terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Ericeira, 1945.

 
 
   
Praia dos Pescadores, Ericeira

 


 
(…) a maioria dos portugueses, aos quais nos ligavam laços tão estreitos, festejava com razão o fim da guerra. Contavam com a substituição de Salazar e do seu regime. Quem podia imaginar que os governos anglo-saxónicos tinham acordado entre eles um modus vivendi com os poderes de Portugal e Espanha, já prevendo conflitos futuros com o Leste?
         Para a maior parte dos residentes forçados da Ericeira tudo isto quase passava despercebido, na excitação da partida que se aproximava. Para onde ir? – Era a principal preocupação. Só para os raros “políticos” havia algo de mais importante. Durante pouco tempo, os naufragados em Portugal tiveram a liberdade de escolher o seu destino. A situação na Europa ainda não permitia, ou então só escassamente, que fossem utilizadas as quotas de imigração do outro lado do Atlântico. Por isso, as portas dos EUA, do Canadá, da Austrália e de outros países vistos como países de sonho, estavam abertas temporariamente aos refugiados acolhidos em Portugal, excepto a alguns de esquerda. Muitos aproveitaram a oportunidade. Como marxista convicto e empenhado sempre quisera regressar a Berlim e tudo fizera para ficar na Europa, mesmo que fosse neste ponto extremo. Quanto a isso, não tinha mudado de ideia, apesar de todos os actos inconcebíveis que os alemães tinham cometido contra outros seres humanos. Pelo contrário, eu continuava a ser de opinião de que uma Alemanha demasiado forte e promissora quanto ao poder económica, à grandeza demográfica e capacidade em vários sectores, em circunstância alguma deveria ficar à mercê de homens incorrigíveis.
         Não demorou muito que a permanência forçada fosse levantada; só para mim, rebelde, é que não. Comigo ficava Selma Oppenheimer, de livre vontade. Se bem me recordo, seríamos os últimos refugiados a deixar a Ericeira. O resto de 1945 e até ao final do Verão de 1946 tentara, esforçadamente, junto dos Consulados da Grã-Bretanha e dos EUA, obter a autorização de regresso a Berlim. Como potências ocupantes estar eram as autoridades competentes na matéria. Tudo em vão, durante meses, e também para uma dúzia de outros que tinham a Alemanha em mira, entre eles Owczarzak ou o janota romeno Josipovici. Regressar à Alemanha era logo entendido por alguns como traição; até da parte de “quakers” tive de suportar insultos. Depois, a situação mundial anuviou-se e aos de esquerda, ou tidos como tal, eram abertamente levantados obstáculos. Alguns, também antigos combatentes de Espanha, conseguiram sair por outros meios, pois quem fosse politicamente de esquerda e quisesse regressar pelas vias oficiais tinha ainda de esperar um ano e meio. Perguntávamo-nos porquê esta demora?
         Só no fim do Verão de 1946 é que chegou a autorização dos aliados ocidentais para regressarmos. Em Agosto, recebi um telegrama do solícito vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, informando-me de que eu poderia embarcar para a Alemanha, juntamente com outros exilados, no navio americano “Marine Marlin”, até então ao serviço do transporte de tropas. Mais não era conhecido, apenas sabíamos por um impresso quanta bagagem podíamos levar e qual o cais em que nos devíamos encontrar para o embarque. Mandeu vir de Lisboa em grande baú de marinheiro, de rija madeira, reforçada a aço. Últimas compras no senhor Caré, o dono da principal mercearia da Ericeira, de que eu era velho freguês. Prevendo a escassez de víveres que, por certo, havia na Alemanha vencida, comprei, experiente como era, toucinho salgado, azeite, margarina em latas, óleo de fígado de bacalhau, enchidos fumados, açúcar, leite em pó, chocolate, café, chá, cigarros, alguns medicamentos e outros artigos.
         Neste navio-transporte americano eram deportados para a Alemanha diplomatas nazis e o seu pessoal de segurança das SS. No meio deles, nós, judeus! Já não pudemos sair do barco. Assim navegámos até Bremerhaven. Dali seguimos, juntamente com os nazis – alguns deles gravemente incriminados –, num comboio de mercadorias adaptado ao transporte de prisioneiros e cercado por arame farpado. O nosso destino: o campo de internamento americano de Hohenasperg, próximo de Stuttgart. Só decorridos alguns dias, em que ameaçámos com a greve de fome. É que nós, antifascistas, fomos postos em liberdade…
 
Fritz Teppich

 

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