Com tanta transformação digital, há uma área em que a IA nunca vai substituir os humanos. Pelo menos enquanto os computadores não tiverem papilas gustativas, nem trato digestivo, a crítica gastronómica está-nos reservada.
Mas em cada salto
tecnológico há sobressaltos cívicos e, na crítica gastronómica, também.
Poder-se-ia dizer que,
antes da imprensa, não havia coluna gastronómica. Mas simplifiquemos e vamos
directos ao século XIX.
Em 1803 nasceu o Almanach
des Gourmands, de Grimod de La Reynière. E nele, a par de receitas,
restaurantes, lojas alimentares e especialidades, surgiram os primeiros
comentários e julgamentos sobre a matéria. Com júri reunido à mesa e
degustação. Foi uma revolução.
Depois veio
Brillat-Savarin, o mesmo do melhor queijo de pasta mole do mundo, e juntou-lhe
a “Fisiologia do Gosto”. Nunca mais nada foi o mesmo. Apurou-se a técnica, o
gosto e o paladar e surgiram os verdadeiros aristocratas da gastronomia,
autoridades quase inquestionáveis na restauração.
Anton Ego não fez mais do
que os imortalizar: magro, vestido de negro, solene, cruel e com imenso poder.
O verdadeiro árbitro supremo do gosto.
De França, o métier
migrou para os Estados Unidos, com uma legião de críticos independentes e
endeusados. Mas o anonimato passou a ser uma regra primordial. Ruth Reichl
aperfeiçoou-a com perucas, maquilhagem, unhas postiças e óculos. O crítico
tinha de comer como toda a gente, e não como o restaurante gostaria que ele
comesse.
Também por cá tivemos a
nossa escola. Luís Sttau Monteiro deu o mote, com o famoso Inspetor Gourmet.
Mas José Quitério subiu a parada. O primeiro grande e verdadeiro jornalista de
gastronomia deixou-nos uma obra magistral, em colunas regulares e em livros
publicados. Mais importante ainda: criou o seu próprio código de ética,
fundador de uma forma de fazer jornalismo gastronómico e exemplo a seguir.
Hoje é difícil
encontrar-lhe sucessor. Talvez Ricardo Felner, sem dúvida conhecedor e,
sobretudo, com os pés bem assentes no chão.
Depois veio a internet e,
a partir de 2000, os bloggers. No início, não eram muito diferentes:
partilha de receitas, críticas de restaurantes e fotografias de refeições. Mas
começavam a distanciar-se dos jornalistas ditos sérios. E começaram as
perguntas. Quem pagava a refeição? E a deslocação?
Entra o Instagram. E as
fotografias de comida meticulosamente encenadas. Daí até cunharem termos como
food porn foi um ápice. Agora, com milhares de seguidores, brilhavam os
influencers. Mas os seguidores não pagavam nada. Passámos ao caos.
Com custos muito baixos,
a indústria da restauração instituiu o mercado de troca de refeições por posts.
Dos restaurantes desejosos de conhecer os críticos passámos aos influencers
mortinhos por serem convidados. E agora tudo era óptimo. Nem crítica havia.
Crunchy, jucy, tasty.
Delicious… hum… so yummy!
Faltava o toque final. E
veio o TikTok.
Das fotografias passámos
à hegemonia dos vídeos curtos. E dos pratos chegámos à personalidade do influencer,
aquilo que verdadeiramente conquista seguidores. Já não interessa tanto o que
está no prato. Interessa quem está a comê-lo.
Em resumo: Grimod criou
um almanaque para proteger o público da falta de conhecimento sobre os
restaurantes. Reichl desenvolveu o anonimato para proteger a crítica dos
restaurantes.
E dos influencers, quem nos protege?
José António Nogueira de Brito

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