JPM tem um entendimento secreto com as figuras monumentais da Antiguidade e também com os heróis dos Descobrimentos: em casa de Luísa, "a meio da prateleira um pesado busto de Cícero" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 172); no gabinete do ministro, "um pedestal com um busto de Afonso de Albuquerque" (Uma Fazenda em África, p. 227); na sala de reuniões do Cercle des Philadelphes, "busto de Aristóteles" (Haiti, p. 87). Isto habilita-nos a fazer a seguinte sugestão: não deveríamos lançar a candidatura de JPM ao Nobel? Ou representá-lo, também a ele, num busto?

 

          JPM acumula vestígios dos clássicos da Antiguidade, mas também referências às mitologias nórdicas – Peter sentiu-se como "um personagem de sagas antigas" (Uma Fazenda em África, p. 83) e Isabel "tinha as sobrancelhas assertivas, generosas, de princesa nórdica" (A Aluna Americana, p. 26) – e mesmo à Idade Média. Por exemplo, afirma diz que o governador Leal "em tempos idos tinha sido um Cid Campeador, capaz de promover a guerra apenas para ter o ensejo de provar o seu valor" (Uma Fazenda em África, p. 323).

 



          Dr. Marques, otorrino

         

          Há tantas referências destas na obra de JPM como variedades de queijos em França ou pombos em Nova Iorque. Por vezes, o erudito encontra a veia popular, como acontece no uso generalizado da expressão idiomática "As paredes têm ouvidos", cuja origem remonta a Catarina de Médici, nobre italiana que casaria com o rei Henrique II, tornando-se rainha consorte de França (1547-1559). Reza a lenda que ela terá instalado tubos metálicos secretos dentro das paredes no Palácio do Louvre, para escutar as conversas dos adversários e traidores.

          Na verdade, as paredes de JPM têm órgãos auditivos: "a mulher fungou e respondeu em voz baixa por hábito de secretismo não fossem as paredes ter ouvidos", "confidenciou em voz baixa, como se não quisesse que as paredes ouvissem" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 62, 316); "disse, baixando o tom de voz e chegando-se um pouco para a frente, como se as paredes tivessem ouvidos"; p. 391: "Costa assistira calado àquele diálogo (...), porque as paredes tinham ouvidos" (Uma Fazenda em África, págs. 97, 391); "As paredes tinham ouvidos"; "confessou [uma mulher conversando com Lurdes], baixando a voz, como se tivesse medo de que as paredes a ouvissem"; "ensinou-lhe 'A Internacional', que cantava baixinho, porque as paredes tinham ouvidos" (Vento de Espanha, págs. 75, 123, 135); "sem ninguém a vigiá-los de perto [Sara e Vasco], puderam trocar algumas palavras cautelosas e sussurradas porque aquelas paredes tinham ouvidos" (Do Outro Lado do Mar, p. 232); "Falamos no caminho porque aqui as paredes têm ouvidos" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 252).

          Todas as expressões populares movem-se dentro de uma estrutura de repetição, como no conto de Jorge Luis Borges, "Pierre Menard, Autor do Quixote": as frases são iguais e, ao mesmo tempo, completamente diferentes. O trabalho de constante repetição visa criar a mais perfeita ligação entre as personagens, e é acompanhado por um processo de construção de simetrias que induzem uma familiarização entre os tipos e as situações da ficção marquiana.

          Às vezes esbarram, por assim dizer, em muros, tabiques ou paredes invisíveis, que é o mesmo que dizer, mas com redobrada estranheza, "em si próprias": Eufrásia "estacou como se tivesse embatido numa parede", "ergueu-se de novo como uma dura parede perante os seus olhos" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 19 e 132); "Ela baqueou como se tivesse chocado com uma parede" (Uma Fazenda em África, p. 381); "parou como se tivesse chocado com uma parede" (Do Outro Lado do Mar, p. 199); "fora-se interpondo um muro de incompreensão e de desarmonia entre eles", "frustrado com aquela inamovível parede de rejeição que ela antepunha aos seus avanços", "Mas foi nesse homem estóico e teimoso que Joséphine encontrou um muro difícil de derrubar ou contornar" (Haiti, págs. 160, 214, 242); "A primeira vez em que começou a ter uma suspeita quanto às causas do tabique que os separava" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 197).

          Graças a tal método, hábil e engenhoso, com personagens tão calmas e paradas (como uma parede num quarto vazio), JPM consegue fazer com que o leitor sinta que falar com elas é o mesmo que falar com uma parede.

 



          O Amor é Fundido

 

          Neste contexto, percebe-se que as ideias de "fusão", "sintonia", "comunhão" ou "irmanação" sejam periodicamente reafirmadas. Não só porque JPM consegue transplantar o seu mundo neuronal para o cérebro de todos nós, fazendo com que os universos de uns e outros acabem por se fundir, mas também porque ela nos aproxima do conceito de "fluxo da consciência".

          É isso, não mais do que isso, que nos dizem os seguintes exemplos, escolhidos ao acaso: Luísa, em O Estranho Caso de Sebastião Moncada, confessa a Mateus que "fundimo-nos um no outro" (p. 127); em A Aluna Americana Isabel "fundia o seu corpo no dele [Steve]" (p. 69); em Uma Fazenda em África, Benedita "contemplou o quadro durante algum tempo como se quisesse sorvê-lo e fundir-se com ele" (p. 252), Peter e Benedita "fundidos nos braços um do outro sem darem pela passagem do tempo" (p. 378); ou em Os Dias da Febre, quando nos é revelado que Robert "tinha necessidade de um contacto pleno, absoluto, quase de se fundir nela [Elvira], tanto física como espiritualmente" (p. 230).

          Que os livro de JPM correspondem a um esforço de procura da sintonia demonstram-no as seguintes citações: "Os cortinados cinzentos da saleta harmonizavam-se perfeitamente com os estofos coloridos" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 246).

          O mesmo em Os Dias da Febre: Pedro "sentia-se em sintonia com aquela terra e gostava de a explorar cada vez mais e mais profundamente" (p. 50), "Robert acordava com Lisboa, como se estivessem em sintonia ou fizessem parte de um mesmo mecanismo" (p. 77) e Robert sentia "havia uma estranha sincronia entre si e Lisboa" (p. 286). Em A Aluna Americana: "uma cara em perfeita sintonia com aqueles tempos de modorra" (p. 8), "Aquelas caminhadas na praia, sozinho com o mar, o sol e o vento, ajudavam-no a sintonizar com a Terra, o Ar e a Água" (p. 269) e "com os outros carros a movimentarem-se em sintonia contigo" (p. 276). Enfim, Bernardino sentia-se "em plena harmonia com aquele mundo" (Uma Fazenda em África, p. 129).

          JPM, o romancista, tem nostalgia da unidade, procura, por assim dizer, a aventura da comunhão. A suprema harmonia, a reconciliação entre tudo e todos, entre as coisas e o nosso interior. A plenitude é uma forma de libertação, ou de desalienação: "Naqueles momentos de comunhão parecia que conseguia encontrá-la lá no fundo" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 42); Peter "ficava geralmente em plena comunhão com a vida" (Uma Fazenda em África, p. 205); "aquilo dava-lhe uma sensação de infinito e de comunhão com Deus" (Haiti, p. 229); Isabel e José Duarte permanecem abraçados "numa estranha comunhão silenciosa" (p. 121) e "aquele momento de silenciosa comunhão [de Isabel e José Duarte]" (p. 173), em A Aluna Americana; Custódio "esteve em comunhão com o estuário [do Tejo] durante alguns minutos" (p. 20) e Maria del Carmen "estava em comunhão com ele [Vladimir Vorobiov]" (p. 290), em Vento de Espanha; "com esse reencontro [o reencontro com Robert Huntley], viera (...) uma sensação fortíssima de pertença, de comunhão" (Os Dias da Febre, p. 141); o Padre Guilherme "em meditação e comunhão com a natureza" (Do Outro Lado do Mar, p. 248).

 

          Meu amigo, meu irmão

 

          Os romances de JPM pertencem a uma mesma comunidade estética e interpretativa, como é visível no sentimento de "irmandade" que diversamente os atravessa. Em O Estranho Caso de Sebastião Moncada, a velha Inácia "sentiu-se irmanada com as panelas e mais tensa ainda do que elas" (p. 157) Mateus "sentia-se irmanado com a sua gente" (p. 184), "o estalajadeiro lançou os dois braços no ar e irmanou-se naquele grito telúrico" (p. 235) e Mateus "continuava a sentir-se irmanado com aquele homem [Sebastião Moncada] que não conhecera" (p. 302).

          Segue-se Uma Fazenda em África, com Bernardino sentindo-se "unido a José Leite por grande amizade, irmanados no combate como Castor e Pólux" (p. 57). Em Vento de Espanha, "irmanado com aquela gente que ia à bola" (p. 23), "a prisão irmanara-as [Lurdes e Carmen]" (p. 263); "aquela visão trouxe-lhe [a Carmen] um sentimento confuso e torturado de irmandade" (p. 321). Em Haiti, Joséphine "por vezes chorava porque se irmanava no sofrimento dos negros" (p. 25) e "enquanto o povo que assistia se irmanava em aplausos e aclamações" (p. 174). Em Do Outro Lado do Mar, Vasco viu um homem de barba ruiva (Alerta de spoiler: há muitos ruivos nos romances de JPM) e, presumindo que fosse inglês ou holandês "sentiu-se irmanado com ele, um condenado a trabalhos forçados numa terra estranha" (p. 172) e Vasco, no funeral de Clarice, foi invadido por uma mistura de pena e saudade, de mal modo "que os seus olhos se encheram de lágrimas, e sentiu a premência de apertar as mãos dos pretos e pretas que estavam em seu redor, irmanando-se na sua dor" (p. 317). Em Um de Nós Deve Lembrar-se, "estavam todos irmanados nesse horizonte e nesse receio [serviço militar e ida para a guerra em África]" (p. 40) e João Pedro e Eduardo Fialho "estavam irmanados no mesmo sentimento" (p. 117).

          Esta osmose só não é perfeita porque JPM é um autor surpreendente, que gosta de conduzir os leitores para fora do âmbito daquilo que é previsível, introduzindo pequenas variações (como nas Variações de Goldberg, de Johann Sebastian Bach), que provocam desconcerto nos mais apressados: "Luz Soriano sentiu-se estranhamente geminado com aquele homem que, lá longe, pensava e sentia exactamente como ele" (Uma Fazenda em África, p. 28).


                                                                                    (Continua) 



          Este texto é a pré-publicação de um estudo sobre a obra de João Pedro Marques que será editado muito em breve.


                                                                        João Pedro George

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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