sábado, 23 de dezembro de 2017

My little panda.

 
 
 

Fotografia de António Araújo

 
Por não o ter tomado em pequeno, gosto de chá. E, num curso que fiz recentemente no Jardim Botânico da Ajuda, iniciativa dos Amigos do Jardim, confirmei – graças à sabedoria da Carla e do Duarte Côrte-Real – o gosto por tudo quanto brota da Camellia sinensis. Aprendi, o que não sabia, que os Açores são a única região da Europa onde se produz chá, fruto da camellia e do trabalho do homem – e da acção esclarecida da Gorreana, chás verdes e pretos, lda. Mas bom, mesmo bom, é, no meu modesto paladar e entender, o chá branco, de todas as subespécies. A Carla e o Duarte, benfeitores, deram-me a provar um excelente chá branco Pai Mu Tan, cujo aroma floral achei muito louvável.    
Infusão excelsa que nunca provei, e tenho pena, é o mítico chá Panda Dung. Vejamos o que sobre ele diz Yuval Noah Harari, no livro Homo Deus. História Breve do Amanhã, que, como é um livro que fala de tudo, também fala do chá Panda Dung:
 
Um dia apercebo-me de que, entre o açúcar e o jornal, nem chego a saborear o chá. Então reduzo a quantidade de açúcar, ponho o jornal de lado, fecho os olhos e concentro-me no chá. Começo por registar o aroma e o sabor únicos. Passado pouco tempo, dou por mim a experimentar outros chás, preto ou verde, cotejando os seus travos requintados e os seus aromas delicados. Ao fim de poucos meses, deixo de comprar os chás e supermercado e começo a comprar na Harrods. Desenvolvo um gosto especial pelo chá «Panda Dung» com origem nas montanhas de Ya’an na província de Sichuan, feito a partir de folhas de chá de arbustos fertilizados com o estrume dos pandas. É assim que aos poucos me torno um especialista em chá. Se no início da minha experiência com o chá me tivessem servido «Panda Dung» numa chávena de porcelana da Dinastia Mingam não teria sido capaz de o apreciar mais do que um  chá barato servido num copo de plástico. Não se pode vivenciar algo sem a necessária sensibilidade e só é possível desenvolver essa sensibilidade através de uma longa série de experiências.
 
Pois eu, ao contrário do refinado sr. Harari, não tenho sensibilidade nem experiência nenhuma em matéria de chás e outras infusões. Menos ainda, sou adepto ou converso do Cháismo, de que nos fala Kakuzo Okakura (1862-1913) no encantador e supremo livrinho O Livro do Chá, por cá publicado pela Cotovia. Mas gosto de pandas, muito. Foi com deleite que soube, no passado mês de Outubro, que um programa de reprodução de pandas provocou um baby boom de 36 filhotes pandinhas, incluindo 15 pares de gémeos. Isto passou-se na província de Sichuan, no sudoeste da China, no mesmo lugar onde se cultiva o chá Panda Dung. Só ao fim de seis semanas de vida é que os pandinhas abrem os olhos, e só começam a andar aos três meses. Há muitas histórias sobre a sexualidade dos pandas, pelo que o The Guardian, oportuno, fez uma extensa investigação sobre esta situação incómoda, respondendo a todas as dúvidas e inquietações de todos quantos não dormem a pensar no tema da sexualidade dos pandinhas. Outro tema que causa espécie a muita gente humana é o da cor dos pandas, e ainda se anda a estudar por que é que os pandas são a preto e branco, o como a televisão do antigamente.
A porcaria dos pandas não serve apenas para fazer chá vendido a preços astronómicos. É também uma importante fonte de informação sobre a dieta dos bichos, como nos conta Henry Nicholls no melhor livro que já li sobre pandas e que tem por título The Way of Panda. The Curious History of China's Political Animal (recensão aqui). O livro anda muito à volta doutra questão recorrente nas conversas de pandas: o uso do panda como instrumento diplomático. Ainda há pouco, na sua edição de 16 de Outubro, o parisiense Le Monde trazia uma bela e esclarecedora infografia sobre essa questão dos pandas como arma geopolítica de longo alcance (aqui, para assinantes). E também não há muito surgiu a notícia que  os flamengos contestaram a oferta de um par de pandas, que a China fez ao um zoo da Valónia, perto de Mons. Que os pandas comem muito bambu, isso é outra verdade. Que fazem muita porcaria com o que ingerem e digerem, isso é também uma verdade que até posso confirmar a olhos bem abertos. Explico: uma vez estava em Viena de Áustria com as miúdas-panditas e fomos ver os pandas ao zoo. Já antes tinha tentado ver os pandas gigantes no zoo de Londres, com a Leonor, e até falei disso aqui no Malomil, ainda que a propósito de pinguins, outro bicho muito lindo. Pois no zoo de Viena o que mais impressionou os visitantes – eu e as gémeas – foi a dimensão e a quantidade da porcaria dos pandas. A ser assim no seu habitat natural, deve abundar o adubo para o Panda Dung. O que não abunda são os pandas, coitaditos, pelo que se compreende o preço astronómico daquele chá, que nunca provei mas o Harari já; custa 46 mil libras o quilograma (o que dá 140 libras por chávena...). Estima-se que haja apenas 1600 pandas em liberdade. Os restantes, cerca de 300, encontram-se em cativeiro. Mas, aleluia!, o panda gigante já não está em extinção, tendo sido passado à categoria de «vulnerável» na lista de 2016 da União Internacional para  Conservação da Natureza. Nos últimos dez anos, houve um crescimento de 17% do número de pandas no seu habitat natural, que também cresceu uns 12% . It’s a wonderful world.
Bom Natal e Feliz Ano Novo.
 
António Araújo


 



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