terça-feira, 14 de novembro de 2023

Final de Outono na Nova Inglaterra.














 

                                                            Fotografias de Onésimo Teotónio de Almeida









quinta-feira, 9 de novembro de 2023

São Cristóvão pela Europa (241).

 

 

Dedico este post à Área Metropolitana de Villach, a segunda cidade do Estado da Caríntia e a sétima da Áustria.

Em St. Michael situa-se a pequena igreja de invocação deste Santo. De acesso difícil, a igreja está no topo de uma elevação perto da cidade.

É mencionada desde 1431 e foi atribuída á Ordem austríaca dos Cavaleiros de São Jorge.

 


O mural representando São Cristóvão foi amplamente renovado em 1979:

 


Em Oberwollanig, a Igreja de São Lourenço é do Século XIV. Tem também um mural em homenagem ao nosso Santo. Bastante deteriorado.

 



A Igreja de São Tiago é a principal Igreja paroquial de Villach, situada no centro da cidade

Durante trabalhos de restauro em 1907 descobriu-se no coro a existência de um fresco de São Cristóvão do fim do Século XV e de grandes dimensões. A parede havia sido repintada durante o período barroco de forma a ocultar a imagem do Santo. Mas só em 1952 se pôde ver a imagem em toda a sua plenitude.

 




Finalmente em Oberschütt, a Igreja de Santa Maria Madalena exibe na sua parede exterior um fresco de São Cristóvão e uma Crucificação de Cristo:



 



 

                                                                    Fotografias de 2 e 3 de Agosto de 2023

 

                                                                                                    José Liberato

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Os últimos 50 anos da História de Portugal: Aspirações realizadas e sonhos por realizar.

 




  

Trata-se de um manual de referência, inteligentemente estruturado para manuseio de um amplo espectro de públicos, percorrem-se as novas realidades ditadas pelo 25 de Abril, uma viagem pelo Estado de Direito, pelo quadro constitucional, o caminho percorrido para sermos uma sociedade mais igualitária e justa a partir das reflexões de oito investigadores, eles vão discretear sobre as liberdades, o lugar de Portugal no concerto europeu e mundial, as voltas que a economia deu, a habitação que se construiu e a que falta construir, o quadro de saúde conquistado e as manifestas urgências, a melhoria educacional e a premência dos desafios e, por último, como estamos a responder à emergência climática e às alternativas energéticas. Escrevem os autores que o rumo é ditado por um mote da Revolução, que Sérgio Godinho cantava: “Só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, habitação, saúde e educação (…), quando houver liberdade de mudar e decidir.”

Na gare desta viagem, ao cuidado de se lembrar de que país éramos, a taxa de analfabetismo e de mortalidade infantil, quem possuía estudos universitários, os direitos das mulheres, o policiamento do espírito graças a múltiplas censuras, as farsas eleitorais, e o muito mais que se sabe. Oito investigadores puseram-se a refletir sobre alguns dos progressos das últimas cinco décadas, ficamos a saber o lugar onde estamos e o que falta fazer a partir daqui.

Gozamos de direitos, liberdades e garantias que se expressam em múltiplos domínios, desde as liberdades de expressão e religiosa à participação política. Mas o futuro espreita, há novos desafios e novos contextos de efetivação, há riscos e ameaças, recorde-se a inteligência artificial, a mudança climática, a desorganização em que se encontra o fenómeno da globalização; o hiperindividualismo confronta-se e hostiliza mesmo a era de cuidados, o Estado social está constantemente a ser posto à prova, emergem novos movimentos de emancipação e as novas e velhas desigualdades são mais facilmente cativadas pelas forças populistas e de extrema-direita. É o combate aliciante pelas liberdades.

Vivemos num continente há muitas décadas em paz, com exceção de focos regionais, caso da desagregação da Jugoslávia; a maioria dos portugueses revela satisfação pela pertença à União Europeia; mas há instituições no país que ganharam má imagem, as demoras dos tribunais, a justiça tardia, o grassar da corrupção (mesmo que denunciada e punida); o espectro político alterou-se, cá como por toda a Europa, há verdadeiros combates para instituir reformas e ninguém pode negar os défices de representação e a queda do associativismo, há que encontrar novas formas de dar voz aos cidadãos e abrir espaços de deliberação e participação no processo de decisão política. Até porque é impossível reverter o Estado social, o país ficaria a ferro e fogo.

Mudou profundamente o modo de vida, é ínfima a percentagem de quem trabalha na agricultura, desce o número dos trabalhadores na indústria, o setor dos serviços está em constante empolamento. Genericamente, vivemos muito melhor, apareceu por aí o mantra do empobrecimento, o que é verdade e é mentira, Portugal continua a ser um dos países da Europa com uma maior taxa de incidência de pobreza e uma maior desigualdade, é inaceitável pensar-se em deitar por terra os programas do Estado providência, a questão é delicadíssima, tem a ver com a produtividade, o investimento, e tudo se agravou desde o Covid, a invasão da Ucrânia e a completa incerteza dos preços da energia. O turismo não resolve tudo, como diz um dos autores, o turismo é uma atividade de baixo valor acrescentado, não ajuda muito a aumentar a produtividade do país, o mesmo autor (Luciano Amaral) lembra que ainda não desapareceu a ameaça de insustentabilidade, envelhecemos muito, inverte-se cada vez mais a proporção de ativos por pensionistas, não tenhamos ilusões, o grande problema social português é fundamentalmente um problema económico.

Não se ilude minimamente o pilar da habitação, passa-se em revista como se passou da falta de casas à expansão, como se usou o crédito e como tem evoluído a iniciativa pública, qual o significado da concentração da habitação e não se esconde o peso dos desafios, doravante: regular o mercado de arrendamento, implementar um mercado de arrendamento acessível bem como uma estratégia territorial, e há verdades que não devemos iludir: “A crise da habitação é, afinal, uma crise de ordenamento do território. Uma crise do modo como nos organizamos no espaço; do modo como distribuímos recursos, infraestruturas, equipamentos e atividades; do modo como nos movemos, trabalhamos, habitamos. Sem mapa, sem uma estratégia de ordenamento do território, sem uma real atenção às especificidades de cada contexto e uma verdadeira preocupação com a coesão territorial, não será possível resolver o problema do habitar em Portugal, do qual a atual crise de acesso ao mercado residencial é apenas um sintoma.”

Quero lembrar o leitor que ainda temos pela frente três dossiês de monta: saúde, educação e ambiente. Vamos viajar pelo SNS, analisar os recursos humanos da saúde e a sua gestão, não é novidade para ninguém que nascemos melhor e vivemos mais tempo, tudo isso custa dinheiro, competência, tecnologias apropriadas, meios auxiliares de diagnóstico, uma multiplicidade de cuidados. Todas as respostas estão em suspenso. Viajar pela educação é percecionar as autoestradas do desenvolvimento, a escola vai mudando com a incorporação da digitalização e há um aspeto aliciante que não se pode ignorar: “A escola não só mudou ao fazer lugar para outras culturas, populações e responsabilidades, como se tornou também agente de mudança em perímetros diversificados. Andaremos muito distraídos, ou temos fraca memória, se achamos que a escola não sofreu essas alterações.”

E chegámos à questão ambiental. Por muito tantã mediático que haja, as associações ambientais têm escassa dimensão popular, o que parece um paradoxo com a inequívoca preocupação com as questões climáticas e outras. Faz-se aqui o percurso de 50 anos de políticas de ambiente e de clima, quem discreteia sobre o tema destaca uma sucessão de falhanços em que estamos envolvidos e recorda uma responsabilidade que transcende os poderes do dia, os conflitos de interesses, a ganância e até a miséria moral têm a ver com a discussão que leva 50 anos a localização do novo aeroporto de Lisboa, como alegremente desmantelamos a ferrovia em detrimento de uma opção rodoviária, dos negócios das autoestradas e da idolatria do popó… andamos todos comprometidos, e assobiamos um tanto para o lado com a falta de solidez nas políticas ambientais e climáticas em que podemos condenar as futuras gerações.

De leitura obrigatória, para professores e alunos, especialistas e leigos, estão aqui dados fulcrais sobre as nossas cinco décadas de democracia. 


                                                                                        Mário Beja Santos


domingo, 5 de novembro de 2023

Exercícios de memória.

 

 

Quem não se lembra? Quem não se lembra das conversas um pouco enfastiadas em que havia quem garantisse que era desnecessário remexer no passado? Dizia-se que o mundo tinha andado para a frente e que águas passadas não movem moinhos e que já ninguém se interessava pelo assunto. Quem não se lembra? Gente culta citava Estaline, «Hitler passa, mas o povo alemão fica». O muro tinha caído há pouco tempo, e professoras de alemão mostravam-se genuinamente surpreendidas; sem acinte, perguntavam «para quê estudar coisas tão tristes?». Quem não se lembra? Quem não se lembra de que os povos tinham superado os traumas? Anos depois, os alemães já festejavam a vitória da selecção de futebol, tudo entrara nos eixos. Para arrumar o assunto, afirmavam alguns, ufanos, «até a Merkel vai ao balneário», era a época da Kabinenbesuch. Quem não se lembra? A normalização estava mais do que comprovada, tão comprovada que Israel já praticaria malfeitorias no Médio Oriente. Tornou-se mesmo um Estado entre outros, não há dúvida. E recebeu muito dinheiro, não se podem queixar. Para quê estar sempre a falar da mesma coisa? Perguntava-se com perplexidade, cheira a vingança e a vontade de sacar mais algum. Melhor fora que se deixassem disso. Estar sempre a falar de Auschwitz é maçador e contraproducente. Já chega, a vida continua. A vida continuou. Não foi maçador, nem contraproducente.

Foi inútil.

 

                                                                                 João Tiago Proença

 




São Cristóvão pela Europa (240).

 

 

O post de hoje é dedicado ao distrito de Feldkirchen, sempre no Estado austríaco da Caríntia.

Em Sirnitz, a Igreja de São Nicolau, gótica de origem e renovada no estilo barroco, tem um fresco representando São Cristóvão da altura desta renovação. Foi posteriormente tapado e redescoberto em 1993. Tem incrustados dois cenotáfios.

 



 

Em Glanhofen, a igreja de São Lourenço é, em grande medida, uma reconstrução de uma igreja muito antiga que ardeu em 1851. Um fresco do nosso Santo sobreviveu parcialmente.



 

Em Tiffen, a Igreja paroquial de São Tiago Maior é fortificada. Dispõe de dois frescos de São Cristóvão, um no exterior outro no interior. O do exterior tem um pelicano no canto superior esquerdo.

 






                                                                Fotografias de 2 de Agosto de 2023

 

                                                                                                José Liberato


quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Terra Sangrenta, a Europa entre Hitler e Estaline.








Não li nada de tão importante este ano como esta aparatosa e original análise histórica

 


 

É uma edição revista e atualizada com um novo epílogo, trata-se de uma narrativa que não nos dará descanso até à última página, uma viagem que começa nas fomes estalinistas e nos faz palmilhar até às marchas da morte de 1945, iremos percorrer em sufoco terras de fronteira que constituíram a questão nevrálgica das obsessões ideológicas de Estaline e de Hitler, Polónia e Ucrânia, Bielorrússia e Estados Bálticos, seremos confrontados com dezenas de milhões de civis que foram mortos à fome, espancados, gaseados e assassinados por autoridades e forças militares de diferente ordem, tanto da URSS como da Alemanha nazi. Até muito recentemente, a historiografia que investiga e explica os acontecimentos entre a ascensão dos poderes ditatoriais de Estaline e Hitler catalogava as monstruosidades deste período falando do Gulag, do Grande Terror, do paranoico antissemitismo nazi e do Holocausto. Ora, os campos de morte na Europa neste amplo espaço a que o historiador Timothy Snyder designar por terra sangrenta revela aproximações aterradoras que são uma lição utilíssima para ajudar a compreender alguns dos mais inquietantes conflitos do nosso tempo. Terra Sangrenta, a Europa entre Hitler e Estaline, Publicações Dom Quixote, outubro de 2023, é uma narrativa que nos faz abalar a compreensão que tínhamos do terror estalinista, da demência racial de Hitler, dos seus propósitos expansionistas, e como são chocantes analogias de duas estratégias imperiais. Esta soberba investigação de Timothy Snyder, aclamada e reconhecida como obra de consagração de um dos maiores historiadores do nosso tempo, é profundamente incómoda para algumas mantras instaladas, quase mitologias, o genocídio judaico circunscrito a um processo de matança em grande escala e centrado em Auschwitz; a Grande Guerra Pátria, uma façanha de heroísmo desmedido centrado na abnegação russa. Acontece que a história envolvente é muitíssimo mais complicada e o martírio dessas dezenas de milhões de civis revelam que a hecatombe teve mais dimensões.

É, pois, uma investigação crucial que não nos dará tréguas, tem o poder de nos fazer alterar pontos de vista quanto a rótulos simplistas sobre tiranias, massacres, destruição de países, ódios raciais – uma História confecionada por vencedores e que conseguiu sobreviver durante a pós a Guerra Fria. É uma análise profundamente incómoda, veja-se logo esta apreciação feita no prefácio: “O assassínio em massa na Europa é normalmente associado ao Holocausto e o Holocausto a um rápido massacre industrial. A imagem é demasiado simples e limpa. Nos locais onde foram cometidos os massacres, tanto pelos alemães como pelos soviéticos, os métodos de homicídio eram bastante primitivos. Dos 14 milhões de civis e prisioneiros de guerra mortos das guerras sangrentas entre 1933 e 1945, mais de metade morreu por lhe ter sido negado o acesso a alimentos. Os europeus privaram deliberadamente de alimentos outros europeus em números horripilantes em meados do século XX. As duas maiores ações de assassínio em massa, depois do Holocausto – as fomes dirigidas por Estaline no início dos anos de 1930 e a privação de alimentos que Hitler impôs sobre os prisioneiros de guerra soviéticos no início dos anos 1940 –, envolveram este método de homicídio. À privação de alimentos seguiu-se o fuzilamento e, depois, o gaseamento. No Grande Terror de Estaline, em 1937-1938, foram fuzilados quase 700 mil cidadãos soviéticos. Os cerca de 200 mil polacos mortos pelos alemães e pelos soviéticos durante a sua ocupação conjunta na Polónia foram fuzilados. Os judeus mortos no Holocausto tanto podiam ser gaseados como fuzilados.” E o autor conclui, ainda no prefácio: “Este estudo une os regimes nazi e soviético, une a história judaica e europeia, e uni as histórias nacionais. Descreve as vítimas e os perpetradores. Aborda as ideologias e os planos, bem como os sistemas e as sociedades. Esta é uma história das pessoas mortas pelas políticas dos líderes distantes. As terras natais das vítimas estendem-se entre Berlim e Moscovo; transformaram-se em terras sangrentas depois da subida ao poder de Hitler e Estaline.”

A introdução dá-nos o enquadramento da Europa do pós-Guerra e o sonho alentado por Hitler e Estaline, as suas visões imperiais, cobiçavam as mesmas terras. Teremos acesso às fomes soviéticas, a matança dos bodes expiatórios, sobretudo depois dos desastres da coletivização das terras, a criação do dogma do “socialismo num só país”, os julgamentos de pseudo-traidores, dos chamados desviacionistas, a liquidação dos polacos soviéticos; a constituição da Europa de Molotov-Ribbentrop, a destruição da Polónia e as execuções alemãs e soviéticas, a Alemanha nazi expandia-se, os soviéticos também não só na Polónia mas aumentando as repúblicas ucraniana e bielorussa para o Ocidente; é estarrecedor o quadro destas matanças, desde simples prisioneiros de guerra aos intelectuais de lealdade duvidosa; e assim chegamos ao apocalipse da invasão alemã em terras soviéticas, e o esforço deliberado do invasor em matar pela fome, desde Leninegrado à Ucrânia; é neste território ocupado que Hitler e os seus sequazes montam a solução final da questão judaica, da Bielorrússia à Polónia, da Lituânia à Ucrânia, os judeus convergem para guetos e campos de concentração; e assistimos às fábricas de morte nazis, isto enquanto a partir de 1943 a URSS contra-ataca e inverte-se o sentido da guerra, haverá uma sublevação em Varsóvia, sufocada com toda a brutalidade, no ano seguinte o gueto será rasado; descrevem-se as limpezas étnicas, as alemãs e as soviéticas, cresce o êxodo das populações, as deportações; seremos confrontados com antissemitismo estalinista, aliás, antes de morrer, em 1953, Estaline urdira mais uma conspiração, desta vez envolvendo médicos judeus, tudo isto numa época em que a URSS implanta estados comunistas na Europa de Leste e Estaline decide purgas de camaradas que lhe foram fiéis.

Não querendo privar mais o leitor destas muitas centenas de páginas empolgantes, escritas com uma mestria inatacável, pretendo só chamar a atenção para derradeiras observações do autor de tão extraordinária investigação:

“Os sistemas nazi e estalinista devem ser comparados, não tanto para compreender um ou o outro, mas para compreender os nossos tempos e nos compreendermos a nós mesmos”; “A imagem dos campos de concentração alemães como o pior elemento do nacional-socialismo é uma ilusão, uma miragem escura sob um deserto desconhecido. O destino dos seus prisioneiros era muito semelhante ao dos detidos do Gulag, na União Soviética, entre 1941 e 1943”;” Auschwitz foi, de facto, um importante local do Holocausto: cerca de 1/6 dos judeus assassinados morreu ali. Mas, ainda que a fábrica de morte de Auschwitz tivesse sido o último complexo de morte em funcionamento, não corresponde ao expoente máximo da tecnologia da morte: os pelotões de fuzilamento, mais eficientes, matavam mais depressa, os locais de privação de alimentos e Treblinka matava mais depressa.”

A historiografia tem vindo a fugir à investigação de dados tão complexos. E o autor despede-se com uma advertência: “Não precisamos de leis da memória. Não precisamos da História para que as pessoas possam retirar dela lições individuais. Precisamos da História, sim, para nos tornarmos pessoas. Os tabus criam tribos e a ignorância cria gangues. Só a História individualiza ao fornecer o tema comum a partir do qual se pode dar início à razão ética individual.”

De leitura obrigatória.


                                                                                                    Mário Beja Santos





segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Cunha, favorecimento, compadrio: é caldo de cultura, há que reduzir os seus efeitos nefastos.

 

 


 

Com base na tese do seu doutoramento, João Ribeiro-Dibaoui escreveu um ensaio sobre o compadrio em Portugal, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2023. Intenta definir o significado de compadrio, por comparação com outras designações para ações de favorecimento como a cunha ou a corrupção. Centra a sua atenção nas funções públicas, se bem que reconheça que o compadrio é frequente no mundo não público; escreve algumas configurações de compadrio e procura fazer-nos compreender melhor o que potencia esta inevitabilidade de quem desempenha funções públicas ser confrontado com situações de compadrio; no termo do seu ensaio discute os efeitos resultantes destas práticas nada abonatórias na cidadania e defende medidas e comportamentos que possam contribuir para mitigar os níveis da praga.

Estamos a falar de comportamentos de ocultação, se metemos a cunha ao desenvolvermos o compadrio, podemos encontrar um alívio na consciência, mas sabemos que há algo de ilícito ou ilegítimo, em boa verdade não é assim que se constrói uma sociedade mais justa. Só que queremos um emprego ou um curso para a nossa filha, uma consulta médica rápida para o nosso filho, o sangue é mais forte. Por isso, como observa o autor, há muitos séculos que se procura que os juízes sejam completamente independentes da causa que lhes merecerá a sentença, pois há mais permissividade no compadrio em relações próximas. Como também se impõe ponderar que se metam cunhas pela demora dos serviços prestados pelo Estado, em que por vezes as exigências burocráticas são dignas de um processo kafkiano. No compadrio, quem pede pode ser parente ou conterrâneo, pertencer à mesma organização política; ainda recentemente um investigador embrenhou-se em milhares de cartas dirigidas a Salazar, dentro de uma moldura de que o sangue, o mesmo lugar de pertença ou a filiação na União Nacional levavam à complacência do ditador, muitas dessas cartas eram depois reencaminhadas para membros do governo ou líderes políticos que informavam o inquilino S. Bento das diligências efetuadas. Tal como hoje, os pedidos de emprego tinham um peso enorme em tão vasta correspondência.

O autor não esconde que percorre estes itinerários com minas e armadilhas. Poderá estar muito bem-intencionado quando escreve “Impõe-se nutrir, com tolerância e pedagogia uma contracultura de censura do compadrio, tanto em público como em privado (e mesmo em família) – que desconstrua a tolerância que aquele (compadrio) ainda recebe nas ações individuais, sociais, políticas e económicas. Esta contracultura exige que sejamos críticos quando alguém muito próximo o faça, nos peça ou nos conte, lembrando que, por cada uma dessas ações, um português ou portuguesa, com menos acesso, terá ficado para trás, mergulhado em sentimento de injustiça.” Não sei se se trata de uma postura angelical, embora todos reconheçamos que o compadrio subverte a igualdade e que não é abonatório de um verdadeiro estado de direito.

O autor analisa diferentes dispositivos relacionais propícios ao compadrio, já falámos nas afinidades políticas, ele observa a fraternidade nas sociedades secretas, as amizades partidárias pesam imenso, ele conta a história publicada num livro de Isaltino Morais, presidente da Câmara Municipal de Oeiras, envolvendo um antigo dirigente do PSD e que procura dar ares de impoluto nas suas charlas televisivas: “Luís Marques Mendes pediu-me para o receber e disse-me que a saída de Marcelo Rebelo de Sousa da liderança do partido o tinha deixado fora da lista para as Europeias, em 1999, que antes julgava ser certa, tendo já contraído algumas despesas em Bruxelas. Percebi o seu nervosismo e não tive como não o ajudar. Fi-lo presidente da EIA (a entidade instituidora e gestora da Universidade Atlântica, de que a Câmara Municipal de Oeiras era acionista maioritária) quando, em 1999, me entrou no gabinete pedindo-me o cargo.” Em tempos passados, tornar público tal compadrio era letal para padrinho e afilhado, hoje é uma banalidade, padrinho e afilhado ficam indiferentes ao asco público. Dão-se exemplos de situações para contornar dificuldades: é o caso da utilização de moradas alheias para inscrição em escolas públicas. Quem lidera ou está no topo de uma instituição, à descarada favorece descendentes. E é referido o caso em que Jorge Braga de Macedo apoiou exposições da filha, o antigo ministro era presidente do Instituto de Investigação Científica Tropical; também é mencionada a Fundação EDP, em que Eduardo Catroga, presidente do Conselho Geral e de Supervisão, contratou uma sobrinha-neta – os exemplos abundam nos favorecimentos da descendência ou em nome da fraternidade.

O autor apresenta um manifesto pela superação do compadrio, vai anotando a multiplicidade de obstáculos que se põem à transparência e ao repúdio do favorecimento, diz mesmo que as alterações sociais e políticas não resolveram as nossas pobrezas. “Para sair deste ciclo crónico é preciso começar por reconhecer que existe uma desconexão entre o contrato social tal como este é percecionado no espaço público e a realidade da disponibilidade e da acessibilidade a bens comuns.” É assim que se instituem os canais alternativos à legitimidade, aproveita-se a proximidade para pedir a quem pode. Mostra com pertinência como as páginas de recrutamento de grandes empresas portuguesas são montadas com manhosas omissões que vão desde vagas de liderança a estágios ou candidaturas. E enfatiza também a insuficiente consciência coletiva, o que prevalece é o desenrascanço, custe o que custar. O compadrio não é uma fatalidade, é um contorcionismo em que as pessoas encontram toda a sorte de desculpas para pedir favores. E voltamos à desconexão – sabemos que o compadrio subverte a igualdade; sabemos que a igualdade é uma das referências do que consideramos justo, mas o que tem de ser tem muita força, combater o compadrio é um dever de cidadania que cabe aos outros, é bom ver escarrapachado nos jornais ou nas reportagens televisivas ou nas redes sociais a dimensão da cunha ou dos procedimentos corruptos, a nossa consciência ri-se desses apanhados, temos coisas indispensáveis a resolver na nossa vidinha e usamos o compadrio com toda a espécie de alívios da consciência. O importante, isto para não desanimarmos um alastramento do compadrio, é saber que há sociedades onde a cidadania e o estado de direito ajuízam muito mal estes compadres que tudo fazem para se amanhar na vida.

Um interessante ensaio para ver que há oportunidades para uma cultura de transparência em latitude e longitude.

 

 

Mário Beja Santos


segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Bruxelas, 22 de Outubro de 2023.













A palavra de ordem era "free, free Palestine; boycott Israel". Para esta gente, a última parte vem em primeiro lugar. O resto é fogo de vista.

 

                                                                                            João Tiago Proença





 



sábado, 21 de outubro de 2023

Um título mal-amanhado para uma eletrizante narrativa histórica.

 



 

Conspiração Nazi, por Brad Meltzer e Josh Mensch, Casa das Letras, 2023, é um belo exercício pedagógico sobre acontecimentos das Segunda Guerra Mundial com início no ataque japonês a Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941 e culminando com o falecimento do presidente Franklin Roosevelt em abril de 1945. Os dois autores têm créditos na ficção e na História e até nos argumentos para televisão. Esta narrativa aparece centrada num caso que ainda hoje não está historicamente comprovado: a existência de uma tentativa dos serviços secretos alemães para liquidarem no decurso da Conferência de Teerão (1943) os principais dirigentes dos EUA, URSS e Reino Unido. O que é verdadeiramente empolgante na obra, e não hesito em recomendá-la ao leitor interessado em conhecer os episódios fundamentais da Segunda Guerra Mundial entre 1941 e 1945 é a cadência dos acontecimentos, como Roosevelt, ciente do isolacionismo norte-americano, pretendia apoiar a Grã-Bretanha, a potência europeia que resistia às conquistas de Hitler; o Japão imperial, que assinara em 1940 o Pacto do Eixo com a Alemanha e com a Itália, pretendia conquistar espaço no continente asiático, os líderes militarias conceberam uma operação que trouxessem o confronto com os EUA e conceberam uma operação de destruição da frota naval norte-americana sediada em Pearl Harbor; em consequência deste triunfo japonês, Roosevelt passou a ter argumentos sólidos para entrar na guerra, o que trouxe enorme contentamento a Churchill, isto num tempo em que Hitler desencadeara, e até ao tempo com sucesso, a invasão da URSS; o mesmo Hitler vai cometer uma medida fatal, em 11 de dezembro declara guerra aos EUA, a guerra passa a ser efetivamente mundial.

E os autores vão estimulando o leitor com a concatenação dos factos: a reunião de Churchill e Roosevelt em Casablanca, em janeiro de 1943, aperta-se o cerco ao Eixo no Mediterrâneo, os dois lideres democráticos já falam em rendição incondicional das potências do Eixo; nesse mesmo mês, o Japão ainda goza de uma posição proeminente, depois de ter provocado o desastre em Pearl Harbor, conquistou Guam, Hong Kong, as Filipinas, as Índias Orientais holandesas, a Malásia, Singapura, a Birmânia e outros países do Pacífico ou antigos territórios europeus, mas nesta altura já têm dificuldades e nesse mesmo mês de janeiro de 1943 as tropas de Hitler sofrem um revés fatal, um exército inteiro sai derrotado em Estalinegrado. A narrativa vai intercalando factos relacionados com a presença da espionagem alemã no Irão, onde desde 1941 estão presentes a Grã-Bretanha e a URSS; é dentro desta intercalação de factos que o leitor vai tomando conhecimento de preparação do Holocausto, de como os serviços secretos norte-americanos liquidaram o almirante Isoroku Yamamoto, isto ao mesmo tempo que o agente alemão Franz Mayr, vivendo na clandestinidade, passa a ter um papel importante para os serviços em Berlim, ao tempo pensava-se em operações de sabotagem no Trans-Iraniano, cujos comboios transportavam ajudas para a URSS; é a vez da Itália baquear, é montada uma operação para libertar Mussolini, é encarregado dessa operação Otto Skorzeny, um êxito, o líder fascista ficará refém dos projetos alemães, que entretanto vão resistindo aos avanços em Itália, depois de terem dominado a Sicília; Roosevelt está empenhado em conhecer pessoalmente Estaline, troca farta correspondência com o ditador soviético, este vai atrasando o encontro justificando-se pela necessidade premente de estar a conduzir a guerra contra os alemães, mas depois de várias propostas para o local de encontro opta-se por Teerão, Churchill comparecerá à conferência, vamos, entretanto, tomando conhecimento da vida aventurosa que a espionagem alemã tem em Teerão até à prisão de Mayr. Restam dúvidas se Skorzeny tenha sido nomeado por Hitler para a Operação Anton, destinada a lançar paraquedistas nas regiões tribais no Norte do Irão, muito mais tarde, Skorzeny negará tal nomeação; vamos igualmente acompanhando os encontros entre Churchill e Roosevelt, Estaline vai pedindo insistentemente que se abra uma segunda frente, ele considera secundária a frente italiana, exige aos seus parceiros a abertura de uma frente esmagadora a partir do Norte da França, Churchill está profundamente reticente; como num bom romance de espionagem vamos assistindo ao desmantelamento do grupo de espionagem alemã em Teerão, Roosevelt viaja para o Egito e depois ruma para Teerão, estamos em novembro de 1943; vamos ter agora as peripécias do encontro, a notícia dada pelos serviços secretos soviéticos de que os três líderes correm perigo de vida e como Roosevelt aceita ficar num espaço da embaixada da URSS em Teerão, iremos assistir aos confrontos verbais, à tomada de decisão da abertura da segunda frente, à festa do aniversário de Churchill em 30 de novembro, Roosevelt está satisfeito com os resultados da conferência, regressa aos EUA, depois a imprensa irá falar na descoberta soviética de uma conspiração, segue-se o desembarque da Normandia, e antes de Hitler se suicidar no bunker em Berlim, em 30 de abril de 1945, Churchill falece a 12 de abril.

Reconheça-se a honestidade dos autores em revelarem que a investigação é inconclusiva quanto aos fundamentos da conspiração nazi. Uma das paranoias do ditador soviético era sentir-se ameaçado por tentativas de assassinato, tanto assim é que quando sai de Moscovo para a Conferência de Potsdam (o presidente dos EUA é então Truman) as medidas de segurança tomadas ultrapassam o delírio, milhares e milhares de militares soviéticos estão de vigilância na linha de caminho de ferro. Porque uma das teses de explicação para a alegada denúncia da conspiração nazi pelos soviéticos era de que Estaline não só preservava a sua máxima segurança como pretenderia escutar secretamente Roosevelt durante o encontro, espalhando escutas pelas instalações ocupadas pelos norte-americanos. Nada fica demonstrado e, francamente, o que mais apraz enaltecer é a admirável capacidade narrativa dos dois autores que permitem a leigos embrenharem-se nos bastidores e no palco iluminado da Segunda Guerra Mundial, particularmente no relacionamento entre Roosevelt, Estaline e Churchill que, por obra do acaso, se encontraram em finais de novembro de 1943 em Teerão e acordaram a decisiva etapa seguinte de criar uma tenaz para esmagar o poderoso exército alemão, conduzindo o nazismo ao colapso, tal como aconteceu. Quanto à conspiração nazi montada em Berlim e desenvolvida em Teerão, não passa de uma conjetura, habilidosamente trabalhada por dois autores exímios em dominar a técnica do best Zeller e de nos oferecer uma leitura absorvente, sem tirar nem pôr.


                                                                                        Mário Beja Santos





quinta-feira, 19 de outubro de 2023

São Cristóvão pela Europa (239).

 

 

Termino hoje a volta pelo Distrito de Klagenfurt-Land.

Em Ludmannsdorf, a Igreja de Santiago Maior possui um mural representando São Cristóvão que data de 1523.

 


 

Em Selkach, situa-se a Igreja de São Leonardo, construída em 1638. Possui um fresco datado de 1950 e da autoria de Ferdinand Jerina:

 



Em Pörtschach, junto ao lago Wörthersee, um mural do nosso Santo no número 201 da Haupstrasse, numa loja de fósseis e pedras preciosas. A inscrição Werzer 1751 refere-se ao nome pelo qual o local é conhecido.

 


 

Finalmente em Ebenfeld, a Igreja de São Vito tem não só um mural como uma pequena imagem num nicho:

 




  

                                                                             Fotografias de 1 e 2 de Agosto de 2023.

 

                                                                                                    José Liberato