quinta-feira, 25 de março de 2021

A Primavera do nosso desconfinamento (!)

 

 

des·con·fi·nar 
(des- + confinar)

verbo transitivo, intransitivo e pronominal

Tirar ou sair de isolamento ou clausura.

 

Ilustrações de viagem. Inspiração para o desconfinamento prometido.  

 















 

Parque Nacional de Connemara, República da Irlanda. 

Fotografias de Ademar Vala Marques (Agosto 2019).




O saldo do Brexit...



 

Uma biblioteca de pedra na estação do metro de Entre Campos.

 


 


A estação Entre Campos abriu ao público em 1959, quando da inauguração da rede, seguiu, em termos arquitetónicos e artísticos, o programa adotado para todas as estações desta primeira fase da sua vida, o projeto arquitetónico foi de Keil do Amaral e o revestimento de azulejos pertenceu a Maria Keil. Esta adotou um padrão que tem como fundo uma harmonia de cores quentes que vão do amarelo ao vermelho, marcados aqui e além por pequenos grupos de azulejos de fundo verde e claro.

 

Em 1993, Entre Campos foi a primeira estação a beneficiar de obras de remodelação, Bartolomeu Cid dos Santos foi o artista convidado para a animação plástica e o escultor José Santa Bárbara para o tratamento da zona de ligação com o interface com a CP.

 

 




 

O interface entre o metro e a CP tem 150 metros de comprimento, o escultor José Santa Bárbara idealizou, em pedra e aço inox, uma espécie de fonte estilizada. O escultor declarou a tal propósito: “Não cedo a tentações de facilidade e rejeito o à vontade de um computador que faz tudo menos conseguir transmitir qualquer tipo de sentimento. O interface tem passadeiras e um corredor por onde se espalham lojas. Ali estive o tempo suficiente para me aperceber que a multidão leva destino, não se debruça sobre a peça estética de Santa Bárbara, há gente a ler nas passadeiras rolantes ou a congeminar a elaboração do jantar, mas há gente que se passeia com propósito de compra ou beber um café ou mordiscar um salgado ou ver as montras com roupa e artigos de papelaria.

 






Enfim, já estamos no átrio Sul, é território de Bartolomeu Cid dos Santos, está aqui a sua decoração mural em pedra gravada, é um painel dedicado a uma biblioteca. Bartolomeu deu a seguinte explicação: “Tentei organizar os livros, não só cronologicamente mas também por associações de autores ou movimento literários”. Para quebrar a monotonia deste trabalho, Bartolomeu repensou as lombadas de modo a assegurar referências gráficas do conteúdo dos livros ou dos seus autores. No centro da composição, um número significativo de escritores autografaram o painel, num grafiti representativo da literatura atual (da época).

 



Frente à biblioteca, mesmo por cima das linhas do metro, está um painel transversal, com 40 metros de comprimento. Bartolomeu deu o seguinte esclarecimento: “Eu e os meus colaboradores decidimos dedicar este espaço ao grande pintor norte-americano Robert Motherwell, admirado por todos nós e que havia falecido recentemente. Criou-se um trabalho discreto, em branco sobre branco, ou seja, em que o branco da pedra polida e não gravada contrasta com a área baça, corroída pelo ácido”. No painel pode ler-se: “Importa saber que não se pode falar numa arte nacional; ser simplesmente um artista americano ou francês não significa coisa nenhuma. Não ser capaz de sair do seu primeiro meio artístico, é meio caminho para nunca atingir o Humano”, Motherwell define assim o conceito de universidade de arte, que Bartolomeu subscreve.



A plataforma poente tem por tema Luís de Camões, é uma sequência de 10 imagens, cada uma referente a um dos Cantos dos Lusíadas, todos interpretados muito livremente.

 


Os painéis que prolongam pelas escadas os outros dois painéis correspondentes aos de Camões e Fernando Pessoa levantaram problemas a Bartolomeu. Ele explicou: “Enquanto os painéis até aqui descritos foram desenhados no verniz e depois gravados, os restantes foram pintados com verniz na horizontal antes de serem tratados com ácido. Quem subir qualquer das escadas encontrará em sequência aos painéis dos poetas duas enormes cabeças de mulher, memórias de pinturas romanas que numa recente visita a Roma havia conhecido. Se assim o desejarmos, poderemos também considerá-las como as musas dos respetivos poetas”. 

 




 

A plataforma nascente é dedicada a Fernando Pessoa, a sua obra foi descoberta por Bartolomeu em 1952. Ele não esconde a admiração por ele: “A obra do heterónimo Álvaro de Campos e especialmente a Ode Marítima, com o seu sentido de espaço, de distância, bem como de nostalgia de terras nunca visitadas, influenciou grande parte do meu trabalho desde então. Nada mais natural que dedicar 30 metros de parede a um dos meus poetas preferidos, usando uma forma de decoração afim do grafiti em que as palavras e as imagens se confundem”. 


Mário Beja Santos 

 





domingo, 21 de março de 2021

A traição dos intelectuais.

 


 

          Tendo lido a excelente reportagem de Isabel Lucas sobre a polémica em torno da tradução da poesia de Amanda Gorman, várias dúvidas me assaltaram:

 

          1ª – porque é que Amanda Gorman e os seus agentes levantaram objecções a que a sua poesia fosse traduzida para catalão por um branco, Victor Obiols, mas não objectaram a que fosse traduzido para espanhol por uma branca, Nuria Barrios, dita «sem historial activista»?

 

          2ª – porque é que só agora, à boleia desta nova polémica, é que Grada Kilomba vem questionar e criticar a tradução para português do seu livro, Memórias da Plantação, feita por um homem branco, Nuno Quintas, e nada disse nem objectou quando essa tradução foi feita, em 2019?

 

          3ª – alguns, como Inocência Mata, argumentam que a poesia de Amanda Gorman tem características específicas – spoken word – e por isso, só por isso, deve ser traduzida por um negro; para outros, como Grada Kilomba ou o tradutor Paulo Faria, não apenas a spoken word mas muitas outras obras (Oreo, de Fran Ross, ou Memórias da Plantação, da própria Grada Kilomba) devem ser traduzidas por negros. Que obras? Todas as assinadas por autores negros? Só algumas? Quais, então?  

 

          4ª – que características de um determinado autor devem ser valorizadas na escolha do seu tradutor? No caso de Amanda Gorman, vemos apontadas as seguintes características: «jovem», «mulher», «negra», «filha de mãe solteira». Dessas, qual a decisiva na escolha do tradutor? Apenas uma, a etnia? Todas? Porque não o facto de ser mulher? Ou jovem? Ou filha de mãe solteira? Com que legitimidade se erige a etnia em detrimento do género, por exemplo? 

 

          5ª – se escolhemos a etnia como ponto decisivo do «lugar da fala», isto significa que apenas negros podem traduzir negros e brancos podem traduzir brancos? Se sim, porquê? Se não, porquê?

 

          6ª – Porque é que a etnia de um tradutor lhe confere especiais qualificações para o seu ofício? Isso não será racismo, no fim de contas?

 

          7ª – Mais relevante não é, não parece ser, saber porque é que há em Portugal tão poucos tradutores (e, já agora, escritores, cineastas, pintores, etc.) de etnia negra?

 

          8ª – E para sabermos se há «poucos» ou «muitos» tradutores negros não teria sido importante, fundamental, que os Censos de 2021 incluíssem perguntas, de resposta anonimizada e facultativa, que permitissem um retrato fidedigno da composição étnico-racial da população portuguesa?

 

          9ª – Sendo essa, ao que parece, a questão mais decisiva (sobretudo,  decisiva para a população negra mais discriminada e desfavorecida), porque é que um jornal de referência como o Público dedicou várias páginas a discutir a tradução de Amanda Gorman e não abriu espaço idêntico, em devido tempo, para debater a não inclusão, nos actuais Censos, de perguntas sobre características étnico-raciais?

 

          10º - Não estará o debate anti-discriminatório a ser ofuscado, comprometido e sufocado por discussões laterais e menores, que apenas interessam a intelectuais e académicos já estabelecidos no «sistema»?  

 

          11ª – Quem pode traduzir Amanda Gorman? Uma homem de meia-idade pode fazê-lo? Ou apenas Amanda Gorman pode traduzir-se a si própria? Um homem pode traduzir literatura feminista? Um heterossexual pode traduzir escritos gay? Um agnóstico pode dar voz à Bíblia? E quem pode traduzir os clássicos, Aristóteles ou Platão, Joyce ou T. S. Eliot? Um judeu não pode traduzir Mein Kampf? Ou, pelo contrário, só um judeu pode fazê-lo? Não haverá aqui o risco, mais do que evidente, de se criarem novos casulos e barreiras, contrariando a essência própria, universalista, dialogante, do acto de traduzir?   


          12ª – por fim, mas não por último: como é possível conciliar este debate com o propósito de união anunciado no discurso da tomada de posse de Joe Biden, sem o qual poucos saberiam sequer quem é Amanda Gorman? E, já agora, qual o real valor literário da sua poesia?  A obra de Gorman justifica assim tanta discussão e tanto clamor? Ou tudo não passou de uma polémica efémera e estéril – mais uma – lançada nas redes sociais para entreter durante alguns dias os intelectuais do hemisfério norte do planeta, nos seus lugares da academia e nas páginas de revistas ou jornais «de referência»? 

 

António Araújo




 

Um luso-cabo-verdiano que amou desmedidamente a Guiné.


 


 

Entrei um dia na Biblioteca da Gulbenkian para consultar uma obra sobre património artístico africano, acabei nos Reservados a ler uma tese de doutoramento de Benjamim Pinto Bull sobre o escritor Fausto Duarte, documento de leitura aliciante, diga-se de passagem. E, por outra ordem de razões, Fausto Duarte não merecia o injusto silêncio que rodeia hoje o seu nome, foi muito bom escritor e investigador e deixou uma obra assinalável na Guiné.

A tese de Pinto Bull começa por contextualizar os ambientes de Cabo Verde e Guiné. Fausto Castilho Duarte nasceu na Praia, ilha de Santiago ou em 1902 ou 1903, não se sabe exatamente, era filho de padre. Passou a infância na Praia, foi enviado, concluída a instrução primária, para Lisboa, percorreu vários liceus, o Pedro Nunes, o Passos Manuel, o Camões, o Gil Vicente. Vivia no Colégio Universal, na Calçada de Santana n.º 180. Findo o liceu, inscreveu-se no Instituto Superior de Agronomia onde estudou principalmente Geodesia e Topografia. Em 1928, fez exame final do curso de Topografia e elementos de Geodesia. Nesse ano viaja para a Guiné e trabalha para um empresário alemão, Frederick Karsten, como agrimensor. Entre 1929 e 1930 trabalha na delimitação das fronteiras da Guiné sob a direção do tenente-coronel Soares Zilhão, mais tarde o governador da Guiné. Ao percorrer a colónia, entusiasma-se com a natureza luxuriante e caprichosa, deixará as observações das suas descobertas na sua obra, caso dos morros de bagabaga que descreve no livro “Negro sem Alma”:

“A termiteira lembra uma pirâmide egípcia em miniatura. Um é habitação de vivos, outra jazida de mortos, mas ambas são fantasias de arquitetura ciclópica, ambas objetivam encarcerar a sombra e fazer dela o manto de um rei cujo corpo mumificado zomba dos cegos, ou de uma rainha-inseto extravagante – que governa com despotismo, porque perpetua a espécie, porque seu abdómen é um constante viveiro; ambas são ogivas de pedras trabalhadas por gerações inteiras. Numa falta a unidade interior, na outra há a fronteira religiosa. Desfeita a pirâmide, que resta da termiteira? Simples torrões, habitados por insetos que se refugiam instintivamente na treva, porque elas lhes extinguiu para sempre a luz dos olhos”.

Regressa a Lisboa em 1931, casa com Ilda Massano Sereno e volta à Guiné. No ano seguinte, temo-lo novamente em Lisboa onde vem frequentar o Curso Superior Colonial, que termina com brilho quatro anos mais tarde. Em 1934, publica Auá, que obtém o primeiro prémio de literatura colonial desse ano. Tem 32 anos. Já deram pelos seus dotes Aquilino Ribeiro e Vitorino Nemésio, faz amizades, uma delas com um distinto médico, o professor Fernando da Fonseca, encontraram-se em Berlim. Nesse mesmo ano de 1934, na Exposição Colonial do Porto faz uma conferência sobre o tema “Da literatura colonial e da morna”.

Segue-se a novela “Um crime” e depois “O Negro sem Alma” e “Rumo ao Degredo”. Em 1936, regressa à Guiné, fora nomeado secretário-geral da câmara municipal de Bolama. Em 1942, publica “A Revolta”, que obtém o segundo prémio do concurso de literatura colonial. Em 1945, aparecem em Lisboa os contos “Foram estes os vencidos”. De 1946 a Janeiro de 1953, Fausto Duarte participa ativamente na redação do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, tem a seu cargo a secção “História da Guiné”. Em 1950, depois de uma longa estadia na Guiné, é colocado no gabinete de urbanismo do ministério do Ultramar. Em 1952, descobre-se que tem um cancro no estômago. Escreve sem parar, nessa época a censura exige-lhe a supressão de parágrafos no seu livro mais recente “Mãe Joaninha”. É operado duas vezes e morre em 1953, com 51 anos.



Inegavelmente que foi o romance Auá que lhe deu notoriedade como escritor, a Guiné encontrara um narrador de altíssima qualidade. O tema do romance é o conflito permanente entre duas civilizações, a europeia e a africana, mais precisamente a civilização ocidental e a civilização arábico-islâmica. Quem personifica esse conflito? Entre Malam, jovem Fula, que vem trabalhar para a cidade de Bissau como criado de um casal alemão, e que se vai imbuindo de preconceitos e valores ocidentais, e outro jovem Fula, Abdulai, que permanece enraizado nas suas tradições e convicções. Malam volta à sua terra para casar com Auá que 10 meses depois dá luz um bebé “branco”. Malam rejeita a criança enquanto na povoação todos afirmam que “o filho pertence a Malam porque foi gerado no ventre da mulher que ele escolheu. É uma recompensa de Deus”.

Para o leitor ocidental, esta trama tem o poderoso ingrediente de uma escrita cuidada, que detalha perfis e situações. Mais adiante, dar-se-ão exemplos da cultura europeia deste escritor embevecido com as culturas guineenses onde se mostra com solidez os seus conhecimentos de etnografia e religião islâmica. Benjamim Pinto Bull aventa a hipótese de que este mestiço que tinha orgulho em ser cabo-verdiano e que tinha uma forte atração pelas linhas dominantes da cultura europeia sentia-se vexado pelos preconceitos raciais que experimentou, tendo sido a experiência mais dolorosa a sua visita à Alemanha, num período já de ascensão nazi, que nunca mais esqueceu. A sua resposta foi o desenvolvimento de um processo cultural singular, onde predominava uma linguagem cultíssima, quase de pesquisa laboratorial, e o apego à temática colonial, em diferentes situações. Revelou-se um estudioso de gabarito, qualidades que lhe foram reconhecidas por outros estudiosos, como Teixeira da Mota. O topógrafo transforma-se em homem de secretária e dedica-se a projetos de fôlego, caso de dois trabalhos de indiscutível qualidade como foram os anuários de 1946 e 1948, hoje obras de consulta obrigatória dado o acervo de informações que ele coligiu, apensando imagens elucidativas, muitas delas aproveitadas das edições do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa.

Como se disse acima, o tema do romance Auá é um conflito permanente entre duas civilizações, conflito que é protagonizado por Malan, um jovem Fula que trabalha em Bissau como criado, e Abdulai que permanece enraizado nas suas tradições e convicções. Malan é um admirador de tudo quanto fazem os brancos e orgulha-se de oferecer a Auá novas lembranças compradas nas lojas frequentadas pelos brancos, em Bissau, como sejam lenços e pulseiras, e não se esquece de juntar folhas de tabaco e cola para conquistar a simpatia da família da Auá. A vestimenta de Malan é também esclarecedora: “Tinha na sua bagagem um belo par de sapatos que o administrador lhe oferecera. Sobre a sua camisa, pendia um amuleto em prata, contendo um versículo do Alcorão”. Em Fausto Duarte pareciam convergir estas suas forças, a Europa e África, trata-se de uma tensão que perpassa toda a sua obra literária.

Voltando a Auá, todos os Fulas da tabanca criticam Ançatu que, desprezando a lei muçulmana, aceitou não somente viver com um funcionário de alfândega, um português branco, e de ter dele um filho. Auá também vive dividida, sente o choque das duas civilizações. Dividida entre Abdulai, jovem Fula que ficou na aldeia e que lhe oferece presentes genuinamente africanos; e Malan, seu noivo, que lhe envia lembranças fabricadas pelos brancos. E Fausto Duarte escreve: “Sentia uma invencível inclinação por Abdulai, um moço Fula que habitava ali próximo, em Saré-Boilela, e que lhe trazia mel de abelhas bravas e leite coalhado em boas cabaças… Era, senão com desdém, pelo menos com indiferença que, de vez em quando, recebia de Bissau alguns presentes enviados por Malan, que se mesclara no convívio permanente dos brancos do governo”. Malan irá novamente trabalhar em Bissau, quando regressa à sua aldeia para se casar é já em desenraizado, um abismo separa os seus valores dos da aldeia, então decide emigrar para Dakar. Aqui sente o aguilhão da nostalgia.

Aquilino Ribeiro, no seu prefácio, exalta o romance Auá, é de um elogio fulminante: “Está dito, o primeiro que viu a Guiné foi Nuno Tristão, o segundo o autor de Auá”. Na introdução, muito didaticamente, Fausto Duarte contextualiza a cultura dos Fulas à luz dos conhecimentos da época e trata o seu livro como um documentário etnográfico, um novo capítulo de psicologia indígena. Mas o contraste vem na escrita, Fausto Duarte é um homem de cultura europeia com uma testa da sua prosa inequívoca:

“Era meio-dia quando a camioneta chegou a Nhacra.

As águas tranquilas do Impernal acariciando o debrum da paisagem dormente, anquilosada pelo sol adusto, áscua viva que se refletia na opacidade plúmbea dos céus, espreguiçavam em torcicolos ocultando-se entre o tufo emaranhado dos mangais. A vazante tinha posto a descoberto a orla mádida e lamacenta do rio, e uma variedade abjeta de moluscos deslocava-se sobre a terra lodosa, aquecendo-se ao calor estuante de Novembro”. Prosa mais naturalista não pode haver. A crítica literária do tempo embandeirou em arco com o romance Auá: “O primeiro grande romance português inspirado em motivos coloniais”; “A arquitetura da obra é um sólido equilíbrio e a cena do conselho dos anciãos coroa-se como cúpula magnífica”; “O escritor que entre nós melhor sabe traduzir o profundo mistério da alma negra”. O romance conheceu três edições e hoje praticamente ninguém fala dele.

Passemos agora para a conferência proferida por Fausto Duarte no Porto, no âmbito da primeira exposição colonial, em 1934. Começa por referir a atitude dos escritores da sua época face a África e prossegue com comentários sobre a música dos negros, centrando-se na morna, dança tipicamente cabo-verdiana e aqui procura retratar o cabo-verdiano: “Como poeta e músico, o cabo-verdiano é um eterno apaixonado. O amor, ponto de convergência desses dois estados de alma é tema que não cansa e antes rejuvenesce em cada morna, vai de aldeia em aldeia, surpreende epidermes virgens, sobe à cumeeira dos montes, transpõe o mar e abraça as ilhas no desejo insatisfeito de unir corações enamorados. E para fugir a uma vida de resignação e renúncia, o cabo-verdiano, poeta e místico, artista de provocação, baila e canta”.

A novela “Um crime” foge ao contexto africano. Versa o regresso de um prisioneiro da I Guerra Mundial, Hans Weiss, regressado do exílio da Sibéria. Perdeu toda a sua família. É num grande estado de revolta que comete um crime. “O negro sem alma”, datado de 1935, publicado na Livraria Clássica Editora, é o regresso ao conflito entre duas civilizações. Bubacar Djaló recusa as pretensões de Songá à mão da sua filha Aminienta, porque Songá não é Mandinga. No final, vamos ser confrontados com a vitória dos princípios africanos sob os princípios ocidentais. “O Negro sem Alma” também aborda o exílio e a separação. Momo deixa a sua aldeia no Tombali, atravessa a fronteira e entra na Guiné Francesa para vender dois sacos de arroz. Vive-se em plena I Guerra Mundial e todos os indígenas são apanhados para marchar em direção às trincheiras ocidentais. Momo, na confusão, é mobilizado à força, temos aqui um novo exílio forçado. Vemo-lo num campo de concentração com o uniforme soldado francês, irá combater nas trincheiras, será condecorado. No regresso, assistimos a novo choque de valores. Momo regressou com modos afetados, maneirosos, afrancesados. Atrai a curiosidade dos seus compatriotas, mas é nítido que há desenraizamento.

Antes de regressar à Guiné, Fausto Duarte escreve em 1936 novo romance, rumo ao degredo, publicado pela Guimarães Editora. Põe a seguinte dedicatória: “À minha mulher e ao meu filho”. Manuel da Gaita, inocente, é condenado ao exílio. Regressa 15 anos depois à sua aldeia, no Ribatejo. João Gaspar Simões, então sumidade da crítica literária, não foi meigo com Fausto Duarte, diz que ruma ao degredo é um romance que ficou a meio o que devia ser. “Onde seria necessário pôr à prova o talento do romancista, Fausto Duarte sucumbiu”.

 

Fausto Duarte foi um importante investigador da história da Guiné. O seu propósito fundamental como chefe da secção História do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa era o de “inserir nas páginas do boletim material de grande importância histórica constituído por manuscritos, tais como avisos, contas, cartas patentes, consultas, registos, pareceres, etc e outros documentos que poderão interessar a quem se disponha a estudar as origens da formação da província e o seu progressivo desenvolvimento a partir da época em que a nossa ação estava circunscrita às pequenas praças e feitorias nascidas da exploração das fontes de riqueza dos Rios da Guiné… Por eles se conhecerá melhor o meio, e o homem, ou seja, a terra, o colono e o nativo, as suas paixões e as suas lutas”. Os artigos que ele publicou no Boletim denotam uma grande preocupação pelo rigor e o seu acrisolado amor por Portugal e pela Guiné: artigos em que abordava a mudança desde a época da permanente hostilidade ao branco até ao momento em que é o branco que passa a decidir tudo; Alexandre Herculano tribuno e a sua importante peça de oratória sobre a Guiné Portuguesa; uma chamada de atenção sobre o presídio de Bissau e o Ilhéu do Rei. Revela-se uma investigação para explicar uma estratégia de ocupação estrangeira frente a Bissau. Veja-se com mais pormenor.

O investigador pretende provar que três séculos após a sua descoberta a Guiné continuava a preocupar duplamente os portugueses pela sua insegurança, estamos em meados do século XVIII. De uma parte, as sublevações constantes dos autóctones e, por outro lado a presença indesejável no país de estrangeiros. Não era Bissau que atraía os franceses, era o Ilhéu do Rei, porque pertencia ao rei de Bissau, interessava cativá-lo para reduzir a influência portuguesa. Benjamim Pinto Bull encontra outra razão para este tipo de trabalhos de Fausto Duarte. Em 1950, a Guiné começava politicamente a mexer. Tudo se passava na clandestinidade mais absoluta. Era com interesse que os guineenses devoraram todos os artigos de história. O ilhéu, esclarece o autor, tinha uma excelente água potável e um clima mais agradável que Bissau. Era muito difícil a um simples turista, ou mesmo a um guineense não informado, de ter em conta a importância do ilhéu, dois séculos antes. Todo o comércio de escravos, de marfim e de cera passava pelo ilhéu do rei. Em meados do século XVIII, os franceses controlavam todo o comércio entre as ilhas Bijagós, Rio Grande e Serra Leoa, porque “ficava o dito ilhéu a menos de um tiro da peça da dita ilha de Bissau e que se os franceses se apossassem do ilhéu logo eram senhores da dita ilha e de todo o negócio daquela costa, com um grave prejuízo da Coroa”.

Todos os temas de história o interessavam: Aires Tinoco, que trouxe de volta a caravela de Nuno Tristão, em 1447; a rivalidade entre “Capitania” e “Igreja”, é próprio Fausto Duarte que explica o significado da rivalidade. A Capitania representava a Coroa e tinha como missão a supervisão absoluta da terra enquanto a presença da Igreja era de um caráter puramente espiritual, eram estes os dois grandes pilhares da conquista e da sua harmonia dependia a paz nas praças e presídios.






Fausto Duarte compulsou cartas de capitães-mores, feitores, bispos, visitadores e assistentes das praças e presídios da Guiné: feliz incitativa de nos pôr ocorrente de todos os problemas da Guiné-Bissau ao longo do século XVIII, publicando-as sem comentários. Dedicou igualmente atenção ao período em que a Guiné se desvinculou de Cabo Verde. É o caso do artigo sobre a Guiné ou Senegâmbia Portuguesa no tempo do governador Pedro Inácio de Gouveia, publica o relatório de 10 de outubro de 1982 deste segundo governador da Guiné, onde não se escondem as realidades e as numerosas contradições que cerceavam a ação do governador. O relatório tem o mérito de apresentar desapaixonadamente os aspetos políticos, económicos e sociais. A Guiné não tinha ainda as suas fronteiras bem definidas, já não havia tráfico de escravos, entrara-se com bastante entusiasmo no investimento agrícola, no conhecimento das potencialidades da terra. Isto num tempo em que a concorrência francesa era quase sufocante. Por carta assinada pelo rei D. Luís, em 18 de março de 1879, dava-se a separação definitiva entre Cabo Verde e a Guiné, ficando claro que a Guiné Portuguesa seria uma província independente com governo sediado em Bolama. E Fausto Duarte não esconde as suas opções: “Terminava assim uma dependência de que apenas o arquipélago beneficiava”.

Benjamim Pinto Bull é muito parcimonioso na avaliação que faz ao trabalho de Fausto Duarte nos Anuários da Guiné Portuguesa de 1946 e 1948. O que é inexplicável e mesmo injustificável, é um dos trabalhos mais aturados e relevantes de Fausto Duarte, são levantamentos hoje incontornáveis para estudar a Guiné e mormente o que estava a acontecer graças à governação de Sarmento Rodrigues.

Pinto Bull analisa detalhadamente o manuscrito da última obra de ficção de Fausto Duarte cuja publicação foi objetada pela censura, tal a crueza com que se fala de fomes e secas, miséria e emigração, é o texto em que excecionalmente Fausto Duarte regressa às suas origens cabo-verdianas. Curiosas são as análises de Pinto Bull sobre os contextos romanescos de Fausto Duarte e as suas principais ideias-força: as relações ilícitas, o conceito de “vencido” e os verbos vencer e lutar; a religião e a superstição. Em termos de conclusão, o doutorando mostra Fausto Duarte como um escritor que revela um grande desprezo pela hipocrisia, a ambição, as rivalidades e a inveja e a maledicência, erigido em defesa do povo guinéu e a insurgir-se permanentemente contra as expressões da violência colonial, caso das palmatórias. Define-o como um arauto da civilização portuguesa, um escritor que exalta o soldado, o missionário e o comerciante, em permanente orgulho pela gesta da civilização portuguesa naquele ponto de África.

 

Mário Beja Santos

                




sábado, 20 de março de 2021

Rosas, amores e margaridas.

 


 

É hoje, bailai! É hoje, a Primavera! Duas valsinhas primaveris de Emile Waldteufel.

Pelo Ensemble Fa e por Richard Galliano.

 

 





 

Manuela Ivone Cunha

 


quinta-feira, 18 de março de 2021

Viagens de Luís de Cadamosto e de Pedro de Sintra.

 





No âmbito das comemorações do V Centenário da Descoberta da Guiné, a Academia Portuguesa de História editou em 1948 o trabalho “Viagens de Luís de Cadamosto e Pedro de Sintra”, com notas históricas por Damião Peres. Este insigne historiador justifica a iniciativa: “Como a crónica henriquina de Azurara não abrange feitos da Guiné posteriores a 1447, as páginas de Cadamosto constituem uma fonte narrativa, embora de utilização cautelosa, pois nelas se encontram dados cronológicos errados, e até, segundo se pode crer, alguma jactância atentatória da verdade”. Esta edição da Academia Portuguesa de História reproduz o texto de 1812 com as traduções a partir do italiano os dois viajantes, da Academia Real das Ciências, veja-se o site: http://livrosevelharias.blogspot.pt/2012/10/viagens-de-luis-de-cadamosto-e-pedro-de.html#!/2012/10/viagens-de-luis-de-cadamosto-e-pedro-de.html.

Tome-se como ponto de partida a primeira viagem de Luís de Cadamosto. Ele vem fazer comércio à Costa dos Escravos ou Terra dos Negros, é um veneziano que espelha os conhecimentos da época, homem curioso, o seu relato começa no que é hoje o Senegal. Diz assim: “O país destes primeiros negros do reino de Senega (Senegal) é o primeiro reino dos negros da Baixa Etiópia. Os povos próximos deste rio chamam-se Gilofos (os Jalofos)”.

É atento e minucioso: o Cabo Verde é a terra mais alta que há em toda esta costa, para além do dito Cabo Verde toda a costa é praia rasa. Vem a terra e comenta: Não há no país nenhuma cidade nem lugar murado, se não aldeias e casas de palha (que eles não sabem fazer casas de paredes porque não têm cal e têm grande falta de pedras). O modo de vida deste rei é o seguinte: não tem rendimento certo, além daquele que lhes dão os senhores desse país todos os anos para estarem de bem com ele, os quais presentes são de cavalos que lá são muito apreciados, por deles haver falta. Este rei vive também com roubos que faz, e tem sempre muitos escravos negros que manda pilhar não só no país como nos outros países vizinhos. Quanto ao vestir desta gente, quase todos andam nus continuamente salvo que trazem um coiro de cabra posto em forma de calça com que cobrem as vergonhas; mas os senhores e aqueles que podem comprar alguma coisa vestem camisas de pano de algodão. Quanto à forma, as suas camisas são compridas até meia coxa e largas. As mulheres desta região são muito asseadas de corpo, pois se lavam completamente, quatro e cinco vezes por dia; e assim também os homens, mas no comer são porcalhões e sem nenhuma educação. São homens de muitas palavras e nunca acabam de falar; e são todos, sempre, mentirosos e enganadores, em extremo; por outro lado, são caritativos, porque dão de comer e beber a qualquer estrangeiro que, de passagem, chegue a sua casa por uma refeição ou por uma noite, sem qualquer remuneração.

Cadamosto tem um olhar de antropólogo na descrição das cerimónias, nas receções, na admiração ao destemor dos nadadores, descreve a vida de Budomel, o rei da região.

E procura dar um quadro da economia da terra: “Neste reino de Senega dos negros, nem daí por diante, em nenhuma Terra do País dos Negros se produz trigo, nem centeio, nem cevada, nem aveia, nem vinho. E visto que o país é bastante quente e não chove em nove meses do ano. A sua comida é de milho de diversas espécies, fava e feijões que nascem naquelas partes, os mais grados e mais belos que há no mundo. E procede a uma descrição da comida, bebida e substâncias oleaginosas. Fala então da fauna: nesta terra de Senega dos negros não se encontram outros animais úteis a não ser bois, vacas e cabras; ovelhas não se criam aí, nem poderiam viver por causa do grane calor. As vacas e bois daquele país são mais pequenos que os nossos. Animais bravo de presa há-os: leões, onças e leopardos, lobos e cabritos monteses; há í também elefantes selvagens. Estes elefantes andam aos bandos. Os seus dentes grandes nunca lhes caem, a não ser por morte. E aí animal que não ataca o homem se o homem não o atacar.

Cadamosto, com a curiosidade comerciante, vai ver como os outros mercadejam. E observa: Porque me acontece estar em terra muitos dias, determinei ir ver um seu mercado ou feira que se fazia numa pradaria, não muito longe do lugar onde eu estava hospedado; o qual se fazia à segunda e sexta-feira: fui lá duas ou três vezes. A este mercado vinham homens e mulheres das terras que estavam em volta até quatro ou cinco milhas, pois que os que estavam mais longe iam a outros mercados, porque também noutros lugares se costumam fazer. Nestes mercados compreendi muito bem que estes são gente muito pobre, pelas coisas que traziam ao mercado para vender. Primeiramente era o algodão (mas não fiado) em pouca quantidade; não muitos panos de algodão; legumes, milho, óleo; gamelas de pau, esteiras de palma e todas as outras coisas de que se servem para a sua vida. Nada se vende por dinheiro porque não há moeda nenhuma nem usam se não trocar coisa por coisa ou duas coisas por uma coisa, e todo o seu mercado se faz por troca. Estes negros, tanto machos como fêmeas, vinham ver-me como uma maravilha, e parecia-lhes coisa extraordinária ver um cristão em tal lugar, nunca dantes visto: e não menos se espantavam do meu traje e da minha brancura; o qual traje era à espanhola, com um jibão de damasco preto, e com uma capinha de gris; reparavam para o pano de lã, que eles não têm, e reparavam para o jibão, e muitos pasmavam, alguns tocavam nas mãos e nos braços e com cuspo esfregavam-me para ver se a minha brancura era tinta ou carne; e vendo que era carne branca, ficavam-se em admiração. Vendo-se um cavalo arreado com os seus arreios por nove até catorze escravos, conforme a qualidade e beleza do cavalo. Admiravam-se, grandemente, de ver arder uma vela, de noite, num castiçal e isto porque na sua terra não sabem produzir nenhuma outra luz que não seja a da fogueira.

Prepara-se para partir do Senegal para a Gâmbia, e ainda mais abaixo. E explica: Tive ocasião de estar neste país do senhor Budomel alguns dias, para vender e comprar, e saber de muitas coisas: pelo que estando do dito senhor despachado, e tenho obtido uma certa quantidade de escravos, determinei ir para diante, e passar o Cabo Verde e ir descobrir países novos para experimentar a minha sorte. Não muito longe deste primeiro reino de Senega dos Negros, indo mais para diante, havia um outro reino ou país chamado Gambra (Gâmia) no qual se encontrava grande quantidade de ouro.

Passa junto a terra firme de nome Cabo Verde e revela que os primeiros que o acharam foram os portugueses talvez um ano antes de eu ir a essas partes, “o acharam inteiramente verde pelas grandes árvores que estão verdes todo o tempo do ano”. E rende-se à pujança da paisagem: “Nunca vi mais bela costa do que esta que se me ofereceu; a qual é banhada por muitas ribeiras e rios pequenos e sem importância. Esta costa é habitada por dois povos: Barbacins e Sereros, também negros, mas não sujeitos ao rei de Senega. São grandes idólatras, não têm nenhuma lei e são homens muito cruéis; empregam o arco e frechas, e atiram-nas com venenos. São homens muito pretos e bem encorpados. O seu país está cheio de mato, e é abundante em lagos e águas; e, por isso, se têm por muito seguros, porque lá não se pode entrar se não por passos estreitos e por isso não temem nenhum rei nem nenhum senhor das redondezas”. A viagem prossegue aprazível e ele regista: “Correndo, com vento largo, pela dita costa, seguindo a nossa viagem para o Sul, descobrimos a boca de um rio, com a largura, talvez, de um tiro de arco, o qual rio se chama o rio dos Barbacins. E navegando chegámos à boca de um rio o qual mostrava não ser inferior ao sobredito rio de Senega. Lançámos ferro e deliberámos mandar a terra um dos nossos turgimãos, porque todos os nossos navios tinham turgimãos pretos, trazidos de Portugal, os quais turgimãos são escravos negros vendidos por aquele senhor de Senega aos primeiros cristãos portugueses que vieram descobrir o país dos Negros”.

O turgimão negro vai a terra e é morto à machadada, não houve conversas. Prosseguiu a viagem e chegaram à boca do rio de Gambra, é uma viagem cheia de peripécias rio acima, apercebem-se da hostilidade de quem os acompanha por terra. E relata poeticamente: “Neste país, de manhã, ao romper do dia, não há nenhuma aurora com o nascer do Sol, assim que desaparece o negrume da noite, logo se vê o Sol. Por serem agentes do litoral tão rudes e selvagens, não pudemos vir à fala nem negociar coisa nenhuma. Não passámos mais para diante por que os nossos marinheiros não nos quiseram acompanhar. Pelo que, no ano seguinte armámos, mais uma vez, duas caravelas a fim de percorrer mais uma vez esse grande rio. Tendo ouvido dizer o senhor Infante D. Henrique sem licença do qual não podíamos ir, que tínhamos tomado esta deliberação, muito lhe aprouve; e armou uma caravela sua para que viesse a nossa companhia.

Depois da Canária viajam sempre para o Sul e chegam ao Cabo Branco e então topou-se com terra. Terão descoberto ilhas, não lhes deram nome nem estão identificadas. Matam e cozinham tartarugas: “Pareceram-me bom manjar, quase tanto como carne branca de vitela”.

Cadamosto pensa ter chegado ao arquipélago de Cabo Verde, como escreverá Damião Peres nos comentários à obra, o debate é interminável, as opiniões estão divididas mas não é de excluir que ele tenha aportado em algumas ilhas. Conseguem contactar com nativos no rio de Gambra, país de Gambra e o principal senhor da região que se chamava Farosangoli, que estava subordinado o imperador do Mali. Havia muitos senhores que viviam junto ao rio e em conversa com um negro este ofereceu-se para os levar a um desses senhores. Foi assim que chegaram ao lugar cujo nome era Bati Mansa. Descobriram que havia pouca quantidade de ouro. Cadamosto expende larga opinião sobre os idólatras e crentes de Maomé. Trouxeram uma pata e parte da tromba de um elefante ao Infante D. Henrique e assombraram-se com um bicho desconhecido a que puseram o nome de peixe-cavalo, não é mais do que o hipopótamo. Assim acabou a primeira viagem.



Mapa da Senegâmbia em 1707


 

É na segunda viagem que Cadamosto chega ao que é hoje a Guiné-Bissau. Avistaram o rio Casamansa, atingiram o Cabo Roxo e mais adiante chegaram ao rio de S. Domingos. Houve um completo desentendimento na comunicação: “Vendo nós que estávamos em país novo, e que não podíamos ser entendidos, concluímos que passar para diante era inevitável”. No entanto, conseguem comprar anéis de ouro, descobrir que há uma agricultura um tanto semelhante à que encontraram nos países acima, mas aqui há pouquíssimo ouro. Cadamosto sente-se surpreendido pelas marés, pelos terrenos subitamente alargados e escreve: “Há, naquela terra, maré montante e vagante, como acontece em Veneza, o ímpeto da corrente da dita maré, quando começa a encher, é quase incrível”.

Convém recordar que as duas viagens de Cadamosto decorreram poucos anos antes da morte do Infante D. Henrique. D. Afonso V, ciente da natureza do projeto henriquino e do ponto a que chegara o conhecimento do litoral africano, manda duas caravelas armadas e o capitão era Pedro de Sintra, escudeiro do rei. Cadamosto encontra Pedro de Sintra el Lagos, Pedro de Sintra conta ponto por ponto todas as terras que haviam descoberto e os nomes que lhes tinham posto. Pedro de Sintra chegara à Guiné. As coisas ter-se-ão processado da seguinte maneira. Passaram o Cabo da Verga, e navegaram ao longo da dita costa, pelo espaço de 80 milhas, aproximadamente; descobriram um outro cabo que é o mais alto cabo que até hoje fora avistado, e a meio desse cabo forma-se uma ponta aguda e alta, a modo de ponta de diamante e todo ele está cheio de altíssimas e verdes árvores.

Puseram nome a este cabo, o Cabo de Sagres, em memória de uma fortaleza que mandou construir o Infante D. Henrique, a qual é propriamente uma das pontas do Cabo de S. Vicente, à qual se pôs o nome de Sagres. E é chamada pelos portugueses Cabo de Sagres da Guiné. No relato nota-se de que se já está a falar de uma realidade comum à Senegâmbia, falam de pessoas idólatras porque adoram estátuas de madeira com forma de homens e os negros quando comem ou bebem oferecem de comida aos ídolos. E escreve-se: “São igualmente pretos, mas têm uns sinais feitos com ferro em brasa, tanto na cara como no corpo; são mais depressa pardos do que pretos. Não tem armas, por não haver ferro nas suas terras. Sustentam-se de arroz, milho e legumes, isto é, fava e feijões, de qualidade diferente dos nossos e muito maiores e mais belos. Têm carne de vaca e de cabra, mas não em muita quantidade. Tem esta gente as orelhas todas furadas, com buracos em toda a volta, nos quais buracos trazem vários aneizinhos de ouro, um em seguido ao outro; também têm o nariz furado por baixo, no meio, e aí trazem um anel de ouro, de pendurado, como trazem os nossos búfalos”.

Prossegue a viagem e do Cabo de Sagres da Guiné atingem a Serra Leoa.

Este o essencial dos relatos das duas viagens de Cadamosto e do que contou Pedro de Sintra. Insiste-se que o historiador Damião Peres contesta a descoberta de algumas das ilhas do arquipélago de Cabo Verde como Cadamosto menciona e exibe críticas altamente desfavoráveis ao relato do viajante, a começar por Duarte Leite e Fontoura da Costa. E após uma exposição de críticas e de muitos argumentos contra, Damião Peres observa: “A hipótese formulada por Crone, afirma não existir razão alguma que impeça ter-se realizado em 1456, na viagem em que participou Cadamosto, o encontro das ilhas cabo-verdianas, embora se admita que o melhor reconhecimento delas, preparador da sua colonização foi realizado em 1459 ou data próxima por Noli, talvez acompanhado por Diogo Gomes”. Dito de outro modo, e à luz dos conhecimentos em meados do século XX, não se exclui que Luís de Cadamosto tenha estado nalgumas das ilhas cabo-verdianas, mas só anos depois é que se considera a sua descoberta e colonização a partir da viagem de Noli e provavelmente acompanhado por Diogo Gomes.

Pedro de Sintra terá viajado desde a foz do rio Geba até uns quilómetros além do Cabo Mesurado, mas já teria anteriormente navegado por lá em vida do Infante D. Henrique.

 

                                                                                                       Mário Beja Santos