domingo, 6 de setembro de 2026

E dos influencers, quem nos protege?

 



Com tanta transformação digital, há uma área em que a IA nunca vai substituir os humanos. Pelo menos enquanto os computadores não tiverem papilas gustativas, nem trato digestivo, a crítica gastronómica está-nos reservada.

Mas em cada salto tecnológico há sobressaltos cívicos e, na crítica gastronómica, também.

Poder-se-ia dizer que, antes da imprensa, não havia coluna gastronómica. Mas simplifiquemos e vamos directos ao século XIX.

Em 1803 nasceu o Almanach des Gourmands, de Grimod de La Reynière. E nele, a par de receitas, restaurantes, lojas alimentares e especialidades, surgiram os primeiros comentários e julgamentos sobre a matéria. Com júri reunido à mesa e degustação. Foi uma revolução.

Depois veio Brillat-Savarin, o mesmo do melhor queijo de pasta mole do mundo, e juntou-lhe a “Fisiologia do Gosto”. Nunca mais nada foi o mesmo. Apurou-se a técnica, o gosto e o paladar e surgiram os verdadeiros aristocratas da gastronomia, autoridades quase inquestionáveis na restauração.

Anton Ego não fez mais do que os imortalizar: magro, vestido de negro, solene, cruel e com imenso poder. O verdadeiro árbitro supremo do gosto.

De França, o métier migrou para os Estados Unidos, com uma legião de críticos independentes e endeusados. Mas o anonimato passou a ser uma regra primordial. Ruth Reichl aperfeiçoou-a com perucas, maquilhagem, unhas postiças e óculos. O crítico tinha de comer como toda a gente, e não como o restaurante gostaria que ele comesse.

Também por cá tivemos a nossa escola. Luís Sttau Monteiro deu o mote, com o famoso Inspetor Gourmet. Mas José Quitério subiu a parada. O primeiro grande e verdadeiro jornalista de gastronomia deixou-nos uma obra magistral, em colunas regulares e em livros publicados. Mais importante ainda: criou o seu próprio código de ética, fundador de uma forma de fazer jornalismo gastronómico e exemplo a seguir.

Hoje é difícil encontrar-lhe sucessor. Talvez Ricardo Felner, sem dúvida conhecedor e, sobretudo, com os pés bem assentes no chão.

Depois veio a internet e, a partir de 2000, os bloggers. No início, não eram muito diferentes: partilha de receitas, críticas de restaurantes e fotografias de refeições. Mas começavam a distanciar-se dos jornalistas ditos sérios. E começaram as perguntas. Quem pagava a refeição? E a deslocação?

Entra o Instagram. E as fotografias de comida meticulosamente encenadas. Daí até cunharem termos como food porn foi um ápice. Agora, com milhares de seguidores, brilhavam os influencers. Mas os seguidores não pagavam nada. Passámos ao caos.

Com custos muito baixos, a indústria da restauração instituiu o mercado de troca de refeições por posts. Dos restaurantes desejosos de conhecer os críticos passámos aos influencers mortinhos por serem convidados. E agora tudo era óptimo. Nem crítica havia.

Crunchy, jucy, tasty. Delicious… hum… so yummy!

Faltava o toque final. E veio o TikTok.

Das fotografias passámos à hegemonia dos vídeos curtos. E dos pratos chegámos à personalidade do influencer, aquilo que verdadeiramente conquista seguidores. Já não interessa tanto o que está no prato. Interessa quem está a comê-lo.

Em resumo: Grimod criou um almanaque para proteger o público da falta de conhecimento sobre os restaurantes. Reichl desenvolveu o anonimato para proteger a crítica dos restaurantes.

E dos influencers, quem nos protege? 


                                        José António Nogueira de Brito




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