quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Memórias Perdidas - 10







         Nesta rubrica «Memórias Perdidas» tem-se falado, regra geral, de testemunhos de pessoas comuns, que não se destacaram publicamente pelo que tenham feito em vida. Não é bem o caso de Memorial de Dom Quixote, do embaixador Eduardo Brazão, publicado em 1976 pela Coimbra Editora, Limitada. A capa, pavorosa.
         O livro, aliás, é bastante conhecido, sobretudo entre os historiadores e, mais ainda, entre os historiadores que estudam as relações entre Portugal e a Santa Sé. O autor, por sua vez, é detentor de uma vastíssima bibliografia sobre história diplomática, pelo que não será grande novidade falar deste Memorial de Dom Quixote. Deixa-se a nota, em todo o caso, dado tratar-se de uma obra que bem justificaria ser reeditada, sendo hoje uma raridade de alfarrabista – o que é pena, atendendo ao sem-fim de livros idiotas que se publicam actualmente, a uma cadência impressionante, sobre Salazar e o Estado Novo. Não sei como nem por que meios, em 2014 o livro foi alvo de uma reedição que se vende na Amazon, aqui, mas julgo que não deu entrada nas nossas livrarias – pelo menos, não o vi.
         Filho do actor de teatro Eduaardo Brazão (cujas «memórias», aliás, compilou), Eduardo Brazão (1907-1987) foi diplomata e homem de letras. Por vezes, a sua inclinação para as letras – ou, melhor dizendo, para os estudos de história diplomática, amplamente documentados – sobrepôs-se à vocação de representante de Portugal noutros países. Bibliófilo voraz, logo nas primeiras páginas de Memorial de Dom Quixote Eduardo Brazão lamenta a perda da sua magnífica livraria, uma parte afectada pelas cheias, outra por larápios da Cidade Eterna.
         É Roma que se constitui como o centro da obra, narrando o autor-embaixador as sucessivas vezes que por lá passou. A dado passo, curiosamente, Brazão diz não apreciar muito a capital italiana, mas talvez essa sua afirmação não seja para levar a sério. Como aqueloutra em que manifesta algum distanciamento face ao fascínio que a aristocracia exerce, citando Almada Negreiros («Nem nobre, nem plebeu, sou eu») e Alfredo Pimenta («Antes ser que descender»). Ora, em todo o livro, página sim, página não, são desfiados nomes da altíssima aristocracia romana, os seus esplendorosos palácios, a sua convivência profana com os príncipes do Vaticano. E é visível (logo na imagem da contracapa, por ex.) o orgulho com que Brazão exibia as suas condecorações e troféus da exclusivíssima Ordem de Malta.
         Tendo feito o liceu no colégio dos jesuítas em La Guardia, na Galiza, uma opção típica em muitos jovens das classes abastadas do seu tempo, Eduardo Brazão cursa Direito em Lisboa, mas o fascínio da História e das Letras é mais forte do que a vocação jurídica. Cedo se associa aos círculos da boémia literata de Lisboa, bem como a personalidades marcantes da nossa vida cultural: Teixeira de Pascoaes, Afonso Lopes Vieira, Caetano Beirão, João Ameal, Mário Beirão, Hipólito Raposo, Alberto de Monsaraz, Manuel Múrias, Almada Negreiros, António Pedro e Francisco da Cunha Leão. Tudo gente «das direitas», ou por lá perto. Uma excepção curiosíssima: entre os amigos, Álvaro Cunhal, de quem Eduardo Brazão dizia conservar um lindo projecto de vitral, assinado pelo autor, representando Nossa Senhora com o Menino Jesus ao colo!
         Data de 1925 a primeira vez que foi a Itália, regressando a Roma e, 1941, como bolseiro do Instituto de Alta Cultura. Depois, voltaria mais vezes, sempre cada vez mais alto na hierarquia dos Negócios Estrangeiros. Uma certa ideia de «casta», a par da narrativa dos mexericos das Necessidades, são características patentes na visão do mundo de Eduardo Brazão. O livro, aliás, é uma excelente anatomia do corpo diplomático, ontem como hoje.
         Salazarista convicto, Brazão terá sido próximo do Presidente do Conselho. Em diversos momentos, relata, em discurso directo, conversas tidas com o ditador. Se são verdadeiras ou falsas, cabe aos historiadores indagar. Mas que são interessantíssimas, são. Diz, por exemplo, que Salazar considerou ser um erro histórico tremendo de Mussolini ter envolvido a Itália na guerra. Isto ter-se-á passado em 1940, cinco anos antes de Brazão ter assumido o posto de segundo secretário da nossa Embaixada em Roma, naquela que foi a sua terceira passagem pela Cidade Eterna. Impressionou-o muito a devastação de Itália, mas não se vivia mal. Pagos em dólares, os diplomatas portugueses obtinham avultadas quantias em liras no câmbio do mercado negro. Por ordem do embaixador, era o jovem Brazão quem tratava deste obscuro negócio, feito nas traseiras da sumptuosa loja Bulgari, na Via Condotti. A troca era feita com um dos patrões gregos da Bulgari, e permitia ao pessoal diplomático viver à grande num país em escombros. Brazão, animado pela paixão bibliófila, frequentava os leilões de livros, como um, memorável, onde arrematou uma peça ou outra da biblioteca do antigo chanceler do Império alemão, o príncipe Berhard Bülow.
         Não se pense, porém, que este livro é um repertório de mundanidades frívolas. Por exemplo, Brazão conta ao pormenor os rituais diplomáticos do Vaticano, a hora solene em que apresentou credenciais ao Papa Paulo VI. E, mais tarde, o tempo de brasa em que teve de gerir a crise suscitada pela audiência concedida por Paulo VI aos líderes dos três movimentos de libertação, já no consulado de Marcello Caetano. Que a Santa Sé de há muito considerava insustentável a política portuguesa em África é algo que se nota logo nas primeiras páginas do livro, onde também se refere o histórico atrito entre a Propaganda Fide e o Padroado português.   
         Para os que contestam o Acordo Ortográfico, muito interessantes as observações de Brazão a este propósito, dizendo que «é grave erro pensarmos em Portugal que continuamos a ser os mesmos de cá e de lá do Atlântico». O Brasil, segundo ele, manterá e desenvolverá a sua maneira de falar e de escrever – como todos os povos lusófonos, de resto –, indiferente a convenções firmadas em papel ou a tentativas infrutíferas de fixar, e impor, oficialmente uma ortografia comum. Isso foi patente aos olhos de Brazão nos múltiplos contactos que teve com os seus homólogos brasileiros, entre os quais o grande Maurício Nabuco, autor de um livro cujo título diz tudo: Drinkologia. Receitas de cocktails, ilustradas – note-se – por desenhos do pintor Giorgio De Chirico.
         De permeio, histórias deliciosas, de Roma e Lisboa. No Chiado, à porta da Bertrand, Alberto Oliveira comentava com um amigo a nomeação de alguém para um alto cargo internacional; tendo dito que se tratava de uma nulidade para o posto invejado, observou, indignado: «Não, isso não – para medíocres estamos cá nós!». Logo de seguida, uma sagaz reflexão de Brazão sobre a nossa diplomacia: «O perigo na carreira diplomática portuguesa é (…) o brilho excessivo, as evocações históricas dum passado morto, altamente prestigiado mas que só continuado nos poderia dar força e peso junto dos demais».
         Adiante. Pelo caminho, Brazão passa pelo local onde mataram e expuseram o cadáver de Mussolini e sua companheira, a Petacci. Sente-se horrorizado («ali estiveram ignobilmente expostos para que a multidão os contemplasse na miséria humana»). Atravessa a Suíça no caótico pós-guerra, país que o surpreende pela relojoeira organização: «os comboios chegam à hora marcada e os porteurs nas gares não nos insultam (…), não se vendo qualquer indício de pobreza nem de desespero. Maravilhosa Suíça, ajuizado país!». Só lamenta os preços: «o custo de vida é no entanto altíssimo». Passando por França, insurge-se contra os jornais que condenavam a comutação de pena de morte aplicada ao marechal Pétain («por aqui está tudo bolchevizado, amoralizado»). Depois, Espanha, onde Brazão enaltece Franco, defendendo-o dos seus inúmeros inimigos. «Por toda a parte atira-se a Franco como um cão raivoso», diz; e, no entanto, em Espanha via-se «tudo tão em ordem, cores tão garridas, mulheres tão vistosas… e bom pão, vinho forte, comida farta no pequeno restaurante da Alfândega!». «Tudo isto que foi conseguido com inteligência e prudência não será destruído dentro de pouco tempo?», interroga-se o diplomata luso.
         Chegado a Lisboa, avista-se com Salazar, a quem conta os horrores da Europa devastada. Respondeu o chefe do governo: «todos os que vêm do estrangeiro trazem as mesmas impressões sobre as terríveis consequências desta guerra que terminou. Era preciso que aqui se soubesse melhor». Em face disto, Brazão apresenta uma proposta ingénua: «Porque não manda V. Exª, pagos pelo Estado, grupos de recalcitrantes a ver o estado dos países que não souberam libertar-se da guerra?». Salazar riu-se ante a candura do seu diplomata.
Brazão encontrar-se-á pouco depois com D. Duarte Nuno, numa conversa em que este lhe diz apoiar «incondicionalmente Salazar» e não ambicionar o poder em Portugal. Salazar, em contrapartida. Lamentava o escasso apoio dos monárquicos ao Estado Novo…
         Num breve interregno da sua carreira diplomática, Brazão trabalhará no Secretariado Nacional de Informação (SNI), experiência que detestou, pelo ambiente de intriga aí vivido. O diplomata não era «dos deles», pertencia a outra casta, do mesmo modo que, assevera Brazão, António Ferro nunca foi amado nas Necessidades nem foi feliz como diplomata em Berna e em Roma. Na capital italiana, organizou um dia um desfile de trajes tradicionais portugueses, em que cada qual ia identificado pela sua região de origem: algarvio, transmontano, minhoto e por aí fora. Acontece que «minhota» era a expressão em italiano para mulheres da vida, facto que motivou uma senhora, algo desinformada, a exclamar: «Então em Portugal as prostitutas são obrigadas a vestir um uniforme?»
         O livro está repleto de histórias como esta, bem como de observações sobre personalidades com quem Brazão se encontrava, como Jacques Maritain (na altura, embaixador de França em Itália e feroz anticomunista), Giulio Andreotti, que Brazão classifica como «um dos políticos mais honestos e sãos da Democracia Cristã» (!), o general De Gaulle, o príncipe Rainier e Grace do Mónaco («ainda mais actriz de cinema que Princesa – há situações que não se aprendem ao espelho», diz, com um laivo de snobismo, o filho do actor de teatro Eduardo Brazão…). Bizarra, no mínimo, era a inclinação de Sukarno, da Indonésia, por meninas jovens. Conta Brazão que, ao chegar a Portugal, Sukarno terá pedido ao Protocolo «que lhe enviasse meninas, muitas meninas impúberes pois na sua vasta colecção não conhecia mulheres portuguesas!». Ao saber do facto, Salazar ficou incrédulo. Só faltava acrescentar que, segundo Brazão, quando passara em Itália o presidente Sukarno pretendeu, a todo o custo, conhecer intimamente Gina Lollobrigida…
         Em Roma, Brazão teve de lidar também com a pretensão de «uma megalómana» que se dizia filha bastarda de D. Carlos. A conhecida Maria Pia, imagine-se, ser-lhe-ia apresentada num cocktail na Embaixada do Líbano por… Agostino Casaroli. Os meandros do Vaticano são insondáveis. Noutra ocasião, Brazão apontava Roncalli como futuro Papa, sucessor de Pio XII, ao que um seu colega da embaixada portuguesa replicou, cortante: «ora, ora, esse conheci em Ankara, não vale dois caracóis!...». Seia eleito Papa, tomando o nome de João XXIII.
         Brazão não o conheceu bem, ao contrário de Montini, futuro Paulo VI, de quem era amigo há muitos anos – o que tornou ainda mais difícil a gestão da «crise» aberta pela audiência aos líderes africanos, que o autor do Memorial de Dom Quixote classifica, à maneira da época, como «terroristas».
         Porém, nem tudo foram espinhos na sua passagem por Roma, aqui retratada a traços muito largos. A dada altura, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Marcello Mathias, disse-lhe: «Meu caro Brazão, Roma é uma terra maravilhosa, cheia de lindas mulheres. Distraia-se… e não me mande mais problemas para eu resolver!...». Dom Quixote não se fez rogado, À tarde, ao chegar à Cancelaria, mandou reunir todo o pessoal e decretou que, dali em diante, só se trabalharia na parte da manhã. Tardes livres, dolce fare niente, em gozo de Roma e dos seus encantos.
 
 
António Araújo       
 
 
 

        

4 comentários:

  1. Prezado Doutor António Araújo,
    Com a devida vénia, permita-me levar duas achegas ao seu admirável resumo das admiráveis memórias de Eduardo Brazão.
    Quanto ao caso de Sukarno, contou-me o meu velho amigo Pedro Pinto Corte-Real, ao tempo chefe de protocolo do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que foi ele que levou a Salazar o pedido lúbrico e muliébrico do Presidente da Indonésia, em viagem oficial a Portugal. Salazar respondeu taxativamente que, se Sukarno queria um harém, tinha de sair imediatamente do alojamento provido pelo Estado Português e alojar-se por conta própria. Sukarno aceitou a proposta e conseguiu na pudica Lisboa o que o
    Conde de Almaviva de "Le Mariage de Figaro" de Beaumarchais não conseguiu na libertina Andaluzia.
    Pelo que se refere ao conselho que o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Marcello Mathias, deu a Eduardo Brazão, contou-me uma vez José Calvet de Magalhães que, estando ele de Embaixador no Vaticano, a seguir ao 25 de Abril lhe chegavam quase todas as semanas novos funcionários, que ele não solicitara nem precisava. Ao perguntar-lhes, no final de uma longa entrevista, se pelo menos sabiam escrever à máquina, e obtendo resposta negativa, propunha-lhes mais ou menos o seguinte: - Olhe, meu senhor (minha senhora), como Roma é um manacial incomparável de grande arte, aproveite esta oportunidade única para se enriquecer culturalmente.

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  2. Pela sua recensão, parece ser mesmo uma excelente pérola caro António!!!!!

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    1. Obrigado, António Cirurgião e Camisa por estas palavras tão amáveis

      Cordialmente,

      António Araújo

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