domingo, 20 de setembro de 2026

É tudo culpa do trigémio.


 


Não tenho bom feitio, muitas coisas me irritam. Como ouvir que o picante tira o sabor da comida. Em primeiro lugar, estritamente falando, o picante não é um sabor. Os cinco sabores básicos são doce, salgado, ácido, amargo e umami. Não inclui o picante, ponto. O picante é uma sensação: calor, ardor, pungência. Já as malaguetas podem ter notas frutadas, vegetais, fumadas e outras. Das malaguetas frescas picadas a um molho picante, a receita ditará os outros sabores, ao gosto de cada um. Sendo que umas gotas ou uma pitada trazem sempre vida a qualquer prato.

Comecemos pelas confusões. Chili, piri-piri, pimenta e wasabi não cabem todos no mesmo saco. Nem sequer todos picam da mesma maneira. Da boca para baixo, pela garganta e trato digestivo fora, a sensação de calor e ardor é sobretudo capsaicina, a molécula responsável pelo picante das malaguetas. Do nariz para cima, a explosão imediata que sentimos e que rapidamente desaparece é outra coisa: pungência nasal. Chamemos-lhe balsâmico, já que é do trato nasal que se trata.

Na primeira categoria entram as malaguetas, com a dita capsaicina, e a pimenta, com a piperina, igualmente quente e ardente, mas de outra maneira. Até o alho, com a alicina, o gengibre, com os gingeróis, e o cravinho, com o eugenol, podem, com alguma largura de critério, entrar nesta categoria de calor, ardor e pungência.

Já os pungentes aromáticos são o wasabi, a mostarda, o rabanete e a raiz-forte. Todos produzem compostos que estimulam os nervos sensoriais e provocam aquela explosão que sentimos no nariz e que, literalmente, nos sobe à cabeça.

Está na altura de apresentar o trigémio. Não é nenhum irmão, mas sim o nervo responsável por grande parte de tudo isto. É ele que transmite ao cérebro sensações vindas da boca, nariz, olhos e pele: tacto, calor, frio, irritação, ardor e pungência. Quimioestesia pura, dizem-me. Em termos simples: a capsaicina engana o sistema nervoso, activando os receptores que normalmente detectam calor e nos avisam de situações potencialmente nocivas. Como faltar o picante à mesa.

Outra confusão comum é com a origem. Associada frequentemente à Índia, à Tailândia e ao Sudeste Asiático em geral, a malagueta fez uma longa viagem antes de lá chegar. O nome mais comum devia ajudar: chili. Não porque tenha alguma coisa a ver com o nome do Chile, mas porque vem do náuatle, a língua dos astecas da América Central, mais precisamente da região que hoje é o México. Foi domesticada por lá há mais de 6000 anos. Nada surpreendente, não fosse a cozinha mexicana a rainha do chili. Só depois de 1492 a trouxemos para a Europa, donde a levámos, sempre nós, para África, Índia, Sudeste Asiático, China e Japão!

Pena é que, depois de a termos levado para todo o lado, dela nos tenhamos desabituado.

Os portugueses são, regra geral, fraquitos para o picante. Nada tem a ver com mais ou menos valentia. Para além das diferenças biológicas individuais, que podem afectar a tolerância à capsaicina, a habituação e a cultura são mesmo factores decisivos. A exposição repetida à capsaicina pode produzir dessensibilização. É o contrário dos neurónios a fritar. Já uma gota de tabasco hoje vai levar-nos aos habaneros amanhã e, quem sabe, a um Carolina Reaper, o máximo da escala de Scoville.

Por cá, as malaguetas andaram muito ausentes da nossa gastronomia regional. Até ao regresso das colónias e, mais tarde, dos retornados. Com eles veio sobretudo o piri-piri, do suaíli pilipili (a sério), fortemente associado às pequenas malaguetas usadas em Angola, Moçambique e outras regiões.

Tão português hoje que dá nome ao prato mais português para a maioria dos turistas que nos visita.

O que não deixa de ser triste.

 

                                        José António Nogueira de Brito




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